Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 32

Domingo V depois de Pentecostes Dominica V post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 6 seções · 21 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do quinto domingo depois de Pentecostes: “Quando as multidões se precipitavam sobre Jesus”, que se divide em quatro cláusulas.

Primeiramente, sermão sobre os prelados e pregadores da Igreja, e sobre como deve ser a conduta deles, no trecho: “O rei Salomão, nas portas do santuário”.

[Da primeira cláusula]. Também sermão sobre a Encarnação de Cristo e sua Paixão, sobre a conduta do homem justo, sobre as três árvores que havia no paraíso, sobre a natureza do cedro e do hissopo, e sobre o que significam, no trecho: “Salomão discorreu sobre a madeira”.

Também sermão sobre as duas meretrizes e seus filhos, e sobre o que significam, no trecho: “Vieram duas meretrizes”.

Também sermão sobre a barca de Pedro, e sobre o que significam seus apetrechos, no trecho: “Todos unânimes”.

Da segunda cláusula. Sermão alegórico e moral sobre a frota de Salomão, e sobre o que significam, tanto alegórica quanto moralmente, o ouro e a prata, os dentes de elefantes, os macacos e os pavões, no trecho: “A frota do rei Salomão”.

Também sobre a natureza dos elefantes e dos pavões e seus significados.

Também sermão contra os prelados e sacerdotes da Igreja, no trecho: “Pedia-lhe que se afastasse um pouco”.

Também sermão alegórico sobre a santa Igreja, no trecho: “O rei Salomão fez um trono” etc.

Também sermão moral sobre a alma fiel, no trecho: “O rei Salomão fez um trono”. No mesmo se fala da natureza dos elefantes e de seu significado moral, e dos quatro elementos e do que significam.

Também sermão sobre a bem-aventurada Virgem Maria, no trecho: “O rei Salomão fez”, e sobre os sete degraus do trono.

Também sermão contra os sacerdotes, no trecho: “Ouvi”.

Da terceira cláusula. Sermão sobre o desprezo das coisas temporais, que nada são, no trecho: “Olhei para a terra”.

Também sermão sobre o fato de que nada devemos atribuir a nós mesmos, mas tudo a Deus, para que possamos apanhar uma grande quantidade de peixes, no trecho: “Elias subiu ao monte Carmelo”.

Da quarta cláusula. Sermão sobre os dois seios de Jesus Cristo, a saber, a Encarnação e a Paixão, no trecho: “Sereis levados aos seios”.

Também sermão sobre as quatro coisas que há na terra e seu significado, no trecho: “Santificai o Senhor Jesus Cristo em vossos corações”.

Exórdio. Sermão sobre os prelados e os pregadores da Igreja

1. Naquele tempo: “Quando as multidões se precipitavam sobre Jesus para ouvir a palavra de Deus, ele estava junto ao lago de Genesaré” (Lc 5,1).

Diz-se no terceiro livro dos Reis que o rei Salomão, nas portas do santuário, que eram de madeira de oliveira, “esculpiu figuras de querubins, palmas e relevos muito salientes, e os revestiu de ouro; e cobriu de ouro tanto os querubins quanto as palmas” (3Rs 6,32). As portas, chamadas assim porque se opõem aos inimigos, significam os pregadores, que devem opor-se aos inimigos como um muro em defesa do santuário do Senhor (cf. Ez 13,5), isto é, da Igreja militante. Estas portas devem ser de madeira de oliveira, na qual se assinalam duas coisas, a saber, a constância e a misericórdia. Com efeito, a madeira da oliveira é durável, e nisso está a constância; “éleos”, em grego, significa misericórdia em latim. Nos pregadores e prelados da Igreja, por meio dos quais se abre a entrada para o reino, devem existir estas duas virtudes; neles, o nosso Salomão, Jesus Cristo, anunciando a paz aos que estão perto e aos que estão longe (cf. Ef 2,17), esculpiu querubins, que se interpretam como plenitude da ciência, e figuras de palmas e relevos. “Anáglifa”, em grego, diz-se “caelatura” em latim. Nos querubins designa-se a vida angélica e a ciência plena; nas figuras das palmas, a vitória sobre o tríplice inimigo; nos relevos, os exemplos das boas obras.

Mas deve-se observar primeiro que, por ordem do Senhor, Moisés fez dois querubins de ouro e trabalhados a martelo (cf. Ex 25,18), como se diz no Êxodo. Salomão, porém, fez-nos de madeira de oliveira, como se diz no terceiro livro dos Reis (3Rs 6,32). Sobre isso podem ser apresentadas três razões.

A primeira, para indicar que, enquanto os filhos de Israel estiveram no deserto sob Moisés, pelos méritos que o exigiam, foram atingidos por muitos castigos; mas, na terra prometida, sob Salomão, permaneceram tranquilos e estáveis. Por isso ele mesmo diz no terceiro livro dos Reis: “Agora o Senhor Deus me concedeu repouso por toda parte, e não há satanás nem encontro maléfico” (cf. 3Rs 5,4).

A segunda, porque, enquanto o pregador se dedica ao exercício da pregação, como que por certas pancadas das tribulações é estendido na largura da caridade e no comprimento da longanimidade; mas, quando deixa a multidão no vale e retorna ao monte da contemplação, contempla a Deus na quietude da mente e na alegria da consciência.

A terceira, porque o homem justo, na solidão desta carne, é abalado por muitos flagelos; mas, na Jerusalém celeste, como querubim da glória, o imortal contemplará face a face o Imortal. Nos querubins, portanto, designa-se a vida angélica e a ciência plena, duas coisas que o pregador deve possuir, para viver santamente e pregar plenamente, isto é, sem poupar ninguém por temor ou amor, por reverência ou vergonha. Na palma, designa-se a vitória sobre o mundo, a carne e o diabo; a palma, com efeito, é o ornamento da mão vitoriosa. Os relevos muito salientes são exemplos certíssimos de boas obras, que devem ser esculpidos de tal modo diante dos olhos de todos, que de maneira alguma possam ser assinalados como injustos ou desfavoráveis.

E observa que estas três coisas devem ser revestidas de ouro: os querubins da ciência, com o ouro da humildade, porque “a ciência incha” (1Cor 8,1); a palma da vitória, com o ouro da misericórdia divina, para que não atribuas a vitória a ti, mas ao Senhor, que diz: “Tende confiança”, porque “eu venci o mundo” (Jo 16,33); os relevos das obras, com o ouro da caridade fraterna, para que não busque a própria glória, mas a dos outros. Se estas três coisas forem esculpidas nas portas do santuário, as multidões, maravilhadas com tão grande beleza da escultura, precipitar-se-ão para entrar no santuário, desejosas de ouvir a palavra do Senhor. Por isso se diz no evangelho de hoje: “Quando as multidões se precipitavam sobre Jesus” etc.

2. Nota que neste Evangelho se assinalam quatro coisas. Primeiro, a permanência de Jesus Cristo e das duas barcas junto ao lago de Genesaré, quando se diz: “Como as multidões se precipitassem” etc. Segundo, a subida do próprio Cristo à barca de Simão, quando se acrescenta: “Subindo, porém, a uma das barcas, que era de Simão”. Terceiro, a captura de uma grande quantidade de peixes, onde se diz: “Simão, respondendo, disse-lhe: Mestre, trabalhamos durante toda a noite”. Quarto, o assombro de Pedro e de seus companheiros, e o abandono de tudo quanto possuíam, onde se diz: “Vendo isso, Simão Pedro” etc.

Nota também que, neste domingo e no seguinte, confrontaremos, se Deus quiser, algumas histórias do terceiro livro dos Reis com as partes deste e do Evangelho seguinte. No intróito da missa de hoje canta-se: “Escuta, Senhor, a minha voz”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Pedro: “Sede todos unânimes”, que desejamos dividir em quatro partes e confrontá-las com as quatro partes do Evangelho. A primeira parte é: “Sede todos unânimes”. A segunda: “Pois quem quer amar a vida”. A terceira: “E quem vos poderá fazer mal?”. A quarta: “Adorai o Senhor Cristo”.

I. As duas barcas estacionadas junto ao lago de Genesaré

3. Digamos, portanto: “Como as multidões se precipitassem sobre Jesus para ouvir a palavra de Deus, e ele estivesse junto ao lago de Genesaré e visse duas barcas paradas junto ao lago; os pescadores, porém, haviam descido e lavavam as redes” (Lc 5,1-2). A isso corresponde o que se encontra no terceiro livro dos Reis, onde se diz que Salomão “discorreu sobre as árvores, desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede, e tratou dos quadrúpedes, das aves, dos répteis e dos peixes. E vinham de todos os povos para ouvir a sabedoria de Salomão, e de todos os reis da terra que ouviam a sua sabedoria” (3Rs 4,33-34). O hissopo, planta humilde e apegada à pedra, significa a humildade de Cristo, que discorreu desde o cedro até o hissopo, porque desceu da sublimidade da glória celeste até a humildade da carne. De outro modo: pelo cedro também se designa a soberba dos maus; por isso se diz: “A voz do Senhor quebra os cedros” (Sl 28,5). Cristo, portanto, discorre desde o cedro até o hissopo, porque julga os corações dos soberbos e dos humildes. Também discorreu sobre as árvores quando esteve pendurado na cruz. Então inclinou o cedro, isto é, a arrogância do mundo, até a humildade do hissopo, isto é, até a loucura da cruz. “Pois a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas, para os que se salvam, é poder de Deus” (1Cor 1,18).

Moralmente. “Salomão discorreu sobre as árvores etc.” Nota que no Paraíso havia três árvores: a árvore da qual Adão se alimentava, a árvore da vida e também a árvore do conhecimento do bem e do mal. Essas três árvores são três virtudes: a memória, a vontade e a razão. O fruto da memória é o deleite; o fruto da vontade, a boa obra; o fruto da razão, a distinção entre o bem e o mal. Discutir é investigar, com a mente racional, coisas diversas, para poder chegar à verdade da realidade. O homem justo, portanto, discorre sobre essas três árvores, isto é, investiga com diverso raciocínio da mente: se depositou no tesouro da memória os bens do Senhor, que são a humildade e a pobreza da Encarnação, a doçura da pregação e a Paixão de Cristo, obediente até à cruz, e se conservou diligentemente esses bens depois de depositá-los; se, pela vontade, ama a Deus e ao próximo; se, pela razão, discerne entre o bem e o mal. Esta é a investigação do homem justo, que também discorre desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede.

Nota que o cedro é uma árvore alta; sua madeira é de agradável odor e incorruptível, e nunca é destruída pela traça; com seu odor afugenta as serpentes; colocado no fogo, enruga-se. O cedro é a vida do homem justo: elevada pela sublimidade da santa conduta, perfumada pelo exemplo da boa reputação, incorruptível pela firmeza do santo propósito, não destruída pela traça da concupiscência mortal, afugentando os demônios pela compunção da mente e reprimindo os movimentos da carne pela mortificação; enruga-se, isto é, é reduzida pela renúncia à própria vontade, no fogo da obediência. Esse cedro está no Líbano, que se interpreta como “brancura”, porque a vida do homem justo consiste no candor da pureza interior e exterior. O homem justo, portanto, discorre desde o cedro até o hissopo que brota da parede. No hissopo é designada a humildade; na parede, que recebe esse nome de paridade, isto é, igualdade, é designada a união dos santos. Desde o cedro de sua vida, portanto, o homem justo discorre, isto é, considera em sua mente, se a sua vida alcança a humildade e a união com os santos.

4. Prossegue falando de Cristo: “E discorreu sobre os quadrúpedes” etc. Nos quadrúpedes são designados os gulosos e luxuriosos; nas aves, os soberbos; nos répteis, os avarentos; nos peixes, os curiosos. Então discorreu sobre os quadrúpedes quando disse: “Prestai atenção a vós mesmos, para que não se tornem pesados os vossos corações com a orgia, a embriaguez e as preocupações desta vida” (Lc 21,34). Sobre as aves, quando disse: “As aves do céu têm ninhos; o Filho do homem, porém, não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Sobre os répteis, quando disse: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os destroem” (Mt 6,19) etc. Sobre os peixes, quando disse: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra”, isto é, o mundo inteiro, “para fazer um só prosélito”; os prosélitos são os gentios acolhidos na Sinagoga; “e, quando ele se torna prosélito, vós o fazeis filho da geena duas vezes mais do que vós” (Mt 23,15). Pois, ao ver os vossos vícios, ele volta a ser gentio e, por sua transgressão, torna-se digno de um castigo maior.

Prossegue: “E vinham de todos os povos para ouvir a sabedoria de Salomão”. E é isso que se diz no Evangelho de hoje: “Como as multidões se precipitassem sobre Jesus para ouvir a palavra de Deus, e ele estivesse junto ao lago de Genesaré”. Este nome é dado ao lago por sua característica, como que gerando a brisa, porque, quando as ondas se encrespam, ele emite de si uma brisa. Lagoa — assim se chama o lago que não corre, porque nele a água fica parada — significa o século presente, no qual há ebulições que geram a brisa do louvor mundano, que passa brevemente. Por isso diz o Salmo: “Desapareceu a sua memória com o rumor” (Sl 9,7), isto é, com o aplauso e o favor do mundo. E, assim como na lagoa as águas são contidas para que não escoem, assim no mundo a liberdade dos pecadores é restringida, para que não se deleitem nos prazeres quanto desejam. Por isso se diz em Lucas que o filho pródigo desejava encher o ventre com as vagens dos porcos, mas ninguém lhas dava (cf. Lc 15,16). Pelas vagens dos porcos entendemos os diversos prazeres dos pecadores, com os quais os espíritos malignos se engordam como porcos. Esses prazeres, por vezes, não são concedidos àquele que os deseja. Com efeito, muitas vezes o homem peca mais do que o diabo lhe sugere. Muitas vezes o homem se antecipa ao diabo, quando não é antecipado pelo diabo. Por isso diz Ezequiel: “Entregar-te-ei nas mãos das filhas dos filisteus, que se envergonham do teu caminho criminoso” (Ez 16,27). Grande vergonha: que o diabo se envergonhe do pecado do homem, pecado que ele não lhe sugere, quando o miserável homem não se envergonha do próprio pecado.

5. “Estava”, portanto, Jesus “junto ao lago”, isto é, a este mundo, para pregar a palavra de Deus aos amantes do mundo. Esteve junto ao lago porque, estando neste mundo, desprezou e ensinou a desprezar a glória deste mundo, que é como um lago que tudo devora. A respeito disso, temos uma concordância no terceiro livro dos Reis, onde se diz que Elias “encontrou Eliseu, filho de Safat, que arava com doze juntas de bois diante de si, e ele próprio estava com a décima segunda junta de bois. Quando Elias chegou até ele, lançou sobre ele o seu manto; e este, deixando imediatamente os bois, correu atrás de Elias e disse: ‘Peço-te que vá beijar meu pai e minha mãe; depois te seguirei’. E ele lhe disse: ‘Vai e volta, pois sabes o que fiz por ti’. Tendo voltado para ele, tomou uma junta de bois, matou-a, cozinhou a carne com a madeira do arado dos bois, deu-a ao povo, e eles comeram” (3Rs 19,19-21).

Sentido moral. O nosso Redentor, descendo do céu, por decreto divino adquiriu para si um povo que ainda cobiçava avidamente as coisas terrenas; nele realizou a salvação, quando o converteu à fé. Com efeito, Elias interpreta-se “Senhor Deus”, Safat, “decreto”, e Eliseu, “salvação do meu Deus”. Sobre Eliseu o profeta lançou o seu manto, quando o Senhor revestiu o povo da fé católica. Daí dizer o Apóstolo: “Vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). “Deixando os bois, correu atrás de Elias”, porque o coro dos eleitos, tendo ouvido: “Se alguém não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (cf. Lc 14,33), deixou imediatamente de correr atrás dos lucros terrenos e de se escravizar aos desejos mundanos, e assim anunciou também aos outros a palavra da vida. Beijar o pai e a mãe significa precisamente querer corrigir com a palavra todos aqueles que for possível, tanto judeus como pagãos.

“Tomou uma junta de bois”, etc. Por isso entendemos o corpo e o espírito: devemos cozer as suas carnes, isto é, as concupiscências da carne, na madeira do arado, isto é, na contrição do coração, e dá-las ao povo para que as coma; assim, pelo exemplo da verdadeira penitência, restauramos aqueles a quem escandalizamos com a nossa vida dissoluta.

6. Segue-se: “E viu duas barcas paradas” etc. Observa que estas duas barcas são Jerusalém e Babilônia, o Paraíso e o Egito, Abel e Caim, Jacó e Esaú, isto é, a assembleia dos verdadeiramente penitentes e a nefanda multidão dos mundanos. Com efeito, nestes dois grupos se dividem todos os homens. Estas são as duas mulheres prostitutas, das quais tens a concordância no terceiro livro dos Reis, onde se diz que “vieram duas mulheres prostitutas ao rei Salomão” — “Com razão vieram as prostitutas àquele que depois se deixou por elas enganar” —; “uma das quais disse: Rogo-te, meu senhor: eu e esta mulher habitávamos numa mesma casa, e eu dei à luz junto dela, no quarto. Três dias depois que eu dei à luz, também esta deu à luz. E estávamos juntas, e não havia nenhum outro na casa conosco, senão nós duas. Aconteceu, porém, que o filho desta mulher morreu durante a noite; pois, dormindo, ela o sufocou. E, levantando-se no silêncio da noite profunda, tomou o filho do lado da tua serva, que dormia, e o colocou em seu seio; mas o seu filho, que estava morto, pôs no meu seio. Quando me levantei pela manhã para dar de mamar ao meu filho, apareceu morto. Observando-o atentamente à luz do dia, descobri que não era o meu, que eu havia gerado. A outra mulher respondeu: Não é assim como dizes; o teu filho morreu, e o meu está vivo. Ao contrário, aquela dizia: Mentes, pois o meu filho está vivo, e o teu está morto. E deste modo contendiam diante do rei. Então o rei disse: Trazei-me uma espada. Quando lhe trouxeram a espada diante do rei, ele disse: Dividi em duas partes o menino vivo, e dai metade a uma e metade à outra. A mulher cujo filho estava vivo disse ao rei — pois suas entranhas se comoveram por causa de seu filho —: Rogo-te, senhor, dai-lhe o menino vivo e não o mateis. Ao contrário, a outra dizia: Não seja nem meu nem teu, mas seja dividido. O rei respondeu e disse: Dai a esta o menino vivo, e não o mateis; pois esta é a sua mãe” (3Rs 3,16-27).

As prostitutas são chamadas meretrizes por obterem o pagamento da luxúria. Estas duas prostitutas significam dois gêneros de vida, a saber, a vida dos verdadeiramente penitentes e a dos carnais. Mas observa atentamente que dizemos ser a vida dos penitentes figurada por uma prostituta, não por ela ser prostituta, uma vez que já se converteu ao seu esposo, mas porque foi prostituta enquanto aderiu ao diabo. Algo semelhante tens no Evangelho de Mateus: “Quando Jesus estava”, diz ele, “na casa de Simão, o leproso” (Mt 26,6), não porque então fosse leproso, mas porque antes o fora. Estas vidas são aquelas duas varas das quais diz Zacarias: “E tomei para mim duas varas: a uma chamei Beleza, e à outra chamei Cordão” (Zc 11,7). Observa que a vida dos penitentes é chamada vara e beleza. Vara, porque está submetida ao rigor da disciplina; beleza, porque foi purificada pelas lágrimas de toda lepra do pecado. A vida dos carnais é chamada cordão, porque está atada pelas cordas dos seus pecados.

Quanto aos males que Caim inflige a Abel, Esaú a Jacó e os carnais aos penitentes, isso é demonstrado quando se acrescenta: “Eu e esta mulher habitávamos numa mesma casa” etc. Eis as duas barcas paradas no lago. O lago e a casa significam o mundo, no qual habitam estas duas mulheres. Os penitentes dão à luz, e também os carnais dão à luz. Mas, no terceiro dia, os penitentes dão à luz obras de luz, o herdeiro da vida eterna, na amargura do coração; e sobre o seu parto se diz: “A mulher, quando dá à luz, sente tristeza” (Jo 16,21). Também os carnais dão à luz obras das trevas, filhos da geena, no prazer da carne; acerca deles diz Salomão nos Provérbios: “Alegram-se quando fazem o mal e exultam nas coisas perversas” (Pr 2,14). E isso no terceiro dia: pela sugestão adúltera do diabo, primeiro concebem pelo consentimento da mente; depois carregam o mal no propósito da vontade perversa; em terceiro lugar dão à luz o pecado na realização da obra.

“E estávamos”, diz ela, “juntas, e não havia nenhum outro conosco na casa, senão nós duas.” Pois no mundo habitam juntas. Daí Jó: “Fui irmão dos dragões e companheiro dos avestruzes” (Jó 30,29). Na eira está o grão com a palha; no lagar, o vinho e o bagaço, o óleo e a borra.

Segue-se: “Morreu, porém, o filho desta mulher” etc. A obra dos carnais morre quando é sufocada pela culpa que se segue. Na noite da intenção perversa, pela cegueira da mente, é morto o filho desta mulher: “Pois, dormindo, ela o sufocou. Os que dormem, de noite dormem, e os que se embriagam, de noite se embriagam” (1Ts 5,7).

“E, levantando-se no silêncio da noite profunda” etc. Intempestiva é chamada aquilo que é inoportuno, quando nada pode ser feito e tudo está tranquilo. Com efeito, tempestivo é o que é oportuno. Ou então, intempestiva significa noite alta e escura, ou meia-noite. O bem-aventurado Gregório expõe assim esta autoridade, referindo-a aos doutores carnais: enquanto negligenciam fazer aquilo que dizem, matam seus ouvintes pelo sono do corpo e, por sua negligência, sufocam aqueles que pareciam alimentar com o leite das palavras. Por isso, vivendo de modo repreensível e não podendo ter discípulos de vida louvável, procuram atrair para si os discípulos alheios, para que, mostrando que têm bons seguidores, desculpem diante dos juízos dos homens os males que praticam e encubram, com a vida dos súditos, a sua negligência mortífera. Assim, a mulher que extinguira o próprio filho procurou um filho alheio. Mas a espada de Salomão descobriu a verdadeira mãe, porque, no exame final, a ira do juiz examinará ou demonstrará quais frutos vivem ou perecem, e de quem são. E deve-se notar que primeiro se ordena que o filho vivo seja dividido, para depois ser devolvido somente à mãe, porque nesta vida se permite, por assim dizer, que a vida do discípulo seja dividida, enquanto se permite que, por meio dela, um tenha mérito diante de Deus e outro louvor diante dos homens.

Mas a falsa mãe não temeu que fosse morto aquele que não havia gerado, porque os mestres arrogantes e ignorantes da caridade, se não conseguem obter dos discípulos alheios um nome de pleno louvor, perseguem cruelmente a vida deles. Inflamados pela inveja, não querem que vivam para outros aqueles que veem não poder possuir. Daí: “Não seja nem meu nem desta.” Pois, não vendo que aqueles lhes obedeçam para a glória temporal, invejam que vivam para outros na verdade. Mas a verdadeira mãe se empenha para que seu filho esteja ao menos junto de estranhos e viva, porque os mestres verdadeiros permitem que outros obtenham o louvor do magistério por meio de seus discípulos, contanto que estes não percam a integridade da vida. Por estas entranhas de piedade se reconhece a mesma verdadeira mãe, porque o magistério é inteiramente aprovado no exame da caridade. Somente aquela mereceu receber o filho inteiro, que, por assim dizer, o havia cedido inteiro; porque os superiores fiéis, pelo fato de não somente não invejarem aos outros o louvor proveniente dos bons discípulos, mas também suplicarem a utilidade e o progresso deles, recebem os filhos íntegros e vivos quando, no juízo supremo, alcançam da vida deles a perfeita recompensa.

Tendo descrito estas coisas sobre as duas barcas e suas concordâncias, passemos ao que segue.

7. Segue-se: “Os pescadores, porém, haviam descido e lavavam as redes.” Observa que de ambas as barcas, isto é, a dos penitentes e a dos carnais, descem os pescadores. Com efeito, os penitentes descem daquilo que são pela graça para aquilo que são por natureza, isto é, do grau de uma vida mais excelente para a consideração da própria fragilidade. Também os carnais descem do inchaço da soberba para a cinza da penitência. “E lavavam”, diz, “as redes.” Aí diz a Glosa: Dobra as redes lavadas aquele que, suspendendo o ofício da pregação, se esforça por cumprir ele mesmo aquilo que ensinou aos outros.

Por isso, no intróito da missa de hoje, o penitente suplica, dizendo: “Escuta, Senhor, a minha voz, com a qual clamei a ti. Sê o meu auxílio; não me abandones, nem me rejeites, ó Deus, meu salvador” (Sl 26,7.9). Observa que a barquinha de Pedro, isto é, a vida dos penitentes, justamente voltada para o Esposo, pede três coisas: ser ouvida, não ser abandonada e não ser rejeitada. Ser ouvida no tempo da oração, não ser abandonada na perseguição dos inimigos, não ser rejeitada por causa da iniquidade passada.

À primeira cláusula corresponde a primeira parte da epístola de hoje, na qual o bem-aventurado Pedro fala aos filhos da barca que lhe foi confiada, dizendo: “Sede todos unânimes, compassivos, amantes da fraternidade, misericordiosos, modestos, humildes; não retribuindo mal por mal, nem maldição por maldição, mas, ao contrário, abençoando, porque para isso fostes chamados, a fim de herdardes a bênção” (1Pd 3,8-9).

Pedro, vendo a barca que lhe fora confiada ser sacudida pelas ondas do mar agitado e exposta aos ventos e aos perigos, como prudente piloto, preparou-a com admirável perícia, para que chegasse incólume ao porto da tranquilidade: dotou-a de mastro e vela, de leme e âncora, e de remos de um lado e de outro. Com efeito, diz: “Todos unânimes”: eis o mastro no meio da nave, isto é, a unanimidade da fé e do coração na Igreja: “Eram” eles “um só coração e uma só alma” (At 4,32). “Compassivos”: eis a vela. Pois, assim como a vela arrasta a barca, assim a compaixão te conduz a participar das necessidades do teu próximo. Por isso, o Apóstolo diz aos Coríntios: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26). “Amantes da fraternidade”: eis o leme. Assim como o leme dirige corretamente a barca e não lhe permite desviar-se, e nele consiste a maior força para conduzir a barca ao porto, assim o amor fraterno governa a comunidade dos fiéis, para que não se desvie, e a conduz ao porto da segurança. Pois onde há caridade e amor, aí está a assembleia dos santos. “Misericordiosos”: eis a âncora. Âncora é assim chamada, quase como anca, isto é, curva. Com efeito, assim como a âncora, por sua curvatura, prende, e enquanto prende é presa, e, uma vez presa, retém a barca, assim a misericórdia, enquanto prende o próximo do fundo do coração, é presa pelo próximo; enquanto detém, é detida; enquanto liga, é ligada. Por esse vínculo, a barca, isto é, a alma, não é afastada da estabilidade de sua paz nem pelas ondas das tentações, nem pelos sopros das sugestões. “Modestos, humildes”: eis os remos da direita; “não retribuindo mal por mal, mas, ao contrário, abençoando”: eis os remos da esquerda.

Se a nossa barca for preparada e adornada com estas oito coisas, poderá chegar, em curso reto, à bênção da herança eterna, ao porto da tranquilidade perpétua. Digne-se conceder-nos isso aquele que é bendito e glorioso pelos séculos eternos. Amém.

II. A subida de Cristo à barca de Simão

8. Segue-se a segunda passagem: “Subindo, porém, numa barca, que era a de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; e, sentado, ensinava as multidões da barca. Quando terminou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo e lançai as vossas redes para a pesca’” (Lc 5,3-4). Sobre isso, encontra-se uma concordância no Terceiro Livro dos Reis, onde se diz que “a frota do rei Salomão ia pelo mar até Társis, trazendo de lá ouro, prata, dentes de elefantes, macacos e pavões” (3Rs 10,22).

A frota de Salomão e a barca de Simão significam a mesma coisa. A barca é assim chamada porque procura um navus, isto é, um piloto experiente; aquele que sabe governá-la por causa dos perigos e acidentes do mar. Daí o que se lê nos Provérbios: “O entendido possuirá o leme” (Pr 1,5). A barca é a Igreja de Jesus Cristo, confiada aos cuidados de Pedro, que procura um piloto experiente, não um insensato, um guia, não um devastador, para poder defender-se entre os perigos. Esta é a frota de Salomão, que atravessa o mar deste mundo até Társis, que se interpreta como busca do prazer, isto é, vai até aqueles que buscam o prazer do mundo, para nele se deleitarem. Pelo ouro entende-se a sabedoria humana; pela prata, a eloquência filosófica; pelos dentes dos elefantes, os doutores vigorosos, que mastigam para os pequeninos o alimento da palavra; pelos macacos, aqueles que imitam os atos humanos, mas vivem como animais, que vêm à fé procedentes dos gentios, parecem conservar a fé e a negam pelas obras; pelos pavões, cuja carne, se for seca, diz-se que permanece incorruptível, e que se vestem da beleza das penas, entendem-se os perfeitos, cozidos no fogo da tribulação, a ponto de serem adornados de variadas virtudes. Tudo isso é levado de Társis, isto é, das amargas ondas do século, pela pregação da Igreja, ao nosso Salomão, isto é, a Jesus Cristo.

9. Sentido moral. A frota de Salomão é a mente do penitente, que atravessa o mar, isto é, a amargura da contrição, e vai a Társis, isto é, investigar o que cometeu e omitiu, o pecado e as circunstâncias do pecado; de onde vem, onde se encontra e para onde vai; considera quão miserável e frágil é esta carne, e quão enganosa e passageira é a prosperidade do mundo. Por isso, no Gênesis, José disse a seus irmãos: “Sois exploradores; viestes para ver os pontos fracos da terra” (Gn 42,9), isto é, os penitentes consideram diariamente, na amargura de sua alma, a fragilidade e a fraqueza de sua carne. Estes são os exploradores de Josué, aos quais ele disse: “Ide e examinai a terra e a cidade de Jericó” (Js 2,1). Jericó interpreta-se “lua” e significa a enganosa prosperidade do mundo; os homens justos, explorando-a para desmascará-la, nela não encontram senão amargura e dor. Dessa investigação, portanto, trazem consigo ouro, prata etc. No ouro é designada a purificação da consciência; na prata, a proclamação do louvor; nos dentes de elefante, a acusação e a reprovação de si mesmos; nos macacos, a consideração da própria torpeza; nos pavões, o desprezo da glória passada.

A respeito dos dois primeiros, diz Jó: “A prata tem as nascentes de seus veios, e o ouro tem o lugar onde é fundido” (Jó 28,1). A nascente dos veios é o coração do homem. Portanto, do coração do homem deve sair a prata, isto é, a confissão do louvor divino. Mas Jeremias disse: “Estás perto, Senhor, da boca deles, mas longe de seus rins” (Jr 12,2). O coração dos carnais está nos rins, isto é, nas luxúrias, e o louvor de Deus está em seus lábios. “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8). A nascente dos veios, de onde deve fluir a prata, está longe de Deus. Como, então, a prata da confissão ressoará docemente aos ouvidos do Onipotente, que diz: “Filho, dá-me o teu coração” (cf. Pr 23,26), e: “Deus olha para o coração”? (cf. Sl 7,10). “E o ouro tem o lugar onde é fundido.” A glória da nossa consciência é purificada no cadinho do exame de si mesmo. Este é o lugar do ouro, não a língua dos homens, na qual, se o ouro for fundido, ele se destrói. Miserável é aquele que dá mais crédito à língua alheia do que à própria consciência; muitos temem a fama, poucos temem a consciência. Quão grande coisa é não ser louvado e ser digno de louvor!

10. Dos dentes da acusação e da repreensão diz Jó: “Dilacero minhas carnes com os meus dentes” (Jó 13,14). Dilacera as carnes com os dentes aquele que acusa a sua carnalidade com uma justa repreensão. E observa que, com razão, os homens penitentes são representados pelos elefantes, nos quais há o bem da clemência; pois, se encontrarem no deserto um homem perdido, conduzem-no até as estradas conhecidas; ou, se se depararem com um rebanho compacto de ovelhas, abrem para si caminhos suaves e tranquilos com a tromba, movida com calma e paciência. O mais velho conduz o grupo, e o que lhe é mais próximo em idade impele os que vêm atrás. Quando vão atravessar um rio, mandam os menores à frente, para que os maiores, ao entrarem, não desgastem o leito nem formem perigosos redemoinhos no profundo turbilhão.

Do mesmo modo, o bem da clemência é próprio dos homens justos: reconduzem o errante ao caminho; às ovelhas, isto é, aos simples, com a mão bondosa e paciente de sua ação, preparam um caminho pelo qual possam avançar sem perigo; tornam-se guias dos outros pelo exemplo e pela palavra; ao atravessarem o rio desta vida, rumo à pátria, mandam os menores à frente, porque se compadecem misericordiosamente dos principiantes, que ainda não chegaram à força da santidade, para que, se os mais fracos percorressem o caminho da austeridade dos perfeitos, cansados, não desfalecessem da obra iniciada.

Do mesmo modo, nos macacos é representada a consideração das indignidades ou torpezas cometidas; pois os macacos não têm cauda com que possam cobrir a torpeza de sua própria feiura. Assim, os verdadeiros penitentes não têm motivo de escusa com que possam disfarçar os seus pecados, mas, despida e abertamente, envergonhando-se não do olhar dos homens, mas somente do olhar de Deus, revelam a torpeza que cometeram.

Do mesmo modo, nos pavões é representado o desprezo da glória temporal. Por isso, deve-se observar que o pavão perde as suas penas quando a primeira árvore perde as suas folhas. Depois, nasce-lhe a plumagem quando as árvores começam novamente a cobrir-se de folhas. A primeira árvore foi Cristo, que foi plantada no jardim das delícias, isto é, no seio da bem-aventurada Virgem. As folhas dessa árvore são as suas palavras: quando o pregador as lança na pregação e o pecador as acolhe, este abandona as penas, isto é, as riquezas. Na ressurreição geral, porém, quando todas as árvores, isto é, todos os santos, começarem a reverdecer, então aquele que abandonou as penas das coisas temporais receberá a plumagem da imortalidade. E, assim como nas penas do pavão está a sua beleza, e nos pés a sua feiura, pela consideração dos quais, por assim dizer, a sua beleza é reprimida, assim os penitentes rejeitam a glória deste mundo, recordando a própria baixeza e redução a cinzas. Tais mercadorias levam os homens penitentes, enquanto não cessam de examinar diariamente a si mesmos e os seus bens.

11. Digamos, portanto: “Subindo, porém, a uma das barcas, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.” O Senhor pede ao prelado de sua Igreja que a afaste um pouco da terra, isto é, que afaste do amor das coisas terrenas aqueles que lhe foram confiados para governar. Mas, se ele mesmo está apegado à terra, se é corcunda e inclinado para a terra, como poderá afastar os outros da terra? Quando Moisés, como se narra no Êxodo, partia com a mulher e os filhos para o Egito, a fim de libertar o povo de Israel, o anjo quis matá-lo; mas, quando deixou a mulher e os filhos, o anjo o deixou prosseguir (cf. Ex 4,24-26).

Assim, os prelados e sacerdotes de nosso tempo, representados por Moisés, têm literalmente mulheres e filhos, serpentes que, rastejando atrás dos sacerdotes, clamam: “Ai, ai!”. Deles diz Isaías: “Os filhotes dos jumentos comerão uma mistura de migma” (Is 30,24). Migma é uma palavra hebraica, isto é, uma mistura — na realidade, grega — de palha triturada misturada com trigo. Com efeito, o sustento do sacerdote hoje é composto de duas coisas: da palha do comércio terreno e do trigo da oferta da Igreja. Tal mistura comem os filhotes dos jumentos, isto é, os filhos dos sacerdotes. Estes, com mulher e filhos, pretendem libertar o povo de Deus do cativeiro do diabo. Mas o Senhor lhes sairá ao encontro e os matará, se não se separarem da mulher e dos filhos. Separados estes, o Senhor dirá: “Afasta a barca um pouco da terra.”

12. Segue-se: “E, sentando-se, ensinava as multidões da barca”. A esse respeito, temos uma concordância no terceiro livro dos Reis: “O rei Salomão fez um grande trono de marfim e revestiu-o de ouro muito puro. Tinha seis degraus; a parte superior do trono era redonda, na parte posterior, e havia dois braços, de um lado e de outro, segurando o assento; e dois leões estavam junto de cada braço; e doze leõezinhos estavam sobre os seis degraus, de um lado e de outro. Não se fez obra semelhante em todos os reinos” (3Rs 10,18-20). Observa que esta autoridade pode ser explicada de três modos: primeiro, a respeito da Igreja; segundo, a respeito da alma; terceiro, a respeito da bem-aventurada Virgem Maria.

A respeito da Igreja, assim. Entende-se que o trono de Salomão é a Igreja, na qual o nosso rei da paz, reinando, é reconhecido por exercer os seus juízos. Com razão se recorda que foi feito de marfim, porque o elefante, de cujos ossos ele provém, sobressai entre os quadrúpedes pelo seu discernimento, une-se moderadamente à sua fêmea e não toma uma segunda consorte. Isso se aplica aos castos, que seguem os preceitos de Cristo pela castidade. Ele a revestiu de ouro, porque fez resplandecer nela, por meio dos milagres, o fulgor da sua glória. Deus completou em seis dias o ornamento do mundo, e esse número, por sua perfeição, significa a perfeição das obras. No sétimo dia Deus repousou. E, porque o mundo consta de seis idades, nas quais é lícito trabalhar, todo aquele que deseja a pátria celeste apresse-se a subir por meio das boas obras. A redondeza do trono na parte posterior significa o descanso eterno que aguarda os santos depois desta vida; ali, todo aquele que aqui trabalha bem, recompensado com o salário, gozará do repouso perene. Os braços que sustentavam o assento significam os auxílios da graça divina, que elevam a Igreja ao reino celeste. São dois porque isso é pregado em ambos os Testamentos, pois nada de bom pode ser realizado senão com o auxílio divino. Pelos dois leões são figurados os pais de ambos os Testamentos, que aprenderam, pela fortaleza de ânimo, a dominar a si mesmos e aos outros. Eles estavam junto aos braços, porque os santos pais atribuíam a Deus, e não a si mesmos, tudo o que faziam. Daí: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória” (Sl 113B,1). Pelos doze leõezinhos é representada a ordem dos pregadores, que segue a doutrina apostólica. Eles estão sobre os seis degraus, de um lado e de outro, porque se esforçam por guarnecer o caminho das boas obras, de ambos os lados, com a doutrina e o exemplo.

13. “O rei Salomão fez” etc. Note-se que, para realizar alguma obra, são necessárias duas coisas: a sabedoria e a força; com a sabedoria se dispõe, com a força se realiza. Jesus Cristo, que é a força e a sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,24), fez para si um trono no qual repousasse. O trono é a alma de todo justo, que Jesus Cristo, com a sua sabedoria, criou quando não existia; com a sua força, recriou quando estava perdida. Fez, portanto, um trono para nele repousar, porque a alma do justo é a sede da sabedoria (cf. Sb 7,27), e por Isaías disse: “Para quem olharei, senão para o humilde, o pacífico e o que treme diante das minhas palavras?” (cf. Is 66,2). E o “Eclesiástico” [Provérbios]: “O rei que se assenta no trono dissipa todo mal com o seu olhar” (Pr 20,8). Assim, Jesus Cristo, rei dos reis, senta-se no trono, isto é, repousa na alma; dissipa todo mal da carne, do mundo e do demônio com o seu olhar, isto é, com o olhar da sua graça.

“Fez”, diz ele, “um grande trono de marfim” etc. Vejamos o que significam o marfim, o ouro muito fulvo, os seis degraus, o topo arredondado e a parte posterior, os dois braços e o assento, os dois leões e os doze leõezinhos. Marfim, em latim ebur, deriva de barrus, isto é, elefante. Deve-se observar, portanto, que entre os elefantes e os dragões há uma ininterrupta discórdia. Com efeito, as emboscadas são preparadas mediante este estratagema. As serpentes ocultam-se junto aos caminhos pelos quais os elefantes costumam vagar, deixam passar os primeiros e atacam os últimos, para que os que iam adiante não possam prestar auxílio; primeiro amarram-lhes os pés com nós, para que, com as pernas atadas, lhes impeçam a capacidade de caminhar.

Os elefantes, porém, encostam-se a árvores ou rochedos, para matarem as serpentes, esmagando-as com o peso de seu corpo. A causa principal do combate é que os elefantes têm o sangue mais frio e, por isso, são avidissimamente atacados pelos dragões quando o calor é intenso. Por essa razão, nunca os atacam senão quando estão pesados de bebida, para que, com as veias mais abundantemente irrigadas, obtenham maior saciedade de suas vítimas abatidas; e nada procuram mais que os olhos, os únicos que sabem ser vulneráveis, ou o interior das orelhas. Os elefantes são os homens justos; os dragões, os demônios, entre os quais e os homens justos há sempre discórdia. Os demônios armam ciladas aos pés, isto é, aos afetos dos justos, pelos quais os próprios justos matam as serpentes. Assim, são mortos precisamente no lugar onde procuram infundir o veneno. A ardente luxúria dos demônios esforça-se por prejudicar a castidade dos santos, e então os ataca sobretudo quando os vê entregues à gula, pois por meio dela se inflama o frio da castidade. Acima de tudo, procuram atingir os olhos, porque sabem que eles são as primeiras flechas da luxúria. Ou então procuram primeiro os olhos, isto é, a razão e o entendimento, que são os olhos da alma, para arrancá-los, e querem tapar os ouvidos, para que não possam ouvir a palavra de Deus. Diz-se, portanto, muito bem: “Fez um grande trono de marfim.” De marfim, quanto à castidade; grande, quanto à sublimidade da contemplação.

“Revestiu-o de ouro muito fulvo.” A veste da alma é a fé, que então é de ouro, se for iluminada pelo esplendor da caridade. A respeito dessa veste diz-se no livro da Sabedoria: “Na veste talar que Aarão trazia estava todo o orbe da terra” (Sb 18,24). Na veste da fé, que opera por meio da caridade, devem estar os quatro elementos de que consta todo o mundo: o fogo da caridade, o ar da contemplação, a água da compunção e a terra da humildade.

“E tinha seis degraus”, que são: a abominação do pecado, a acusação do próprio pecado, o perdão da injúria recebida, a compaixão pelo próximo, o desprezo de si mesmo e do mundo, e a consumação da perseverança final.

“E o topo do trono era arredondado na parte posterior.” O topo do trono é o desejo da alma, pelo qual arde por ver a Deus; ele será arredondado na parte posterior, isto é, no fim da sua vida, porque passará da esperança à visão. Por isso, no Salmo: “A parte posterior de seu dorso resplandece com o brilho do ouro” (Sl 67,14). A parte posterior da pomba, isto é, da alma, é a bem-aventurança eterna. Ela estará no brilho do ouro, isto é, na contemplação da majestade divina.

“E duas mãos, de um lado e de outro, seguravam o assento”, isto é, o escabelo, que era de ouro. O assento é a obediência, sustentada por duas mãos: a memória da Paixão do Senhor e a lembrança da própria iniquidade. Junto a essas duas mãos estão dois leões: a esperança e o temor. A esperança está junto à mão da Paixão do Senhor, cujo exemplo o justo obedece de bom grado, esperando, por meio daquele que sofreu, alcançar o que crê. Junto à mão, isto é, à lembrança da própria iniquidade, está o leão do temor, que ameaça com o perigo da morte eterna se não obedecer.

“E doze leõezinhos estavam sobre os seis degraus, de um lado e de outro.” Os doze leõezinhos são aquelas doze virtudes que o Apóstolo enumera: “O fruto do Espírito é a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a longanimidade, a bondade, a benignidade, a mansidão, a fé, a modéstia, a castidade e a continência” (Gl 5,22-23). O espírito do homem justo, que é como o primeiro leãozinho, possui em si essas virtudes.

14. “O rei Salomão fez” etc. A bem-aventurada Maria é chamada trono do verdadeiro Salomão. Por isso ele diz dela no Eclesiástico: “Eu habito nas alturas mais elevadas, e o meu trono está numa coluna de nuvem” (Eclo 24,7). Como se dissesse: Eu, que habito nas alturas mais elevadas junto do Pai, escolhi um trono numa mãe pobrezinha. E observa que a bem-aventurada Virgem, trono do Filho de Deus, é chamada “coluna de nuvem”: coluna, porque sustenta a nossa fragilidade; de nuvem, porque é imune ao pecado. Este trono foi de marfim, porque a bem-aventurada Maria foi cândida pela inocência e fria, sem o ardor da concupiscência.

Nela houve seis degraus, que são assinalados no Evangelho: “Foi enviado Gabriel” (cf. Lc 1,26-38). O primeiro foi a modéstia, naquele trecho: “Ela ficou perturbada com a sua palavra”. Daí aquele dito: No adolescente recomenda-se a modéstia, no jovem a jovialidade, no ancião a prudência. O segundo foi a prudência; de fato, ela não afirmou nem negou imediatamente, mas começou a refletir. Daí: “E considerava qual seria o sentido daquela saudação”. O terceiro foi a discrição, naquele trecho: “Como acontecerá isso?” O quarto foi a constância no bom propósito; por isso: “Pois não conheço homem”. O quinto foi a humildade: “Eis a serva do Senhor”. O sexto foi a obediência: “Faça-se em mim”.

Este trono foi revestido do ouro da pobreza. Ó pobreza áurea da gloriosa Virgem, que envolveste o Filho de Deus em pobres faixas e o reclinaste numa manjedoura! E justamente se diz que ela o revestiu; pois a pobreza reveste a alma de virtudes, enquanto as riquezas a despojam.

“E o topo do trono era redondo na parte posterior.” O ápice da bem-aventurada Maria foi a caridade; por seu mérito, na parte posterior, isto é, na bem-aventurança eterna, ocupa o lugar mais elevado, sem princípio nem fim.

“E dois braços, de um lado e de outro, sustentavam o assento.” O assento, isto é, o escabelo de ouro, foi a humildade da bem-aventurada Maria, sustentada por dois braços, isto é, pela vida ativa e pela contemplativa. Ela foi, ao mesmo tempo, como Marta e Maria. Foi Marta quando foi ao Egito e depois voltou de lá; Maria, quando conservava todas as palavras, meditando-as em seu coração (cf. Lc 2,19).

“E dois leões”, isto é, Gabriel e João Evangelista, ou José e João Batista, “estavam” de um lado e de outro, “junto aos braços”: José junto à vida ativa, e João junto à contemplativa.

“E doze leõezinhos”, isto é, os doze apóstolos, “de um lado e de outro”, venerando-a e prestando-lhe serviço. Verdadeiramente, verdadeiramente, tal obra não foi realizada em nenhum dos reinos, porque jamais se viu mulher semelhante a Maria no mundo, nem jamais haverá outra no futuro. Muitas filhas realizaram coisas excelentes, mas a bem-aventurada Virgem Maria superou todas (cf. Pr 31,29). Por isso diz dela uma autoridade: “Se a Virgem sozinha se calar, nenhuma voz entre os demais ressoará”.

15. Segue-se: “Quando terminou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo e lançai as vossas redes para a pesca’” (Lc 5,4). Em latim diz-se duc in altum, literalmente: conduz para onde é profundo. Altum significa tanto profundo como alto, e por isso pode referir-se tanto ao que está acima como ao que está abaixo. Com efeito, dizemos tanto céu alto como mar alto. Diz-se a Simão, isto é, a qualquer bispo: “Faze-te ao largo”. E logo se diz aos seus sufragâneos, aos seus colaboradores: “Lançai as redes para a pesca”. Pois, se a barca da Igreja não for conduzida pelo prelado ao largo, isto é, às alturas da santidade, os sacerdotes não lançam as redes para a pesca, mas fazem cair as vítimas no profundo.

Por isso diz Oseias: “Ouvi isto, ó sacerdotes, porque contra vós se faz o julgamento; pois vos tornastes um laço em vez de vigiar, e como uma rede estendida sobre o Tabor. E fizestes cair as vítimas no profundo” (Os 5,1-2). Observa estas três palavras: “laço, rede” e “fizestes cair”, nas quais são assinalados três vícios dos sacerdotes: a negligência, a avareza, a gula e a luxúria. A negligência, quando se diz primeiro: “Vos tornastes um laço em vez de vigiar”. Os sacerdotes foram destinados a vigiar, mas, por sua negligência, os súditos que lhes foram confiados caem no laço do diabo (cf. 1Tm 6,9). A avareza, quando se acrescenta: “E como uma rede estendida sobre o Tabor”. No monte Tabor o Senhor se transfigurou, e o nome interpreta-se “luz que vem”; e significa o altar, no qual ocorre a transfiguração, isto é, a transubstanciação da espécie do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus Cristo; por meio desse sacramento, a luz entra nas almas dos fiéis. Nesse monte Tabor, os sacerdotes, ou melhor, para dizer com mais verdade, os mercadores, estendem a rede da sua avareza para ajuntar dinheiro. Celebram missas por dinheiro e, se não tivessem certeza de que receberiam o pagamento, certamente não celebrariam a missa; e assim fazem do sacramento da salvação um instrumento de cobiça. A gula e a luxúria, quando se acrescenta: “E fizestes cair as vítimas no profundo”. As vítimas são as ofertas dos fiéis, que eles fazem cair no profundo, que significa procul a fundo, isto é, longe do fundo, vale dizer, empregam-nas para satisfazer a gula e a luxúria. Vítima é assim chamada porque cai abatida por um golpe. Com efeito, com as ofertas dos fiéis, a quem esfolam, os sacerdotes engordam seus cavalos e potros, suas concubinas e seus filhos. A Lei determinava que o mamzer, isto é, o filho de uma prostituta, não entrasse na casa do Senhor (cf. Dt 23,2). E eis que os filhos das prostitutas não somente entram na casa do Senhor, mas até comem os bens dela.

16. À segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Quem quer amar a vida e ver dias felizes” (1Pd 3,10-12) etc. O bem-aventurado Pedro tomou esta autoridade do salmo de Davi (cf. Sl 33,13-15), no qual estão contidas três coisas: a glória eterna dos justos, a vida dos penitentes e o castigo dos que praticam o mal. A glória eterna, quando diz: “Quem quer amar a vida”; a vida dos penitentes, naquele trecho: “Refreie a sua língua”; o castigo dos que praticam o mal, quando acrescenta: “Mas o rosto do Senhor está contra os que praticam o mal”. Nestas seis práticas consiste a verdadeira penitência. A saber: refrear a língua do mal: “Creio que a primeira das virtudes consiste em conter a língua; o silêncio imposto corrige uma língua má” (Catão). Não dizer palavras de engano: “Senhor”, diz ele, “quem habitará na tua tenda?” Certamente, “quem não tramou engano com a sua língua” (Sl 14,1.3). Afastar-se do mal; mas isso não basta, se não fizer o bem. Busca a paz, isto é, interiormente, busca a paz em ti mesmo; e, se a encontrares, sem dúvida terás paz com Deus e com o próximo. E segue-a, isto é, com a perseverança final. Sobre os que fazem tudo isso repousam os olhos da misericórdia do Senhor, e os ouvidos da sua benevolência estão abertos às suas preces. O castigo dos ímpios, quando acrescenta: “O rosto”, isto é, a severidade do rosto, “do Senhor está contra os que praticam o mal” (Sl 33,16-17). Estas três coisas, isto é, a glória, a penitência e o castigo, Jesus Cristo proclamou às multidões depois de subir à barca, e o seu vigário não cessa de proclamá-las todos os dias a todos os fiéis.

Caríssimos irmãos, roguemos, pois, ao próprio Senhor Jesus Cristo que nos faça subir, pela obediência, à barca de Simão; que nos faça sentar no trono de marfim da humildade e da castidade; que faça nossa barca dirigir-se das coisas terrenas para o alto, isto é, para as alturas da contemplação; que nos faça lançar as nossas redes para a pesca, a fim de que possamos chegar, com a maior quantidade possível de boas obras, àquele que é o Deus sumamente bom. Digne-se conceder-no-lo ele mesmo, que vive e reina por todos os séculos dos séculos. Amém.

III. A captura de uma grande quantidade de peixes

17. Segue-se a terceira parte. “E Simão, respondendo, disse-lhe: Mestre, tendo trabalhado durante toda a noite, nada apanhamos; mas, à tua palavra, lançarei a rede. E, tendo feito isso, recolheram grande quantidade de peixes; e a rede deles se rompia. Então fizeram sinal aos companheiros que estavam na outra barca, para que viessem ajudá-los; eles vieram e encheram ambas as barcas, a ponto de quase afundarem” (Lc 5,5-7). A noite é assim chamada por prejudicar os olhos; com efeito, impede que os olhos vejam. Quem trabalha à noite nada apanha; antes, algumas vezes é ele próprio apanhado. Daí o Salmo: “Puseste as trevas, e fez-se noite; nela transitarão todos os animais da floresta” (Sl 103,20). Quando a noite, isto é, a escuridão do pecado, se faz na alma, então os animais, isto é, os demônios, passam por ela, dilacerando-a. Quem trabalha à noite, isto é, na obscuridade desta vida, para apoderar-se de algo transitório, nada apanha: com efeito, todas as coisas temporais são um nada.

Daí Jeremias: “Olhei para a terra, e eis que estava vazia e como que reduzida a nada” (Jr 4,23). “Nihilum” é composto de “nihil” e “illum”. Com efeito, o nada segue aquele que aqui abraça a terra vazia. “Nihil” é um nome insubstancial, não uma coisa, e compõe-se de “non” e “illum”. Pois os antigos tomavam este “illum” como o nome “ullum”. A respeito deste “nihil”, diz Isaías: “Todas as nações são diante de ti como se não existissem; são consideradas como um nada e uma coisa vã” (Is 40,17). Todas as nações, isto é, os que vivem à maneira dos pagãos, são diante de Deus como se não existissem. Existem por natureza, mas não pela graça, porque existir mal equivale a não existir; e aquele que caiu do verdadeiro ser pode ser considerado um nada e uma coisa vã. Possuem verdadeira e propriamente o ser aquelas coisas que não crescem por intensificação, nem diminuem por retração, nem se transformam por variação. O ser não tem outro contrário senão o não ser. Portanto, aquele que cresce pela intensificação das coisas temporais, diminui pela retração, isto é, pela falta de caridade, e se transforma pela variação, isto é, pela instabilidade da mente, caiu do verdadeiro ser, “e é considerado como um nada e uma coisa vã”.

Segue-se: “Mas, à tua palavra, lançarei a rede”. Diz a Glosa: Se os instrumentos da pregação não forem lançados sobre a palavra da graça celeste, isto é, por inspiração interior, em vão o pregador lança o dardo da sua voz, porque a fé dos povos não provém da sabedoria de um discurso bem elaborado, mas do dom da vocação divina. Ó vã presunção! Ó fecunda humildade! Aqueles que antes nada haviam apanhado, à palavra de Cristo recolhem uma grande quantidade. A rede se rompe pela grande quantidade de peixes, porque agora, neste mundo, entram com os eleitos tantos réprobos que chegam a dilacerar a própria Igreja com as heresias. A rede se rompe, mas o peixe não escapa, porque o Senhor conserva os seus, mesmo em meio aos escândalos dos perseguidores. “À tua palavra”, não à minha, “lançarei a rede”. Todas as vezes que a lancei à minha palavra, nada apanhei. Ai de mim! Todas as vezes que a lancei à minha palavra, atribuí a mim, e não a ti; preguei a mim mesmo, e não a ti; preguei as minhas coisas, e não as tuas. E por isso nada apanhei; e, se apanhei algo, não foi um peixe, mas uma rã tagarela, para que me louvasse; e isso mesmo foi um nada. “À tua palavra, lançarei a rede.” Lança a rede à palavra de Jesus Cristo aquele que nada atribui a si, mas tudo a ele; aquele que vive segundo o que prega. E, se assim fizer, apanhará verdadeiramente uma grande quantidade de peixes.

18. A respeito disso, tens uma concordância no terceiro livro dos Reis, onde se diz que “Elias subiu ao cume do Carmelo e, prostrado até o chão, pôs o rosto entre os joelhos; e disse ao seu servo: Sobe e olha para o mar. Tendo ele subido e observado, disse: Não há nada. E novamente lhe disse: Volta sete vezes. Na sétima vez, eis que uma pequena nuvem, como a pegada de um homem, subia do mar. E eis que os céus se obscureceram, e houve nuvens e vento, e caiu uma grande chuva” (3Rs 18,42-45). Vejamos o que significam Elias, o cume do Carmelo, o estar prostrado, a terra, o rosto entre os joelhos, o servo, as sete vezes, a nuvenzinha e a pegada de um homem, o mar, as nuvens, o vento e a chuva.

“Elias” é o pregador, que deve subir ao cume do Carmelo, que se interpreta como ciência da circuncisão, e significa a excelência da santa conduta, na qual o homem sabe muito bem cortar de si todas as coisas supérfluas. “Prostrado”: eis a humildade; “até o chão”: eis a lembrança da própria fragilidade; “e pôs o rosto entre os joelhos”: eis a dor das iniquidades passadas. E disse ao seu servo: “Sobe e olha para o mar”. Servo, em latim puer, chamado assim por causa da pureza, significa o corpo do pregador, que ele deve conservar na pureza. Este servo deve olhar “para o mar”, isto é, para os mundanos contaminados pela amargura do pecado. Olha para eles quando, em sua pregação, propõe remédios contrários aos seus vícios. Deve, pois, olhar “sete vezes”, isto é, apresentar os sete artigos da fé, que são: a Encarnação, o Batismo, a Paixão, a Ressurreição, a Ascensão, o envio do Espírito Santo e a vinda de Jesus Cristo para o juízo, no qual os pecadores, julgados, serão lançados no lago de fogo ardente, onde haverá choro e ranger de dentes (cf. Mt 13,42; Ap 21,8).

Neste sétimo artigo, que corresponde à sétima vez, enquanto os mundanos estiverem tomados pelo temor das penas, o pregador verá surgir do mar, isto é, do coração deles, uma pequena nuvem, ou seja, um pouco de compunção, semelhante à pegada de um homem, pela qual é significada a graça de Jesus Cristo. Quando ela se grava na mente do pecador, então, sem dúvida, a nuvenzinha da compunção começa a subir, cresce pouco a pouco e se torna uma grande nuvem, obscurecendo o falso esplendor das coisas temporais. Depois se levanta o vento impetuoso da confissão, que arranca pela raiz todos os vícios, e cai a grande chuva da satisfação, que inebria a terra e a faz germinar. E assim o pregador consegue uma grande quantidade de peixes.

Segue-se: “E fizeram sinal aos companheiros que estavam na outra barca” etc. Dissemos acima que essas duas barcas significam as duas formas de vida: a dos penitentes e a dos carnais. Aqueles que estão na barca de Simão, isto é, na obediência e na penitência, chamam os que vivem na vida carnal, para que venham e os ajudem. Coisa semelhante encontras no terceiro livro dos Reis, onde se diz que Salomão mandou dizer a Hiram, rei de Tiro, que lhe prestasse auxílio na construção do templo do Senhor (cf. 3Rs 5,1-6). Assim, estes chamam os carnais pela pregação, para que venham, isto é, se afastem da vaidade do mundo, e os ajudem, isto é, se entreguem às obras de penitência. E assim encherão ambas as barcas, e será construído um templo para o Senhor, isto é, tanto de uns como de outros será construído, com pedras vivas, o templo da Jerusalém celeste.

19. À terceira parte do Evangelho corresponde a terceira parte da epístola: “E quem vos poderá fazer mal, se fordes imitadores dos que fazem o bem? Mas, se sofrerdes alguma coisa por causa da justiça, sois bem-aventurados. Não temais o temor deles e não vos perturbeis” (1Pd 3,13-14). Pedro fala aos penitentes, retirados do mar do mundo pela rede da pregação, dizendo: “Se fordes bons imitadores”, isto é, imitadores daqueles que vos chamaram à penitência, quem poderá fazer-vos mal? Como se dissesse: Ninguém, nem homem nem demônio. “E, se sofrerdes alguma coisa por causa da justiça”, não por causa da culpa, “sois bem-aventurados”, isto é, bem aumentados, porque a vossa coroa cresce. “Não temais o temor deles”, porque “quem teme não é perfeito na caridade” (1Jo 4,18). E observa que ele disse: “Não temais o temor”. Há, com efeito, um duplo temor: o das coisas e o dos corpos. Quem ama a Deus despreza ambos. “E não vos perturbeis”, para que não sejais afastados da firmeza de vossa mente. Por isso não disse “vos perturbeis”, mas “vos conturbais”, porque, ainda que o corpo às vezes se perturbe exteriormente, a mente deve, contudo, permanecer interiormente firme e estável.

Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Verbo de Deus Pai, para que, segundo a sua palavra e não a nossa, baixemos a rede da pregação, a fim de podermos retirar os pecadores do profundo dos vícios e subir até ele juntamente com eles. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

IV. O espanto de Pedro e de seus companheiros, e o abandono de tudo o que possuíam

20. Segue-se a quarta. “Ao ver isso, Simão Pedro prostrou-se aos joelhos de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. Pois o espanto havia tomado conta dele e de todos os que estavam com ele, por causa da pesca que haviam feito; e igualmente de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. E, conduzindo as barcas para a terra, deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,8-11). Pedro, reconhecendo-se pecador, temeu ser esmagado pela presença de tamanha majestade e, por isso, disse: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. Aquele que se reconheceu pecador prostrou-se aos joelhos de Jesus. Nisso se observam duas coisas: o temor pelos pecados, quando diz “prostrou-se”, e a esperança na misericórdia do Redentor, quando diz “aos joelhos de Jesus”. Sobre isso, o Senhor promete aos penitentes por meio de Isaías: “Sereis levados ao peito, e sobre os joelhos vos acariciarão” (Is 66,12).

Os peitos são assim chamados porque são úmidos, isto é, banhados pelo leite. Nota que há dois peitos: o da Encarnação e o da Paixão. O primeiro foi de consolação; o segundo, de reconciliação. Os penitentes recém-convertidos, como lactentes, são levados aos peitos, para serem consolados com o leite da Encarnação e, reconciliados pelo sangue que saiu do peito aberto pela lança no monte Calvário, serem encorajados a suportar a paixão. Também sobre os joelhos da benevolência paterna, como uma mãe com o filho, ele os acaricia, para que tenham plena confiança de que aquele que lhes ofereceu os peitos da Encarnação e da Paixão não lhes negou a remissão dos pecados e a bem-aventurança do Reino.

Diz, pois: “Afasta-te de mim, Senhor” etc. Onde está hoje aquele que tema ser esmagado pelo benefício recebido? Pedro temeu. Nós, porém, conscientes de muitos crimes, aproximamo-nos irreverentemente da presença da majestade divina e não tememos. Com efeito, ali está a presença da majestade divina onde está o corpo de Cristo, glória dos anjos; onde estão os sacramentos da Igreja; onde são celebrados os santos mistérios. Certamente cremos nessas coisas, mas, obstinados na malícia, não cessamos de pecar; por isso, o Senhor diz por meio de Jeremias: “Que significa que o meu amado cometeu tantos crimes na minha casa? Por acaso as carnes sagradas tirarão de ti as tuas maldades?” (Jr 11,15). Certamente que não; ao contrário, elas as acumularão.

“Um espanto”, diz, “havia tomado conta dele” etc. Pedro e seus companheiros se espantam diante de uma pesca tão abundante. Também nós devemos maravilhar-nos com a conversão dos pecadores, como faziam aqueles de quem se narra no livro dos Juízes que Sansão feriu os filisteus “com grande matança, de modo que, espantados, punham a panturrilha sobre a coxa” (Jz 15,8). A panturrilha é a parte posterior da tíbia. Quando o Senhor fere os filisteus, isto é, os demônios, e liberta Israel, isto é, a alma, de suas mãos, também nós, espantados, devemos pôr a panturrilha sobre a coxa. Na coxa está simbolizado o prazer da carne; pomos então a panturrilha sobre ela quando, pelo exemplo do pecador convertido, reprimimos o prazer da carne mediante a mortificação da própria carne.

Segue-se: “Não temas; doravante serás pescador de homens. Doravante”. Isto se refere especialmente ao próprio Pedro, a quem se explica o que significa a pesca dos peixes. Assim como então pescava peixes com redes, mais tarde pescaria homens com palavras. Ou ainda: “Doravante”, porque foste humilde, envergonhando-te das manchas de tua vida, sem deixar que a vergonha reprimisse a confissão, mas antes, expondo a ferida, procurando o remédio, serás pescador de homens.

“E, conduzindo as barcas para a terra, deixaram tudo e o seguiram.” Cristo, gigante de dupla natureza, corredor veloz que percorre seus caminhos, exultou para correr o caminho (cf. Sl 18,6) e apressou-se a cumprir a missão pela qual viera. Portanto, quem quer segui-lo precisa necessariamente deixar tudo, depor tudo e antepor nada a nada, porque quem está carregado não pode seguir aquele que corre. Por isso se diz no terceiro livro dos Reis: “A mão do Senhor esteve sobre Elias e, cingidos os rins, corria” (3Rs 18,46). A mão, chamada assim como que de munus, é a graça de Deus; quando está sobre o homem, confere-lhe tão grande auxílio que, cingidos os rins, ele possa correr pela castidade, nu pela pobreza, seguindo pobre o Cristo pobre.

21. Portanto, à quarta parte do Evangelho corresponde a quarta parte da epístola: “Santificai o Senhor Cristo em vossos corações” (1Pd 3,15). Observa estas três palavras: Senhor, Cristo e santificai. Senhor deriva de domínio. Cristo, de crisma. “Santo”, em latim, é o mesmo que “ágios” em grego, isto é, sem terra, na qual há quatro coisas: impureza, insaciabilidade, obscuridade e fragilidade. Aquele que está sem terra, isto é, sem o amor das coisas terrenas, nas quais há a impureza da luxúria, a insaciabilidade da avareza, a obscuridade da ira e da inveja, e a fragilidade da inconstância, esse, sem dúvida, como servo humilde, santifica o Senhor em seu coração, e, como verdadeiro cristão, santifica Cristo em seu coração.

Elevemos, portanto, nossas preces, caríssimos irmãos, ao próprio Jesus Cristo, para que nos conceda, deixadas todas as coisas, poder correr com os apóstolos e santificá-lo em nossos corações, a fim de que mereçamos chegar até ele, que é o Santo dos santos.

Com o auxílio daquele que é digno de louvor e de amor, doce e suave, a quem são devidos a honra e a glória pelos séculos eternos.

Diga toda alma penitente, tirada do lago de Genesaré: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.