Evangelho do décimo domingo depois de Pentecostes: “Quando Jesus se aproximava de Jerusalém”, que se divide em três partes.
Primeiramente, tema de sermão para a Natividade ou a Paixão do Senhor, no trecho: “O sol nasce e se põe”.
[da primeira parte]. Também sobre os três nomes de Jerusalém e seu significado, no trecho: “Quando Jesus se aproximava”.
Também sobre a rainha de Sabá e o que ela significa, no trecho: “A rainha de Sabá”.
Também sobre a vaidade do mundo, no trecho: “Vi todas as coisas que se fazem debaixo do sol”.
Também tema para os penitentes e sobre como deve ser feita a penitência, no trecho: “Filha do meu povo”.
Também sobre o pranto, no trecho: “Teus olhos são como os da pomba”.
Também sobre a exultação dos carnais, no trecho: “Vinde, desfrutemos dos bens”.
Também tema contra os que amam as riquezas, contra os religiosos, os prelados e os clérigos, no trecho: “O anátema está no meio de ti, Israel”.
[da segunda parte]. Tema de sermão sobre a miséria deste exílio e o fim do homem, no trecho: “Lembra-te do teu Criador”, e tudo o mais que se expõe sobre esta matéria.
[da terceira parte]. Tema de sermão contra os simoníacos, no trecho: “E, tendo entrado no templo”.
Também sobre a sabedoria de Deus, isto é, Jesus Cristo, e sobre o seu poder, no trecho: “A sabedoria alcança”.
Também sermão moral sobre a contemplação, no trecho: “Entrando em minha casa”.
Também sermão sobre a oração, sobre o que é necessário para ela e sobre a natureza das abelhas, no trecho: “Minha casa será chamada casa de oração”.
Também para os religiosos, sobre a coleta do incenso e suas propriedades, no trecho: “Como incenso não cortado”.
Também sobre a compunção das lágrimas, no trecho: “Eu te embriagarei com as minhas lágrimas, Hesebon”.
Também sobre a caverna dos ladrões, a natureza do dragão, do avestruz, do fauno, da coruja e da sereia, e o que eles significam, no trecho: “As feras repousarão”.
1. Naquele tempo: “Quando Jesus se aproximava de Jerusalém, vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Porque, se também tu tivesses conhecido...” (Lc 19,41-42).
Disse Salomão no Eclesiastes: “O sol nasce e o sol se põe, e retorna ao seu lugar; dali, tornando a nascer, gira para o meio-dia e se inclina para o norte. O vento, percorrendo tudo ao redor, gira em círculos e retorna às suas voltas” (Ecl 1,5-6). O sol, assim chamado porque brilha sozinho, é Jesus Cristo, que vivifica e ilumina todas as coisas com o esplendor e a força da graça espiritual: nasce para o fiel e se põe para o infiel; ou ainda: “nasce” na Natividade e “se põe” na Paixão; por isso: “O sol conheceu o seu ocaso” (Sl 103,19); “e retorna ao seu lugar” na Ascensão; daí: “Saí do Pai e vim ao mundo”, onde está o ocaso, “agora deixo novamente o mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). Com efeito, a natureza procede por uma via circular. Jesus Cristo, enquanto criador da natureza e governante da natureza criada, segue uma via circular, porque retorna ao seu lugar; e dali, tornando a nascer, isto é, retornando do céu para o juízo, gira para o meio-dia, isto é, considera as boas obras, e se inclina para o norte, isto é, considera as más, examinando todas as coisas, porque nada há de oculto que não venha a ser revelado (cf. Lc 12,2).
Por isso diz em Isaías: “Eu repousarei e observarei do meu lugar, como uma luz clara do meio-dia e como uma nuvem de orvalho no dia da colheita” (Is 18,4). Eis como uma cortina puxa outra (cf. Ex 26,3). O que diz o Eclesiastes: “Retorna ao seu lugar”, é o mesmo que o Senhor diz em Isaías: “Eu repousarei”; como se dissesse: “Cansei-me suportando” (Jr 6,11) a cruz; morri na Paixão, mas, ressuscitando, retornarei ao seio do Pai, onde repousarei. O que diz ali: “Tornando a nascer, gira para o meio-dia e se inclina para o norte”, é isto: “E observarei do meu lugar”. E o que diz: “Examinando todas as coisas”, é isto: “Como uma luz clara do meio-dia”. Então os livros serão abertos diante dele, os segredos das trevas serão trazidos à luz e os desígnios dos corações serão manifestados (cf. 1Cor 4,5), porque o vento, isto é, o próprio sol, que vivifica todas as coisas, que dá o sopro aos habitantes da terra, Jesus Cristo, percorrerá tudo ao redor, não deixando pedra sobre pedra (cf. Mt 24,2) sem que tudo veja, examinando o muro (cf. Is 22,5) e perfurando a parede (cf. Ez 12,5), entrando no meio da boca de Beemote e amarrando com uma corda a sua língua (cf. Jó 40,20), precipitando, aos olhos de todos, a morte com os mortos para a eternidade (cf. Is 25,8). E assim “retornará às suas voltas”, isto é, com os seus santos, à Jerusalém celeste, para os quais será “como uma nuvem de orvalho no dia da colheita”. Terminada a colheita, queimará a palha no fogo inextinguível e recolherá o trigo no celeiro celeste (cf. Lc 3,17); e então será “como uma nuvem de orvalho”: “nuvem” luminosa cobrindo o acampamento de Israel e o tabernáculo da Igreja triunfante; “de orvalho”, porque refrigerará e saciará. Sobre esse sol, sobre o seu giro, a sua inclinação e o seu exame, diz o evangelho de hoje: “Quando Jesus se aproximava de Jerusalém” etc.
2. Deve-se notar que neste evangelho se destacam três coisas. Primeiro, a piedosa compaixão de Jesus Cristo pela cidade de Jerusalém, quando se diz: “Quando se aproximava”. Segundo, a desolação da própria cidade, quando se acrescenta: “Virão dias sobre ti”. Terceiro, a expulsão dos vendedores e compradores do templo, quando se prossegue: “E, entrando no templo”. Queremos concordar estas três cláusulas com algumas passagens de três livros de Salomão, a saber, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos e a Sabedoria.
No intróito da missa de hoje se canta: “Deus está em seu lugar santo” (Sl 67,6). E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Sabeis que, quando éreis gentios” (1Cor 12,2), que queremos dividir em três partes e concordar com as três cláusulas do santo evangelho. A primeira parte é: “Sabeis que”. A segunda: “Há, porém, diversidade de graças”. A terceira: “A cada um é dado”.
3. Digamos, portanto: “Quando Jesus se aproximava de Jerusalém, vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Porque, se também tu tivesses conhecido, e precisamente neste teu dia, o que conduz à paz! Agora, porém, isso está oculto aos teus olhos” (Lc 19,41-42). Note-se que Jerusalém foi primeiramente chamada Salem, que os judeus afirmam ter sido fundada na Síria, depois do dilúvio, por Sem, filho de Noé, que dizem ser Melquisedeque; nela esteve o reino do próprio Melquisedeque. Mais tarde, os jebuseus a ocuparam, e deles recebeu o nome de Jebus; assim, unidos os dois nomes, isto é, Jebus e Salem, foi chamada Jerusalém. Depois, restaurada para melhor por Salomão, foi chamada Ierosolyma, como que Ierosolomônia. Salem significa paz; Jebus, conculcada; Jerusalém interpreta-se como visão de paz; e nisso se designa o tríplice estado da alma.
A alma no Batismo foi Salem; na penitência é Jebus; e na glória será Jerusalém. No Batismo, foi-lhe restituída a paz, porque, de filha da ira, tornou-se filha da graça. Na penitência, deve ser conculcada e triturada. Por isso Isaías: “Será conculcada pelos pés a coroa do orgulho dos ébrios de Efraim” (Is 28,3). Os ébrios de Efraim, que se interpreta como “fecundo”, são os ricos deste mundo, embriagados de orgulho e luxúria; a coroa, isto é, a glória, é conculcada pelos pés da penitência quando se embriagam com o vinho da contrição. Por isso, nos Provérbios: “Não há segredo algum onde reina a embriaguez” (Pr 31,4). Não há segredo algum de iniquidade onde reina a verdadeira embriaguez da contrição, pois ela desnuda na confissão tudo aquilo que antes estava oculto na mente. Será visão de paz na glória, na qual, como diz Isaías, verá olho a olho, quando o Senhor tiver convertido Sião (cf. Is 52,8). E ainda: “Então verás e transbordarás, e o teu coração se admirará e se dilatará” (Is 60,5). Ó alma, se primeiro tiveres sido Jebus, depois verás o que o olho não viu.
4. Por isso Isaías: “O olho não viu, ó Deus, além de ti, o que preparaste para os que te esperam” (Is 64,4). Verdadeiramente “verás”, porque verás aquele que tudo vê. Verás a sabedoria de Salomão, como se diz no terceiro livro dos Reis a respeito da rainha de Sabá, e a casa que ele edificou em Jerusalém, e os alimentos da sua mesa (cf. 3Rs 10,4-5). Sobre isso, em Lucas: “Eu vos preparo um reino, como meu Pai o preparou para mim, para que comais e bebais à minha mesa no reino dos céus” (Lc 22,29-30). Então verdadeiramente poderás dizer com a rainha de Sabá, que se interpreta “cativa”, e tu agora és cativa, mas então serás rainha: “É verdadeira a palavra que ouvi na minha terra”, na terra da minha peregrinação, “sobre as tuas palavras e sobre a tua sabedoria. Eu não acreditava nos que me contavam, até que eu mesma vim, vi com os meus olhos e constatei que não me havia sido anunciada nem a metade: maior é a tua sabedoria e as tuas obras do que a fama que ouvi. Felizes os teus homens e os teus servos, estes que estão sempre diante de ti e ouvem a tua sabedoria” (3Rs 10,6-8). Eis o que verás. “Transbordarás” também de delícias e riquezas, isto é, da glorificação da alma e do corpo; “e o teu coração se admirará” diante da beleza da Jerusalém celeste, da bem-aventurança dos anjos e da coroa imperecível de todos os santos; e assim “se dilatará” por uma alegria incomparável e uma felicidade indizível.
Mas, ai de mim! Posta de lado tão grande glória e tão grande abundância, a alma infeliz ama as coisas temporais, esforça-se por alcançar as que fogem e abraça o esterco! E por isso o Senhor, “vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Porque, se também tu tivesses conhecido”. O Senhor não chora pela cidade terrena, mas pela alma; não pela ruína das pedras, mas pela ruína das virtudes. Observa estas duas palavras: “vendo” e “chorou”. Ó alma, se visses, certamente chorarias; mas, porque não vês, por isso não choras.
5. Se tu visses, digo eu com o Eclesiastes, que afirma: “Vi todas as coisas que se fazem sob o sol, e eis que tudo é vaidade e aflição de espírito” (Ecl 1,14). Observa que sob o sol está a vaidade, e acima do sol, a verdade. Portanto, a alma que está sob o sol, pelo amor às coisas temporais, e não está acima do sol, pela contemplação das coisas celestes, que outra coisa deve fazer senão chorar e gemer? E bem se unem a vaidade e a aflição: pois onde há a vaidade da felicidade terrena, aí há a aflição da morte eterna. Portanto, se tu visses, certamente chorarias.
Além disso, diz o Eclesiastes: “Voltei-me para outras coisas e vi as calúnias que se cometem sob o sol, e as lágrimas dos inocentes, sem ninguém que os console; e eles não podem resistir à violência dos outros, privados de todo auxílio. E proclamei mais felizes os mortos que os vivos, e julguei mais feliz que ambos aquele que ainda não nasceu e não viu os males que se cometem sob o sol” (Ecl 4,1-3). “Sob o sol”, onde há vaidade e falsidade, calúnias dos poderosos contra os necessitados e julgamentos violentos contra os pobres, dos quais provêm as lágrimas dos inocentes, que não têm ninguém que os console. Consolador é chamado aquele que se aproxima de quem está só e alivia sua angústia com suas palavras. “Ninguém” deriva de “homem”, como se dissesse “não homem”, isto é, nenhum homem. “Nenhum”, por sua vez, é como “nem sequer um”. Se houvesse homem, não faltaria consolador; mas, porque são leões, e não homens, afligem os pobres, privados do auxílio humano, que não podem resistir à sua violência.
“E proclamei mais felizes os mortos”, isto é, mortos para o mundo, que são melhores do que os que vivem para o mundo, “e julguei mais feliz que ambos aquele que ainda não nasceu”, isto é, que ainda não nasceu para o pecado. Por isso, Jó afirma: “Pereça o dia em que nasci” (Jó 3,3), isto é, o dia em que me tornei novamente pecador. Se essa alma miserável visse tudo isso, certamente choraria.
6. Por isso, Jeremias ensina à alma como deve chorar a si mesma, dizendo: “Filha do meu povo, cinge-te de cilício e cobre-te de cinzas; faze para ti luto por um filho único, pranto amargo” (Jr 6,26). Observa estas quatro coisas: o cilício, as cinzas, o luto e o pranto. No cilício é designada a aspereza da penitência e a execração da própria culpa; nas cinzas, a humildade e a baixeza da nossa condição; no luto, a dor da contrição interior; no pranto, a efusão das lágrimas. Diz, portanto, Cristo: Ó alma filha, que eu dei à luz com a imensa dor da Paixão, tu que, pela fé, és filha do meu povo, isto é, da Igreja militante, cinge-te de cilício, isto é, faze penitência áspera, para que a carne, que alegremente te conduziu à culpa, aflita te reconduza ao perdão; e aquela que antes sentiu o prazer do pecado tenha agora horror dele.
Observa que ele diz “cinge-te”, e não “veste”. Com isso indica duas coisas: a repressão da luxúria e o combate contra a sugestão diabólica. Por isso, diz o Salmo: “Cinge a tua espada à tua coxa” (Sl 44,4). O cilício e a espada significam a mesma coisa, isto é, a mortificação da carne, que comprime a coxa, ou seja, a luxúria. Por isso, no Cântico dos Cânticos: “Cada um tem sua espada sobre a coxa por causa dos temores noturnos” (Ct 3,8). Os temores noturnos são os demônios e as ocultas sugestões da carne; para evitá-los, todo aquele que quer guardar o leito do verdadeiro Salomão (cf. Eclo 23,25), isto é, a própria consciência, na qual repousa Jesus Cristo, deve ter a espada da mortificação sobre a coxa da sua carne.
Segue-se: “E cobre-te de cinzas”, lembrando aquela maldição: “Tu és cinza e à cinza retornarás” (cf. Gn 3,19). A cinza é chamada em latim cinis, derivada de incêndio, pois dele é feita. Adão, com sua posteridade, tendo acendido o fogo da cobiça, foi incendiado pelo sopro da falsa promessa e, por isso, retornou à cinza da morte. “Faze para ti luto por um filho único.” O luto é assim chamado porque se faz ao coração humano como uma ferida ou úlcera, às quais se aplicam consolações para que sejam curadas; e significa a contrição, que é uma ferida do coração, à qual se deve aplicar a consolação, para que espere na misericórdia do Redentor.
E observa que ele diz “luto por um filho único”. Assim como não há dor maior que a da mulher que tem apenas um filho, a quem ama acima de tudo, quando ele morre, assim não deve haver dor maior que a da alma penitente que, tendo um único filho, isto é, a fé que opera por meio da caridade, perdeu-a pelo pecado mortal. A alma da fé é a caridade, que a vivifica; perdida esta, a fé morre. E, por isso, porque perdeste a alma da fé, “faze para ti luto por um filho único, pranto amargo”. À contrição do coração deve unir-se a amargura das lágrimas, para que a alma chore a si mesma e ressuscite o filho único morto, pois o Senhor chorou por Lázaro e pela cidade de Jerusalém.
7. Observa. Chorar significa derramar lágrimas copiosamente, como que fluindo; prantear, porém, significa fazê-lo com voz; lamentar, por sua vez, significa fazê-lo com certas palavras de aflição. Por isso se diz lamentar, como se dissesse carecer de luz. Sobre os rios deste pranto encontras uma concordância no Cântico do amor, onde o esposo fala à esposa: “Teus olhos são como pombas sobre regatos de águas, lavadas no leite e pousadas junto a correntes abundantíssimas” (Ct 5,12). Nos olhos é designada a vigilante providência. A pomba, nas águas, prevê o falcão que maquina arrebatá-la; e nós, nos regatos da doçura transitória, devemos prever o torturador, porque aquele que incita à culpa será o executor da pena. O leite, do qual nada há de mais agradável, significa a alegria da consciência pela esperança da misericórdia divina. As correntes abundantíssimas são as efusões das lágrimas. Portanto, a alma, como uma pomba, pousada sobre correntes abundantíssimas de lágrimas, confiando na misericórdia de Deus, deve prever, com vigilante cuidado, para acautelar-se contra o engano da doçura transitória e contra a maldade do diabo que sugere. Agostinho: Nesta vale de miséria, tanto mais se deve chorar quanto menos choramos. Portanto, “vendo” o Senhor “a cidade, chorou por ela, dizendo: Porque, se tivesses conhecido” a ruína que te ameaça, também tu terias chorado, tu que agora exultas.
8. Sobre esta exultação encontras uma concordância no livro da Sabedoria, onde os ímpios, não pensando retamente consigo mesmos, dizem: “Vinde, desfrutemos dos bens que existem e usemos das criaturas como na juventude, com rapidez. Enchamo-nos de vinho precioso e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera; coroemo-nos de rosas antes que murchem, e não haja prado algum que a nossa luxúria não percorra. Nenhum de nós fique privado da nossa luxúria; deixemos por toda parte sinais de alegria, porque esta é a nossa parte e esta é a nossa sorte” (Sb 2,6-9). Estas palavras não precisam de explicação, pois todos os dias as vemos manifestar-se no comportamento dos carnais.
Segue-se: “Se ao menos compreendesses agora, neste teu dia, o que convém à tua paz!”. Por isso, Salomão, no Eclesiastes: “Com efeito, porque não se profere imediatamente a sentença contra os maus, os filhos dos homens cometem o mal sem temor algum. Contudo, o pecador, pelo fato de fazer o mal cem vezes, é suportado com paciência” (Ecl 8,11-12). E ainda: “Há ímpios que vivem tão seguros como se tivessem praticado as obras dos justos” (Ecl 8,14). Ó pecador, “neste teu dia, que é para a tua paz”, agora és senhor de ti mesmo, mas virá o tempo em que pertencerás a outro, porque serás inteiramente entregue ao diabo. Agora exultas no teu dia, mas virá o dia dele, no qual sofrerás. “Quando eu tiver recebido”, diz ele, “o tempo, julgarei as justiças” (Sl 74,3). Ó pecador, o Senhor te concedeu por empréstimo o tempo para mereceres a salvação, e tu fizeste teu o tempo que te foi concedido; mas crê em mim: ele retomará o que é seu e julgará as justiças. Ó Senhor, se julgares as justiças, que será das injustiças?
Por isso, diz em Ezequiel: “Eis que venho contra ti e tirarei a minha espada da sua bainha, e matarei em ti o justo e o ímpio” (Ez 21,3), isto é, o justo apenas na aparência, daquele que diz o Eclesiastes: “Não queiras ser demasiado justo” (Ecl 7,17). A bainha, chamada em latim vagina, como que bagina, assim se chama porque nela a espada é carregada (baiulatur). A espada na bainha é a divindade na humanidade. Dessa bainha o Pai tirará a espada e a brandirá, como diz o Profeta: “Brandirá a sua espada” (Sl 7,13). Observa que a espada brandida faz duas coisas: produz esplendor e uma sombra trêmula. O Pai, no seu dia, brandirá a espada, isto é, o seu Filho, porque lhe dará todo o juízo; ele mostrará aos santos o esplendor e aos ímpios a sombra trêmula da condenação. “Seja tirado o ímpio, para que não veja a glória de Deus, porque na terra dos santos praticou iniquidades” (cf. Is 26,10). Antes, veja aquele a quem traspassou (cf. Jo 19,37). Ó alma infeliz! Agora, porém, estas coisas estão escondidas dos teus olhos, cegados pelo teu dia e pela tua paz. Cegada por eles, és arrastada como um animal irracional pelo diabo, com a corda da cobiça, para apanhares estas coisas passageiras.
A esta primeira cláusula do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Sabeis que, quando éreis gentios, íeis para os ídolos mudos, conforme éreis levados. Por isso vos faço saber que ninguém, falando pelo Espírito de Deus, diz: ‘Anátema Jesus’; e ninguém pode dizer: ‘O Senhor Jesus’, senão pelo Espírito Santo” (1Cor 12,2-3). “Gentios”, isto é, carnais que vivem à maneira dos gentios, porque nesta vida têm paz, vão para os ídolos mudos, isto é, para estas coisas temporais, que têm a aparência de algo sólido, mas, para quem as observa atentamente, a mentira se torna evidente. São como esterco coberto de neve, falsa glória e beleza vã (cf. Pr 31,30). Quem ama estes ídolos das coisas temporais é “anátema”, isto é, separado de Jesus, que ordenou desprezá-los.
9. Sobre isso, encontras algo semelhante no livro de Josué, onde o Senhor diz: “O anátema está no meio de ti, Israel; não poderás resistir diante dos teus inimigos enquanto não for eliminado de ti aquele que se maculou com este crime”, isto é, Acã. A este disse Josué: “Meu filho, dá glória ao Senhor, Deus de Israel, confessa e declara-me o que fizeste; não o escondas”. Ele respondeu: “Vi entre os despojos um manto escarlate muito formoso, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro de cinquenta siclos e, cobiçando-os, tomei-os e escondi-os debaixo da terra, no meio da minha tenda; também cobri a prata com a terra escavada”. Então Josué tomou Acã, a prata, o manto e a barra de ouro, e o apedrejou; e tudo o que lhe pertencia foi consumido pelo fogo (Js 7,13.19-25).
Acã interpreta-se “aquele que corrompe”, ou “ruína do irmão”, e significa o rico deste mundo, que corrompe a justiça, tirando aos pobres os seus bens ou não lhes restituindo o que lhes pertence, e assim se torna a ruína do irmão. Ele rouba o manto, a prata e a barra de ouro. Observa que no manto escarlate é indicada a substância dos pobres, adquirida com muito sangue e suor; nos duzentos siclos de prata, a ciência de ambos os Testamentos; na barra de ouro de cinquenta siclos, a vida de todos os religiosos. O manto escarlate é roubado pelos soldados e pelos burgueses, pelos avarentos e usurários. Os duzentos siclos de prata são roubados pelos salteadores do nosso tempo, isto é, pelos prelados e clérigos. A barra de ouro de cinquenta siclos é roubada pelos falsos religiosos. Os ricos e poderosos deste mundo tiram aos pobres, a quem chamam seus camponeses, embora eles próprios sejam servos do diabo, a pobre substância, conquistada com sangue, com a qual de algum modo se cobrem. Por isso, deles diz Jó: “Deixam os homens nus, tirando-lhes as vestes, e eles não têm com que se cobrir no frio” (Jó 24,7). E Salomão, nos Provérbios: “Quem espreme com demasiada força faz sair sangue” (Pr 30,33). Sobre isso, diz Jeremias: “Encontrou-se nas tuas vestes o sangue dos pobres” (Jr 2,34).
Do mesmo modo, a ciência de ambos os Testamentos, que, por sua perfeição e eloquência, é significada pelos duzentos siclos de prata, é roubada pelos prelados e clérigos, quando a aprendem não para instruir e edificar, mas para conquistar para si louvores e honras. Por isso, deles diz Salomão, nos Provérbios: “Um anel de ouro no focinho de uma porca: assim é a mulher bela e insensata” (Pr 11,22). “Sus” é “porca”; a “mulher bela e insensata” são os clérigos. “Mulher”, porque são moles e corrompidos, expondo-se por dinheiro nas causas e tribunais, como prostitutas. “Bela”, pela glória das vestes, pela multidão dos sobrinhos e talvez também dos filhos, pela multiplicação das prebendas. “Insensata”, porque não entendem o que eles mesmos ou outros dizem; passam o dia inteiro gritando na Igreja e latem como cães, mas não entendem sequer a si mesmos, porque têm o corpo no coro e o coração no foro. E, se ouvem uma pregação, também não entendem. Pregar aos clérigos e falar aos insensatos: que proveito há em ambos os casos, senão clamor e trabalho? Eles, embora tenham o círculo de ouro da ciência e da eloquência, não se envergonham de lançá-lo, como uma porca, no esterco da luxúria e da avareza.
Do mesmo modo, a barra de ouro de cinquenta siclos é roubada pelos falsos religiosos. A barra é chamada regra, como que por ser uma medida que rege, ou por corrigir o que é torto e desviado. A regra de ouro é a vida dos religiosos, que corrige o homem torto e desviado, reconduzindo-o à medida do reto viver e estabelecendo um limite para as coisas. Quase todos os religiosos roubaram esta regra, porque não caminham segundo a verdade do Evangelho, não vivem segundo os preceitos dos Padres, mas levam uma vida tortuosa e fingida. Os monges roubam a regra de ouro do bem-aventurado Bento; os cônegos roubam a regra de ouro do bem-aventurado Agostinho, e assim sucede com cada grupo de religiosos, que buscam os seus próprios interesses, e não os de Jesus Cristo (cf. Fl 2,21). Diz-se que esta regra consta de cinquenta siclos porque a vida de todos os religiosos consiste na penitência, plenamente prefigurada no salmo quinquagésimo: “Tende piedade de mim, ó Deus” (Sl 50,3).
Todos esses, portanto, que roubam o manto escarlate, os duzentos siclos de prata e a barra de ouro, como foi dito, no dia do juízo serão apedrejados com duras repreensões e depois queimados pelo fogo eterno; e assim serão anatematizados para sempre, separados de Jesus. O justo, porém, que é movido pelo Espírito de Deus e fala no Espírito de Deus, não diz, pelo pensamento, pela palavra ou pela obra, “Jesus é anátema”, isto é, nada que o separe de Jesus. “E ninguém pode dizer”, pelo pensamento, pela palavra e pela obra: “Jesus é o Senhor, e eu sou seu servo”, senão pelo Espírito Santo.
Rogamos, portanto, Senhor Jesus, que infundas em nós a graça, para que choremos sobre a nossa cidade, desprezemos as coisas temporais e alcancemos a Jerusalém celeste. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
10. Segue-se o segundo. “Virão dias sobre ti, e os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te cercarão e apertarão de todos os lados, e te lançarão por terra, a ti e aos teus filhos que estão em ti; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo da tua visita” (Lc 19,43-44). Virão, virão os dias em que, quando as almas saírem dos corpos, os demônios inimigos as cercarão de trincheiras, arrastando-as para a companhia da sua condenação; e te cercarão de todos os lados e te apertarão, quando não somente as iniquidades cometidas por obras, mas também por palavras e pensamentos, forem repetidas diante dos seus olhos. E te lançarão por terra, quando a carne for reduzida a pó. Também os filhos cairão, quando “naquele dia perecerão todos os seus pensamentos” (Sl 145,4); esses pensamentos também são significados pelas pedras, quando se acrescenta: “E não deixarão pedra sobre pedra”. Com efeito, quando o perverso acrescenta um pensamento mais perverso a um pensamento perverso, é como se construísse pedra sobre pedra. Mas, quando a alma é arrebatada para o castigo, tal construção de pensamentos é desfeita; e isso porque não reconheceu o tempo da sua visita. Deus visita a alma perversa, ora por meio de um preceito, ora por meio de um castigo, ora por meio de um milagre; mas, como ela, em sua soberba, despreza tudo isso e não se envergonha de seus males, no fim será entregue aos inimigos, com os quais será unida na companhia da condenação eterna. E por que sobrevém à infeliz tal ruína, acrescenta-se: “Porque não reconheceste o tempo da tua visita”.
Por isso, Isaías diz: “O boi conheceu o seu possuidor, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; Israel, porém, não me conheceu, e o meu povo não entendeu” (Is 1,3). O “boi”, isto é, o bom ladrão, que, como o boi sob o jugo, carregou a cruz, reconheceu o seu possuidor, dizendo: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino” (Lc 23,42). “E o jumento”, isto é, o centurião, embora gentio, dizendo: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mt 27,54). “Israel”, isto é, os clérigos, não reconhece, “e o povo”, isto é, os leigos, não entende.
Sobre isso, tens uma concordância no Eclesiastes, perto do fim, onde se diz: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venha o tempo da tua aflição e se aproximem os anos dos quais dirás: ‘Não me agradam’; antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas, e as nuvens retornem depois da chuva; quando tremerem os guardas da casa, e vacilarem os homens mais fortes, e ficarem ociosas as moedoras, reduzidas a pequeno número, e se obscurecerem as que veem pelas janelas, e se fecharem as portas para a praça, enquanto se abaixa a voz das moedoras, e se levantarem ao canto do pássaro, e ensurdecerem todas as filhas do canto; também terão medo das alturas e temerão no caminho. Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto e se desfará a alcaparra, porque o homem irá para a casa da sua eternidade, e os que choram andarão pela praça. Antes que se rompa o cordão de prata e se desfaça a faixa de ouro, antes que se quebre a bilha junto à fonte e se despedace a roda sobre a cisterna, e o pó retorne à sua terra, de onde veio, e o espírito volte para Deus, que o concedeu” (Ecl 12,1-7). Ó cidade de Jerusalém, alma criada à semelhança de Deus, “lembra-te do teu Criador”, que te fez e que te julgará, e isso “nos dias da tua juventude”, quando a idade é mais inclinada ao pecado e mais apta à prática da penitência.
Por isso, ele disse antes: “Alegra-te, jovem, na tua adolescência, e o teu coração esteja voltado para o bem” (Ecl 11,9). Chama-se jovem aquele que pode ajudar. “Lembra-te”, portanto, isto é, conserva na mente, “antes que venha o tempo da tua aflição”, isto é, da velhice, da morte e do juízo, “e se aproximem os anos dos quais dirás: ‘Não me agradam’”, neste teu dia, aquilo que te traz a paz e as coisas que te agradam. Mas virão sobre ti dias que não te agradarão. Agradastes a ti mesmo e desagradastes a Deus. Virão os dias em que desagradarás a ti mesmo. “Lembra-te”, digo, “antes que se escureça a luz do sol”, isto é, antes que o esplendor da prosperidade mundana seja obscurecido pela treva da morte. “E da lua e das estrelas”, isto é, dos sentidos do corpo, que na velhice se debilitam e na morte se obscurecem completamente. Por isso, Isaías diz: “Olhará para o alto e contemplará a terra; e eis a tribulação e as trevas, a dissolução, a angústia e a caligem perseguidora; e não poderá escapar da sua angústia” (Is 8,21-22). A tribulação está na sugestão do diabo, as trevas, no cegamento da mente, a dissolução, na prática da obra, a angústia, no mau hábito, e a caligem perseguidora, na condenação da Geena. Do mesmo modo, a tribulação está na vida, as trevas, na velhice, a dissolução, na enfermidade, a angústia, na saída da alma, e a caligem perseguidora, na investida dos demônios.
“Lembra-te”, portanto, “do teu Criador. E retornem as nuvens depois da chuva.” As nuvens são os pregadores, que derramam a chuva quando anunciam à alma o cativeiro da sua condenação; afastam-se quando ela não quer acreditar neles; retornam quando se cumpre aquilo que anunciaram. “Quando tremerem os guardas da casa.” Salomão, nesta passagem, fala alternadamente ora da velhice, ora da morte do homem. A partir deste ponto até aquele: “Antes que se rompa o cordão de prata”, ele trata da velhice do homem, que é mensageira da morte.
As costelas, assim chamadas porque por elas as partes interiores são guardadas, são os “guardas da casa”, que protegem as partes moles; na velhice do homem, elas tremem, isto é, enfraquecem. “E vacilarão os homens mais fortes”, isto é, as pernas, que sustentam todo o corpo, ficarão trêmulas. “E ficarão ociosas as moedoras”, isto é, os dentes se enfraquecerão, não sendo capazes de moer o alimento. “E se obscurecerão as que veem pelas janelas”, isto é, os olhos ficarão turvos. “E fecharão as portas para a praça.” Os velhos, que não podem caminhar, ficam sentados em casa; fecharão as portas para não verem as diversões dos jovens, pois todas essas coisas lhes são insuportáveis. “Enquanto se abaixa a voz das moedoras”, porque os sentidos envelhecidos, a voz baixa e débil, já não podem procurar nem triturar o alimento com o próprio trabalho. “E se levantarão ao canto do pássaro”, isto é, do galo; pois, esfriando-se o sangue e secando-se o humor que alimenta o sono, não podem dormir. “E ensurdecerão todas as filhas do canto”, isto é, os ouvidos, que se deleitam com o canto; por causa da extrema velhice, já não conseguem discernir nada e ensurdecem.
“Também terão medo das alturas.” Com efeito, os velhos terão medo de subir a lugares altos, com os joelhos fatigados. “E temerão no caminho”, isto é, mesmo no caminho plano, por medo de cair. “Florescerá a amendoeira”, isto é, a cabeça ficará branca; “engordará o gafanhoto”, isto é, as tíbias incharão. O gafanhoto tem o ventre volumoso, e os velhos costumam ter inchadas as partes inferiores. “E se desfará a alcaparra”, isto é, a libido se arrefecerá, com o enfraquecimento dos órgãos do corpo. A alcaparra é benéfica aos rins e, como a libido reina em torno dessas partes, é significada pela alcaparra. “Porque o homem”, assim dissolvido, “irá para a casa da sua eternidade”, isto é, para a terra, “e os que choram andarão pela praça”, isto é, os parentes e os amigos irão ao redor do cadáver, lamentando. Eis quão grande é a tua miséria, ó homem. De que, portanto, te ensoberbeces?
11. Segue-se o tema da morte. “Antes que se rompa o cordão de prata”, etc. Lembra-te de teu Criador antes que se rompa o cordão de prata, isto é, a continuidade da vida, “e a faixa de ouro”, isto é, a alma, a parte mais preciosa do homem, “retorne” de onde veio. “E se quebre a ânfora” etc. A ânfora é o homem, porque foi feito da terra; a roda, porque sempre gira na roda do mundo; e ela se quebra então sobre a fonte e a cisterna, quando, dissolvido pela morte, o homem perde as águas das concupiscências que havia tirado da cisterna da vaidade do mundo. E observa que pela ânfora se entende a cobiça. Por isso a Samaritana abandonou a ânfora ao ouvir a pregação do Senhor (cf. Jo 4,28). Portanto, quando o rico morre sobre suas riquezas, pode-se dizer que a ânfora se quebrou sobre a fonte, porque o infeliz morre com a fonte da cobiça. Pela cisterna entende-se a acumulação das riquezas. Por isso diz Jeremias: “Abandonaram-me, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas que não podem reter a água” (Jr 2,13). A roda se quebra sobre a cisterna quando a cobiça do homem não abandona as riquezas, mas morre entre elas.
“E a poeira”, isto é, o corpo, “retorna à sua terra, de onde era.” Ao primeiro homem foi dito: “Tu és pó, e ao pó retornarás” (Gn 3,19). A poeira é assim chamada porque é impelida pela força do vento. “E o espírito”, isto é, a alma, “retorne a” Deus, “que o criou”: pois a alma não é transmitida pela geração. Deus criou a alma e nela infundiu gratuitamente as faculdades, para que reconhecesse a si mesmo como seu Criador, amasse aquele que conheceu, adorasse aquele que amou e, adorando-o, merecesse gozá-lo.
A esta segunda parte do evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Há diversidade de graças, mas o mesmo Espírito; há diversidade de ministérios, mas o mesmo Senhor; e há diversidade de operações, mas o mesmo Deus, que opera tudo em todos” (1Cor 12,4-6). Observa estas três coisas: a diversidade das graças, dos ministérios e das operações. Por graças, diz o Apóstolo, entendem-se as próprias virtudes gratuitamente dadas por Deus, isto é, a fé, a esperança e outras semelhantes, cujos efeitos são, em relação ao próximo, o ministério, e, em relação a si mesmo, a operação. Deus infunde, nós ministramos, e ele mesmo, que infunde, opera. Quando diz “Espírito, Senhor, Deus”, entende-se sempre a mesma substância. É a Trindade nas Pessoas que opera tudo em todos. Não atribui tudo a um só, mas opera tudo em todos, para que aquilo que alguém não tem em si mesmo o tenha em outro, e assim permaneçam a caridade e a humildade.
Suplicamos, pois, a ti, Trindade e Unidade, que, quando vierem os dias da aflição, da última incineração e do rompimento do cordão de prata, a alma que criaste retorne a ti, e tu a acolhas, para que, libertada do cerco dos demônios, mereça elevar-se em voo à liberdade da glória dos filhos de Deus. Concede-nos isso tu, que és o Deus bendito, uno e trino, pelos séculos dos séculos. Amém.
12. Segue-se o terceiro ponto: “E, tendo entrado no templo, começou a expulsar os vendedores e os compradores, dizendo-lhes: ‘A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões’. E ensinava diariamente no templo” (Lc 19,45-47). João assim diz: “Jesus subiu a Jerusalém e encontrou no templo vendedores de ovelhas, bois e pombas, e os cambistas sentados. E, tendo feito um flagelo de cordas, expulsou todos do templo, também as ovelhas e os bois; derramou o dinheiro dos cambistas e virou as mesas. E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai estas coisas daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio’” (Jo 2,13-16). Observa que se lê que o Senhor expulsou duas vezes do templo os vendedores e os compradores: uma vez no primeiro ano de sua pregação, e a segunda quando ia para a Paixão. Jesus entra no templo quando visita diariamente a Igreja, observa os atos de cada um e expulsa aqueles que, misturados aos santos, ou fingem fazer o bem ou fazem abertamente o mal. Pelos bois, que aram, são representados os pregadores da doutrina celeste. Vendem bois aqueles que pregam não por amor de Deus, mas por lucro temporal. As ovelhas inocentes oferecem sua lã para vestir aqueles que deverão ser revestidos. Por elas são representadas as obras de pureza e de piedade, que são vendidas quando praticadas para obter o louvor dos homens. O Espírito apareceu em forma de pomba (cf. Lc 3,22). Por isso, pela pomba é representado o Espírito, que os simoníacos vendem. Este é um pecado gravíssimo.
Por isso, quando os judeus perguntavam nos Atos o que deviam fazer, foi-lhes dito: “Fazei penitência” (cf. At 2,38). Ao mago Simão, porém, que perguntava a mesma coisa, foi dito: “Faze penitência; quem sabe o Senhor te perdoará” (cf. At 8,22). Dão dinheiro por empréstimo na Igreja aqueles que não servem de modo algum às coisas celestes, nem mesmo fingidamente, mas se entregam abertamente às terrenas. Todos estes são expulsos da sorte dos santos (cf. Cl 1,12): eles ou fingem fazer o bem ou fazem abertamente o mal e, agora, são açoitados com os cordéis dos pecados para que se corrijam; se não se corrigirem, no fim serão amarrados com eles. Expulsa também as ovelhas e os bois, porque manifesta como reprováveis a vida e a doutrina de tais pessoas. Derrama o dinheiro e vira as mesas, porque, no fim, serão destruídas as próprias coisas que elas amaram.
Observa que, quando o Senhor expulsava do templo os vendedores e os compradores, saía de seus olhos uma espécie de fulgor radiante, pelo qual, aterrorizados, os sacerdotes e os levitas não podiam resistir-lhe.
13. Sobre isso, tens uma concordância no livro da Sabedoria, onde se diz dela: A Sabedoria “atinge em toda parte por causa de sua pureza. Pois é sopro da virtude de Deus e uma emanação genuína da glória do Onipotente; por isso, nada de impuro nela se introduz. É o esplendor da luz eterna e o espelho sem mácula da majestade de Deus, e a imagem de sua bondade. E, sendo una, tudo pode; e, permanecendo, tudo renova” (Sb 7,24-27). Cristo, virtude e sabedoria de Deus, atinge em toda parte: no céu, saciando os anjos com a sua visão; na terra, esperando misericordiosamente que os pecadores façam penitência; no inferno, atormentando os demônios e os pecadores desesperados. Atinge, digo, “por causa de sua pureza”, porque “ele é luz, e nele não há trevas” (1Jo 1,5). É “sopro” que aquece o frio de nossa infidelidade, sendo da mesma virtude que Deus Pai; é “emanação”, isto é, esplendor da glória consubstancial, igual e coeterna; “uma”, isto é, em certo modo, emana da claridade do Onipotente, sendo uma só claridade com o Onipotente; “genuína”, porque ao Sumo Bem não se aproxima mal algum, “e por isso nada de impuro nela se introduz”, porque é sempre um bem simples. “É o esplendor da luz eterna e o espelho” no qual se vê o Pai. Por isso: “Quem me vê, vê também o meu Pai” (Jo 14,9). “Sem mácula”, porque “não cometeu pecado, nem se encontrou dolo em sua boca” (1Pd 2,22). “E imagem de sua bondade”, isto é, representação plena, sendo a mesma bondade que ele: “e, sendo una”, isto é, com o Pai, “tudo pode”, porque é onipotente; e, “permanecendo”, imutável, “tudo renova”, governando e ordenando. Não é, portanto, de admirar que pudesse expulsar do templo os vendedores e compradores, e que aqueles sacerdotes e levitas não pudessem resistir-lhe.
De outro modo. A Sabedoria de Deus Pai foi sopro que aqueceu em sua encarnação. Então, com efeito, “passou” o “inverno” da infidelidade, “foi embora a chuva” da perseguição diabólica. As “flores” da promessa eterna “apareceram em nossa terra” (Ct 2,11-12). Foi emanação da glória na realização dos milagres, esplendor da luz eterna em sua ressurreição; será para nós espelho sem mácula na bem-aventurança eterna, na qual o contemplaremos tal como ele é, e sua Sabedoria resplandecerá em nós. Diz Agostinho: Como será aquele amor, quando cada um de nós vir o nosso rosto no rosto do outro, assim como agora vemos mutuamente os nossos rostos?
A esta terceira parte do Evangelho corresponde a terceira parte da epístola: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para a utilidade comum: a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; a outro, a palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito” (1Cor 12,7-8) etc. “A cada um”: os dons são distribuídos, e nem sempre são dados segundo o mérito, mas para a utilidade e edificação da Igreja. Aqueles que os vendem ou compram devem ser expulsos da própria Igreja, assim como Cristo expulsou do templo os vendedores e compradores.
14. “A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, fizestes dela uma caverna de ladrões.” Salomão diz no livro da Sabedoria: “Entrando em minha casa, repousarei com ela”, isto é, com a Sabedoria; “pois sua companhia não tem amargura, nem sua convivência causa tédio, mas alegria e júbilo” (Sb 8,16). O homem espiritual, retornando da solicitude pelas coisas temporais e da inquietação dos pensamentos, entra na casa da própria consciência e, fechada a porta dos cinco sentidos, repousa com a Sabedoria, dedicando-se à contemplação divina, na qual saboreia o repouso da doçura celeste. Com efeito, a companhia da Sabedoria não tem amargura, isto é, o prazer do pecado; o paladar que ela deleita não é contaminado por veneno algum. Nem tem tédio a sua convivência; pois os deleites espirituais aumentam o desejo e, quanto mais são saboreados, com mais avidez são amados; neles há alegria e júbilo. Feliz aquela casa, feliz aquela consciência que o sabor da Sabedoria deleita, na qual a própria Sabedoria repousa, ela que diz: “A minha casa será chamada casa de oração.”
A casa, do grego “doma”, isto é, “teto”, recebe esse nome. Observa que a casa consta de três partes: fundamento, paredes e teto. No fundamento é designada a humildade; nas paredes, o conjunto das virtudes; no teto, a caridade. Onde estas três coisas se reúnem, ali está o Senhor, que diz: “A minha casa será chamada casa de oração.” A oração é assim chamada, como se fosse a razão da boca. Observa que são necessárias seis disposições para a oração: o odor da devoção interior, o agrado da tribulação, as lágrimas da compunção, a mortificação da carne, a pureza da vida e a esmola; estas são indicadas no Gênesis, quando Jacó disse a seus filhos: “Ide e levai àquele homem”, isto é, a José, presentes: bálsamo, mel, incenso, mirra, resina e amêndoas (cf. Gn 43,11).
O bálsamo é o odor da devoção interior. Por isso, no Eclesiástico: “Como bálsamo não misturado é o meu odor” (Eclo 24,21), isto é, da devoção pura, que a duplicidade do coração não corrompe.
Do mesmo modo, o mel é o agrado da tribulação. Por isso, no Deuteronômio: “Sugaram mel da rocha” (cf. Dt 32,13). A rocha é a dureza da adversidade ou da tribulação. Por isso, Jó: “Na dureza de tua mão me persegues” (Jó 30,21). Suga mel da rocha aquele que acolhe a dureza da adversidade na suavidade do espírito. Por isso se diz, nas coisas naturais, que as abelhas, pousadas sobre as colmeias, sugam o mel que está nos favos; e diz-se que, se não fizessem isso, corromper-se-ia o que está nos favos e deles se geraria uma aranha. O favo é mel na cera, chamado assim porque é mais comido do que bebido: “phagein”, com efeito, em grego, significa “comer” em latim.
As abelhas são os homens justos, que se sentam sobre as colmeias, isto é, afligem e humilham os próprios corpos, e sugam o que está nos favos. Observa que, assim como no favo há mel e cera, assim também na vida do homem justo há o mel da doçura interior e a cera da adversidade exterior, que se derrete e desaparece diante do fogo, isto é, da presença do amor divino. Pousem, rogo-vos, as abelhas sobre as colmeias e suguem o que está nos favos, para que, pela impaciência e pela amargura do coração, não se corrompa o mel da doçura interior e não se gere a aranha. A aranha é chamada aranea por causa de aer, ar, e de neo, tecer, porque lança fios no ar; e significa a soberba do coração, que, sendo de origem celeste, procura habitar as mentes dedicadas às coisas celestes. Ai de nós! Quando o mel se corrompe, gera-se a aranha; da corrupção da doçura interior nasce a aranha da soberba.
Do mesmo modo, o incenso é a oração; por isso: “Que a minha oração se eleve como incenso diante de ti” (Sl 140,2). O incenso é chamado thus, de “Theós”, isto é, Deus, a quem é oferecido. Observa que somente a Arábia fornece o incenso; seu nome se interpreta como “sagrada”. Nela há uma árvore chamada “libano”, semelhante ao loureiro na casca e na folha, que emite um suco à maneira da amêndoa, recolhido duas vezes por ano, no outono e na primavera. Mas a colheita do outono é preparada no calor do verão: fazendo-se uma incisão na casca, salta uma espuma gorda que, solidificada, se adensa onde a natureza do lugar o exige. Este é o incenso branco. A segunda colheita é preparada no inverno, fazendo-se incisões nas cascas; dela sai o incenso vermelho, que não se pode comparar ao primeiro. O produto da árvore nova é mais branco, mas o da velha é mais perfumado. Todos os que possuem o domínio desse bosque são chamados, em árabe, sagrados; quando colhem nesses lugares ou fazem incisões nas árvores, não participam de funerais nem se contaminam com relações com mulheres.
15. A Arábia é a mente santa do justo, na qual há e deve haver “líbano”, que se interpreta como brancura, isto é, a pureza da vida, da qual procede o incenso da oração genuína. Por isso, diz o Eclesiástico: “Como um líbano não talhado, enchi de perfume a minha morada” (Eclo 24,21). O líbano significa aqueles cuja vida inteira consiste na oração. Líbano não talhado devem ser todos os religiosos, sobretudo para que sua mente não esteja dividida na oração, de modo que tenham uma coisa na boca e outra no coração, pois a mente dividida nada obtém. Devem, portanto, esforçar-se por ser íntegros, para que a língua esteja em concordância com o coração; e assim haverá uma doce melodia aos ouvidos do Senhor dos Exércitos.
A colheita do incenso no outono significa a devoção na oração dos que progridem; a vindima do incenso na primavera significa a oração dos principiantes, isto é, dos que se converteram recentemente. Tanto uns como outros, depois de talhada a casca, emitem a goma, porque seus corações contritos oferecem a Deus a oração. Mas aqueles são talhados no ardor do verão, estes no inverno; aqueles emitem incenso branco, estes, vermelho. Com efeito, os que progridem, no fervor do desejo celeste, oferecem a devoção branca da oração, com lágrimas de compunção. Os principiantes, porém, no inverno de sua própria tentação, ainda afligidos pelo frio da sugestão diabólica, oferecem uma oração dolorosa e quase ensanguentada, com a amargura das lágrimas e dos suspiros. Com efeito, o faraó, vendo-se desprezado, irrompe em escândalos e imprecações.
O incenso da árvore nova é mais branco, mas o da velha é mais perfumado. Deve, de fato, preceder a pureza da vida, para que a ela se siga o perfume da boa reputação. Quando começas, deves empenhar-te sobretudo pela pureza da vida; quando progrides, pelo perfume da boa reputação. Quem quer que deseje recolher e oferecer a Deus o incenso da oração, cuide para não participar dos funerais do rancor e do ódio — “quem odeia seu irmão é homicida” (1Jo 3,15) —, para não se macular frequentando mulheres, nem tampouco com maus pensamentos.
Do mesmo modo, a mirra, assim chamada por causa da amargura, é a mortificação da carne, da qual se diz no livro de Judite que Judite lavou o corpo e ungiu-se com a melhor mirra (cf. Jt 10,3). Com efeito, quem se confessa deve lavar-se na confissão e ungir-se com a mortificação da carne na satisfação pelo pecado. E foi dito a Daniel: “Desde o primeiro dia em que puseste o coração em compreender e em afligir-te na presença do teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras” (Dn 10,12); “na presença”, diz ele, “de Deus”, não dos homens.
16. Do mesmo modo, a resina é a lágrima da árvore e significa a lágrima que brota do íntimo do coração, da qual diz o Senhor, em Isaías, a Ezequias: “Ouvi a tua oração e vi a tua lágrima” (Is 38,5). E novamente: “Inundar-te-ei com a minha lágrima, Hesebon e Eleale” (Is 16,9). Hesebon interpreta-se como cinturão de tristeza ou pensamento de pesar; Eleale interpreta-se como subida, e significa as almas dos penitentes, que se cingem com o cinturão da tristeza e do pesar, para poderem subir desembaraçadas à casa do Senhor. Daí Isaías: “Pela subida de Luíth subirá chorando, e no caminho de Oronaim levantarão um clamor de contrição” (Is 15,5). Luíth interpreta-se como faces. Pela subida, portanto, de Luíth, isto é, das faces, o pranto subirá chorando ao Senhor. Oronaim interpreta-se como abertura do pesar, e significa o olho, pelo qual sai o clamor do luto, subindo ao Senhor. Daí, no Eclesiástico: “Porventura não descem as lágrimas da viúva sobre suas faces, e o seu clamor contra aquele que as faz derramar? Pois das faces sobem até o céu, e o Senhor, que ouve, não se agradará delas” (Eclo 35,18-19). O Senhor, portanto, inunda as almas dos penitentes com a lágrima de sua Paixão; ele, com forte clamor e lágrimas, ofereceu-se a si mesmo a Deus Pai (cf. Hb 5,7). Inunda-as, digo, para que, esquecidas das coisas temporais, se estendam para as que estão adiante (cf. Fl 3,13).
Do mesmo modo, a amendoeira, que floresce no inverno, é a esmola, com a qual alguém deve florescer no inverno da vida presente. Daí, no Eclesiastes: “Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto e será dispersa a alcaparra” (Ecl 12,5). Procura, na terceira parte do sermão sobre o Evangelho: “Havia um homem rico, que tinha um administrador” (Domingo IX depois de Pentecostes). E no Eclesiástico: “Filho, não defraudes ao pobre a esmola” (Eclo 4,1). Bem diz: “não defraudes”, pois a fraude se dá em relação ao bem alheio, segundo aquele dito: “Demonstra-se que rouba bens alheios quem retém para si mais do que lhe é necessário”. A esmola é assim chamada de “Heli”, que é Deus, e “moys”, que é água; daí “helimosina”, como que água de Deus. “Esmola” em grego, misericórdia em latim. Feliz aquela casa, bendito aquele depósito, no qual são guardadas estas seis coisas, das quais procede a oração verdadeira e pura, que sobe até os ouvidos de Deus e obtém tudo quanto pede. Diz, portanto, muito bem o Senhor: “A minha casa será chamada casa de oração”.
Sobre esta casa tens uma concordância no intróito da missa de hoje: “Deus está em seu lugar santo; Deus faz habitar numa casa os que vivem em concórdia; ele mesmo dará força e vigor ao seu povo” (Sl 67,6-7.36). O lugar e a casa significam a mente do justo. Sobre o “lugar”, diz Ezequiel: “Ouvi, diz ele, atrás de mim uma voz de grande comoção: Bendita a glória do Senhor desde o seu lugar” (Ez 3,12). A voz de grande comoção é a contrição do coração, pela qual a mente do homem se torna lugar de Deus, do qual Deus é bendito e glorificado. Sobre a “casa”, diz: “A minha casa será chamada casa de oração”. Nesta casa ele faz habitar os que vivem em concórdia, isto é, a razão e a sensualidade, de modo que a sensualidade obedeça à razão, e a razão obedeça ao seu superior, isto é, a Deus. “Ele mesmo dará força”, para que as coisas prósperas não elevem; “e vigor”, para que as adversas não abatam; “ao seu povo”, conforme Isaías: “Ele dá força ao cansado e multiplica o vigor dos que não têm forças” (Is 40,29).
17. Segue-se: “Vós, porém, fizestes dela uma caverna de ladrões.” Por isso, Jeremias: “Porventura esta casa, na qual foi invocado o meu nome, tornou-se uma caverna de ladrões aos vossos olhos?” (Jr 7,11). A consciência do homem torna-se uma caverna de ladrões quando nela se cumpre o que diz Isaías: “Ali repousarão as feras, e suas casas se encherão de dragões; ali habitarão os avestruzes, e os sátiros dançarão ali; ali responderão as corujas nos seus palácios, e as sereias nos santuários do prazer” (Is 13,21-22).
Observai que nas feras são representadas a soberba e a rapina; nos dragões, a malícia venenosa da ira e da inveja; nos avestruzes, a falsidade dos hipócritas; nos sátiros, a avareza e a simonia; nas corujas, a detração e a adulação; nas sereias, a gula e a luxúria. Os soberbos, como feras, devastam os pobres, os órfãos e as viúvas. Por isso, Ezequiel, falando do poderoso soberbo deste mundo, diz: “Tomou um dos seus leõezinhos”, isto é, um de seus filhos, “e fez dele um leão; aprendeu a arrebatar a presa e a devorar os homens; aprendeu a fazer viúvas, e sua força se manifestava pelo som do seu rugido” (Ez 19,5-7).
Do mesmo modo, os iracundos e invejosos, como dragões, arrancados da caverna da própria consciência — pois não conseguem permanecer encerrados nela — enchem o ar de palavras, agitam-no com gritos e o profanam com blasfêmias; a força de sua malícia não está tanto nos dentes, quanto às blasfêmias, mas sobretudo na cauda, quanto às injúrias e vinganças que infligem com as próprias mãos.
Do mesmo modo, os hipócritas, como avestruzes, têm a aparência da santidade, mas, oprimidos pelo amor da glória temporal, não conseguem elevar-se acima das coisas terrenas. O avestruz negligencia chocar os ovos; assim também o hipócrita abandona à perdição, entre as coisas terrenas, os filhos que adquiriu depois da pregação. Por isso, Jó: “A pena do avestruz é semelhante às penas da cegonha e do falcão, que abandona na terra os seus ovos. Talvez tu os aqueças no pó? Esquece que um pé pode pisá-los, ou uma fera do campo esmagá-los. Torna-se duro para com seus filhos, como se não fossem seus” (Jó 39,13-16). Os ovos são assim chamados porque são úmidos, isto é, cheios de umidade. Pois úmido é aquilo que tem umidade exteriormente; aquoso, aquilo que a tem interiormente. Os ovos são os recém-convertidos, que têm no coração a umidade da compunção; o Senhor os aquece no pó, isto é, na humildade da penitência, para que possam produzir o fruto das boas obras.
O prelado hipócrita, voltado para a glória temporal, esquece que o pé do afeto carnal pode pisar seus súditos, e que a fera do campo, isto é, o diabo, pode esmagá-los; e endurece-se para com eles, como se não fossem seus filhos. Com efeito, é mercenário e, por isso, não lhe importam nem os ovos nem as ovelhas (cf. Jo 10,13). Do mesmo modo, os avaros e simoníacos hoje dançam e brincam, como sátiros, na Igreja de Cristo, rubicundos de rosto, de capuz e bem nutridos; seus pés, isto é, seus afetos e costumes, são caprinos, isto é, fétidos; e a caverna de sua consciência dá testemunho desse fedor.
Do mesmo modo, os detratores e aduladores, como corujas na noite, isto é, na ausência daqueles de quem falam mal, uivam horrivelmente com o falso louvor com que adulam.
Os gulosos e luxuriosos, como sereias, dilaceram a própria alma, devoram os bens e precipitam consigo, no mar da condenação eterna, aqueles que conseguem seduzir. Eis que, com todos esses vícios, se enche de alto a baixo a casa, isto é, a Igreja de Deus, que se tornou como uma caverna de ladrões, e a consciência do homem, que se tornou uma caverna de demônios; e por isso diz o Senhor: “Vós, porém, fizestes dela uma caverna de ladrões.”
Eia, portanto, caríssimos irmãos, humilhando-nos e chorando, roguemos ao Senhor Jesus Cristo que expulse de sua Igreja os vendedores e compradores simoníacos e, da casa de nossa consciência, outrora sua, expulse os vícios acima mencionados, fazendo dela uma casa de santa oração, para que assim possamos chegar à casa da Jerusalém celeste.
Conceda-no-lo ele mesmo, que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos.
Diga toda consciência pura: Amém. Aleluia.