Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 37

Domingo IX depois de Pentecostes Dominica IX post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 15 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do nono domingo depois de Pentecostes: “Havia um homem rico que tinha um administrador”, que se divide em três partes.

Primeiramente, tema do sermão sobre a ciência, a vida do prelado ou pregador da Igreja e as propriedades do leite, onde se diz: “Quem aperta fortemente as mamas”.

[Da primeira parte.] Também tema no Advento do Senhor, onde se diz: “A longevidade dos dias está na sua direita”.

Também tema contra os carnais e mundanos, onde se diz: “Por três coisas se move a terra”.

Também tema do sermão moral contra os prelados carnais da Igreja, sobre a natureza da águia e do urso e as características do abutre, onde se diz: “Havia um homem rico que tinha um administrador”.

Também tema contra a simonia dos sacerdotes e dos prelados, onde se diz: “Uma mulher insensata e loquaz”.

Também contra aqueles que se dedicam às ciências lucrativas, onde se diz: “Quando a serva se torna herdeira”.

[Da segunda parte.] Tema do sermão sobre o amor de Deus e do próximo, onde se diz: “Tendo, pois, convocado cada um dos devedores”, e sobre a natureza do óleo e sobre como se deve entender de quatro modos aquela autoridade: “O Espírito do Senhor pairava sobre as águas”.

Também tema dirigido aos prelados, onde se diz: “A semelhança do firmamento”.

Também sobre a quádrupla geração e seu significado, onde se diz: “A geração que amaldiçoa seu pai”.

[Da terceira parte.] Tema do sermão sobre a esmola, onde se diz: “Florescerá a amendoeira”.

Também sobre as quatro tendas e o que significam, onde se diz: “Para que vos recebam nas tendas eternas”.

Também dirigido aos claustrais, onde se diz: “Quão belas são as tuas tendas, Jacó!”.

Exórdio. A ciência e a vida do prelado ou do pregador

1. Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Havia um homem rico que tinha um administrador. Este foi acusado diante dele de dissipar os seus bens” (Lc 16,1).

Diz Salomão nos Provérbios: “Quem aperta fortemente as mamas para extrair leite tira manteiga, e quem ordenha com veemência tira sangue” (Pr 30,33). Observa estas quatro coisas: as mamas, o leite, a manteiga e o sangue. Nas mamas são designados o Antigo e o Novo Testamento; no leite, a alegoria; na manteiga, a moralidade; no sangue, a compunção das lágrimas.

Sobre as mamas do Novo e do Antigo Testamento diz Oseias: “Dá-lhes, Senhor! Que lhes darás? Um ventre sem filhos e mamas secas” (Os 9,14). Aos prelados e pregadores perversos da Igreja, o Senhor dá um ventre, isto é, um ventre sem filhos. Com efeito, a mente deles não se engravida da graça do Espírito Santo e, por isso, permanece estéril de boas obras, privada de filhos; e assim as suas mamas, isto é, a ciência de ambos os Testamentos que pregam, são áridas e infrutíferas. Por isso diz Salomão nos Provérbios: “Onde não há bois, a manjedoura está vazia; onde há muitas searas, manifesta-se a força dos bois” (Pr 14,4). A manjedoura é chamada praesepe, de prae e sepe, como que cercada por uma sebe, e significa a assembleia dos fiéis, que o Senhor cercou com a sebe da fé. Esta manjedoura está vazia quando os bois, isto é, os prelados, não estão ali com a vida onde estão com a prelatura; mas, se estão ali com a força da boa obra onde estão com a excelência da dignidade, sem dúvida há muitas searas, isto é, práticas das virtudes, na assembleia dos fiéis. Bem diz, portanto, Salomão: “Quem aperta fortemente as mamas” etc.

Aperta fortemente as mamas aquele que acrescenta a mão da ação à ciência de ambos os Testamentos que prega, para que não se lhe possa objetar o que diz Salomão nos Provérbios: “O preguiçoso esconde as mãos sob as axilas e se cansa se as leva à boca” (Pr 26,15). As axilas, lugar sob os braços, são assim chamadas porque por elas os braços são cilluntur, isto é, movidos. Esconde as mãos sob as axilas e não as leva à boca aquele que, embora pregue com a boca, negligencia praticar com a mão.

O pregador, portanto, deve extrair das mamas o leite da história, para que dele possa recolher a mais suave manteiga da moralidade. Observa que o leite consta de três substâncias. A primeira é chamada soro aquoso; a segunda, queijo; a terceira, manteiga. O soro aquoso significa a história; o queijo, a alegoria; a manteiga, a moralidade, que, quanto mais suave é, tanto mais suavemente toca as mentes dos ouvintes, porque os costumes estão corrompidos. Por isso, deve-se aderir mais à moralidade, que instrui os costumes, do que à alegoria, que instrui a fé; pois a fé, pela graça de Deus, está difundida por toda a terra.

Segue-se: “E quem ordenha com veemência tira sangue”. O sangue é assim chamado porque vivifica e sustenta, ou porque é suave, e significa a compunção das lágrimas, que vivificam e sustentam a alma, para que não caia no pecado. E que há de mais suave do que as lágrimas que emanam da doçura da contemplação? “As lágrimas são o sangue da alma”, diz Agostinho. Por isso, as lágrimas são assim chamadas por causa da laceração da mente. O pecador, portanto, quando é fortemente ordenhado pela palavra da pregação, que eleva a sua mente para o alto, tira sangue, isto é, produz lágrimas, por ter dissipado os bens do seu Senhor que lhe foram confiados. Por isso se diz no Evangelho de hoje: “Havia um homem rico que tinha um administrador” etc.

2. Observa que neste Evangelho se destacam três momentos. Primeiro, a acusação contra o administrador diante de seu senhor e a dissipação dos bens deste, quando se diz: “Havia um homem rico”. Segundo, a convocação dos devedores de seu senhor, quando se acrescenta: “Tendo, pois, convocado cada um dos devedores”. Terceiro, o acolhimento nas tendas eternas daqueles que fazem o bem aos pobres, quando se segue: “E eu vos digo: Fazei-vos amigos”, etc. Com estas três partes do santo Evangelho queremos concordar algumas sentenças dos Provérbios de Salomão.

No Introito da Missa de hoje canta-se: “Quando clamei ao Senhor” (Sl 54,17). E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Não sejamos desejosos das coisas más” (1Cor 10,6), que queremos dividir em três partes e fazer concordar com as três partes do Evangelho. A primeira parte é: “Não sejamos desejosos”. A segunda: “Portanto, quem julga estar de pé”. A terceira: “Deus, porém, é fiel”.

I. A acusação do administrador diante de seu senhor e a dissipação dos bens deste

3. Digamos, portanto: “Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado diante dele de estar dissipando os seus bens. Chamou-o e disse-lhe: Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar. O administrador, porém, disse consigo: Que farei, agora que o meu senhor me tira a administração? Cavar não posso; mendigar tenho vergonha. Já sei o que farei, para que, quando for afastado da administração, haja quem me receba em sua casa” (Lc 16,1-4). Nesta primeira passagem, deve-se investigar primeiramente, com sutileza, o que significam o homem rico, o administrador, a dissipação dos bens do senhor, cavar e mendigar. Este homem rico é Jesus Cristo: homem por causa da humanidade, rico por causa da divindade. Por isso, Salomão diz dele nos Provérbios: “O pobre e o rico se encontraram; o Senhor é o criador de ambos” (Pr 22,2). O pobre, isto é, a natureza humana, e o rico, isto é, a divina, uniram-se em Cristo, para que o homem pobre fosse libertado, ele que estava preso às penas e às culpas.

Sobre as riquezas deste homem rico se diz nos Provérbios: “A longevidade dos dias está na sua direita, e na sua esquerda, riquezas e glória. Os seus caminhos são caminhos formosos, e todas as suas veredas são pacíficas” (Pr 3,16-17). Direita é assim chamada por dar para fora; esquerda, por deixar para fora. A esquerda e a direita de Jesus Cristo são as duas vindas: a primeira é indicada pela esquerda; a segunda, pela direita. Na primeira, Cristo tinha as riquezas, isto é, a pobreza e a humildade, que expôs em nossas feiras, por assim dizer, para que as comprássemos, pois sem elas não podemos ser ricos. Apresentou também a glória, que é a alegria na tribulação e a paciência na perseguição. A essas feiras vieram os apóstolos, nas quais lucraram mercadorias maravilhosas, quando “iam alegres da presença do conselho, porque tinham sido considerados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5,41).

Sobre isso tens uma concordância nos Provérbios: “É mau, é mau, diz todo comprador; mas, quando se afasta, então se gloriará” (Pr 20,14). Se te propões ir às feiras das tribulações, nas quais são vendidas as verdadeiras riquezas, vê primeiro se tens na bolsa do coração o preço da paciência e da alegria, com que possas comprar; do contrário, não te aconselho que te aproximes, porque voltarás de mãos vazias. Se, porém, confias no preço, aproxima-te e compra. Não te preocupes se as riquezas são difíceis, se é mau, isto é, amargo, beber o cálice da tribulação; porque, quando voltares, então te gloriarás, pois passarás da esquerda para a direita, na qual está a longevidade dos dias. “Eu o saciarei”, diz, “com longura de dias” (Sl 90,16) etc.

Segue-se: “Os seus caminhos são caminhos formosos” etc. Observa que são dois os caminhos e duas as veredas de Jesus Cristo. O primeiro caminho foi do Pai à mãe, e este caminho se chama caridade, da qual diz o Profeta: “Conduze-me, Senhor, pelo teu caminho” (Sl 85,11) etc. O segundo caminho foi da mãe ao mundo, e este se chama humildade, da qual se diz no Salmo: “No mar está o teu caminho” (Sl 76,20) etc., como se dissesse: Ó Cristo, tu te fizeste caminho de humildade em Maria. Une a este nome “mar” o “a” deste pronome “tua”, e forma-se “Maria”, que se interpreta como estrela do mar.

Esses caminhos são formosos. Por isso, sobre o primeiro se diz no Salmo: “Com a tua beleza e o teu esplendor, avança, prospera e reina” (Sl 44,5). Ó Verbo, que o coração do Pai proferiu, avança prosperamente para a libertação do gênero humano, procede para assumir a humanidade e reina, vencido o diabo, para que digas: “Foi-me dado todo poder no céu e na terra” (Mt 28,18); e faze tudo isso na beleza da tua caridade, com a qual expulsas a lepra da nossa iniquidade. Sobre a beleza do segundo caminho se diz no Cântico dos Cânticos: “Como são formosos os teus passos nas sandálias, filha do príncipe!” (Ct 7,1). Mãe e filha do príncipe, isto é, de Jesus Cristo, foi a bem-aventurada Maria, cujos passos, isto é, os afetos da mente, foram formosos nas sandálias de jacinto, isto é, nos desejos da glória celeste. Por isso, Ezequiel diz: “Calcei-te com jacinto” (Ez 16,10), isto é, com o desejo das coisas superiores. E Judite, como se diz no livro do mesmo nome, “calçou sandálias nos pés” (Jt 10,3). Judite interpreta-se como aquela que confessa, e significa a bem-aventurada Maria, que confessou o Senhor, dizendo: “A minha alma engrandece o Senhor” (Lc 1,46). Ela calçou nos pés dos afetos as sandálias dos desejos celestes.

Do mesmo modo, a primeira vereda de Jesus Cristo foi a perseguição dos judeus; a segunda, o patíbulo da cruz. Vereda é assim chamada como que metade do caminho. Semis ou semissis, isto é, metade. Essas veredas foram pacíficas, isto é, fizeram-nos a paz. Por isso, Isaías diz: “O castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados” (Is 53,5). Castigo é chamado disciplina, porque se aprende plenamente. O Filho de Deus assumiu por nós a disciplina da Paixão, para que, pelo seu sangue, reconciliasse as coisas que estão nos céus e as que estão na terra (cf. Cl 1,20), reconciliando com Deus Pai o gênero humano. Atenta, ó homem miserável, para quão grande era a discórdia entre ti e Deus Pai, com quem jamais poderias reconciliar-te senão pela disciplina do seu Filho. Considera, pecador, quão graves eram as tuas feridas, que não poderiam ser curadas senão pelas feridas de Jesus Cristo. E, porque as tuas feridas eram mortais, isto é, levavam à morte eterna, por isso o Filho de Deus morreu por ti. A dor é o remédio da dor. Não queiras, portanto, eu te suplico, ser ingrato para com o homem rico, Filho de Deus e do homem, porque ele curou as tuas feridas com as suas feridas e, com a sua morte, vivificou-te, que estavas morto; ele te constituiu administrador dos seus bens, para que os conservasses, não os dissipasses. Mas, porque não temes dissipá-los, será necessário que prestes contas.

Por isso, no Evangelho, bem se introduz: “Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado diante dele de estar dissipando” etc. Administrador é propriamente chamado o guardião da propriedade, mas aqui se emprega no sentido de ecônomo, isto é, dispensador, que administra toda a substância da casa. Este administrador significa qualquer homem, a quem o Senhor confiou três dons: os gratuitos, os naturais e os temporais. Mas o infeliz dissipa os dons gratuitos e naturais, pecando mortalmente; e os temporais, acumulando-os de modo indevido ou não os empregando bem.

4. E como se dá essa dissipação, encontrarás a concordância a esse respeito nos Provérbios de Salomão: “Por três coisas se agita a terra, e uma quarta ela não pode suportar: por um servo quando reina, por um insensato quando se farta de comida, por uma mulher odiosa quando é tomada em matrimônio e por uma escrava quando se torna herdeira de sua senhora” (Pr 30,21-23). A terra, assim chamada por sua parte superior, que é pisada, significa a mente do homem, que é desgastada por muitos e variados pensamentos; desgastada, agita-se; agitada, dissipa-se; dissipada, é despojada dos dons gratuitos e ferida nos dons naturais. “Agita-se”, digo, por aquele quaternário maldito, a saber, “por um servo” etc.

O servo que reina é o corpo recalcitrante, do qual diz o Eclesiástico: “Forragem, vara e carga para o jumento; pão, disciplina e trabalho para o servo. Trabalha sob disciplina e procura repousar; afrouxa-lhe a mão, e ele procura a liberdade. O jugo e a correia curvam o pescoço duro e os trabalhos contínuos inclinam o servo. Para o servo malvado, tortura e grilhões; lança-o ao trabalho, para que não fique ocioso: pois a ociosidade ensinou muita malícia. Coloca-o no trabalho, pois assim lhe convém; e, se não ouvir, oprime-o com grilhões” (Eclo 33,25-30). Mas, como é muito necessária a discrição na aflição do corpo, acrescenta imediatamente: “Contudo, nada faças de pesado sem julgamento. Se tens um servo” sensato ou “fiel”, isto é, se a tua carne não te causa incômodo algum, “seja ele para ti como a tua alma; trata-o como a um irmão” (Eclo 33,30-31).

Do mesmo modo, “pelo insensato quando se farta de comida”. O insensato é o espírito estupidificado, embriagado de delícias, acerca do qual se diz nos Provérbios: “Castigado o pestilento, o insensato se tornará mais sábio” (Pr 19,25). Castigado o pestilento, isto é, o corpo, do modo como foi dito, o insensato, isto é, o espírito, tornar-se-á mais sábio, porque se embriagará não de delícias, mas de lágrimas.

Também no mesmo livro: “A insensatez está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a expulsará” (Pr 22,15). O menino é o corpo, que age infantilmente, buscando os frutos e as flores das coisas temporais; em seu coração está ligada a insensatez, isto é, o amor às coisas temporais, que a vara da penitência expulsa. Assim se deve proceder com o coração soberbo como com um leão irado: diante dele, castiga-se o filhote e, aterrorizado com o castigo, ele abandona a ferocidade. Do mesmo modo, se o corpo é golpeado com a vara da abstinência, o espírito de soberba leonina é humilhado.

Do mesmo modo, “por uma mulher odiosa quando é tomada em matrimônio”. Mulher, chamada assim de mollities, como se fosse mollier, é o pensamento perverso, que se torna odioso quando conduz ao consentimento da mente; e é tomado em matrimônio quando é realizado exteriormente em obras.

Do mesmo modo, “por uma escrava quando se torna herdeira de sua senhora”. A senhora é a razão; a escrava, a sensualidade, que a própria terra não poderá suportar quando ela usurpar para si o domínio da razão.

Por esse quaternário maldito, o administrador ingrato dissipa os bens de seu senhor e, por isso, é acusado diante dele. Essa acusação se faz, como diz a Glosa nesse ponto, quando ele não pratica obras de misericórdia para com aqueles a quem estava obrigado.

5. Segue-se: “E chamou-o”. O senhor chama o administrador quando incute o temor da condenação eterna. E lhe diz: “Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração”, isto é, enquanto vives, pensa em como deves agir. “Quem trabalha a sua terra”, diz Salomão nos Provérbios, “saciar-se-á de pão; mas quem se entrega à ociosidade encher-se-á de miséria” (Pr 28,19). Será saciado do pão da graça no presente e cumulado de glória no futuro aquele que ocupa a terra de seu corpo em boas obras. Mas quem se entrega à ociosidade, isto é, aos prazeres do corpo, será repleto da miséria da morte eterna. “Pois já”, isto é, a partir do momento da morte, “não poderás administrar”.

“Disse então o administrador consigo mesmo”, aterrorizado pelo temor: “Que farei”, para evitar as penas, “pois o meu senhor me tira a administração? Cavar não posso” etc. O pecador, quando considera que todas as coisas temporais hão de terminar para ele juntamente com esta vida, pensa mais em conquistar amigos do que em juntar riquezas; compreende que, terminada esta vida, não haverá para ele lugar onde cavar a terra de sua mente com a enxada da devota compunção, para produzir fruto; e será vergonhoso mendigar, do modo como mendigarão as virgens insensatas (cf. Mt 25,8). Daí Salomão: “O preguiçoso não quis lavrar no inverno; mendigará no verão, e nada lhe será dado” (cf. Pr 20,4), aquele que, no inverno da vida presente, não quer lavrar, isto é, fazer penitência. Lavrar deriva de aes, porque antigamente se lavrava com o bronze. O bronze, durável e sonoro, significa a penitência constante e acusadora, com a qual os antigos padres costumavam lavrar a própria carne. Mas os nossos modernos lavram não com bronze, mas com madeira seca. Hoje quase não há ninguém que faça verdadeira penitência e, por isso, mendigarão no verão, isto é, na ressurreição geral: “Senhor, Senhor, abre-nos!” (Mt 25,11). E não lhes será dada a vida; ao contrário, ser-lhes-á dito: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41) etc.

6. A esta primeira cláusula corresponde a primeira parte da epístola: “Para não sermos cobiçosos de coisas más, como eles também as cobiçaram. Nem vos torneis idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo sentou-se para comer e beber, e levantaram-se para brincar. Nem cometamos fornicação, como alguns deles fornicaram, e caíram num só dia vinte e três mil. Nem tentemos Cristo, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo exterminador” (1Cor 10,6-10). Nesta cláusula são especialmente assinalados quatro vícios, a saber: a idolatria, a fornicação, a tentação e a murmuração, pelos quais são dissipados os bens do homem rico. Este quaternário corresponde ao quaternário anterior.

Quem ama o seu corpo, servo malvado, não segundo a necessidade, mas por prazer, adora-o como um idólatra adora um ídolo, “conforme está escrito” no Êxodo: “O povo sentou-se para comer e beber”, diante do bezerro, “e levantaram-se para brincar” (Ex 32,6), isto é, para adorá-lo ou para fazer jogos em sua veneração.

Do mesmo modo, quando o insensato se farta imoderadamente de comida, é contaminado pela fornicação, como se lê no livro dos Números: Israel fornicou com as filhas de Moab, que os convidaram para os seus sacrifícios, e comeram carnes oferecidas aos ídolos. E o Senhor se irou. E caíram num só dia vinte e três mil (cf. Nm 25,1-2.4.9). Eis que da gula provém a fornicação, e da fornicação procede a perdição da morte.

Do mesmo modo, quem toma em matrimônio uma mulher odiosa, pelo consentimento da mente e da obra, tenta Cristo, pois, obedecendo mais a si mesmo do que a ele, confessa-o somente com palavras. Ele mesmo compreendeu brevemente essas três coisas, dizendo: “Quem olhar para uma mulher para desejá-la”, eis a mulher odiosa, “já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5,28), eis que já foi tomada em matrimônio; e, por isso, deve ser ferido pelas mordidas das serpentes, isto é, dos demônios.

Do mesmo modo, quem faz da escrava, isto é, da sensualidade, a senhora da razão, suscita murmuração e dissensão na habitação de sua mente.

Peçamos, portanto, ao Senhor que, com o quaternário das virtudes, destrua este quaternário dos vícios, torne firme a terra de nossa mente, conserve em nós os seus bens, para que não sejam dissipados, e assim mereçamos alcançar a posse dos seus bens. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos. Amém.

7. “Havia um homem rico que tinha um administrador” [1] etc. Esse administrador representa o prelado, a quem o Senhor confiou a guarda de sua propriedade, isto é, de sua Igreja. A ele fala Salomão nos Provérbios: “Conhece diligentemente o rosto de tuas ovelhas e considera os teus rebanhos. Pois não terás perpetuamente o poder, mas uma coroa te será dada de geração em geração” (Pr 27,23-24). Ó prelado, conhece diligentemente o rosto de tuas ovelhas, isto é, de teus súditos, para ver se trazem na fronte o tau da Paixão do Senhor, que receberam no Batismo, ou se o rasparam e sobre ele inscreveram o caráter da besta (cf. Ap 13,16); e considera os teus rebanhos, para que algum deles, infectado pela doença da heresia ou do cisma, não infecte os outros. “Corre”, portanto, como ele mesmo diz no mesmo livro, “apressa-te, desperta o teu amigo. Não dês sono aos teus olhos, nem repouso às tuas pálpebras” (Pr 6,3-4). Pois não terás perpetuamente o poder, mas apenas por algum tempo; se tiveres vigiado diligentemente sobre a guarda do teu rebanho, ser-te-á dada uma coroa pelos séculos dos séculos. Eis de que modo o administrador deve guardar a propriedade de seu senhor.

Mas, ai! ai! Não digo administrador, mas ladrão e lobo, que devasta a propriedade de seu senhor e devora os bens que lhe foram confiados. Por isso, de que modo a Igreja é devastada pela malícia dos prelados, diz Salomão nos Provérbios: “Por três coisas se agita a terra, e a quarta não pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo insensato, quando está saciado de comida; pela mulher odiosa, quando é tomada em casamento; e pela escrava, quando se torna herdeira de sua senhora” (Pr 30,21-23). A terra, que o Senhor abençoou, é a santa Igreja, da qual ele mesmo diz no Gênesis: “Produza a terra erva verdejante” (Gn 1,11) etc. Sobre isso, procura o sermão: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (“Domingo da Septuagésima”). Essa terra, isto é, a assembleia dos fiéis, é afastada da estabilidade da fé e da santidade da vida pelo mau exemplo da malícia dos prelados.

“Pelo servo”, diz ele, “quando reina.” O servo que reina é o prelado, servo do pecado, elevado pelo espírito de soberba, macaco sobre o telhado, presidindo ao povo de Deus, a respeito do qual Salomão diz nos Provérbios: “Leão que ruge e urso faminto, assim é o príncipe ímpio sobre um povo pobre” (Pr 28,15). O prelado da Igreja, servo que reina, príncipe iníquo, é leão que ruge pela soberba, urso faminto pela rapina, despojando o povo pobre. Mas observa que esse infeliz é ainda mais cruel que o urso. Com efeito, diz-se nas Coisas Naturais que a natureza da águia e do urso é tal que nunca fazem presa na região onde escolheram seu ninho ou sua caverna. Servo perverso, poupa ao menos os teus, entre os quais escolheste o ninho de teu esterco e a caverna de tua cegueira.

Esse servo faz com seus súditos o mesmo que o abutre faz com seus filhotes; diz-se nas Coisas Naturais que o abutre expulsa seus filhotes antes do tempo em que podem voar, e faz isso por inveja dos filhotes, pois inveja por natureza; além disso, é de grande voracidade e, quando sente fome, apanha muita presa e inveja os filhotes quando eles engordam. Diz-se que o abutre recebeu o nome do voo lento; devido à grandeza do corpo, não possui voos velozes, e significa o prelado da Igreja que, impedido pelas coisas temporais, não pode voar das coisas terrenas para as celestes. Este, pelo mau exemplo de sua vida, expulsa os seus súditos antes que possam voar, isto é, desprezar o mundo e amar as coisas celestes; expulsa-os do ninho da fé e do bom propósito. Ai! Quantos, pelo mau exemplo dos prelados, desprezando o ninho da fé, do qual diz Jó: “Morrerei em meu pequeno ninho” (Jó 29,18), se voltaram para os hereges. E, porque pela inveja do diabo a morte entrou no mundo (cf. Sb 2,24), este inveja os seus súditos, os seus paroquianos, quando os vê prosperar e abundar em bens. “O invejoso emagrece com os bens alheios” (Horácio, “Epístolas”). Se se atormenta com a felicidade dos seus, a quem poderá desejar felicidade? Com o feliz êxito de quem poderá alegrar-se? Quem é perverso para com os seus, como poderá ser bom para com os outros? (cf. Eclo 14,5). Por causa de tal servo, portanto, a Igreja de Jesus Cristo é devastada.

Do mesmo modo, é agitada “pelo insensato, quando está saciado de comida”. O insensato saciado de comida é o prelado da Igreja, guloso e luxurioso, a respeito do qual se diz nos Provérbios: “Quem ama as iguarias e o vinho não enriquecerá” (Pr 21,17), isto é, com bens espirituais. A este fala Salomão, nos mesmos Provérbios: “Não dês, ó Lamuel, não dês vinho aos reis, porque não há segredo algum onde reina a embriaguez; para que não bebam e se esqueçam dos juízos”, isto é, dos benefícios, “e mudem a causa dos filhos dos pobres” (Pr 31,4-5). Lamuel interpreta-se “em quem está Deus” e representa o prelado, em quem Deus está pela dignidade do ofício e, oxalá!, pela santidade da vida. A este se diz duas vezes, para que se grave mais firmemente na memória, aquilo que é ordenado: “Não dês, não dês vinho aos reis.” Reis são todos os fiéis, membros do sumo Rei; a eles, ó prelado, “não dês vinho”, no qual são designadas a gula e a luxúria, isto é, não os corrompas pelo mau exemplo de tua vida. “Não dês”, repito, “vinho”, porque onde, isto é, quer no prelado, quer no súdito, reina tal embriaguez, não há segredo algum de castidade e pureza. “Não dês”, repito, “vinho”, para que, embriagados pelo exemplo de tua má vida, não se esqueçam dos juízos de Deus e não mudem, julgando injustamente, a causa dos filhos dos pobres, que pedem que se lhes faça justiça. Quando a cabeça padece, todos os outros membros sofrem. Quando a raiz seca, também secam os ramos. Por isso, nos Provérbios: “Quando falta a profecia”, isto é, a vida e a doutrina no prelado, “o povo se desgoverna” (Pr 29,18), porque se esquecem dos juízos de Deus e julgam injustamente a causa dos pobres. Eis quanta ruína sobrevém ao povo por causa da má vida do prelado, que, quando está saciado de comida, se esquece de Deus e do povo que lhe foi confiado. Este, como se diz nos Provérbios, age como a mulher adúltera, “que come e, limpando a boca, diz: Não fiz mal algum” (Pr 30,20). Assim também o prelado, depois de ter cometido muitos males, deseja parecer santo e justo aos olhos dos homens.

8. Igualmente, a Igreja é arruinada “por uma mulher odiosa, quando alguém a toma por esposa”. A mulher é a simonia dos prelados, que, “quando é prometida”, é odiosa, e, “quando é recebida” em matrimônio, é “tomada”. A respeito dessa mulher, Salomão diz nos Provérbios: “A mulher insensata e estridente, cheia de seduções e que nada sabe absolutamente, sentou-se à porta de sua casa, sobre uma cadeira, num lugar elevado da cidade, para chamar os transeuntes e os que seguem seu caminho: ‘Quem é inexperiente, incline-se para mim’. E disse ao insensato: ‘As águas furtivas são mais doces, e o pão escondido é mais saboroso’. E ele não sabe que ali estão os gigantes, e que os seus convivas estão nas profundezas do inferno” (Pr 9,13-18). Com efeito, aquele que se unir a ela descerá ao inferno; pois quem dela se afastar será salvo.

Observa que a simonia é chamada de “mulher insensata e estridente, cheia de seduções e que nada sabe absolutamente”. “Mulher”, porque por causa dela quase todos já estão corrompidos; “insensata”, porque vende ouro para comprar chumbo, isto é, vende as coisas espirituais para obter as temporais; “estridente”, porque ladra descaradamente contra os tribunais e as cúrias; “cheia de seduções”, que compra, para sua própria ruína, pagando com a sua alma; “que nada sabe absolutamente” nem compreende que Deus não deixará impune tão grande crime, porque o dinheiro do simoníaco estará com ele na perdição, visto que vendeu por dinheiro o dom de Deus, dado gratuitamente.

Segue-se: “Sentou-se à porta de sua casa” etc. A casa da simonia é a má vontade do simoníaco, cujas portas são as mãos e a língua, nas quais se assenta a simonia. Com efeito, quem quer que, por pedido ou por preço, por palavra ou por presente, por promessa ou por oferta, por temor ou por amor terreno e carnal, vender ou der algo espiritual ou ligado ao espiritual, é simoníaco e não pode salvar-se senão restituir o que recebeu e fizer verdadeira penitência. Também a má vontade de comprar ou vender o que é espiritual torna o homem simoníaco.

E, porque a simonia escolheu para si o lugar mais elevado nos maiores prelados da Igreja, acrescenta-se: “Sobre uma cadeira, no lugar elevado da cidade”. A cidade é chamada em latim urbs, de orbe, isto é, de redondeza, porque os antigos construíam a cidade em círculo. A cidade é a Igreja, que deve ser redonda, isto é, perfeita; a ela diz o Senhor: “Para que sejais perfeitos, como também é perfeito o vosso Pai” (cf. Mt 5,48). O lugar elevado da Igreja é a dignidade da prelatura. Assim, a simonia se assenta sobre uma cadeira, no lugar elevado da cidade, isto é, sobre aqueles que se sentam nas cátedras da dignidade eclesiástica; e, porque amam essas cátedras, ficarão privados dos segundos lugares, quando caírem de costas da cadeira, com o pescoço quebrado (cf. 1Rs 4,18). Ai, portanto, daqueles que recebem de bom grado presentes, os quais cegam os olhos dos sábios. Estes edificam Jerusalém com sangue, isto é, com seus consanguíneos, sobrinhos e sobrinhos-netos, concedendo-lhes benefícios eclesiásticos. É também uma parte do sacrilégio dar os bens dos pobres a quem não é pobre. Se dás a um parente, deves dar-lhe não porque é parente, mas porque é pobre. Cuida, portanto, para não lançares o patrimônio de Jesus Cristo “na caixa, porque é preço de sangue” (Mt 27,6). Não dês, pois, sangue ao sangue, mas dá ao peregrino e ao pobre; para o sepultamento deles, pelo preço do sangue do Senhor, foi comprado o campo chamado Haceldama (cf. Mt 27,7-8), isto é, a santa Igreja, cujos bens não são dos ricos, mas dos pobres.

Segue-se: “Para chamar os transeuntes” etc. Os transeuntes e os que seguem seu caminho são os homens penitentes que, não tendo aqui uma cidade permanente (cf. Hb 13,14), deposta a carga, correm atrás de Jesus, apressando-se para alcançar a palma da vocação celeste. A mulher insensata, sentada no alto, chama-os para que se inclinem até ela. Eles, porém, recusam absolutamente inclinar-se para ela, pois não buscam a glória que vem dos homens, mas somente a que vem de Deus (cf. Jo 5,41). Mas o inexperiente e o insensato, isto é, o desprovido de coração, ou seja, os carnais, que saboreiam as coisas da carne e cuja glória está na sua própria confusão (cf. Fl 3,19), inclinam-se para ela, bebendo a água furtiva e devorando o pão escondido. As águas furtivas são as prebendas, que são sorvidas como água, mas furtivamente, isto é, por simonia. O pão escondido representa a excelência das dignidades, que, em segredo e como que às escuras, é conferida aos cegos de vida e de ciência. Estas coisas são tanto mais doces e saborosas quanto maior é o ardor da sede e a fome da cobiça com que são procuradas. E os infelizes ignoram que ali, isto é, na dignidade adquirida desse modo, estão os gigantes, isto é, os demônios; e nas profundezas do inferno, destinados a ser eternamente punidos com o diabo, estarão os seus convivas, isto é, os simoníacos. Quem se unir em matrimônio a essa mulher odiosa descerá ao inferno; mas quem dela se afastar será salvo. Diz-se, portanto, com razão, que a simonia arruína a Igreja.

9. “A terra também se agita por causa de uma serva que se torna herdeira de sua senhora.” A senhora é a teologia; a serva, a lei justiniana e a ciência lucrativa. Hoje a serva é posta à frente da senhora; Agar, à frente de Sara; a lei justiniana, à frente da lei divina. Os prelados de nosso tempo, que não são discípulos de Cristo, mas do Anticristo, desprezada a esposa legítima, não temem unir-se à concubina que, vendo-se grávida, despreza sua senhora (cf. Gn 16,4). Nas cúrias dos bispos fazem ressoar a lei de Justiniano, não a de Cristo; contam as tagarelices do iníquo, mas não segundo a tua lei, Senhor, que já foi abandonada e se tornou objeto de ódio. Por isso ela sente necessidade de clamar e dizer com Sara a Abraão: “Agis injustamente contra mim; eu te dei minha serva ao seio, e ela, vendo que concebeu, me despreza” (Gn 16,5). Enquanto isso, Abraão dissimula, mas sem dúvida virá o tempo em que dirá: “Expulsa a serva e seu filho, e somente a livre receberá a herança” (cf. Gn 21,10). Ó quão miserável é aquele que se dedica à lei segundo a qual são julgadas as coisas temporais e não atenta para a lei segundo a qual ele mesmo será julgado! Sobre este assunto encontrarás uma exposição mais completa no evangelho: “Eu sou o bom pastor” (cf. “Dom. II depois da Páscoa”).

Eis que já sabes de que modo o administrador dissipa os bens do Senhor, de que modo, por causa da malícia dos prelados, é destruída a Igreja, a qual, oprimida pela iniquidade deles, diz a seu Esposo, na entrada da missa de hoje: “Quando clamei ao Senhor, ele ouviu minha voz, contra aqueles que se aproximam de mim; e humilhou-os aquele que existe antes dos séculos e permanece eternamente. Lança sobre o Senhor tua aflição, e ele te sustentará” (cf. Sl 54,17-20.23). Aqui se observam três coisas: o atendimento do clamor da Igreja, a rejeição dos falsos ministros e a consolação da própria Igreja. A Igreja, marcada pela pobreza de seu Esposo e colocada no meio de uma nação perversa e transviada, que se aproxima dela pelo nome, não pelo poder divino, pelo corpo, não pela mente, clama ao Senhor, pedindo ser libertada da opressão dessa nação perversa. E o Senhor misericordioso a libertará e humilhará até os infernos a nação perversa e pecadora que se diz igreja, mas é a sinagoga de Satanás (cf. Ap 2,9), quando limpar sua eira, recolher o trigo em seu celeiro e queimar com fogo inextinguível a palha, isto é, aqueles que agora se dispersam em busca da palha das riquezas (cf. Mt 3,12; Lc 3,17). Lança, pois, ó Igreja pobrezinha, sacudida pela tempestade e sem consolação alguma, tua aflição no Senhor, porque ele te sustentará, pois, como diz Isaías, serás amamentada pelos seios dos reis (cf. Is 60,16). Os reis são os apóstolos; os dois seios, a doutrina de Cristo e a graça do Espírito Santo, pelos quais os apóstolos foram amamentados e pelos quais tu serás amamentada até que, crescendo de virtude em virtude, Deus dos deuses seja visto em Sião (cf. Sl 83,8), a quem sejam dadas honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A convocação dos devedores do senhor

10. Segue-se o segundo. “Tendo, pois, convocado um por um os devedores de seu senhor, dizia ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? E ele respondeu: Cem barris de azeite. Disse-lhe: Toma o teu recibo, senta-te depressa e escreve cinquenta. Depois disse a outro: E tu, quanto deves? Ele respondeu: Cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma as tuas letras e escreve oitenta. E o senhor louvou o administrador iníquo, porque agira com prudência; pois os filhos deste mundo são mais prudentes que os filhos da luz em sua geração” (Lc 16,5-8). A Glosa diz a respeito deste trecho: “Cadus”, em grego, e “ânfora”, em latim, contém três urnas. O coro se enche com trinta módios. Isso pode ser entendido simplesmente assim: quem quer que alivie a necessidade do pobre, quer pela metade, quer pela quinta parte, deve receber a recompensa de sua misericórdia.

Moralmente. Vejamos o que significam estes dois devedores, os cem barris de azeite e os cem coros de trigo, e o que significam os cinquenta e os oitenta. Estes dois devedores significam todos os fiéis, que devem observar os dois preceitos da caridade, pelos quais são obrigados a amar a Deus e ao próximo. Nos cem barris de azeite é designado o amor de Deus; nos cem coros de trigo, o amor do próximo. Observa a razão pela qual o azeite significa o amor de Deus. O azeite flutua sobre todo líquido; e esta é a causa: em sua substância não há nada de água nem de terra, mas somente de ar; por isso flutua sobre a água, porque o ar que está no azeite o sustenta, como se estivesse num odre, e esta é a sua leveza. Assim, o amor de Deus deve flutuar acima de todo amor. Por isso Salomão diz nos Provérbios: “O fruto da sabedoria é mais precioso que todas as riquezas, e tudo o que se pode desejar não se compara com ela” (Pr 3,14-15). O fruto da sabedoria é o amor de Deus; tendo saboreado a sua doçura, a alma percebe quão suave é o Senhor (cf. Sl 33,9). O que, portanto, é mais precioso que ele? O que é mais desejável? Nem as riquezas nem a glória das coisas podem comparar-se com ele. E, assim como no azeite nada há de água nem de terra, mas somente de ar, assim também no amor de Deus nada de carnalidade, nada de terrenidade deve misturar-se, mas somente ar, isto é, pureza da mente e conduta celestial. Feliz a alma que tem em si o amor de Deus, pois flutua sobre todas as águas, porque o ar que há na alma amante a sustenta.

11. Por isso, no Gênesis: “O Espírito do Senhor pairava sobre as águas” (Gn 1,2). Note que esta autoridade pode ser exposta de quatro modos. Primeiro, assim: como a mente do artífice paira sobre a obra que está para fazer, e como a ave paira sobre os ovos dos quais hão de nascer os filhotes, assim o Espírito do Senhor pairava sobre as águas, das quais haveria de fazer todas as espécies de seres, segundo o seu gênero (cf. Gn 1,11).

Segundo, assim: o Espírito do Senhor, isto é, o entendimento espiritual, deve elevar-se acima das águas, isto é, do entendimento carnal. Por isso, em João: “É o Espírito que vivifica; a carne”, isto é, o entendimento carnal, “não aproveita em nada” (Jo 6,64), porque “a letra mata” — por isso, no Segundo Livro dos Reis, Urias levou consigo a carta de sua morte (cf. 2Rs 11,14) —, “mas o Espírito vivifica” (2Cor 3,6). Sobre isso, Ezequiel diz: “O espírito de vida estava nas rodas” (Ez 1,20). Nas rodas do Antigo e do Novo Testamento está o espírito de vida, isto é, o entendimento espiritual, que vivifica a alma. Por isso, nos Provérbios: “A lei do sábio é fonte de vida, para afastar-se da ruína da morte” (Pr 13,14).

Terceiro, assim: o Espírito do Senhor, isto é, o prelado de vida espiritual, paira sobre as águas, isto é, sobre os povos. Com efeito, quanto a vida do pastor dista da vida do rebanho, tanto deve a vida do prelado distinguir-se da vida do súdito. Por isso, Ezequiel diz: “Sobre as cabeças dos seres vivos havia uma semelhança de firmamento, semelhante ao aspecto de um cristal terrível, estendido sobre as suas cabeças, por cima” (Ez 1,22). O firmamento é o prelado, no qual deve haver o sol de uma vida pura, a lua da doutrina, que ilumina a noite deste exílio, e as estrelas da boa fama; sua conduta deve ser como o aspecto de um cristal terrível. No “cristal” designam-se a constância da mente e a afabilidade da mansidão; no “terrível”, a severidade da correção. O prelado deve ser constante e afável, severo e terrível, conforme o exigirem as circunstâncias; e assim pairará sobre as águas e sobre as cabeças dos seres vivos, isto é, de seus súditos, sobre os quais deve estender-se, para protegê-los e defendê-los.

Quarto, assim: o Espírito do Senhor, isto é, a alma que já concebeu o espírito do amor divino, paira sobre as águas, isto é, acima das coisas temporais. Por isso, no Gênesis: “A arca era levada sobre as águas. E as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra, e foram cobertos todos os montes elevados sob todo o céu” (Gn 7,18-19). As águas das riquezas e da concupiscência já se elevaram de tal modo que cobriram toda a terra. Por isso, Isaías diz: “A sua terra está repleta de ouro e prata, e não há fim para os seus tesouros”: eis a avareza; “a sua terra está repleta de cavalos, e são inumeráveis os seus carros”: eis a soberba; “e a sua terra está repleta de ídolos” (Is 2,7-8): eis a luxúria. Toda a terra está coberta por essas águas malditas e, o que é pior e mais perigoso, todos os montes elevados, isto é, os prelados da Igreja, estão cobertos por essas águas. Mas a arca de Noé, isto é, a alma do homem espiritual, é levada sobre as águas, porque considera tudo como esterco. Diz-se, pois, com razão, que o óleo do amor divino flutua acima de todo líquido.

Nos cem barris de óleo entende-se a perfeição suprema do amor divino. O administrador, portanto, isto é, o prelado da Igreja, deve dizer a cada fiel, que é devedor de Deus: “Quanto deves ao meu senhor?”, isto é, em que medida estás obrigado a amar a Deus? Ele responde: “Cem barris de óleo”, isto é, devo-lhe toda a perfeição do amor, porque sou obrigado a amá-lo de todo o coração, com toda a alma e com toda a força. Mas, como sou pecador, não consigo alcançar aquela perfeição do amor. Então o administrador da Igreja, cuidando de si e dele, deve dizer: “Toma o teu recibo, senta-te depressa e escreve cinquenta”. O recibo, chamado em latim cautio, de cavere, “precaver-se”, é um breve documento escrito para recordar a dívida. Note aqui os três atos nos quais consiste a verdadeira penitência. O prelado ou sacerdote deve dizer ao pecador: Como ainda não podes elevar-te àquela perfeição do amor supremo, por enquanto “toma o teu recibo”, isto é, prepara a tua vida para fazer penitência; “e senta-te”, na contrição do coração; “depressa”, porque o tempo é breve; “escreve”, na confissão da boca, “cinquenta”, na satisfação mediante as obras. Sobre este número cinquenta encontrarás uma exposição mais ampla no sermão: “Quando se completavam os dias de Pentecostes” (“No santo dia de Pentecostes”).

12. Segue-se: “Depois disse a outro: ‘E tu, quanto deves?’. Ele respondeu: ‘Cem coros de trigo’” (Lc 16,7) etc. O trigo é o amor do próximo, do qual Salomão diz nos Provérbios: “Quem esconde o trigo será amaldiçoado entre os povos; mas a bênção estará sobre a cabeça dos que o vendem” (Pr 11,26). “Quem esconde”, isto é, subtrai, “o trigo”, isto é, o amor ao próximo, “será amaldiçoado” naquele encontro universal, no qual todo o povo estará diante do tribunal do juiz. “Mas a bênção — ‘Vinde, benditos de meu Pai’ (Mt 25,34) — estará sobre a cabeça dos que o vendem.” Se vendes ao próximo o trigo do amor, receberás a recompensa da retribuição eterna. Por isso, nos Provérbios: “Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor, e ele lhe retribuirá” (Pr 19,17). Nos cem coros de trigo entende-se a perfeição do amor interior.

Diga, pois, o administrador — diga o sacerdote ou prelado da Igreja — ao pecador: “Quanto deves?”, isto é, quanto deves amar no Senhor o teu próximo? Ele responde: “Cem coros de trigo”, isto é: devo amar o amigo e o inimigo, em Deus e por Deus, e por ele, se for necessário, devo dar a vida. Mas, como sou carnal e fraco, não sou capaz de alcançar tão grande amor ao próximo. Então o administrador deve dizer-lhe: “Como ainda não és capaz de expor a vida à morte pelo irmão, por enquanto ‘toma a tua letra e escreve oitenta’.” A palavra letra é assim chamada, quase como “legitera”, porque oferece um caminho aos que leem, ou porque se repete na leitura. “Toma”, portanto, “a tua letra”, isto é, prepara o caminho da tua mente para amar o próximo; “e escreve oitenta”, isto é, ensina-o a não errar e socorre-o para que não desfaleça; ensina a sua alma com as doutrinas dos quatro evangelistas; restaura o seu corpo, que é composto dos quatro elementos, com o auxílio de um benefício temporal, e assim escreverás oitenta. Deves ter sempre estas letras diante dos olhos, para que, cada vez que vejas o próximo, escrevas nele oitenta, e, escrevendo, leias, e, lendo, repitas. Pois, ao leres assim, as próprias letras te abrirão o caminho pelo qual chegarás a conquistar o prêmio.

13. Segue: “E o senhor louvou o administrador da iniquidade” etc. O sacerdote ou prelado da Igreja, porque, vivendo mal, dissipa os bens de seu Senhor, é chamado iníquo. Iníquo, porque não é equitativo, mas está manchado por obras perversas. Contudo, porque admoesta os pecadores, propõe a palavra do Senhor e mostra e ensina prudentemente o que cada um, segundo as suas possibilidades, deve dar a Deus e ao próximo, é louvado pelo Senhor: “Pois os filhos deste mundo” etc. Nota que a prudência é atribuída às coisas humanas, e a sabedoria, às divinas. Fazem parte da prudência o conhecimento das coisas civis, militares, terrestres e náuticas. Do mesmo modo, a prudência é o conhecimento tanto das coisas boas como das más; dela fazem parte a memória, a inteligência e a previdência. Em segundo lugar, ela consta de gerações. Daí se dizer o que segue, pois, passando umas coisas, outras lhes sucedem: “Os filhos” “deste mundo são mais prudentes em sua geração”, isto é, carnal, “que os filhos da luz” (Lc 16,8). A luz é assim chamada porque dissipa as trevas. Os filhos deste mundo, que buscam as coisas temporais, são mais prudentes em sua geração do que os filhos da luz, que as desprezam; estes, com a luz de sua vida, dissipam as trevas dos pecados.

A respeito disso tens uma concordância nos Provérbios de Salomão: “Há uma geração que amaldiçoa seu pai e não bendiz sua mãe. Há uma geração que se considera pura e, contudo, não está lavada de suas imundícies. Há uma geração cujos olhos são altivos e cujas pálpebras se elevam para o alto. Há uma geração que tem espadas por dentes e mastiga com seus molares, para devorar da terra os indigentes e, dentre os homens, os pobres” (Pr 30,11-14). Nota que, nesta passagem, são apresentados quatro gêneros de homens iníquos, a saber: os prelados perversos, os falsos religiosos, os soberbos, os avarentos e usurários. “A geração que amaldiçoa seu pai e não bendiz sua mãe” são os prelados e sacerdotes perversos da Igreja, que amaldiçoam a Deus Pai, cujo nome é blasfemado por causa deles (cf. Rm 2,24), pela impureza de sua vida e pela negligência de seu ofício, e não bendizem sua mãe, a Igreja; ao contrário, destroem com más obras a sua fé, que deveriam pregar por palavras e pelo exemplo.

Do mesmo modo, “a geração que se considera pura” são os falsos religiosos, hipócritas, semelhantes a sepulcros caiados (cf. Mt 23,27), dos quais diz o bem-aventurado Bernardo: Se pudessem viver exteriormente sem infâmia, considerariam ter salvado tudo para si.

Do mesmo modo, a geração cujos olhos são altivos são os soberbos, que caminham com o pescoço estendido e com meneios dos olhos (cf. Is 3,16), cujas pálpebras não se dirigem aos passos, mas se elevam para o alto. Contra eles diz o Profeta: “Senhor, meu coração não se elevou, nem meus olhos se ergueram com soberba” (Sl 130,1).

Do mesmo modo, “a geração que tem espadas por dentes” etc. são os avarentos e usurários, cujos dentes são armas e flechas (cf. Sl 56,5), que devoram os pobres e adquirem para si os bens alheios. Todos estes são filhos deste mundo, que consideram tolos os filhos da luz e julgam-se prudentes, embora a sua prudência seja a morte deles (cf. Rm 8,6).

A esta segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Portanto, quem julga estar de pé, veja que não caia. Não vos alcance tentação alguma senão humana” (1Cor 10,12-13). O administrador julgava estar de pé, mas caiu da administração, porque dissipou os bens do senhor. Os filhos deste mundo julgam estar de pé, mas, retirado o bastão de cana das riquezas em que se apoiam, cairão no inferno; então reconhecerão que os filhos da luz são mais prudentes que os filhos deste mundo. Que a tentação, isto é, a atração do pecado, não vos alcance, ó filhos da luz, isto é, não conduza a razão ao consentimento, senão a humana, isto é, senão a respeito daquelas coisas sem as quais esta vida não se conduz. A tentação humana consiste em julgar as coisas de modo diferente do que elas são na realidade e, mesmo com boa intenção, errar em alguma decisão. Mas, se não há em nós a perfeição do anjo, não haja também a presunção do diabo.

Rogamos-te, pois, Senhor Jesus Cristo, que nos concedas o amor a ti e ao próximo, que nos faças filhos da luz, que nos livres da queda no pecado e da tentação do diabo, para que mereçamos subir à glória da luz inacessível. Concede-no-lo tu, que és bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Amém.

III. O acolhimento nas moradas eternas daqueles que fazem o bem aos pobres

14. Segue-se a terceira parte. “E eu vos digo: Fazei para vós amigos com a riqueza da iniquidade, para que, quando ela vos faltar, eles vos recebam nas moradas eternas” (Lc 16,9). Mamona, na língua dos sírios, significa riquezas da iniquidade, porque foram acumuladas a partir da iniquidade. Se, portanto, a iniquidade bem administrada se converte em justiça, quanto mais as riquezas da palavra divina, na qual não há iniquidade alguma, elevarão ao céu o bom administrador? Amigo é assim chamado, como que guardião da alma, ou de amar. A amizade é a vontade de bens em favor de alguém, por causa daquele a quem se ama, em conformidade com a sua vontade. Os ricos deste mundo, que acumulam com mentiras riquezas da iniquidade, isto é, da desigualdade, não têm, se o soubessem, amigos mais próximos que as mãos dos pobres, cujo tesouro é Cristo. Diz Gregório: Para que, depois da morte, os ricos encontrem algo em suas mãos, antes da morte se lhes diz nas mãos de quem devem depositar as suas riquezas. Ó rico, dá a Cristo aquilo que ele mesmo te deu. Tiveste-o como doador; tem-no como devedor; possui-o como aquele que empresta a juros. Ó rico, estende, suplico-te, a mão ressequida ao pobre, e aquela que antes era ressequida pela avareza floresça agora pela esmola.

Por isso Salomão diz no Eclesiastes: “Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto, será dispersa a alcaparra” (Ecl 12,5). A amendoeira, como diz Gregório, floresce antes das outras árvores e significa aquele que dá esmola, o qual, florescente de compaixão e misericórdia, deve fazer brotar antes de tudo a flor da esmola. Por isso Isaías diz: “Israel florescerá e germinará” (Is 27,6). Israel, isto é, o homem justo, florescerá pela esmola e germinará pela compaixão. Mas nota que, embora o germe venha antes da flor, ele não pôs primeiro “germinará”, mas “florescerá e germinará”; e isso pela razão de que, quando o homem justo floresce pela esmola, deve germinar pela compaixão, porque deve estendê-la ao pobre não somente com a mão, mas também com o afeto do coração, para que a avareza não faça lamentar a esmola.

“Florescerá”, portanto, “a amendoeira”, isto é, aquele que dá esmola, “e engordará o gafanhoto”, isto é, o pobre, que é justamente comparado ao gafanhoto. Pois, assim como o gafanhoto, entorpecido no tempo do frio, perde as forças, mas, com a chegada do calor, como que se alegra e salta, assim também o pobre, no tempo da fome e no frio da necessidade, perde as forças, seu corpo enrijece e seu rosto empalidece; mas, com a chegada do calor da beneficência, pelo dom da esmola, recupera as forças e dá graças a Deus e a quem lhe concedeu o benefício. E assim “é dispersa a alcaparra”, isto é, a avareza. A dispersão da avareza é a distribuição da esmola. “Fazei”, portanto, “para vós amigos com a riqueza da iniquidade, para que, quando vos faltar, eles vos recebam nas moradas eternas”.

15. Considera que há quatro moradas. A primeira é a dos carnais, a segunda, a dos principiantes, a terceira, a dos que progridem, e a quarta, a dos que chegaram, isto é, dos perfeitos. A primeira é a dos idumeus e ismaelitas, a segunda, a de Cedar, a terceira, a de Jacó, e a quarta, a do Senhor dos exércitos. Da primeira se diz no Salmo: “Contra ti estabeleceram uma aliança as moradas dos idumeus e dos ismaelitas” (Sl 82,6-7). Idumeus interpreta-se como sanguinários, e ismaelitas, como obedientes — entenda-se: a si mesmos, e não a Deus. Por estes entendemos os luxuriosos, que se contaminam com o sangue da luxúria, e os soberbos, que obedecem não a Deus, mas à própria vontade. As moradas destes, isto é, os seus conciliábulos, estabelecem uma aliança contra a aliança que o Senhor firmou no monte, a saber: “Bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5,3). Dessas moradas é preciso fugir para as moradas de Cedar, das quais se diz no Cântico dos Cânticos: “Sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as moradas de Cedar, como os pavilhões de Salomão. Não olheis para o fato de eu ser morena, pois o sol me descoloriu” (Ct 1,4-5). Encontrarás esta autoridade explicada no sermão: “Quando o espírito imundo sai” (Dom. III da Quaresma, IV).

Quem tiver combatido bem nestas moradas passará às moradas de Jacó, das quais se diz no livro dos Números: “Como são belas as tuas moradas, ó Jacó, e as tuas tendas, ó Israel! São como vales arborizados, como jardins junto a rios irrigados, como tendas que o Senhor plantou, como cedros junto às águas” (Nm 24,5-6). Considera estas três coisas: os vales, os jardins e os cedros. Nos vales arborizados é designada a humildade da mente; nos jardins irrigados, a compunção das lágrimas; nos cedros, a contemplação das realidades celestes. As moradas, portanto, de Jacó, e as tendas de Israel são a vida do homem ativo e do contemplativo; o Senhor plantou essas moradas, porque estão dispostas segundo o seu beneplácito. Por isso se disse a Moisés no Êxodo: “Olha e faze segundo o modelo que te foi mostrado no monte” (Ex 25,40). O monte, assim chamado por não ter movimento, é Cristo, “que não seguiu o conselho dos ímpios” (Sl 1,1) etc. O modelo é a sua vida, segundo a qual devem ser plantadas e construídas as nossas moradas. Moradas e tendas são a mesma coisa e significam o mesmo. Tenda é assim chamada porque é estendida com cordas e estacas, isto é, é uma morada ou pavilhão. As moradas, portanto, do homem ativo e do contemplativo são belas, “como vales arborizados”, porque consistem na humildade da mente, que oferece sombra contra o ardor dos vícios; “e como jardins junto a rios irrigados”, porque suas mentes são irrigadas pela compunção das lágrimas; e “como cedros junto às águas”, porque estão profundamente plantados e enraizados na sublimidade da contemplação, no perfume de uma santa vida e na abundância do rio que alegra a cidade de Deus (cf. Sl 45,5).

Dessas moradas, quando tiver terminado o combate, quando o inverno tiver passado e a chuva tiver ido embora e se retirado (cf. Ct 2,11), então passará às moradas do Senhor dos exércitos (cf. Sl 83,2), das quais o Senhor promete por Isaías: “Meu povo habitará numa morada de paz, em habitações tranquilas e num repouso opulento” (Is 32,18). O “povo” dos penitentes, “o povo do Senhor e as ovelhas do seu pasto” (Sl 94,7), que agora está no meio dos combates, sentar-se-á na beleza da paz. A paz é a liberdade tranquila (“T. Cícero”), chamada assim a partir de pacto. Depois, porém, a paz é alcançada quando se estabelece o primeiro pacto. Quem agora firma com o Senhor o pacto da reconciliação sentar-se-á depois na beleza da paz no reino celeste. A paz do tempo e do coração, ai de nós!, quantas vezes é maculada! Mas a paz da eternidade permanecerá bela pelos séculos dos séculos, “e em moradas de confiança”. Então não haverá quem aterrorize (cf. Jó 11,19), mas todos habitarão com confiança, “e num repouso opulento”. Opulento deriva de ops, riqueza. O repouso opulento significa a glorificação da alma e do corpo, isto é, da dupla veste, que os santos possuirão eternamente. Fazei-vos, portanto, ó ricos, amigos dos pobres; recebei-os em vossas moradas, para que, quando vos faltar a riqueza acumulada com a injustiça, quando vos for retirada a palha das coisas temporais, eles vos recebam nas moradas eternas, onde há a beleza da paz, a confiança da segurança e o repouso opulento da eterna satisfação.

A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima do que podeis; mas, com a tentação, proporcionará também o resultado, para que possais suportá-la” (1Cor 10,13). O Apóstolo fala aos pobres de Cristo e aos penitentes, que combatem nas moradas de Cedar. Deus é fiel, verdadeiro em suas promessas, e não permitirá que vós, atribulados por causa dele, sejais tentados acima do que podeis suportar; mas aquele que dá licença ao tentador oferece ao tentado também a sua misericórdia. Proporcionará também, com a tentação, o resultado, isto é, o aumento das virtudes, para que possais suportá-la, isto é, para que não desfaleçais, mas vençais.

Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao Senhor Jesus Cristo que nos faça sair das moradas dos idumeus, combater nas moradas de Cedar e passar às moradas de paz de Jacó, para que mereçamos chegar às eternas moradas da paz, da confiança e do repouso. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito, digno de louvor e de amor, e vive pelos séculos eternos. Diga toda a Igreja: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.