Evangelho do quinto domingo depois da Páscoa: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa”, que se divide em três partes.
Em primeiro lugar, sermão sobre a unção da graça, no trecho: “A sua unção”, e também: “Sadoc e Natã ungiram Salomão”.
[Da primeira parte.] Também sermão sobre o Pai, no trecho: “Pai nosso, que estás nos céus”, e sobre o filho da cegonha.
Também sermão sobre o amor de Deus, no trecho: “Dar-te-ei uma terra onde corre leite e mel”.
Também sermão contra aqueles que pedem coisas temporais, no trecho: “Até agora nada pedistes”.
Também sermão sobre a alegria dos justos e dos carnais, no trecho: “Florescerá a amendoeira”, e sobre os onagros. Também sobre as três características que estão no espelho e seu significado, no trecho: “Se alguém é apenas ouvinte da palavra”.
Da segunda parte. Sermão para a Anunciação, ou para a Natividade ou a Paixão do Senhor, no trecho: “Moisés disse a Aarão: Toma o turíbulo”.
Da terceira parte. Sermão sobre a misericórdia, o juízo e o poder de Deus, no trecho: “Ele ordena ao sol, e este não nasce”.
Também sermão para exortar à mortificação do corpo, no trecho: “Aquele que criou Arcturo e Órion”.
Também sermão para o dia de Pentecostes, no trecho: “Levanta-te, ó aquilão”.
Também sermão sobre a observância do silêncio e as diversas instituições dos religiosos, no trecho: “Se alguém pensa ser religioso”.
1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la dará” (Jo 16,23).
Diz João em sua primeira Carta: “A sua unção vos ensina sobre todas as coisas” (1Jo 2,27). Observa que há uma dupla unção. A primeira é a infusão da graça, da qual diz o Profeta: “Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria, de preferência aos teus companheiros” (Sl 44,8). Ó Deus Filho, Deus Pai te ungiu, enquanto homem, “com o óleo da alegria”, isto é, com o dom da graça sétupla, pela qual te tornou imune de todo pecado; “de preferência aos teus companheiros”, porque a ti o Espírito foi dado sem medida, mas aos outros foi dado com medida. Por isso, em João: “De sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1,16). A segunda unção é a pregação da palavra divina, da qual se diz no terceiro livro dos Reis que Sadoc e Natã ungiram Salomão em Gion (cf. 3Rs 1,38-39). Sadoc significa justiça; Natã, dom da graça; Salomão, pacífico; Gion interpreta-se luta. A justiça da boa vida e o dom da graça, isto é, a palavra da pregação do Senhor, ungem o pecador reconciliado com Deus pela confissão, em Gion, para que, despojado dos pecados e das coisas temporais, lute contra o diabo.
Quando a primeira unção unge interiormente a mente, a segunda é muito eficaz. Mas, quando aquela se retira, esta corre em vão. Por isso diz a Glosa sobre este trecho: “A sua unção nos ensina sobre todas as coisas”: ninguém atribua àquele que ensina aquilo que compreende da boca de quem ensina; se não houver interiormente quem ensine, a língua do mestre trabalha exteriormente em vão; contudo, o mestre não deve calar-se, mas fazer o que puder, porque a sua pregação é útil para criar boas disposições. Portanto, a unção da inspiração interior, ou da pregação do Senhor, ensina-nos todas as coisas que dizem respeito à salvação da alma, a saber: desprezar o mundo, humilhar-se a si mesmo, desejar a alegria celeste. A respeito disso, diz o Senhor no evangelho de hoje: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa” etc.
2. Neste evangelho observam-se três momentos. Primeiro, o pedido da plenitude da alegria, quando se antepõe: “Em verdade, em verdade vos digo” etc. Segundo, a intercessão de Jesus Cristo por nós junto do Pai, no trecho: “Eu rogarei ao Pai por vós”. Terceiro, o conhecimento que o próprio Cristo tem de todas as coisas, no trecho: “Agora sabemos que sabes todas as coisas”.
Neste domingo, no intróito da missa, canta-se: “A voz da alegria” (Is 48,20), e lê-se a epístola do bem-aventurado Tiago: “Sede praticantes da palavra”, que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três partes do evangelho. A primeira parte é: “Sede praticantes da palavra”. A segunda: “Aquele, porém, que tiver perscrutado a lei da liberdade perfeita”. A terceira: “Se alguém, porém, pensa ser religioso” etc.
3. Digamos, portanto: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja plena” (Jo 16,23-24). “Amém”, que em hebraico é juramento ou afirmação, em latim significa “verdadeiro”. A Verdade, por meio da dupla afirmação do verbo, promete-nos a alegria, para que creiamos sem dúvida alguma naquilo que diz.
“Se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome.” Observa estas palavras: “alguma coisa”, “Pai” e “em meu nome”. Não pode ser chamado pai senão aquele que tem um filho, porque pai e filho são nomes relativos. Quando, portanto, diz “pai”, entende “filho”, de quem ele é pai. O Pai é Deus, de quem somos filhos e a quem todos os dias dizemos: “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6,9); e em Isaías: “Tu, Senhor, és nosso Pai, nosso Redentor: desde a eternidade é o teu nome” (Is 63,16). E ele mesmo diz em Jeremias: “De agora em diante, chama-me: Meu Pai, tu és o guia da minha virgindade” (Jr 3,4). A virgindade da alma é a fé que opera pelo amor (cf. Gl 5,6), conservando a alma incorrupta; é a ela que Deus Pai, como guia, conduz. Nós, portanto, como filhos, devemos pedir alguma coisa ao nosso Pai. Tudo o que existe é nada, exceto amar a Deus. Amar a Deus é alguma coisa, e devemos pedir essa alguma coisa, isto é, que nós, filhos, amemos o nosso Pai, assim como o filho da cegonha ama seu pai.
Diz-se que o filho da cegonha ama tanto seu pai que, quando este envelhece, o sustenta e o alimenta, e isso é próprio de sua natureza. Assim, neste mundo que já envelhece, devemos sustentar o nosso Pai em seus membros fracos e enfermos, alimentá-lo nos pobres e necessitados. “O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (cf. Mt 25,40). Se pedirmos o amor, o próprio Pai, que é amor, dar-nos-á aquilo que ele é, isto é, o amor.
4. Por isso ele mesmo diz no Êxodo: “Dar-te-ei uma terra onde corre leite e mel” (cf. Ex 13,5). Observa estas quatro palavras: terra, corrente, leite e mel. A terra, por causa de sua firmeza, significa o amor de Deus, que confirma a mente do homem no verdadeiro ser. Por isso Salomão diz no Eclesiastes: “Uma geração passa, e outra geração vem; mas a terra permanece para sempre” (Ecl 1,4). A geração, isto é, o amor da carne, passa, e a geração, isto é, o amor do mundo, vem; mas a terra, isto é, o amor de Deus, permanece para sempre, porque, como diz o Apóstolo, “a caridade jamais passará” (1Cor 13,8). Esta terra é chamada corrente por causa de sua abundância. Por isso se diz no Salmo: “O ímpeto do rio”, isto é, a abundância do amor divino, “alegra a cidade de Deus” (Sl 45,5), isto é, a alma na qual o próprio Deus habita.
Esta terra é abundante em leite e mel. O leite nutre, o mel adoça; assim o amor de Deus nutre a alma, para que cresça de virtude em virtude, e adoça os espinhos de todas as tribulações. Para quem ama, nada é difícil. Quando se subtrai a doçura do amor divino, a amargura da menor tribulação parece intolerável. Mas a madeira adoçou as águas de Mara (cf. Ex 15,23.25); a farinha de Eliseu tornou comestíveis as coloquíntidas amargas (4Rs 4,39-41). Assim o amor de Deus transforma toda amargura em doçura. Por isso diz o Eclesiástico: “Meu espírito é doce, e minha herança é mais doce que o mel e o favo” (Eclo 24,27).
O Espírito do Senhor é o espírito da pobreza, do qual diz Isaías: “O espírito dos fortes é como um turbilhão que impele a parede” (Is 25,4). Fortes são os homens pobres, que não sabem vacilar nem na prosperidade nem na adversidade; o espírito deles, como um turbilhão, impele a parede das riquezas, da qual o mesmo Profeta diz: “O escudo desnudou a parede” (Is 22,6). O escudo, chamado em latim clypeus, porque clepet, isto é, oculta o corpo, é o espírito da pobreza, que oculta a alma dos dardos dos demônios. Este escudo desnuda a parede das riquezas. A herança do Senhor foi a Paixão da cruz, que ele deixou a seus filhos. Por isso diz: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19), isto é, em memória de minha Paixão. O Apóstolo possuía esta herança como herdeiro, quando dizia: “Trago em meu corpo as marcas de Cristo” (cf. Gl 6,17). Portanto, o espírito da pobreza e a herança da Paixão são, no coração de quem verdadeiramente ama, mais doces que o mel e o favo.
Diz, portanto, muito bem: “Se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome”. O nome de Cristo, em hebraico, é Messias; em grego, Cristo ou Salvador; em latim, Ungido ou Salvador. Portanto, em nome do Salvador, peçamos ao Pai que, se não por nós, ao menos por causa de seu Filho, por meio do qual salvou o gênero humano, nos conceda o privilégio de seu amor, dizendo com o Profeta: “Ó Deus, nosso protetor, olha e contempla a face do teu Cristo” (Sl 83,10), como se dissesse: Se não queres olhar para nós por causa de nós mesmos, ao menos contempla a face do teu Cristo, ferida por bofetadas por nossa causa, manchada de escarros, pálida na morte. “Contempla a face do teu Cristo.” E que pai não contemplaria a face do filho morto? Contempla, portanto, também tu, ó Pai, a nós, porque, por nossa causa, nós que fomos a causa de sua morte, morreu Cristo, teu Filho. Em seu nome, portanto, como ele mesmo nos ordenou, pedimos-te que nos dês a ti mesmo, porque sem ti não há ser. Por isso diz Agostinho: “Senhor, se queres que eu me afaste de ti, dá-me outro tu; de outro modo, não me afastarei de ti”.
5. Diz, portanto, muito bem: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome”. A Glosa diz: Confiantes em minha presença, nada pedistes, isto é, nada que seja alguma coisa em comparação com a realidade permanente. Neste trecho, o Senhor repreende aqueles que pedem coisas temporais, que nada são. A respeito deles diz Oseias: “A vossa misericórdia é como a nuvem da manhã e como o orvalho que passa pela manhã” (Os 6,4). É como se dissesse: Quando pedis misericórdia ao Senhor, pedis coisas temporais, que são como a nuvem da manhã, a qual é ar condensado, como uma vaidade condensada. Assim, os bens temporais são como um nada; mas esse nada, para parecer alguma coisa, está envolto em certas fantasias. A nuvem impede a visão do sol, e a abundância das coisas temporais desvia do conhecimento de Deus. Por isso Jó diz: “A gordura cobriu-lhe o rosto” (Jó 15,27), porque a gordura das riquezas cega os olhos da mente. Por isso se diz no Salmo: “Caiu fogo sobre eles, e não viram o sol” (Sl 57,9). O fogo do amor do mundo cega os olhos do homem, como uma frigideira quente cega os olhos do urso. “A vossa misericórdia, portanto, é como a nuvem da manhã e como o orvalho que passa pela manhã”; este desaparece quando o sol se aquece, justamente quando seria mais necessário, e expõe as ervas e as flores ao calor do sol, que assim as queima. Do mesmo modo, a felicidade mundana proporciona consolo nesta vida, mas destina os homens aos suplícios eternos.
Por isso Naum diz: “E Nínive, como uma piscina de águas, são as suas águas” (Na 2,8). Nínive interpreta-se “esplêndida” e significa o mundo, que se cobre de uma beleza enganadora, como a neve cobre a lama; seu refrigério é comparado ao de uma piscina, que abunda em águas no inverno e seca no verão. O mundo, com efeito, agora abunda nas águas das riquezas, mas, quando chegar o ardor da morte, será esvaziado de suas riquezas e entregue aos suplícios eternos. Até agora, portanto, nada pedistes; e, se pedistes, não o fizestes em meu nome, isto é, para a salvação de vossa alma.
O Apóstolo mostra a ordem de pedir e suplicar, escrevendo a Timóteo: “Rogo”, diz ele, “que antes de tudo se façam súplicas, orações, pedidos e ações de graças” (1Tm 2,1). A súplica é, nos exercícios espirituais, uma insistência ansiosa diante de Deus; neles, quem, antes da graça que socorre, acrescenta a ciência, não acrescenta senão dor. A oração, porém, é o afeto do homem que adere a Deus, uma espécie de colóquio familiar e piedoso, e a permanência da mente iluminada para fruir, enquanto é possível.
O pedido é o cuidado de obter algumas coisas temporais e necessárias à vida presente; nesse caso, Deus, embora aprove a boa vontade de quem pede, faz, contudo, aquilo que ele mesmo julga melhor e atende de bom grado àquele que pede bem. É desta oração que o Salmista diz: “Porque ainda a minha oração está nas coisas que eles aprovam” (Sl 140,5). Isto também pertence aos homens ímpios, porque é comum a todos, mas sobretudo aos filhos deste mundo, desejar a tranquilidade da paz, a saúde do corpo, a bonança do tempo e outras coisas que dizem respeito ao uso e à necessidade desta vida, bem como ao prazer dos que delas abusam. Por essas coisas, os que pedem fielmente, embora as peçam somente por necessidade, submetem sempre, nisso mesmo, sua vontade à vontade de Deus. Nos pedidos, deve-se orar piedosa e fielmente, mas não se deve apegar-se obstinadamente a eles, porque não sabemos, mas o Pai, que está nos céus, sabe o que nos é necessário nestes tempos.
Por fim, a ação de graças consiste no entendimento e no conhecimento da graça e da boa vontade de Deus, e numa orientação incessante e incansável para Deus, ainda que, às vezes, não exista ou se torne entorpecida tanto a ação exterior como o afeto interior. É desta ação que o Apóstolo diz: “O querer está ao meu alcance, mas não encontro o realizar o bem” (Rm 7,18), como se dissesse: O querer está sempre presente, mas às vezes jaz, isto é, é ineficaz; porque procuro realizar a boa obra, mas não a encontro. Esta é a caridade, que nunca desfalece (cf. 1Cor 13,8); ela é a oração sem interrupção e a ação de graças, da qual diz o Apóstolo: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17), “dando sempre graças” (Ef 5,20).
Diz, portanto, muito bem: “Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja plena”.
6. Observa que há uma alegria vazia, própria dos carnais, e uma alegria plena, própria dos santos. Da alegria vazia dos carnais diz Isaías: “A alegria dos onagros são as pastagens dos rebanhos” (Is 32,14). Observa que há dois gêneros de onagros: um tem chifres e encontra-se na Grécia — e dele diz Jó: “Quem deixou livre o onagro, e quem soltou os seus laços?” (Jó 39,5) —; o outro encontra-se na Espanha, e dele diz ainda: “O homem vão eleva-se na soberba e julga-se livre como o filhote do onagro” (Jó 11,12). Do mesmo modo, neste mundo há dois gêneros de onagros, isto é, de soberbos. Alguns, com efeito, se ensoberbecem dos chifres da dignidade; outros se elevam na soberba somente pela vaidade da mente e sacodem de si o jugo da obediência. A alegria dos onagros são, portanto, as pastagens dos rebanhos, isto é, dos pobres; mas aqueles que se alimentam dos bens dos pobres e os saqueiam serão saqueados pelo diabo. Por isso, Salomão diz nos Provérbios: “A caça do leão”, isto é, do diabo, “é o onagro no deserto” (Eclo 13,23); e Isaías: “Ai de ti, que saqueias! Não serás também tu saqueado?” (Is 33,1).
Da alegria vazia dos carnais diz ainda Salomão no Eclesiastes: “Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto, dissipar-se-á a alcaparra” (Ecl 12,5). Assim como a amendoeira produz flores antes das outras árvores, assim o carnal deseja a flor neste mundo, mas no outro permanecerá despojado de toda flor; com a queda de sua flor, o gafanhoto, isto é, o diabo, engordará; pois a gordura do diabo, por assim dizer, é a exultação da glória temporal; e a alcaparra da concupiscência carnal e da glória mundana será dissipada. Por isso, Tiago diz: “O rico passará como a flor do feno. Com efeito, levantou-se o sol com ardor, secou o feno, sua flor caiu e a beleza do seu rosto desapareceu: assim o rico murcha em seus caminhos” (Tg 1,10-11). A raiz é a cobiça carnal; a flor, o deleite das coisas temporais. Ao chegar o sol, isto é, a severidade da morte ou do juiz, a raiz secará, a flor cairá, e a beleza do seu rosto, isto é, a honra do mundo, os amigos e os parentes, desaparecerá. A alegria do mundo é, portanto, vazia.
Mas da alegria plena e verdadeira da vida eterna diz Salomão no Eclesiastes: “Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto, dissipar-se-á a alcaparra.” Observa que a alegria dos santos consiste em três coisas: na ressurreição do corpo, na bem-aventurança da alma e na evasão do aguilhão da carne, isto é, da tentação diabólica. A amendoeira, isto é, o corpo, florescerá com quatro dotes: claridade, agilidade, sutileza e imortalidade. E o gafanhoto, isto é, a alma, engordará com a visão de Deus, a bem-aventurança dos anjos e a companhia dos santos; então se dissipará a alcaparra, isto é, o aguilhão da carne, a tentação do demônio. Por isso, o Apóstolo diz aos Coríntios: “Quando este corpo mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado” (1Cor 15,54-56). Então se dissipará a alcaparra, porque, como diz o Profeta, os estrangeiros já não passarão por Jerusalém (cf. Jl 3,17), isto é, os demônios não tentarão mais o justo, e a fera maligna, isto é, a concupiscência da carne, não passará por ela (cf. Is 35,9).
7. A esta dupla alegria, isto é, à vazia e à plena, corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Pois, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, será comparado a um homem que contempla no espelho o rosto de sua origem; contemplou-se, depois foi embora e imediatamente se esqueceu de como era” (Tg 1,22-24). Praticantes da palavra de Deus são aqueles que pedem e recebem a alegria plena; somente ouvintes são aqueles que procuram alcançar a alegria vazia do mundo — a respeito disso diz o Salmo: “É tempo de agir, Senhor”, não somente de ouvir ou de falar, “eles dissiparam a tua lei” (Sl 118,126) —, aqueles que ouvem e não praticam. Por isso, Salomão diz no Eclesiastes: “Quem destrói a sebe”, isto é, a lei, “será mordido pela serpente” (Ecl 10,8), isto é, pelo diabo. Destrói a lei aquele que não vive segundo o que diz ou ouve; a respeito dele se acrescenta: “Se alguém é ouvinte da palavra e não praticante”, etc.
Observa que o espelho nada mais é que um vidro finíssimo, no qual se devem considerar três coisas: a vileza, a fragilidade e a claridade. O vidro é vil quanto à matéria, porque é feito de um pouco de pó; é frágil quanto à substância e claro quanto ao esplendor; colocado diante do sol, brilha à maneira do sol. Chama-se espelho porque devolve o esplendor, ou porque nele as mulheres, olhando, contemplam a aparência de seu rosto, ou porque, à maneira do vidro, deixa ver através de si. Chama-se vidro porque, pela transparência, deixa ver com clareza. O espelho ou o vidro significa a Sagrada Escritura, em cujo esplendor se encontra o rosto da nossa origem: de onde nascemos, como nascemos e para que nascemos. De onde nascemos, quanto à vileza da matéria; como nascemos, quanto à fragilidade da substância; para que nascemos, quanto à dignidade da glória, na qual, se formos praticantes da palavra, pela proximidade do verdadeiro sol, brilharemos como o sol.
No espelho da doutrina sagrada encontram-se estas três coisas. Sobre a vileza da matéria, tens no Gênesis: “Tu és cinza e à cinza voltarás” (Gn 3,19). Sobre a fragilidade da substância, tens no Salmo: “Nossos anos serão considerados como uma teia de aranha” (Sl 89,9) etc. Que coisa é mais frágil que a teia de aranha? E que coisa é mais corruptível que a vida do homem, que se desfaz com uma pequena lesão ou com uma febrícula mínima? Sobre a claridade, diz-se no Evangelho: “Os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43) etc.
Neste espelho, o pobre homem contempla o rosto de sua origem: como nasceu, quão frágil é e o que será; e, algumas vezes, dessas considerações contrai a compunção e a vontade de fazer penitência. Mas, como é ouvinte da palavra e não praticante, amante da alegria vã e vazia, imediatamente se esquece de como era e de como se viu. A alegria da vaidade tira a memória da própria salvação; a memória da alegria plena, porém, gera na alma o afeto pela própria salvação. “Pedi, portanto, e recebereis, para que a vossa alegria seja plena.”
Desta alegria se recorda a Igreja no intróito da missa de hoje: “Anunciai com voz de alegria até os confins da terra” (cf. Is 48,20). Ó pregadores, anunciai a voz da alegria, isto é: “Pedi, para que a vossa alegria seja plena”, não somente aos justos que estão no seio da Igreja, mas até os confins da terra, isto é, àqueles que estão fora dos limites, ou seja, dos preceitos do Senhor, que para nós são os limites do viver, para que ouçam a voz da alegria e alcancem a alegria plena, que não terá fim. A essa alegria nos conduza Jesus Cristo. Amém.
8. Segue-se o segundo: “Eu pedirei ao Pai por vós; pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que eu saí de Deus” (Jo 16,26-27). Cristo, sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, mediador entre Deus e os homens, pede ao Pai por nós. Por isso se diz no Levítico: “O sacerdote, rogando por eles, será propício a eles o Senhor” (Lv 4,20); e novamente: “O sacerdote rogará por ele e por seu pecado, e este lhe será perdoado” (Lv 4,26). Encontras concordância no livro dos Números, onde Moisés disse a Aarão: “Toma o turíbulo e, tendo tirado fogo do altar, põe incenso sobre ele e vai depressa ao povo, para rogares por eles, pois a ira do Senhor já saiu e a praga se enfurece”. Tendo Aarão feito isso e corrido ao meio da multidão, que o incêndio já devastava, ofereceu o incenso; e, estando entre os mortos e os vivos, intercedeu pelo povo, e a praga cessou” (Nm 16,46-48).
“Moisés disse a Aarão”, isto é, o Pai ao Filho: “Toma o turíbulo” da humanidade, que foi fabricado pela obra de Beseleel (cf. Ex 31,1), cujo nome se interpreta “sombra divina”, isto é, a sombra do Espírito Santo no seio da gloriosa Virgem, porque ele mesmo cobriu aquela Virgem com sua sombra (cf. Lc 31,35), isto é, proporcionou-lhe refrigério e extinguiu inteiramente nela o foco do pecado. E “enche” com o fogo da divindade o turíbulo da humanidade, na qual habitou corporalmente a plenitude da divindade (cf. Cl 2,9). E diz muito bem “do altar”, porque saiu do Pai e veio ao mundo (cf. Jo 16,28). E “põe sobre ele o incenso” da tua Paixão e, assim, como mediador, rogarás pelo povo, que o incêndio do diabo devasta atrocemente. Ele, obediente à vontade daquele que ordenava, tendo tomado o turíbulo, correu “até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). E, “estando” na cruz, com as mãos estendidas, “entre os mortos e os vivos”, isto é, entre os dois ladrões, dos quais um foi salvo e o outro condenado — ou entre os mortos e os vivos, isto é, entre aqueles que eram detidos no cárcere do inferno e aqueles que viviam nas misérias deste exílio —, libertou todos do incêndio da perseguição diabólica, oferecendo a si mesmo em sacrifício de suave odor (cf. Ef 5,2).
Com razão, portanto, diz de si mesmo: “Eu pedirei ao Pai por vós”. Por isso João, em sua Epístola canônica, diz: “Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação, isto é, a expiação, pelos nossos pecados” (1Jo 2,1-2). E por isso o oferecemos diariamente a Deus Pai no Sacramento do Altar, para que seja novamente propiciado pelos nossos pecados. Fazemos, com efeito, como faz a mulher que tem um filhinho: quando seu marido, irado, quer golpeá-la, ela, segurando o menino nos braços, coloca-o diante do homem irado, dizendo: “Golpeia este, açoita este!” O menino, com as lágrimas brotando, compadece-se da mãe. O pai, porém, cujas entranhas se comovem com as lágrimas de seu filho, a quem ama ternissimamente, por causa dele poupa a esposa. Assim, a Deus Pai, irado conosco por causa de nossos pecados, oferecemos seu Filho Jesus Cristo no Sacramento do Altar, como pacto de nossa reconciliação, para que, se não por consideração a nós, ao menos por consideração àquele que lhe é tão querido, afaste de nós os flagelos que justamente merecemos e, lembrado das lágrimas, do trabalho e da Paixão dele, nos perdoe.
Por isso o próprio Filho diz por Isaías: “Eu fiz e eu sustentarei, eu carregarei e salvarei” (Is 46,4). Observa estas quatro palavras: “Eu fiz” o homem; “e eu sustentarei”, sobre meus ombros, como uma ovelha errante e cansada; “e eu carregarei”, como a ama carrega a criança nos braços. E que pode o Pai responder, senão dizer: “E eu salvarei”? Com razão, portanto, Cristo diz: “Eu pedirei ao Pai por vós; pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que eu saí de Deus”. O Pai e o Filho são um só, como atesta o Filho: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Quem ama o Pai ama também o Filho, e o Pai e o Filho amam aquele que os ama. Por isso diz no Evangelho de João: “Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21).
9. A respeito deste amor, tens uma concordância na segunda parte da epístola de hoje: “Mas aquele que tiver contemplado atentamente a lei da perfeita liberdade e nela perseverar, não se tornando ouvinte esquecido, mas praticante da obra, este será bem-aventurado em seu agir” (Tg 1,25). A lei da perfeita liberdade é o amor de Deus, que torna o homem perfeito em tudo e livre de toda servidão. Por isso, acerca do justo, diz-se no Salmo: “A lei do seu Deus está em seu coração” (Sl 36,31). Com efeito, no coração do justo está a lei do amor divino; por isso, diz nos Provérbios: “Filho, dá-me o teu coração” (Pr 23,26). Assim como o açor, dentre as aves que captura, procura primeiro o coração e o come, assim Deus não deseja nem ama no homem coisa alguma tanto quanto o seu coração, no qual está a lei do amor; e por isso “não vacilarão os seus passos” (Sl 36,1).
Os passos do justo são as suas obras ou os afetos da mente, que não vacilarão, isto é, não serão apanhados no laço da sugestão diabólica, nem escorregarão na praça da vaidade mundana. Do primeiro caso diz Jó: “O seu pé será preso pelo laço, e a sede se inflamará contra ele” (Jó 18,9). O pé do ímpio é preso no laço da má sugestão e assim a sede da cobiça se inflama contra ele. Do segundo diz-se nas Lamentações de Jeremias: “Nossos passos escorregaram no caminho de nossas praças” (Lm 4,18). “Platos”, em grego, significa “largo”. Chamam-se passos porque por meio deles se investiga, isto é, se reconhece, o caminho dos que passam; significam, portanto, as obras, pelas quais alguém é conhecido. Na extensão lodosa do prazer mundano escorregam as obras dos pecadores, para que caiam de pecado em pecado e depois precipitem-se no inferno. Por isso, no Salmo: “Tornem-se tenebrosos e escorregadios os seus caminhos, e o anjo do Senhor”, isto é, o anjo mau, “persiga-os” (Sl 34,6), até precipitá-los no abismo do inferno. Mas os passos do justo não vacilam, porque a lei do amor está em seu coração; e aquele que nela perseverar “será bem-aventurado em seu agir”. Com efeito, o amor de Deus concede a graça no presente e a bem-aventurança da glória no futuro. A esta nos conduza aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
10. Segue-se o terceiro. Dizem-lhe os seus discípulos: “Agora sabemos que sabes tudo e não precisas que alguém te interrogue; nisto cremos que saíste de Deus” (Jo 16,29.30). Verdadeiramente disseram os discípulos: “Agora sabemos que sabes tudo”. Sobre isso, o Apóstolo dá testemunho na Carta aos Hebreus: “Viva é a palavra de Deus, eficaz e mais penetrante que toda espada de dois gumes, e chega até à divisão da alma e do espírito, das articulações e das medulas, e discerne os pensamentos e as intenções do coração; e não há criatura alguma invisível diante dele, mas tudo está nu e aberto aos seus olhos” (Hb 4,12-13). A Palavra, isto é, o Filho de Deus, por meio de quem conhecemos a sua vontade, é viva, isto é, confere a vida; é chamada eficaz, isto é, capaz de produzir efeito, e pode facilmente realizar o que quer. A Palavra de Deus é eficaz, porque o Filho de Deus “fez tudo quanto quis” (Sl 113b,3). Com efeito, realiza o que quer, onde quer e quando quer.
Por isso, Jó: “Ele ordena ao sol, e este não nasce, e encerra as estrelas como que sob um selo. Ele sozinho estende os céus e caminha sobre as ondas do mar. Ele faz Arturo e Órion e as Híades e os segredos do Austro. Ele faz coisas grandes e incompreensíveis e maravilhas cujo número não existe” (Jó 9,7-10). Quem faz tais coisas verdadeiramente sabe tudo. Verdadeiramente o Filho de Deus pode tudo: ele é vivo e eficaz.
“Ordena ao sol, e este não nasce.” No sol é figurada a iluminação da graça, que nasce quando é infundida na mente, e não nasce quando não é concedida. Por isso, o Senhor diz no Êxodo: “Terei misericórdia de quem eu quiser, e serei clemente para com quem me aprouver” (Ex 33,19). E ainda: “Endurecerei o coração do faraó” (Ex 4,21). Diz-se que o Senhor endurece o coração quando retira a sua graça ou não a concede. Por isso, diz em Oseias: “Não visitarei as vossas filhas quando se prostituírem” (Os 4,14). Nada pior pode acontecer à alma pecadora do que o Senhor abandonar o pecador à perversidade do seu coração e não o corrigir com o flagelo da visitação paterna.
“Encerra as estrelas como que sob um selo.” O selo é algo que se imprime sobre alguma coisa para que permaneça escondida até que seja aberto. As estrelas são os santos, que Cristo encerra sob o selo da sua providência, para que não apareçam em público quando quiserem, mas estejam sempre prontos para o tempo estabelecido por Deus; assim, quando ouvirem com o ouvido do coração a voz daquele que ordena, saiam do segredo da contemplação para as obras da necessidade.
“Ele sozinho estende os céus.” Os céus são os santos pregadores, que chovem por meio das palavras, relampejam com os exemplos de uma vida santa e trovejam com as ameaças da pena eterna. O Senhor estende esses céus para que difundam a luz por toda parte, cubram os pecadores e os levem a precaver-se, para não se enredarem nas coisas temporais.
“E caminha sobre as ondas do mar.” As ondas do mar são os soberbos deste mundo, sobre os quais o Senhor caminha quando imprime em seus corações as pegadas da sua humildade. Por isso, diz no Eclesiástico: “Percorri sozinha o circuito do céu, penetrei nas profundezas do abismo, caminhei sobre as ondas do mar, permaneci sobre toda a terra, e em todo povo e em toda nação tive o primado, e com minha força calquei os corações de todos os excelentes” (Eclo 24,8-11). “O circuito do céu”, isto é, o coração do justo, eu circundo, defendo e protejo; e “as profundezas do abismo”, isto é, os corações dos maus, penetrei ao convertê-los pela penitência; e “sobre as ondas do mar”, isto é, reprimi-os na tentação; e “sobre toda a terra permaneci”, isto é, porque Deus permanece sobre o humilde e sobre aqueles que dão frutos por meio das boas obras e são constantes, ao passo que o diabo permanece sobre a areia; “em todo povo e em toda nação”, dos quais se congrega a Igreja.
11. Segue-se: “Ele faz Arturo e Órion e as Híades e os segredos do Austro”. Observa estas quatro palavras. Arturo é chamado pelos latinos de setentrião, porque consta de sete estrelas; por causa da semelhança com um carro, é chamado carro. Com efeito, cinco estrelas fazem as vezes do carro, e duas, que parecem estar num mesmo lugar, fazem as vezes dos bois. As cinco estrelas são os cinco sentidos do corpo, que as duas estrelas, isto é, a esperança e o temor, como dois bois, devem puxar. Daí tens a concordância no primeiro livro dos Reis, onde se diz que os filisteus, tomando duas vacas, atrelaram-nas ao carro e colocaram a arca de Deus sobre um carro novo (cf. 1Rs 6,10-11). “Carro” diz-se plaustrum, quase pilastrum, porque gira; significa o nosso corpo, que deve voltar-se para as obras de misericórdia; “novo” significa a satisfação da penitência, que deve levar a arca da obediência. Esse carro é puxado por “duas vacas”, isto é, a esperança e o temor, até Betsames, que se interpreta como “casa do sol”, isto é, a morada da vida eterna, na qual habita o Sol da justiça.
“Órion” é uma estrela cujo nome provém da espada. Por isso, os latinos a chamam iugula, isto é, espada para degolar, pois está armada como uma espada e, pela luz das estrelas, é terrível e muito brilhante. As estrelas de Órion surgem justamente no rigor do tempo invernal e, com o seu nascimento, produzem chuvas e tempestades. As estrelas de Órion são a contrição do coração e a confissão da boca; quando surgem, produzem a chuva das lágrimas e as tempestades da disciplina, do jejum e da abstinência.
“As Híades” são cinco estrelas dispostas à semelhança do ípsilon grego. As Híades são aquelas cinco palavras que Paulo, escrevendo aos coríntios, queria proferir na Igreja segundo o seu sentido (cf. 1Cor 14,19). São elas: a palavra da oração, a palavra do louvor, a palavra do conselho, a palavra da exortação e a palavra da confissão.
“E os segredos do Austro.” O Austro é um vento quente e significa o Espírito Santo, do qual diz a Esposa no Cântico dos Cânticos: “Levanta-te, Aquilão, e vem, Austro; sopra no meu jardim, para que fluam os seus aromas” (Ct 4,16). O Aquilão, assim chamado como que “ligando as águas”, significa o diabo, que, com o frio da malícia, restringe as águas da compunção no coração do pecador. A ele se diz: “Levanta-te”, isto é, afasta-te; “e vem, Austro”, isto é, Espírito Santo, “sopra no meu jardim”, isto é, na minha consciência, “para que fluam os seus aromas”, isto é, as lágrimas, que diante do Senhor exalam mais perfume que todos os aromas. “Os segredos do Austro” significam o segredo da contemplação, a alegria da mente e a suavidade da doçura interior, que são como certos segredos íntimos do Austro, isto é, do Espírito Santo; neles ele habita e, habitando, sopra com a suave brisa do seu amor.
12. Segue-se: “Ele faz coisas grandiosas e incompreensíveis, e maravilhas cujo número não existe.” Fez coisas grandiosas na criação das coisas; incompreensíveis na recriação; fará para nós maravilhas na bem-aventurança eterna. Ou então: fez coisas grandiosas em sua Encarnação, pelo que a bem-aventurada Maria diz: “Porque o Poderoso fez em mim grandes coisas, e santo é o seu nome” (Lc 1,49); incompreensíveis em seu Nascimento, no qual a Virgem deu à luz o próprio Filho de Deus; maravilhosas na operação dos milagres. Bendito seja ele, porque tudo sabe, aquele que nos fez tais coisas. A respeito dele o Apóstolo diz: “A palavra de Deus é viva e eficaz.”
Segue-se: “E mais penetrante que toda espada de dois gumes” etc. Cristo, com efeito, fere a alma pela contrição, o corpo pela aflição, “penetrando até a divisão da alma”, isto é, da animalidade, “e do espírito”, isto é, da razão. E nota que a alma é uma realidade incorpórea, capaz de razão, ordenada a vivificar o corpo. Ela constitui homens animais, que são sábios segundo a carne (cf. Rm 8,5), apegados aos sentidos do corpo. Quando começa a ser de perfeita razão, imediatamente rejeita de si a característica do gênero feminino e torna-se ânimo, participante da razão, ordenado a governar o corpo. Enquanto é alma, com efeito, facilmente se efemina naquilo que é carnal; o ânimo, porém, ou espírito, medita somente no que é viril e espiritual; e assim ocorre a divisão da alma e do espírito.
“Das articulações e também das medulas.” As articulações são as junções; a medula é assim chamada porque umedece os ossos. Nas articulações são designadas as sutis conexões dos pensamentos; nas medulas, as compunções das lágrimas, que irrigam os ossos das virtudes. Cristo, pela força de sua divindade, penetra até a divisão das articulações e das medulas, porque vê com sutileza o princípio, o meio e o fim dos pensamentos, para que tendem, de que modo um se articula ao outro, e como e por que caminho a compunção sai do coração.
Por isso Salomão, no Eclesiastes, diz: “Assim como ignoras qual seja o caminho do espírito e de que modo se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim não conheces as obras de Deus, que é o criador de todas as coisas” (Ecl 11,5). Somente Deus sabe qual seja o caminho do espírito, isto é, da contrição, e de que modo se formam os ossos, isto é, as virtudes, no ventre da mulher grávida, isto é, na mente do penitente. Por isso o Apóstolo acrescenta: “E discernidor dos pensamentos e das intenções do coração; e não há criatura alguma invisível diante dele”, porque, como diz o Eclesiástico, os olhos do Senhor estão em todo lugar (cf. Eclo 23,28); “tudo está nu e aberto diante de seus olhos”, diante dos quais, como diz Jó, o inferno está nu e a perdição não tem cobertura (Jó 26,6). Verdadeiramente, portanto, verdadeiramente disseram os discípulos: “Agora sabemos que tu sabes tudo, e não é necessário que alguém te interrogue; nisso cremos: que saíste de Deus.” O Filho saiu de Deus para que tu saísses do mundo; veio a ti para que tu fosses até ele. Que significa sair do mundo e ir a Cristo, senão refrear os vícios e ligar a alma a Deus pelo vínculo do amor?
13. Daí encontras a concordância com a terceira parte da epístola que hoje é lida na missa: “Se alguém julga ser religioso, mas não refreia a sua língua, enganando o seu coração, vã é a sua religião. A religião pura e imaculada diante de Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e conservar-se imaculado deste mundo” (Tg 1,26-27). A religião é assim chamada porque, por meio dela, ligamos as nossas almas ao único Deus para o culto divino. Religião é aquela que presta culto e veneração a uma natureza superior, que chamam divina. Ouça isto o religioso, inflado pelo espírito de soberba, desregrado na língua, banido do reino de Deus: “Se alguém julga ser religioso”, etc. A língua é assim chamada por causa de ligar, e aquele que não a liga pelo silêncio demonstra ser sem religião. O princípio da religião é o freio da língua (cf. Tg 1,26).
Por isso, Salomão, nos Provérbios: “Quem dará uma guarda à minha boca e porá sobre os meus lábios um selo seguro, para que eu não caia por causa deles e a minha língua não me perca?” (Eclo 22,33), isto é, para que eu não diga o bem de modo desordenado, ou seja, para que eu saiba calar no tempo certo e dizer o bem no tempo certo. Por isso diz expressamente “selo”; aquilo que é fechado com um selo é fechado para que não se abra aos inimigos, mas aos amigos. Ouçam os religiosos do nosso tempo, que sobrecarregam o edifício de sua religião com uma grande variedade de instituições e com diversas regras de preceitos, e que, como os fariseus, se gloriam da aparência da pureza exterior. Ao primeiro homem, constituído em tão elevado grau de excelência, Deus deu um único e breve preceito, a saber: “Não comas da árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2,17); e ele nem sequer observou essa pequenina coisa. Aos homens, porém, do nosso tempo, colocados na miséria de tão grande infelicidade e já nos confins do mundo — ou, para falar mais verdadeiramente, nas fezes do mundo —, impõem-se muitos preceitos novos e longas instituições; e julgas que eles os observarão? Pelo contrário, tornam-se transgressores.
Ouçam estes o que diz o Senhor no Apocalipse: “Não porei sobre vós outro peso; contudo, conservai o que tendes” (Ap 2,24-25), isto é, o Evangelho. Diz a Glosa: Ouçam estes qual é a verdadeira religião. “A religião”, diz Tiago, “pura e imaculada diante de Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas”, etc. Nota que a verdadeira religião consiste em duas coisas: na misericórdia e na inocência; pois, ao ordenar que se visitem os órfãos e as viúvas, insinua tudo o que devemos fazer para com o próximo; e, ao mandar que nos conservemos imaculados deste mundo, mostra tudo aquilo em que devemos ser castos (abstinentes).
Peçamos, portanto, irmãos caríssimos, que o Senhor Jesus Cristo infunda em nós a sua graça, pela qual peçamos e alcancemos a plenitude da verdadeira alegria; que rogue por nós ao Pai e nos conceda a verdadeira religião, para que mereçamos chegar à região da vida eterna. Conceda-no-lo ele mesmo, que é digno de louvor, princípio e fim, admirável e inefável pelos séculos eternos. Diga toda religião pura e imaculada: Amém. Aleluia.