Evangelho do quarto domingo depois da Páscoa: “Vou para aquele que me enviou”, que se divide em três partes.
Primeiro, sermão ao prelado da Igreja, sobre como deve trabalhar no campo dos fiéis, onde se diz: “O agricultor espera”.
[Da primeira parte.] Igualmente, sermão para a Anunciação, ou para a Natividade, ou para a Paixão do Senhor, onde se diz: “Porei um anel em tuas narinas”, e também: “Acaso ele porá um anel?”
Igualmente, sermão sobre a Paixão do Senhor, onde se diz: “O fole se extinguiu no fogo”.
Igualmente, sobre a natureza da rola e o que ela significa, e sobre a dupla herança de Jesus Cristo.
Da segunda parte. Sermão contra os mundanos, onde se diz: “Quando vier o Paráclito”.
Igualmente, sobre os ovos do vento e a diversidade de sua forma, e sobre a natureza das perdizes, e o que tudo isso significa.
Igualmente, sermão contra os fornicadores e os ébrios, sobre como perdem o coração e a fé, onde se diz: “A fornicação, o vinho e a embriaguez tiram o coração”.
Igualmente, sermão sobre a justiça dos santos, onde se diz: “E sobre a justiça”.
Igualmente, sermão sobre o juízo, no qual se requerem seis pessoas, onde se diz: “E sobre o juízo”.
Igualmente, sermão contra os gulosos e luxuriosos, onde se diz: “Se me ouvires, não haverá”.
Igualmente, sobre a disposição do ouvido e da língua, e o que significam, onde se diz: “Todo homem seja pronto para ouvir”.
Igualmente, sermão contra os iracundos, onde se diz: “E lento para a ira”.
Da terceira parte. Sermão sobre a vinda do Espírito Santo, onde se diz: “O anjo do Senhor desceu à piscina”.
Igualmente, sobre as propriedades da palmeira.
Igualmente, contra aqueles que têm a graça informe, onde se diz: “Todo animal que tenha...”, e sobre o rebento enxertado na árvore.
1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?” (Jo 16,5).
Diz Tiago na Epístola canônica: “O agricultor espera o precioso fruto da terra, suportando com paciência até que receba o fruto temporão e o tardio” (Tg 5,7). O agricultor, aquele que cultiva o campo, é o pregador, que, no suor de seu rosto, com a enxada da palavra, cultiva o campo, isto é, as almas dos fiéis. O campo é chamado ager, porque nele algo se faz (agere), nele se trabalha. Todo campo ou é semeado, ou é plantado e cultivado com árvores, ou é destinado a pastagens, ou é adornado com flores diversas. Na alma é preciso sempre fazer alguma coisa, para que não aconteça aquilo que diz Salomão nos Provérbios: “Passei pelo campo do homem preguiçoso, e eis que todo ele estava coberto de espinhos” (cf. Pr 24,30-31). Com efeito, onde há o torpor da preguiça, logo crescem os espinhos pungentes dos maus pensamentos. E por isso a alma deve ser semeada com a semente da pregação, plantada com as árvores das virtudes, destinada às pastagens, isto é, aos desejos da vida eterna, e adornada com flores diversas, ou seja, com os exemplos dos santos. E, se este campo tiver sido cultivado dessa maneira, o Senhor dirá dele: “Eis o odor de meu filho, como o odor de um campo fértil, que o Senhor abençoou” (Gn 27,7).
“O agricultor, portanto, espera o precioso fruto da terra.” Pelo fato de o pregador cultivar o campo do Senhor, ele espera o fruto da terra, isto é, da vida eterna. Por isso, o Senhor promete ao pregador em Jeremias: “Se converteres alguém, eu te converterei; e, se separares o precioso do vil, serás como a minha boca” (Jr 15,19). “Se converteres”, isto é, se fizeres converter — como diz Tiago — “o pecador do erro de seu caminho” (Tg 5,20), eu te converterei, infundindo-te a graça; “e, se separares o precioso”, isto é, a alma que resgatei com meu precioso sangue, “do vil”, isto é, do pecado, do qual nada é mais vil, “serás como a minha boca”, porque, na regeneração, julgarei os ímpios por meio de ti. Mas, enquanto isso, é preciso agir com paciência. Por isso acrescenta: “Suportando com paciência até que receba o fruto temporão e o tardio”. Chama-se temporão aquilo que amadurece antes; tardio, quando a maturação está completa. Portanto, o pregador, se suportar com paciência e alegria, quando cair em várias tentações, receberá o fruto temporão da graça no presente e o tardio da glória no futuro. A respeito disso, diz o Senhor no Evangelho de hoje: “Vou para aquele que me enviou”.
2. Observa que neste Evangelho se destacam três coisas. Primeiro, o retorno de Jesus Cristo ao Pai, quando se diz: “Vou para aquele que me enviou”. Segundo, a acusação do mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo, quando se acrescenta: “Quando vier o Espírito, ele convencerá o mundo” etc. Terceiro, a inspiração do Espírito da verdade, quando se diz: “Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não podeis suportá-las agora. Quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos ensinará toda a verdade”. Neste domingo e no seguinte leem-se as Epístolas canônicas. O Intróito da missa deste domingo é: “Cantai ao Senhor um cântico novo”. E na Epístola do bem-aventurado Tiago se diz: “Todo dom excelente” (Tg 1,17), que queremos dividir em três partes e fazer concordar com as três cláusulas acima mencionadas do Evangelho. A primeira é: “Todo dom excelente”. A segunda: “Sabei, meus irmãos diletíssimos”. A terceira: “Por isso, rejeitando toda impureza” etc.
3. Digamos, portanto: “Vou àquele que me enviou”. Pouco antes, o Senhor havia dito: “Vós sabeis para onde vou e conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais” (Jo 14,4-5). Pouco depois, o Senhor acrescentou: “Vou àquele que me enviou. Saí do Pai e vim ao mundo; novamente deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). Este é o círculo de que fala o Pai, ameaçando o diabo: “Porei um círculo em tuas narinas, um freio em teus lábios e te reconduzirei pelo caminho por onde vieste” (Is 37,29). Círculo é assim chamado porque corre em movimento circular; ele significa Jesus Cristo, que, como o círculo, voltou para onde havia saído. Com efeito, saiu do Pai, percorreu seu caminho até os infernos e retornou ao trono de Deus. O círculo, portanto, foi posto nas narinas do diabo, porque a Sabedoria de Deus se encarnou para nos ensinar a verdadeira sabedoria e, assim, por meio da sabedoria ensinada por ele, destruir as ciladas do diabo, designadas pelas narinas. As narinas, assim chamadas porque por elas passa o ar ou o espírito, significam a astúcia das ciladas. Pois o diabo, por conjeturas exteriores, pelo comportamento dos homens e, por assim dizer, pelo olfato das narinas, percebe e fareja a quais vícios cada um é mais inclinado, e aí estende seus laços. Mas aquele que foi instruído pela sabedoria de Deus, se quiser, evitará esses laços.
“E porei um freio em teus lábios.” O freio é a cruz de Jesus Cristo, pela qual o diabo, refreado como um cavalo, não pode devorar-nos como costumava. Por isso, encontras concordância em Jó: “Acaso porás um círculo nas narinas do Beemot e perfurarás sua queixada com uma armila?” (Jó 40,21). A armila, assim chamada pela força das armas, é a cruz de Jesus Cristo, da qual diz Isaías: “O principado foi posto sobre seus ombros” (Is 9,6). Com essa armila, o Filho de Deus perfurou a queixada do diabo e libertou o gênero humano de sua garganta. Por isso, acrescenta-se: “E te reconduzirei pelo caminho por onde vieste”. Foi pelo mesmo caminho pelo qual usurpara o domínio do mundo que perdeu seu poder; com efeito, enganou o homem e a mulher por meio da árvore proibida e da serpente. Por meio do homem, isto é, Jesus Cristo, e da mulher, isto é, da bem-aventurada Virgem; por meio da árvore da cruz e da serpente, isto é, da morte da carne de Cristo, que era significada pela serpente que Moisés elevou num madeiro no deserto (cf. Nm 21,8-9; Jo 3,14), o diabo perdeu o domínio sobre o gênero humano. Concluída, portanto, a obra de nossa salvação, Cristo diz: “Vou àquele que me enviou”.
Sobre isso, encontras concordância em Tobias, onde Rafael, depois de acorrentar o demônio, iluminou os olhos de Tobias e disse: “É tempo de eu voltar àquele que me enviou” (Tb 12,20). Rafael interpreta-se “medicina de Deus”. Ele é Jesus Cristo, porque fez para nós, da serpente de sua carne pregada no madeiro, uma triaga; e assim acorrentou o diabo e iluminou os olhos do gênero humano. Então disse: “É tempo de eu voltar àquele que me enviou”, ou: “Vou àquele que me enviou”.
4. O Pai nos enviou o Filho, dádiva excelente e dom perfeito, a respeito do qual tens a concordância na epístola de hoje do bem-aventurado Tiago: “Toda dádiva excelente e todo dom perfeito” (Tg 1,17) etc. “Excelente”, isto é, supremo; “perfeito” é aquilo a que nada se pode acrescentar. Cristo é a “dádiva excelente”, porque nos foi dado pelo Pai, sendo ele o seu Filho supremo e coeterno. Por isso se diz no segundo livro dos Reis: “A terceira guerra foi em Gob contra os filisteus, na qual Adeodato, filho de Salto, fabricante de tecidos multicoloridos, betlehemita, feriu Golias de Gat” (2Rs 21,19).
“Adeodato”, Davi — literalmente — [porque] foi dado por Deus ao povo de Israel. “Filho de Salto”, porque pastoreava as ovelhas de seu pai no bosque; por isso se diz: “De detrás das ovelhas prenhes o tomou” (Sl 77,70). “Fabricante de tecidos multicoloridos”, porque sua mãe era da linhagem de Beseleel, que foi, como se diz no Êxodo, fabricante de tecidos multicoloridos (cf. Ex 38,23), isto é, artífice de vestes: “polimita” é uma veste de muitas cores. “Betlehemita”, porque era originário de Belém.
Alegoricamente. “A terceira guerra foi em Gob” etc. Observa que o diabo travou três guerras contra o Senhor: no céu, quando, por soberba, quis usurpar a excelência da divindade; no paraíso, quando, para injúria do Criador, enganou os primeiros pais com as seduções de uma falsa promessa; no mundo, quando tentou no deserto o próprio Deus e homem e o fez ser pregado ao patíbulo da cruz. Por isso, acerca dessa terceira guerra, diz-se: “A terceira guerra foi em Gob”, que se interpreta como lago, e significa o mundo, no qual há um lago de miséria e lodo de impureza (cf. Sl 39,3). Chama-se lago, como que lugar de águas, porque a água fica parada e não corre. Neste mundo há o lugar da água, isto é, da soberba, da luxúria e da avareza, que nunca correm, mas, ao contrário, crescem diariamente. Neste lago, Davi, que se interpreta como misericordioso, é Jesus Cristo, cuja misericórdia não tem medida, e que, somente por misericórdia, nos foi dado por Deus Pai; ele é toda dádiva excelente. E matou Golias de Gat. Golias interpreta-se como “aquele que se transfigura”; de Gat, “aquele que teme”, e significa o diabo, que “se transfigura em anjo de luz” (2Cor 11,14), porque teme ser descoberto em sua própria forma. Nosso Davi o matou quando lhe tirou o domínio do mundo e o encerrou no cárcere do inferno.
Foi “filho de Salto”. Salto é assim chamado porque nele as árvores saltam para o alto. Salto foram os antigos pais, os patriarcas e os profetas que, inspirados pelo Espírito de Deus, como árvores que saltam para o alto, profetizaram a respeito da encarnação do Filho de Deus; de sua linhagem ele recebeu a carne, e por isso se diz “filho de Salto”.
É também chamado “fabricante de tecidos multicoloridos”. Toda veste multicolorida é feita com agulha. Observa que na agulha há duas partes: uma pontiaguda e outra perfurada; na pontiaguda é designada a divindade, e na perfurada, a humanidade. Sobre essa agulha ele mesmo diz no Evangelho: “Não pode um camelo passar pelo buraco de uma agulha” (cf. Mt 19,24; Lc 18,25). O camelo corcunda, isto é, o rico cheio de dinheiro, não pode entrar pelo buraco da agulha, isto é, pela pobreza de Jesus Cristo. Ou então, na parte perfurada é designada a mansidão da misericórdia que ele teve em sua primeira vinda; na pontiaguda, a perfuração da justiça com a qual traspassará no juízo. Com tal agulha, nosso “fabricante de tecidos multicoloridos” faz para a alma fiel uma túnica multicolorida, distinta pela variedade das cores das virtudes. Por isso se diz nos Provérbios: “Fez para si uma veste de várias cores; o linho e a púrpura são o seu vestuário” (Pr 31,22). Chama-se veste de várias cores aquela que é diversificada por múltiplas cores. O linho da castidade e a púrpura da Paixão do Senhor são o vestuário da alma fiel.
É também chamado “betlehemita”. Belém interpreta-se como casa do pão. Ele, com efeito, na casa da Igreja, nos alimenta com o pão de seu corpo. Diz ele: “O pão que eu vos darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,52).
De outro modo. Jesus Cristo nos foi “dado por Deus” na Natividade. Por isso Isaías diz: “Nasceu para nós um pequenino, foi-nos dado um filho” (Is 9,6). Foi “filho de Salto” na pregação e na Paixão. Na pregação, porque escolheu os apóstolos como árvores que saltam para o alto; por isso disse: “Eu vos escolhi para que vades e deis fruto” (Jo 15,16); na Paixão, porque foi coroado com os espinhos de nossos pecados. Foi “fabricante de tecidos multicoloridos” na Ressurreição; nela, com a agulha de seu poder e de sua sabedoria, reparou a túnica multicolorida, isto é, a carne gloriosa assumida da Virgem Maria, estendida por nós no lenho da cruz, lacerada pelos cravos, traspassada pela lança, e a restituiu à imortalidade. Será “betlehemita” para nós na bem-aventurança eterna, na qual seremos saciados quando o virmos face a face (cf. 1Cor 13,12). Diz-se, portanto, com razão: “Toda dádiva excelente”. O Pai das luzes, como esmoler generoso e piedoso, não nos deu, pobres que somos, algo bom ou melhor, mas o que há de excelente.
5. Segue-se: “E todo dom perfeito”. Daí diz o Apóstolo: “Com ele nos deu todas as coisas” (cf. Rm 8,32); e novamente: “Deu-o como cabeça da Igreja” (Ef 1,22). A Glosa diz: Não podia dar um dom maior. Cristo é justamente chamado todo dom perfeito, porque, quando o Pai no-lo deu, por meio dele levou todas as coisas à perfeição. Daí: “O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (Mt 18,11). E por isso hoje, no intróito da missa, a Igreja canta: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (Sl 97,1), como se dissesse: Ó fiéis, salvos e renovados por meio do Filho do Homem, cantai um cântico novo. Deveis lançar fora as coisas antigas, porque chegam as novas (cf. Lv 26,10). Cantai, repito, porque o Senhor Pai fez maravilhas, quando nos enviou todo dom excelente, isto é, seu Filho. “Diante das nações revelou a sua justiça” (Sl 97,2), quando nos deu todo dom perfeito, o próprio Unigênito, que justifica as nações e leva todas as coisas à perfeição.
Diz-se, portanto, com razão: “Todo dom perfeito”. Em seis dias fez todas as coisas. “Ele disse, e foram feitas” (Sl 148,5). No sexto período, “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). No sexto dia e à sexta hora sofreu por nós, e assim levou tudo à perfeição. Por isso disse na cruz: “Está consumado” (Jo 19,30). Quão grande é a distância entre dizer e fazer, igual foi a distância entre criar e recriar. Fácil e leve foi a criação, porque aconteceu somente por uma palavra, ou melhor, pela única vontade de Deus, cujo dizer é querer; mas a recriação foi muito difícil, porque aconteceu por meio da paixão e da morte. Adão foi facilmente criado e caiu com a maior facilidade. Ai de nós, miseráveis, que fomos recriados e redimidos por uma paixão tão dolorosa, por tão grandes sofrimentos e dores, e depois pecamos tão facilmente e gravemente, tornando vã tão grande fadiga do Senhor.
Por isso ele mesmo diz por Isaías: “Trabalhei em vão, sem proveito e inutilmente consumi a minha força” (Is 49,4). Na criação, o Senhor não trabalhou, porque “fez tudo quanto quis” (Sl 134,6); mas na recriação trabalhou tanto que “seu suor se tornou como gotas de sangue que corriam por terra” (Lc 22,44). Se teve tamanho sofrimento na oração, quanto — julgas — deve ter tido na crucifixão? O Senhor, portanto, trabalhou e, trabalhando, arrancou-nos das mãos do diabo. Nós, porém, pecando mortalmente, caímos nas mãos do diabo e, quanto depende de nós, tornamos vã a fadiga do Senhor.
Por isso diz: “Trabalhei em vão, sem proveito”, isto é, sem qualquer utilidade. Com efeito, não vejo nenhum fruto da minha Paixão, porque “não há quem faça o bem, não há sequer um” (Sl 13,1). “O homicídio, o adultério, o perjúrio, o furto, a maldição e a mentira transbordaram, e sangue tocou sangue” (Os 4,2). “Os sacerdotes”, diz Jeremias, “não disseram: Onde está o Senhor? E os que guardavam a Lei não me conheceram, e os pastores”, isto é, os prelados, “se rebelaram contra mim, e os profetas”, isto é, os que pregam, “profetizaram em Baal” (Jr 2,8), isto é, no lugar alto; com efeito, pregam para parecer superiores. Diz, portanto, muito bem o Senhor: “Trabalhei em vão, sem proveito, e inutilmente consumi a minha força”. A força da divindade foi como que consumida na fraqueza da humanidade. Não te parece que a força foi consumida quando ele, Deus e homem, foi amarrado à coluna como um malfeitor, açoitado com flagelos, esbofeteado, coberto de escarros, teve a barba arrancada, sua cabeça, diante da qual tremem os anjos, foi golpeada com uma vara e ele foi crucificado entre dois ladrões? Ai, portanto, dos miseráveis, mesquinhos e insensatos que nem mesmo essas coisas os fazem afastar-se das vaidades do mundo. Inutilmente consumiu a sua força, porque se tornaram vãos aqueles por quem a consumiu. Por isso, devemos temer muito que, assim como disse no princípio: “Arrependo-me de ter feito o homem” (cf. Gn 6,7), diga também agora: Arrependo-me de ter redimido o homem, porque consumi a minha força, mas a malícia deles não foi consumida.
6. Por isso Jeremias diz: “O fole desfaleceu junto ao fogo, o chumbo foi consumido; em vão o fundidor o fundiu, pois suas malícias não foram consumidas. Chamai-os, portanto, prata de escória, porque o Senhor os rejeitou” (Jr 6,29-30). Nesta autoridade há cinco coisas dignas de nota: o fundidor e o fole, o fogo, o chumbo e a prata. No fundidor é designada a divindade; no fole, a pregação; no fogo, a Paixão; no chumbo, a humanidade de Jesus Cristo; na prata, nossas almas.
Na fornalha de fogo, a prata é purificada e clarificada pelo chumbo. Para purificar a escória da prata, isto é, a malícia de nossas almas, uniram-se Deus, o homem e a sua pregação. Mas em vão fundiu o fundidor, e inutilmente consumiu a sua força. O fole desfaleceu e o chumbo foi consumido no fogo da Paixão; e assim trabalhou em vão, sem proveito, porque nossas malícias não foram consumidas. Por isso a prata de escória será lançada no monturo da Geena, porque as almas dos pecadores serão lançadas no lago de fogo ardente. Por isso Oseias diz: “A urtiga herdará a sua prata desejável, e o carrapicho crescerá em suas tendas” (Os 9,6). A urtiga, que queima (em latim, urtica, de urit), representa o fogo do inferno; o carrapicho, que se agarra, significa a persistência da pena com que serão atormentadas as almas dos ímpios, porque não quiseram receber o dom perfeito de Deus, do qual se diz: “Todo excelente dom e todo dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1,17), como um raio do sol. Assim como o raio do sol, descendo do sol, ilumina o mundo e, contudo, jamais se afasta do sol, assim o Filho de Deus, descendo do Pai, iluminou o mundo e, contudo, jamais se afastou do Pai, porque é um só com o Pai. Por isso ele mesmo disse em João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).
Diz João Damasceno: “O Verbo encarnou-se sem sair de sua própria incorporeidade; assim, ficou todo encarnado e todo incircunscrito. É diminuído e contraído corporalmente, e é incircunscrito quanto à divindade: sua carne não foi estendida, nem a divindade foi circunscrita. Portanto, estava em todas as coisas e acima de todas as coisas, e existia no ventre da santa Genitora”. Agostinho diz: “Quando se lê: ‘O Verbo se fez carne’, no Verbo reconheço o verdadeiro Filho de Deus; na carne, o verdadeiro filho do homem; e, em ambos juntos, uma só pessoa, Deus e homem, unidos pela inefável grandeza da graça”. Portanto, diz-se com razão: “Descendo do Pai das luzes, junto do qual não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1,17). Não há em Deus mudança, de modo que ora dê o bem, ora o mal, ou dê o bem com certa mistura de males. Em sua natureza não há mutabilidade alguma, mas identidade; e não somente na natureza, mas também na distribuição dos dons, porque ele comunica somente os dons da luz, e não as trevas dos erros. Sobre isso acrescenta-se: “Pois, por sua vontade, ele nos gerou”, primeiro filhos das trevas, pela água da regeneração, em filhos da luz, “pela palavra da verdade”, isto é, pela doutrina do Evangelho, para isto, a saber, “sermos como que o princípio de sua criatura”; porque agora começa a reformar-se a nossa condição, mas no futuro será plenamente reformada. Ou, segundo outra tradução: “para sermos como as primícias de suas criaturas” (Tg 1,18), isto é, para termos o primado entre as criaturas.
Ou ainda: ele nos gerou pela palavra da verdade para que comecemos a gemer pela contrição e a dar à luz pela confissão; porque “toda a criação”, segundo o Apóstolo, “geme e está em dores de parto até agora” (Rm 8,22), para que depois nos alegremos com o Filho de Deus, que diz: “Vou para aquele que me enviou”.
7. Cristo fez como a rola, que, no tempo do inverno, desce aos vales e habita, depenada, nos troncos ocos das árvores; no verão, porém, retorna às montanhas. Assim Cristo, no inverno da infidelidade e no frio da perseguição diabólica, desceu ao seio da humildíssima Virgem e habitou neste mundo, pobre e desprezado, como que depenado. A respeito desta rola diz Salomão no Cântico dos Cânticos: “A voz da rola foi ouvida em nossa terra” (Ct 2,12). A voz da rola é gemido e pranto. Cristo desceu para gemer e chorar; nunca se lê que tenha rido, a fim de nos ensinar a gemer e chorar. “Foi, pois, ouvida a voz da rola em nossa terra”, isto é: “Fazei penitência!” (Mt 3,2). Quando, porém, se aproximou o verão, começou a ferver a crueldade da perseguição judaica e inflamou-se o calor da Paixão, então retornou ao monte, isto é, ao Pai. Por isso diz: “Vou para aquele que me enviou; e ninguém dentre vós me pergunta: Para onde vais?”. Perguntemos a Cristo por qual caminho vai ao Pai. E ele responderá: pelo caminho da cruz! Por isso ele mesmo diz em Lucas: “Não era necessário que o Cristo padecesse e assim entrasse em sua glória?” (Lc 24,26)
Cristo teve uma dupla herança: uma da parte da Mãe, a saber, o trabalho e a dor; outra da parte do Pai, a saber, a alegria e o repouso. Portanto, como somos seus coerdeiros, também nós devemos buscar essa dupla herança. Por isso erramos quando queremos ter a segunda sem a primeira, porque o Senhor fundou a segunda sobre a primeira, precisamente para que não buscássemos uma sem a outra. Com efeito, enxertou a árvore da vida na árvore do conhecimento do bem e do mal, quando “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). Por isso: “E será como a árvore plantada junto às correntes das águas” (Sl 1,3). E Isaías: “Fundando a terra e plantando os céus” (Is 51,16). Na terra da humanidade, fundada sobre as sete colunas da graça sétupla, plantou os céus da divindade. Possuamos, pois, a primeira herança que Jesus Cristo nos deixou, para merecermos chegar à segunda.
8. Segue-se o segundo ponto: “Quando vier aquele Paráclito, ele convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo. Quanto ao pecado, porque não creram em mim; quanto à justiça, porque vou para o Pai e já não me vereis; quanto ao juízo, porque o príncipe deste mundo já foi julgado” (Jo 16,8-11). O mundo é assim chamado porque está sempre em movimento; pois não é concedido repouso algum aos seus elementos. O mundo é chamado em grego “cosmos”, enquanto o homem é chamado “microcosmos”, isto é, mundo menor. Com efeito, assim como o mundo foi criado composto de quatro elementos, assim os antigos disseram que o homem consta de quatro humores, misturados num único temperamento. O mundo significa os mundanos, que estão sempre em movimento. Por isso, deles diz São Judas, em sua carta católica: “Eles são nuvens sem água, levadas de um lado para outro pelos ventos, árvores outonais, sem fruto, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz; ondas bravias do mar, espumando suas próprias confusões; astros errantes, para os quais está reservada eternamente a tempestade das trevas” (Jd 1,12-13). Nesta passagem há quatro elementos dignos de nota: as nuvens, as árvores, as ondas e os astros. Nesses quatro elementos ele compreende os quatro vícios dos mundanos, a saber: a soberba, a avareza, a luxúria e a hipocrisia.
As nuvens leves e obscuras significam os soberbos, que, pela leviandade do ânimo e pela obscuridade da mente, são levados de um lado para outro por diversos pecados, privados da água da compunção e da luz da graça sétupla. Por isso, deles diz o Profeta: “Meu Deus, faze deles como uma roda e como a palha diante da face do vento” (Sl 82,14). Observa estas duas palavras: roda e palha. A roda é assim chamada porque quase corre [ou: rola]. A palha é assim chamada, quase queimada (stipula, quase usta). Deus põe os soberbos como uma roda, quando permite que rolem de pecado em pecado; e depois os porá como palha diante da face do vento, porque aqueles que, como palha, foram secos, sem a umidade da graça, serão consumidos pelo fogo da pena eterna.
As árvores outonais, sem fruto, são os avarentos, que ocupam inutilmente a terra (cf. Lc 13,7); o Senhor os amaldiçoa como à árvore na qual não encontrou fruto (cf. Mc 11,21). Observa estas quatro palavras: outonais, sem fruto, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz. O outono é chamado assim por causa da tempestade, na qual caem as folhas. Os avarentos são árvores outonais que, quando chegar a tempestade da morte, serão despojadas das folhas das riquezas com as quais caminhavam adornados e cobertos; e, porque foram infrutíferos, serão lançados no fogo eterno — pois “toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3,10) etc. —; duas vezes mortos, porque serão sepultados no inferno com a alma e com o corpo, arrancados da terra dos viventes.
As ondas bravias do mar são os luxuriosos. As ondas são assim chamadas porque flutuam, agitadas pelos sopros dos ventos. Com efeito, os luxuriosos, agitados pelas sugestões dos espíritos imundos, flutuam entre diversos pensamentos e espumam a luxúria, para confusão de sua alma. Fazem, pois, como uma panela posta sobre o fogo, que lança espuma. A panela é o coração do pecador, no qual há a água da concupiscência carnal; sob ela se põe o fogo da sugestão diabólica, e assim espuma a luxúria de sua confusão. Os astros errantes são os hipócritas e os falsos religiosos.
Os astros são assim chamados porque os navegantes os observam e por meio deles dirigem seu curso. Os bons prelados da Igreja e os verdadeiros religiosos são astros que brilham num lugar tenebroso (cf. 2Pd 1,19), os quais, por meio disso, conduzem pelo rumo certo ao porto da vida eterna aqueles que navegam neste mar. Mas os hipócritas e os falsos religiosos são astros errantes, sendo causa de naufrágio para os outros; e por isso serão assolados pela tempestade e pela tormenta da morte eterna.
9. Todos esses são como “ovos do vento”, que não fazem nascer pintinhos. Diz-se, com efeito, que a luxúria agita de tal modo as perdizes que, se o vento soprar dos machos, elas ficam grávidas pelo odor e põem ovos que não produzem pintinhos; e todos esses ovos são ovos do vento. A perdiz, ave enganadora e imunda, significa os pecadores acima mencionados, que têm, como diz Pedro, os olhos cheios de adultério e insaciáveis de pecado (cf. 2Pd 2,14); eles, pelo vento da sugestão diabólica, concebem ovos do vento, isto é, o amor da vaidade mundana, do qual diz Oseias: “Semearam vento e colherão tempestade; não há neles espiga erguida, nem produzirá farinha” (cf. Os 8,7). Quem semeia o vento do amor mundano, sem dúvida colherá a tempestade da morte eterna. A espiga, assim chamada de spiculum, ponta, é a contrição do coração, que fere o pecador e produz a farinha da confissão. Tal espiga não se mantém erguida nem produz farinha nos pecadores que não concebem pintinhos, isto é, obras da vida eterna, mas o vento da vaidade mundana.
E observa que os ovos diferem na forma, pois alguns são pontiagudos e outros largos; primeiro sai a parte larga e depois a pontiaguda. Os ovos longos, de cabeça pontiaguda, produzem machos; os redondos, que têm redonda a parte correspondente à ponta, produzem fêmeas. Por isso se pode reconhecer bem quais ovos produzem machos e quais produzem fêmeas. Do mesmo modo, o diabo, pelos sinais da agudeza e da redondeza, percebe entre os homens quais são machos e quais são fêmeas. Na agudeza estão figuradas a compunção e a contemplação das coisas celestes; na redondeza, o prazer da carne e o andar em torno das coisas mundanas. “Percorri”, diz ele, “a terra e a percorri toda” (Jó 1,7). “Ele ronda como um leão, procurando a quem devorar” (1Pd 5,8). Por isso diz em Isaías: “Minha mão encontrou, como num ninho, a força dos povos; e assim como se recolhem os ovos abandonados, assim reuni toda a terra; e não houve quem movesse uma pena, isto é, das virtudes, nem abrisse a boca, pela confissão, nem gemesse” (Is 10,14), pela compunção interior.
Isso não fazem os machos, isto é, os homens justos, compungidos na mente e aplicados à contemplação, mas as fêmeas, isto é, os mundanos, efeminados pelas coisas transitórias, dos quais se diz: “Quando vier o Paráclito, convencerá o mundo” etc. “Paráclese” em grego significa “consolação”; daí Paráclito, isto é, Consolador, cuja consolação os mundanos não querem receber, porque já têm a sua própria consolação. Por isso, deles diz o Senhor: “Ai de vós, que tendes a vossa consolação!” (Lc 6,24). E em Isaías: “Acaso não sois filhos perversos, descendência mentirosa, que vos consolais com os deuses, debaixo de toda árvore frondosa?” (Is 57,4-5). Os mundanos são filhos perversos por causa da soberba, descendência mentirosa por causa da luxúria; eles se consolam nos deuses da avareza, “que é servidão dos ídolos” (Cl 3,5; cf. Ef 5,5), debaixo de toda árvore frondosa, isto é, na glória das coisas temporais.
10. “Quando vier, portanto, o Paráclito, convencerá o mundo do pecado”, que ele tem, “da justiça”, que não tem, “e do juízo”, que não teme. Observa estas três coisas: o pecado, a justiça e o juízo. O pecador é chamado de pellex, isto é, meretriz, como que pellicator, sedutor; esse nome antigamente era dado aos infames, mas depois passou a designar todos os iníquos. Com efeito, o mundo está mais manchado pelo pecado da fornicação do que por qualquer outro vício. Por isso, Oseias diz: “Fornicaram e não cessaram, porque abandonaram o Senhor, não o guardando. A fornicação, o vinho e a embriaguez tiram o coração” (Os 4,10-11).
Observa que no coração há três coisas: a indignação, a sede da sabedoria e o amor. O coração é um membro nobre e indignado, e não tolera que entre nele algo imundo; a fornicação faz que ele perca essa indignação, quando consente em engolir semelhante bocada. Do mesmo modo, no coração está a sede da sabedoria: o vinho faz que ele a perca. Igualmente, amamos com o coração; perde esse amor aquele que, embriagado pela cobiça das coisas temporais, não socorre o próximo. Que o pecado da fornicação tire o coração é manifesto em Salomão, que adorou os ídolos (cf. 3Rs 11,4). Diz o Apóstolo: “Com o coração se crê para a justiça” (Rm 10,10), mas a fornicação tira o coração, no qual está a fé.
Portanto, por causa da fornicação perde-se a fé. Por isso se diz fornicação, isto é, morte da forma, ou seja, mortificação da alma, formada à semelhança de Deus. A vida da alma é a fé. Diz o Apóstolo que Cristo “habita pela fé em nossos corações” (Ef 3,17). Mas a fornicação tira o coração, no qual está a vida, e assim a alma morre, porque, cessando a causa, cessa o efeito. E por isso diz o Senhor: “Do pecado, porque não creram em mim”. Portanto, o Paráclito, por meio dos ministros da pregação, convence o mundo do pecado da fornicação.
11. “E da justiça.” Justiça é aquela pela qual, julgando retamente, se atribui a cada um o que é seu; assim chamada, como que estado do direito. A justiça é um hábito da alma que, conservada a utilidade comum, atribui a cada um a sua dignidade. As partes da justiça são: temer a Deus, venerar a religião, a piedade, a humanidade, deleitar-se no justo e no bom, odiar os males e empenhar-se em dar graças. O mundo não tem essa justiça, porque não teme a Deus, desonra a religião, odeia o bem e se mostra ingrato para com Deus. “Da justiça” que não praticou, porque não se puniu segundo a justiça pelos pecados cometidos. “Da justiça”, não a sua, mas a dos que creem; pela comparação com eles, o mundo é condenado. Por isso não diz: “O mundo não me verá”, mas: “Vós não me vereis”, apóstolos; contra os mundanos, que dizem: Como creremos no que não vemos? É verdadeira justiça, isto é, fé justificante, crer no que não se vê.
Ou então, “convencerá o mundo da justiça” dos santos. Por isso, o Senhor diz por meio de Zacarias: “Estender-se-á o fio de prumo sobre Jerusalém” (Zc 1,16). O fio de prumo é um instrumento do pedreiro, assim chamado de perpendo, perpendis. É uma pedra ou um peso de chumbo amarrado a um fio, com o qual se verifica a verticalidade das paredes. A justiça dos santos é como um fio de prumo que se estende sobre Jerusalém, isto é, sobre toda alma fiel, para que conforme e ajuste a sua vida ao exemplo da vida deles. Com efeito, cada vez que se celebram as festas dos santos, esse fio de prumo é aplicado sobre a vida dos pecadores; e por isso celebramos as festas deles, para receber de sua vida uma norma para viver. É, portanto, ridículo querer honrar os santos, nas suas solenidades, com alimentos e grandes banquetes, quando sabemos que eles subiram aos céus por meio dos jejuns. Pois, se, amando o mundo e a sua glória, nutrindo a carne com delícias e acumulando dinheiro, não imitamos a vida dos santos, a justiça deles comprovará que somos dignos de condenação.
12. “E do juízo.” Observa que em todo juízo se requerem seis pessoas: o juiz, o acusador, o réu e três testemunhas. O juiz é o sacerdote; o acusador e o réu é o pecador, que deve acusar a si mesmo como réu; as três testemunhas são a contrição, a confissão e a satisfação, que testemunham ao pecador que ele é verdadeiramente penitente. Diz Agostinho: “Sobe, ó homem, ao tribunal de tua mente; seja a razão o juiz, a consciência a acusadora, a dor a torturadora, o temor o carrasco; as obras ocupem o lugar das testemunhas.” Os mundanos, que não querem submeter-se a tal juízo, serão julgados, juntamente com seu príncipe, o diabo, que já foi julgado, no exame do juízo final, e condenados eternamente por sentença irrevogável.
O apóstolo Tiago, para instruir tais homens a evitar o pecado, amar a justiça e temer o juízo, acrescenta na segunda parte da epístola de hoje, dizendo: “Sabei, meus irmãos caríssimos: todo homem seja pronto para ouvir, lento para falar e lento para a ira; pois a ira do homem não realiza a justiça de Deus” (Tg 1,19-20). Todo homem deve estar pronto para ouvir aquilo que diz o Apóstolo: “Fugi da fornicação” (1Cor 6,18).
13. E o Senhor diz no Salmo: “Se me ouvires, não haverá em ti deus novo, nem adorarás deus estrangeiro” (Sl 80,9-10). “Deus novo” é o ventre, que sempre procura coisas novas. Esse deus está naqueles dos quais diz o Apóstolo: “O deus deles é o ventre, e a sua glória está na sua vergonha, os quais têm gosto pelas coisas terrenas” (Fl 3,19). “Deus estrangeiro”, que torna o homem estrangeiro de Deus, é a luxúria. Este é o deus Beelfegor, que se interpreta como ‘devorador da antiguidade’. É a luxúria, mal antigo, enfermidade antiga, que devora todos os bens. A respeito disso, tens uma concordância no livro dos Números: “O povo fornicou com as filhas de Moab, que os chamaram para os sacrifícios delas. E eles comeram e adoraram os seus deuses; e Israel foi iniciado no culto de Beelfegor. E o Senhor, irado, disse a Moisés: Toma todos os príncipes do povo e suspende-os diante do sol em patíbulos, para que se aparte de Israel o meu furor” (Nm 25,1-4). As filhas de Moab, que se interpreta ‘do pai’, são a gula, a luxúria e os demais vícios, que têm por pai o diabo, com os quais o povo mundano fornica. Comem e adoram os deuses delas, porque se entregam à gula e à luxúria; e por isso os príncipes do povo devem ser suspensos em patíbulos. Os príncipes do povo são os cinco sentidos do corpo, que, pelos pecados cometidos, devem ser suspensos nos patíbulos da penitência. E isto “contra o sol”. No sol é designada a glória mundana; e, visto que pecamos por causa dela, insistamos contra ela com obras de penitência.
Ou então, “contra o sol”, isto é, se pecamos publicamente, façamos penitência publicamente. Observa que, sobre esta passagem — “Toma todos os príncipes” etc. —, Orígenes introduz esta autoridade, explicando-a a respeito dos anjos, e diz: Se o anjo espera a recompensa porque recebeu de Deus a nossa custódia, pelas coisas boas que praticamos, teme também ser culpado pelas más ações. E por isso se diz que são expostos contra o sol, para que apareça de quem é a culpa pelos pecados cometidos, pelos quais somos consagrados a Beelfegor ou a qualquer ídolo, segundo a qualidade do pecado. E, se o príncipe, isto é, o anjo designado a cada um, não faltou, mas me exortou ao bem e falou no meu coração, ao menos por meio da consciência, que me afastava do pecado, e eu, desprezando as suas advertências e o freio da consciência, me precipitei no pecado, ser-me-á duplicada a pena pelo desprezo do conselheiro e pelo crime cometido. Não te admires de que os anjos venham com os homens ao juízo. Pois o próprio Senhor virá ao juízo com os príncipes do seu povo.
Além disso, comentando a mesma passagem, diz: Segundo o Apocalipse de João, cada Igreja é, em geral, presidida por um anjo, que ou é louvado pelas boas ações do povo, ou é repreendido pelos delitos do povo (cf. Ap 1,20–3,22). Ao contemplar o estupendo mistério, sou levado à admiração: Deus tem tanta solicitude por nós que permite até que os seus anjos sejam culpados e repreendidos por nossa causa. Com efeito, acontece como quando um menino é entregue a um pedagogo: se ele aparece instruído em disciplinas pouco dignas, a culpa é atribuída ao pedagogo, a menos que o menino, obstinado, insolente e leviano, tenha desprezado as salutares advertências do pedagogo. O que acontecerá àquela alma, ensina-o Isaías: “A filha de Sião será abandonada como um abrigo numa vinha” (Is 1,8). A Glosa diz no mesmo lugar: Deus tem maior solicitude pela salvação de uma alma do que o diabo pela sua perdição.
14. “Seja, portanto, todo homem pronto para ouvir.” Por natureza, todo homem deve ser pronto para ouvir, pois a orelha é chamada em latim auris, quase àvide rapiens, que apanha avidamente, ou hauriens sonum, que recolhe o som. E observa que na parte posterior da cabeça não há carne nem cérebro; na parte posterior da cabeça está o instrumento da audição. E isso foi bem disposto, porque a parte posterior da cabeça é vazia, cheia de ar, e o instrumento da audição é aéreo; por isso o homem ouve rapidamente, a menos que sobrevenha algum impedimento. Na cabeça, isto é, na mente, na qual não há a carne da própria vontade, mas o ar da mente devota, passa rapidamente a voz da obediência; daí: “Ao ouvir, obedeceu-me” (Sl 17,45). E Samuel, no Primeiro Livro dos Reis, diz: “Fala, Senhor, porque o teu servo escuta” (1Rs 3,10). E, para que a obediência penetre mais rapidamente, é preciso que seja aérea, pura, receptiva às coisas celestes, nada tendo da terra. “Seja”, portanto, “todo homem pronto para ouvir”.
“E lento para falar.” A própria natureza ensina que assim se deve proceder, pois encerrou a língua como que entre duas portas, para que não vagueasse livremente. Com efeito, a natureza colocou diante da língua, como que duas portas, os dentes e os lábios, para indicar que a palavra não deve sair sem grande cautela. Essas duas portas fechara discretamente aquele que dizia: “Pus uma guarda à minha boca e uma porta ao redor dos meus lábios” (Sl 140,3). E diz bem “uma porta ao redor”, para que se acautelasse não somente da palavra ilícita, mas também da ocasião da palavra ilícita. Por exemplo, há alguns que se envergonham de difamar alguém abertamente, mas o difamam sob o manto de algum louvor e, o que é pior, fazem isso na própria confissão.
E observa que não somente a porta dos dentes, mas também a dos lábios deve ser fechada. Fecha a porta dos dentes e dos lábios aquele que se afasta tanto da difamação quanto da adulação. Mas a língua — “mal irrequieto”, como diz Tiago, “cheia de veneno mortífero” (Tg 3,8), fogo que incendeia a floresta das virtudes e inflama o curso de nossa vida (cf. Tg 3,5-6) — rompe a primeira e a segunda porta e, como uma meretriz, sai para a praça, tagarela e errante, incapaz de suportar o silêncio (cf. Pr 7,8.10-11), perturbando tudo. A respeito dela diz o bem-aventurado Bernardo: “Quem poderá contar quanta sordidez o pequeno membro da língua atrai, quanta imundície se acumula nos lábios incircuncisos, quão grande é o dano causado por uma boca sem freio? Ninguém considere de pouca importância o tempo consumido em palavras ociosas. Com efeito, este é o tempo favorável e o dia da salvação; a palavra voa irrevogável, o tempo passa irremediavelmente, e o insensato não percebe o que perde. ‘É permitido conversar’, dizem, ‘até que passe uma hora’; hora que a graça do Criador te concedeu para obter o perdão, buscar a graça, fazer penitência e merecer a glória.”
O mesmo diz: “Não hesites em chamar a língua do difamador mais cruel que a lança com que foi transpassado o lado do Senhor. Ela fere o corpo de Cristo, mas não o fere já sem vida; ao feri-lo, torna-o sem vida. Nem foram mais nocivos os espinhos que perfuraram sua cabeça, nem os cravos que atravessaram suas mãos e seus pés, do que a língua do difamador, que transpassa o próprio coração.” O Filósofo diz: “Não digas coisas torpes; pouco a pouco, pelas palavras, perde-se o pudor” (Sêneca). “Às vezes me arrependi de ter falado; de ter calado, nunca” (P. Siro). “Usa mais frequentemente os ouvidos do que a língua” (Sêneca). Seja, portanto, todo homem “lento para falar”, e assim poderá imitar a justiça dos santos, porque, como diz Tiago: “Quem não peca pela palavra é homem perfeito” (Tg 3,2).
“E lento para a ira”, que impede a alma de contemplar a verdade. A respeito dela diz o Filósofo: “Quanto menos dominares a ira, tanto mais serás dominado pela ira” (Horácio). “O iracundo, quando deixa de irar-se, ira-se contra si mesmo” (P. Siro). “A ira jamais foi capaz de refletir” (P. Siro). Por isso se diz justamente: “A ira do homem não realiza a justiça de Deus.” Seja, portanto, todo homem “lento para a ira”, para que, no dia da ira, não receba com o diabo a irrevogável sentença de condenação.
15. Segue-se o terceiro ponto: “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos ensinará toda a verdade” (Jo 16,13). Quando a mulher — isto é, o prazer da carne e a vaidade do mundo — se prepara para apanhar as almas, ilude o infeliz espírito do homem com falso prazer e perverte-lhe o entendimento. Por isso, no livro da Sabedoria, se diz: “O fascínio da vaidade obscurece os bens, e a inconstância da concupiscência perverte o sentido” (Sb 4,12). Fascínio é a adulação, ou o engano por meio do louvor. O fascínio da vaidade é o louvor da adulação ou o engano da prosperidade mundana, que obscurece os bens espirituais; e a inconstância da concupiscência carnal transtorna a alma. Mas, quando vier o Espírito da verdade, que ilumina o coração do homem, então ensinará toda a verdade e expulsará toda falsidade.
Por isso se diz no Evangelho de João que o anjo do Senhor descia à piscina, a água se movia e um era curado (cf. Jo 5,4). Quando o anjo do Senhor, isto é, a graça do Espírito Santo, desce à piscina, isto é, ao coração do pecador, então a mente se move com a água da compunção, e um é curado, isto é, o verdadeiro penitente, que deve ser um só, não dividido no coração e na boca. “Quando”, portanto, “vier o Espírito da verdade, ele vos ensinará”, isto é, infundirá em vós, “toda a verdade”. E observa que, assim como a geração não pode realizar-se sem o princípio ativo, também o homem não pode praticar uma obra verdadeiramente boa sem o Espírito da verdade.
16. Por isso, a palmeira, que é fêmea, não produz fruto maduro senão depois de receber, levado pelo vento, o vapor de outra palmeira que seja macho. Daí o Eclesiástico: “Cresci como uma palmeira em Cades” (Eclo 24,18), que se interpreta como “transportada” ou “mudada”, porque o homem não pode progredir sem a graça do Espírito Santo, assim como a palmeira não frutifica sem o vapor de seu macho. Por isso, o homem que está sem a graça não é apto para o serviço divino e é como um homem sem testículos, porque não possui a força para gerar boas obras. A respeito dele se diz no Levítico: “Não oferecereis ao Senhor animal algum que tenha os testículos esmagados, mutilados, cortados ou arrancados” (Lv 22,24). Tem os testículos esmagados aquele que possui a graça, mas informe, e por isso não pode gerar. Foram, porém, retirados os testículos daquele que não possui nem a graça informe nem a formada.
Mas, “quando vier o Espírito da verdade, ele vos ensinará toda a verdade”. A isso corresponde a terceira parte da epístola de hoje: “Por isso”, diz Tiago, “rejeitando toda imundície e toda manifestação de malícia, acolhei com mansidão a palavra implantada, que pode salvar as vossas almas” (Tg 1,21). “Por isso”, isto é, para merecerdes receber o Espírito da verdade, “rejeitando toda imundície”, da alma e do corpo, “e toda manifestação de malícia”, que é o pensamento de uma mente depravada, “com mansidão”, porque os mansos herdarão a terra (cf. Sl 36,11), “acolhei a palavra implantada”, que Deus concede somente aos mansos, aos habituados à mansidão das pombas.
E observa que, assim como um broto enxertado numa árvore envelhecida faz que ela rejuvenesça e frutifique, assim o Espírito da verdade, se for enxertado na mente envelhecida nos dias maus (cf. Dn 13,52), fará que ela rejuvenesça e produza fruto digno de penitência.
Nós vos rogamos, portanto, Senhor Jesus, que, tendo subido deste mundo ao Pai na forma de nossa humanidade, nos arrasteis após vós com a corda do amor; não nos acuseis por causa do pecado; fazei que imitemos a justiça dos santos, temamos o vosso juízo e infundi em nós o Espírito da verdade, que nos ensine toda a verdade.
Concedei-nos tudo isso, vós que sois bendito e glorioso por todos os séculos.
Diga toda alma: Amém. Aleluia.