Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 45

Domingo XVI depois de Pentecostes Dominica XVI post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 4 seções · 12 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do décimo sexto domingo depois de Pentecostes: “Jesus ia para uma cidade chamada Naim”, que se divide em duas partes.

Em primeiro lugar, o tema do sermão é a alma penitente: como deve depor o pecado, perseverar nas obras de penitência e revestir-se do ornamento das virtudes; aí: “Judite desceu à sua casa”.

[Da primeira parte]. Também sobre como se reconhece o pecado mortal, aí: “Em cada um de nós”.

Também sobre as quatro portas do nosso corpo, aí: “Cada um segundo o seu grupo”. Também sobre a visão, aí: “Assim como o Oriente [ilumina] o mundo”.

Sobre a audição, aí: “O meio-dia é assim chamado”.

Sobre o paladar, aí: “O Ocidente é assim chamado”; e sobre a natureza da serpente.

Sobre o tato, aí: “O Aquilão é assim chamado”.

Também o tema da astúcia do diabo, aí: “Enquanto Holofernes fazia uma ronda”.

[Da segunda parte]. O tema do sermão é a misericórdia de Deus, que consiste na Encarnação e na Paixão; e sobre a natureza do cipreste, aí: “Quando Assuero viu Ester”.

Também sobre os quatro elementos e seu significado, aí: “Aqueles que carregavam pararam”.

Também sobre a abominação do pecado, aí: “Tu sabes, Senhor”.

Sobre a humildade do coração contrito, aí: “Ester recorreu ao Senhor”.

Sobre a confissão, aí: “Senhor, rei e Deus”.

Sobre a restauração do penitente, aí: “O homem que o rei quer honrar”.

Também sobre a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e seu significado, aí: “Enraizados na caridade”.

Exórdio. A alma penitente

1. Naquele tempo: “Jesus ia para uma cidade chamada Naim” (Lc 7,11) etc.

Lê-se no livro de Judite que Judite desceu à sua casa, “tirou de si o cilício e despiu o vestido de sua viuvez. Lavou o corpo e ungiu-se com a melhor mirra, dividiu e separou os cabelos da cabeça e pôs uma tiara sobre a cabeça; vestiu-se com as vestes de sua alegria, calçou sandálias nos pés, tomou braceletes, lírios, brincos e anéis, e adornou-se com todos os seus ornamentos” (Jt 10,2-3). Judite interpreta-se “a que confessa” e significa a alma fiel, que deve confessar ao Senhor, pela confissão, o pecado e o louvor. Ela desce à sua casa quando, retornando à própria consciência, reconsidera os seus males na amargura da sua alma (cf. Is 38,15). Por isso o anjo disse a Agar no Gênesis: “Volta para a tua senhora e humilha-te sob a mão dela” (Gn 16,9). Agar interpreta-se “abutre”. Ela é a alma que, quando sai pelos sentidos do corpo para as obras da carne, torna-se como um abutre, pousado sobre cadáveres. A esta diz o anjo, isto é, a graça do Espírito Santo: “Volta para a tua senhora”, entra na tua consciência, “e sob a mão” da razão “humilha-te” na amargura da penitência.

“E tirou de si o cilício.” No cilício é designado o fedor do pecado, que a alma então afasta de si quando, descendo à própria consciência, medita no que cometeu e no que omitiu. Por isso diz o Salmo: “Meditei à noite com o meu coração, exercitava-me e varria o meu espírito” (Sl 76,7). Observa estas três palavras: meditar, exercitar-se e varrer. O pecador, estando na noite do pecado, deve meditar com o seu coração sobre o que cometeu, o que perdeu e o que adquiriu para si. Cometeu a morte da sua alma, perdeu a glória, adquiriu a geena. E por isso deve exercitar-se na contrição e na amargura do coração, e varrer, isto é, purificar o fedor do pecado, na confissão da boca.

“E despiu o vestido de sua viuvez.” Vestido é aquilo que se estende até o vestígio, como que vestígio. É chamada viúva porque está só e não conserva os direitos conjugais na convivência com o marido. O vestido da viuvez é o pecado mortal, com o qual, quando a alma se veste, fica viúva do verdadeiro Esposo; e ela o despe quando, na confissão, depõe o próprio pecado e as suas circunstâncias. Por isso diz o Senhor em Jeremias, nas palavras de Baruc: “Despe, Jerusalém, a veste de luto e de aflição; e veste-te de beleza e de honra, daquela glória eterna que vem de Deus para ti” (Br 5,1). A veste de luto e de aflição é o pecado, no qual há luto e aflição. Luto é assim chamado porque é para o coração humano como uma ferida ou úlcera, para cuja cura se aplicam consolações. Assim como a ferida ou a úlcera atormenta o corpo, assim o pecado aflige a alma, à qual se diz: “Ó Jerusalém, despe”, na confissão, “a veste de luto e de aflição, e veste-te da beleza” das virtudes “e da honra” da glória, que é a pureza da consciência, para que possas chegar à glória eterna.

“E lavou o seu corpo”, isto é, as obras da carne, com as lágrimas da penitência. Por isso disse o Senhor a Moisés no Êxodo: “Vai ao povo e santifica-o hoje e amanhã; que lavem as suas vestes e estejam preparados para o terceiro dia” (Ex 19,10-11). Observa que há três dias, isto é, contrição, confissão e satisfação. Hoje e amanhã, isto é, pela contrição e pela confissão, devemos santificar-nos, e lavar com lágrimas as vestes, isto é, as obras carnais, e assim estaremos preparados para o terceiro dia, isto é, para realizar a satisfação.

“E ungiu-se com a melhor mirra”, isto é, com a mortificação da carne, para matar os vermes da concupiscência. Por isso se diz em João que Nicodemos veio “trazendo uma mistura de mirra e aloés, de cerca de cem libras. Tomaram, pois”, ele e José, “o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis, com aromas, como é costume dos judeus sepultar” (Jo 19,39-40). Nicodemos interpreta-se “aquele que submete ao juízo” e significa um espírito profundamente contrito, que submete os sentidos do corpo ao juízo do discernimento, para que não vagueiem pelos campos do prazer cativo. Ele traz uma mistura de mirra e aloés, isto é, a mortificação da mente e do corpo, na qual consiste toda a perfeição do homem; e isto é como que cem libras. José interpreta-se “acréscimo” e significa a confissão, que deve ser acrescentada ao espírito de contrição. Estes dois sepultam o justo no sepulcro de uma nova vida, envolvendo-o nos lençóis de linho de uma consciência pura, com os aromas de uma boa fama. Assim, com efeito, é costume dos judeus, isto é, dos verdadeiros penitentes, sepultar.

Segue-se: “E dividiu e separou os cabelos da cabeça”, isto é, distinguiu com cuidadoso discernimento cada pensamento da mente. Por isso diz o Senhor em Jeremias: “Se separares o precioso do vil, serás como a minha boca” (Jr 15,19). Precioso é assim chamado porque pode ser distinguido das coisas vis, ou porque é raro. Vil vem de vila, pois não possui nenhuma urbanidade. “Se”, portanto, “separares o precioso do vil”, isto é, o pensamento puro, que é raro, do impuro, que vem da carne, “serás como a minha boca”, que não falo de coisas terrenas, mas celestes.

“E pôs uma tiara sobre a sua cabeça.” É isto que diz o Eclesiástico: “Uma coroa de ouro sobre a sua tiara”, isto é, a de Aarão, “marcada com o sinal da santidade, glória de honra e obra de fortaleza” (Eclo 45,14). Sobre isso tens no Êxodo, onde o Senhor disse a Moisés: “Farás também uma lâmina de ouro puríssimo, na qual gravarás, com obra de gravador: Santo do Senhor. E a prenderás com uma fita de púrpura violeta, e ela estará sobre o turbante”, isto é, sobre a tiara, “pendente sobre a fronte do pontífice” (Ex 28,36-38). A cabeça é a mente; a tiara na cabeça é o propósito firme de praticar o bem na mente; a lâmina de ouro sobre a tiara é a paciência áurea, na qual se grava “Santo do Senhor”, isto é, o tetragrama, ou seja, as quatro letras, que são iod, hê, vau, hê. Isto significa: “Este é o princípio da vida da Paixão”. Como se dissesse a Aarão: Este que eu prefiguro é o princípio da vida perdida em Adão, mas da Paixão, isto é, restaurada por sua Paixão. O genitivo, segundo o modo grego, é empregado em lugar do ablativo. Na lâmina da paciência áurea inscreve-se o nome da Paixão do Senhor, que é a glória da nossa honra e a obra da nossa fortaleza.

Segue-se: “E vestiu-se com o vestido de sua alegria.” As vestes da alegria são as obras da caridade. Por isso diz o Salmo: “Feliz o homem que se compadece e empresta” (Sl 111,5) etc.

“E calçou sandálias nos pés”, isto é, protegeu o conjunto das obras com os preceitos evangélicos. Por isso se lê em Marcos que os apóstolos estavam calçados de sandálias (cf. Mc 6,9). Ali diz a Glosa: “Calçados de sandálias.” Para que o pé não fique nem coberto nem nu em relação à terra, isto é, para que nem o Evangelho seja ocultado, nem se apoie em vantagens terrenas.

“E tomou braceletes”, isto é, a recompensa da direita, ou seja, da vida eterna (cf. Mt 25,34). Por isso diz em João: “Lançai”, disse ele, “a rede à direita da barca, e encontrareis” (Jo 21,6). Na esquerda está o perder, porque esquerda se diz sinens extra, “deixando para fora”. Tudo o que fazes por este mundo, deixas tudo aqui, e assim o perdes. Na direita está o encontrar, porque direita se diz dans extra, “dando para fora”. Se trabalhas pela vida eterna, do tesouro interior da vida, colocado fora de ti, te é dada a graça pela qual podes retornar à pátria.

“E tomou lírios”, isto é, a castidade e a pureza, das quais se diz no Cântico: “O meu amado apascenta-se entre os lírios” (Ct 2,16). Entre os lírios da dupla continência repousa e se deleita o Filho da Virgem Maria.

“E brincos”, isto é, as devoções da obediência. Por isso se diz em Jó: “E cada um lhe deu uma ovelha e um brinco de ouro” (Jó 42,11). Pela ovelha exprime-se a inocência; pelo brinco, a obediência, isto é, a escuta da humildade adornada pela graça. Deve-se notar, porém, que neste lugar, com o brinco é oferecida a ovelha, e com a ovelha é oferecido o brinco, porque ao espírito inocente se une o ornamento da obediência, como atesta o Senhor: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz” (Jo 10,27). Ovelhas, diz ele, não lobos. Quem não ouve a voz do superior mostra que não é ovelha, mas lobo. E porque a própria obediência deve ser observada não por temor, mas por caridade, diz-se que ofereceram um brinco de ouro.

“E anéis”, isto é, o sinal da fé formada. Por isso, acerca do filho pródigo, o Pai disse em Lucas: “Ponde-lhe um anel na mão” (Lc 15,22). O anel na mão é a fé na obra, para que pelas obras a fé resplandeça e pela fé as obras sejam confirmadas.

“E adornou-se com todos os seus ornamentos”, isto é, com as demais virtudes pelas quais a alma é adornada. Delas diz o Salmo: “A rainha está à tua direita, com veste dourada, cercada de variedade” (Sl 44,10). Todas estas coisas deve possuir aquele que, juntamente com o filho da viúva, é ressuscitado pelo Senhor e restituído à sua mãe, a Jerusalém celeste. Por isso se diz no Evangelho de hoje: “Jesus ia para uma cidade chamada Naim” etc.

2. Nota que neste evangelho se destacam dois fatos: a aproximação de Jesus Cristo à porta da cidade de Naim e a ressurreição do filho morto da viúva. O primeiro aparece onde se diz: “Jesus ia”. O segundo, onde se diz: “Quando o Senhor a viu, movido de compaixão por ela”, etc. Nota também que neste domingo e durante a semana se leem os livros de Judite e Ester, dos quais queremos tomar algumas passagens para fazê-las concordar com as partes do evangelho.

No intróito da missa de hoje se canta: “Justo és, Senhor”, e se lê a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Efésios: “Rogo-vos que não desfaleçais por causa das minhas tribulações por vós”, a qual queremos dividir em duas partes e fazê-las concordar com as duas partes do evangelho. A primeira parte é: “Rogo-vos”. A segunda: “Enraizados e fundamentados na caridade”.

E observa que esta epístola é lida juntamente com este evangelho porque no evangelho se narra como Cristo ressuscitou o filho da viúva, e Paulo diz na epístola: “Cristo habite pela fé em nossos corações”: é por meio da fé que o nosso homem interior ressuscita dos pecados.

I. A aproximação de Jesus Cristo à porta da cidade de Naim

3. Digamos, portanto: “Jesus ia para uma cidade chamada Naim; e iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando se aproximava da porta da cidade, eis que era levado para o sepulcro um morto, filho único de sua mãe; e esta era viúva, e muita gente da cidade estava com ela” (Lc 7,11-12). A Glosa compreende brevemente este evangelho assim: Quando, diz ela, o Verbo feito carne introduziu o povo gentio na Jerusalém celeste pelas portas da fé, eis que o povo judeu, mais jovem por causa da infidelidade, morto, é levado para o sepulcro; a mãe Igreja, possuindo-o neste mundo como seu próprio filho, cercada por numerosas multidões de povos, chora-o com piedoso afeto e se esforça, com lágrimas piedosas, por chamá-lo de volta à vida. E isso ela obtém, entretanto, em alguns poucos judeus que se convertem e, por fim, o obterá na plenitude. O esquife em que ele é levado representa o corpo humano; os carregadores são os maus costumes, que arrastam o próprio corpo para a morte. Mas Jesus toca o esquife quando eleva a frágil natureza humana no lenho da cruz; então param os carregadores do féretro, porque já não conseguem, como antes, arrastá-la para a morte. Então Jesus fala, isto é, infunde admoestações de salvação; ao ouvir essa palavra, o enfermo se ergue para a vida e, pelas boas obras, é restituído à mãe.

Considera e observa atentamente quão apropriada e admiravelmente a história de Judite concorda com o evangelho deste domingo. No evangelho há três coisas especiais que devem ser observadas, a saber: a cidade de Naim, o filho da viúva que nela morreu e a própria viúva. Do mesmo modo, na história deste domingo são apresentadas três coisas especiais, a saber: a cidade de Betúlia, o povo nela atormentado pela sede e quase morto, e a própria viúva Judite. O Senhor, movido de compaixão pelas lágrimas da viúva, ressuscita o seu filho; e pelas lágrimas e pela oração da viúva Judite liberta da opressão dos inimigos o povo de Betúlia. Vejamos o que significam moralmente todas essas coisas.

A cidade de Naim e a cidade de Betúlia significam a mesma coisa. Naim interpreta-se como movimento, agitação da onda ou flutuante; Betúlia, como casa dolorosa ou casa da parturiente, e significam o nosso corpo, no qual há o movimento dos primeiros impulsos, o fluir dos maus pensamentos, a dor das tribulações, o parto dos gemidos e das lágrimas. Dissertaremos sobre estas quatro coisas.

4. Nota que, em cada um de nós, quando alguém cai no pecado, nada mais acontece senão o que então aconteceu naqueles três, a saber, na serpente, na mulher e no homem. Primeiro, dá-se a sugestão, quer pelo pensamento, quer pelos sentidos do corpo. Quando essa sugestão se produz, se a nossa concupiscência não se move para pecar, é frustrada a astúcia da serpente. Mas, se ela se mover, será como se a mulher já tivesse sido persuadida. Às vezes, porém, a razão refreia e reprime virilmente a concupiscência já agitada. Quando isso acontece, não caímos em pecado, mas somos coroados com alguma luta. Se, contudo, a razão consentir e decidir que se deve fazer aquilo que a libido tiver provocado, o homem é expulso de toda a vida bem-aventurada, como do paraíso. Pois o pecado já é imputado, mesmo que o ato não se siga, quando a consciência é tida como culpada pelo consentimento. É preciso investigar também, com consideração mais sutil, o que há na alma de pecado mortal ou venial. Se o pecado não for mantido por muito tempo com deleite do pensamento, mas, tão logo o movimento sensual toque a mulher, isto é, a parte inferior da razão, for imediatamente repelido pela autoridade do homem, isto é, da razão, é venial. E por isso se deve pedir perdão por tais pensamentos, bater no peito e dizer: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Se, porém, o pensamento se alimentar voluntariamente, por longo tempo, de deleites ilícitos, dos quais deve afastar-se continuamente, e, sem decidir praticar más ações, apenas os conservar suavemente na memória, é pecado mortal, e por ele, se não houver arrependimento, será condenado. Diz-se no Gênesis que Noé gerou Cam; Cam gerou Canaã (cf. Gn 9,18), do qual se diz, no mesmo Gênesis: “Maldito seja o menino Canaã; será escravo dos escravos de seus irmãos” (Gn 9,25). Noé interpreta-se como repouso; Cam, como calor; Canaã, como movimento. Do repouso, isto é, da tibieza e da ociosidade, nasce o calor da concupiscência. Do calor da concupiscência nasce o movimento da mísera carne. Com efeito, quem está quente move-se depressa. “Maldito seja o menino Canaã”: maldito seja o movimento da carne, que devemos subjugar e reduzir à servidão.

Também sobre o fluir dos maus pensamentos diz Isaías: “O coração do ímpio é como um mar fervente, que não pode aquietar-se, e as suas ondas transbordam em lama e lodo” (Is 57,20). E: “Não há paz para os ímpios, diz o Senhor” (Is 57,21). O coração do ímpio é como um mar fervente: incha-se de soberba, ferve de luxúria, e assim as ondas dos maus pensamentos transbordam em lama e lodo. Com efeito, produzem dois males: calcam aos pés a graça e oferecem a imundície do pecado.

Também acerca da dor da tribulação se diz no Salmo: “Encontrei tribulação e dor” (Sl 114,3). Adão, expulso do paraíso, encontrou na mente os espinhos da dor e no corpo os cardos da tribulação. “Espinhos e cardos”, diz ele, “produzirá para ti” (Gn 3,18). Espinhos deriva de ferir, porque são agudos como espigas; cardo deriva de “cardo, cardas”. Os espinhos das dores pungem a alma; os cardos das tribulações afligem o corpo e, por isso, ele dá à luz lágrimas e gemidos. Eis a cidade de Naim, eis a cidade de Betúlia, na qual morre o filho único e o povo é afligido. O filho e o povo significam a alma humana, afligida pela tentação e pelo ataque dos inimigos invisíveis; quando consente neles, morre miseravelmente no próprio corpo. Digamos, portanto: “Eis que era levado um morto, filho único de sua mãe”.

Chama-se defunto aquele que cumpriu os deveres da vida ou terminou a vida, porque defungi significa cessar de um dever ou terminá-lo. O defunto que é levado para fora da porta diante de muitas pessoas significa aquele que peca gravemente e não oculta o pecado no quarto do coração, mas o manifesta aos outros por meio de obras ou palavras, como pelas portas da sua cidade. A porta pela qual o defunto é levado para fora representa algum dos sentidos, por meio do qual alguém cai no pecado, e sobretudo a visão. A porta é assim chamada porque por ela algo pode ser levado para dentro ou para fora. Pelos olhos a alma é levada para fora, a fim de ver as mulheres, isto é, os falsos deleites desta região (cf. Gn 34,1), e por eles a morte é introduzida para matar as suas virtudes.

5. E observa que a cidade de Naim, isto é, o nosso corpo, tem quatro portas: a oriental, a ocidental, a meridional e a setentrional, pelas quais a alma defunta é levada para fora. Para que não seja levada para fora, essas portas devem ser fechadas com ferrolhos e fortificadas com guardas. Por isso, o Senhor falou a Moisés, como se lê no livro dos Números: “Cada um, segundo o seu grupo, acampará ao redor do tabernáculo da aliança. A oriente, Judá levantará suas tendas, e junto dele Issacar e Zabulon. No lado meridional estarão Rúben, Simeão e Gad. No lado ocidental estarão Efraim, Manassés e Benjamim. No lado setentrional estarão Dã, Aser e Neftali” (cf. Nm 2,2-29 passim). O tabernáculo é o corpo. Por isso, Pedro diz: “Julgo justo, enquanto estou neste tabernáculo, despertar-vos com a advertência, certo de que está próxima a deposição do meu tabernáculo”, isto é, do meu corpo (2Pd 1,13-14). As quatro portas da cidade, ou as quatro partes deste tabernáculo, são a visão, a audição, o gosto e o tato.

No oriente é designada a visão, porque, assim como o oriente ilumina o mundo, assim os olhos iluminam todo o corpo. E para sua guarda devem ser postos Judá, Issacar e Zabulon. Judá, que, ao entrar no mar Vermelho, mereceu por primeiro o primado — de sua tribo foram Davi e Cristo —, significa a dignidade da alma régia, que reprime todo o ímpeto dos movimentos desonestos e ilícitos e, como um leão, não teme o encontro com tentação alguma. Issacar, que se interpreta “recompensa”, significa a recompensa da eterna retribuição. Zabulon, “habitação da fortaleza”, significa o firme propósito da perseverança final. Sobre estes dois últimos, Moisés diz no Deuteronômio: “Alegra-te, Zabulon, na tua saída, e tu, Issacar, nas tuas tendas” (Dt 33,18). Quem persevera no Senhor até o fim de sua saída deste mundo, então verdadeiramente se alegra, porque passa para as tendas da recompensa eterna. Se estas três coisas, a saber, a dignidade da alma régia, a expectativa da recompensa eterna e a estabilidade da perseverança final, se unem, certamente defendem os olhos de todo olhar ilícito. A realeza da alma aborrece olhar para coisas desonestas; a expectativa da recompensa invisível retira o olho das coisas visíveis; o propósito da perseverança fecha-o ao contágio do pecado, o qual, quando entra pelo olho, enfraquece a resolução da alma.

No meridiano é designada a audição. Meridiano é assim chamado, como se fosse “medies”, isto é, “meio do dia”; ou porque “meridies” significa “mais puro”. Com efeito, “merum”, em grego, diz-se “puro” em latim. A audição está como que no meio entre a visão e o gosto. Vejo de mais longe do que ouço; ouço de mais longe do que gosto. Gostar é como o grau positivo, ouvir o comparativo, ver o superlativo. Portanto, na audição devem levantar suas tendas Rúben, Simeão e Gad. De Rúben, Moisés disse no Deuteronômio: “Viva Rúben e não morra, embora seja pequeno em número” (Dt 33,6), e nisso é designada a humildade. “Quando eras pequeno aos teus próprios olhos, tornaste-te grande aos meus” (cf. 1Rs 15,17). Simeão interpreta-se “aquele que ouve o pesar ou a tristeza”; Gad, “armado”. Observa que três são as coisas que perturbam a nossa audição: as palavras da arrogância, da detração e da adulação. Contra as palavras da soberba, sê prudente, isto é, humilde e paciente. “O melhor modo de vencer — diz o Filósofo — é a paciência.” Contra os detratores, sê alguém que ouve o pesar ou a tristeza. Por isso, Salomão diz nos Provérbios: “O vento do norte dispersa as chuvas, e um rosto triste desanima a língua do detrator” (Pr 25,23). Contra os aduladores, sê armado pela lembrança da tua própria iniquidade, crendo mais na voz da tua consciência do que na língua alheia.

No ocidente é designado o gosto. O ocidente é assim chamado porque faz o dia cair. Com efeito, esconde a luz do mundo e faz sobrevir as trevas. Observa que pecamos de três modos com a língua: pela adulação, pela detração e por tomar alimento e bebida além do necessário. Adulamos o presente, detraíamos do ausente, servimos ao prazer da gula; e, por isso, para nós se põe o sol da justiça e sobrevêm as trevas da ignorância. Nesta região devem levantar suas tendas Efraim, que se interpreta “crescendo”; Manassés, que se interpreta “esquecido”; e Benjamim, que se interpreta “filho da amargura” (cf. Gn 35,18). Quando desejas fazer alguém crescer e exaltar-se com o teu louvor, tu diminuís em ti mesmo. Ouve o que José disse, quando lhe nasceu Efraim: “Deus me fez crescer na terra da minha pobreza” (Gn 41,52). Disse “da minha pobreza”, e não da adulação. Queres crescer diante de Deus, e não diante dos homens? Dá ao Criador, e não à criatura, todo louvor e toda glória. Queres evitar a detração? Sê Manassés, isto é, esquecido de todo rancor do coração e de toda rivalidade. Enquanto falas, não fales de pessoa ausente senão para o bem. De todo homem ausente que não amas verdadeira e puramente, eu te suplico, meu irmão, esquece-te enquanto falas, para que possas dizer no Gênesis o que José disse quando lhe nasceu Manassés: “O Senhor me fez esquecer todos os meus trabalhos” (Gn 41,51).

Grande trabalho é ferir a vida alheia com a língua da detração, fazer seu o mal do outro, colocar sobre si o peso alheio. “Debaixo da sua língua”, diz o Salmo, “há trabalho e dor” (Sl 10,7). Por isso, Jeremias diz: “Estenderam a sua língua como um arco de mentira, e não de verdade” (Jr 9,3).

E observa que ele diz “estenderam”. Conta-se nas coisas naturais que a serpente, por astúcia, estende a língua, na qual tem dois apêndices; primeiro morde com o dente e depois, na ferida feita, introduz esses dois apêndices; então, certa umidade venenosa escorre para a ferida e assim envenena o homem (Plínio). A serpente, assim chamada porque rasteja, significa o detrator, que murmura às escondidas. Em sua língua há dois apêndices: ou fala mal daquele que não ama, ou, se teme e não é acreditado, elogia-o ironicamente: “É bom”, diz, “se não tivesse tal vício”. Enquanto morde a vida com a língua da detração, infunde o veneno da perversa insinuação. Do mesmo modo, contra o prazer da gula, sê Benjamim, isto é, filho da amargura, ou seja, da Paixão de Jesus Cristo. Por isso, Booz disse a Rute: “Mergulha o teu bocado no vinagre” (Rt 2,14). Sobre isso, procura no sermão do Evangelho da Quinquagésima: “Um cego estava sentado”.

No aquilão é designado o tato. Aquilão é assim chamado, como se fosse aquele que liga as águas. A iniquidade ata as mãos, para que não as estendas às boas obras. Nesta região devem levantar suas tendas Dã, que se interpreta “juízo”; Aser, que se interpreta “riquezas”; e Neftali, que se interpreta “largura”. Observa que pecamos de três modos no tato das mãos: tocando coisas desonestas e torpes, tirando as coisas alheias e não distribuindo aos pobres o que é nosso. Contra o primeiro, faz juízo de ti mesmo. Contra o segundo, contenta-te com aquilo que possuis justamente: “Grande riqueza é uma pobreza alegre e contentar-se com o que se tem” (Sêneca). Contra o terceiro, dilata-te a ti mesmo: “Estende a mão ao pobre” (cf. Pr 31,20), para receberes depois o dobro da mão de Jesus Cristo (cf. Is 40,2). Se, pois, as portas do teu corpo forem fechadas com tais ferrolhos e defendidas por tais guardas, a alma defunta não será levada para fora pelas portas da cidade de Naim.

6. Ouviste falar do filho morto; ouve agora também acerca do povo aflito de Betúlia. Lê-se no livro de Judite que Olofernes, enquanto fazia uma ronda, descobriu que a fonte que abastecia a cidade se dirigia, pelo lado sul, para fora da cidade; e mandou cortar o aqueduto que os abastecia (cf. Jt 7,6). Olofernes interpreta-se “aquele que enfraquece o bezerro cevado” e significa o diabo, que enfraquece o bezerro cevado deste mundo, isto é, o pecador embriagado pelas coisas temporais, com a febre aguda da luxúria, a sarna da avareza e a vertigem da soberba. O diabo percorre tudo ao redor, procurando a quem devorar (cf. 1Pd 5,8), e então descobre que a fonte etc. A fonte é a graça do Espírito Santo; o aqueduto é a devoção da mente; o lado sul é a fé em Jesus Cristo — “Deus”, diz, “virá do sul” (Hab 3,3) —; a cidade é a alma. A fonte da graça, portanto, flui pelo aqueduto da devoção, do sul da encarnação do Senhor, para a cidade que é a alma fiel. O diabo, porém, quando descobre isso, corta, com as preocupações do mundo, o aqueduto da mente; e assim a alma, que antes costumava haurir com alegria as águas das fontes do Salvador (cf. Is 12,3), ressequida pela sede e esvaziada da graça, é colocada no limiar da morte.

Por isso, considerando que tudo isso lhe aconteceu por justo juízo de Deus e por seu próprio merecimento, a alma clama com o povo de Betúlia, no intróito da missa de hoje: “Justo és, Senhor, e reto é o teu juízo; trata o teu servo segundo a tua misericórdia” (Sl 118,137.124). Lê-se o mesmo no livro de Judite, onde se diz que “houve grande pranto e lamento na grande assembleia por parte de todos, e durante muitas horas clamaram ao Senhor a uma só voz, dizendo: Pecamos, nós e nossos pais; procedemos injustamente, cometemos iniquidade. Tu, porque és piedoso, tem misericórdia de nós” (Jt 7,18-20).

7. A esta primeira parte concorda a primeira parte da epístola de hoje: “Eu vos suplico que não desfaleçais por causa das minhas tribulações por vós, que são a vossa glória” (Ef 3,13). Era precisamente isso que Holofernes pretendia quando afligia o povo de Betúlia: que, desfalecendo nas tribulações, lhe entregassem a cidade. Assim o diabo aflige o homem, para que desfaleça e, desfalecendo, caia. Mas “eu vos suplico”, diz, “que não desfaleçais nas tribulações, que são a vossa glória”. Por isso diz Judite: “Abraão, nosso pai, foi provado; e, depois de ser provado por muitas tribulações, tornou-se amigo de Deus” (Jt 8,22). “Por esta causa dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda paternidade nos céus e na terra toma o nome, para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, serdes fortalecidos poderosamente pelo seu Espírito no homem interior, e que Cristo habite pela fé em vossos corações” (Ef 3,14-17). Isto mesmo se lê no livro de Judite, onde se diz que “prostrando-se diante do Senhor, clamou ao Senhor, dizendo: Senhor, Deus de meu pai, Deus dos céus e criador das águas e Senhor de toda a criação, escuta-me, miserável que te suplico e presumo da tua misericórdia. Lembra-te, Senhor, da tua aliança e põe uma palavra em minha boca; e fortalece em meu coração o desígnio, para que a tua casa, ‘isto é, a Igreja’, permaneça em tua santificação” (Jt 9,1-2.17-18). É isto que diz o Apóstolo: “Que Cristo habite pela fé em vossos corações.”

Supliquemo-lhe, irmãos caríssimos, que fortifique as portas de nossa cidade pelos guardas acima mencionados, guarde o aqueduto da água viva, para que não seja cortado por Holofernes, e habite em nossos corações, para que mereçamos habitar com ele nos céus. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos. Amém.

II. A ressurreição do filho da viúva

8. Segue o segundo: “Esta era viúva, e uma grande multidão da cidade estava com ela. Quando o Senhor a viu, movido de compaixão por ela, disse-lhe: Não chores. E aproximou-se e tocou o esquife; e os que o carregavam pararam. E disse: Jovem, eu te digo: levanta-te. E o que estava morto sentou-se e começou a falar; e ele o entregou à sua mãe” (Lc 7,12-15). A Glosa diz a esse respeito: Primeiro, move-se de compaixão: eis um exemplo de piedade a ser imitado; depois, ressuscita: nisso se fundamenta a fé em seu admirável poder. Sobre estas duas coisas temos a concordância no livro de Ester. Sobre a primeira, assim: “Quando Assuero viu a rainha Ester em pé, ela agradou aos seus olhos, e ele estendeu para ela o cetro de ouro que tinha na mão”; isto era sinal de clemência. “Ela, aproximando-se, beijou a extremidade do seu cetro” (Est 5,2). Assuero interpreta-se como beatitude e significa Jesus Cristo, que é a beatitude dos santos. Quando ele vê Ester, que se interpreta como escondida, isto é, a alma que deve esconder-se da face do diabo no lado aberto do próprio Cristo, estando em pé, não vacilante nas adversidades, não inclinada aos desejos terrenos, não sentada na ociosidade do corpo, não deitada no leito dos prazeres, então ela agrada aos seus olhos. Ó bem-aventurado Jesus, bem-aventurado aquele que agrada aos teus olhos, infeliz aquele que agrada aos seus próprios olhos! Queres agradar a Deus? Desagrada primeiro a ti mesmo. Por isso diz Ezequiel: “Desagradarão a si mesmos por causa dos males que praticaram em suas abominações” (Ez 6,9). E então poderás dizer com Davi: “A tua misericórdia está diante dos meus olhos, e agradei-me da tua verdade” (Sl 25,3).

Observa que a misericórdia do Senhor consiste em duas coisas, a saber, na Encarnação e na Paixão. Portanto, devemos ter diante dos olhos de nossa mente a misericórdia, isto é, a Encarnação e a Paixão, para que humilhem os olhos de nossa soberba. Por isso diz Salomão nos Provérbios: “Não se afastem estas coisas dos teus olhos” (Pr 3,21). E no Êxodo: “Será como um sinal e como uma coisa pendurada, para lembrança, diante dos teus olhos” (Ex 13,6). E fala à semelhança daquele que faz um nó ou algo semelhante por causa de alguma coisa, para que não lhe escape da memória.

“E agradei-me da tua verdade.” Sobre ela diz o salmo: “Na tua verdade me humilhaste” (Sl 118,75). Como se dissesse: Quando considero a humildade da Verdade, isto é, de teu Filho, humilho a mim mesmo e assim te agrado. Ou: “Agradei-me da tua verdade”, isto é, do cumprimento de tuas promessas. Com efeito, antes que o Senhor cumprisse suas promessas, o homem estava desfigurado e, por isso, não podia agradar a si mesmo; mas, depois que foi reformado pela Encarnação do Filho de Deus, pela qual se cumpriram as promessas do Senhor, possui em si aquilo de que pode agradar-se. E, porque Jesus Cristo realizou esta restauração, ele mesmo diz no Eclesiástico: “Eu sou como um cipreste no monte Sião” (Eclo 24,17).

Lê-se nas coisas naturais que a folha do cipreste elimina a morfeia, que é uma espécie de lepra. Assim Cristo eliminou a mancha da corrupção que se refletia em nossa imagem e, por isso, mereceu ouvir, por si mesmo e por seus batizados: “Este é o meu Filho amado, no qual me comprazi” (Mt 3,17). Diz-se, portanto, com razão, que Ester agradou aos olhos de Assuero.

Segue: “E estendeu para ela o cetro de ouro” etc. O cetro de ouro é a cruz de sua Paixão, pela qual adquiriu o poder. Por isso também disse: “Foi-me dado todo poder no céu e na terra” (Mt 18,28). E o Apóstolo: “Por isso também Deus o exaltou” (Fl 2,9) etc. Ele estende este cetro para a alma quando se aproxima e toca o esquife. Eis a concordância. O esquife é a consciência do homem; quando o Senhor a toca com o cetro de ouro de sua Paixão, isto é, imprime nela os sinais de seu sangue e nela grava a lembrança de sua Paixão, então a alma se levanta, confiando na misericórdia, e beija “a extremidade do cetro”. A extremidade do cetro, isto é, da Paixão do Senhor, foi a caridade, da qual diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Conhecer a caridade de Cristo, que excede todo conhecimento” (Ef 3,19), isto é, que excede todo conhecimento e não pode ser plenamente conhecida. A caridade de Cristo, com a qual nos amou até o fim, esteve acima do conhecimento dos homens. Com efeito, Deus se fez homem, o justo morreu pelos ímpios (cf. 1Pd 3,18). Portanto, a alma beija a extremidade do cetro quando se une inseparavelmente à caridade de Cristo, e então pode dizer com o Apóstolo: “Quem me separará da caridade de Cristo?” (Rm 8,35) etc.

9. Segue-se: “Os que o carregavam pararam.” Observa que o pecador é como que carregado pelos quatro elementos de que é composto. É carregado pela terra quando pensa somente nas coisas terrenas; por isso diz o Salmo: “Fixaram os seus olhos em voltar-se para a terra” (Sl 16,11). É carregado pela água quando medita na luxúria; por isso, no Gênesis, Jacó disse a Rúben: “Derramaste-te como água, não crescerás, porque subiste ao leito de teu pai e profanaste o seu leito” (Gn 49,4). Com efeito, diz-se que ele dormiu com Bala, concubina de seu pai (cf. Gn 35,22). É carregado pelo ar quando faz tudo em busca do louvor humano. O ar possui muito mais rarefação que os demais elementos e, por isso, significa a vanglória, que é uma mentira tênue e translúcida. Por isso diz o Salmo: “Os filhos dos homens são mentirosos nas balanças, para enganarem” (Sl 61,10). Ó hipócrita mentiroso, quem queres fazer de ti mesmo? Por que te apresentas aos homens como diferente do peso que a balança ou a medida da verdade te atribui? Pesa-te, portanto, mais secretamente, e não te vendas a nós como maior do que te pesa a balança da equidade. Do mesmo modo, é carregado pelo fogo quando se inflama de ira. Por isso diz o Salmo: “Como a cera que se derrete, serão levados; caiu sobre eles o fogo e não viram o sol” (Sl 57,9). Quando o fogo da ira, que vem do diabo, cai no coração do pecador, então ele se derrete como cera em palavras de blasfêmia; então ele próprio se destrói e é levado para fora de si mesmo.

Esses quatro elementos carregam a alma para ser sepultada no inferno; mas, quando o Senhor toca, com a mão da sua misericórdia e com a vara de ouro da sua Paixão, a consciência do pecador, os quatro vícios acima mencionados são reprimidos, e a mente, voltando a si, vai ao encontro da vida, respondendo em obediência ao Salvador. Por isso segue-se: “Jovem, eu te digo: levanta-te” etc. Observa estas quatro coisas: levanta-te, sentou-se, começou a falar e entregou-o à sua mãe. Esta é a ordem correta para voltar à vida. Primeiro, o pecador deve levantar-se: levantar-se do pecado pela sua abominação e detestação. Segundo, deve sentar-se, isto é, humilhar-se na contrição do coração. Terceiro, deve falar na confissão, e assim o Senhor o restituirá à sua mãe, isto é, à graça do Espírito Santo. Sobre essas quatro coisas tens uma concordância no livro de Ester.

10. Sobre a primeira, isto é, a abominação do pecado, diz Ester: “Tu sabes, Senhor, que tens ciência de todas as coisas, que odeio a glória dos inimigos e detesto o leito dos incircuncisos e de todo estrangeiro. Tu conheces minha fraqueza e minha necessidade, sabes que abomino o sinal da soberba e da minha glória, que está sobre minha cabeça nos dias da minha ostentação, e o detesto como um pano de mulher menstruada.” Assim, a alma que deseja levantar-se do pecado deve odiar a glória dos mundanos, detestar o leito dos incircuncisos, isto é, dos vícios, e abominar o sinal da soberba e da glória passageira, detestando-o como um pano de mulher menstruada (Est 14,14-16).

Do mesmo modo, sobre a segunda, isto é, a humildade do coração contrito, lê-se no mesmo livro que “Ester se refugiou no Senhor, temendo o perigo que a ameaçava. E, tendo deposto as vestes reais, tomou vestes apropriadas ao pranto e ao luto; e, em vez dos diversos perfumes, encheu a cabeça de cinza e de esterco, e humilhou o corpo com jejuns; e encheu, dilacerando os cabelos, todos os lugares em que costumava alegrar-se. E suplicava ao Senhor, Deus de Israel” (Est 14,1-3). Assim, a alma, temendo o perigo da morte eterna que ameaça os pecadores, deve refugiar-se na misericórdia do Senhor, despir as vestes da glória temporal, entregar-se ao pranto e ao luto da penitência e, em vez dos diversos perfumes, isto é, dos prazeres da carne, deve aspergir a cabeça da mente com cinza, isto é, com a lembrança da própria fragilidade, e com esterco, isto é, com a recordação da própria iniquidade; deve humilhar o corpo com jejuns e encher, dilacerando os cabelos, todos os lugares em que se deleitou, para que encontre em si tantos holocaustos quantos foram os prazeres que teve em si mesma.

Do mesmo modo, sobre a confissão, diz Mardoqueu no mesmo livro de Ester: “Senhor rei, Deus, escuta a minha súplica e sê propício à tua herança; transforma o nosso luto em alegria” (Est 13,15.17). E Ester disse: “Meu Senhor, que és o nosso único rei, ajuda-me, que estou sozinha e não tenho outro auxílio senão tu” (Est 14,3). Mardoqueu interpreta-se como amarga contrição, da qual procede a verdadeira confissão, que obtém o perdão e transforma o luto da penitência na alegria da glória.

11. Além disso, sobre como o Senhor restitui o pecador à graça, lê-se no mesmo livro de Ester: “O homem que o rei deseja honrar deve ser revestido de vestes reais, colocado sobre o cavalo e a sela do rei, e deve receber sobre a cabeça a coroa real; e o primeiro dos príncipes reais deve segurar o seu cavalo e, percorrendo a praça da cidade, proclamar em alta voz: Assim será honrado aquele a quem o rei quiser honrar” (Est 6,7-9). E tudo isso o rei Assuero ordenou que fosse feito a Mardoqueu (cf. Est 6,10). Vejamos o que significam as vestes reais, o cavalo e a sela do rei, a coroa real e o primeiro dos príncipes reais.

As vestes são assim chamadas porque levam consigo a condição própria do homem. O rei é Cristo, cujas vestes são as virtudes com que reveste a alma que se converte a ele. Por isso diz Ezequiel: “Lavei-te com água, purifiquei-te do teu sangue, ungi-te com óleo; vesti-te com roupas bordadas, calcei-te com sandálias cor de jacinto, cingi-te de bisso e cobri-te com véus finíssimos. E te ornei com um ornamento” (Ez 16,9-11). O sangue é assim chamado porque é suave, e significa a imundície da luxúria, que é agradável ao homem, mas depois sua boca se encherá de pedras (cf. Pr 20,17), isto é, de carvões ardentes da geena. O Senhor lava esse sangue da alma e a purifica com a água da compunção; unge-a com o óleo da consolação paterna; reveste-a com roupas bordadas, isto é, com as várias virtudes; calça-a com sandálias cor de jacinto, ou seja, infunde-lhe o desejo das coisas eternas, para que possa pisar serpentes e escorpiões; cinge-a com o bisso da castidade; cobre-a com véus finíssimos, isto é, com a simplicidade da mente pura; e a adorna com o ornamento da dignidade. A alma assim revestida pode ser colocada sobre o cavalo que é selado para o rei.

O cavalo representa o corpo; a sela, derivada do verbo sentar-se, como se dissesse sedda, cadeira, simboliza a humildade ou a pobreza de Jesus Cristo, na qual ele esteve, por assim dizer, sentado, quando se humilhou na carne humana. Portanto, do corpo que vive na humildade e na pobreza se diz justamente que é da sela do rei. Sobre esse cavalo a alma é colocada quando a carne é submetida ao espírito, e então é coroada com o diadema real, isto é, com o amor de Deus e do próximo.

“E o primeiro dos príncipes reais” etc. Observa que Deus constituiu para o homem três príncipes, para que o guardassem: a razão, o intelecto e a memória. O primeiro, isto é, a razão, deve conduzir o cavalo, para que o corpo não vagueie de um lado para outro, e deve levá-lo pela praça da cidade, isto é, pela concórdia fraterna, para que não se desvie. Ó caríssimos, assim será honrado aquele a quem o rei, Jesus Cristo, quiser honrar. Quem, portanto, deseja ser digno de tal honra deve primeiro levantar-se, depois sentar-se e, em terceiro lugar, começar a falar; e assim será honrosamente restituído à sua mãe, isto é, à graça do Espírito Santo, para depois tornar-se participante da honra da glória eterna.

12. A esta segunda parte do Evangelho corresponde também a segunda parte da Epístola: “Enraizados e fundamentados na caridade, sejais capazes de compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a sublimidade e a profundidade” (Ef 3,17-18). Observa que estas quatro dimensões correspondem às quatro ações acima mencionadas, a saber: levanta-te, sentou-se, começou a falar e entregou-o à sua mãe.

Quando alguém se ergue da estreiteza do pecado, entra numa nova amplitude de espírito. Diz o salmo: “Ele me levou para um lugar espaçoso e me salvou, porque me quer bem” (Sl 17,20). E o Senhor, depois de ressuscitar Lázaro, disse aos seus discípulos: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11,44). Quando alguém se ergue do fedor do pecado, pode partir livre.

Do mesmo modo, na humildade do coração contrito está o comprimento, que considera o passado, o presente e o futuro. O passado, para chorá-lo; o presente, para considerar a própria miséria; o futuro, para precaver-se. Igualmente, na confissão está a sublimidade. O que é elevado chama-se sublime, como se dissesse sub limen, além do limiar. No limiar estão a entrada e a saída, nas quais se significa a nossa entrada na vida e a nossa saída dela. Na entrada há miséria; na saída, tribulação. A confissão, porém, coloca-nos no sublime, isto é, além do limiar, porque nos livra tanto da miséria como da tribulação. A confissão elevou o ladrão ao sublime, porque o libertou da miséria e da tribulação. Com efeito, ele mereceu ouvir: “Hoje estarás comigo”, onde não existe miséria alguma, mas somente glória, “no paraíso” (Lc 23,43), onde não há tribulação alguma, mas somente alegria e júbilo.

E, por fim, na restituição do pecador arrependido à sua mãe está a profundidade da misericórdia de Deus. Ó profundidade da clemência divina, muito além do fundo da inteligência humana, porque sua misericórdia não tem número! No livro da Sabedoria está escrito que Deus dispôs todas as coisas com medida, número e peso (cf. Sb 11,21), mas não quis encerrar sua misericórdia nessas leis, nesses limites; antes, é ela que encerra e abrange todas as coisas. Sua misericórdia está em toda parte, até no inferno, porque nem sequer o condenado é punido na medida que sua culpa exigiria. “A terra está cheia da misericórdia do Senhor” (cf. Sl 118,64), e todos nós, miseráveis, recebemos de sua plenitude (cf. Jo 1,16). “Pela misericórdia de Deus sou o que sou” (cf. 1Cor 15,10), e sem ela nada sou. Ó Senhor, se me privas da tua misericórdia, caio na miséria eterna. A tua misericórdia é a coluna do céu e da terra; se a retirares, tudo será destruído. “São muitas as tuas misericórdias”, diz Jeremias, “porque não fomos consumidos” (Lm 3,22). Verdadeiramente, são muitas! Com efeito, cada vez que pecamos mortalmente, com a mente ou com o corpo, e não somos imediatamente estrangulados pelo diabo, devemos atribuir à infinita misericórdia do Senhor o fato de ainda estarmos vivos. Ele espera, de fato, que nos convertamos e, por isso, não permite que sejamos estrangulados pelo diabo. Por tantas misericórdias, portanto, devemos dar graças ao Pai misericordioso, todas as vezes que pecamos e não fomos consumidos. Ó miseráveis, por que somos tão ingratos diante de tão grande misericórdia? “Deus lhe deu oportunidade de fazer penitência”, diz Jó, “e ele abusa dela para se ensoberbecer” (Jó 24,23); e assim acumula para si a ira no dia da ira (cf. Rm 2,5). Tem, portanto, piedade de tua alma, porque as misericórdias do Senhor são antigas (cf. Sl 88,50), e ele não se esquece de compadecer-se daquele que se compadece de si mesmo (cf. Sl 76,10).

Estas quatro dimensões — largura, comprimento, sublimidade e profundidade — podem ser relacionadas, mas em ordem inversa, com as quatro expressões que aparecem no fim do Evangelho: “Todos foram tomados de temor”: eis a profundidade do temor; “e glorificavam a Deus”: eis a sublimidade da devoção; “dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós”: eis o comprimento do tempo favorável, pois surgiu de longe, isto é, do seio do Pai, e veio na plenitude dos tempos; “e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16): eis a largura da caridade, pela qual se dignou visitar o mundo.

Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao próprio Senhor Jesus Cristo que nos faça erguer do pecado, permanecer na contrição do coração e confessar os nossos pecados, para que sejamos restituídos à mãe, isto é, à graça, e assim mereçamos ser conduzidos pelas mãos dos anjos à Jerusalém que está acima, nossa mãe (cf. Gl 4,26). Conceda-no-lo aquele que é piedoso, benigno, misericordioso e manso, digno de louvor e glorioso pelos séculos eternos.

Diga toda alma ressuscitada: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.