Evangelho do décimo terceiro domingo depois de Pentecostes: “Bem-aventurados os olhos”, que se divide em três partes.
Primeiramente, tema do sermão sobre a utilidade da pregação, no trecho: “Uma torrente divide a pedra da escuridão”.
[Da primeira parte.] Também sobre a Natividade e a Paixão do Senhor, no trecho: “Serei bem-aventurado”; e no trecho: “Costurei um saco sobre a minha pele”.
Também tema sobre a Natividade do Senhor, no trecho: “Se houver para ele um anjo”; e no trecho: “Como um grão de mostarda”.
[Da segunda parte.] Tema do sermão sobre o amor de Deus e a posição do coração no homem, no trecho: “Amarás o Senhor teu Deus”.
Também sobre a Paixão, no trecho: “Um feixe de mirra”.
Também sobre a alma e suas potências, no trecho: “Com toda a tua alma”.
Também contra os carnais, no trecho: “O cascalho lhe foi leve”.
Também sobre os quatro [“três”] amigos de Jó e seus significados, no trecho: “Elifaz”.
Também sermão moral sobre a vida do prelado ou do pregador, no trecho: “A lâmpada de Deus brilhava sobre a minha cabeça”.
Também sobre a vida do homem justo, no trecho: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó”.
Também contra os que desejam a louvação humana, no trecho: “Se vi o sol”.
Também tema do sermão aos penitentes, no trecho: “Se te levantares de madrugada”.
[Da terceira parte.] Tema sobre a queda do primeiro pai e a misericórdia do Redentor, no trecho: “Um homem descia de Jerusalém”.
Também sermão moral sobre os sete filhos de Jó, que são as sete bem-aventuranças, no trecho: “Um homem”.
Também tema do sermão sobre a penitência do homem justo, no trecho: “Pereça o dia”.
Também contra os hipócritas e os que desejam a excelência da dignidade, no trecho: “Aconteceu que um sacerdote passava por ali”; e no trecho: “Abimelec combatia”; e no trecho: “São como onagros”, e tudo o mais que segue nesse lugar.
1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes” (Lc 10,23) etc.
Diz Jó: “Uma torrente separa a pedra da treva e a sombra da morte do povo peregrino” (Jó 28,3-4). Vejamos o que significam a pedra da treva, a sombra da morte, a torrente e o povo peregrino.
A torrente é a pregação. Pois, assim como a torrente é abundante no inverno e seca no verão — por isso se diz que cresce com a chuva e seca com a estiagem —, assim também a pregação é abundante, e deve ser abundante, no inverno da presente miséria. Dessa torrente, no caminho deste exílio, a alma, afastada do rosto e dos olhos de Deus, deve beber, sobre ela repousar, como uma pomba, e contemplar a si mesma. Mas o mesmo Jó investe contra a alma infeliz, dizendo: “Não verá as correntes dos rios, as torrentes de mel e de manteiga” (Jó 20,17). No rio é figurada a água da compunção, que lava as imundícies dos pecados; na torrente de mel, a Sagrada Escritura, que consola e ilumina — pois o mel, como se diz no Primeiro Livro dos Reis, iluminou os olhos de Jônatas (cf. 1Rs 14,27) —; na torrente de manteiga, é figurada a devoção produzida pela graça, que enriquece a mente. A alma, portanto, entregue aos prazeres da carne, não vê as correntes do rio, porque não chora por si mesma, nem as torrentes de mel e de manteiga, porque não é iluminada pela doçura da pregação, nem enriquecida pela devoção produzida pela graça. Essa torrente secará no verão, isto é, na bem-aventurança da vida eterna. Por isso, Jeremias diz: “Ninguém mais ensinará o seu próximo nem o seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, do menor ao maior” (cf. Jr 31,34).
Quão grande, porém, seja nesse meio-tempo a utilidade da pregação, mostra-o Jó, quando diz: “A pedra da treva” etc. A pedra é assim chamada porque fere o pé. A treva, produzida pela densidade do ar, é assim chamada porque nasce sobretudo do calor do ar. A pedra da treva é a tentação do diabo, o qual, habitando neste ar tenebroso, insinua na mente a treva de sua sugestão ardente, para ferir e perverter o próprio afeto. A sombra é o ar privado do sol, e assim se chama porque se forma quando um corpo se interpõe aos raios do sol. A morte é assim chamada por ser amarga. A sombra da morte é o esquecimento da mente. O homem miserável interpõe as riquezas, como um certo corpo, aos raios do verdadeiro Sol, para encontrar sob elas refrigério, como sob uma sombra; mas, quando é coberto por tal sombra, fica privado do conhecimento e da lembrança do Senhor. Com efeito, as coisas temporais fazem Deus cair no esquecimento. Por isso, no Gênesis, se diz que, “tendo voltado à prosperidade, o chefe dos copeiros se esqueceu daquele que lhe havia interpretado o sonho” (Gn 40,23). A torrente, portanto, isto é, a pregação, separa a pedra da treva, isto é, a tentação do diabo, e a sombra da morte, isto é, o esquecimento da mente, do povo peregrino, isto é, dos penitentes, dos pobres de espírito, dos seguidores dos apóstolos, que se consideram miseráveis e peregrinos, exilados e hóspedes neste exílio; a eles diz o Senhor no Evangelho de hoje: “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes” etc.
2. Observa que neste Evangelho se destacam três coisas. Primeiro, a bem-aventurança dos que veem Cristo, quando se diz: “Bem-aventurados os olhos”. Segundo, o amor de Deus e do próximo, quando se acrescenta: “Eis que um doutor da Lei”. Terceiro, a descida do homem de Jerusalém a Jericó, quando se prossegue: “Um homem descia de Jerusalém” etc.
No Introito da missa de hoje canta-se: “Olha, ó Deus, nosso protetor” (Sl 83,10). E lê-se a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo aos Gálatas: “A Abraão foram feitas as promessas”. Queremos dividi-la em três partes e relacioná-las com as três partes do santo Evangelho. A primeira parte é: “A Abraão foram feitas as promessas”. A segunda: “Ora, digo isto: um testamento”. A terceira: “Mediador” etc. E observa que esta é a razão pela qual esta epístola é lida com este Evangelho: precisamente porque o conteúdo de ambos, isto é, do Evangelho e da epístola, concorda com a Lei dada por Moisés.
3. Digamos, portanto: “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes. Pois eu vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram, e ouvir o que ouvis, e não o ouviram” (Lc 10,23-24). Por isso dizia Tobias: “Serei feliz se restar algum remanescente da minha descendência para ver a glória de Jerusalém” (Tb 13,20), isto é, a humanidade de Jesus Cristo. Os remanescentes da descendência do bem-aventurado Tobias foram os apóstolos: “descendência que o Senhor abençoou” (Is 61,9), da qual Isaías diz: “A descendência santa será aquilo que dela permanecer” (Is 6,13), isto é, a Igreja. Eles foram a descendência de Tobias pela fé e pela paciência e, por isso, mereceram ver a glória de Jerusalém. Por isso lhes é dito: “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes”. Viam um homem, mas criam que ele era Deus (cf. Jo 20,28). Bem-aventurados os olhos puros de coração, que veem Jesus Cristo. Por isso diz Jó: “Agora, porém, os meus olhos te veem” (Jó 42,5). Bem-aventurados os olhos que não são cegados pelo esterco das riquezas nem obscurecidos pela remela das preocupações, porque eles veem o Filho de Deus envolto em pobres paninhos, reclinado numa manjedoura, fugitivo no Egito, sentado sobre um jumentinho, nu e suspenso no patíbulo da cruz. Assim o viram os apóstolos. Assim não podem vê-lo os olhos remelosos. Por isso, no Salmo: “Caiu sobre eles o fogo, e não viram o sol” (Sl 57,9). Os olhos remelosos não podem contemplar o sol.
4. O sol é Cristo, que, para poder ser visto, envolveu-se numa nuvem. Por isso, ele mesmo diz em Jó: “Costurei um saco sobre a minha pele e cobri de cinza a minha carne. Meu rosto inchou de tanto chorar, e minhas pálpebras se obscureceram. Sofri tudo isso sem que minhas mãos tivessem culpa, tendo oferecido a Deus preces puras. Ó terra, não cubras o meu sangue, e não haja em ti lugar onde o meu clamor permaneça oculto” (Jó 16,16-19). No saco e na cinza são figuradas as tribulações e a baixeza da natureza humana. Jesus Cristo fez para si uma túnica com o saco da nossa natureza, costurou-a com a agulha, isto é, pela obra misteriosa do Espírito Santo, e com o fio, isto é, com a fé da bem-aventurada Virgem, e vestiu-se dela; depois espalhou sobre essa túnica a cinza da humildade e da baixeza. Os olhos remelentos e malditos não podem vê-lo. Ai de mim! O rosto de Jesus Cristo ficou inchado de bofetadas e lágrimas. Ele suportou isso sem que suas mãos tivessem culpa; ele não cometeu pecado, nem se encontrou dolo em sua boca (cf. Is 53,9); ofereceu a Deus Pai preces puras em favor dos imundos e dos criminosos; ele, como diz Isaías, intercedeu pelos transgressores (cf. Is 53,12), dizendo: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23,34) etc. Ó terra, isto é, ó pecador, não cubras com o amor das coisas terrenas o meu sangue, preço da tua redenção; permite, peço-te, que ele produza em ti o seu fruto. Na tua fronte escrevi com o meu sangue o sinal do “tau” (T), para que o anjo encarregado de ferir não te ferisse também (cf. Ez 9,4-5). Não cubras, portanto, peço-te, esse sangue com terra; não destruas a inscrição do título, que Pilatos não apagou, mas confirmou, dizendo: “O que escrevi, escrevi” (Jo 19,22).
“Nem encontre em ti lugar onde o meu clamor permaneça oculto.” O clamor de nosso Redentor é o sangue da Redenção, que, como diz o Apóstolo na Carta aos Hebreus, fala melhor que o sangue de Abel (cf. Hb 12,24); pois o sangue de Abel pedia a morte do fratricida, ao passo que o sangue do Senhor obteve a vida para seus perseguidores. Esse clamor encontra em nós um lugar onde é sufocado, se a língua cala aquilo em que a mente crê. Esse saco, essa cinza, os olhos remelentos não os veem; esse clamor, os ouvidos surdos não o ouvem. Por isso, o Senhor acrescenta: “Digo-vos que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes, mas não o viram, e ouvir o que ouvis, mas não o ouviram”.
Nos profetas são figurados os prelados da Igreja; nos reis, os poderosos deste mundo. Uns e outros desejam ver Cristo no céu, mas não querem contemplá-lo suspenso no patíbulo. Querem reinar com Cristo, mas também gozar com o mundo. Todos estes dizem com Balaão, no Livro dos Números: “Morra a minha alma da morte dos justos” (Nm 23,10). Querem ver a glória da divindade, que os apóstolos viram, mas não querem suportar a ignomínia da Paixão, a pobreza de Jesus Cristo, que seus discípulos suportaram; e, por isso, não o verão com os apóstolos, mas, com os ímpios, verão aquele a quem traspassaram (cf. Jo 19,37). Nem ouvirão o sussurro de uma brisa suave (cf. 3Rs 19,12): “Vinde, benditos de meu Pai”, mas ouvirão o trovão: “Ide, malditos” (Mt 25,41).
5. A respeito disso, diz Jó: “Quem poderá contemplar o trovão de sua grandeza?” (Jó 26,14). E novamente: “Porventura seguraste as extremidades da terra, sacudindo-as, e expulsaste dela os ímpios?” (Jó 38,12-13). O Senhor segurou as extremidades da terra quando escolheu o que no mundo é fraco e desprezado, para por meio disso confundir os fortes (cf. 1Cor 1,27). Observa estas duas palavras: “seguraste, sacudindo”. O pai segura o filho com uma mão e, com a outra, sacudindo-o, bate nele: segura-o para que não caia no precipício, e bate nele para que não se torne insolente e soberbo. Assim, o Senhor segura com a mão da misericórdia o homem justo, para que não caia no pecado; bate nele para que não se ensoberbeça da graça paterna. Por isso, diz o Apóstolo: “Para que a grandeza das revelações não me enchesse de soberba” (2Cor 12,7) etc.
Segue-se: “E expulsaste dela os ímpios”. No dia do juízo, o Senhor sacudirá os ímpios da nossa terra, na qual pecaram, e os lançará no inferno, como se sacode a poeira de um saco. A própria terra, oprimida pelo peso dos próprios pecados, sacudirá os ímpios e os lançará no inferno, onde haverá o pranto dos olhos que se perderam atrás das vaidades e o ranger dos dentes (cf. Mt 8,12) daqueles que arrancaram aos pobres os seus bens. Os olhos de todos esses não verão Jesus no céu, mas a multidão dos demônios no inferno. Não ouvirão a melodia dos anjos, mas o ranger dos dentes.
6. A esta conclusão corresponde o intróito da missa de hoje: “Ó Deus, nosso protetor, olha para nós e contempla o rosto do teu Cristo. Pois um só dia em teus átrios vale mais que milhares” (Sl 83,10-11). Bem-aventurados os olhos que, na amargura do coração, verão o rosto de Jesus Cristo, inchado de bofetadas e lágrimas, coberto de escarros, porque esse mesmo rosto, no qual os anjos desejam fixar o olhar (cf. 1Pd 1,12), eles o contemplarão glorioso nos átrios da Jerusalém celeste. A respeito dele diz Jó: “Verá o seu rosto no júbilo” (Jó 33,26), como se dissesse: se aqui o homem primeiro contemplar o rosto de Jesus Cristo na amargura do coração, tal como ele o teve na Paixão, depois o verá, no júbilo da mente — júbilo que não se pode nem exprimir nem calar — tal como o tem na bem-aventurança eterna. O esplendor desse rosto é aquele único dia que, sem interrupção, ilumina a cidade de Jerusalém, superando todo esplendor; para merecermos chegar a ele, roguemos ao Pai, dizendo: “Ó Deus, nosso protetor, olha para nós.” A proteção de Deus parece menos necessária quando é sempre concedida; convém que às vezes seja retirada, para que se manifeste que, sem ela, o homem nada é. “Ó Deus, nosso protetor, olha para nós e contempla o rosto do teu Cristo.” Pai, não olhes para os nossos pecados, mas contempla o rosto do teu Cristo, que, por causa dos nossos pecados, foi coberto de escarros e ficou inchado de bofetadas e lágrimas, para nos reconciliar contigo, a nós pecadores. Ele, para obteres misericórdia para nós, mostrou-te o rosto golpeado pelas bofetadas, para que olhasses para ele e, olhando-o, te tornasses propício a nós, que fomos a causa de sua Paixão.
7. Sobre isso, tens ainda uma concordância no livro de Jó: “Se houver um anjo que fale em seu favor, um dentre os semelhantes, para anunciar a justiça do homem, terá misericórdia dele e dirá: Livra-o, para que não desça à corrupção; encontrei um motivo para ser-lhe propício. Sua carne, porém, foi consumida pelos tormentos; que retorne aos dias de sua adolescência” (Jó 33,23-25). Por este anjo entende-se Cristo; ele fala por nós ao Pai como alguém semelhante a nós em uma só coisa. Com efeito, embora em todas as suas ações nos transcenda por força imensa, em uma única coisa, isto é, na realidade de sua condição de servo, não difere de nós (cf. Fl 2,7); e, ao falar por nós ao Pai, pelo fato de mostrar-se semelhante a nós, fala ao Pai precisamente por aquilo em que nos é semelhante. Seu falar consiste em mostrar-se homem em nosso favor; além dele, não se encontraria nenhum justo que, sem pecado, intercedesse pelos pecadores. “Terá misericórdia dele e dirá.” O Mediador compadece-se do homem porque assumiu a condição humana. “E dirá: Livra-o, para que não desça à corrupção.” Seu dizer é libertar o homem, demonstrando livre a natureza humana ao assumi-la. Pois, pela carne que assumiu, mostrou também livre aquela que redimiu. “Encontrei um motivo para ser-lhe propício”, como se dissesse abertamente: Como não havia homem algum que aparecesse diante de Deus como justo intercessor pelos homens, eu mesmo me fiz homem para ser propício aos homens. E, apresentando-me como homem, encontrei no próprio homem o motivo para ser propício aos homens. “Sua carne foi consumida pelos tormentos” etc. Com efeito, o gênero humano era oprimido por inumeráveis tormentos de vícios e castigos; mas, com a vinda do Redentor, retorna aos dias de sua adolescência, isto é, é renovado pela integridade de sua vida anterior, para não permanecer na condição em que caiu, mas, redimido, retornar àquilo para cuja posse foi criado.
8. A esta primeira cláusula corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “A Abraão foram feitas as promessas e à sua descendência. Não diz: ‘E às suas descendências’, como se fossem muitas, mas, como a uma só: ‘E à tua descendência’, que é Cristo” (Gl 3,16), o qual foi como um grão de mostarda semeado no jardim da Bem-aventurada Virgem: pela pobreza e humildade, foi, em sua Natividade, o menor de todas as sementes, isto é, de todos os homens; cresceu em sua pregação e na realização de milagres, e nisso foi maior que todas as plantas, isto é, que os pais do Antigo Testamento; tornou-se árvore em sua Ressurreição, estendeu seus ramos na pregação dos apóstolos, e assim as aves do céu, isto é, os fiéis da Igreja, vêm pela fé e habitam, pela esperança e pela caridade, em seus ramos, isto é, em suas doutrinas e exemplos (cf. Mt 13,31-32). Por isso, são bem-aventurados os que agora veem pela fé aquele em quem são abençoadas todas as nações, para depois contemplá-lo por visão na glória celeste e ouvi-lo dizer: “Vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25,34).
À visão e à escuta desta voz digne-se conduzir-nos o próprio Cristo bem-aventurado, que é Deus bendito pelos séculos eternos. Amém.
9. Vem em seguida o segundo: “E eis que certo doutor da Lei se levantou para pô-lo à prova e disse: Mestre, que fazendo eu possuirei a vida eterna? Ele, porém, lhe disse: Que está escrito na Lei? Como lês? Respondendo, ele disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente, e o teu próximo como a ti mesmo. E ele lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás” (Lc 10,25-28). Observa que nesta passagem está contida toda a perfeição do caminho e da pátria. Cada uma das palavras que se encontram nesta sentença é de grande força e de grande utilidade. Por isso, discorramos brevemente sobre cada uma delas.
A dileção assim se chama porque liga em si dois. Pois a dileção começa por dois; ela é o amor de Deus e do próximo, e costuma ser entendida somente entre os bons. Diligere, amar, significa ligar dois. Senhor é chamado assim porque domina toda a criatura, ou porque preside à casa, ou como que dando ameaças. Deus, “Eloe” em hebraico, em latim significa “temor”; em grego, “theos”, porque se diz “theoreo”, “vejo”, pois ele vê todas as coisas. “Theo” também significa “corro”, porque percorre todas as coisas. A dileção liga Deus e o próximo. Esta é aquela linha da qual o Senhor diz no livro de Jó: “Quem estendeu sobre ela a linha? Sobre que foram firmadas as suas bases?” (Jó 38,5-6). O Senhor estendeu sobre a alma a linha de sua dileção, para que ela se prolongasse até o amor do próximo. “Sobre que”, senão sobre Jesus Cristo, “foram firmadas as suas bases”, isto é, as intenções puras da alma, nas quais se apoia todo o edifício das virtudes? Se a base de toda intenção não estiver firmada em Cristo, toda a construção da obra ameaça ruir, e grande será essa ruína. “Amarás, portanto, o Senhor teu Deus.”
Observa estes dois termos: “Senhor” e “Deus”. Senhor, porque domina toda a criatura; Deus, porque vê tudo e percorre tudo. Por isso, dele diz Sofar, o naamatita, no livro de Jó: “É mais alto que o céu: que farás? É mais profundo que o inferno: como o conhecerás? Sua medida é mais longa que a terra e mais larga que o mar. Se subverter tudo ou tudo reunir numa só coisa, quem lhe resistirá? Ou quem poderá dizer-lhe: Por que fazes assim?” (Jó 11,8-10; 9,12).
Observa: os céus são chamados os anjos, os infernos, os demônios, a terra, os homens justos, e o mar, os pecadores. Portanto, os anjos não alcançam a sua altura; ele julga a astúcia dos demônios muito mais sutilmente do que eles pensam; a sua paciência supera a longanimidade dos justos, e sua presença ocupa em toda parte os atos dos pecadores. Ou então: o homem é céu pela contemplação, inferno pela escuridão das tentações, terra quando dá fruto, e mar quando é agitado pela inconstância. Mas também a contemplação do homem falha diante de Deus; e, se ele se examina nas tentações, teme os juízos mais sutis de Deus; e a retribuição de suas obras, no fim, supera-as. E, por mais que a mente se agite na busca, não chega a conhecer a severidade do futuro juízo. Do mesmo modo, ele tem largura ao amar, comprimento ao tolerar, altura ao superar os desejos do intelecto, profundidade ao julgar os movimentos ilícitos do pensamento. Ele subverte o céu quando destrói a contemplação do homem; o inferno, quando permite que o temeroso, nas tentações, caia em coisas piores; a terra, quando, por meio das adversidades, interrompe o fruto da boa obra; o mar, quando confunde a nossa hesitação com o terror do juízo. O céu e o inferno são simultaneamente reunidos quando a mesma mente é elevada pela contemplação e obscurecida pela tentação. A terra e o mar são simultaneamente reunidos quando a mesma mente é fortalecida pela fé segura nas coisas eternas e também agitada por alguma instabilidade, pelo sopro da dúvida. Tal e tão grande Deus deve ser amado. “Amarás, portanto, o Senhor teu Deus de todo o teu coração” etc.
Diz “teu”, e por isso deve ser amado ainda mais; pois amamos mais as coisas nossas que as alheias. É digno de ser amado por ti aquele que, sendo o Senhor teu Deus, se fez teu servo, para que te tornasses dele e não te envergonhasses de servi-lo. “Fizeste-me servir”, diz ele em Isaías, “em teus pecados” (Is 43,24). Durante trinta e três anos, o teu Deus se fez teu servo por causa dos teus pecados, para libertar-te da servidão do diabo. “Amarás”, portanto, “o Senhor teu Deus”, que te fez; fez-se a si mesmo por ti; deu-se todo a ti, para que tu te desses todo a ele. “Amarás”, portanto, “o Senhor teu Deus.” Na primeira obra, quando não existias, ele te deu a ti mesmo; na segunda obra, quando existias no mal, deu-se a si mesmo a ti, para que fosses bom; e, quando se deu a ti, restituiu-te a ti mesmo. Tendo sido, portanto, dado e restituído, tu deves a ti mesmo a ele: deves-te duas vezes e deves-te todo. “Amarás”, portanto, “o Senhor teu Deus de todo o teu coração” etc. Aquele que disse “todo” não deixou para ti uma parte de ti mesmo, mas ordenou que lhe oferecesses todo o teu ser. Pois, com todo o seu ser, comprou todo o teu ser, para que somente ele possuísse todo o teu ser. “Amarás”, portanto, “o Senhor teu Deus de todo o teu coração.” Não queiras, portanto, como Ananias e Safira, reservar para ti uma parte de ti mesmo, para não pereceres inteiramente com eles (cf. At 5,1-10). Ama, portanto, com todo o teu ser, e não com uma parte. Deus não tem partes, mas está todo inteiro em toda parte; por isso, não quer uma parte do que é teu, ele que está todo inteiro naquilo que é seu. Se reservas para ti uma parte de ti mesmo, és teu, e não dele. Queres ter tudo? Dá-lhe o que é teu, e ele te dará o que é dele; e assim nada terás de ti mesmo, porque terás todo ele com todo o teu ser. “Amarás, portanto, o Senhor teu Deus” etc.
10. Observa estas quatro coisas: o coração, a alma, as forças e a mente. A posição do coração está no meio do peito do homem; inclina-se um pouco para a esquerda, pois se afasta um pouco da linha divisória que existe entre os seios; inclina-se para o seio esquerdo e está na parte superior do peito; não é grande, nem sua forma é alongada, mas inclina-se um pouco para a forma arredondada, e sua extremidade é estreita e aguda.
Ó homem, a disposição e a forma do teu coração te ensinam como deves amar o Senhor teu Deus. O teu coração está situado no meio do peito, entre os dois seios. Nos dois seios é designada uma dupla memória: a da Encarnação do Senhor e a da Paixão, das quais a alma se nutre como de dois seios. No seio direito entende-se a memória da Encarnação; no esquerdo, a da Paixão. Entre esses seios deve estar situado o teu coração, para que tudo quanto pensas, tudo quanto retamente ponderas, refiras inteiramente à pobreza e à humildade da Encarnação e à amargura da Paixão do Senhor. Por isso diz a esposa no Cântico dos Cânticos: “O meu amado é para mim um ramalhete de mirra; repousará entre os meus seios” (Ct 1,12).
A alma, esposa de Jesus Cristo, amado Filho de Deus Pai, faz para si um ramalhete de mirra com toda a vida de seu amado. Recorda, com efeito, como ele foi reclinado numa manjedoura, envolto em faixas e levado fugitivo para o Egito, exilado, pobre e peregrino; como foi muitas vezes alvo das injúrias e blasfêmias dos judeus; como foi traído por um discípulo, amarrado pela coorte do governador, conduzido a Anás e Caifás, atado à coluna e flagelado por Pôncio Pilatos, coroado de espinhos, esbofeteado, coberto de escarros, e como foi crucificado entre ladrões e homicidas. Reunindo todos esses sofrimentos e ligando-os firmemente pelo vínculo da devoção, faz para si um ramalhete de mirra, isto é, de amargura e dor, e o coloca entre os seios, onde está situado o coração. Sobre o coração da esposa, isto é, da alma, deve estar sempre um tal ramalhete de mirra.
E observa que, assim como o coração se inclina um pouco para o seio esquerdo, assim também a compaixão e a devoção do coração devem voltar-se para a amargura da Paixão do Senhor. Por isso Madalena derramou primeiro sobre os pés do Senhor, nos quais é designada a sua Paixão, as suas lágrimas e o perfume. Chora sobre os pés do Senhor aquele que se compadece dele em seu sofrimento; unge-os aquele que dá graças pelo benefício da Paixão. Devemos, com efeito, à Paixão de Jesus Cristo ambas as coisas: a dor e a devoção.
E assim como o teu coração está na parte superior do peito, assim também o seu pensamento e a sua vontade devem estar na glória superior. Onde está o teu tesouro, Jesus Cristo, o maná na arca de ouro, aí deve estar também o teu coração (cf. Mt 6,21).
E assim como o teu coração não é grande, nem sua forma é alongada, mas se inclina um pouco para a redondeza, assim também não sejas grande pela exaltação, nem alongado pela cobiça, mas vive de modo redondo e perfeito. Pois aquilo que é redondo não sofre diminuição.
E assim como a extremidade do coração é estreita e aguda, assim pensa sempre que a extremidade da tua vida será estreita e aguda. Estreita, porque terás de passar pelo estreitíssimo caminho da morte, pelo qual não poderás levar contigo coisa alguma, exceto os teus pecados, que não são substância. Aguda, porque o temor do juiz te traspassará, e o horror da pena te estimulará. Portanto, enquanto tens o coração sob o teu poder, “ama o Senhor teu Deus de todo o teu coração”.
11. “E com toda a tua alma.” A alma é uma substância incorpórea, intelectual, racional, invisível, de origem desconhecida, que nada de terreno tem misturado em si. Alma é como se dissesse “ánemos”, termo grego que significa “movimento”, porque está sempre em movimento próprio e move os corpos; ou como se dissesse “aná-mne”, isto é, “aná-mneia”, que em grego significa “recordação”; ou é composta de “a” e “nemo”, que em grego significa “conferir”, porque confere a vida aos corpos; ou “anáima”, isto é, “sangue superior”. Ama, portanto, o Senhor teu Deus com toda a tua alma, para que refiras ao seu amor o teu movimento, o teu pensamento e a tua vida.
Além disso: “Com todas as tuas forças.” Observa que são três as forças da alma: a racional, a concupiscível e a irascível. Pela racional distinguimos o bem do mal; pela concupiscível desejamos os próprios bens; pela irascível detestamos os males. Essas forças perderam os efeminados, dos quais diz Jó: “Foi doce à pedregosa torrente do Cocito, e atrás de si arrasta todo homem” (Jó 21,33). Pedregulhos são as pedras dos rios, que a água arrasta em sua corrente. Cocito, em grego, significa em latim o pranto das mulheres ou dos enfermos. Os filósofos afirmam que o rio Cocito corre junto aos Infernos, significando que ali há pranto para os iníquos. Doce é, portanto, o amor às pedras transitórias do Cocito, isto é, àqueles que não querem resistir vigorosamente aos prazeres e, por suas quedas diárias, caminham para o pranto eterno. “Atrás de si arrasta todo homem”, isto é, o homem inteiro, ou seja, a força racional, a concupiscível e a irascível: a prudência mundana arrasta a racional; o prazer da carne, a concupiscível; e a vanglória, a irascível.
12. Estes são os “três” amigos de Jó: Elifaz, o temanita; Baldad, o suíta; e Sofar, o naamatita (cf. Jó 2,11).
Elifaz interpreta-se “desprezo do Senhor”; Temanita interpreta-se “austro”, e significa a prudência mundana, que provém do austro, vento quente, isto é, da cobiça do mundo, porque os filhos deste século são mais prudentes em sua geração (cf. Lc 16,8), etc. Ela despreza a sabedoria do Senhor e, por isso, é desprezada por ela. Por isso diz Isaías: “Quando, cansado, terminares de desprezar, serás desprezado” (Is 33,1).
Baldad interpreta-se “somente velhice”; Suíta interpreta-se “aquele que fala”, e significa o prazer da carne, que começou com os primeiros pais e, pela sucessão das gerações, envelhece a pele dos filhos. Este patrimônio nos foi deixado pelo velho Adão; esta velhice teve origem na fala da serpente. Por isso diz o penitente no Salmo: “À voz do meu gemido”, isto é, à sugestão do prazer, que é causa do meu gemido, “aderiu o meu osso”, isto é, a minha razão ou a minha força, “à minha carne” (Sl 101,6), isto é, à minha carnalidade.
Sofar interpreta-se “destruição do observatório”; Naamatita, “decoro”, e significa a vanglória, que nasce de um falso decoro da religião, pelo qual se destrói o observatório da contemplação e de toda boa obra. “Receberam”, diz ele, “a sua recompensa” (Mt 6,5).
Por esses três são destruídas as três forças da alma; por isso é necessário que o bem-aventurado Jó, que se interpreta “dolente”, isto é, o penitente que se aflige para se livrar da dor, não ouça nem dê atenção a esses três amigos, aos quais ele próprio chama “meus amigos loquazes” (Jó 16,21), para que ame o Senhor seu Deus com todas as suas forças.
13. “E com toda a tua mente.” A mente é uma certa parte da alma, pela qual se percebem toda a razão e toda a inteligência. É chamada mente porque se sobressai na alma, ou porque se recorda. Com efeito, a mente não é a alma, mas aquilo que na alma é superior: a parte mais excelente da alma, da qual procede a inteligência. Por isso, o próprio homem é chamado imagem de Deus segundo a mente. Contudo, todas essas coisas estão unidas à alma de tal modo que constituem uma só realidade. Com efeito, a alma recebeu nomes diversos segundo as operações das quais é causa eficiente. Quando vivifica o corpo, é alma; quando quer, é ânimo; quando sabe, é mente; quando julga retamente, é razão; quando inspira, é espírito; quando sente algo, é sentido. “Ama, portanto, o Senhor teu Deus com toda a tua mente”, para que tudo quanto recordas, sabes e compreendes o refiras ao amor de Deus.
Segue-se: “E o teu próximo como a ti mesmo.” Sobre isso, procura na primeira cláusula do Evangelho: “Havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e linho” (“Domingo I depois de Pentecostes”). Sobre o mesmo assunto, tens uma concordância no livro de Jó, onde diz: “Visitando a tua espécie, não pecarás” (Jó 5,24). Procura a exposição desta autoridade na segunda cláusula do primeiro sermão: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (“Domingo da Septuagésima”).
14. A esta segunda cláusula concorda a segunda parte da Epístola: “Digo isto: um testamento confirmado por Deus” (Gl 3,17). Chama-se testamento porque é uma vontade escrita e confirmada com testemunhas. A vontade de Deus é o amor a ele e ao próximo, que foi escrita na lei da natureza, da letra e da graça, confirmada por testemunhas, às quais disse: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,12). Este testamento foi confirmado pela morte do testador. Por isso, em João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, isto é, até a morte (Jo 13,1). Não porque o seu amor termine com a morte, mas porque amou-os a tal ponto que o amor o levou até a morte.
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que nos prendas pelo amor de ti e do próximo, para que possamos amar-te “de todo o coração”, isto é, com fortaleza, para não sermos afastados; “com toda a alma”, isto é, com sabedoria, para não sermos enganados; “com todas as forças e com toda a mente”, isto é, docemente, para que, seduzidos, não nos desviemos do teu amor, e possamos amar o próximo como a nós mesmos.
Concede-nos isso tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
15. “Faze isto e viverás.” Diz Jó: “Brilhava a lâmpada de Deus sobre a minha cabeça. Lavava os meus pés no leite, e a rocha derramava para mim ribeiros de óleo” (Jó 29,3.6). Na lâmpada é simbolizada a pregação; na cabeça, a mente; no leite, a compunção das lágrimas; nos pés, os afetos do coração; na rocha, Cristo; e no óleo é designada a graça do Espírito Santo. Quando, portanto, a lâmpada da pregação brilha sobre a mente do pecador, ela lava as sujeiras dos pés, isto é, dos afetos do coração, no leite da compunção que dimana da abundância do amor; e assim a rocha, isto é, Jesus Cristo, derrama para ele ribeiros de óleo, isto é, a abundante graça do Espírito Santo, pela qual, iluminado no presente, viverá na glória futura. Por isso, diz o Senhor: “Faze isto e viverás”.
Observa estas três palavras: “Isto, faze, e viverás”. Nelas se entendem três coisas: a doutrina, a vida e a glória. “Isto”: eis a doutrina; “faze”: eis a vida; “e viverás”: eis a glória. Ó homem, faze na prática aquilo que ouves na pregação. Quando brilhar a lâmpada sobre a tua cabeça, lava os teus pés no leite; e assim viverás, porque a rocha te derramará ribeiros de óleo, isto é, estas palavras que ouves: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente”. A esses quatro modos de amar correspondem aquelas quatro qualidades que são apresentadas no início do livro de Jó: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó; e era esse homem simples e reto, temia a Deus e afastava-se do mal” (Jó 1,1). Na terra de Hus, isto é, do conselho, habita o homem justo, que observa os conselhos do Senhor como os seus preceitos. Ele é simples na pureza do coração, reto no afeto da alma, temente a Deus no exercício ordenado das forças naturais, e afastado do mal na firmeza da mente.
“Faze isto”, para que sejas simples, isto é, sem dobra de fraude, buscando não a tua glória, mas a de Deus, e dizendo com Jó: “Se vi o sol quando brilhava e a lua avançando claramente, e o meu coração se alegrou em segredo, e beijei a minha mão com a minha boca — isso seria uma iniquidade máxima e uma negação contra o Deus altíssimo” (Jó 31,26-28). O sol em seu fulgor é a boa obra em sua manifestação. A lua que avança claramente é a fama que, brilhando na noite desta vida, recebe força da boa obra. “E” não “se alegrou em segredo o seu coração.” Há, com efeito, alguns que se exaltam com os próprios louvores e se comprazem consigo mesmos. “E beijei a minha mão com a minha boca.” Pela mão é designada a ação; pela boca, a palavra. Beija, portanto, a própria mão com a boca aquele que louva o que faz. “Isso é uma iniquidade máxima” etc., porque se demonstra que nega a graça de seu autor todo aquele que atribui a si mesmo aquilo que realiza. Faze isto, isto é, procede de tal modo que não vejas o sol da boa obra e a lua da fama brilhante para te alegrares com isso, e não louves o que dizes, mas atribui tudo ao teu Criador.
16. Igualmente: “Faze isto”, para que sejas reto. Por isso, diz Baldad, o suíta, no livro de Jó: “Se te levantares ao amanhecer para Deus e suplicares ao Onipotente; se caminhares puro e reto, ele imediatamente velará por ti e tornará pacífica a morada da tua justiça, de tal modo que o teu estado anterior será pequeno e o teu estado final se multiplicará sobremaneira” (Jó 8,5-7). “Se te levantares ao amanhecer”, isto é, na contrição do coração, “e te levantares” para Deus, isto é, se te levantares ao mesmo tempo com a mente e com o corpo, “e suplicares ao Onipotente”, confessando o teu pecado e proclamando o seu louvor; “se caminhares puro e reto”, pela satisfação da penitência, “ele imediatamente velará por ti”, isto é, ao amanhecer da contrição, “e tornará pacífica a morada da tua justiça”, na confissão do teu pecado; pois aquele que, acusando-se justamente, se julga na confissão, possui pacífica a morada do seu corpo na tranquilidade da mente. “De tal modo que o teu estado anterior tenha sido pequeno” etc. Eis que a penitência aumenta a graça no presente e, no fim, acumula a glória. “Faze”, portanto, “isto e viverás”.
Igualmente: “Faze isto”, para que sejas temente a Deus, a fim de dizeres com Jó: “Sempre temi a Deus como que sob as ondas impetuosas que se elevavam sobre mim, e não pude suportar o seu peso” (Jó 31,23). Quando as ondas se elevam acima, os navegantes já não têm preocupação alguma com as coisas temporais, nem lhes vem à mente qualquer deleite da carne; lançam também para fora da nave aquelas coisas pelas quais empreenderam longas viagens. Teme, portanto, a Deus como a ondas impetuosas que se elevam sobre si aquele que, desejando a verdadeira vida, despreza tudo o que possui e carrega aqui. Ou, pelas ondas que se elevam, entende-se o poder supremo, quando, agitados todos os elementos (cf. Mt 24,49), o Juiz do alto vier e trouxer o fim de todas as coisas, fim que os santos temem diariamente. “E não pude suportar o seu peso”, porque aquele que considera com mente atenta a chegada do juízo final vê certamente que se aproxima tamanho pavor que teme não somente vê-lo então, mas também prevê-lo agora. “Faze”, portanto, “isto e viverás”.
17. E ainda: “Faze isto”, isto é, afasta-te do mal. Por isso, Sofar, o naamatita, diz no livro de Jó: “Se afastares de ti a iniquidade que está em tua mão e não deixares que a injustiça permaneça em tuas tendas, então poderás levantar o teu rosto sem mancha, serás firme e não terás medo. Também te esquecerás da miséria e dela não te lembrarás, como das águas que passaram. E, ao entardecer, surgirá para ti um fulgor como o do meio-dia; e, quando te julgares consumido, levantar-te-ás como a estrela da manhã. Terás confiança, posta diante de ti a esperança, e, sepultado, dormirás seguro. Repousarás, e não haverá quem te assuste” (Jó 11,14-19).
Gregório: A iniquidade na mão é a culpa na obra, o pecado nas ações; a injustiça na tenda é a iniquidade na mente. A mente, com efeito, é chamada tenda, pois nela nos escondemos dentro de nós mesmos, quando exteriormente não somos vistos nas obras. Levantar o rosto é elevar a alma a Deus por meio dos exercícios de oração; mas esse rosto fica manchado se a consciência o acusa da própria culpa. “E serás firme e não terás medo.” Porque tanto menos treme diante do juízo quanto mais solidamente permanece nas boas obras. “Também te esquecerás da miséria.” Os males da vida presente a alma os sente tanto mais duramente quanto mais negligencia considerar o bem que há de vir. Mas, se fixar o olhar do coração nas coisas que permanecem, verá que nada é tudo aquilo que tende ao fim. “E como o fulgor do meio-dia.” O fulgor do meio-dia ao entardecer é a renovação da virtude na tentação.
“E, quando te julgares consumido” etc. Muitas vezes, com efeito, tantas tentações nos assediam que nos inclinam à queda da desesperação; mas o Criador contempla a nossa escuridão e faz novamente brilhar os raios da luz que havia retirado. E então terás confiança, posta diante de ti a esperança da misericórdia divina.
“E, sepultado, dormirás seguro.” Dormem sepultados e seguros aqueles que, enquanto penetram atentamente em seu íntimo, ocultam-se dos pesados encargos deste mundo no repouso da quietude. “Repousarás, e não haverá quem te assuste.” Pois aquele que fixa o seu desejo na eternidade, como nada há no mundo que deseje, nada há do mundo que tema.
“Faze isto”, portanto, “e viverás”: viverás a vida da graça no presente e a vida da glória no futuro. A ela se digne conduzir-nos aquele que é a Vida e a Glória, e que é bendito pelos séculos eternos. Amém.
18. Segue-se o terceiro. “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos ladrões” (Lc 10,30) etc. Esse homem é entendido como Adão, em sua humanidade, o qual, tendo começado a ensoberbecer-se, pela queda da transgressão desceu da bem-aventurança da Jerusalém celeste para as misérias e para a privação desta vida mutável e sujeita ao erro. E por isso também “caiu nas mãos dos ladrões”, isto é, no poder dos anjos da noite, que se transfiguram em anjos de luz, mas não podem perseverar como tais. E não teria caído nas mãos deles, se, desviando-se do mandamento celeste, não se tivesse tornado sujeito a eles. Eles também lhe tiram as vestes da graça espiritual, isto é, da imortalidade e da inocência, e assim lhe infligem feridas, ou seja, pecados, pelos quais a integridade da natureza humana é violada e a morte é introduzida, por assim dizer, através das entranhas abertas. Quem conserva intactas as vestes que recebeu não pode sentir os golpes dos ladrões. “Foram-se”, não cessando de armar ciladas, mas ocultando-as. “Deixando-o meio morto”, porque puderam despojá-lo da imortalidade, mas não podem abolir o sentido da razão, de modo que o homem não possa pensar nem conhecer a Deus. O sacerdote e o levita, que passam adiante, figuram o sacerdócio e o ministério da Lei antiga, ou do Antigo Testamento, onde se mostram as feridas do mundo enfermo, mas não são curadas.
“O samaritano”, que se interpreta como guardião, é o Senhor, que por nós se fez homem, empreendeu o caminho da vida presente e veio junto do ferido, “feito semelhante aos homens e encontrado na condição de homem” (Fl 2,7), próximo de nós por assumir a nossa compaixão e vizinho por nos conceder a sua misericórdia. “Atou-lhe as feridas”, refreou os pecados, repreendendo-os. “Derrama óleo”, quando concede esperança aos penitentes, dizendo: “Fazei penitência, porque se aproximou o reino dos céus” (Mt 4,17). Derrama vinho quando incute nos pecadores o temor da pena, dizendo: “Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3,10). A montaria é a sua carne, na qual veio até nós; nela coloca o ferido, porque levou os nossos pecados em seu corpo (cf. 1Pd 2,24). É colocado sobre ela aquele que crê na própria Encarnação e crê ser protegido por seus mistérios contra a incursão do inimigo.
“A hospedaria” é a Igreja presente, na qual os viajantes são revigorados e retornam à pátria eterna. Aquele que é colocado sobre a montaria é conduzido à hospedaria, porque ninguém entra na Igreja senão o batizado, senão aquele que foi unido ao corpo de Cristo.
“E cuidou dele”, para que o enfermo não abandonasse os preceitos que havia recebido. Mas o samaritano não tinha tempo de permanecer longamente na terra: devia retornar para onde havia descido. Por isso, “no dia seguinte”, isto é, depois de sua Ressurreição, quando o esplendor da luz eterna resplandeceu no mundo com maior brilho do que antes da Paixão, “tirou dois denários”, isto é, os dois Testamentos, nos quais estão contidos o nome e a imagem do Rei eterno; “deu-os ao hospedeiro”, isto é, aos apóstolos, porque então “lhes abriu o entendimento para que compreendessem as Escrituras” (Lc 24,45), a fim de governarem o povo. “E tudo quanto gastares a mais.” O Apóstolo dá além do devido quando diz: “Quanto às virgens, não tenho preceito do Senhor, mas dou um conselho” (1Cor 7,25); dá também além do devido quando não usa do poder de receber sustento (cf. 2Ts 3,9). Ao retornar para o julgamento, “retribuirá”, dizendo: “Porque foste fiel no pouco, eu te constituirei sobre o muito; entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25,21).
“Qual destes três.” Segundo o sentido literal, é evidente que o estrangeiro foi mais próximo do jerusalemita, a quem concedeu misericórdia, do que o sacerdote ou o levita de sua mesma nação. Ninguém é mais próximo do que aquele que curou as nossas feridas, porque a cabeça é uma só com os membros. Amemo-lo, portanto, como Deus e Senhor, e amemo-lo também como próximo; amemos ainda aquele que é imitador de Cristo. Daí se segue: “Faze também tu o mesmo.” Para manifestar que verdadeiramente amas o próximo como a ti mesmo, faze com dedicação tudo quanto puderes para aliviar as suas necessidades corporais ou espirituais.
19. A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “Ora, o mediador não é de um só; Deus, porém, é um só. A lei é, então, contra as promessas de Deus? De modo algum. Pois, se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, verdadeiramente a justiça viria da lei. Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que a promessa fosse dada aos que creem, mediante a fé em Jesus Cristo” (Gl 3,20-22). Eis que aqui tens claramente que nem o sacerdote nem o levita, isto é, nem o sacrifício nem o ministério da antiga lei, puderam vivificar e justificar o gênero humano; mas somente o mediador e nosso Samaritano, Jesus Cristo, curou o ferido, vivificou aquele que estava meio morto e, carregando-o sobre si, reconduziu-o à hospedaria da Igreja, para que lhe fosse dada, por crer no mesmo Jesus Cristo, a promessa da vida eterna. Portanto, não vem do sacerdote ou do levita a justiça, mas da fé em Jesus Cristo. “A Escritura encerrou tudo sob o pecado.” É isto que o mesmo Apóstolo diz aos Romanos: “Deus encerrou todos na incredulidade, para usar de misericórdia para com todos” (Rm 11,32), como se dissesse: Conhecidos os pecados por meio da lei, todos foram encerrados, para que não possam apresentar desculpas, mas procurem a misericórdia do Samaritano, nosso mediador.
Sobre isso tens uma concordância em Jó: “Não há”, diz ele, “quem possa repreender ambos e pôr sua mão sobre os dois” (Jó 9,33). Se dois inimigos, com espadas nas mãos, lutassem entre si, quem ousaria colocar-se entre eles e contê-los, senão aquele que tivesse afinidade com ambos? Deus e o homem combatiam entre si: Deus com a espada do castigo, o homem com a espada da culpa. Ninguém pôde resolver essa contenda. Veio Cristo, que é aparentado com ambas as partes, porque é Filho de Deus e Filho do homem, colocou-se entre elas e conteve ambas. Repreendeu o homem, para que não pecasse, e, padecendo, opôs-se a Deus Pai, para que não golpeasse. Pôs a mão sobre ambos, porque ofereceu ao homem um exemplo de como agir e mostrou a Deus, em si mesmo, as obras pelas quais fosse aplacado.
A ele, irmãos caríssimos, supliquemos unanimemente, para que cure as feridas de nossos pecados e nos reconcilie consigo, a fim de que mereçamos retornar, desta Jericó, à Jerusalém celeste, da qual caímos. Com o auxílio daquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
20. “Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos assaltantes” (Lc 10,30) etc.
O Senhor diz a Jó: “Dize-me, se o sabes, em que caminho habita a luz, e qual é o lugar das trevas” (Jó 38,18-19). A justiça é designada pelo nome de luz; a iniquidade, pelas trevas. Em Jerusalém habita a luz; Jericó é o lugar das trevas. Portanto, todo aquele que desce de Jerusalém para Jericó passa da luz da justiça para as trevas da iniquidade. Por isso se diz: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó” etc. Vejamos o que significam moralmente o homem, Jerusalém e Jericó, os assaltantes, o sacerdote e o levita, o samaritano, o óleo e o vinho, a montaria, a hospedaria, o hospedeiro e os dois denários. Com todos esses elementos concordaremos, quanto o Senhor no-lo conceder, com as passagens do livro de Jó.
Esse homem é figura de todo homem justo que, enquanto se dedica às obras de penitência e se mantém nas alturas da contemplação, dizendo com Jó: “Minha alma escolheu as alturas” (Jó 7,15), sem dúvida habita em Jerusalém. Então ele é verdadeiramente Jó, homem simples, reto, temente a Deus e afastado do mal, tendo sete filhos e três filhas (cf. Jó 1,1-2).
Os sete filhos do homem justo são as sete bem-aventuranças (cf. Mt 5,3-9), das quais o Senhor diz em Mateus: “Bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5,3). Essa bem-aventurança tem duas partes: a renúncia aos bens materiais e a contrição do espírito, de modo que também o homem bom se considere inútil e inferior aos demais. Os pobres em espírito não se elevam a coisas grandiosas, mas cultivam o que pertence ao temor de Deus e à verdadeira humildade. Por isso Jó diz: “Mudo o meu rosto e sou atormentado pela dor. Temia todas as minhas obras, sabendo que não perdoarias ao pecador” (Jó 9,27-28). Muda o próprio rosto aquele que não pensa de si coisas elevadas, como antes, mas considera a si mesmo em pensamentos humildes e modestos; e assim se atormenta de dor pelo que fez no passado. O pobre em espírito teme por suas obras, receando a preguiça e a fraude. A preguiça é causada por um amor de Deus menor; a fraude, pelo amor próprio, quando, por causa das boas ações realizadas, se deseja a aprovação silenciosa do coração humano, o sopro do favor ou qualquer outra vantagem exterior. Mas “bem-aventurado aquele que sacode das mãos todo presente” (Is 33,15). Observa que o presente que vem da boca é a glória obtida pelo favor; o que vem do coração é a aprovação esperada pelo pensamento; e o que vem da mão é a recompensa oferecida. Contra tudo isso deve haver o temor que protege e previne, sabendo que Deus não perdoaria ao pecador. Com efeito, embora chame os pecadores à penitência, Deus jamais deixa o pecado passar sem punição: ou o homem castiga, ou Deus.
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5,4). Manso é aquele cujo espírito não é afetado pela aspereza ou pela amargura, mas a simplicidade da fé o prepara para suportar pacientemente toda injúria. Por isso é chamado manso, como que mudo, pois não responde à injúria recebida. Por isso Jó diz: “Se temi a grande multidão e o desprezo dos parentes me aterrorizou, não preferi antes ficar em silêncio, sem sair pela porta” (Jó 31,34). Como se dissesse claramente: Enquanto os outros, exteriormente, se agitavam contra mim, eu permaneci interiormente tranquilo em mim mesmo. “E o desprezo dos parentes me aterrorizou.” Há alguns que temem ser desprezados. Estes são obrigados a sair pela porta, pois, atingidos pelas injúrias, quando revelam sobre si coisas que não eram conhecidas, saem, por assim dizer, pela porta da boca. Gregório diz: Nada desejar do mundo é grande segurança, pois, apegado ao que é imutável, embora todos ao redor estejam perturbados, o homem não se perturba no espírito; e, se há perturbação exterior, ela se deve à fraqueza da carne. Quem não teme ser desprezado não salta para fora pela língua. Agostinho diz: Se aqueles com quem vives não te louvarem por viveres retamente, eles estão no erro; mas, se te louvarem, tu estás em perigo.
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os que choram” (Mt 5,5). Por isso Jó diz: “Meu rosto inchou-se de tanto chorar, e minhas pálpebras se obscureceram” (Jó 16,17). E novamente: “Eu caminhava chorando” (Jó 30,28). Gregório comenta: Aquele homem santo, elevado pelas riquezas e pelas honras, caminhava chorando, porque, embora a glória do poder o apresentasse como superior aos homens, interiormente, porém, oferecia ao Senhor, com sua dor, o sacrifício de um coração contrito.
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6). A respeito dela Jó diz: “Eu me revestia de justiça como de um manto, e do meu juízo como de um diadema” (Jó 29,14). Reveste-se de justiça como de um manto aquele que por toda parte se reveste e se protege com boas obras, não deixando nenhuma parte de suas ações desnuda pelo pecado. O juízo dos justos é chamado diadema, porque, por meio dele, desejam ser recompensados no alto, e não nas mesquinhas coisas terrenas.
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5,7). Por isso Jó diz: “Se neguei aos pobres o que desejavam, e fiz esperar os olhos da viúva; se comi sozinho o meu pedaço de pão, sem que o órfão dele comesse. Pois desde a minha infância cresceu comigo a compaixão, e saiu comigo do seio de minha mãe. Se desprezei aquele que perecia por não ter vestes, e o pobre sem cobertura; se os seus flancos não me bendisseram, e ele se aqueceu com a lã das minhas ovelhas” (Jó 31,16-20).
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os puros de coração” (Mt 5,8). Por isso Jó diz: “Se o meu olho seguiu o meu coração e se alguma mancha aderiu às minhas mãos. Se o meu coração foi seduzido por uma mulher e se fiquei à espreita junto à porta do meu próximo... Isso é uma infâmia e uma grande iniquidade. É um fogo devorador até a destruição, que arranca todos os brotos” (Jó 31,7.9.11-12). Como se dissesse: Não quis ver nada que acendesse a concupiscência, nem, ao vê-lo, segui aquilo que desejei. Nem aderiu mancha às minhas mãos, isto é, não houve culpa em minhas ações. Pois, se alguma vez pensou em alcançar algo ilícito, não permitiu que isso chegasse às obras. “É um fogo” etc. Porque o fogo da luxúria não mancha apenas até a contaminação, mas devora até a destruição. “E arranca todos os brotos.” Os brotos são as boas obras da alma, pois, se não se resiste ao mal da luxúria, perecem também aquelas obras que pareciam boas.
Do mesmo modo: “Bem-aventurados os pacíficos” (Mt 5,9). Por isso Jó diz: “Se desprezei submeter-me ao juízo com meu servo e minha serva, quando discutiam contra mim, que farei quando Deus se levantar para julgar? E, quando me perguntar, o que lhe responderei? Porventura não foi no seio materno que me fez aquele que também o formou? E não foi um só que nos formou no ventre?” (Jó 31,13-15). Gregório comenta: Ele comparece ao juízo como igual aos seus servos, porque teme o juízo daquele que está acima de tudo. Considera-se servo sob o verdadeiro Senhor; por isso, na soberba do coração, não se exalta acima dos servos. Quem não recusou ser julgado com seus servos e servas demonstra claramente que não foi arrogante com nenhum de seus próximos. Para os homens poderosos, a virtude da humildade é uma grande coisa, quando se considera a igualdade da condição.
21. Estas sete bem-aventuranças são os sete filhos do homem justo, e cuja glória o torna nobre, poderoso e ilustre. As três filhas são a contrição, a confissão e a satisfação, sobre as quais já se falou suficientemente em muitos lugares. Eis quanta luz, quanta glória há em Jerusalém, isto é, na santidade da vida. Mas quanta escuridão e quanta miséria quando se desce de Jerusalém a Jericó, que se interpreta como lua ou odor, e significa a prosperidade temporal corrompida, da qual os filhos deste mundo dizem ao pregador, por meio de Jeremias: “Não ouviremos de ti a palavra que proferiste em nome do Senhor; mas certamente faremos tudo o que sair de nossa boca, para sacrificarmos à rainha do céu e lhe oferecermos libações. Desde o tempo em que cessamos de lhe oferecer sacrifícios, carecemos de tudo e fomos consumidos pela espada e pela fome” (Jr 44,16-17.18). “Rainha do céu” era chamada a lua, pela qual se entende a prosperidade temporal corrompida, da qual os carnais são escravos; se dela forem privados, creem que serão consumidos pela fome e pela espada e, por isso, não querem ouvir a palavra do Senhor.
A esta lua não descera Jó, quando dizia: “Se considerei o ouro a minha força e ao ouro fino disse: ‘Minha confiança!’ Se me alegrei com as minhas muitas riquezas e porque a minha mão encontrou muitíssimo. Se vi o sol quando resplandecia e a lua caminhando claramente” (Jó 31,24-26). Com efeito, teria desesperado do Criador se tivesse posto sua esperança na criatura. Nada fora de Deus basta à mente que busca verdadeiramente a Deus. Desce de Jerusalém a Jericó aquele que, da luz da pobreza, cai nas trevas das riquezas. Conta-se que um lobo, vendo a lua no poço, julgou que fosse queijo; seguindo o conselho da raposa, desceu ao poço e nada encontrou, permanecendo ali com tristeza; quando os camponeses o encontraram, cobriram-no de pedras. Assim, algum religioso viu no poço da vaidade mundana a lua caminhando brilhante; o insensato julgou, por conselho da raposa, isto é, da concupiscência da carne, que o transitório e mutável fosse verdadeiro e duradouro. Enganado, desce de Jerusalém a Jericó, do alto da contemplação ao poço da avareza, e assim cai nas mãos dos ladrões, que o despojam, lhe infligem feridas e, deixando-o semimorto, vão embora.
Os ladrões são os cinco sentidos do corpo, sobre os quais tens uma concordância em Jó: “Juntos vieram os seus ladrões, abriram para si um caminho até mim e sitiaram ao redor a minha tenda” (Jó 19,12). Ladrão é chamado assim por esconder-se em emboscadas. Os sentidos do corpo, enquanto se escondem sob a aparência da necessidade, armam ciladas para o prazer; e, para enganar mais facilmente, vêm juntos e abrem para a alma miserável o caminho largo que conduz à morte. A tenda do nosso corpo é cercada por eles, para que a alma, por onde quer que tente sair, caia sobre eles; estes a despojam dos dons gratuitos e a ferem nos bens naturais. Por isso tens uma concordância no mesmo Jó: “Cercou o meu caminho, diz ele, e não posso passar; e pôs trevas na minha vereda. Despojou-me da minha glória e tirou a coroa da minha cabeça. Destruiu-me por todos os lados, e pereço; e, como a uma árvore arrancada, tirou-me a esperança” (Jó 19,8-10). O caminho da alma miserável é então cercado quando, entregue aos sentidos do corpo, ela vê os bens que deve praticar, mas não consegue realizá-los. Então se põem trevas em sua vereda, quando nem sequer consegue discernir o que deve fazer. É despojada da glória quando fica desnuda da graça do Espírito Santo; a coroa lhe é tirada quando é privada da pura intenção da mente; e assim, destruída, perece, sendo como uma árvore sem a raiz da humildade, arrancada pelo vento da sugestão diabólica da terra da estabilidade eterna, à qual já não resta a esperança da misericórdia divina.
22. Ecce in quantam miseriam devenit qui ab Ierusalem in Iericho descendit, et ideo debet dolere et plangere cum Iob et dicere: "Pereat dies in qua natus sum, et nox in qua dictum est: Conceptus est homo. Dies illa vertatur in tenebras; non requirat eam Deus desuper, et non sit in recordatione, nec illustretur lumine. Obscurent eum tenebrae et umbrae mortis; occupet eum caligo, et involvatur amaritudine. Noctem illam tenebrosus turbo possideat; non computetur in diebus anni, nec numeretur in mensibus. Sit nox illa solitaria, nec laude digna. Maledicant ei qui maledicunt diei, qui parati sunt suscitare Leviathan. Obtenebrentur stellae caligine eius! expectet lucem et non videat, nec ortum surgentis aurorae. Quia non clausit ostia ventris qui portavit me, nec abstulit mala ab oculis meis. Quare non in vulva mortuus sum? Egressus ab utero non statim perii? Cur exceptus genibus? Cur lactatus uberibus? "(Iob 3,3-12)
Nota. Dies est peccati delectatio; nox, mentis caecitas. Homo tribus modis dicitur: per naturam, per culpam, per infirmitatem. Homo ergo in die nascitur, nocte concipitur, quia ad delectationem peccati non rapitur, nisi prius per mentis tenebras infirmetur. Sed "pereat dies," idest, peccati delectatio vigore iustitiae destruatur. "Et nox." Idest, quod caecata mens per consensum perpetrat, dum blandimenta delectationis caute non prospicit, poenitentia extinguat. Ne autem culpa, quae blandiri incipit, ad interitum trahat, "dies vertatur in tenebras," idest, in exordio delectationis, ad quem finem perditionis rapit, videatur, et per poenitentiam crucietur. Quod si ita punita est: "Non requirat eam Deus," in iudicio, ut puniat, et non illustrabit. Illustrat lumine quod arguit, sed quasi tegitur quod in memoria iudicis non revocatur. Unde: "Beati quorum tecta sunt peccata "(Ps 31,1; Rom 4,7), ne tunc in conspectu hominum monstrentur. "Non illustrentur sed obscurent eum," idest diem delectationis, ne ab eo, qui omnia videt, videatur. "Tenebrae", idest lamenta poenitentiae vel occulta Dei iudicia, quibus praeveniente gratia absolvimur, quae nos mereri nescimus. "Et umbra mortis," idest mors Christi, secundum carnem, quae nostram duplam destruxit. Unde uno die et duabus noctibus in sepulcro iacuit, quia lucem suae simplae mortis nostrae duplae tenebris adiunxit. Vera mors dicitur, qua anima separatur a Deo; umbra, qua caro ab anima. Aliter, dicitur umbra mortis oblivio, quae agit, ut non sit res in memoria, sicut mors agit, ut [non] sit quod capit in vita.
"Occupet eum caligo," idest mentis confusio adducens gloriam. "Et involvatur" omni parte amaritudine poenitentiae. "Noctem illam tenebrosus turbo possideat," quasi diceret: Turbo tempestatis concitatus spiritu moeroris, qui mentem tristitia obnubilat. Iste est spiritus, qui conterit naves Tharsis (cf. Ps 47,8), idest vis compunctionis, quae mentes maris, idest mundo deditas, salubriter rore confundit.
"Non computetur in diebus anni" etc. Annus nostrae illuminationis perficitur, cum, veniente iudice, nostra peregrinatio completur. Dies anni sunt singulae virtutes. Menses, multiplicia facta virtutum. Sed cum his timet ne iudex mala compenset; orat ergo, ut tunc sic bona remuneret, ne mala requirat. Si enim haec nox cum diebus numeretur, iam omnia obscurantur. Ut autem tunc non numeretur, modo discutiamus, ne qua culpa sit impunita, ne quis quod egit defendat, addens nequitiae nequitiam. Unde addit: "Sit nox illa solitaria, nec laude digna." Sunt enim qui mala laudant et defendunt, et sic culpa geminatur, nec remanet solitaria. Contra quos dicitur in Ecclesiastico: "Peccasti, ne adiicias iterum "(Eccli 21,1), peccare, idest mala defendere. Culpam vero bene insequitur, qui nulla prospera saeculi appetit.
Unde sequitur: "Maledicant ei qui maledicunt diei." Illi bene noctem poenitendo feriunt, qui lucem prosperitatis calcant, qui diem delectationis non habent. Vel, dies est suggestio hostis; et est sensus: Illi transacta vere puniunt, qui in ipsa blanda suggestione insidias seductoris deprehendunt, qui contra se amplius suscitant Leviathan - de hoc quaere in evangelio: "Cum immundus spiritus exierit ab homine "("Dom III in Quadrag., IV") -. Sed quia, victis vitiis, aliquid minimum remanet quod vinci non potest, ne victor elevetur, subdit: "Obscurentur stellae caligine eius," scilicet noctis, quia et splendentes virtutibus reliquias noctis trahunt, scilicet ex circumstantiis etiam renitentes, ut tamen luceant melius unde nolentes humiliter obscurentur. Unde dicitur in libro Iosue, quod tribui Ephraim, in terra promissionis, Chananaeus non occisus fit tributarius (cf. Ios 17,13), quia, cum spe intramus caelestia, inter optima restant vitia, quae tamen serviunt nobis ad usum humilitatis, ne superbiat qui vincere non potest, licet parva. Unde rursus: "Hae sunt gentes quas reliquit Dominus, ut in eis erudiret Israel "(Iudic 3,1); idest vitia, in quibus iustus semper exercetur, et dum vinci timet, elatio virtutis comprimitur et in parvis discit, quod ipse maiora non vincit. Vel: "Obscurentur stellae caligine eius noctis," quia nox, idest consensus ad culpam, ab Adam in nos propagata, ita oculum turbat, ut etiam hi qui lucent mundo ut astra, aeternum lumen ut est videre non possint. Et hoc est: "Expectet lucem et non videat," quia quantolibet ardore exiliant, tamen in hac carne lumen ut est non videbunt, pro caecitate damnationis in qua nati sunt.
"Nec ortum surgentis aurorae." Ortus aurorae est nova nativitas resurrectionis, qua sancti orientur cum carne ad lumen aeternum videndum. Sed quantumcumque hic fulgeant electi, nequeunt penetrare quae erit illa gloria novae nativitatis. Haec nox non clausit sed aperuit ostia ventris, quia concepto ad peccatum homini desideria concupiscentiae reseravit. His autem ostiis, idest desideriis concupiscentiae carnalis reseratis, ad innumera corruptionis mala pertrahimur. Unde gravati gemimus, quia hoc iustitia exigit, ut quod sponte fecimus, inviti toleremus.
Sequitur: "Quare non in vulva mortuus sum" etc.? Vulva, in qua in peccato concipitur homo, est mala suggestio. Sed utinam in ea mortuus, idest me mortuum novissem, ne ad delectationem suggestio traheret. "Egressus ex utero non statim perii." Egressus est de utero, quem in peccato conceptum foras delectatio rapuit, sed utinam in ea delectatione occumberem, ne usque ad operationis consensum desiperem.
"Cur exceptus genibus?" Exceptus est genibus, quando per consensum spiritus omnes sensus et membra substernuntur ad perpetrationem mali operis, quemadmodum genua puero. "Cur lactatus uberibus?" Uberibus etiam lactatur, cum cassa fiducia et blandis excusationibus fovetur. Nota etiam quod in opere prius latens culpa agitur, et tunc est in vulva; post ante homines sine pudore aperitur et tunc exit ex utero; inde in consuetudinem ducitur, et tunc genibus excipitur; post vel falsa spe vel desperatione nutritur, et tunc uberibus lactatur.
23. Eis que agora vês claramente quanto deve chorar e quanto deve arrepender-se aquele que desce de Jerusalém a Jericó. E acrescenta-se: “Aconteceu, porém, que certo sacerdote descia pelo mesmo caminho e, vendo-o, passou adiante. Do mesmo modo também um levita, chegando junto daquele lugar e vendo-o, passou adiante” (Lc 10,31-32). No sacerdote é figurada a paixão de dominar; no levita, a hipocrisia. Sobre essas duas coisas, encontras algo semelhante no livro dos Juízes, onde se lê que Abimelec combatia valorosamente para conquistar uma torre: “E, aproximando-se da porta, esforçava-se por atear-lhe fogo. E eis que uma mulher, lançando de cima um fragmento de mó, atingiu a cabeça de Abimelec e lhe fraturou o crânio. Ele chamou imediatamente seu escudeiro e disse-lhe: Desembainha depressa a tua espada e mata-me, para que não se diga que fui morto por uma mulher. E ele, cumprindo a ordem, matou-o” (Jz 9,52-54). Vejamos o que significam Abimelec e a torre, a porta e o fogo, a mulher e o fragmento de mó, o crânio e o escudeiro de Abimelec.
Abimelec interpreta-se “meu pai é rei” e significa aquele que, como pai e rei, quer dominar os outros. A torre é a altura da dignidade, à qual ele se aproxima para conquistá-la. Mas, para poder incendiá-la mais facilmente, põe sob a porta fogo, isto é, moedas de ouro e prata, das quais diz o Profeta: “Há fogo na casa do ímpio” (Mq 6,10), ou seja, põe-nas sob aqueles que parecem ser a porta da Igreja, para que, por meio deles, queimados por tal fogo, possa subir à torre.
Ou então “à porta”, isto é, aos porteiros e notários de sua cúria, que são infames extorquidores, que sugam o sangue dos pobres, esvaziam as bolsas dos ricos e distribuem tudo a seus sobrinhos e sobrinhas, e talvez também a seus filhos e filhas; recebem petições em bilhetes e, por elas, recebem somas de ouro e prata. Sobre estes diz Jó: “O fogo devorará as tendas daqueles que de bom grado aceitam presentes” (Jó 15,34). E ainda: “Abundam as tendas dos salteadores”, ou ladrões, “e provocam audaciosamente a Deus, embora ele mesmo tenha posto tudo em suas mãos” (Jó 12,6). E ainda: “São como asnos selvagens no deserto: saem para seu trabalho, vigiando a presa, e preparam o pão para seus filhos” e para seus sobrinhos. “Deixam nus os homens, tirando-lhes as vestes. Nas cidades fazem gemer os homens, e as almas dos feridos clamarão, mas Deus não permitirá que isso fique impune. Eles se rebelaram contra a luz” (Jó 24,5.7.12-13) e, por isso, serão privados da luz da graça e da glória. Infeliz Abimelec, que deseja dominar não para ser útil, põe-se a caminho sem temer os enganos de seus hospedeiros, o frio dos Alpes, o calor da Itália, os perigos da Toscana, os ladrões de Roma. Basta-lhe aproximar-se da porta: ateia o fogo, é aliviado do ouro, é carregado de chumbo, pendurado no bilhete. E vejamos o que acontece a esse desgraçado que deseja subir.
“E eis que uma mulher” etc. Essa mulher é a nossa carne; o fragmento de mó, pelo qual lhe é fraturado o crânio, representa a ambição do ambicioso, pela qual suas energias mentais se dispersam nas coisas deste mundo, e ele próprio será depois destruído pelo golpe do juízo severo. Daí dizer Jó: “Fugirá das armas de ferro, mas o atingirá o arco de bronze. A espada, arrancada e saindo de sua bainha, fulminará em sua amargura” (Jó 20,24-25). Gregório comenta: As armas de ferro são as necessidades da vida presente, que pesam duramente. No bronze é figurada a sentença eterna que, por não ser considerada pelo ímpio, é justamente comparada ao arco que golpeia de emboscada. “Fugirá”, portanto, “das armas de ferro” etc., porque, temendo as necessidades presentes, arrebatará muitas coisas por sua avareza, expondo-se, porém, aos golpes do juízo eterno. “Arrancada e saindo” etc. O iníquo, enquanto maquina perversidades no pensamento, é como uma espada na bainha; sai da bainha quando se manifesta pela execução da má obra. Pelo nome de relâmpago exprime-se o esplendor juntamente com o golpe. Assim, aquele que, investido de autoridade, prejudica os outros pelo poder, diz-se que fulmina, porque, daquilo pelo qual se eleva contra os bons como que à luz da glória, a vida dos bons é atormentada.
Segue-se: “Ele chamou seu escudeiro” etc. O escudeiro, que carrega as armas e não combate com elas, é a hipocrisia; por meio dela, o infeliz Abimelec prefere morrer a ser morto por uma mulher, isto é, por causa das obras carnais. A respeito de ambos diz Jó: “Quando chega o momento, o avestruz eleva suas asas ao alto” (Jó 39,18). O avestruz, cujas penas são semelhantes às da cegonha e do açor, representa o hipócrita, que, com as penas de uma falsa santidade, alonga para si as franjas de seu manto. Ele tem as asas fechadas, isto é, mantém ocultos os seus pensamentos; mas, quando chega o momento, eleva-as ao alto, porque, encontrada a ocasião propícia, manifesta com soberba aquilo que pensa. Entretanto, agora, aquele que se faz passar por santo mantém encerradas em si as coisas que pensa e, por assim dizer, dobra humildemente as asas sobre o corpo. Eis que agora compreendes claramente quem é o sacerdote que oferece aos deuses, como sacrifícios, as sagradas moedas de ouro e prata; deuses dos quais se diz: “Todos os deuses das nações são demônios” (Sl 95,5); e sabes também quem é o levita, seu ministro.
24. Digamos, portanto, que o sacerdote e o levita, vendo e desprezando o homem ferido, despojado e semimorto, passam adiante. Por isso encontras uma concordância em Jó: “O avestruz abandona os seus ovos na terra; porventura tu os aquecerás no pó? Esquece que o pé pode pisá-los, ou que a fera do campo pode esmagá-los; endurece-se para com os seus filhos, como se não fossem seus” (Jó 39,14-16). O avestruz é o hipócrita, que deseja as grandezas temporais e abandona os seus ovos, isto é, os filhos que gerou, e de modo algum se preocupa para que, privados da solicitude da exortação ou da vigilância da disciplina, não sejam pervertidos pelos exemplos das más obras, ou esmagados pela fera do campo. O campo é o mundo; a fera é o diabo, que, espreitando com os roubos deste mundo, despojando e ferindo a alma que desce de Jerusalém a Jericó, sacia-se diariamente da morte do homem. E o sentido é este: se o diabo, enfurecendo-se neste mundo, arrebata aqueles que foram formados numa boa conduta, o hipócrita de modo algum se preocupa. Por isso se acrescenta: “Endurece-se para com os seus filhos” etc. Aquele em quem a graça da caridade não derrama o seu influxo considera como estranho o seu próximo, ainda que ele próprio o tenha gerado para Deus. Por isso se diz muito bem antes: “Abandona os seus ovos na terra”. Abandonar os ovos na terra é não oferecer aos filhos nenhum exemplo de vida celeste. Mas, porque o cuidado do alto não os abandona, segue-se: “Porventura tu os aquecerás no pó?”. Como se dissesse: Sou eu quem os aqueço no pó, porque acendo com o fogo do meu amor as almas dos pequeninos, colocadas no meio dos pecadores, que são como “o pó que o vento dispersa da face da terra” (Sl 1,4).
25. Por isso, segue-se bem no Evangelho: “Certo samaritano, porém, que estava viajando, passando junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, derramando óleo e vinho; depois, colocando-o sobre o seu jumento, levou-o à estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro” (Lc 10,33-35) etc. O samaritano, que se interpreta como “guardião”, significa a graça do Espírito Santo, da qual diz Jó: “Quem me concederá voltar aos meses de outrora, aos dias em que Deus me guardava? Quando a sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça e à sua luz eu caminhava nas trevas. Como eu era nos dias da minha juventude, quando Deus estava secretamente na minha tenda. Quando o Onipotente estava comigo e ao meu redor estavam os meus filhos” (Jó 29,2-5).
A alma que desce de Jerusalém para Jericó e cai entre ladrões, vendo-se espoliada e ferida, considerando a inocência do Batismo, a doçura da contemplação e suspirando e lamentando a pureza anterior da vida, diz: “Quem me concederá voltar aos meses de outrora”, isto é, à perfeição da vida, “aos dias”, isto é, à claridade da consciência, à iluminação do exemplo, “em que Deus guardava” a minha entrada e a minha saída? Entrada para a contemplação, saída para a ação; entrada para a consciência, saída para a estima do próximo. “Quando brilhava a lâmpada”, isto é, a sua graça, sobre a cabeça, isto é, sobre a minha mente, “à cuja luz eu caminhava” pela senda da justiça, “nas trevas”, isto é, entre falsos irmãos. Ai, ai! Quem me concederá ser “como nos dias da minha juventude”, isto é, da inocência batismal e da vida pura; “quando Deus estava secretamente” — lamenta-se também a simulação, quando Deus está em público, mas não em segredo — “na minha tenda”, para que eu progredisse interiormente em segredo? Depois que saí do segredo, caí entre ladrões. Enquanto estava no segredo, “o Onipotente estava comigo e ao meu redor estavam os meus filhos”, isto é, os sentidos do meu corpo, que me serviam pura e fielmente. Mas, ai, ai!, infeliz de mim! Quando desci de Jerusalém e saí do segredo, os meus filhos tornaram-se ladrões para mim, que me espoliam e ferem. Mas ouçamos o que faz à alma ferida a graça do Espírito Santo, que ora, isto é, que nos faz orar, com gemidos inefáveis (cf. Rm 8,26), e que é o pai dos pobres, o doador dos dons e a luz dos corações.
“E atou”, diz, “as suas feridas, derramando óleo e vinho”. No óleo, que ilumina, é designado o conhecimento do pecado; no vinho, que embriaga, é designada a compunção das lágrimas, que embriaga a alma para que se esqueça das coisas temporais. A embriaguez também provoca lágrimas. Sobre essas duas coisas temos uma concordância em Jó, onde o Senhor diz: “Por que caminho se espalha a luz, e o calor se divide sobre a terra? Quem deu curso à chuva torrencial e caminho ao trovão retumbante, para que chovesse sobre a terra?” (Jó 38,24-26). O caminho é a graça do Espírito Santo, pela qual se espalha a luz, isto é, o conhecimento do pecado; e então o calor, isto é, o ardor da contrição, divide-se sobre a terra, isto é, faz o próprio pecador dividir o corpo do pecado, distinguindo-o e também às suas circunstâncias, membro por membro; e assim dá curso à chuva torrencial, isto é, à compunção das lágrimas, cuja violência rompe os obstáculos da culpa e da vergonha; e então abre caminho ao trovão retumbante, isto é, abre o caminho da confissão, que, como um trovão, aterroriza os demônios. Por isso se diz no Primeiro Livro dos Reis: “O Senhor trovejou com grande estrondo sobre os filisteus e os aterrorizou, e foram derrotados pelos filhos de Israel” (1Rs 7,10). Com o trovão e a espada da confissão, os filisteus, isto é, os demônios, aterrorizados, são abatidos pelos filhos de Israel, isto é, pelos verdadeiros penitentes. Diz-se, portanto, muito bem: “Derramando óleo e vinho, atou as suas feridas”. A graça do Espírito Santo ata as feridas da alma quando promete ao penitente a esperança do perdão e a veste da glória.
“E, colocando-o sobre o jumento” etc. Jumento, palavra que equivale a auxílio, é a obediência, que diz: “Tornei-me como um jumento diante de ti” (Sl 72,23). Com efeito, quando a alma se submete à vontade alheia, então, auxiliada, é levada para o alto. Pois, enquanto carrega, é carregada. A estalagem é o fedor da própria iniquidade. O estalajadeiro é o espírito de contrição. Os dois denários são os dois tipos de compunção, a saber, pelo pecado cometido e pelo pecado omitido. O penitente deve, de fato, chorar porque fez o que era proibido e deixou de fazer o que lhe fora ordenado. A alma ferida pelo pecado, mas curada pelo emplastro do Espírito Santo, é levada sobre o jumento da obediência à estalagem, isto é, ao fedor da própria iniquidade, para ali permanecer com Jó, do qual se diz: “Com um caco raspava a podridão, sentado sobre um monturo” (Jó 2,8).
“Caco” é uma palavra que recebeu o nome da argila cozida, que, sendo mole, se torna caco. Por isso, testa, isto é, caco, é como se dissesse “tostada”, e significa a aspereza da penitência, com a qual o penitente, sentado sobre o monturo, isto é, humilhando-se no fedor do seu pecado, deve raspar a podridão de seus pecados. A podridão é assim chamada porque nasce do sangue; pois, quando se eleva o calor da ferida, ele se transforma em podridão. A podridão é a decomposição do sangue; por isso, deve raspar a decomposição da culpa com a aspereza da penitência. E observa que ninguém pode voltar a Jerusalém se não for colocado sobre o jumento da obediência. Por isso, o Senhor entrou em Jerusalém sentado sobre um jumento. Desse jumento diz Neemias, no Livro de Esdras: “Não havia lugar para o jumento sobre o qual eu estava sentado” (Ne 2,14). O nosso corpo, que deve ser como um jumento humilde, obediente e desprezível, sobre o qual a alma deve sentar-se, não deve ter lugar neste mundo, porque o lugar do homem está acima de todas as coisas. Por isso: “Tu o estabeleceste acima de todas as obras das tuas mãos” (Sl 8,7). Observa também que se diz na História Natural que, quando o jumento está no cio, se lhe cortam os pelos, ele se torna manso. Assim devemos fazer também com o nosso corpo; quando a abundância das coisas temporais quiser fazê-lo lascivo e a petulância da carne quiser levá-lo à luxúria, então devemos desfigurá-lo e, como a um insensato, raspar-lhe a cabeça. Por isso se diz de Jó que, tendo raspado a cabeça, caiu por terra (cf. Jó 1,20). Costumamos raspar a cabeça daquele que sofre de sarna ou está oprimido por grave enfermidade. A esse corpo, sarnento e enfermo, devemos cortar os cabelos das riquezas e dos prazeres, para que, como animal manso, possa transportar-nos à cidade de Jerusalém.
Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, à graça do Espírito Santo, para que derrame sobre as feridas de nossas almas o óleo e o vinho de sua misericórdia, as envolva com faixas, nos coloque sobre o jumento da obediência, nos conduza à estalagem, isto é, à recordação de nossa iniquidade, e nos confie ao estalajadeiro, isto é, ao espírito de contrição, para que permaneçamos sob os seus cuidados até recuperarmos, com os dois denários, isto é, com o duplo gênero de compunção, a saúde anterior e perdida; e, recuperada ela, possamos voltar a Jerusalém, de onde caímos. Conceda-no-lo aquele que, com o Pai e o Filho, vive e reina, um só Deus, pelos séculos eternos. Diga toda alma penitente: Amém. Aleluia.