Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 43

Domingo XIV depois de Pentecostes Dominica XIV post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 18 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do décimo quarto domingo depois de Pentecostes: “Enquanto Jesus ia para Jerusalém”, que se divide em três cláusulas.

Primeiramente, tema do sermão sobre a infusão da graça, onde se diz: “Minha raiz está aberta”.

[da primeira cláusula]. Também sobre o edifício da vida celestial, onde se diz: “Se voltares para o Onipotente”.

Também contra os religiosos e clérigos, onde se diz: “A terra de onde brotava o pão”.

Também sobre a constância da mente, onde se diz: “Ele dará, em lugar de terra, pedra de sílex”.

Também tema para os contemplativos e sobre a natureza da águia, onde se diz: “Acaso ela se elevará ao teu comando?”; e, no mesmo trecho, sobre a pedra ametista.

[da segunda cláusula]. Tema do sermão sobre os cinco tipos de lepra e seu significado, onde se diz: “Quando entrou”.

Também contra a glória da dignidade, onde se diz: “Porventura não se apagará a luz do ímpio?”.

Também contra a luxúria, onde se diz: “O olho do adúltero”.

Também contra a rapina, onde se diz: “Transpuseram os limites”.

Também contra a inveja, onde se diz: “O homem insensato”.

Também sobre os cinco lugares em que há lepra e seu significado.

Também contra a discórdia, onde se diz: “Se o sacerdote encontrar”.

Também sobre as cinco coisas que o penitente deve ter, onde se diz: “Terá as vestes rasgadas”.

Também sobre a boa vergonha na confissão e sobre a circunstância do pecado que deve ser confessada, onde se diz: “Ester, com o rosto da cor da rosa”.

[da terceira cláusula]. Tema do sermão sobre a necessidade de devolver a Deus o louvor pela misericórdia concedida, onde se diz: “Um deles”.

Também sobre a ruína do justo e os dois tipos de tentação, onde se diz: “A montanha que desaba”.

Exórdio. A infusão da graça

1. Naquele tempo: “Enquanto Jesus ia para Jerusalém, atravessava pelo meio da Samaria e da Galileia” (Lc 17,11) etc.

Diz Jó: “Minha raiz está aberta junto às águas, e o orvalho permanecerá sobre a minha messe” (Jó 29,19). Observa estas quatro coisas: a raiz, as águas, o orvalho e a messe. Na raiz é representado o pensamento da mente pura; nas águas, a infusão da graça; no orvalho, a bem-aventurança da glória; e na messe, a separação da alma do corpo. Portanto, quando o pensamento de uma mente pura se abre pela devoção, infunde-se a água da graça celeste. Por isso, no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato; se alguém me abrir”, eis “a raiz aberta”; “entrarei nele” (Ap 3,20) etc., eis “junto às águas”. Por isso, no Cântico dos Cânticos, o esposo fala à esposa: “Abre-me, minha irmã, porque minha cabeça está cheia de orvalho, e meus cabelos, de gotas das noites” (Ct 5,2). Como se dissesse: Ó alma, se me abrires a raiz de tua mente, derramarei sobre ti, da cabeça de minha divindade, o orvalho e as gotas da graça celeste, que te refrescarão na noite da tribulação. E diz muito bem “gotas”. Com efeito, a graça no presente é como uma gota em relação ao prêmio eterno. Gota é aquilo que permanece; já a gotícula é aquilo que cai. Gota é assim chamada, como que viscosa. Tem a gota aquele que, ao receber a graça, não a perde; tem, porém, a gotícula aquele que crê por algum tempo e, no momento da tentação, se afasta (cf. Lc 8,13).

Também sobre isso tens uma concordância no mesmo Jó: “A árvore tem esperança; se for cortada, tornará a verdejar, e seus ramos brotarão. Se sua raiz envelhecer na terra e seu tronco morrer no pó, ao cheiro da água germinará e produzirá folhagem, como quando foi plantada pela primeira vez” (Jó 14,7-9). A árvore é chamada em latim lignum, porque, quando queimada, se transforma em luz, e significa o homem justo que, ao ser inflamado pelo fogo do amor, se transforma em luz de bom exemplo. Este, se tiver sido cortado pelo machado do pecado mortal, não deve desesperar da misericórdia de Deus, que é maior que sua miséria, mas deve ter esperança, porque tornará a verdejar pela penitência; e seus ramos, isto é, suas obras, brotarão. E, se a raiz, isto é, a intenção de seu coração, envelhecer na terra, isto é, nas coisas terrenas, e o tronco, isto é, sua obra, morrer no pó, isto é, na vaidade do mundo, contudo, se ele se voltar para Deus, ao cheiro da água, isto é, da graça do Espírito Santo, germinará na confissão e produzirá folhagem na reparação pelas obras. Diz-se, portanto, muito bem: “Minha raiz está aberta junto às águas”.

Segue-se: “E o orvalho permanecerá sobre a minha messe”. A messe é recolhida quando as almas, definitivamente separadas dos corpos, como espigas maduras cortadas da terra, descem para os celeiros celestes; então o orvalho permanece sobre a messe, porque a suavidade da visão eterna sacia as almas dos eleitos. Para alcançar a suavidade desse orvalho, devemos caminhar com Jesus Cristo através da Samaria e da Galileia. Por isso se diz no evangelho de hoje: “Enquanto Jesus ia para Jerusalém” etc.

2. Observa que neste evangelho se notam três coisas. A primeira, a passagem de Jesus Cristo para Jerusalém pela Galileia e pela Samaria, quando se antepõe: “Enquanto ia” etc. A segunda, a purificação dos dez leprosos, onde se diz: “E, quando entrava em certo povoado”. A terceira, o retorno do estrangeiro para glorificar a Deus, onde se diz: “Um deles”.

No intróito da missa de hoje canta-se: “Inclina, Senhor, o teu ouvido para mim”, e lê-se a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Gálatas: “Caminhai segundo o Espírito”, que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três cláusulas do santo evangelho. A primeira é: “Caminhai segundo o Espírito”. A segunda: “São manifestas, porém, as obras da carne”. A terceira: “O fruto do Espírito, porém, é a caridade”. Observa que esta epístola é lida com este evangelho porque no evangelho se faz menção dos leprosos e de sua purificação, e na epístola são apresentados os vícios dos quais provém na alma a lepra do pecado, e são apresentadas as virtudes pelas quais a alma é purificada de toda lepra.

I. A passagem de Jesus Cristo pela Galileia e pela Samaria

3. Digamos, portanto: “Enquanto ia para Jerusalém, Jesus atravessava a Samaria e a Galileia pelo meio”. Todas as palavras que se encontram nesta primeira cláusula são muito dignas de nota. Quem quer ir para Jerusalém precisa primeiro atravessar a Samaria e a Galileia. Samaria interpreta-se como “guarda”; Galileia, como “transmigração”; Jerusalém interpreta-se como “visão de paz”. Quem observa os mandamentos passa às virtudes, para assim poder ir a Jerusalém. O bem-aventurado Jó havia atravessado a Samaria; por isso dizia: “Se caminhei na vaidade e se o meu pé se apressou para a fraude, pese-me numa balança justa e Deus conheça a minha simplicidade” (Jó 31,5-6). Diz-se que o conhecer de Deus consiste em conhecer o que fazemos. Pelo nome de balança é designado o mediador entre Deus e os homens; nele, como numa balança de pratos iguais, são pesados os nossos méritos, e em seus mandamentos reconhecemos aquilo que nos falta em nossa vida. E o sentido é: Se alguma vez pratiquei algo levianamente, se pratiquei algo pernicioso, apresente-se o mediador, para que, contemplando a sua vida, eu reconheça se fui verdadeiramente íntegro.

Do mesmo modo, o próprio Jó atravessava a Galileia pelo meio, quando dizia: “Escreva o livro aquele mesmo que julga, para que eu o leve sobre o meu ombro e o circunde como uma coroa. A cada um dos meus passos o proclamarei e, como a um príncipe, o apresentarei a ele” (Jó 31,35-37). “O Pai não julga ninguém, mas entregou todo julgamento ao Filho” (Jo 5,22). Ele, vindo para a nossa redenção, estabeleceu conosco o Novo Testamento, e será um dia o autor do julgamento: aquele que agora é o autor do livro exigirá então com rigor aquilo que agora ordena com mansidão. Levar o livro sobre o ombro é cumprir a Sagrada Escritura na prática. Primeiro se diz que ele é levado sobre o ombro e, depois, que é cingido como uma coroa, porque os preceitos da palavra sagrada, se agora são bem levados na prática, mais tarde nos apresentarão, na retribuição, a coroa da vitória. “A cada um dos meus passos” etc. Chama de passos os progressos nas virtudes, porque por eles se sobe, para chegar à conquista das coisas celestes. E proclama o livro a cada um de seus passos aquele que demonstra ter alcançado o seu conhecimento não somente pelas palavras, mas pelas obras. “E, como a um príncipe, o apresentarei a ele.” Aquilo que oferecemos, seguramo-lo na mão. Oferecer, portanto, o livro àquele que vem para o julgamento é ter mantido na ação as palavras de seus mandamentos.

4. Observa que, acerca destas três palavras — Samaria, Galileia e Jerusalém —, tens uma concordância em Jó, onde diz Elifaz, o temanita: “Se voltares ao Onipotente, serás reconstruído, e afastarás a iniquidade da tua tenda. Ele te dará sílex em lugar de terra, e torrentes de ouro em lugar de sílex. O Onipotente estará contigo contra os teus inimigos, e a prata será acumulada para ti. Então abundarás de delícias no Onipotente e elevarás o teu rosto para Deus. Rogar-lhe-ás, e ele te ouvirá, e cumprirás os teus votos. Tomarás uma decisão, e ela te será bem-sucedida; e nos teus caminhos resplandecerá a luz” (Jó 22,23-28). “Se voltares” etc. Ó pecador, se, afastando-te de ti mesmo, no qual há destruição, voltares para Deus, no qual há edificação, serás verdadeiramente reconstruído. Destrói primeiro em ti o teu edifício, e ele edificará sobre ti o seu. Por isso diz em Isaías: “Eu digo ao profundo: ‘Sê desolado’, e secarei os teus rios; digo a Jerusalém: ‘Serás edificada’, e ao templo: ‘Serás fundado’” (Is 44,27-28). O profundo, chamado assim como se estivesse longe do fundo, é o abismo dos maus pensamentos; se estes forem desolados, e se forem secos os rios das concupiscências, que correm pelos canais dos cinco sentidos, então o templo, isto é, a mente, será fundado sobre safiras. Por isso diz Isaías: “Fundar-te-ei sobre safiras” (Is 54,11), isto é, sobre os desejos da vida eterna; e Jerusalém, isto é, a vida celestial, será edificada com baluartes.

Por isso diz Isaías: “Colocarei jaspe como os teus baluartes, e as tuas portas em pedras esculpidas” (Is 54,12). O jaspe é de cor verde, e diz-se que afugenta as fantasias; significa a pobreza, que conserva o homem no vigor da fé e afugenta as fantasias, isto é, as riquezas, que enganam os homens. A fé, com efeito, despreza as coisas temporais; quem as ama rejeita a fé. Se o edifício da nossa vida espiritual for edificado com os baluartes da pobreza, não se devem temer as flechas do antigo inimigo. As portas são os cinco sentidos do corpo, que o Senhor transforma em pedras esculpidas quando os olhos são esculpidos pelo derramamento de lágrimas, a língua pela acusação de si mesma, os ouvidos pela pregação, as mãos pela distribuição de esmolas e os pés pela visita aos enfermos. Dessa escultura diz o Senhor por meio de Zacarias: “Eis que eu esculpirei a sua escultura e, num só dia, tirarei a iniquidade daquela terra” (Zc 3,9). Entalhar é esculpir; em latim, caelare, de caelo, isto é, um tipo de ferramenta de ferro que vulgarmente chamam caelione. Quando o Senhor grava semelhante escultura nas portas dos sentidos, então remove a iniquidade da nossa terra, isto é, do nosso corpo; e isso num só dia, isto é, pela iluminação da unidade, pela qual o homem exterior se une ao interior no serviço de Deus. Diz-se, portanto, com razão: “Se voltares ao Onipotente, serás reconstruído, e assim afastarás a iniquidade da tua tenda”. O corpo é entendido como a tenda da alma, e a mente, como a tenda dos pensamentos. E o sentido é: Se voltares para Deus, serás purificado no pensamento e na obra.

5. Segue-se: “Dará em lugar da terra a pedra, e em lugar da pedra torrentes de ouro”. Eis Samaria, Galileia e Jerusalém, isto é, a guarda, a transmigração e a visão da paz. A terra, por causa de sua estabilidade, significa a observância dos preceitos, da qual diz Jó: “A terra, da qual brotava o pão, foi revolvida em seu lugar pelo fogo. O lugar dela são pedras de safira, e seus torrões, ouro” (Jó 28,5-6). A terra é a observância dos preceitos, da qual brota o pão do refrigério celeste. Com efeito, se observas os preceitos, serás refeito com o pão da suavidade celeste. Por isso, àquele que faz não a própria vontade, mas a do Senhor, ele mesmo promete por Isaías: “Quando não seguires os teus caminhos e não fizeres a tua vontade, então te deleitarás no Senhor, e eu te elevarei sobre as alturas da terra e te alimentarei com a herança de Jacó, teu pai; pois a boca do Senhor falou” (Is 58,13-14). Nosso miserável deleite consiste em duas coisas, isto é, na ação má e na vontade perversa; se esse deleite cessar, então te deleitarás no Senhor. “Deleita-te”, diz ele, “no Senhor, e ele te concederá os desejos do teu coração” (Sl 36,4) etc. E então te elevará acima da altura da terra, para que desprezes as coisas temporais, submetas a carne e observes os preceitos; e assim te alimentará com a herança de Jacó, teu pai. A herança de Jacó, isto é, de Jesus Cristo, nosso pai, que ele nos deixou, foi a pobreza e a humildade, a obediência e a angústia da Paixão; delas nos alimentamos quando as abraçamos com a doçura do espírito. Por isso, Moisés diz no Deuteronômio: “Sugarão como leite as inundações do mar” (Dt 33,19). Assim como a criança suga o leite do seio materno com avidez e enorme deleite, assim devemos sugar da vida de Jesus Cristo as inundações do mar, isto é, as amarguras da Paixão e da tribulação. E observa que ele diz “sugarão”. Ninguém pode sugar alguma coisa sem comprimir os lábios. Se não comprimirmos assim os lábios contra o amor das coisas temporais, não poderemos sugar as angústias dos sofrimentos de Cristo. Digamos, portanto: “A terra, da qual brotava o pão”.

Segue-se: “Em seu lugar foi revolvida pelo fogo”. O lugar do preceito do Senhor são os prelados da Igreja, os clérigos e os religiosos, nos quais ele deve ter um lugar especial. Mas, ai de nós!, os próprios preceitos do Senhor, em seu lugar, isto é, nos clérigos e nos religiosos, foram revolvidos pelo fogo da luxúria e da avareza: a caridade, a castidade, a humildade e a pobreza, que são os preceitos espirituais do Senhor, nos clérigos e nos religiosos foram destruídas. Com efeito, eles são invejosos, luxuriosos, soberbos e avarentos.

Segue-se: “O lugar dela são pedras de safira”. As safiras têm a cor do céu. Os prelados, os clérigos e os religiosos costumavam ser pedras de safira, pelo amor e pelo desejo das coisas celestes; agora, porém, tornaram-se como esterco, por causa da imundície do pecado.

“E seus torrões, ouro.” Gleba é um bloco de terra, de glebo, isto é, do lavrador rústico, que é chamado glebus. As glebas se consolidam com a umidade [e o pó]. Os pastores da Igreja e os professos de uma ordem costumavam ser torrões de ouro: “torrões”, porque, pela grande infusão da graça, mantiveram em concórdia a profissão e a ação; de ouro, porque resplandeceram pela virtude da vida e pela sabedoria. Mas agora, como deplora Jeremias nas Lamentações: “Os filhos de Sião, ilustres e revestidos do ouro mais fino, foram considerados vasos de barro, obra das mãos do oleiro” (Lm 4,2), isto é, do diabo, que, de vasos de honra, os fez vasos de barro destinados ao opróbrio e a ser lançados no esterquilínio da geena. Deixando-os nesse esterquilínio, voltemos ao nosso propósito.

6. “Dará em lugar da terra a pedra”, como se dissesse: Quem observa fielmente, quanto está em seu poder, os preceitos, passará para uma constância invencível na prática das virtudes. O sílex é uma pedra dura, assim chamado porque dele salta o fogo, e significa a constância da virtude, da qual procede um fogo que ilumina e inflama o próximo para o amor divino. Sobre esse sílex, diz o Senhor a Ezequiel: “Dei-te uma face como o diamante e como o sílex; não temas diante deles, porque são uma casa rebelde” (Ez 3,9). No diamante e no sílex é designada a constância que o Senhor põe no rosto do pregador, para que não tema diante do pecador, que irrita o próprio Deus. Por isso, acerca do pregador, diz o Senhor no livro de Jó: “Avança audaciosamente, vai ao encontro dos armados. Despreza o medo e não cede à espada” (Jó 39,21-22). GREGÓRIO: O pregador “avança audaciosamente”, porque não se deixa quebrantar pelas adversidades. “Vai ao encontro dos armados”, porque se opõe aos que agem perversa e maldosamente, em defesa da justiça. “Despreza o medo” etc. No medo, teme-se a pena futura; na espada, sente-se já a pena pelo golpe presente. Portanto, como não teme as adversidades futuras, despreza o medo; e, como não é vencido quando sobrevém o golpe, de modo algum cede à espada.

Também sobre esse sílex diz Jó: “Contra o sílex estende a mão, derruba os montes desde as raízes. Nas pedras abre canais, e seu olho vê tudo o que é precioso” (Jó 28,9-10). Estende a mão contra o sílex aquele que aplica suas obras à constância das virtudes. É isto que se diz nos Provérbios: “Estendeu a mão para coisas fortes” (Pr 31,19). E assim “derruba” em si mesmo “os montes”, isto é, a soberba do coração, “desde as raízes”, isto é, desde os pensamentos mais íntimos, e “abre canais” de compunção “nas pedras”, isto é, na dureza do próprio coração. E então, com o olho da mente iluminada, vê “tudo o que é precioso”, em comparação com o qual todas as coisas se tornam vis. Sobre esse precioso, segue-se: “E em lugar da pedra, torrentes de ouro”. Eis Jerusalém. Eis tudo o que é precioso e que vê o olho daquele que primeiro passou pela Samaria e pela Galileia!

7. A respeito disso, temos uma confirmação no próprio livro de Jó, onde o Senhor lhe fala: “Porventura, à tua ordem, a águia se elevará e colocará o seu ninho nas alturas? Ela habita nas rochas e permanece nos penhascos escarpados e nos lugares inacessíveis; de lá contempla a presa, e seus olhos a enxergam de grande distância” (Jó 39,27-29). A águia recebeu esse nome da agudeza de sua visão, porque fixa o sol com olhar não ofuscado. Por isso se diz dela, no livro das Coisas Naturais, que tem a vista extremamente aguda e obriga seus filhotes a contemplarem o sol antes que tenham as asas completamente formadas; para isso, golpeia-os e os faz voltar-se para o sol. E, se os olhos de algum deles lacrimejam, mata-o diante do outro e alimenta o outro. Diz-se também que põe três ovos e expulsa o terceiro. Alguns, de fato, viram uma águia com três filhotes; mas, se os tem, lança o terceiro para fora do ninho, porque lhe é muito pesado alimentá-los. Diz-se ainda que coloca no ninho, junto aos filhotes, uma pedra preciosa, a ametista, para que, pela virtude dessa pedra, as serpentes sejam mantidas afastadas deles.

Na águia é figurada a inteligência sutil e a sublime contemplação dos santos, que voltam os filhos, isto é, suas obras, para o olhar do verdadeiro Sol, para a luz da Sabedoria, a fim de que, pelo esplendor do sol, se manifeste se nelas está oculto algo adulterino ou estranho à sua natureza. Com efeito, toda iniquidade é reprovada pela luz, e as obras das trevas são manifestadas na luz (cf. Ef 5,13). Por isso, se veem que alguma de suas obras não contempla corretamente o sol, que se confunde com seus raios e lacrimeja, imediatamente a matam. O raio da graça mostra qual é o verdadeiro filho. A obra verdadeira contempla corretamente o sol, suportando o calor da tribulação; não desfalece. A obra adulterina, porém, contempla a terra, desfalece na tribulação, chora pela perda dos bens temporais e, por isso, deve ser morta, para que dela se alimente a boa obra. Pois, quando matas em ti o teu mal, então restauras o bem em ti; e, na medida em que o mal diminui, o bem se fortalece.

E nota que os três ovos, ou os três filhotes da águia, são os três amores do homem justo, a saber: o amor de Deus, o amor do próximo e o amor de si mesmo, que ele deve absolutamente expulsar do ninho de sua consciência. Com efeito, o amor próprio impede gravemente o amor de Deus e do próximo e, por isso, deve ser absolutamente rejeitado. Foi esse filho que Jó expulsara de seu ninho, quando dizia: “Dilacero minhas carnes com os meus dentes” (Jó 13,14). Os dentes são assim chamados porque dividem os alimentos e significam os sentidos interiores, que examinam cada coisa e, por assim dizer, mastigam e trituram aquilo que pensam, transmitindo-o depois ao ventre da memória. Com esses dentes, os santos, se descobrem em si mesmos algo carnal, combatem-no vigorosamente em si próprios e o expulsam do ninho de sua consciência.

8. Observa ainda que a ametista é uma pedra preciosa singular, de cor violácea, que lança centelhas douradas e ostenta manchas purpúreas; e significa a vida de Jesus Cristo, que foi violácea pela pobreza e pela humildade, lançando centelhas douradas na pregação e na realização de milagres, e ostentando manchas purpúreas em sua Paixão. O homem justo deve colocar esta ametista no ninho de sua consciência, para que sejam afastadas dos filhotes de suas obras as serpentes, isto é, as sugestões dos demônios.

Digamos, pois, acerca da águia: “Porventura, à tua ordem, elevar-se-á a águia?” Gregório comenta: A águia se eleva à ordem de Deus quando, obedecendo aos mandamentos divinos, a vida dos fiéis se eleva às realidades celestes. Ela põe o ninho nas alturas, porque não estabelece a morada de sua mente numa conduta abjeta e rasteira.

“Habita nas pedras.” Na linguagem sagrada, quando se emprega no singular a palavra pedra, entende-se Cristo; quando no plural, exprimem-se os homens santos. Por isso, Pedro diz: “Vós sois como pedras vivas” (1Pd 2,5). Diz-se, portanto, que a águia habita nas pedras, porque estabelece a morada de sua mente nas palavras dos antigos e valorosos Padres. Também se podem entender por pedras as potências celestes, pois, como pedras situadas em lugares elevados, estão isentas de todo movimento de mutabilidade — coisa que não sucede às árvores. O homem santo, portanto, aguarda a glória perene dos anjos e, sendo hóspede deste mundo, desejando ardentemente aquilo que contempla, já se fixa nas alturas.

“Habita nas selas escarpadas.” Que são as selas escarpadas, senão os fortíssimos coros dos anjos? São escarpados porque uma parte deles caiu, enquanto outra permaneceu. Eles permanecem íntegros quanto à qualidade do mérito, mas, quanto à quantidade do número, são escarpados; a esses mesmos ele chama rochedos inacessíveis. Com efeito, para o coração dos homens pecadores é totalmente inacessível o esplendor dos anjos. Mas quem quer que seja arrebatado pela contemplação de tal modo que já insira sua intenção entre os coros dos anjos, não se dá por satisfeito senão quando também consegue ver aquele que está acima dos anjos.

Segue-se: “Dali contempla a presa”, isto é, a partir daqueles coros angélicos dirige o olhar da mente para a glória da suprema Majestade, pela qual, ainda não contemplada, tem fome e, uma vez contemplada, finalmente se sacia. Mas, porque, oprimidos pela carne, não podemos ver a Deus tal como ele é, segue-se: “Seus olhos contemplam de longe”. Como se dissesse: Os santos dirigem vigorosamente o olhar de sua intenção, mas ainda não contemplam de mais perto aquele cuja grandeza de esplendor não podem penetrar.

Bem-aventurada, pois, aquela águia que mergulha o bico na torrente de ouro da Jerusalém celeste, da qual se diz no Salmo: “Fartar-se-ão da abundância de tua casa, e tu os dessedentarás na torrente de tuas delícias” (Sl 35,9). Por isso se diz no Gênesis que os irmãos de José beberam e se embriagaram com ele (cf. Gn 43,34). Observa que o embriagado muda de mente e de língua. Também a mente dos bem-aventurados, que se embriagarão na torrente de ouro, será transformada, porque sua fé e sua esperança serão abolidas, e então se cumprirá aquele mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Lc 10,27) etc., que agora não se cumpre perfeitamente. Também sua língua será transformada. Por isso: “Não fale a minha boca as obras dos homens” (Sl 16,4). Digamos, pois: “Em lugar da terra dará sílex, e em lugar do sílex, torrentes de ouro”.

Eis que tens claramente que aquele que quer ir a Jerusalém e beber da torrente de ouro da bem-aventurança celeste deve primeiro passar pela Samaria e pela Galileia, possuir a terra e o sílex. E, porque, quando chegamos à Samaria e passamos dela à Galileia, temos inimigos, isto é, espíritos malignos que nos espreitam, os quais vencemos pela graça de Deus para podermos ir a Jerusalém, por isso o texto de Jó prossegue: “O Onipotente estará contra os teus inimigos, e a prata será conservada para ti”, como se dissesse: Enquanto repelir de ti os espíritos malignos, acumulará a claridade da consciência; “então abundarás em delícias sobre o Onipotente”. Abundar em delícias sobre o Onipotente é saciar-se, no amor daquela consciência luminosa, com seus banquetes. A respeito disso se diz nos Provérbios: “A mente tranquila é como um banquete perpétuo” (Pr 15,15). “E elevarás para Deus a tua face.” Elevar a face para Deus é elevar o coração para investigar as realidades sublimes. “Rogarás a ele, e ele te ouvirá.”

Por isso, o homem justo diz no intróito da missa de hoje: “Inclina, Senhor, o teu ouvido e ouve-me” (Sl 81,5). “E cumprirás os teus votos.” Gregório diz: Quem fez um voto, mas não pode cumpri-lo por causa de sua fraqueza, é punido com a privação da possibilidade de fazer o bem, embora o queira. Quando, porém, é removida a culpa que o impedia, imediatamente a possibilidade acompanha o voto. “Decidirás uma coisa, e ela te acontecerá.” Uma coisa é decidida e acontece quando a virtude desejada com ardor é alcançada na prática, por concessão de Deus. “E em teus caminhos resplandecerá a luz.” A luz resplandecer nos caminhos dos justos é espalhar, por meio das obras admiráveis das virtudes, os sinais de sua claridade.

9. À primeira parte da epístola de hoje corresponde esta primeira cláusula: “Caminhai segundo o Espírito, e não realizareis os desejos da carne” (Gl 5,16). Quem quer ir a Jerusalém com Jesus deve caminhar não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Caminha segundo o Espírito aquele que passa pela Samaria e pela Galileia; por isso diz: “Caminhai segundo o Espírito”, se quereis ir a Jerusalém; e assim “não realizareis os desejos da carne”, isto é, não vos entregareis aos prazeres que a carne sugere. “Pois a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” (Gl 5,17). A carne é assim chamada porque é “cara”, ou de “criar”; com efeito, “cremento” é a semente do macho; por isso, em grego, é chamada “creas”. Ó carne cara e, por ser cara, privada de caridade e, por isso, desejosa contra o Espírito! Ó carne cara, que dentro em pouco te tornarás odiosa, porque apodrecerás e federás entre os vermes! A carne e o espírito se opõem mutuamente, para que não façamos tudo aquilo que queremos. Sobre isso tens uma concordância em Jó: “É uma luta”, diz ele, “a vida do homem sobre a terra” (Jó 7,1). A vida do homem é uma luta, isto é, uma tentação contínua, porque a carne, já corrompida, gera de si mesma sofrimentos e, nos próprios bens que pratica, percebe que surgem males, como o tédio na quietude da contemplação e a vanglória na abstinência.

Rogamos, portanto, a ti, Senhor Jesus Cristo, que nos faças passar pela Samaria, isto é, pela observância de teus mandamentos, e pela Galileia, isto é, pela constância nas virtudes, para que mereçamos ir a Jerusalém e beber de sua torrente de ouro. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A cura dos dez leprosos

10. Segue-se o segundo ponto. “Ao entrar numa aldeia, vieram ao seu encontro dez homens leprosos que ficaram à distância e elevaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós! Ao vê-los, disse-lhes: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, enquanto iam, ficaram purificados” (Lc 17,12-14). A alegoria é clara. A aldeia é o mundo, no qual o Senhor entrou; vieram ao seu encontro dez homens leprosos, pelos quais entendemos o gênero humano, que pecara contra o decálogo, porque não amava nem a Deus nem ao próximo; por isso, estava coberto pela lepra da infidelidade e da iniquidade e clamava: “Jesus, Mestre!” etc. O gênero humano pediu a salvação e implorou misericórdia, e o Senhor concedeu ambas: com o sangue da Redenção e com a água do Batismo, purificou-o de toda lepra da infidelidade e da iniquidade.

Moralmente. Nota que esses dez leprosos significam todos os pecadores, que são cobertos por cinco espécies de lepra e atingidos em cinco lugares. No Levítico, são apresentadas cinco espécies de lepra e cinco lugares por ela infectados, a saber: a lepra branca, brilhante, escura, vermelha e pálida. Do mesmo modo, a lepra na cabeça, na barba, na pele do corpo, na veste e na casa. “Todo aquele”, como se diz no mesmo Levítico, “que estiver manchado por uma lepra desse tipo e for separado por decisão do sacerdote, terá as vestes rasgadas, a cabeça descoberta, o rosto coberto por um pano e proclamará que está contaminado e impuro. Durante todo o tempo em que for leproso e impuro, habitará sozinho, fora do acampamento” (Lv 13,44-46). Vejamos o que significam essas coisas e discorramos sobre cada uma delas. A lepra branca é a hipocrisia e a simulação de religiosidade; a brilhante, a ambição da dignidade passageira; a escura, a imundície da fornicação; a vermelha, a rapina e a usura; a pálida, a inveja da felicidade alheia.

11. Da lepra branca da hipocrisia e da simulação, diz Jó: “Os simuladores e os astutos provocam a ira de Deus” (Jó 36,13). Simulador deriva de simulacro: ele ostenta, com efeito, a imagem daquele que ele próprio não é. Os simulacros são assim chamados por causa da semelhança. O hipócrita é como um simulacro, pois apresenta a semelhança da santidade de outro. A esse simulacro presta-se honra, porque se crê que há nele algo de divino. Mas, como diz Jó: “A assembleia do hipócrita é estéril” (Jó 15,34), porque, por aquilo que faz, não deseja receber fruto na retribuição eterna. Diz-se estéril aquilo que permanece como seco e árido. Com efeito, se não houver reta intenção, perece a obra que parece boa. Pela brancura da lepra, fica inteiramente infectado aquilo que a opinião humana julga reto, mas que não é realizado com reta intenção.

Da lepra brilhante, que representa a dignidade passageira, diz Baldad, o suíta, em Jó: “Porventura não se extinguirá a luz do ímpio, nem brilhará a chama do seu fogo? A luz se obscurecerá em sua tenda, e a lâmpada que está sobre ele se apagará” (Jó 18,5-6). A luz do ímpio se extingue, porque a prosperidade da vida passageira termina com ela. “Nem brilhará a chama do seu fogo.” Chama fogo ao ardor dos desejos temporais, cuja chama é o esplendor, ou o poder exterior, que procede do seu ardor interior; mas não brilhará, porque no dia da morte todo esplendor exterior será retirado. “A luz se obscurecerá em sua tenda.” Às vezes entendemos as trevas como tristeza e a luz como alegria. Portanto, a luz se obscurece na tenda do ímpio, porque em sua consciência desaparece a alegria que provinha das coisas temporais. “E a lâmpada que está sobre ele se apagará.” A lâmpada é uma luz num vaso de barro. Ora, a luz no vaso de barro é a alegria na carne. A lâmpada que está sobre ele se apaga, porque, quando a retribuição de seus males segue o ímpio, dissipa-se em sua mente a alegria da carne. Diz-se justamente não a lâmpada que está junto dele, mas a que está sobre ele, porque as alegrias terrenas possuem a mente dos iníquos.

Da lepra obscura da fornicação, diz Jó: “O olho do adúltero espia a escuridão, dizendo: ‘Nenhum olho me verá’; e cobre o seu rosto” (Jó 24,15). Adúltero é chamado aquele que viola o leito alheio, ou que oprime o ventre alheio. A imundície da fornicação, que obscurece o olho da razão, procura sempre a ocasião de um lugar escuro e é cometida com tanto maior segurança quanto menos teme ser vista. Por isso diz o Eclesiástico: “Para o homem fornicador todo pão é doce; ele, que transgride o seu leito e, desprezando a própria alma, diz: ‘Quem me vê? As trevas me cercam, as paredes me cobrem, e ninguém me observa; a quem devo temer? O Altíssimo não se lembrará dos meus delitos’. E não entende que o seu olho vê tudo” (Eclo 23,24-27). E é isto que segue: “E cobrirá o seu rosto”, isto é, para não ser reconhecido. O rosto do coração humano é a semelhança de Deus; o perverso o cobre, para não poder ser reconhecido pelo juiz severo, quando desfigura a sua vida com más ações.

Da lepra vermelha dos rapinadores, diz Jó: “Mudaram os limites, roubaram os rebanhos, levaram o jumento dos órfãos e tomaram como penhor o boi da viúva. Subverteram o caminho dos pobres e oprimiram igualmente os mansos da terra” (Jó 24,2-4). A paciência divina tolera esses homens e espera que façam penitência; eles, porém, acumulam para si a ira no dia da ira (cf. Rm 2,5). Sobre a prosperidade deles, diz ainda Jó: “Por que vivem os ímpios, são exaltados e fortalecidos pelas riquezas? A sua descendência permanece diante deles, e uma multidão de parentes e netos está à sua vista. Suas casas são seguras e tranquilas, não há sobre eles a vara de Deus. Seu boi concebe e não aborta, sua vaca pare e não é privada da cria. Seus pequeninos saem como rebanhos, e seus filhos exultam em brincadeiras. Têm consigo o tambor e a cítara e se alegram ao som do órgão. Passam os seus dias em bens e, num instante, descem aos infernos. Eles disseram a Deus: ‘Afasta-te de nós; não queremos conhecer os teus caminhos. Quem é o Onipotente, para que o sirvamos, e que nos aproveita se lhe orarmos?’ Contudo, como os seus bens não estão em seu poder, esteja longe de mim o seu conselho” (Jó 21,7-16).

Da lepra pálida da inveja, diz Jó: “A ira mata o insensato, e a inveja mata o pequeno” (Jó 5,2). Pequeno é aquele que ama as coisas terrenas; grande, aquele que ama as eternas. O pequeno, portanto, é morto pela inveja, porque ninguém morre dessa peste senão aquele que deseja as coisas terrenas. Diz Gregório: Quem deseja ser preservado da peste do rancor, ame aquela herança que o número dos coerdeiros não torna menor; ela é uma só para todos e inteira para cada um.

12. Analogamente, a lepra na cabeça é a impureza no pensamento. A lepra na barba é a iniquidade na manifestação. A lepra na pele é a desonestidade na conduta. A lepra na veste é a dissensão na fé em Cristo, ou a imprudência na prática das virtudes. A lepra na casa é a discórdia na comunidade.

Sobre a impureza do pensamento, diz Jó: “Sugará a cabeça da áspide, e a língua da víbora o matará” (Jó 20,16). A áspide, pequena serpente, é a tentação oculta dos demônios; sua cabeça, isto é, o início, nasce primeiro no coração, e aquele que foi capturado é depois arrastado violentamente. A víbora tem o corpo mais comprido e nasce de tal modo que sai violentamente. Portanto, o pecador suga a cabeça da áspide, e a língua da víbora o mata, quando acolhe de bom grado o início da sugestão secreta e depois, vencido, se entrega às violentas tentações.

Do mesmo modo, sobre a manifestação da iniquidade, diz Jó: “Estendeu a mão contra Deus e se fortaleceu contra o Onipotente. Correu contra Deus com o pescoço erguido e armado de uma cerviz gorda. A gordura cobriu-lhe o rosto, e dos seus flancos pende a gordura” (Jó 15,25-27). Estender a mão contra Deus é perseverar na prática perversa, desprezando os seus juízos. E ele se fortalece contra o Onipotente, porque Deus lhe permite prosperar em sua má ação. Corre contra ele com o pescoço erguido, quando pratica com audácia aquilo que desagrada ao Criador. “Correu”, isto é, em sua obra má não encontrou obstáculo proveniente da adversidade. “E armado de uma cerviz gorda.” A cerviz gorda é a soberba proveniente da riqueza, sustentada pela abundância dos bens como por muitas carnes. “A gordura cobriu-lhe o rosto.” A gordura cobre o rosto, porque a abundância desejada das coisas terrenas oprime os olhos da mente. “E dos seus flancos pende a gordura.” Os flancos dos ricos são aqueles que a eles aderem. A gordura pende de seus flancos, porque todo aquele que adere ao poderoso iníquo também se incha com o seu poder, como que com a gordura.

Do mesmo modo, sobre a conduta desonesta, o Senhor diz em Jó, a respeito do diabo: “Estenderá debaixo de si o ouro como lodo. Fará ferver o mar profundo como uma panela” (Jó 41,21-22). O ouro significa o esplendor da santidade, e o lodo, a sujeira dos prazeres carnais. Com efeito, muitos que dentro da santa Igreja pareciam resplandecer pelo fulgor da justiça, o diabo submete ao contágio de um prazer miserável e à sujeira de uma conduta desonesta; e assim estende debaixo de si o ouro como lodo. Também faz ferver como uma panela o mar profundo, isto é, o coração do pecador, colocando sob ele o fogo da sugestão e fazendo-o lançar de si a espuma da conduta desonesta.

Do mesmo modo, a veste de Jesus Cristo, inconsútil e tecida inteira de uma só peça (cf. Jo 19,23), é a fé nele e a unidade da Igreja, que os hereges, os falsos cristãos e os simoníacos querem dividir. Estes são os três amigos de Jó, a saber, Elifaz, Baldad e Sofar, que afligiram o bem-aventurado Jó com palavras e o ofenderam com injúrias. Elifaz interpreta-se ‘desprezo do Senhor’ e significa os hereges, que desprezam obedecer à Igreja de Cristo. Baldad, ‘somente velhice’, e significa os falsos cristãos, que envelheceram nos dias maus (cf. Dn 13,52). Sofar, ‘destruição da sentinela’, e significa os simoníacos, que destroem a sentinela da dignidade eclesiástica, quando a compram com dinheiro.

Do mesmo modo, sobre a lepra da casa, diz-se no Levítico que “se o sacerdote encontrar que a lepra cresceu, ordenará que sejam arrancadas as pedras nas quais está a lepra e as lançará fora da cidade, em lugar imundo; e que a própria casa seja raspada por dentro, ao redor, e que o pó da raspagem seja espalhado fora da cidade, em lugar imundo; e que sejam colocadas outras pedras no lugar das que foram retiradas” (Lv 14,39-42). A lepra na casa é a discórdia na comunidade. Se o sacerdote, isto é, o prelado, vir que ela cresceu, ordenará imediatamente que sejam lançadas para fora da comunidade as pedras, isto é, os irmãos da comunidade nos quais está a lepra da discórdia, para que o companheiro sarnento não possa roçar-se no companheiro puro e sem manchas, e um pouco de fermento não corrompa toda a massa (cf. 1Cor 5,6; Gl 5,9), nem pouco veneno intoxique todo o bálsamo. A casa, isto é, a própria comunidade, para que não permaneçam alguns restos daquela lepra, deve raspá-la, isto é, investigá-la diligentemente; e, se encontrar algum vestígio, deve lançá-lo para fora; e, no lugar das pedras leprosas, deve substituir por pedras novas na construção da comunidade, para que possam servir ao Senhor na unidade do espírito e na concórdia dos costumes.

Quem quer que esteja manchado por qualquer destas cinco espécies de lepra, se quiser obter misericórdia do Senhor, deve necessariamente realizar as cinco ações acima mencionadas: deve ter “vestes rasgadas”, isto é, não confiar em nenhum de seus méritos nem presumir de obra alguma sua — ou as vestes rasgadas são os membros do corpo afligidos pela aspereza da penitência —; “a cabeça descoberta”, isto é, desnudando tudo quanto pecou por meio dos sentidos do corpo; “a boca coberta com uma veste”, isto é, tendo sempre vergonha daquilo que cometeu; “proclamará em todo tempo que está contaminado e sujo”; e, sendo “imundo”, isto é, considerando-se imundo e sozinho, afastado do tumulto das coisas seculares e dos maus pensamentos, “habitará fora do acampamento”, isto é, considerar-se-á indigno da comunidade dos santos. Quem não tiver estas cinco coisas não é verdadeiramente penitente.

Quem, portanto, quiser verdadeiramente arrepender-se, tenha as vestes rasgadas, isto é, não presuma de obra alguma sua; descubra a cabeça na confissão diante de Deus e de seus anjos; envergonhe-se de ter cometido tais coisas; e não somente proclame que está imundo e sujo, mas, se outros lhe lançarem isso em rosto, deve suportá-lo humildemente — se agir de outro modo, prova que não se arrepende verdadeiramente —; como leproso, deve considerar-se indigno da assembleia dos santos e prostrar-se, com a humildade da mente, aos pés deles. Por isso, os penitentes públicos costumam permanecer diante das portas da igreja, vestidos de cilício, e suplicar humildemente aos fiéis que entram na própria igreja, dizendo: Nós, pecadores indignos, rogamos a vós, fiéis de Cristo, que eleveis por nós preces à misericórdia divina, porque somos indignos de entrar na igreja e de participar da assembleia dos fiéis.

Tais penitentes podem dizer com confiança: “Jesus, Mestre, tende piedade de nós”. Observa estas três palavras: Jesus, Mestre e tende piedade. Jesus interpreta-se ‘salvação’. Quem quer a salvação, observe os mandamentos e assim encontrará misericórdia. E observa que “Mestre” está colocado entre “Jesus” e “tende piedade”. Com efeito, onde há a observância dos mandamentos, aí, à direita e à esquerda, estão a salvação e a misericórdia, que conservam aqueles que as conservam. Por isso, diz o Eclesiástico: “Se quiseres guardar os mandamentos, eles te guardarão” (Eclo 15,16).

13. Segue-se: “Quando os viu, disse: Ide, mostrai-vos aos sacerdotes”. Observa estas três palavras: ide, mostrai-vos, aos sacerdotes. Em “ide”, é designada a contrição do coração; em “mostrai-vos”, a confissão da boca; em “aos sacerdotes”, a satisfação pelas obras.

Sobre o “ir” da contrição, diz o filho pródigo em Lucas: “Levantar-me-ei e irei a meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti” (Lc 15,18). E observa que primeiro diz “levantar-me-ei” e depois “irei”, porque, se primeiro não te levantares da tua tibieza, não poderás ir pela contrição. “Levantar-me-ei”, porque reconheci que jazia por terra; “irei”, porque me afastei para longe; “a meu pai”, porque definho em miserável indigência sob o príncipe dos porcos; “pequei contra o céu”, isto é, diante dos anjos e das almas santas, nas quais Deus tem sua morada, “e diante de ti”, isto é, no próprio recinto secreto da consciência, ao qual somente os teus olhos penetram.

Sobre o “mostrar-se” da confissão, diz o esposo no Cântico dos Cânticos: “Mostra-me o teu rosto, que a tua voz ressoe aos meus ouvidos; pois a tua voz é doce e o teu rosto é formoso” (Ct 2,14). Diz-se rosto porque ele torna o homem conhecido e, por isso, é justamente no rosto que se designa a confissão, que torna o homem conhecido de Deus, o qual conhece o caminho dos justos (cf. Sl 1,6). O justo, diz ele, é o primeiro a acusar a si mesmo (cf. Pr 18,17). “Mostra-me”, portanto, “o teu rosto”, se queres que eu te mostre o meu, no qual os anjos desejam fixar o olhar (cf. 1Pd 1,12). “O teu rosto é formoso.” Formoso é o rosto da confissão pudica. Com efeito, bela é a união da confissão com o rubor da vergonha.

Por isso se diz no livro de Ester que Ester, “com o rosto coberto de cor rósea, com olhos graciosos e brilhantes, ocultava um ânimo triste e contraído por grande temor. Tendo entrado, pois, por todas as portas, uma após outra, parou diante do rei” (Est 15,8-9). Ester é figura da alma penitente, cujo rosto, na confissão, deve estar coberto da cor rósea da vergonha. Vergonha diz-se verecundia porque teme o que é verdadeiro. Quem teme os verdadeiros juízos de Deus possui, sem dúvida, a vergonha que conduz à glória na confissão. Quem, porém, não se envergonha, não teme. Diz Jeremias: “Tens a fronte de uma prostituta; não quiseste enrubescer” (Jr 3,3). Mas Ester tinha o ânimo triste e contraído pelo temor, porque o penitente é oprimido pela tristeza na contrição e se contrai pelo temor na confissão; nela, tem olhos gratos e brilhantes, banhados pelas lágrimas; e assim entra por todas as portas, uma após outra, isto é, enumerando todos os pecados conforme os cometeu, pecados que nos fecham, como portas, a entrada da vida eterna. Uma palavra digna de nota na confissão: “Tendo entrado por todas as portas, uma após outra, parou diante do rei.” Não poderás estar diante de Jesus Cristo se primeiro não tiveres aberto todas as portas, uma após outra; e assim poderás mostrar-lhe o teu rosto. E ele mesmo explica qual é esse rosto, quando acrescenta: “Que a tua voz ressoe aos meus ouvidos, a tua voz é doce.” O esposo deleita-se em ouvir, com os ouvidos da piedade, a melodia da confissão. E observa que ele disse “voz”. A voz é a percussão do ar contra a língua; chama-se assim porque anuncia a vontade da alma. É verdadeira a confissão na qual há uma percussão, isto é, a repreensão dos pecados, que manifesta tudo o que está oculto no interior. Diz-se, portanto, com razão: “Mostrai-vos”. Por vós mesmos, não por meio de outros. Porque pecaste em ti e por ti, deves, por ti mesmo, mostrar-te.

Segue-se: “Aos sacerdotes”, aos quais é imposta a penitência; por isso, por meio deles é figurada a satisfação. Por esta palavra tens claramente que os pecadores devem mostrar-se, na confissão, aos sacerdotes, aos quais foi confiada a autoridade de ligar e desligar.

Segue-se: “E, enquanto iam, ficaram purificados.” Eis quão grande é a misericórdia de Deus, que, somente pela contrição, purifica a alma dos pecados, contanto, porém, que ela tenha o firme propósito de confessá-los. Sobre estas três coisas tens uma concordância em Jó, onde o Senhor fala aos seus amigos: “Tomai”, diz ele, “sete novilhos e sete carneiros; ide ao meu servo Jó e oferecei um holocausto por vós” (Jó 42,8). No novilho e no carneiro são designados a cerviz e os chifres da soberba; quem a mata em si mesmo expulsa de si todos os vícios, designados pelo número sete. No Evangelho o Senhor diz: “Ide”, e em Jó: “Ide”; ali: “mostrai-vos”, e aqui: “oferecei”; ali: “aos sacerdotes”, e aqui: “ao meu servo Jó”.

14. À segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da Epístola: “São manifestas as obras da carne, que são: a fornicação” (Gl 5,19-21), isto é, em latim, formae necatio, a destruição da forma, da imagem de Deus; a impureza, que se comete sem ação, pela profanação da mente; a luxúria, assim chamada pelo excesso e pela suntuosidade dos alimentos e das bebidas; a avareza, que é a “servidão dos ídolos” (cf. Cl 3,5) — avaro é chamado aquele que é ávido de ouro, avidus auri; daí, avareza —; os malefícios, chamados assim a partir de veneno, que recebe esse nome porque percorre as veias; com efeito, não pode fazer mal senão quando toca o sangue; todo veneno é frio e, por isso, a alma, que é ígnea, foge do veneno; os malefícios são as sugestões dos demônios e as adulações dos pecadores, que não podem fazer mal senão quando chegam ao sangue, isto é, ao consentimento da alma; as inimizades perseverantes; as contendas nas palavras; as rivalidades, quando dois tendem à mesma coisa; as iras, súbita tempestade da alma; as rixas, assim chamadas de rictus, o abrir da boca como num rosnado, quando, movidos pela ira, golpeiam-se uns aos outros; as dissensões, quando se formam partidos na Igreja; as seitas, isto é, as heresias, chamadas seitas por causa da divisão, como que um corte; as invejas dos bens alheios; os homicídios, as embriaguezes e as orgias (cf. Gl 5,19-21). De todos esses vícios e pecados nasce na alma a lepra, que a infecta e a expulsa da assembleia dos santos.

Nós te suplicamos, portanto, Senhor Jesus Cristo, que nos purifiques da lepra dos pecados, para que, purificados, possamos retornar à assembleia dos santos e mereçamos subir contigo à Jerusalém celeste. Concede-no, tu, que és bendito pelos séculos. Amém.

III. O estrangeiro retorna para glorificar a Deus

15. Segue-se a terceira parte: “Um deles, vendo que estava purificado, voltou, glorificando a Deus em alta voz; e prostrou-se com o rosto por terra aos seus pés, dando-lhe graças; e este era samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: Não foram purificados os dez? E onde estão os nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, vai, a tua fé te salvou” (Lc 17,15-19). Observa que este estrangeiro fez três coisas: voltou, prostrou-se com o rosto por terra e deu graças.

Volta aquele que não atribui a si nenhum mérito; compreende como dom da misericórdia o bem que faz. Por isso é chamado “samaritano”, isto é, “guardião”, pois atribui a Deus todo o bem que recebe, de modo que pode dizer com o salmista: “Guardarei para ti a minha força” (Sl 58,10), isto é, atribuindo-a a ti. Queres conservar aquilo que recebes? Atribui-o não a ti, mas ao Senhor. Se atribuis a ti o que não é teu, serás condenado como réu de furto. E, se não atribuis a ti o que é de outro, fazes teu aquilo que é de outro. Sobre isso tens uma concordância em Jó, onde o Senhor lhe diz: “Porventura lançarás relâmpagos, e eles irão, e, ao voltar, te dirão: Eis-nos aqui?” (Jó 38,35). Os relâmpagos saem das nuvens; assim também, por meio dos santos pregadores, manifestam-se obras maravilhosas. Os relâmpagos vão quando os pregadores resplandecem com milagres. Ao voltar, porém, dizem: “Eis-nos aqui”, quando atribuem às virtudes de Deus, e não a si mesmos, tudo aquilo que reconhecem ter realizado com fortaleza. Ou ainda: são enviados e vão quando saem do segredo da contemplação para o público da ação; voltam e dizem a Deus: “Eis-nos aqui”, porque, depois das obras exteriores, retornam à contemplação.

16. Do mesmo modo, cai de rosto por terra aquele que se envergonha dos males cometidos. É justamente aí que o homem cai onde se envergonha. Quem cai de rosto por terra vê onde cai; quem cai para trás não vê. Os bons, portanto, caem de rosto por terra, porque se humilham nestas coisas visíveis, nas quais veem o que os espera, para se elevarem às coisas invisíveis. Os maus caem para trás, nas coisas invisíveis, onde não veem o que os espera. Sobre essa dupla queda, temos uma concordância em Jó.

Sobre a primeira, assim se lê: “Jó rasgou as suas vestes, raspou a cabeça e caiu por terra” (Jó 1,20). As vestes são as obras que nos cobrem, para que não nos envergonhemos de estar nus; e, quando a culpa nos faz chorar, nós as castigamos mais severamente, como que com mão irada. Então cai da alma toda elevação e toda superfluidade de pensamentos; nisso consiste cair com a cabeça raspada, isto é, com os pensamentos de presunção reprimidos, reconhecendo quão fraco é o homem em si mesmo. É difícil realizar grandes obras e não depositar em si mesmo grande confiança.

Sobre a segunda queda, assim se lê: “O monte, ao cair, desmorona, e a pedra é removida do seu lugar; as águas escavam as pedras, e, com a inundação, a terra é pouco a pouco consumida” (Jó 14,18-19). Observa que há dois gêneros de tentações: uma que sobrevém por um acontecimento repentino, e outra que pouco a pouco penetra na mente e infecta a alma com sugestões sutis. E o sentido é este: assim como estas coisas inanimadas ora caem rapidamente, ora são consumidas pouco a pouco pela infiltração das águas; assim também alguém, colocado no alto como um monte, ou é derrubado por uma tentação súbita, como Davi, quando viu Betsabéia, ou é lentamente consumido por uma tentação longa e gradual, como Salomão, que, pelo uso imoderado e pela convivência assídua com mulheres, foi levado ao ponto de construir um templo aos ídolos, ele que antes havia construído um templo para Deus. “A pedra”, isto é, a mente do justo, é removida do seu lugar, isto é, da justiça para a culpa, por um impulso excessivo; e “as pedras”, isto é, a fortaleza da mente, são escavadas pelas águas, ou seja, pelos contínuos afagos da luxúria. A inundação é o transbordamento das águas e deriva de alluo, que significa “inundar”.

17. Do seu despojamento, o samaritano deu graças; por isso também o próprio Senhor o louvou, quando disse: “Não foram dez os purificados?”. Procura saber onde estão os ingratos, como se fossem desconhecidos. Nisto somos instruídos a dar graças ao Senhor pelos benefícios concedidos. Com efeito, se Jó, dando graças em meio aos flagelos, bendisse o nome do Senhor, quantas graças não devemos dar a Deus por tantos benefícios concedidos? Como Ezequias, depois da vitória, não cantou ao Senhor um cântico de ação de graças, por isso caiu enfermo (cf. 4Rs 20,1ss). Lemos que Maria, irmã de Moisés, Débora e Judite cantaram ao Senhor um cântico por causa da vitória sobre os inimigos. Nisto aprendemos a oferecer a Deus, doador de todos os bens, cânticos de louvor e ações de graças.

Observe que, nesta passagem, são colocadas três palavras muito notáveis, a saber: um, samaritano e estrangeiro; nelas são assinaladas três virtudes. Em “um”, a concórdia da unidade; em “samaritano”, a salvaguarda da humildade; em “estrangeiro”, a indigência suficiente da pobreza. A estas correspondem três palavras do Senhor: “Levanta-te, vai, porque a tua fé te salvou”. “Levanta-te”, porque és um; “vai”, porque és samaritano; “a tua fé te salvou”, porque és estrangeiro. Quem vive na unidade ergue-se para a retidão da boa obra. Quem se fortifica com a salvaguarda da humildade caminha seguro em toda parte. Quem, neste mundo, como estrangeiro, se distingue pelo sinal da pobreza, é salvo pela fé em Jesus Cristo, que foi pobre e hóspede.

18. A esta terceira parte do Evangelho corresponde a terceira seção da Epístola: “O fruto do Espírito, porém, é a caridade” (Gl 5,22), que Agostinho chama de desejo da alma de gozar do Senhor por causa dele mesmo, e de gozar de si e do próximo em vista de Deus; “a alegria”, isto é, a pureza da consciência; “a paz”, que é a liberdade tranquila, assim chamada de pacto; “a paciência”. Observe que a virtude da paciência se exerce de três modos: algumas coisas suportamos de Deus, como os flagelos; algumas do adversário, como as tentações; algumas do próximo, como as perseguições, os danos e as injúrias; contra todos esses modos devemos vigiar, para não nos precipitarmos em excessivas murmurações contra os flagelos do Criador, para não sermos seduzidos ao consentimento no pecado, para não sermos arrastados à perturbação do mal e para que, agindo assim, não pretendamos exigir que os bens presentes nos sejam retribuídos. “A longanimidade”, na espera; “a bondade”, isto é, a doçura do ânimo; “a benignidade”, isto é, a generosidade nas coisas; benigno é aquele que está disposto a fazer o bem, ou que é assim chamado por ser bem inflamado; “a mansidão”, que não causa injúria a ninguém; manso é assim chamado por estar acostumado à mão; “a fé”, pela qual cremos verdadeiramente naquilo que de modo algum podemos ver; propriamente, porém, e segundo o som da palavra, chama-se fé quando se cumpre inteiramente aquilo que foi dito; “a modéstia”, que observa a medida nas palavras ou nos atos; “a continência”, que se abstém das coisas lícitas; “a castidade”, que usa retamente do que é lícito. Feliz a árvore que produz tais frutos! Feliz a alma que se alimenta de tais frutos! Não poderás ter estes frutos, a não ser que retornes com aquele único samaritano e estrangeiro, que caias com o rosto por terra e dês graças. E assim merecerás ouvir: “Levanta-te, vai em paz, porque a tua fé te salvou”.

Rogamos, portanto, a ti, Senhor Jesus Cristo, que nos conserves na unidade, que nos guardes na humildade e na pobreza, para que colhamos os frutos do Espírito da árvore da penitência e, na glória celeste, comamos da árvore da vida.

Concedendo-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.