Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 31

Domingo IV depois de Pentecostes Dominica IV post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 6 seções · 20 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do quarto domingo depois de Pentecostes: “Sede misericordiosos”, que se divide em quatro partes.

Primeiro, sermão sobre o pregador ou o prelado da Igreja: “Davi sentado na cátedra”.

Parte I: Sermão sobre a tríplice misericórdia de Deus e do homem: “Sede misericordiosos”.

A natureza das gruas e seu simbolismo.

Sermão contra aqueles que fazem juízos temerários sobre coisas ocultas: “Oza estendeu a mão para a Arca”.

Sermão contra aqueles que se alegram com a queda ou a morte do inimigo: “Davi subiu ao aposento superior e chorou”.

Sermão para a formação da paciência: “Semei amaldiçoou o rei”, etc.

Parte II: Sermão sobre a tríplice medida e seu significado: “Uma medida boa, calcada, sacudida e transbordante”.

Sermão contra aqueles que se gloriam da beleza, que se confessam uma vez por ano e nunca cumprem a penitência imposta pelo confessor: “Não havia homem belo como Absalão”.

Sermão sobre as quatro prerrogativas do corpo: “Uma medida boa, calcada, sacudida e transbordante”.

Parte III: Sermão contra os prelados cegos da Igreja: “Todas as feras do campo”.

A natureza do urso e seu significado moral.

Sermão sobre a Natividade do Senhor: “Rúben saiu no tempo da colheita do trigo”.

Sermão sobre a Paixão do Senhor: “O rei Davi atravessou o vale do Cedron”.

Parte IV: Sermão contra aqueles que, sendo impuros, querem purificar as impurezas dos outros: “Por que vês o argueiro”.

Sermão sobre os olhos: sua descrição e seu significado.

Exórdio. Sermão sobre o pregador ou o prelado da Igreja

1. Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Lê-se no segundo livro dos Reis, perto do fim: “Davi, sentado na cátedra, príncipe sapientíssimo entre os três; ele é como o delicadíssimo caruncho da madeira, que matou oitocentos homens num só ataque” (2Rs 23,8). Davi representa o pregador, que deve sentar-se na cátedra, etc. Observa todas as palavras. Na “cátedra”, a humildade da mente; em “sapientíssimo”, o esplendor; em “príncipe”, a constância; nos “três”, a vida, a ciência e a eloquência; na “madeira”, a dura malícia dos perversos; em “delicadíssimo”, a misericórdia e a paciência; no “caruncho”, a severa disciplina. O pregador, portanto, deve sentar-se na “cátedra” da humildade, instruído pelo exemplo de Jesus Cristo, que humilhou a glória da divindade na cátedra de nossa humanidade; “sapientíssimo”, no sabor da caridade, a qual é a única que sabe quão suave é o Senhor (cf. Sl 33,9); “príncipe”, pela constância da mente, para que, como o leão, o mais forte dos animais, não tema o encontro com ninguém; “entre os três”, isto é, na vida, na ciência e na eloquência.

Deve também ser o delicadíssimo caruncho da madeira: “caruncho”, para perfurar e corroer a madeira, isto é, os endurecidos e infrutíferos; “delicadíssimo”, isto é, paciente e misericordioso para com os humildes e contritos. Ou, assim como nada é mais resistente que o verme quando toca a madeira, nem mais dócil quando é tocado, assim também o pregador, quando propõe a palavra do Senhor, deve tocar duramente o coração dos ouvintes; se, porém, ele próprio for atingido por injúrias, deve ser doce e afável. Diz-se a respeito dele que “num só ataque matou oitocentos”. Diz “num só ataque” por causa de alguns que, depois de terem matado a soberba, alimentam a gula. Os “oitocentos” compreendem os vícios carnais e espirituais. O pregador deve matar todos eles em si mesmo, para que possa primeiro exercer em relação a si e depois em relação aos outros as obras de misericórdia. A esse respeito se diz no Evangelho de hoje: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”.

2. Observa-se que neste Evangelho se destacam quatro pontos. Primeiro, a misericórdia de Deus, quando se diz antes: “Sede misericordiosos”. Segundo, a medida da glória eterna, quando se acrescenta: “Uma medida boa”. Terceiro, a queda dos cegos no fosso, onde se diz: “Dizia-lhes também uma parábola: Pode acaso um cego guiar outro cego?”. Quarto, o argueiro do pecado no olho do irmão, onde se diz: “Por que vês o argueiro no olho de teu irmão?”. A estas quatro partes do Evangelho relacionaremos algumas histórias do segundo livro dos Reis.

No intróito da missa deste domingo canta-se: “O Senhor é a minha luz”, e lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Romanos: “Considero que os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis”, que queremos dividir em quatro partes e relacionar com as quatro partes do Evangelho. A primeira parte é: “Considero”. A segunda: “Pois a expectativa da criação”. A terceira: “Sabemos”. A quarta: “E não somente”, etc.

I. A misericórdia de Deus

3. Digamos, portanto: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado” (Lc 6,36-38). Observa que, nesta primeira parte do santo Evangelho, se assinalam cinco coisas muito dignas de nota: ter misericórdia, não julgar, não condenar, perdoar e dar. Queremos concordar estas cinco coisas com cinco histórias do segundo livro dos Reis.

Misericordioso é assim chamado por compadecer-se da miséria alheia. Daí também se chamar misericórdia, porque torna o coração miserável, ao sofrer pela miséria alheia. Em Deus, porém, há misericórdia sem miséria do coração. Com efeito, diz-se miseratio, como se fosse ação de misericórdia. É desta misericórdia, portanto, que o Senhor diz: “Sede misericordiosos”. E observa que, assim como é tríplice a misericórdia do Pai celeste para contigo, assim também deve ser tríplice a tua para com o próximo.

A misericórdia do Pai é graciosa, espaçosa e preciosa. Graciosa, porque purifica dos vícios. Daí dizer o Eclesiástico: “Graciosa é a misericórdia de Deus no tempo da tribulação, como nuvem de chuva no tempo da seca” (Eclo 35,26). No tempo da tribulação, isto é, quando a alma é atribulada por causa dos pecados, derrama-se a chuva da graça, que refrigera a alma e perdoa os pecados. Espaçosa, porque, com o passar do tempo, se dilata nas boas obras. Daí dizer o Salmo: “Porque a tua misericórdia está diante dos meus olhos, e me agradei da tua verdade” (Sl 25,3), porque me desagradou a minha iniquidade. Preciosa, nas delícias da vida eterna; dela diz Ana, em Tobias: “Todo aquele que te honra tem por certo que, se a sua vida for provada, será coroado; mas, se estiver em tribulação, será libertado e, se estiver sob correção, poderá chegar à tua misericórdia” (Tb 3,21) etc. Procura no Evangelho: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24), (Dom. XV depois de Pentecostes, II). Sobre estas três coisas diz Isaías: “Recordarei as misericórdias do Senhor, louvarei o Senhor por tudo quanto o Senhor nos concedeu e pela multidão dos bens concedidos à casa de Israel, segundo a sua clemência e segundo a multidão das suas misericórdias” (Is 63,7).

Também a tua misericórdia para com o próximo deve ser tríplice: se ele pecou contra ti, perdoa-lhe; se se desviou do caminho da verdade, instrui-o; se tem fome, restaura-lhe as forças. Sobre a primeira, diz Salomão nos Provérbios: “Pela fé e pela misericórdia são purificados os pecados” (Pr 15,27). Sobre a segunda, diz Tiago: “Quem fizer voltar um pecador do erro do seu caminho salvará a sua alma e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5,20). Sobre a terceira, diz o Salmo: “Feliz aquele que compreende o indigente e o pobre” (Sl 40,2). Diz-se, portanto, com razão: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”.

4. A isto corresponde o que se lê no segundo livro dos Reis, onde Davi diz a Mifiboset: “Não temas, pois certamente usarei de misericórdia para contigo por causa de Jônatas, teu pai, e te restituirei todos os campos de Saul, teu pai, e tu comerás sempre à minha mesa” (2Rs 9,7). Nesta passagem é indicada a tríplice misericórdia para com o próximo. A primeira, quando se diz: “Certamente usarei de misericórdia” etc. “por causa de Jônatas”, isto é, de Jesus Cristo, que disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Para com aquele que peca contra ti, deves exercer misericórdia de coração e com a boca, perdoando-lhe de coração e com a boca. A segunda, quando se acrescenta: “E te restituirei todos os campos de Saul, teu pai”. Campo é assim chamado porque nele se faz alguma coisa; significa a graça concedida na unção do batizado, que ele recebeu para exercitá-la nas boas obras. Mas, quando Saul, isto é, a alma ungida com o óleo da fé, morre, perde-se então a posse. Tu lha restituis quando o fazes converter-se do erro do seu caminho. A terceira, quando se acrescenta: “E tu comerás sempre à minha mesa”. Daí dizer Salomão: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber” (Rm 12,20; cf. Pr 25,21). Diz-se, portanto, com razão: “Sede misericordiosos”.

Sejamos, portanto, misericordiosos, imitando as gruas, das quais se diz que, quando se esforçam por chegar ao lugar destinado, buscam as alturas, para que, de um ponto de observação mais elevado, possam avistar as terras que devem alcançar. A que confia no voo precede o bando, repreende a lassidão do voo e impele o grupo com a voz. Mas, quando fica rouca, outra a substitui. Há entre todas um cuidado concorde pelas que estão fatigadas; de tal modo que, se alguma fraquejar, todas se reúnem e sustentam as cansadas, até que recuperem as forças com o repouso. Nem na terra o cuidado é menor. Dividem entre si as vigílias noturnas, para que cada décima esteja desperta. As vigilantes seguram entre os dedos pequenos pesos que, se por acaso caírem, denunciam-lhes o sono. Um grito indica aquilo de que se deve acautelar. Elas fogem dos morcegos.

Sejamos, portanto, misericordiosos como as gruas: colocados num elevado observatório da vida, cuidemos de nós e dos outros; ofereçamos direção aos que não conhecem o caminho; com a voz da pregação, repreendamos os preguiçosos e tíbios; sucedamo-nos alternadamente no trabalho, porque aquilo que não tem repouso alternado não é duradouro; carreguemos sobre os próprios ombros os enfermos e debilitados, para que não desfaleçam no caminho; vigiemos nas vigílias do Senhor, pela oração e pela contemplação; agarremos como que com os dedos a pobreza do Senhor, a humildade e a amargura da sua Paixão; e, se algo imundo quiser insinuar-se, clamemos imediatamente; fujamos acima de tudo do morcego, isto é, da cega vaidade do mundo.

5. Segue-se o segundo: “Não julgueis, e não sereis julgados”. Diz a Glosa: Quanto aos males manifestos, que não podem ser praticados com boa intenção, é-nos permitido julgar. Há, porém, certas coisas intermediárias e incertas, pois não sabemos com que intenção são feitas: podem ser feitas tanto bem quanto mal. Tampouco sabemos qual virá a ser aquele que agora parece mau; é temerário desesperar de sua correção e repreendê-lo como se fosse um rejeitado. “Não julgueis, portanto, e não sereis julgados”.

A isto corresponde o que se lê no segundo livro dos Reis, onde se diz que “Oza estendeu a mão para a arca de Deus e a segurou, porque os bois escoiceavam e fizeram a arca inclinar-se. E o Senhor se irou com grande indignação contra Oza e o feriu por sua temeridade; e ele morreu ali junto da arca do Senhor” (2Rs 6,6-7). A arca é a alma; os bois representam os sentidos do corpo. Oza, que se interpreta “robusto”, é alguém que confia na própria virtude e difama os outros. Quando, pois, os bois escoiceiam, isto é, quando os sentidos do corpo atormentam e contradizem, a alma algumas vezes se inclina ao consentimento de alguma culpa; se o presunçoso quiser tocá-la com a mão temerária da difamação, saiba que incorrerá no julgamento do Senhor, que diz: “Não julgueis, e não sereis julgados”. Diz o Filósofo: Vê se ainda és mau, e poupa os semelhantes.

6. Segue-se o terceiro: “Não condeneis, e não sereis condenados”. A este respeito, tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se narra que Davi não quis condenar Absalão, que queria condená-lo; antes, “ordenou a Joab, Abisai e Etai, dizendo: Poupai-me o jovem Absalão” (2Rs 18,5). Por causa da condenação dele, “entristecido, Davi subiu ao aposento e chorou. E assim dizia, enquanto caminhava: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho. Quem me dera morrer por ti? Absalão, meu filho, meu filho Absalão” (2Rs 18,33). Com efeito, não se deve alegrar com a morte do inimigo, mas entristecer-se e chorar. Assim Cristo subiu ao aposento da cruz e ali chorou por Adão e por toda a sua posteridade, mortos por Joab, isto é, pelo diabo, com três lanças, isto é, a gula, a vanglória e a avareza, dizendo: “Meu filho Adão, quem me dera morrer por ti”, isto é, que a minha morte te aproveitasse? Como se dissesse: Ninguém quis conceder-me morrer por ele. Com efeito, considera grande dom quando o pecador lhe concede que a sua morte lhe seja proveitosa.

7. Segue-se o quarto: “Perdoai, e sereis perdoados”. A este respeito, tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que Semei amaldiçoou Davi, dizendo: “Sai, sai, homem sanguinário e homem de Belial! O Senhor fez recair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, porque usurpaste o seu reino; e o Senhor entregou o reino nas mãos de Absalão, teu filho. Eis que te oprimem os teus males, porque és homem sanguinário”. Então Abisai, filho de Sarvia, disse ao rei: “Por que amaldiçoa este cão morto o meu senhor, o rei? Irei e cortarei a cabeça dele”. E o rei disse: “Que há entre mim e vós, filhos de Sarvia? Deixai-o amaldiçoar, pois o Senhor lhe ordenou que amaldiçoasse Davi; e quem ousará dizer: Por que fez ele assim?” E o rei disse a Abisai e a todos os seus servos: “Eis que meu filho, que saiu das minhas entranhas, procura a minha vida; quanto mais agora o filho de Jemini! Deixai-o amaldiçoar, conforme o preceito do Senhor; talvez o Senhor olhe para a minha aflição e me retribua o bem em troca desta maldição de hoje”. Assim, Davi e os seus companheiros caminhavam pela estrada com ele; Semei, porém, caminhava pela encosta do monte, ao lado e na altura dele, amaldiçoando-o, lançando pedras contra ele e espalhando terra” (2Rs 16,7-13).

Gregório: Quem, pressionado por palavras injuriosas, não pode ou não consegue conservar a virtude da paciência, traga à memória o fato de Davi que, enquanto Semei o assediava com insultos e os chefes armados disputavam entre si o direito de vingá-lo, disse: “Que há entre mim e vós, filhos de Sarvia?”, etc. E pouco depois: “Deixai-o amaldiçoar, conforme o preceito do Senhor”, etc. Com estas palavras, indica que, enquanto fugia do filho que se levantara contra ele, Davi trouxe à mente o mal que cometera com Betsabéia; e julgou que as palavras injuriosas não eram tanto insultos quanto remédios, pelos quais poderia purificar-se e alcançar misericórdia para si. De fato, suportamos bem as injúrias que nos são infligidas quando, no segredo da mente, recorremos aos males cometidos. Parecerá leve a ofensa com que somos feridos quando vemos que merecemos algo pior. E assim acontece que se deve mais agradecer do que irar-se pelas injúrias, pelas quais, segundo o juízo de Deus, se evita uma pena mais grave.

8. Segue-se o quinto: “Dai, e vos será dado”. A este respeito, tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que “Maquir, filho de Amiel, e Barzelai, o galaadita, deram a Davi leitos, tapetes, vasos de barro, trigo e cevada, farinha, papa, favas, lentilhas, grão-de-bico torrado, mel, manteiga, ovelhas e bezerros cevados” (2Rs 17,27-29). Eis o “dai”. Ouçamos agora o “e vos será dado”. O rei Davi disse a Barzelai: “Vem, para que descanses tranquilo comigo em Jerusalém” (2Rs 19,33). Vejamos o que estas coisas significam em sentido moral.

Maquir interpreta-se “aquele que vende”; Amiel, “povo de Deus”; Barzelai, “minha força”; Galaad interpreta-se “monte de testemunho”. Por estes três homens entendemos todos os penitentes, que vendem os seus bens e os distribuem aos pobres, que são o povo de Deus, escolhido pelo Senhor como sua herança (cf. Sl 32,12); que, pela força das boas obras, vencem as tentações do antigo inimigo, nas quais estão acumulados os testemunhos da Paixão do Senhor. Estes dão a Cristo “leitos”, que são próprios dos que dormem, isto é, o repouso de uma consciência pura, na qual Cristo repousa com a alma; “e tapetes” de diversas cores, isto é, a variedade das virtudes; “e vasos de barro”, isto é, a si mesmos, quando, reconhecendo-se frágeis e feitos de lodo, humilham-se; “trigo”, isto é, a doutrina do Evangelho; “e cevada”, isto é, a doutrina do Antigo Testamento; “e farinha”, isto é, a confissão feita com a exposição minuciosa de todas as circunstâncias dos pecados; “e papa”, da paciência; “e favas”, da abstinência; “e lentilhas”, da própria pequenez; “e grão-de-bico torrado”, da compaixão pelo próximo; “mel e manteiga”, da vida ativa e contemplativa; “ovelhas”, da inocência; “e bezerros cevados”, da mortificação da carne nutrida em excesso. Se deres estas coisas, também a ti será dado, e ouvirás o verdadeiro Davi dizer-te: “Vem, descansa tranquilo comigo na Jerusalém” celeste.

Observa estas quatro palavras: vem, descansa, tranquilo comigo, em Jerusalém. A estas quatro correspondem aquelas quatro que são cantadas no intróito da missa de hoje: “O Senhor é a minha luz” (Sl 26,1-2) [etc.]. [“O Senhor é a minha luz”] concorda com esta palavra “vem”: não poderia vir retamente se antes não tivesse sido iluminado. “E a minha salvação” concorda com “descansa”: onde há salvação, aí há descanso. “O Senhor é o protetor da minha vida; de quem terei medo?” concorda com “tranquilo comigo”: aquele que o Senhor protege, sem dúvida, permanece tranquilo. “Os que me atribulam, meus inimigos, eles mesmos enfraqueceram e caíram” concorda com “em Jerusalém”: quando estivermos nela, não temeremos os inimigos que agora nos atribulam; eles cairão na geena, e nós estaremos na glória.

Por isso, à primeira cláusula do Evangelho concorda a primeira parte da epístola de hoje: “Considero, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não são dignos da glória futura, que será revelada em nós” (Rm 8,18). Porque os sofrimentos são do tempo, não são dignos, pois são leves e transitórios: o sofrimento passa, mas a glória permanece pelos séculos dos séculos.

Para que, portanto, possamos chegar àquela glória, roguemos ao Senhor Jesus Cristo, que é Pai misericordioso, que infunda em nós a sua misericórdia, para que tenhamos misericórdia de nós mesmos e dos outros, não julguemos ninguém, não condenemos ninguém, perdoemos àquele que peca contra nós e demos a nós mesmos e os nossos bens a todo aquele que nos pedir. Digne-se conceder-nos isto aquele mesmo que é bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A medida da glória eterna

9. Segue-se o segundo: “Uma medida boa, calcada, sacudida e transbordante será derramada em vosso regaço; pois com a mesma medida com que medirdes, vos será medido” (Lc 6,38).

Observa que há três medidas: a da fé, a da penitência e a da glória. A medida da fé é boa na recepção dos sacramentos; calcada, isto é, plena, na realização das boas obras; sacudida, na perseverança da tribulação ou do martírio pelo nome de Cristo; transbordante, na perseverança final. Sobre essa medida diz o Apóstolo: “A cada um conforme Deus repartiu a medida da fé” (Rm 12,3). A medida da penitência é boa na contrição, na qual se conhece a bondade de Deus; calcada na confissão, que deve ser feita plena e completamente; sacudida na satisfação; transbordante na remissão de toda a culpa e na pureza da mente. Sobre essa medida se diz no livro da Sabedoria: “Tudo dispuseste com medida, número e peso” (Sb 11,21). “Tudo”, isto é, toda a salvação da alma, para a qual se deve fazer tudo o que se faz, e à qual se deve ordenar tudo o que o homem faz. “Dispuse­ste”, Senhor Deus, na medida da penitência, a qual, para ser verdadeira, é necessário que tenha “número e peso”: número da confissão, para que sejam contadas minuciosamente todas as circunstâncias do pecado; peso da satisfação, para que a pena prepondere proporcionalmente à culpa. Este é o peso do santuário, não o peso comum.

10. Sobre isso, temos uma concordância no segundo livro dos Reis: “Ora, em todo o Israel não havia homem tão belo quanto Absalão, nem tão formoso: da planta dos pés até o alto da cabeça não havia nele mancha alguma. E, quando cortava os cabelos — tanto mais eles cresciam —, cortava-os uma vez por ano, porque a cabeleira lhe pesava; e o cabelo de sua cabeça pesava duzentos siclos, segundo o peso oficial” (2Rs 14,25-26). A beleza de Absalão, que começa na planta dos pés e sobe até o alto da cabeça, significa aquela beleza que provém das coisas terrenas, na qual se julga não haver mancha alguma enquanto sua prosperidade não é impedida por nenhuma adversidade. A beleza, porém, que desce do alto da cabeça designa a beleza que provém do conhecimento das coisas celestes, como se encontra no evangelho, onde o Senhor diz: “Por que sobem estes pensamentos aos vossos corações?” (cf. Lc 24,38). Com efeito, os pensamentos que sobem ao coração provêm das coisas terrenas; os que descem, porém, provêm das coisas celestes.

Segue-se: “Cortava os cabelos uma vez por ano.” O corte dos cabelos supérfluos é o abandono dos pecados na confissão, que muitos fazem uma vez por ano, quando seria necessário confessar-se todos os dias. Sendo a natureza do homem frágil e inclinada ao pecado, contraindo diariamente tantas manchas de pecados e tendo a memória tão fraca que mal se lembra, à tarde, do que fez pela manhã do mesmo dia, por que, infeliz, adia isso por um ano? Antes, por que o adia para o dia seguinte, se não sabe o que o dia de amanhã há de trazer? Hoje existes, e amanhã talvez não existirás. Vive, portanto, hoje como se hoje fosses morrer. Nada há, com efeito, mais certo que a morte, nem mais incerto que a hora da morte. Tu, pois, que todos os dias bebes o veneno do pecado, todos os dias deves também tomar a teriaga da confissão. Diz o Filósofo: Não vive aquele que nada tem em mente senão viver.

Segue-se: “Pesava os cabelos de sua cabeça em duzentos siclos, segundo o peso oficial.” Contudo, deveria pesá-los em trezentos: o pecador deve pesar seus pecados em trezentos siclos, isto é, considerá-los dignos de tríplice pena, a saber, com perfeita contrição, perfeita confissão e perfeita satisfação; mas pesa-os em duzentos, porque são muitos os que, bem contritos, confessam-se bem, mas falham no terceiro siclo da satisfação. E não pesam seus pecados com o peso do santuário, isto é, não os julgam graves na medida em que Deus e os santos os julgam graves, mas com o peso comum, isto é, segundo a opinião do povo, consideram-nos de pouca importância. E que isso não basta, diz João Batista: “Raça de víboras”, isto é, filhos venenosos de venenosos, “quem vos mostrou como fugir da ira que há de vir?” (Lc 3,7). Como se dissesse: Não aprendestes bem a fugir, porque não se foge da ira desprezando a satisfação. Por isso acrescenta-se: “Produzi frutos dignos de penitência” (Lc 3,8). Observa que diz “frutos”. Há três coisas: o broto, a flor e o fruto. No broto está a contrição; na flor, a confissão; no fruto, a satisfação; e quem não a possui carece da perfeição da penitência.

11. Sobre a medida da glória diz-se neste evangelho: “Uma medida boa” etc. Por estas quatro coisas entendem-se as quatro qualidades do corpo, que são agilidade, sutileza, claridade e impassibilidade; pois, como se diz, os corpos serão mais luminosos que o sol, mais ágeis que o vento, mais sutis que as faíscas e incapazes de sofrer qualquer dano. Por isso se diz: O Senhor assumiu a claridade no monte Tabor (cf. Mt 17,2); a agilidade, “caminhando sobre o mar” (Mt 14,25); a sutileza, quando, “passando pelo meio deles, ia embora” (Lc 4,30); a impassibilidade, quando era tomado pelos discípulos sob a espécie do pão (cf. Lc 22,19), sem, contudo, sofrer mal algum. Do mesmo modo: “Os justos resplandecerão”, eis a claridade; “e como faíscas”, eis a sutileza; “correrão pelo canavial”, eis a agilidade; e seus nomes viverão eternamente, eis a impassibilidade, porque não podem morrer nem perecer (Sb 3,7; cf. Eclo 44,14).

Ou então: “uma medida boa”, isto é, alegria sem dor; “compactada”, plenitude sem vazio; “sacudida”, isto é, firmeza sem dissolução, pois aquilo que é sacudido torna-se sólido; “transbordante”, isto é, amor sem fingimento (cf. Rm 12,9); cada um, com efeito, alegrar-se-á com o prêmio do outro, e assim o amor transbordará para o outro. Esta medida será dada pelos pobres, isto é, eles serão a causa de Deus a conceder, porque foram ocasião de merecê-la.

“Em vosso seio”, a respeito do qual diz Jó: “Esta esperança minha está depositada em meu seio” (Jó 19,27). O seio é uma espécie de receptáculo, um porto, e significa o repouso da vida eterna, para o qual os santos, libertados da tempestade deste mundo, serão acolhidos, por assim dizer, no descanso do porto. Ou ainda: assim como o filhinho que chora retorna ao seio da mãe, que, acariciando-o, enxuga suas lágrimas, assim os santos retornarão do pranto deste mundo ao seio da glória, no qual Deus enxugará toda lágrima de toda face (cf. Ap 7,17).

“Pois com a mesma medida” etc. A esse respeito diz Agostinho: O bom mede suas boas obras segundo a própria vontade; por ela lhe será medida novamente a bem-aventurança. O mau mede suas más obras segundo a própria vontade; por ela lhe será medida novamente a miséria. Portanto, com a mesma medida, embora não sejam eternos os males, medem-se novamente os castigos eternos; e, porque quis ter eterno deleite no pecado, encontrará também eterna a severidade da vingança.

12. À segunda cláusula concorda a segunda parte da epístola: “A expectativa da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus. A criatura, porém, foi submetida à vaidade, não por vontade própria, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança. Porque também a própria criatura será libertada da escravidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,19-21). Observa que nesta segunda parte se repete três vezes a palavra “criatura”, e isso corresponde às três medidas acima mencionadas: da fé, da penitência e da glória. Neste lugar, criatura significa a Igreja dos fiéis. Diz, portanto: “A expectativa da criatura”, isto é, de toda a Igreja, “aguarda a revelação dos filhos de Deus”. Isto é: aqueles que, pela fé, são filhos de Deus na Igreja aguardam a glória, na qual, quando ela se revelar, contemplarão Deus face a face; agora, porém, contemplam-no como que sob um véu, porque o contemplam num espelho e de maneira enigmática (cf. 1Cor 13,12). “À vaidade”, isto é, à mutabilidade, “esta criatura está sujeita”; pois o justo, como diz Salomão, cai sete vezes ao dia (cf. Pr 24,16); “não”, contudo, “por vontade própria”, porque o pecado não está na vontade daquele a quem foi dito: “Vai e não peques mais” (Jo 8,11); ele suporta esta mutabilidade com paciência, por amor de Deus, que o sujeitou a ela, isto é, que quis ou permitiu que lhe fosse sujeito, e isso na esperança da vida eterna. A respeito disso acrescenta-se: “E ela mesma será libertada da escravidão” desta “corrupção” e mutabilidade, “para a liberdade da glória dos filhos de Deus”, sendo transformada; nela receberá a “medida boa” na plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4,13); “compactada”, na plena realização das almas; “sacudida”, na concessão da veste dupla; e “transbordante”, na felicidade de todos, que durará eternamente.

Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus Cristo, que, na medida da fé, nos distribuas os carismas do Espírito Santo; que nos preenchas com a medida da penitência, para que depois nos sacies com a medida da glória, na visão do teu rosto. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

III. A queda dos cegos na fossa

13. Segue-se o terceiro. “Dizia-lhes também uma parábola: Pode acaso um cego guiar outro cego? Não cairão ambos numa fossa? O discípulo não está acima do mestre; mas todo aquele que for perfeito será como o seu mestre” (Lc 6,39-40). Vejamos o que significam alegoricamente os cegos, a fossa, o discípulo e o mestre. Cego é o prelado ou sacerdote perverso, privado da luz da vida e da ciência. Por isso, acerca dos prelados cegos da Igreja, diz Isaías: “Todas as feras do campo, vinde para devorar, e todas as feras da floresta. Todos os seus vigias são cegos, todos ignoram; cães mudos, incapazes de ladrar, vendo coisas vãs, dormindo e amando sonhos; e os cães mais impudentes não conhecem a saciedade; os próprios pastores não têm entendimento: todos se desviaram para o seu caminho, cada um para a sua avareza, do maior ao menor. Vinde, tomemos vinho e embriaguemo-nos; e será como hoje, assim também amanhã, e muito mais” (Is 56,9-12).

Nas feras do campo são designados os demônios; nas feras da floresta, os movimentos da carne, que devoram a Igreja e a alma fiel. Mas por que isso acontece? Porque todos os vigias da Igreja são cegos, privados da luz da vida e da ciência; cães mudos, tendo na boca o sapo do diabo, e por isso incapazes de ladrar contra o lobo. Veem coisas vãs, porque pregam por dinheiro, tratando da contrição das almas e dizendo, com ignomínia: “Paz, paz, e não há paz” (Jr 6,14; Ez 13,10). Dormem nos pecados, amam os sonhos, isto é, as coisas temporais, que enganam os seus amantes. São cães muito impudentes, porque têm a fronte feita como a de uma prostituta e, por isso, não querem envergonhar-se (cf. Jr 3,3). Não conhecem a saciedade, dizendo sempre: “Traz, traz”, e nunca: “Basta” (cf. Pr 30,15). Os próprios pastores, alimentando a si mesmos (cf. Jd 12), não têm o entendimento de que fala o Profeta: “Terei entendimento no caminho imaculado” (Sl 100,2).

Todos se desviaram para o seu caminho, não para o de Jesus Cristo, cada um para a sua avareza. Este é o caminho tenebroso e escorregadio deles (cf. Sl 34,6), do maior ao menor, do senhor porco até o porquinho. Eles se convidam uns aos outros: “Vinde, tomemos vinho, no qual há luxúria” (Ef 5,18), “e enchamo-nos de embriaguez”, que tira o coração (cf. Os 4,11); “e será como hoje”. Mas, acreditai em mim, não será como “amanhã”. Por isso, no livro dos Macabeus, lê-se: “A glória do pecador é esterco e verme. Hoje é exaltado e amanhã não será encontrado, porque voltou à terra e o seu pensamento pereceu” (1Mc 2,62-63). “Amanhã”, diz Jacó no Gênesis, “a minha justiça responderá por mim” (Gn 30,33). Hoje, ó cães muito impudentes, abunda em vós a embriaguez, mas amanhã, isto é, no dia do juízo, responderá a eternidade da morte. Por isso, no Apocalipse: “Quanto ela se exaltou e viveu em delícias, dai-lhe outros tantos tormentos” (Ap 18,7).

14. Além disso, estes cegos, dando testemunho da sua malícia, dizem no mesmo Profeta: “Apalpamos a parede como cegos e, como se não tivéssemos olhos, tateamos; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, em lugares tenebrosos como mortos; todos nós rugimos como ursos” (Is 59,10-11). Observa estas quatro palavras: parede, sem olhos, ao meio-dia, como ursos. Na parede é designada a abundância das coisas temporais; nos olhos, a vida e a ciência; no meio-dia, a excelência da dignidade eclesiástica; nos ursos, a gula e a luxúria. Estes cegos, portanto, apalpam a parede, isto é, as riquezas, como se fosse algo macio, quando na verdade são espinhos pungentes; e, estando sem os olhos da vida e da ciência, agarram-se a elas, constituem-nas guias do seu caminho, privados da condução da razão. Ao meio-dia, isto é, na luz da excelência eclesiástica, tropeçam como nas trevas, porque são cegados justamente por aquilo de onde deveriam ser iluminados. E, como ursos, porque gulosos e luxuriosos, rugem pelo mel, isto é, pela doçura das coisas temporais.

O urso é assim chamado porque, com a própria boca, forma o feto, como se o tivesse iniciado. Com efeito, dizem que as ursas geram seres informes no trigésimo dia da gestação. Daí sucede que uma fecundidade precipitada cria partos disformes. Elas dão à luz pequenas massas de carne, de cor branca, sem olhos; e, enquanto se apressam em amadurecer, tudo se transforma em podridão, exceto os contornos das unhas. Lambendo-as, pouco a pouco lhes dão forma e, às vezes, aquecem-nas junto ao peito, para que, aquecidas pelo contínuo aconchego, adquiram o sopro vital. Enquanto isso, nenhum alimento. De fato, nos primeiros catorze dias, as mães caem num sono tão profundo que não podem ser despertadas nem mesmo por ferimentos. Depois de parirem, permanecem escondidas durante quatro meses. Em seguida, ao saírem para a luz do dia, sofrem tamanha violência da luz que se julgaria estarem cobertas de cegueira. Os ursos têm a cabeça fraca, mas a maior força nos braços e nos lombos; espreitam as colmeias das abelhas, desejam sobretudo os favos e nada buscam com mais avidez do que o mel. Quando provam os frutos da mandrágora, morrem; contudo, vagueiam por toda parte para que o mal não se fortaleça até a morte, e devoram formigas para recuperar a saúde.

As ursas do nosso tempo, isto é, os prelados efeminados, dão à luz carnes mortas, isto é, filhos carnais, de cor branca, como sepulcros cheios de toda imundície (cf. Mt 23,27), mas sem olhos com que contemplem a Deus e o próximo. Neles não há forma alguma de virtude, nem aparência de bons costumes, mas apenas podridão de pecados, exceto os contornos das unhas, com as quais arrebatam os bens dos pobres. Lambendo essas carnes, isto é, adulando-as, as ursas pouco a pouco lhes dão forma, precisamente aquela forma da qual se diz: “Passa a figura deste mundo” (1Cor 7,31); e, aquecendo-as com o contínuo calor do mau exemplo, fazem-nas adquirir o sopro animal, do qual diz o Apóstolo: “O homem animal não compreende as coisas de Deus” (cf. 1Cor 2,14); e assim, animais com animais, cegos com cegos, “caem na fossa” (Mt 15,14).

Além disso, deve-se observar que, assim como os ursos têm a cabeça fraca, também a mente dos prelados da Igreja é débil, incapaz de resistir às tentações do diabo; mas têm nos braços e nos lombos a máxima força da rapina e da luxúria. Espreitam as colmeias das abelhas, isto é, as casas dos pobres; desejam sobretudo os favos do louvor e da vanglória, isto é, as saudações nas praças, os primeiros lugares nos banquetes, as primeiras cadeiras nas sinagogas (cf. Mt 23,6-7), eles que ficarão privados até dos segundos lugares. Estes, quando provam os frutos da mandrágora, morrem.

15. A mandrágora é uma erva aromática; seus frutos têm excelente perfume, semelhante ao das maçãs matianas. Os frutos da mandrágora significam as obras dos justos; ao perfume de sua vida morrem, rugindo, os ursos, para os quais, como diz o Apóstolo, eles são odor de morte para a morte (cf. 2Cor 2,16). Delas diz a esposa no Cântico dos Cânticos: “As mandrágoras deram perfume às minhas portas” (Ct 7,13). Às portas da Igreja, os santos difundem o perfume da boa vida. Deles também se diz no Gênesis: “Rúben, tendo saído ao campo no tempo da colheita do trigo, encontrou mandrágoras” (Gn 30,14). Rúben, que se interpreta como filho da visão, significa Jesus Cristo, Filho de Deus Pai, “a quem os anjos desejam contemplar” (1Pd 1,12).

Ele, saindo do seio do Pai, veio ao campo deste mundo no tempo da colheita do trigo, isto é, na plenitude dos tempos, quando o trigo, pelo trabalho de José, devia ser guardado no celeiro da bem-aventurada Virgem, para que todo o Egito não perecesse de fome; e encontrou mandrágoras, isto é, os apóstolos e os seguidores dos apóstolos, ao perfume dos quais morrem os ursos que rugem. Com efeito, dizem, como está escrito no livro da Sabedoria: “Eles são contrários às nossas obras, censuram-nos as transgressões da lei e nos reprovam as faltas contra a disciplina. Tornaram-se uma condenação dos nossos pensamentos; são pesados até para nós vê-los, porque a vida deles é diferente da dos outros, e seus caminhos são inteiramente diversos. Somos considerados por eles como ninharia, e eles evitam os nossos caminhos como imundícies. Assim pensaram esses infelizes, mas se enganaram” (cf. Sb 2,12.14-16.21). Por isso, voltaram-se para as formigas, isto é, para as vaidades e astúcias do mundo, cujo falso prazer acreditam ser o seu remédio. Mas virá o mirmicoleão, isto é, o leão das formigas, ou seja, o diabo, que devorará tanto os ursos cegos como as formigas.

Sobre esses cegos temos uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que Davi se propôs dar um prêmio àquele “que ferisse o jebuseu, tocasse os canais dos telhados e expulsasse os coxos e os cegos, que odiavam a vida de Davi. Por isso se diz no provérbio: O cego e o coxo não entrarão no templo” (2Rs 5,8). Observa estas três palavras: ferisse, tocasse, expulsasse. O verdadeiro Davi, Jesus Cristo, dará o prêmio da vida eterna àquele que tiver ferido o jebuseu, habitante da terra, isto é, o apetite da própria carne; que tiver tocado os canais dos telhados, que são os condutos dos edifícios, isto é, tiver imitado os exemplos dos santos; e que tiver expulsado os coxos e os cegos, isto é, os prelados e sacerdotes que são coxos de ambos os pés, ou seja, no afeto e nas obras, e cegos de ambos os olhos, isto é, na vida e na ciência; eles odeiam a alma de Jesus Cristo quando expõem ao diabo, para que a compre, a própria alma, pela qual ele entregou a sua vida (cf. 1Jo 3,16). Tais cegos e coxos não deveriam entrar no templo, templo cuja guarda hoje lhes é confiada; por causa de sua guarda cega, muitos ficam cegos e, juntamente com eles, são arrastados para a fossa da condenação. Diz-se, portanto, com razão: “Se um cego guia outro cego, ambos caem na fossa” (cf. Lc 6,39).

16. Segue-se: “O discípulo não está acima do mestre”. Aí diz a Glosa: Se o mestre, que é Deus, não se vinga das injúrias que recebe, mas, suportando-as, quis tornar mais brandos os perseguidores, também os discípulos, que são homens, devem imitar esta regra de perfeição. Sobre isso tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que “o rei Davi atravessava a torrente do Cedron, e todo o povo caminhava pelo caminho das oliveiras, que olha para o deserto. Davi, porém, subia a encosta das Oliveiras, subindo e chorando, com a cabeça coberta e caminhando com os pés descalços; e também todo o povo que estava com ele subia com a cabeça coberta e chorando” (2Rs 15,23.30).

Alegoricamente. Davi significa Cristo. Cedron interpreta-se como triste aflição. Portanto, a torrente do Cedron, que Davi atravessou, é a tristeza da Paixão, atravessada por Cristo. Por isso, lê-se em João: “Jesus saiu com os seus discípulos para além da torrente do Cedron” (Jo 18,1). E depois dele o povo, rumo às oliveiras, pois o povo segue Cristo, que o precede na Paixão, e os discípulos seguem o mestre, para receber a sua misericórdia. O rei caminhava com a cabeça coberta, porque Cristo subiu ao monte das Oliveiras ocultando a divindade sob a humanidade; e com os pés descalços, porque então manifestou a sua humanidade. Também o povo caminhava com a cabeça coberta, mas não lemos que andasse com os pés descalços. Com efeito, não devemos desnudar o segredo da mente pela arrogância da voz, e os pés não devem estar descalços, mas protegidos pelos exemplos dos santos. Por isso, Jeremias diz: “Preserva o teu pé da nudez e a tua garganta da sede” (Jr 2,25). Da nudez, isto é, da falta de virtudes, devemos preservar o pé, ou seja, o afeto; e da sede da avareza, a garganta. Somente o fel e o vinagre da Paixão do Senhor extinguem essa sede. O que primeiro bebeu o médico e provou o mestre, não o aborreça o discípulo, ao qual basta ser como o seu mestre (cf. Mt 10,25).

17. A esta terceira parte do Evangelho corresponde a terceira parte da Epístola: “Sabemos que toda a criação geme e sofre as dores do parto até o presente” (Rm 8,22). Observa estas duas palavras: geme e sofre as dores do parto. O mestre gemeu ao realizar milagres. Por isso, em Marcos: “Erguendo os olhos ao céu, gemeu e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te!” (Mc 7,34). Sofreu as dores do parto na angústia da Paixão. Por isso diz em Isaías: “Eu, que faço os outros dar à luz, não darei também eu à luz?” (cf. Is 66,9). Assim, os discípulos do mestre, que são sua criação, devem gemer na contrição e dar à luz na confissão. Com efeito, basta ao discípulo ser como o seu mestre.

Rogamos-te, portanto, ó mestre e Senhor, bom Jesus, que ilumines os cegos, ensines os teus discípulos e lhes mostres o caminho da vida, pelo qual possam chegar a ti, que és o caminho e a vida. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

IV. O cisco do pecado no olho do irmão

18. Segue-se a quarta parte: “Por que vês o cisco no olho do teu irmão, mas não consideras a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, enquanto tu não vês a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Lc 6,41-42). Observa estas três coisas: o cisco, o olho e a trave. No cisco é designada uma culpa leve; no olho, a razão ou o entendimento; na trave, uma culpa grave. Aí diz a Glosa: Na verdade, quem peca não pode repreender outro pecador.

Sobre isso tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que o Senhor proibiu Davi de construir um templo (cf. 2Rs 7,12-13). Diz Gregório: Deve ser isento de vícios em si mesmo aquele que se ocupa de corrigir os vícios alheios, de modo que não pense nas coisas terrenas nem se submeta a desejos vis; assim, verá com maior perspicácia aquilo que os outros devem evitar, quanto mais verdadeiramente ele próprio o evitar pela ciência e pela vida. O olho não considera claramente uma mancha num membro quando o pó o oprime; e as mãos que seguram lama não podem limpar as sujeiras que lhes são lançadas. Se queres repreender alguém, vê primeiro se és semelhante a ele. E, se fores, geme juntamente com ele e não exijas que ele te obedeça, mas ordena-lhe e admoesta-o a esforçar-se juntamente contigo. Se, porém, não és semelhante a ele, lembra-te de que outrora foste assim ou poderias ter sido; sê, portanto, indulgente e repreende-o não por ódio, mas por misericórdia. As repreensões e correções, portanto, devem ser aplicadas raramente e não sem grande necessidade, e somente por consideração a Deus, depois de removida a trave do olho. Diz-se, pois, com razão: “Por que vês o cisco no olho do teu irmão?”, etc.

19. E observa que os “olhos” assim são chamados ou porque as coberturas dos cílios os ocultam (lat. occulunt), para que não sejam feridos pela ofensa de alguma injúria que neles incida; ou porque têm uma luz oculta (lat. occultum), isto é, secreta ou intermediária. Entre todos os sentidos, eles são os mais próximos da alma. Com efeito, nos olhos está todo o juízo da mente. Por isso, neles se manifesta a perturbação ou a alegria da alma. Os olhos estão encerrados no rosto, em cavidades côncavas, de cujo orifício a fronte recebeu o nome. Esses mesmos olhos, semelhantes a pedras preciosas, são cobertos por membranas transparentes, através das quais, como por meio de um vidro, a mente, resplandecente, vê através aquilo que está fora. No centro das órbitas encontram-se aquelas que chamamos pupilas, pelas quais se conserva a faculdade de ver.

E devemos saber que talvez haja um olho grande, talvez pequeno e talvez mediano. O mediano significa boa disposição para a discrição, a inteligência e a boa doutrina. E talvez haja olhos salientes, talvez profundos e talvez medianos. Se forem profundos, significa agudeza; e, se forem salientes, significa perturbação do discernimento e disposição para a malícia; e, quando forem medianos, são louváveis, pois significam bondade. Talvez haja olhos de muitas aberturas, talvez de muitas clausuras e pouco movimento, e talvez intermediários entre essas condições.

Se, portanto, tiverem muitas aberturas e poucas clausuras, significam estultícia e falta de pudor. E, quando tiverem muitas clausuras, significa que a pessoa é muito volúvel, de pouco discernimento, não constante em suas ações. Quando forem medianos entre as duas condições, significa boa disposição e discernimento em toda obra.

20. Segue-se: “Hipócrita, tira primeiro a trave” etc. Com efeito, não é antes capaz de curar os outros o médico que ainda não se curou a si mesmo. O hipócrita tem o olho perversamente aberto para ver os delitos alheios, mas não vê a sua própria presunção. Daí o poeta: Se, remeloso, examinas teus males com olhos untados, por que vês tão agudamente os vícios de teus amigos? Oxalá o olho que tudo vê pudesse ver a si mesmo!

A esta quarta cláusula corresponde a quarta parte da epístola: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adoção dos filhos de Deus” (Rm 8,23). As primícias do Espírito são a contrição e a amargura pelos pecados, que devem ser oferecidas primeiro ao Senhor. Tendo-as, os santos não consideram a trave no olho alheio, não julgam ninguém, não condenam ninguém, mas gemem dentro de si mesmos, na amargura de sua alma, esperando a adoção, isto é, a imortalidade do corpo.

Faça-nos participar dessa imortalidade aquele que morreu por nós, ou melhor, que ressuscitou, Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a honra e a glória, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos eternos.

Diga toda alma misericordiosa: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.