Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 33

Domingo VI depois de Pentecostes Dominica VI post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 15 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do sexto domingo depois de Pentecostes: “Se a vossa justiça não superar”, que se divide em três partes.

Primeiro, sermão sobre os prelados da Igreja e os pregadores, e sobre como deve ser a vida deles: “Nas bases do templo estavam esculpidos”.

[Da primeira parte]. Também sermão sobre a justiça dos hipócritas e dos verdadeiros penitentes: “Se não superar”, e também: “Escolhei para vós um boi”.

Também contra o religioso orgulhoso: “Se o boi tiver chifres”.

Também sobre a justiça dos penitentes: “Elias construiu um altar”.

Também sobre a Paixão de Cristo: “Todos os que fomos batizados”.

Também sobre o desprezo do mundo e a fuga para o deserto: “Foge, meu amado”.

Da segunda parte. Sermão contra os iracundos: “Adonias, filho de Haguit”. Aqui, sobre a natureza do basilisco e seu significado.

Da terceira parte. Sermão sobre o quádruplo altar: “Se ofereces o teu dom”.

Também sermão sobre a devoção da mente: “Farás um altar para queimar incenso”.

Também sermão sobre o quádruplo ofício e o quádruplo irmão: “Se ofereces o teu dom ao altar” etc.

Exórdio. Sermão sobre os prelados e os pregadores da Igreja

Trecho ainda sem tradução — texto em latim

1. In illo tempore, dixit Iesus discipulis suis: "Nisi abundaverit iustitia vestra plus quam scribarum et pharisaeorum, non intrabitis in regnum caelorum "(Mt 5,20).

Dicitur in tertio libro Regum, quod in basibus templi erant sculpta cherubim, leones, boves et lora dependentia (cf. 3Reg 7,27-29). Nota quod tria ad fabricam domus sustinendam conveniunt, scilicet capitella, columnae et bases. Capitella dicta, quasi capita columnarum, fuerunt prophetae, de quibus dicitur in tertio libro Regum: "Capitella quae erant super capita columnarum, quasi opere lilii fabricata erant "(3Reg 7,19). Per lilium superna claritas aeternae patriae et immortalitatis, floribus redolens, paradisi designatur amoenitas, quam prophetae, apostolorum patres, in suis prophetiis nobis ediderunt.

Columnae fuerunt apostoli, de quibus dicitur: "Ego confirmavi columnas eius "(Ps 74,4). Unde in tertio libro Regum Salomon erexit columnas, unam vocavit Iachin, quod interpretatur firmitas, et alteram Booz, idest in robore (cf. 3Reg 7,21). Per istas duas columnas apostoli designantur, qui bene duae columnae dicuntur, quia bis post Christi Resurrectionem acceperunt Spiritum Sanctum: primo in terra, ut diligeretur proximus, secundo e caelo, ut diligeretur Deus. In Christi Resurrectione firmitatem, in Spiritus Sancti missione robur indeficiens acceperunt.

Bases sunt nostri temporis praelati et praedicatores, in quibus debent esse sculpta ista quattuor: cherubim, leones, boves et lora. In cherubim plenitudo scientiae et doctrinae, in leonibus terror potentiae, in bobus mansuetudo misericordiae, in loris vincula disciplinae designantur. Sint, obsecro, in basibus templi haec sculpta, scientia scilicet doctrinae, ut doceant, terror potentiae, ut corripiant, mansuetudo misericordiae, ut sustentent, vincula disciplinae, ut restringant. De his quattuor dicitur in quarto libro Regum, ubi clamabat Eliseus: "Pater mi, pater mi, currus Israel et auriga eius "(4Reg 2,12). "Pater mi" ad docendum, "Pater mi" ad corrigendum, "currus" ad sustentandum, "et auriga" ad restringendum. Si haec quattuor Ecclesiae praelati et praedicatores in se sculpserint, vere illam abundantem iustitiam habere poterunt, de qua dicit Dominus in hodierno evangelio: "Nisi abundaverit iustitia vestra" etc.

2. Observa que neste evangelho são assinaladas três coisas. Primeiro, a justiça dos apóstolos, quando se diz: “Se a vossa justiça superar”. Segundo, a condenação daquele que se ira contra o irmão e o ultraja, quando se acrescenta: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”. Terceiro, a reconciliação do irmão com o irmão, quando se acrescenta: “Se, portanto, apresentas a tua oferta”. Com estas três cláusulas concordaremos algumas histórias do terceiro livro dos Reis.

Na entrada da missa deste domingo canta-se: “O Senhor é a força do seu povo”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Romanos: “Todos nós que fomos batizados”, etc.; queremos dividi-la em três partes e pô-las em concordância com as três cláusulas do evangelho. A primeira parte é: “Todos os que foram batizados”. A segunda: “Sabendo isto: que o nosso homem velho”. A terceira: “Sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos”.

I. A justiça dos apóstolos

3. Digamos, portanto: “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus” (Mt 5,20). A justiça dos fariseus consistia em refrear a mão, não o espírito. Por isso, os judeus não acreditavam que houvesse pecado no pensamento, mas somente na ação. A justiça dos apóstolos, abundante pelo espírito do conselho e pela graça da misericórdia de Deus, consiste em refrear não somente a mão da prática do mal, mas também o espírito do pensamento perverso. Os escribas e fariseus, que se interpretam como separados, são os hipócritas (cf. Mt 23, passim), os quais, escrevendo diante dos olhos dos homens, escreveram a injustiça; e são também alguns religiosos supersticiosos, que, considerando-se justos, desprezam os demais (cf. Lc 18,9). A justiça destes consiste na lavagem das mãos e dos vasos, na disposição das vestes, na construção de elegantes sinagogas (edifícios), na multiplicidade e variedade de instituições e preceitos. A justiça, porém, dos verdadeiros penitentes consiste no espírito de pobreza, no amor fraterno, no gemido da contrição, na mortificação do corpo, na doçura da contemplação, no desprezo da prosperidade terrena, na doce aceitação da adversidade e no propósito da perseverança final.

Sobre a justiça daqueles e destes, temos uma concordância no terceiro livro dos Reis, onde se diz que “Elias falou aos profetas de Baal: Escolhei para vós um novilho e começai vós primeiro, porque sois mais numerosos; invocai os nomes de vossos deuses, mas não ateeis fogo. Eles invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio-dia, dizendo: Baal, escuta-nos! E não havia voz nem quem respondesse. Saltavam ao redor do altar que haviam feito. Sendo já meio-dia, Elias zombava deles, dizendo: Clamai com voz mais forte; ele é vosso senhor e talvez esteja falando, ou esteja em uma hospedaria, ou em viagem, ou certamente dormindo, para que seja despertado. Eles clamavam, pois, com voz mais forte e, segundo o seu rito, faziam incisões em si mesmos com facas e pequenas lanças, até se banharem de sangue” (3Rs 32-39). Eis qual é a justiça dos fariseus! Qual seja, porém, a justiça dos verdadeiros penitentes, demonstra-se no que segue. Elias, diz o texto, “construiu um altar de pedras em nome do Senhor, fez ao redor do altar um canal, com capacidade para duas medidas de semente; dispôs a lenha e dividiu o novilho em pedaços”. E ordenou que se derramasse água sobre o holocausto e sobre a lenha uma vez, outra vez e uma terceira vez. “E as águas corriam ao redor do altar, e o canal ficou cheio de água.” E, concluída a oração, “caiu o fogo do Senhor e devorou o holocausto, a lenha e as pedras, e também o pó, lambendo a água que estava no canal”. Ao ver isso, todo o povo caiu com o rosto por terra e disse: “O Senhor é Deus, o Senhor é Deus!” (3Rs 32-39).

4. Os hipócritas supersticiosos, os profetas de Baal, nome que se interpreta como “superior” ou “devorador”, escolhem para si um boi, isto é, o apetite carnal. Este é o boi acostumado a marrar com os chifres, do qual se diz no Êxodo: “Se um boi tiver sido acostumado a marrar com os chifres desde ontem e anteontem, e isso tiver sido comunicado ao seu dono, que não o tiver mantido fechado, e ele tiver matado um homem ou uma mulher, será apedrejado, e também matarão o seu dono” (Ex 21,29). O boi acostumado a marrar com os chifres é o apetite carnal que, com o chifre da soberba, mata um homem ou uma mulher, isto é, a razão ou a boa vontade. E, porque o seu dono, isto é, o espírito, não quis mantê-lo fechado, isto é, refreá-lo, será morto juntamente com o boi, porque o corpo e a alma serão eternamente punidos. Ouçam também isto os abades e priores: se tiverem um boi acostumado a marrar com os chifres, isto é, um monge ou cônego soberbo, embriagado e luxurioso, e não quiserem mantê-lo fechado, para que, com o seu mau exemplo, não escandalize homem ou mulher, o boi será apedrejado, porque ele morrerá em sua iniquidade, e o abade ou prior, por não ter querido mantê-lo fechado, será eternamente punido.

Segue-se: “E invocai os nomes de vossos deuses” etc. Quantos pecados mortais cometem, tantos deuses invocam e adoram; deles se diz no Êxodo: “Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair da terra do Egito” (Ex 32,4). Ai! Quantos religiosos existem hoje que adoram, no deserto, isto é, na religião ou no claustro, os deuses que adoravam no Egito, isto é, no mundo. E, porque carecem do fogo da caridade, o seu sacrifício lhes é inútil. Desde a manhã até o meio-dia clamam, dizendo: “Baal, ouvi-nos!”. Que significa clamar a Baal, senão desejar ardentemente tornar-se superior? Mas não há voz, nem quem responda à sua vontade. Novamente clamam, ainda com voz mais alta. Clamar é desejar. Ferem-se com facas e pequenas lanças, isto é, mortificam-se com jejuns e disciplinas; desfiguram o rosto (cf. Mt 6,16), jejuam primeiro na vigília, para depois poderem celebrar a festa do ventre. No tempo do profeta Elias, os profetas de Baal clamavam, mas não eram atendidos. Em nossos tempos, porém, clamam e são atendidos. São promovidos a cargos superiores, para depois caírem com queda mais dolorosa. Antes, sua voz era humilde, suas vestes modestas, o ventre encovado, o rosto pálido, e a oração assídua em público. Agora, porém, trovejam ameaças; andam encapuzados e mitrados; avançam com o ventre à frente, de rosto corado; dormem continuamente e não rezam. Virá, virá Elias, prenderá os profetas de Baal e os matará na torrente do Quison (cf. 3Rs 18,40). Virá Salomão e matará Adonias, que quis reinar (cf. 3Rs 2,24), e Semei, que amaldiçoou Davi, e Joab, que matou dois príncipes de Israel, melhores do que ele (cf. 3Rs 2,44-46.31-32).

5. A justiça dos penitentes. “Elias construiu um altar”. Elias é o penitente que, com as pedras das virtudes, reconstrói o altar da fé, destruído pelos pecados, e sobre ele oferece o sacrifício de louvor como aroma de suavidade. “Fez um canal”: do coração contrito e do espírito humilhado, o penitente faz brotar rios de lágrimas, pelo temor da geena e pelo desejo da vida eterna. Ali também dispõe a lenha, porque toma para si, como exemplo, as palavras e as obras dos santos. Divide ainda o boi em membros e o coloca sobre a lenha, quando se esforça por conformar todos os seus atos ao exemplo dos santos Padres. Derrama uma vez, outra vez e uma terceira vez água sobre o holocausto e sobre a lenha, porque em todo tempo conserva os pensamentos, as palavras e as obras na pureza da consciência e na compunção das lágrimas. E não cessa antes que os canais estejam cheios, isto é, até que a alegria futura, sucedendo à tristeza presente, se realize perfeitamente. Assim se cumprirá o que segue: “Caiu fogo do céu e devorou o holocausto” etc. Quando o julgamento do Juiz supremo, examinando perfeitamente as palavras, as obras e toda a nossa vida, provando-nos como se prova a prata pelo fogo, nos tiver tornado imortais e bem-aventurados, ele nos colocará em uma morada perpétua, para que, à semelhança dos israelitas, cantemos eternamente, alegres: “O próprio Senhor é Deus”.

Tal é a justiça que justifica os penitentes, da qual diz o Senhor: “Se a vossa justiça não exceder” etc. Observa que justiça é aquilo pelo qual, julgando retamente, se dá a cada um o que é seu; chama-se assim, como que estado do direito. Cada um é obrigado a prestar justiça a cinco realidades: a Deus, honra; a si mesmo, cautela; ao próximo, amor; ao mundo, desprezo; ao pecado, ódio. A essas cinco correspondem aquelas cinco expressões contidas no intróito da missa de hoje: “O Senhor é a força do seu povo e o protetor da salvação do seu ungido. Salva o teu povo, Senhor, e abençoa a tua herança, e governa-os para sempre” (Sl 27,8-9). Se prestares honra ao Senhor, o Senhor será a tua força. Se, quanto puderes, tiveres cautela contigo mesmo, ele será para ti protetor da salvação. Se amares o próximo, ele salvará a ti e a ele. Se desprezares o mundo, ele te abençoará, pois és sua herança. Se odiares o pecado, ele te governará, e com ele viverás pelos séculos dos séculos.

6. À primeira cláusula do Evangelho corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte. Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova. Pois, se fomos enxertados na semelhança da sua morte, também o seremos na da ressurreição” (Rm 6,3-5). Eis a justiça repartida em cinco partes. Observa que do lado de Cristo saíram água e sangue: a água do batismo e o sangue da redenção (cf. Jo 19,34). Água para o corpo, porque muitas águas significam muitos povos (cf. Ap 17,15); sangue para a alma, porque a alma vive no sangue (cf. Dt 12,23). Demos, portanto, tudo a Deus, que tudo redimiu, para possuir tudo.

“Todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus”, isto é, na fé de Jesus Cristo, fomos purificados “na sua morte”, isto é, no seu sangue. Por isso, no Apocalipse: “Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue” (Ap 1,5). Observa que o sangue tirado do lado da pomba apaga do olho a mancha de sangue (Plínio). Devemos, portanto, prestar honra e reverência, com tudo o que somos e tudo o que podemos, àquele que apagou com o seu sangue do olho de nossa alma a mancha de sangue, isto é, a mancha do pecado. A nossa pomba, Jesus Cristo, que não tem fel e cujo canto é feito de gemidos e lamentos, quis que seu lado fosse aberto, para apagar dos cegos a mancha de sangue e abrir aos exilados a porta do paraíso.

Também devemos ter cautela conosco mesmos. Por isso segue-se: “Fomos sepultados com ele pelo batismo na morte”, isto é, na mortificação dos vícios. Assim como Cristo, suportando a dor da cruz, teve os membros dilacerados e pregados, repousou no sepulcro e foi subtraído aos olhares humanos, assim também nós, suportando a cruz da penitência, tenhamos os membros pregados pela continência, para não voltarmos às coisas anteriores, das quais devemos afastar-nos de tal modo que já não tenhamos nem sua visão nem sua memória.

Do mesmo modo, devemos oferecer amor ao próximo. Por isso segue-se: “Para que, assim como Cristo ressuscitou” etc. Assim como Cristo, ressuscitando dos mortos, apareceu aos discípulos e transformou sua tristeza em alegria, assim nós, ressuscitando das obras mortas para a glória do Pai, alegremo-nos com o próximo e caminhemos com ele na novidade da vida. E qual é a novidade da vida, senão a caridade para com o próximo? “Dou-vos”, diz ele, “um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros” (Jo 13,14). E no Levítico: “Quando chegarem as coisas novas, lançareis fora as antigas” (Lv 26,10), que são as iras, as invejas e as demais coisas enumeradas pelo Apóstolo (cf. Gl 5,20-21).

7. Do mesmo modo, devemos manifestar ao mundo o desprezo e nutrir ódio pelo pecado. Por isso, segue-se: “Se fomos plantados juntamente” etc. Se formos transplantados do pomar da Babilônia, onde os falsos juízes surpreenderam Susana (cf. Dn 13,5-7), e formos plantados juntamente no jardim do esposo, no qual ele próprio foi sepultado, então verdadeiramente desprezaremos o mundo. E, porque do desprezo do mundo nasce o ódio ao pecado, por isso o Apóstolo acrescentou: “à semelhança da sua morte”. Onde há a semelhança da morte de Cristo, aí há a abominação do pecado. Por isso, lê-se no Cântico: “Foge, meu amado, torna-te semelhante à cabra-montês e ao filhote dos cervos, sobre os montes dos aromas” (Ct 8,14). “Foge, meu amado”: eis o desprezo do mundo. Por isso, em João, quando quiseram arrebatar Jesus e constituí-lo rei, ele fugiu para o monte (cf. Jo 6,15). Quando, porém, o procuravam para matá-lo, foi ao encontro daqueles que o procuravam (cf. Jo 18,4). “Foge”, portanto, “meu amado.” Lê-se no Êxodo que o faraó “procurava matar Moisés; este, fugindo de sua presença, demorou-se na terra de Madiã e sentou-se junto a um poço” (Ex 2,15). “Foge” também tu, “meu amado”, porque o diabo procura matar-te; habita na terra de Madiã, que se interpreta como ‘do juízo’, para que julgues a tua terra, a fim de não seres julgado pelo Senhor; e senta-te junto ao poço da humildade, do qual tirarás a água que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4,14). “Foge”, portanto, “meu amado.” Lê-se no Gênesis que Rebeca disse a Jacó: “Eis que Esaú, teu irmão, ameaça matar-te. Agora, pois, meu filho, ouve a minha voz, levanta-te e foge para junto de Labão, meu irmão, em Harã; habitarás com ele” (Gn 27,42-44). Esaú, o peludo, é o mundo coberto pelos pelos de muitos vícios. Ele ameaça matar-te, filho. “Foge”, portanto, “meu amado”, para junto de Labão, que se interpreta como ‘brancura’, isto é, para junto de Jesus Cristo, que te tornará mais branco que a neve (cf. Sl 50,9), purificando-te dos pecados; ele está em Harã, que se interpreta como ‘elevada’, e ali habitarás com ele, porque o Senhor habita nas alturas (cf. Sl 112,5). “Foge”, portanto, “meu amado.”

“Torna-te semelhante à cabra-montês e ao filhote dos cervos.” A cabra-montês, chamada assim como que por alcançar as coisas árduas, tem a visão aguda e aspira às alturas. Os filhotes dos cervos são chamados hinnuli, de innuere, ‘fazer sinal’, porque, ao sinal da mãe, escondem-se. Por meio desses dois animais entende-se Jesus Cristo, Deus e homem. Na cabra-montês está simbolizada a sua divindade, que tudo vê; no filhote, a sua humanidade, a qual, ao sinal de sua mãe, adiou até os trinta anos a obra que já havia iniciado aos doze, voltou com ela para Nazaré e lhe era submisso (cf. Lc 2,51). Esse filhote é chamado dos cervos, isto é, dos antigos pais, dos quais tirou a origem segundo a carne. Torna-te, portanto, meu amado, semelhante a esta cabra-montês e a este filhote, para que, plantado juntamente com ele à semelhança de sua morte, possas subir aos montes dos aromas. É isto que diz o Apóstolo: “Seremos também semelhantes à sua ressurreição.” Os montes dos aromas são as excelências das virtudes; quem as possuir alegrar-se-á com Cristo na ressurreição geral.

Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que nos faças abundar nas obras da justiça, para que possamos desprezar o mundo, manifestar em nós a semelhança da tua morte, subir contigo aos montes dos aromas e alegrar-nos contigo na alegria da ressurreição. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A condenação de quem se ira contra o irmão e o ofende

8. Segue-se o segundo. “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar será réu de julgamento. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se encoleriza contra seu irmão será réu de julgamento; quem disser a seu irmão: ‘Raca’, será réu do conselho; e quem disser: ‘Louco’, será réu do fogo da geena” (Mt 5,21-22). O mandamento de Cristo não é contrário à Lei, mas contém em si uma ampliação da Lei. Quem não se encoleriza não mata, mas não o contrário: a liberdade de irar-se pode ser causa de homicídio. Elimina a ira, e não haverá homicídio. A ira é todo mau impulso para fazer o mal; já o impulso súbito, ao qual não se consente, é uma pré-paixão. Acrescentando-se o consentimento, torna-se paixão, e é a morte dentro de casa.

“Todo aquele que se encoleriza contra seu irmão” etc. Há graus nesses pecados. O primeiro consiste em irar-se e conservar esse impulso na alma. É algo mais quando a própria comoção faz elevar a voz e dizer coisas que ferem aquele contra quem se está irado. É ainda mais quando se chega a uma censura e repreensão explícitas. Do mesmo modo, há graus na pena. Com efeito, o julgamento é a pena menor, pois ainda se trata com o réu e há lugar para a defesa. Maior é o conselho, quando os juízes deliberam entre si qual castigo impor àquele que se reconhece digno de condenação. Maior ainda é a geena, onde não há qualquer adiamento da sentença. E assim, aquilo que não pôde ser expresso por modos próprios e determinados foi distinguido por certas comparações. Com estes três — julgamento, conselho e geena — são expressos singularmente os diversos estados da condenação eterna, segundo o grau do pecado.

Observa que entre ira e iracúndia há esta diferença: a ira é momentânea e nasce de uma causa; a iracúndia, porém, é um vício natural ou permanente. É chamado iracundo aquele que, inflamado o sangue, é levado ao furor. “Ur”, em grego, significa “chama” em latim, e a ira está na chama. “Raca” é uma palavra hebraica, traduzida por “cenos”, isto é, vazio ou vão; por esse insulto vulgar, podemos dizer: sem cérebro. Quem, portanto, disser isso a seu irmão, que está cheio do Espírito Santo, deverá expiar a pena diante do julgamento dos santos juízes. Louco é aquele que não entende nem o que ele mesmo ou os outros dizem. Estulto, porém, é o obtuso de coração.

9. A respeito destas três coisas, tens uma concordância no terceiro livro dos Reis, onde se diz que Salomão matou Adonias, Semei e Joab. “Adonias, filho de Hagit, elevava-se, dizendo: Eu reinarei. E fez para si um carro, cavaleiros e cinquenta homens que corressem à sua frente” (3Rs 1,5). Por Adonias, que se interpreta “Senhor dominante”, entende-se o iracundo, que, como um senhor, quer dominar os outros. Este é filho de Hagit, que se interpreta “meditação”. Com efeito, de uma meditação perversa nasce a ira, pela qual o pecador se eleva, dizendo: “Eu reinarei”. Que grande insensatez! Quem ainda não sabe governar bem a si mesmo deseja comandar os outros.

“E fez para si um carro” etc. O carro significa a língua, os cavaleiros significam as palavras, e os cinquenta homens significam os cinco sentidos do corpo. No carro maldito da língua volúvel, que deve ser cortada pela espada e queimada pelo fogo, eleva-se o ânimo do pecador quando se inflama de ira. Correm e discorrem as palavras, como cavaleiros que atacam. Também obedecem os cinco sentidos do corpo, infectados pelo fel da ira: nos olhos, há obscuridade; nos ouvidos, surdez; nas mãos, crueldade; e assim quanto aos demais. Este é aquele homicida Zamri, do qual se diz no terceiro livro dos Reis que, “tendo entrado no palácio, incendiou-se a si mesmo com a casa real; e morreu em seus pecados, que havia cometido, fazendo o mal diante do Senhor” (3Rs 16,18-19). Zamri interpreta-se “este que agride” ou “aquele que amarga”, e significa o iracundo, que incendeia a si mesmo e a casa real, isto é, sua alma, resgatada com o sangue do Rei, pelo fogo da ira; e assim, pecando mortalmente, morre diante do Senhor. Por isso, com razão, o iracundo é representado pelo basilisco.

E nota que o basilisco é uma serpente de meio pé de comprimento, um mal singular na terra, que, com seu sopro, extingue as ervas, mata as árvores, mata e incendeia os animais e tudo o mais; corrompe até mesmo os próprios ares, de tal modo que nenhum pássaro pode atravessá-los impunemente, contaminado pelo espírito pestilento. Até as serpentes temem o seu silvo e, quando o ouvem, fogem, apressando-se cada qual para onde pode. Tudo o que é morto por sua mordida não é devorado pela fera, nem tocado pela ave. Contudo, ele é vencido pelas doninhas, que os homens introduzem nas cavernas onde o basilisco se esconde.

Assim, algum poderoso deste mundo, infectado pelo veneno da ira, como um basilisco, extingue com o sopro de sua malícia as ervas, isto é, os pobres; mata as árvores, isto é, os ricos deste mundo, os mercadores e os usurários; mata e incendeia os animais, isto é, os seus familiares. Corrompe até mesmo os próprios ares, isto é, a vida dos religiosos; põe sua boca no céu, e sua língua percorre a terra (cf. Sl 72,9). Até as serpentes, isto é, seus amigos e companheiros, conhecedores de sua malícia, temem o seu silvo. Quando sua ira se inflama, todos fogem, apressando-se a esconder-se onde quer que possam, até mesmo num chiqueiro de porcos. Esse senhor tão feroz, tão alheio a si mesmo e inflamado pelo espírito diabólico, é vencido pelas doninhas, isto é, pelos pobres de espírito, que não o temem, porque nada têm a perder. Esses homens, carregados com o peso do dinheiro, não ousando aproximar-se dele, mandam-nos às cavernas onde ele se esconde. “Falai com ele”, dizem, “porque nós não ousamos”.

Do mesmo modo, por Semei, que amaldiçoou Davi, entende-se aquele que diz a seu irmão: “Raca”; por Joab, aquele que diz a seu irmão: “Insensato”. Salomão matou estes três: Adonias, porque quis reinar — eis a ira; Semei, porque amaldiçoou Davi — eis o “raca”; Joab, porque matou à espada os que eram melhores do que ele — eis aquele que diz a seu irmão “insensato”, a quem fere com a espada da língua. Ai! Quantas vezes pecamos mortalmente nestas três coisas, e raramente ou nunca as confessamos!

10. A esta segunda parte corresponde a segunda parte da epístola: “Sabendo isto: que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com ele, para que fosse destruído o corpo do pecado, a fim de que não servíssemos mais ao pecado. Pois aquele que morreu está justificado do pecado. E, se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,6-8). Nota que nesta passagem o pecado é mencionado três vezes; e, quando este pecado tríplice é destruído em nós, são destruídas em nós aquelas três coisas: o que se ira, o que diz “raca” e o que diz “insensato”; então, dominando a razão, é destruído o corpo do pecado, isto é, o acúmulo de crimes, como a ira e a inveja. Se o nosso homem velho, isto é, o ímpeto da alma, é crucificado com os cravos do temor divino — uma vez crucificado —, não serviremos mais ao pecado, isto é, à indignação, porque não nos indignaremos contra o nosso irmão, mas nele veneraremos o Cristo crucificado. Pois aquele que morreu, isto é, aquele que tem a vontade mortificada, está justificado, isto é, é justo e livre, daquele pecado, a saber, o de ter dito a seu irmão “insensato”. Com efeito, cessando a causa, cessa também o efeito.

Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo, que retire a ira de nosso coração, nos conceda a tranquilidade da consciência, para que possamos amar o próximo de coração, com a boca e com as obras, e chegar até ele, que é a nossa paz. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

III. A reconciliação fraterna

11. Segue-se o terceiro. “Se, portanto, apresentas a tua oferta ao altar e ali te recordas de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e então, voltando, oferecerás a tua oferta” (Mt 5,23-24). Altar é como dizer alta ara. Ara é assim chamada porque nela ardem as vítimas.

Nota que há quatro tipos de altar: o superior, o inferior, o interior e o exterior. O altar superior é a Trindade, da qual o Senhor diz no Êxodo: “Não subirás por degraus ao meu altar, para que não seja revelada a tua ignomínia” (Ex 20,26). Com efeito, na Trindade não se devem estabelecer graus, de modo que se creia que o Pai é maior que o Filho, ou o Filho menor que o Pai, ou o Espírito Santo menor que ambos; mas se deve crer igual e simplesmente. Pois tal é o Pai, tal é o Filho, tal é o Espírito Santo. “Para que não seja revelada a tua ignomínia”, como foi revelada a de Ário, que, tendo derramado as entranhas, terminou vergonhosamente a vida, por ter querido subir ao altar por degraus.

O altar inferior é a humanidade de Jesus Cristo, da qual ele mesmo diz no mesmo Êxodo: “Fareis para mim um altar de terra” (Ex 20,24). Faz um altar de terra para Jesus Cristo aquele que crê que ele recebeu verdadeira carne da Virgem Maria, que foi terra bendita.

12. O altar interior é a devoção da mente, da qual fala o Senhor a Moisés no Êxodo, dizendo: “Farás um altar para queimar o incenso, de madeira de Setim, tendo um côvado de comprimento e outro de largura, e dois côvados de altura; dele sairão os cornos. E o revestirás de ouro puríssimo” (Ex 30,1-3). A madeira de Setim provém de uma espécie de espinhos, e é uma madeira incorruptível; quanto mais é queimada, tanto mais se torna dura. As madeiras de Setim são os pensamentos do coração, que devem ter em si três qualidades: ser como espinhos, pungindo o coração pela recordação dos pecados; ser incorruptíveis, isto é, não consentir na sugestão perversa; e, quanto mais forem acesas pelo fogo da tribulação, tanto mais firmes devem permanecer em seu propósito.

Com tais madeiras se faz o altar ao Senhor, “tendo um côvado” etc. No comprimento é figurada a perseverança; na largura, o amor ao próximo; na altura, a contemplação de Deus. O côvado natural se estende até a ponta dos dedos, a partir do cotovelo; com essa medida Moisés mediu a arca e o altar. Chama-se côvado porque nos apoiamos nele para tomar os alimentos, pois nele está a mão. No côvado é figurada a reta ação. Portanto, o altar, isto é, a devoção da mente, deve ter a reta ação: no comprimento da perseverança, no que diz respeito a si mesma; na largura da caridade, no que diz respeito ao próximo; e na altura da contemplação, dois côvados, isto é, uma dupla perfeição, no que diz respeito a Deus, de modo que a ele atribuamos o comprimento da perseverança e a largura da caridade sobrenatural, pois dele procede todo o bem que temos.

Este altar deve ser revestido de ouro puríssimo. A veste da mente devota é a pureza da castidade áurea. Chama-se veste porque leva consigo o estado próprio do homem; assim, a pureza da castidade revela o estado da mente. Com efeito, pela inflexibilidade da castidade conhece-se a retidão da mente. Deste altar sobe a fumaça dos incensos para o interior do Santo dos Santos, onde está guardada a arca. Pois da compunção da mente sobe a fumaça do incenso, isto é, da oração pura, e chega ao céu, “onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,1).

13. Do mesmo modo, o altar exterior é a mortificação da carne, da qual o Senhor falou a Moisés no Êxodo, dizendo: “Farás o altar” do holocausto “de madeira de Setim, que terá cinco côvados de comprimento e outros tantos de largura, e três côvados de altura. Os cornos, porém, estarão ligados a ele pelos quatro ângulos, e o revestirás de bronze” (Ex 27,1-2). Holocausto deriva de holon, que significa “todo”, e de cauma, que significa “incêndio”; por isso se chama holocausto, como que “todo queimado”, porque a vítima inteira era entregue ao fogo e consumida. O altar do holocausto é o nosso corpo, que devemos queimar inteiramente no fogo da penitência e oferecê-lo em holocausto ao Senhor; e isso deve ser feito com madeira de Setim, isto é, com membros absolutamente incorruptos da luxúria.

Deve ter também cinco côvados tanto de comprimento como de largura, e três de altura. Nos cinco côvados são figuradas as cinco chagas do corpo de Jesus Cristo; nos três, as três vezes em que chorou, isto é, sobre a cidade de Jerusalém, sobre Lázaro e em sua Paixão. Observa que a cruz da verdadeira penitência tem o comprimento da perseverança, a largura da paciência e a altura da esperança no Pai. Nesta cruz crucifiquemos o nosso corpo com as cinco chagas do corpo de Jesus Cristo, mortificando o miserável prazer dos cinco sentidos, chorando e gemendo pela iniquidade cometida, pelos pecados do próximo e pelo risco da perda da salvação.

Os quatro cornos do altar do incenso e do holocausto são as quatro virtudes principais, que adornam a alma e o corpo, das quais se diz no livro da Sabedoria: “Ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza, isto é, a força, virtudes mais úteis que qualquer outra aos homens na vida” (Sb 8,7). O Senhor ordena que este altar seja coberto de bronze. No bronze, que é sonoro, entende-se a aflição dos gemidos e da dor, com os quais deve ser coberto o corpo do penitente.

14. Este é, portanto, o quádruplo altar, e de cada um deles pode entender-se o que diz o Senhor no evangelho de hoje: “Se, pois, apresentas a tua oferta sobre o altar” etc. Observa que, assim como há quatro altares, há também quatro ofertas e quatro espécies de nosso irmão: há a oferta da oração, da fé, da penitência e da esmola. Nosso irmão é chamado todo próximo: Cristo, o anjo e nosso espírito. Se, pois, apresentas a oferta da oração ao altar da Santíssima Trindade, e ali te recordas de que o irmão, isto é, o teu próximo, tem algo contra ti, se o feriste por palavra ou por ato, ou se nutres no coração algum mal contra ele; se está distante, vai — não com os pés, mas com a alma humilde prostra-te diante dele, na presença daquele a quem estás para fazer a oferta; se, porém, está presente, vai com os passos dos pés, pedindo perdão.

Do mesmo modo, se apresentas a oferta da fé ao altar da humanidade de Jesus Cristo, isto é, crês que ele recebeu da Virgem verdadeira carne, e ali te recordas de que ele mesmo, teu irmão, que por ti assumiu a tua natureza, tem algo contra ti, isto é, recorda-te de que estás em pecado mortal; enquanto o confessas com o som da voz, deixa ali a tua oferta, isto é, não confies numa fé morta, e vai primeiro reconciliar-te, por meio da verdadeira penitência, com teu irmão, Jesus Cristo.

Do mesmo modo, se apresentas ao altar a oferta da penitência, isto é, a mortificação da carne, e ali te recordas de que o irmão, isto é, o teu espírito, tem algo contra ti, isto é, enquanto castigas o corpo, recorda-te de que o teu espírito está manchado por algum vício; deixa ali a tua oferta, isto é, não confies no sofrimento da carne sem antes purificares o teu espírito de toda iniquidade, e então, vindo, apresentarás a tua oferta.

Do mesmo modo, se apresentas a oferta da esmola aos pobres, e ali te recordas de que o teu irmão, isto é, o anjo, que, pela graça e pela criação — pela qual também tu foste criado —, te foi confiado por Deus para levar ao céu as tuas orações e esmolas, tem algo contra ti, isto é, que se queixa de ti porque, enquanto te sugere o bem, desvias o ouvido da obediência, deixa ali a tua oferta, isto é, não confies na tua esmola seca, mas vai primeiro, com os passos do amor, reconciliar-te por meio da obediência ao anjo da admoestação, que te foi dado como guardião; e então, vindo, apresentarás pelas mãos dele a tua oferta, agradável a Deus.

15. A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “Sabemos que Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não mais o dominará; pois, quanto ao ter morrido, morreu para o pecado uma vez por todas; quanto ao viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6,9-11). Se quiseres contemplar atentamente esta passagem, poderás encontrar nela os quatro altares acima mencionados. Quando diz: “Cristo, ressuscitado”, eis o altar da Trindade. Neste nome, “Cristo”, está o próprio Filho que ressuscita; o Pai, para cuja glória, como foi dito acima (cf. n. 6), Cristo ressuscitou: “A morte não mais o dominará”, porque, vivendo, vive para Deus; pois “é o Espírito que vivifica” (Jo 6,64). “E estes três são um só” (1Jo 5,7). Quando acrescenta: “quanto ao ter morrido”, eis o altar da humanidade, que morreu uma só vez pelo nosso pecado no altar da cruz. Quando acrescenta: “assim também vós considerai-vos mortos para o pecado”, eis o altar do holocausto, isto é, da aflição do corpo mortificado. O que segue, “mas vivos para Deus”, eis o altar dos aromas, isto é, da devoção da mente; quem a possui verdadeiramente vive para Deus, “em Cristo Jesus, nosso Senhor”.

Por meio dele te rogamos, ó Pai, a quem constituíste vítima de expiação pelos nossos pecados (cf. 1Jo 4,10), que por meio dele aceites as nossas ofertas e nos concedas a graça da reconciliação contigo e com os irmãos, para que, reconciliados no altar de ouro que está na Jerusalém celeste, possamos oferecer-te, ó Deus, com os santos anjos, as ofertas do nosso louvor.

Conceda-nos isso aquele que é o Deus trino e uno, bendito pelos séculos eternos. Diga toda criatura: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.