Evangelho do décimo quinto domingo depois de Pentecostes: “Ninguém pode servir a dois senhores”, que se divide em três partes.
Primeiramente, o tema do sermão é a Paixão de Jesus Cristo e a formação da nossa vida segundo o exemplo de sua vida, naquele trecho: “O anjo Rafael”.
[Da primeira parte]. Também sobre as duas partes da alma, naquele trecho: “Ninguém pode”.
Também sobre o domínio da razão e da sensualidade, naquele trecho: “Deus concedeu graça a Tobias”; e naquele trecho: “Morto Salmanasar”; e, no mesmo ponto, sobre a natureza do castor.
Também sobre o testamento do amor de Deus, naquele trecho: “Todos os dias da tua vida”.
[Da segunda parte]. O tema do sermão é contra a preocupação com as coisas temporais, naquele trecho: “Digo-vos: não vos preocupeis”; e naquele trecho: “Ciro, querendo”.
Também aos contemplativos, naquele trecho: “Considerai as aves do céu”; e naquele trecho: “Tobias era da tribo”; e, no mesmo ponto, sobre a natureza das aves.
Também contra os amantes da vaidade, naquele trecho: “Vi os que praticam a iniquidade”.
Também sobre o desprezo do mundo e a contemplação de Deus, naquele trecho: “Por mim, se alguém entrar”.
Também sobre as três coisas que há nos lírios e seu significado, naquele trecho: “Considerai os lírios do campo”.
Também contra os sábios deste mundo, naquele trecho: “Digo-vos que nem Salomão”.
[Da terceira parte]. O tema do sermão é a tríplice Jerusalém e sua tríplice estrutura, naquele trecho: “As portas de Jerusalém são de safira”.
1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24).
Lê-se no livro de Tobias que o anjo Rafael disse a Tobias: “Desventra o peixe, e reserva para ti o seu coração, o fel e o fígado; pois são necessários para medicamentos úteis” (Tb 6,5). Vejamos o que significam o peixe, o seu coração, o fel e o fígado. O peixe é Cristo, que diz a Pedro no Evangelho de Mateus: “Vai ao mar, lança o anzol e toma o primeiro peixe que subir; e, abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o e dá-o por mim e por ti” (Mt 17,26). O peixe é Cristo, que permaneceu neste mar grande e espaçoso; ele foi o primeiro a subir, isto é, ofereceu-se à morte pela nossa redenção, para que aquilo que fosse encontrado em sua boca, isto é, na confissão, fosse dado por Pedro e pelo Senhor. E, com razão, o mesmo preço foi pago, mas dividido, porque por Pedro foi dado como por um pecador, enquanto o Senhor não cometeu pecado. Chama-se estáter a moeda que contém dois didracmas, para que se mostrasse a semelhança da carne (cf. Rm 8,3), visto que o Senhor e o servo foram libertados pelo mesmo preço. Ou então, o estáter na boca de Cristo é a misericórdia e a justiça: a misericórdia, quando disse: “Vinde a mim, todos vós que trabalhais e estais oprimidos” (Mt 11,28); a justiça, quando dirá: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41).
Desventra, pois, este peixe, isto é, considera diligentemente a própria vida de Cristo, e encontrarás nela o coração, o fel e o fígado. Com o coração compreendemos, com o fel nos iramos, e com o fígado amamos. No coração é designada a sabedoria; no fel, a amargura; e no fígado, o amor de Jesus Cristo. Com o sabor da sabedoria, que “atinge com força de um extremo ao outro e dispõe todas as coisas suavemente” (Sb 8,1), tempera a tua insipidez; mistura a amargura de sua Paixão à tua doçura; coloca o seu amor acima de todo amor, pois, sem o seu amor, este não deve ser chamado amor, mas dor. Estes são os medicamentos úteis para a tua alma; se os reservares para ti, serás servo não do diabo, mas de Deus; não da carne, mas do espírito; não do mundo, mas do céu.
A sabedoria de Cristo destrói o domínio do diabo. Por isso, Jó: “A sua sabedoria feriu o soberbo” (Jó 26,12). O antigo inimigo foi ferido não pela força, mas pela sabedoria, porque, ao atacar temerariamente Cristo, em quem nada lhe dizia respeito, perdeu justamente o homem que, como que por direito, mantinha cativo.
A amargura da própria Paixão submete o apetite da carne. Por isso, alguém disse: A memória do Crucificado crucifica os vícios. Sobre isso, procura no Evangelho: “Um cego estava sentado” (“Domingo da Quinquagésima”).
Do mesmo modo, a teriaga do seu amor expulsa o veneno das riquezas. Por isso se diz no mesmo livro de Tobias que “a sua fumaça”, isto é, a devoção do seu amor, “expulsa toda espécie de demônios” (Tb 6,8), isto é, das riquezas, que, como demônios, dilaceram e afligem os homens. Todos os ricos deste mundo são como endemoninhados, correndo de um lado para outro, servindo não ao verdadeiro senhor, mas ao falso. Deles se diz no Evangelho de hoje: “Ninguém pode servir a dois senhores”.
2. Observa que queremos dividir o Evangelho de hoje em três partes. A primeira é: “Ninguém pode”. A segunda: “Digo-vos: não vos preocupeis”. A terceira: “Buscai primeiro o reino de Deus”. A primeira trata dos dois senhores. A segunda expulsa a preocupação. A terceira ordena que se busque antes de tudo o reino de Deus. Observa também que, neste terceiro domingo de setembro, lê-se na Igreja o livro de Tobias, do qual queremos introduzir algumas autoridades e fazê-las concordar com as partes do Evangelho.
No introito da missa de hoje canta-se: “Tende piedade de mim, Senhor”. E lê-se a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Gálatas: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”, que queremos dividir em três partes e fazer concordar com as mencionadas partes do Evangelho. A primeira parte: “Se vivemos pelo Espírito”. A segunda: “Carregai os fardos uns dos outros”. A terceira: “Quem semeia no Espírito” etc.
E observa atentamente que esta epístola é lida com este Evangelho porque o Senhor, no Evangelho, proíbe a preocupação da alma, isto é, da animalidade; ensina a buscar o reino de Deus; e Paulo, na epístola, ensina a viver segundo o espírito, a semear não na carne, mas no espírito, pois quem semeia no espírito colherá a vida eterna.
3. Digamos, portanto: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará um e amará o outro, ou suportará um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6,24). Observa que a alma tem duas faculdades, a saber, a razão e a sensualidade, que são como dois senhores. Sobre o domínio da razão, diz Isaac no Gênesis: “Constituí-o teu senhor e submeti todos os seus irmãos ao seu serviço” (Gn 27,37). Isso acontece quando a própria vontade e os sentidos do corpo são submetidos ao domínio da razão. Por isso, novamente, Jacó diz de Judá no mesmo livro: “Ligando à vinha o seu jumentinho e à videira, meu filho, a jumenta” (Gn 49,11). Judá é o penitente; a vinha, a razão; a videira, a compunção; a jumenta, a sensualidade; o jumentinho, os seus impulsos. Judá, portanto, liga a jumenta à videira e o jumentinho à vinha quando o penitente submete a sensualidade do coração pela compunção e oprime os seus impulsos sob o jugo da razão.
Também tens isto no mesmo Gênesis, onde José diz a seus irmãos: “Eu pensava que estávamos atando feixes no campo, e eis que o meu feixe se levantou e ficou de pé, enquanto os vossos feixes, ao redor, adoravam o meu. Seus irmãos responderam: Por acaso serás o nosso rei? Ou estaremos sujeitos ao teu domínio?” (Gn 37,7-8). O feixe é um conjunto de hastes, chamado manipulus em latim porque é tomado com a mão. José é o homem justo, cujo feixe é a razão; quando esta se ergue pelo desprezo das coisas temporais e permanece imóvel no alto da contemplação, então os feixes, isto é, os sentidos da carne, submetem-se ao seu domínio. Por isso, Isaac diz no Gênesis: “Sê o senhor de teus irmãos, e inclinem-se diante de ti os filhos de tua mãe” (Gn 27,29). Daí Isaías: “Virão a ti curvados os filhos daqueles que te humilharam, isto é, dos desejos carnais, e adorarão as pegadas de teus pés todos os que te insultavam” (Is 60,14).
Sobre o domínio da sensualidade, Moisés diz no Deuteronômio: “Porque não serviste ao Senhor, teu Deus, com alegria e júbilo do coração, por causa da abundância de todas as coisas, servirás ao teu inimigo, e ele imporá um jugo de ferro sobre o teu pescoço, até que te esmague” (Dt 28,47.48). Porque Adão não quis servir ao seu superior, por isso o seu inferior não quis servi-lo; antes, ele mesmo serviu ao seu inimigo, isto é, ao diabo ou à sua carne, contra a qual não há inimigo mais eficaz para causar dano; e o seu jugo de ferro, isto é, a sensualidade ou carnalidade, foi colocado sobre o pescoço da razão. Por isso diz o Eclesiástico: “Que jugo pesado sobre os filhos de Adão, desde o dia do nascimento!” (Eclo 40,1). O jugo pesado sobre os filhos de Adão desde o dia do nascimento é o pecado original, isto é, o fomes do pecado, ou seja, a concupiscência, à qual, como diz Agostinho, não se deve permitir reinar. Há também os seus desejos, que são as concupiscências atuais, as quais são armas do diabo e provêm da enfermidade da natureza. Com efeito, essa enfermidade é um tirano que move os maus desejos. Queres ouvir quão pesado é o jugo sobre os filhos de Adão? Escuta o que está escrito nos Dogmas eclesiásticos: “Mantém firmissimamente e não duvides de modo algum que todo homem concebido pela união do homem e da mulher nasce com o pecado original, submetido à impiedade, sujeito à morte e, por isso, filho da ira por natureza” (cf. Ef 2,3), da qual ninguém é libertado senão pela fé no Mediador entre Deus e os homens.
4. Dicamus ergo: "Nemo potest duobus dominis servire." Super his duobus dominis habes concordantiam in libro Tobiae, ubi fit mentio de Salmanasar et Sennacherib: "Dedit", inquit, "Deus gratiam Tobiae in conspectu Salmanasar regis; et dedit ei potestatem quocumque vellet ire, habens libertatem quaecumque facere voluisset "(Tob 1,13-14). Salmanasar interpretatur pacificans angustiatos et significat rationem, quae, cum regnat, mentem angustiatam pacificat, conscientiam clarificat, cor indulcat, aspera mollificat, gravia alleviat. Cui si homo servit, gratiam invenit, liber fit, habens potestatem ire quocumque et facere quodcumque velit. O libera servitus et serva libertas! Non timor servum, non amor facit liberum, sed potius timor liberum et amor servum. Iusto non est lex posita (cf. 1Tim 1,9), quia, ipse sibi est lex (cf. Rom 2,14). Habet enim caritatem, vivit secundum rationem, et ideo vadit quo vult et facit quidquid vult. "Ego", inquit Propheta, "servus tuus et filius ancillae tuae "(Ps 115,16). Nota verba: servus et filius; quia servus ideo filius. O suavis timor, qui de servo facis filium! O benigne et verax amor, qui de filio facis servum! "Filius", inquit, "ancillae tuae." Inice ergo, o homo, si vis libertate frui, collum tuum in torques eius, et pedem tuum in compedes eius (cf. Eccli 6,25). Non est gaudium super gaudium libertatis, quam non potes assequi nisi collum elationis inclines in torquem humilitatis, et pedem carnalis affectus in compedem mortificationis. Et tunc poteris dicere: "Servus tuus sum ego" etc.
Item, in eodem libro dicitur quod, mortuo Salmanasar rege, Sennacherib regnavit pro eo, qui, cum filios Israel exosos haberet in conspectu suo, iussit Tobiam occidi, et tulit omnem substantiam eius. Tobias vero, cum filio suo et uxore fugiens, nudus latuit (cf. Tob 1,18.22-23). Sennacherib interpretatur tollens deserta et significat sensualitatem, idest carnis concupiscentiam, quae ab hominis mente tollit desertum poenitentiae. Haec non regnat nisi cum ratio moritur. Egressus enim virtutis ingressum vitii operatur. Concupiscentia exosos habet filios Israel, idest poenitentes, qui carnem suam crucifigunt cum vitiis et concupiscentiis (cf. Gal 5,24). Unde dicitur in Exodo: Oderant AEgyptii filios Israel (cf. Ex 1,13). Haec per suos satellites, corporis scilicet sensus, nititur spiritum interficere et ei omnem substantiam, idest virtutes, auferre; quae bene dicuntur substantia, quia faciunt hominem subsistere, ne cadat ab aeternis. Quas ut conservare valeat, necesse est ut, fugiens cum filio et uxore, nudus lateat.
Nota ista tria verba: fugiens, nudus, latuit. Vis carnis concupiscentiam evadere? Fuge. "Fugite", inquit, "fornicationem "(1Cor 6,18). Unde in Genesi de Ioseph dicitur quod, "relicto in manu dominae suae pallio, fugit, et egressus est foras "(Gen 39,12). Dimisit pallium, ne amitteret Deum. Dicitur in naturalibus quod illud animal, quod dicitur castor, habet testiculos medicinales ad paralysim tollendam, cuius rei gratia venatores eum insequuntur. Qui perpendens quod propter hoc se insequantur, illos sibi abscidit et insequentibus se proicit. Unde castor dicitur, quia seipsum castrat. Stultus autem homo e contrario facit, qui pro glandulis suis vilissimis, scilicet pro vilissima luxuria, se tradit diabolo. "Quasi a facie colubri," dicit Ecclesiasticus, "fuge peccata "(Eccli 21,2).
Item, nudus est qui nihil sibi sed totum Deo attribuit, qui se inter folia ficuum cum Adam non abscondit; qui pallio suae excusationis et alterius incusationis se non cooperit; qui ita nudum, sicut egressus est de utero matris suae, se cognoscit. Item, ille latet qui a tumultu saecularium et malarum cogitationum in conclavi conscientiae quietus residet.
Ille latet qui patienter iniuriam sustinet, qui inter adversa non murmurat, qui in prosperis non se exaltat.
Uxor et filius Tobiae sunt bona voluntas et bonum opus, quae ubicumque imus deferre nobiscum debemus. Unde in Matthaeo: "Accipe", inquit, "puerum", idest operis puritatem, "et matrem eius," idest bonam voluntatem, quae ipsum parturit, "et fuge in AEgyptum," idest recognosce te exulem et miserum, vel considera tenebras tuorum peccatorum, "et esto ibi usque dum dicam tibi "(Mt 2,13)"," idest cognosce te peccatorem; considera exilium tuum, usque ad illud tempus quo dicam tibi: "Surge, propera, amica mea, et veni. Iam enim hiems transiit, imber abiit et recessit "(Cant 2,10-11). Si ergo vis properare, oportet te Sennacherib fugere, rationi, non sensualitati, servire. Dicamus ergo: "Nemo potest duobus dominis servire."
5. Segue-se: “Ou odiará um e amará o outro; ou sustentará um e desprezará o outro”. Observa estas quatro palavras: amará e sustentará, odiará e desprezará. Se amas a vida, odeias a vida; se sustentas o superior, desprezas o inferior. E, ao contrário: ama a ti mesmo tal como te fez aquele que te amou; odeia a ti mesmo tal como tu mesmo te fizeste; sustenta o que há de superior em ti, despreza o que há de inferior. Ama a ti mesmo para aquilo para o qual te amou aquele que se entregou por ti; odeia a ti mesmo naquilo em que odiaste o que Deus fez e amou em ti. Isto é o que Tobias disse a seu filho: “Em todos os dias de tua vida, tem sempre Deus em mente e cuida para que jamais consintas no pecado e transgridas os mandamentos de nosso Deus” (Tb 4,6). Ó palavra mais doce que o mel e o favo de mel: “Tem sempre Deus em mente!” Ó mente, mais bem-aventurada que todo bem-aventurado, mais feliz que todo feliz, tu que tens Deus! Que te falta? O que te pode ser acrescentado? Tens tudo, porque tens aquele que fez todas as coisas, que sozinho te sacia, sem o qual tudo o que existe nada é. “Tem, portanto, sempre Deus em mente.”
Eis o testamento que Tobias deixou a seu filho, a herança que lhe legou: “Tem sempre”, diz ele, “Deus em mente”. Ó herança que possui tudo, feliz quem te possui, bem-aventurado quem te tem. Ó Deus, que posso dar para possuir-te? Pensas que, se eu der tudo, poderei ter-te? E por que preço posso ter-te? És mais sublime que o céu, mais profundo que o inferno, mais extenso que a terra e mais largo que o mar. Como poderá, pois, possuir-te um verme, um cão morto, uma pulga (cf. 1Rs 24,15), um filho do homem? Como diz Jó: “A prata não será pesada em troca dela, nem será comparada às pedras preciosas das Índias; não se igualará à mais preciosa pedra de sardônica nem à safira. Não se lhe poderá equiparar o ouro ou o vidro, nem serão permutados com ela vasos de ouro e de grande valor” (Jó 28,15-18). Ó Senhor Deus, não tenho essas coisas; que devo, então, dar para possuir-te? Dá-me a ti mesmo — responde — e eu te darei a mim mesmo. Dá-me a tua mente, e terás a mim em tua mente. Conserva para ti tudo o que é teu; dá-me somente a tua mente. Estou repleto de tuas palavras; não preciso de tuas obras: dá-me somente a tua mente. Observa que ele diz “sempre”. Queres ter sempre Deus em mente? Tem sempre a ti mesmo diante de ti. Onde está o olho, aí está a mente; mantém sempre o olhar em ti mesmo. Considera três coisas: a mente, o olho e tu mesmo. Deus está na mente, a mente está no olho, o olho está em ti. Portanto, se vês a ti mesmo, tens Deus em ti. Queres ter sempre Deus em mente? Sê tal como ele te fez. Não vás procurar outro tu mesmo. Não queiras fazer-te diferente daquele que ele te fez, e assim terás sempre Deus em mente.
Segue-se: “Não podeis servir a Deus e a mamona”. Aí diz a Glosa: Mamona, em língua síria, significa riquezas; servir às riquezas é negar a Deus. Não diz “ter”, o que é permitido, contanto que se faça bom uso delas, mas “servir”, o que é próprio do avarento. Diz-se que este é o nome do demônio que preside às riquezas: não porque elas estejam sob seu poder, mas porque ele se serve delas para enganar, prendendo com os laços das riquezas. Maldita mamona! Ai de mim, quantos religiosos cegou! Quantos monges enlouqueceu! Quantos seculares precipitou no inferno! Ela é o esterco de andorinhas que cegou os olhos de Tobias (cf. Tb 2,10-11). Sobre isso, procura no Evangelho: “Um cego estava sentado à beira do caminho” (“Domingo da Quinquagésima”).
6. À primeira cláusula do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola: “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito” (Gl 5,25). Nesta primeira parte, o Apóstolo reúne duas coisas: a razão, evidentemente, e a concupiscência da carne. Da razão provém que vivamos e caminhemos segundo o Espírito, isto é, mediante uma conduta espiritual; da concupiscência, porém, provém que sejamos “ávidos de vanglória, provocando-nos uns aos outros e invejando-nos uns aos outros” (cf. Gl 5,26). Do mesmo modo, da concupiscência da carne provém que alguém seja surpreendido em alguma falta (cf. Gl 6,1); da razão, porém, que os espirituais, isto é, os que usam a razão, corrijam o delinquente com espírito de mansidão, pois é próprio da razão, como foi dito, pacificar os angustiados.
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que infundas em nós a luz da tua graça, para que vivamos segundo a razão, submetamos a carne e cheguemos a ti, que és a vida. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos. Amém.
7. Segue-se a segunda parte: “Digo-vos: não vos preocupeis com o que haveis de comer, nem com o que haveis de vestir para o vosso corpo. Porventura a vossa alma não é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a veste? Considerai as aves do céu” (Mt 6,25-56) etc. Observa que nesta segunda cláusula se apresentam especialmente três coisas dignas de nota, a saber: as aves, os lírios e o feno. Tratemos de cada uma delas. “Digo-vos” que não vos deixeis afastar das coisas eternas pelo cuidado das coisas que nada são; “não vos preocupeis”, porque isto é servir às riquezas; “com a alma”, isto é, com a vossa animalidade, à qual são necessárias estas coisas, a saber, o alimento e a veste. Aí diz a Glosa: “Com o suor do rosto se prepara o pão”; isto é, o trabalho deve ser realizado, mas deve ser eliminada a preocupação, que perturba a mente, enquanto teme que as coisas possuídas pereçam ou que não se alcancem aquelas pelas quais se trabalha. “Porventura a vossa alma não é mais do que o alimento?” Aqui, alma é tomada por vida, que é sustentada pelo alimento. “Não é a alma?” Como se dissesse: aquele que deu as coisas maiores, isto é, a vida e o corpo, dará também as menores, isto é, o alimento e as vestes. Ninguém duvide dessas promessas da verdade; seja o homem aquilo que deve ser, e logo lhe serão acrescentadas todas as coisas, por causa das quais foram feitas. A preocupação distrai a mente; depois de distraída, divide-a; depois de dividida, o diabo a arrebata, e assim mata a alma.
Por isso se diz, nas histórias sobre a história de Daniel, que Ciro, querendo tomar a cidade de Babilônia, dividiu o Eufrates, longe da cidade, em vários canais, e tornou vadeável o leito que corria para a cidade. E por esse leito os inimigos entraram na cidade por baixo da muralha, e Baltasar foi morto. A cidade é a alma; o Eufrates, a mente do homem; o leito, a graça do Espírito Santo. Portanto, o diabo, querendo capturar a nossa alma, primeiro divide a mente em diversas preocupações, umas sob a aparência da própria necessidade, outras sob a aparência da caridade fraterna; e, enquanto assim a divide em várias direções, seca-se o leito da compunção; uma vez seco, a cidade é tomada e a razão é morta. “Digo-vos”, portanto, “não vos preocupeis”.
8. Segue-se: “Considerai as aves do céu, porque não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros, e vosso Pai celeste as alimenta” (Mt 6,26). As aves são os santos, suspensos no ar pelas asas da contemplação; estão tão afastados do mundo que já nada fazem nem trabalham na terra, mas vivem já no céu somente pela contemplação. Sobre isso tens uma concordância no livro de Tobias, onde se lê a respeito do próprio Tobias e de Ana, filha de Raguel, que foram como duas aves do céu. Sobre Tobias, assim se diz: “Tobias, da tribo e da cidade de Neftali, que está nas regiões superiores da Galileia, acima de Naasson, depois do caminho que conduz ao ocidente, tendo à sua esquerda a cidade de Sefet” (Tb 1,1). Tobias interpreta-se “bom do Senhor”; Neftali, “largura”; Galileia, “roda”; Naasson, “auspício”; Sefet, “letra” ou “beleza”.
Tobias é qualquer homem justo, que crê que o bem que há em si não é seu, mas do Senhor, dizendo com o Profeta: “Fizeste o bem ao teu servo, Senhor” (Sl 118,65); e com Isaías: “Realizaste todas as nossas obras, Senhor” (cf. Is 26,12). “Ele nos fez, e não nós” (Sl 99,3). Este bom Senhor é dito ser da tribo e da cidade de Neftali. Com efeito, é filho e cidadão da largura, isto é, da caridade. “Muito amplo”, diz ele, “é o teu mandamento” (Sl 118,96). Cristo estabeleceu um testamento para os filhos, a saber: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 15,12); e o justo, como filho, possui-o por direito hereditário e nele, como numa cidade, habita sempre. “Habitarei”, diz ele, “na herança do Senhor” (Eclo 24,11), porque “a minha herança é magnífica para mim” (Sl 15,6). E onde está esta cidade? “Nas regiões superiores”, diz ele, “da Galileia, acima de Naasson”. Observa a ave que voa para as alturas: “Eu”, diz o Senhor em João, “sou das alturas; vós, porém, sois de baixo” (Jo 8,23); vós percorreis a terra como uma roda — chama-se roda porque ruat, isto é, porque se precipita —, precipitais-vos de vício em vício. A cidade do homem justo, porém, do bom Senhor, não está nas regiões inferiores, mas nas superiores da Galileia, porque supera a roda do mundo, busca as coisas superiores e abandona as inferiores e volúveis. A sua cidade está acima de Naasson, porque auspicia as coisas superiores, isto é, contempla as coisas celestes. Eis como a história concorda admiravelmente com o Evangelho.
Auspício diz-se em latim augurium, como se fosse avigarrium ou avigerium, quando alguém observa o que as aves gorjeiam ou fazem. A ave é chamada avis, de a, que significa “sem”, e via, isto é, “sem caminho”, porque não tem um caminho certo. Com efeito, o homem contemplativo, quando voa para as alturas, não tem um caminho reto, porque a contemplação não está no arbítrio daquele que contempla, mas na disposição do Criador, que infunde a doçura da contemplação a quem quer, quando quer e como quer. Por isso, Jeremias diz: “Sei, Senhor, que não está no homem o seu caminho, nem é próprio do homem caminhar e dirigir os seus passos” (Jr 10,23).
E observa que algumas aves têm pernas longas e, quando voam, voam com as pernas estendidas para trás. Há outras que têm pés e pernas curtos e, quando voam, apertam-nos contra o ventre, para que não as impeçam de voar; e o encurtamento dos pés não as impede de voar. Há dois modos entre os contemplativos. Com efeito, há alguns que cuidam dos outros e se dedicam a eles. Há outros que não cuidam nem dos outros nem de si mesmos e se afastam das coisas necessárias. Uns têm os pés longos; outros, curtos. Os primeiros, quando se dedicam à oração, voam na contemplação; estendem para trás os pés, isto é, os afetos com os quais sustentam as necessidades do próximo, para que o voo não seja impedido. Ó irmão, quando serves a teu irmão, estende os teus pés diante de ti e dedica-te inteiramente a ele. Quando, porém, te dedicas a Deus, estende os teus pés para trás, para que o teu voo seja livre. Despreocupado com o que vem depois, depõe na oração as imaginações do serviço e do benefício que prestaste ou estás para prestar. É justamente ali que elas costumam aparecer e impedir grandemente a alma do contemplativo. Estes, porém, que têm os pés curtos, que não se dedicam nem ao outro nem a si mesmos, apertam contra o ventre os pés, isto é, comprimem e encurtam na mente os afetos; recolhem-se em si mesmos, para que a mente, concentrada numa só coisa, possa voar mais facilmente e fixar o olho da mente, sem ser ofuscado pela luz, no áureo esplendor do sol. Diz-se, portanto, muito bem: “Tobias, da tribo e da cidade de Neftali, que está nas regiões superiores da Galileia, acima de Naasson”.
9. Segue: “Depois da estrada que conduz para o ocidente, tendo à esquerda a cidade de Sefet”. O justo deixa para trás a estrada espaçosa que conduz para o ocidente, isto é, para a morte. Por isso, diz o Profeta: “Tornem-se tenebrosos e escorregadios os seus caminhos, e o anjo do Senhor os persiga” (Sl 34,6). O caminho dos pecadores na vida presente é tenebroso pela cegueira da mente e escorregadio pela prática da iniquidade. Na morte, porém, será o anjo mau a persegui-los e impeli-los, até precipitá-los no abismo do fogo ardente.
O homem justo tem à sua esquerda a cidade de Sefet, isto é, da cultura ou da beleza, porque considera sinistra e falsa a ciência enganadora, e condena a filosofia mundana e a beleza passageira. “Vede”, portanto, “as aves do céu”.
Igualmente, acerca de Ana, que, como se diz no mesmo livro, “subiu ao aposento superior de sua casa e, durante três dias e três noites, não comeu nem bebeu; mas, perseverando na oração, suplicava ao Senhor com lágrimas” (Tb 3,10-11). Eis Ana, que se interpreta como graça e, qual ave alada, sobe às alturas. Assim, o homem justo ora no cenáculo superior de sua mente. Por isso, Cristo ora no monte, e Daniel, no cenáculo. Eliseu e Elias têm cenáculos, e Cristo celebra a Páscoa no cenáculo. “Durante três dias e três noites” etc. Com efeito, na prosperidade e na adversidade, o homem justo eleva preces à Santíssima Trindade. Observa a ordem das palavras. Primeiro, subiu ao cenáculo superior; não comeu nem bebeu; perseverou na oração; derramou lágrimas. Quem quer voar deve proceder nesta ordem. Primeiro, deve elevar o espírito acima das coisas terrenas; depois, afligir o corpo; perseverar na oração; derramar lágrimas. A oração, como diz a Glosa nesse lugar, aplaca a Deus; a lágrima o constrange. A lágrima unge, a oração fere. “Vede, portanto, as aves do céu”.
E considera quão adequadamente concorda com a história de Tobias e Ana o introito da missa deste domingo: “Tende piedade de mim, Senhor, porque clamei a vós todo o dia; pois vós, Senhor, sois suave e manso, e rico em misericórdia para com todos os que vos invocam” (cf. Sl 85,3.5). Lê-se no mesmo livro que Tobias e Ana clamaram ao Senhor, pedindo misericórdia. Tobias “começou a orar com lágrimas, dizendo: Sois justo, Senhor, e todos os vossos juízos são justos, e todos os vossos caminhos são misericórdia e verdade. E agora, Senhor, tratai-me segundo a vossa vontade” (Tb 3,1-2.6), com misericórdia. Ana orou assim: “Bendito é o vosso nome, Senhor, Deus de nossos pais, que, quando vos irais, usais de misericórdia e, no tempo da tribulação, perdoais os pecados aos que vos invocam. É certo para todo aquele que vos venera que, se sua vida estiver em provação, será coroado; se estiver em tribulação, será libertado; e, se estiver sob correção, poderá alcançar a vossa misericórdia. Pois não vos deleitais com a nossa perdição; depois da tempestade, fazeis voltar a tranquilidade, e, depois das lágrimas e do pranto, infundis a exultação. Seja bendito pelos séculos o vosso nome, Deus de Israel” (Tb 3,13.21-23). Assim, ambos dizem adequadamente no introito: “Tende piedade de mim” etc. Que o Senhor tenha sido suave, manso e rico em misericórdia para com eles, que o invocavam, fica claro quando se acrescenta: “Naquele momento, as preces de ambos foram ouvidas diante da glória do Deus Altíssimo; e foi enviado o santo anjo do Senhor, Rafael, para curá-los a ambos, cujas orações foram, ao mesmo tempo, apresentadas diante de Deus” (Tb 3,24-25).
10. Voltemos ao assunto e digamos: “Vede as aves do céu, porque não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam nos celeiros”. Observa estas três palavras. A primeira é semear, isto é, lançar a semente; a segunda, ceifar; a terceira, ajuntar. Vejamos o que significam. Diz Jó: “Vi os que praticam a iniquidade e semeiam dores e as colhem; ao sopro de Deus perecem e, pelo ímpeto de sua ira, são consumidos” (Jó 4,8-9). Semeia dores aquele que pratica o mal; colhe-as aquele que, praticando o mal, tira proveito dele.
A este respeito, diz o profeta Oseias: “Lavrastes a impiedade, ceifastes a iniquidade, comestes o fruto da mentira” (Os 10,13). Lavra a impiedade aquele que trama o mal no coração. Ceifa a iniquidade aquele que põe em prática o que tramou no coração. Come o fruto da mentira aquele que apresenta falsas desculpas pelo mal cometido e promete a si mesmo impunidade pela impiedade. A serpente lavrou a impiedade, Eva ceifou a iniquidade, Adão comeu o fruto da mentira, dizendo: “A mulher que me destes deu-me” (Gn 3,12) etc. O diabo lavra por meio das sugestões; a carne ceifa no prazer; o espírito come quando a razão consente com a sensualidade. Diga, portanto, Jó: “Vi os que praticam a iniquidade e semeiam dores e as colhem; ao sopro de Deus perecem”. Observa que, quando sopramos, primeiro puxamos o ar de fora para dentro e depois o devolvemos de dentro para fora. Diz-se, portanto, que Deus sopra no momento da retribuição, porque, a partir das causas exteriores, concebe interiormente o desígnio do juízo e, a partir do desígnio interior, profere exteriormente a sentença; isto é, a partir dos nossos males, que vê exteriormente, estabelece interiormente o juízo e, a partir da decisão concebida interiormente, produz exteriormente a condenação.
Ó cegos, apegados ao dinheiro e voluptuosos, que o esterco das andorinhas, a mamona dos demônios, cegou, vede as aves do céu, que contemplam as coisas celestes, porque não semeiam a impiedade, não ceifam a iniquidade, nem ajuntam o fruto da mentira; por isso, o Pai celeste as alimenta com a compunção das lágrimas, com a amargura dos gemidos, com o desejo das coisas eternas. Alimenta-as quando lhes infunde a pobreza e a humildade de sua Encarnação, a dor de sua Paixão e a alegria de sua Ressurreição. Alimenta-as com a doçura da contemplação e com a suavidade da bem-aventurança celeste.
11. Por isso, ele mesmo diz em João: “Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá, e encontrará pastagem” (Jo 10,9). Por mim, isto é, por meu lado aberto pela lança, se alguém entrar pela fé, pela paixão e pela compaixão, será salvo, como a pomba na fenda da rocha, para escapar da face do gavião que maquina arrebatá-la; e assim entrará para vigiar, discutir e examinar a si mesmo, e sairá para considerar, calcar aos pés, desprezar e fugir da vaidade do mundo. A vida do homem justo está sempre nestas duas coisas: quando entra, não encontra senão motivos para chorar; quando sai, não vê senão coisas das quais fugir.
Ao entrar, há tristeza. Por isso, o penitente diz no Salmo: “O dia inteiro eu entrava cheio de tristeza” (Sl 37,7). Por que nós, miseráveis, não nos entristecemos? Certamente porque não entramos para considerar nossa malícia e nossa miséria. Oxalá entrasses em ti mesmo: não verias em ti senão dor e tribulação. Então o riso cessaria, a alegria não teria lugar; o pesar e a angústia sepultariam todo prazer. Ana, filha de Raguel, havia entrado em si mesma quando dizia: “Tu sabes, Senhor, que jamais desejei um homem e conservei pura a minha alma de toda concupiscência. Nunca me misturei com os que brincam, nem me fiz participante daqueles que andam na leviandade” (Tb 3,16-17).
Do mesmo modo, na saída do homem justo está a fuga. Por isso, ele diz: “Afastei-me, fugindo, e permaneci na solidão” (Sl 54,8). Entrará, portanto, e sairá, e em tudo isso encontrará pastagens, isto é, no lado de Cristo, na dor de si mesmo, no desprezo do mundo. No lado de Cristo, o justo encontra pastagem. Por isso, pode dizer: Minhas delícias são estar com o Filho do homem (cf. Pr 8,31), suspenso no patíbulo da cruz, pregado com cravos, tendo bebido fel e vinagre, com o lado transpassado. Ó minha alma, estas são as tuas delícias; goza delas, alegra-te nelas. Por isso, Isaías te diz: “Então verás e transbordarás, e teu coração se admirará e se dilatará” (Is 60,5). Verás, ó alma, o Filho de Deus suspenso no patíbulo, e então transbordarás de delícias e te banharás em lágrimas; e teu coração se admirará da benignidade do Pai, que via o Unigênito pendente e não o tirava dali. Ó Pai, como pudeste conter-te? Como não rasgaste os céus e, descendo, libertaste o teu dileto? Nesta admiração, teu coração se dilatará para amar o Pai, que deu o Filho que nos redimiu e o Espírito Santo que operou.
Do mesmo modo, na dor do coração e no desprezo do mundo, o justo encontra pastagem para si. Por isso, Jó diz do onagro, isto é, do penitente: “Ele percorre com o olhar os montes da sua pastagem e busca tudo o que verdeja” (Jó 39,8). Os montes da pastagem são as altas contemplações do refrigério interior; quando as considera, ele se aflige com dor e pranto. Para esse penitente, buscar o que verdeja significa, desprezadas as coisas transitórias, desejar as que permanecem eternamente. Com efeito, são áridas todas as coisas criadas temporalmente e destinadas a um fim próximo, ressecadas, pelo sol do verão, da alegria da vida presente. Verdes, porém, são chamadas aquelas coisas que nenhuma temporalidade resseca. Bem diz, portanto, o Senhor: “O Pai celeste as alimenta”.
Segue-se: “Qual de vós, por mais que pense, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E por que vos preocupais com as vestes?” (Mt 6,27-28). Acima falou do alimento; aqui, da veste. Deixai, portanto, o cuidado de cobrir o corpo àquele que o fez chegar a essa medida. Confirma com um exemplo muito apropriado a exortação acerca da veste: “Considerai”, diz ele, “como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Digo-vos, porém, que nem Salomão, em toda a sua glória, se cobriu como um deles” (Mt 6,28-29). Diz a Glosa: Que púrpura de reis, que desenho de tecedeiras pode comparar-se às flores? A própria cor é chamada cobertura das flores, como dizemos: ‘Este se cobriu de vermelho’. Salomão, que floresceu mais que os outros, em toda a sua glória não foi coberto como uma dessas flores. Com efeito, não pôde cobrir-se da cor branca como a neve, como se cobre o lírio, nem da cor rosada, como a rosa, e assim quanto às demais.
12. Sentido moral. Observa que no lírio há três coisas: remédio, candor e perfume. O remédio está na raiz; o candor e o perfume, na flor. E significam os penitentes, pobres de espírito, que crucificam seus membros com os vícios e as concupiscências, os quais têm a humildade no coração, reprimindo o inchaço da soberba; o candor da castidade no corpo e o perfume da boa fama. Estes são chamados lírios do campo, não do deserto nem do jardim. No campo se observam duas coisas: a firmeza da santidade e a perfeição da caridade. O campo é o mundo (cf. Mt 13,38), no qual permanecer em flor é tão difícil quanto glorioso. Florescem no deserto os eremitas, que se mantêm afastados da convivência humana. Florescem no jardim fechado os claustrais, protegidos pela vigilância humana. Mas é mais glorioso que os penitentes floresçam no campo, isto é, no mundo, onde facilmente se perde a dupla graça da flor, a saber, a beleza da boa conduta e o perfume da boa reputação.
Por isso, Cristo se gloria de ser a flor do campo, quando diz no Cântico dos Cânticos: “Eu sou a flor do campo” (Ct 2,1). Assim também a bem-aventurada Maria, sua mãe, pode gloriar-se, pois não perdeu a flor no mundo, embora não tenha sido nem reclusa nem monja, considerando mais glorioso florescer no mundo do que no jardim ou no deserto. Embora, como diz Agostinho, empreendê-lo seja mais perigoso, realizá-lo seja mais venturoso. No campo ou na campina costumam travar-se combates, e no mundo há uma luta contínua, provocada pela carne, pelo mundo e pelos demônios; nela é necessária a firmeza da santidade, que deve permanecer inabalável diante de todos os perigos. Quem quer sair ao campo para o combate, experimente primeiro se é capaz de resistir em tão cruel batalha. É melhor florescer no jardim ou no deserto do que murchar no campo; muito melhor permanecer lá do que sucumbir aqui. Também no fato de serem chamados “lírios do campo” se manifesta a perfeição da caridade, pela qual se expõem a qualquer um que queira colhê-los. “Dá”, diz o Senhor, “a todo aquele que te pede” (Lc 6,30), isto é, oferece a boa vontade, se não tens a possibilidade; se tens ambas, tanto mais perfeitamente.
“Considerai”, portanto, “os lírios do campo, como crescem: não trabalham nem fiam”. Observa estes três verbos: crescem, não trabalham e não fiam. Por isso os justos crescem de virtude em virtude, porque não trabalham nem fiam; fiar é torcer os fios, isto é, fiar. Não trabalham nos tijolos do Egito, isto é, nos prazeres da carne; nem fiam, isto é, não torcem os diversos fios dos pensamentos em torno das coisas temporais. Queres crescer? Não te fatigues em torno de ti mesmo nem fiques a fiar para o mundo, e assim serás pobre. Por isso diz José no Gênesis: “Deus me fez crescer na terra da minha pobreza” (Gn 41,52). Na terra da pobreza, isto é, na humildade do coração, cresce o justo: quando diminui em si mesmo, Deus cresce nele. Por isso João Batista: “É necessário que eu diminua e que ele cresça” (Jo 3,30). Quando diminuis a ti mesmo, Deus cresce em ti. Por isso Isaías: “O menor se tornará mil, e o pequenino, uma nação fortíssima” (Is 60,22). Isso acontece quando aquele que é humilde aos próprios olhos é elevado à perfeição da mente e da ação. Por isso, no Salmo: “O homem se aproximará do coração profundo, e Deus será exaltado” (Sl 63,8). A palavra “alto” se diz tanto do que está acima como do que está abaixo, como o alto céu e o alto mar. Quando, portanto, te aproximas do coração profundo, isto é, da profundidade do coração, a saber, da humildade, então Deus é exaltado em ti, pois ele faz com que te eleves acima de todas as coisas, nas quais há “vaidade e aflição de espírito” (Ecl 1,14). “Considerai”, portanto, ó homens mundanos, amantes do tempo fugaz, “vós que vos afadigais e estais sobrecarregados” (Mt 11,28), vós que torceis fios sem número, como crescem os lírios do campo.
13. “Digo-vos que nem Salomão”. O sapientíssimo Salomão representa os sábios deste mundo que, em toda a sua glória frívola e passageira, em toda a sua ciência que os enche de orgulho, em toda a sua eloquência enganadora, não estão vestidos como um só destes pobres de Cristo. Estes estão revestidos do candor da pureza; aqueles, da ferrugem da concupiscência carnal. A estes cobrem a pobreza e a nudez; aqueles, a abundância os descobre. Estão cobertos pela sua iniquidade e impiedade (cf. Sl 72,6), mas descobertos de virtude; aqui se vestem, para alhures serem desnudados. Por isso o Senhor acrescenta a respeito deles: “Se, pois, Deus veste assim a erva que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?” (Mt 6,30). Chama-se feno àquilo que alimenta a chama, que em grego é “phos”, e significa os carnais, aos quais hoje, isto é, na vida presente, Deus assim veste, isto é, permite que se revistam de coisas temporais, e amanhã, isto é, no futuro, lançará no forno do fogo ardente. Eles mesmos alimentarão a chama que os queima. Por isso Isaías: “Eis todos vós que acendeis o fogo, cingidos de chamas; caminhai à luz do vosso fogo e das chamas que acendestes. Isto vos foi feito pela minha mão; dormireis entre tormentos” (Is 50,11). No fogo que acendeste aqui, lá serás queimado. Queres escapar dele? Não acendas este; ou, se o acendeste, apaga-o, isto é, apaga o incêndio do pecado.
Observa estes dois advérbios: hoje e amanhã. Hoje o pecador existe, e amanhã não existirá; hoje se veste, e amanhã é lançado no forno. Por isso, no primeiro livro dos Macabeus: “Não temais as palavras do homem pecador, porque a sua glória é esterco e verme; hoje é exaltado e amanhã não será encontrado, porque se converteu em terra, e o seu pensamento pereceu” (1Mc 2,62-63). Hoje o pecador se veste, e amanhã será lançado no forno. Por isso Isaías: “Toda veste misturada com sangue será queimada e alimento do fogo” (Is 9,5). A alma que veste para si a veste das riquezas juntamente com o sangue dos prazeres carnais será alimento do fogo eterno. “Se, portanto, Deus veste assim a erva” etc., como se dissesse: Se Deus concede aos carnais, filhos do fogo eterno, até mesmo o supérfluo, para sua própria ruína, quanto mais proverá o necessário a vós, seus fiéis?
“Não vos preocupeis, portanto, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?” (Mt 6,31). Aqui inculca e repete mais plenamente o que disse no princípio do sermão, para que vivamos sem preocupação. Sobre este trecho, diz a Glosa: Aqui parecem ser repreendidos aqueles que, desprezando o alimento ou a veste comuns, procuram para si alimentos ou vestes mais luxuosos ou mais austeros do que os daqueles com quem vivem. “Pois todas estas coisas os pagãos procuram” (Mt 6,32), que não se preocupam com as coisas futuras. Que tem de diferente do pagão aquele cuja infidelidade atormenta o espírito e o fatiga com as preocupações desta vida? A preocupação torna-o semelhante ao pagão, isto é, infiel. “O vosso Pai sabe”, ele que não fecha suas entranhas aos bons filhos. Ao ouvires falar do Pai, não duvides. “Pois necessitais de todas estas coisas.” Ele as dá, a menos que a vossa infidelidade o impeça.
14. A esta segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2). Não poderás levar os fardos de outro se antes não depuseres os teus. Alivia-te primeiro dos teus, e poderás levar os fardos de outro. Quando fores ave do céu, lírio do campo, então poderás levar os fardos, isto é, as tribulações e enfermidades do próximo, como se fossem a tua própria carga, e assim cumprirás a lei, isto é, a caridade de Cristo, “que levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24).
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus Cristo, que nos eleves das coisas terrenas pelas asas das virtudes, que nos revistas do candor da pureza, para que possamos levar o fardo da enfermidade dos irmãos e assim chegar a ti, que levaste os nossos. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
15. Segue-se o terceiro ponto. “Buscai, pois, primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). O reino de Deus é o sumo bem e, por isso, deve ser buscado. Ele é buscado pela fé, pela esperança e pela caridade. A justiça do reino consiste, porém, em observar tudo o que Cristo ensinou. Buscar o reino significa cumprir por meio das obras essa justiça. Buscai, portanto, primeiro o reino de Deus, isto é, anteponde-o a todas as coisas: tudo deve ser feito por causa dele, nada deve ser pedido fora dele, e a ele devem servir todas as coisas que pedimos. E observa que ele diz “serão dadas por acréscimo”, porque todas as coisas pertencem aos filhos e, por isso, todas estas coisas serão dadas também aos que não as buscam. Se lhes são subtraídas, é para provação; se lhes são dadas, é para ação de graças, porque todas as coisas cooperam para o bem deles (cf. Rm 8,28).
A respeito deste reino, tens uma concordância no livro de Tobias, onde ele diz: “As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todo o circuito de suas muralhas, de pedras preciosas. Todas as suas praças serão calçadas de pedra pura e branca, e por suas ruas se cantará: Aleluia! Bendito o Senhor, que a exaltou, para que o seu reino esteja sobre ela pelos séculos dos séculos. Amém” (Tb 13,21-23). Observa que há uma tríplice Jerusalém: a alegórica, isto é, a Igreja militante; a moral, isto é, a alma fiel; e a anagógica, isto é, a Igreja triunfante. Trataremos da estrutura de cada uma delas.
Sentido alegórico. Nesta passagem, são mencionadas quatro pedras, a saber: a safira, a esmeralda, a pedra preciosa e a pedra pura e branca; por elas entendemos as quatro ordens da Igreja militante, a saber: os apóstolos, os mártires, os confessores e as virgens. A safira, semelhante ao céu sereno, significa os apóstolos, que, tendo desprezado as coisas terrenas, mereceram dizer: “Nossa pátria está nos céus” (Fl 3,20). A esmeralda, que possui um verdor tão intenso que supera o verde de todas as ervas e torna verdes o ar que a circunda e a aparência dos que a contemplam, significa os mártires, que, pelo derramamento de seu sangue, regaram as almas plantadas no jardim da Igreja pelo trabalho dos apóstolos, para que perseverassem no verdor da fé. Assim, com a safira dos apóstolos e a esmeralda dos mártires foram construídas as portas da Igreja militante, para que por meio deles se abrisse a entrada para o reino. Do mesmo modo, a pedra preciosa significa os confessores, que, contra os hereges, se opuseram como muralha em defesa da casa de Israel (cf. Ez 13,5). A pedra pura e branca representou as virgens, resplandecentes pela pureza interior e pela candura exterior, que, pela humildade e pelo martírio, se prostraram pelo Senhor; segundo o exemplo delas, as praças — assim chamadas de “plátos”, isto é, largura —, ou seja, os fiéis, dilatados pela caridade, são calçadas, para que também eles se submetam ao Senhor.
16. Sentido moral. Na safira é simbolizado o desprezo das coisas visíveis e a contemplação das invisíveis; na esmeralda é representada a compunção das lágrimas unida à confissão dos pecados. Com essas duas pedras são construídas as portas da alma, pelas quais se abre a entrada para a graça do Espírito Santo. Por meio dessas portas abrem-se a entrada e a saída para saborear a suavidade de Deus, para a vigilância sobre ti mesmo e para o desprezo do mundo. Na pedra preciosa é assinalada a paciência, que é a muralha da alma, fortalecendo-a e defendendo-a de toda perturbação. Na pedra pura e branca é figurada a castidade e a humildade, às quais devem voltar-se os pensamentos e os afetos da mente; e então, pelas ruas, isto é, pelos sentidos do corpo, será cantado o Aleluia, isto é, o louvor de Deus. De fato, há uma doce sinfonia quando a atividade dos sentidos está em harmonia com a pureza e a candura dos pensamentos.
17. Sentido anagógico. Na safira é simbolizada a contemplação inefável da Trindade e da Unidade. Na esmeralda, que proporciona descanso aos olhos, a jubilosa visão de toda a Igreja triunfante; na pedra preciosa, a eterna fruição da alegria celeste; na pedra pura e branca, a glorificação da dupla veste, isto é, da alma e do corpo. Quando os santos tiverem alcançado tudo isso, então cantarão o Aleluia pelas ruas de Jerusalém. Pelas ruas de Jerusalém entendemos as moradas, das quais diz o Senhor: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2), e nelas os santos cantam o Aleluia, o louvor e a glória, com voz incansável.
Bendito seja Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que elevou a Jerusalém militante à Igreja triunfante, que é o seu reino, sobre o qual ele reina pelos séculos eternos. Amém. É precisamente deste reino que se diz no Evangelho: “Buscai primeiro o reino de Deus”.
18. À terceira parte desta cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “Quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna” (Gl 6,8). Esta é a Jerusalém construída com pedras preciosas. Este é o reino de Deus que buscamos quando semeamos no Espírito. Semear no Espírito é buscar a justiça do reino, da qual se acrescenta: “Não nos cansemos de fazer o bem; pois, se não desistirmos, a seu tempo colheremos” (Gl 6,9), quando cantaremos o Aleluia pelas ruas de Jerusalém com voz incansável.
Roguemos, portanto, irmãos, ao Senhor Jesus Cristo, que nos conceda buscar o seu reino e construir em nós a Jerusalém moral, para que possamos chegar à celeste e mereçamos cantar o Aleluia pelas suas ruas com os santos anjos. Conceda-no-lo ele mesmo, cujo reino permanece pelos séculos eternos. Diga toda alma virtuosa: Amém. Aleluia.