Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 30

Domingo III depois de Pentecostes Dominica III post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 15 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do terceiro domingo depois de Pentecostes: “Aproximavam-se de Jesus os publicanos”, e divide-se em três cláusulas.

Em primeiro lugar, sermão sobre o pregador ou o prelado da Igreja, que deve construir o muro da Igreja e matar o leão na cisterna, onde se diz: “Banaías, filho de Joiada”.

[Da primeira cláusula]. Também sermão sobre os pecadores convertidos, onde se diz: “Reuniram-se junto de Davi”, e sobre a natureza das abelhas.

Também sermão na Anunciação de Santa Maria, onde se diz: “O rei Davi levantou-se e sentou-se à porta”. Também sobre a reconciliação do pecador com Deus, onde se diz: “Chamado, Absalão entrou junto do rei”. Também sobre o mesmo assunto, onde se diz: “Mefiboset comia à mesa de Davi”.

Da segunda cláusula. Sermão sobre a inocência batismal, onde se diz: “Qual de vós é o homem”.

Também sobre o pranto e a dor pela perda da própria inocência e sua restauração, onde se diz: “Davi chorou com grande pranto”.

Também sermão sobre a contrição, onde se diz: “Se o orvalho estiver somente sobre o velo”.

Também sobre a confissão, onde se diz: “Dar-vos-ei chuvas”.

Também sobre a satisfação, onde se diz: “Abraão plantou um bosque”.

Também sermão sobre o penitente, onde se diz: “Issacar, jumento robusto”.

Sobre a alegria de Deus e dos anjos pelo pecador convertido, onde se diz: “Digo-vos que haverá alegria”.

Da terceira cláusula. Sermão sobre a alma penitente, sua confissão e a mortificação da carne, onde se diz: “Entrou junto do rei a mulher de Técua”.

Também sobre a dracma, suas partes e o que significam, onde se diz: “Se perder uma dracma”.

Também sermão sobre como o diabo mata em nós o amor de Deus e do próximo, onde se diz: “Joab, filho de Sarvia”.

Também sobre as quatro coisas que há na lâmpada e seu significado, onde se diz: “Porventura não acende”.

Exórdio. Sermão sobre o pregador ou o prelado da Igreja

1. Naquele tempo, “aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores, para ouvi-lo” (Lc 15,1) etc.

Diz-se no segundo livro dos Reis que “Banaías, filho de Joiada, desceu e matou um leão no meio de uma cisterna, nos dias de neve” (2Rs 23,20). Banaías interpreta-se “pedreiro do Senhor” e significa o pregador, que, com o cimento da palavra divina, une na unidade do espírito as pedras vivas, isto é, os fiéis da Igreja. Sobre este pedreiro diz o Senhor ao profeta Amós: “Que vês tu, Amós? E eu disse: Uma colher de pedreiro. E o Senhor disse: Eis que porei uma colher de pedreiro no meio do meu povo” (Am 7,8). A colher de pedreiro é um instrumento largo de ferro, com o qual se revestem as paredes; chama-se assim porque empurra, isto é, encerra as pedras com cal ou barro. A colher de pedreiro é a pregação que o Senhor colocou no meio do povo cristão, para que fosse comum a todos e, por sua largura, se estendesse ao justo e ao pecador, e unisse na fé em Cristo os crentes com a cal da caridade. Este pedreiro é chamado filho de Joiada, que se interpreta “aquele que sabe ou conhece”.

O pregador deve ser filho da ciência e do conhecimento. Com efeito, deve primeiro saber o que, a quem e quando pregar; depois, deve conhecer a si mesmo, para verificar se vive de acordo com aquilo que prega. Careceu desse conhecimento aquele Balaão que diz de si mesmo no livro dos Números: “Disse o homem cujo olho está obstruído; disse o ouvinte das palavras de Deus, que conhece a ciência do Altíssimo e vê a visão de Deus onipotente, que, caindo, tem os olhos abertos” (Nm 24,15-16). Assim está obstruído o olho da razão do pregador perverso, o qual, embora veja, pela ciência, a doutrina do Altíssimo e as visões do Onipotente, contudo não as conhece pela experiência. Caindo, porque carece de conhecimento, tem os olhos abertos para a ciência. Mas Banaías, filho de Joiada, desceu da contemplação de Deus para a instrução do próximo e matou o leão, isto é, o diabo ou o pecado mortal, que está na cisterna, isto é, na alma fria dos pecadores. E faz isso nos dias de neve, isto é, quando o frio da malícia e da perversidade congela as mentes dos pecadores, dos quais se diz no Evangelho de hoje: “Aproximavam-se de Jesus” etc.

2. Observa que neste Evangelho se notam três fatos. Primeiro, a aproximação dos pecadores a Jesus e a murmuração dos fariseus. Segundo, o encontro da ovelha perdida. Terceiro, a recuperação da dracma perdida. Observa também que neste domingo e no seguinte concordaremos, se Deus quiser, algumas histórias do segundo livro dos Reis com as cláusulas do Evangelho.

No intróito da Missa de hoje canta-se: “Volta-te para mim e tem misericórdia de mim, Senhor”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Pedro: “Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus”, que queremos dividir em três partes e concordar com as três cláusulas do Evangelho. A primeira parte é: “Humilhai-vos”. A segunda: “Sede sóbrios”. A terceira: “O Deus de toda graça”.

I. A aproximação dos pecadores de Jesus

3. Digamos, portanto: “Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores, para ouvi-lo. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Porque este recebe os pecadores e come com eles” (Lc 15,1-2). Sobre isso tens no primeiro livro dos Reis que “se reuniram junto de Davi todos os que estavam em grande aflição, oprimidos por dívidas e com o coração amargurado; e ele tornou-se seu chefe” (1Rs 22,2). Observa estas três coisas: estavam em aflição, oprimidos por dívidas e com o coração amargurado. Davi é Cristo, a quem devem reunir-se os pecadores que se encontram em aflição por causa da tentação diabólica e da concupiscência carnal e estão oprimidos por dívidas, isto é, pelo pecado mortal, inventado pelo diabo. Se tiverem o coração amargurado, isto é, se tiverem a amargura da contrição pelos pecados, o próprio Cristo será seu chefe. Chama-se chefe porque primeiro toma. Com efeito, Cristo, na morte dos verdadeiramente penitentes, antecipa-se ao diabo, toma primeiro suas almas e as leva ao céu. Diz-se, portanto, com razão: “Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores” etc.

Observa estas quatro palavras: “aproximavam-se”, “para ouvi-lo”, “recebe” e “come”. Na palavra “aproximavam-se” é indicada a contrição do coração; em “para ouvi-lo”, o cumprimento integral da confissão e da satisfação; em “recebe”, a reconciliação do pecador com a misericórdia divina; e em “come”, o banquete da glória eterna. Aproxima-se de Jesus aquele que se contrita por seus pecados. Por isso se diz no Gênesis: “Aproximando-se mais, Judá disse confiadamente a José: Rogo-te, meu senhor, que teu servo diga uma palavra aos teus ouvidos, e não te irrites contra o teu servo” (Gn 44,18). Judá, que se interpreta “aquele que confessa”, significa o penitente que, aproximando-se mais pela contrição do coração, confiante na misericórdia de Deus, pronuncia com confiança a palavra da confissão aos ouvidos de seu confessor. Do mesmo modo, ouve Jesus aquele que se esforça por satisfazer em tudo e por tudo. Por isso Jó diz: “Eu te ouvia com o ouvido; agora meus olhos te veem. Por isso me repreendo e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 42,5-6). Do mesmo modo, Jesus Cristo recebe os pecadores quando infunde nos penitentes a graça da reconciliação. Por isso diz Lucas: “Correndo ao seu encontro, o pai lançou-se ao pescoço do filho e o beijou” (Lc 15,20). O beijo do pai significa a graça da reconciliação divina. Do mesmo modo, Jesus come com eles, isto é, com os penitentes, aos quais saciará com a sua glória no repouso abundante.

4. Observa que acerca destes quatro tens uma concordância no segundo livro dos Reis. Sobre o primeiro, assim se diz no mesmo livro: “Vieram todas as tribos de Israel a Davi, em Hebron, dizendo: Eis que somos teu osso e tua carne” (2Rs 5,1). As tribos são assim chamadas de tributo, ou porque, desde o princípio, foram divididas por Rômulo em três classes, isto é, senadores, soldados e plebeus. Todas as tribos de Israel significam a assembleia de todos os penitentes, que diariamente pagam ao Senhor o tributo do serviço e do dever. Dividem-se em três classes: nos senadores, isto é, nos contemplativos; nos soldados, isto é, nos pregadores; e na plebe, isto é, nos que levam vida ativa. Todos estes devem reunir-se em unidade de mente junto de Davi, isto é, de Jesus Cristo, em Hebron, que se interpreta “meu matrimônio”, isto é, na contrição do coração, na qual a graça do Espírito Santo, como esposo, se une à alma, qual esposa contrita por seus pecados. De tal matrimônio nasce o herdeiro da vida eterna.

“Eis”, dizem eles, “somos teu osso e tua carne.” Assim os penitentes devem dizer a Cristo: Tem piedade de nós, perdoa os nossos pecados, porque somos teu osso e tua carne. Por nós, homens, te fizeste homem, para nos redimir. Pois, por tudo quanto sofreste, aprendeste a compadecer-te (cf. Hb 5,8). A um anjo não podemos dizer: “Eis que somos teu osso e tua carne.” Mas a ti, que és Deus, Filho de Deus, que não assumiste os anjos, mas a descendência de Abraão (cf. Hb 2,16), podemos verdadeiramente dizer: “Eis que somos teu osso e tua carne.” Tem, pois, misericórdia de teu osso e de tua carne. E quem jamais odiou a sua própria carne? (cf. Ef 5,29). És nosso irmão e nossa carne (cf. Gn 27,37), e por isso deves ter misericórdia e compadecer-te das misérias de teus irmãos. Tu e nós temos um só Pai; mas tu por natureza, e nós pela graça. Tu, portanto, que tens poder na casa paterna, não nos prives daquela santa herança, porque “somos teu osso e tua carne”. Os filhos de Israel transportaram do Egito os ossos de José para a terra da promessa (cf. Js 24,32); e tu, das trevas deste Egito, transporta-nos, a nós que somos teus ossos, para a terra da bem-aventurança, porque “somos teu osso e tua carne”. Diz-se, portanto, com razão: “Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores.”

Os penitentes devem fazer como fazem as abelhas, que, segundo se diz nas coisas naturais, quando o rei delas voa para fora da colmeia, voam com ele e o cercam em grande número; ele fica no meio, e as abelhas ao redor. E, quando o rei delas não consegue voar, então a multidão das abelhas o carrega; e, se ele morre, elas mesmas morrem. Jesus Cristo, nosso rei, voou para nós, para fora da colmeia, isto é, do seio do Pai. Nós, como boas abelhas, devemos segui-lo e voar com ele; devemos colocá-lo, isto é, a sua fé, no meio, isto é, em nosso coração, e protegê-lo com o grande acompanhamento das virtudes; e, se ele cair em pecado em algum de seus membros, devemos erguê-lo pela pregação e pela oração; e, com ele morto e crucificado, devemos morrer, crucificando nossos membros com os vícios e as concupiscências (cf. Gl 5,24). Diz-se, portanto, com razão: “Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores”.

5. Segue-se: “Para ouvi-lo”. Sobre isso tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que “o rei Davi levantou-se e sentou-se à porta, e foi anunciado a todo o povo que o rei estava sentado à porta; e toda a multidão veio diante do rei” (2Rs 19,8). Jesus Cristo, Rei dos reis, nosso Davi, que nos libertou da mão de nossos inimigos, levantou-se quando saiu do seio do Pai e sentou-se à porta, isto é, humilhou-se na bem-aventurada Virgem Maria, da qual diz Ezequiel: “Esta porta permanecerá fechada e não será aberta, e nenhum homem passará por ela, porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela; e será fechada ao príncipe; o próprio príncipe sentar-se-á nela, para comer o pão diante do Senhor” (Ez 44,2-3).

Observa que diz: “fechada ao príncipe, e o príncipe sentar-se-á nela”. Ela foi fechada ao príncipe deste mundo, isto é, ao diabo (cf. Jo 12,31), porque sua mente nunca se abriu a nenhuma de suas tentações; e somente o príncipe, Cristo, sentou-se nela pela humildade da carne assumida, para comer o pão diante do Senhor, isto é, para fazer a vontade do Senhor. “Meu alimento”, diz ele, “é fazer a vontade de meu Pai” (cf. Jo 4,34). E foi anunciado a todo o povo, por meio dos apóstolos, que o rei estava sentado à porta, isto é, que havia assumido a carne da bem-aventurada Maria. E assim toda a multidão dos penitentes e dos fiéis veio diante do rei, pronta a obedecer, em tudo e por tudo, aos seus mandamentos.

6. Segue-se: “E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este acolhe os pecadores” (Lc 15,2) etc. Eles erram de duas maneiras, porque se consideram justos, embora sejam soberbos, e consideram culpados os outros, embora já tenham feito penitência. “Este acolhe os pecadores.” Sobre isso tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que “Absalão, chamado, entrou junto do rei, prostrou-se com o rosto por terra diante dele, e o rei Davi beijou Absalão” (2Rs 14,33). Absalão, que se interpreta “paz do pai”, significa neste lugar o penitente, que, fazendo penitência, fez a paz com Deus Pai, a quem ofendeu pecando. Chamado pela contrição do coração, entra junto do rei pela confissão e o adora, prostrado com o rosto por terra diante dele, pela satisfação, afligindo a terra de sua carne e considerando-se vil e indigno; e isto diante dele, não diante dos homens. E assim o rei acolhe o penitente como filho, com o beijo da reconciliação.

Por isso, sobre este acolhimento, diz o pecador convertido, no introito da missa de hoje: “Volta-te para mim e tem piedade de mim, Senhor, porque sou único e pobre. Vê a minha humilhação e o meu trabalho, e perdoa todos os meus pecados, meu Deus” (Sl 24,16.18). “Volta-te para mim”, com o olhar da misericórdia, tu que olhaste para Pedro; “e tem piedade de mim”, perdoando os meus pecados; “porque sou único”, para que acompanhes o único e solitário; “e sou pobre”, isto é, vazio, para que tu me enchas. “Vê a minha humilhação”, na confissão, “e o meu trabalho”, na satisfação; “e perdoa todos os meus pecados, meu Deus”.

7. Segue-se: “E come com eles” (Lc 15,2). Sobre isso tens uma concordância no segundo livro dos Reis, onde se diz que Mefibosete comia à mesa de Davi, como um dos filhos do rei, e habitava em Jerusalém, porque comia continuamente à mesa do rei (cf. 2Rs 9,11.13). Mefibosete interpreta-se “homem da confusão” e significa neste lugar o penitente, que se envergonha de seus pecados; e essa vergonha lhe trará a glória, quando habitar na Jerusalém celeste e comer à mesa do rei, como um dos santos apóstolos, aos quais o Senhor diz no Evangelho: “Eu disponho para vós um reino, para que comais e bebais à minha mesa, no reino dos céus” (Lc 22,29-30).

À primeira frase do santo Evangelho corresponde a primeira parte da epístola de hoje, na qual Pedro fala aos pecadores convertidos: “Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo da tribulação; lançando sobre ele toda a vossa preocupação, porque ele cuida de vós” (1Pd 5,6-7). Sob a poderosa mão de Deus, que depõe os poderosos e exalta os humildes (cf. Lc 1,52), humilhai-vos, para que ele vos exalte àquela mesa celeste, no tempo da visitação, isto é, da morte ou do juízo final; lançai sobre ele, que se preocupa mais com a vossa salvação do que vós mesmos, toda a vossa preocupação, porque “foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos” (Sl 99,3).

Roguemos, pois, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo que faça com que nós, pecadores, nos aproximemos dele e o escutemos; que se digne acolher-nos e alimentar-nos consigo à mesa da vida eterna. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. O encontro da ovelha perdida

8. Segue-se a segunda: “E lhes disse esta parábola: Qual de vós, tendo cem ovelhas, se perder uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu até encontrá-la?” (Lc 15,3-4) etc. Porque o Senhor Jesus Cristo, nesta dupla parábola do santo Evangelho, instruiu os pecadores que se aproximavam dele sobre como restaurar o que fora perdido, conservar o que fora restaurado e fazer penitência pelos pecados cometidos, vejamos, portanto, o que significam moralmente o homem, a ovelha perdida e carregada aos ombros. Esse homem significa qualquer penitente que caminha segundo o homem novo e se considera terra. Ele tem cem ovelhas. O número cem significa a perfeição. As cem ovelhas significam os dons naturais e gratuitos; quem os possui é perfeito, isto é, quanto à perfeição do caminho. E com razão os dons naturais e gratuitos são chamados ovelhas, porque, assim como as ovelhas são animais simples, inocentes e mansos, assim também os dons naturais e gratuitos tornam o homem simples para com o próximo, isto é, sem a dobra da fraude, inocente para consigo mesmo e submisso a Deus.

Segue-se: “E, se perder uma delas, não deixa” etc. A ovelha perdida significa a primeira inocência, que foi conferida ao homem no Batismo. Essa inocência é significada pelas duas coisas que são conferidas ao batizado: o sacerdote lhe dá uma veste branca e uma luz numa vela. Na veste branca, a inocência; na luz, o exemplo de uma vida virtuosa. Nessas duas coisas consiste toda a inocência do homem: esta é a ovelha simples e inocente. O homem perde essa ovelha quando mancha a veste batismal e apaga a luz da vela. E por isso o homem deve lamentar profundamente quando perde tal ovelha.

9. A respeito da perda desta ovelha e da dor por sua perda, encontras uma concordância no Segundo Livro dos Reis: “Davi chorou e fez este lamento por Saul e por Jônatas, seu filho: Ó montes de Gelboé, não caiam sobre vós nem o orvalho nem a chuva, nem haja aí campos de primícias, porque aí foi desprezado o escudo dos fortes, o escudo de Saul, como se ele não tivesse sido ungido com óleo” (2Rs 1,17.21). O homem das cem ovelhas e Davi representam o penitente, que deve chorar por Saul e Jônatas, pela ovelhinha perdida, pela primeira inocência perdida. Saul interpreta-se “ungido” e significa a inocência batismal, que é conferida pela unção do crisma. Jônatas interpreta-se “dom da pomba” e significa a graça do Espírito, conferida no Batismo. Porque o homem perdeu estas duas coisas, deve chorar com este lamento: “Ó montes de Gelboé” etc. Gelboé interpreta-se “queda” ou “montão que desaba”, e significa a soberba, que está sempre sujeita à queda, porque a soberba conduz à ruína; significa também a abundância das riquezas, que, como um montão de pedras, são acumuladas para o mal do Senhor. Nesses montes não se encontram nem orvalho, nem chuva, nem campos de primícias. No orvalho é designada a contrição; na chuva, a confissão; e nos campos de primícias, a satisfação, isto é, a obra penitencial imposta pelo confessor.

Do orvalho da contrição se diz no livro dos Juízes: “Se o orvalho”, disse Gedeão, “estiver somente sobre o velo e houver secura em toda a terra, saberei que, por minha mão, libertarás Israel”. E assim aconteceu. E, levantando-se de noite, depois de espremer o velo, encheu uma bacia com o orvalho” (Jz 6,37-38). É sinal da libertação de Israel, isto é, de nossa alma, que o orvalho, isto é, a graça da compunção, esteja somente sobre o velo, isto é, no coração, e que em toda a terra, isto é, em todo o nosso corpo, haja secura dos vícios. E, enquanto estamos na noite deste exílio, devemos levantar-nos, isto é, erguer-nos juntos, em espírito e corpo, para as obras da penitência; e devemos espremer o velo do coração com o amor da glória e o temor da geena, como se fossem duas mãos, e encher a bacia dos olhos com a água da compunção, que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4,14).

Da chuva da confissão diz o Senhor no Levítico: “Dar-vos-ei chuvas em seus tempos, e a terra produzirá o seu germe, e as árvores se encherão de frutos; a debulha das colheitas alcançará a vindima, e a vindima ocupará a semeadura; e comereis o vosso pão até à saciedade” (Lv 26,3-5). Quando o Senhor dá ao penitente a chuva, isto é, a abundância da confissão, então ele produz o seu próprio germe, e não um alheio. O germe é o início da boa obra, que é produzido pela chuva da confissão. “E as árvores se encherão de frutos.” Árvore deriva de robur, força; frutos são assim chamados de opimus, fecundo. As árvores são as mentes dos penitentes, que se fortalecem com o firme propósito de não recair. Elas se enchem de frutos, isto é, da fecundidade das virtudes. “A debulha das colheitas alcançará a vindima”, isto é, a aflição da carne alcançará “a vindima”, isto é, a alegria da mente, “e a vindima ocupará a semeadura”, isto é, a vida eterna, na qual comeremos o pão até à saciedade. Daí: “Serei saciado quando aparecer a vossa glória” (Sl 16,15). Eis quantos bens produz a confissão!

Do mesmo modo, a respeito do campo da satisfação se diz no Gênesis: Abraão “plantou um bosque em Bersabéia e invocou ali o nome do Deus eterno; e foi colono na terra dos filisteus por muitos dias” (Gn 21,33-34). Observa estas três coisas: plantou, invocou, foi colono. Abraão é o homem justo, que em Bersabéia, que se interpreta “poço da saciedade”, isto é, em sua mente, planta o bosque da caridade. O bosque, assim chamado de nume, significa a caridade, pela qual amamos a Deus e ao próximo. E observa que a mente do homem justo é chamada poço por causa da humildade, e da saciedade por causa da doçura da contemplação. “E invocou ali o nome do Deus eterno.” O nome do Deus eterno é Jesus, que se interpreta “Salvador”. O homem justo, portanto, invoca o nome do Salvador, para que lhe conceda a salvação e o conserve eternamente. “E foi colono na terra dos filisteus.” Os filisteus, como muitas vezes foi dito, interpretam-se “os que caem embriagados”, e significam os cinco sentidos do corpo, que, enquanto se embriagam com a bebida da vaidade mundana, caem no pecado. A terra desses filisteus é o corpo, que é regido pelos cinco sentidos. O homem justo deve ser colono dessa terra, para cultivá-la com vigílias e abstinências, com dor e trabalho, a fim de que produza o fruto das primícias. Com razão, portanto, se diz: “Ó montes de Gelboé, não caiam sobre vós nem o orvalho nem a chuva, nem haja campos de primícias”. Com efeito, nas alturas da soberba e na abundância das coisas temporais não se encontra o orvalho da compunção, nem a chuva da confissão, nem os campos de primícias da satisfação; antes, aí é desprezado o escudo dos fortes, o escudo de Saul.

O escudo é a fé. Daí dizer o Apóstolo: “Tomando o escudo da fé, com o qual possais extinguir todos os dardos inflamados do maligníssimo” (Ef 6,16). A fé rejeita as coisas temporais, porque se perde em sua abundância. É com este escudo que os homens justos costumam lutar valorosamente. Daí se dizer no livro de Josué: “Levanta”, disse o Senhor a Josué, “o escudo que está em tua mão contra a cidade de Hai, porque eu ta entregarei”. E, tendo ele levantado o escudo diante da cidade, os que estavam de emboscada levantaram-se imediatamente, avançaram contra a cidade, tomaram-na e incendiaram-na” (Js 8,18-19). O escudo na mão é a fé manifestada nas obras; quando a elevamos acima das coisas terrenas, Hai, que se interpreta “montão de pedras”, isto é, a abundância das coisas temporais, é tomada e incendiada. É tomada para ser distribuída aos pobres; é incendiada quando, no fervor do espírito, é considerada como pó e cinza. Levanta o escudo com a mão contra Hai aquele que sustenta a fé com as obras e, desprezando a soberba e a abundância do mundo, as destrói. Com razão, portanto, se diz: “Porque aí foi desprezado o escudo dos fortes, o escudo de Saul, como se ele não tivesse sido ungido com óleo”. Os soberbos e avarentos lançam no monturo das riquezas a fé em Jesus Cristo e a graça do Batismo, com a qual foram ungidos, quando buscam as próprias coisas temporais. Com razão, portanto, se diz: “Não deixa ele as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la?”. O penitente deve deixar tudo, colocar tudo em segundo plano, chorar sobre os montes de Gelboé, isto é, sobre a soberba e a abundância das coisas temporais, nas quais perdeu a ovelhinha, despojou-se da veste da inocência e apagou a lâmpada do bom exemplo; por isso, deve perseverar nas lágrimas, nas vigílias e nas abstinências, até encontrá-la.

10. “E, quando a encontra, põe-na sobre os ombros, cheio de alegria; e, chegando em casa, convoca os amigos e os vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha que estava perdida” (Lc 15,5-6). Observa que nos ombros são designadas as fadigas da penitência. Por isso, no Gênesis: “Issacar é um jumento robusto, repousando nos limites. Viu que o repouso era bom e que a terra era excelente. Submeteu o seu ombro para carregar” (Gn 49,14-15). Issacar interpreta-se “recompensa” e significa o penitente, que trabalha tendo em vista somente a retribuição da recompensa eterna. É chamado “jumento robusto”, por suportar grandes tribulações por Cristo, “repousando nos limites”. Há dois limites: a entrada e a saída da vida, nos quais habita o penitente, porque considera atentamente sua entrada e sua saída. Os carnais, porém, não habitam “nos limites”, mas “entre os limites”; a eles diz Débora no livro dos Juízes: “Por que habitas entre dois limites, para ouvir os silvos dos rebanhos?” (Jz 5,16). Habita entre os limites aquele que não considera sua entrada infeliz nem sua saída miserável, mas se põe a serviço dos prazeres do próprio corpo; e assim ouve os silvos dos rebanhos, isto é, a persuasão sutil e suave dos cinco sentidos. A sensualidade parece ter a voz dos rebanhos, mas sua sugestão é o silvo das serpentes: ostentando a inocência dos rebanhos, ocultando a astúcia do lobo, e assim derrama na alma os venenos das serpentes.

Este Issacar vê, com o olho da fé e com o olhar da contemplação, que o repouso da bem-aventurança eterna é bom e que a terra da estabilidade eterna é excelente. Por isso, cheio de alegria, submete os ombros para carregar a ovelhinha que havia perdido. “E, chegando em casa”, isto é, à própria consciência, “convoca os amigos e os vizinhos”, isto é, os afetos da razão, que são amigos e vizinhos, e se alegra com eles, dizendo: “Alegrai-vos comigo” etc. Do bem comum deve ser comum também a alegria. Com efeito, quando a inocência é restituída, a graça é restaurada. Não é de admirar que o homem e sua consciência se alegrem, pois isso mesmo acontece com Deus e com os anjos no céu.

11. Por isso, segue-se: “Digo-vos, porém, que assim haverá mais alegria no céu por um só pecador que faz penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência” (Lc 15,7). Eu, o Verbo do Pai, digo-vos que, por um pecador que faz penitência e recupera a inocência, há alegria no céu. E dessa alegria diz o Senhor, neste mesmo evangelho: “Trazei depressa a primeira veste e vesti-o; ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés. Comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,22.32). Na primeira veste é significada a inocência batismal; no anel, sinal da fé formada, é significado o selo pelo qual a alma é iluminada; nas sandálias, a mortificação da carne, a aversão ao pecado e o desprezo do mundo. Tudo isso é dado ao filho penitente, por cuja penitência há no céu maior alegria do que por noventa e nove justos, isto é, pelos tíbios que se consideram justos. Por isso diz o Eclesiastes: “Não sejas demasiadamente justo” (Ecl 7,17).

A esta segunda cláusula concorda a segunda parte da epístola: “Sede sóbrios e vigiai” na oração, “porque o vosso adversário” (1Pd 5,8) etc. Observa que ele diz primeiro: “sede sóbrios”, e depois: “vigiai”. Sóbrios, isto é, sem embriaguez, pois quem está dominado por ela não pode vigiar. A sobriedade e a vigilância são, portanto, necessárias, porque o diabo, nosso adversário, como um leão, anda ao redor procurando a ovelhinha para devorá-la. Resistamos a ele com a fé que recebemos no Batismo e guardemos a inocência, para que, juntamente com os verdadeiros penitentes, mereçamos chegar à alegria dos anjos.

Conceda-no-lo aquele que arrancou da boca do lobo, o diabo, a ovelha perdida, isto é, Adão com sua descendência, e, sobre os próprios ombros pregados à cruz, ao retornar à casa da bem-aventurança eterna, levou-a alegremente. Por seu encontro, também deu alegria aos anjos, que se alegram quando o homem se reconcilia com eles. Isso deve inflamar-nos para a probidade, a fim de fazermos o que lhes é agradável, cuja proteção devemos desejar e cuja ofensa devemos temer. Conduza-nos ele próprio à companhia deles, a quem pertencem a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

III. O reencontro da dracma perdida

12. Segue-se o terceiro: “Ou qual mulher, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a lâmpada, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la?” (Lc 15,8) etc.

Moralmente. Esta mulher significa a alma; sobre ela tens uma concordância no Segundo Livro dos Reis, onde se diz que “entrou a mulher de Tecoa à presença do rei, caiu diante dele por terra, adorou-o e disse: Salva-me, ó rei! E o rei lhe disse: Que motivo tens? Ela respondeu: Ai de mim! Eu sou uma mulher viúva; meu marido morreu. E a tua serva tinha dois filhos, que brigaram entre si no campo, e não havia ninguém que pudesse impedi-los; um feriu o outro e o matou. E eis que toda a parentela se levantou contra a tua serva e diz: Entrega aquele que feriu seu irmão, para que o matemos em vingança pela vida de seu irmão, que ele matou, e eliminemos o herdeiro. E procuram extinguir a centelha que me restou” (2Rs 14,4-7). Vejamos o que significam o rei, a mulher de Tecoa e seu marido, os dois filhos e a briga entre eles, a morte de um deles, a parentela e a centelha. O rei é Cristo; a mulher de Tecoa é a alma penitente; o marido morto é o mundo; os dois filhos são a razão e a sensualidade; a briga é a discórdia entre ambas; a morte de um deles é a mortificação do apetite carnal; a parentela são os primeiros movimentos; a centelha é a luz da razão.

Digamos, portanto: “Entrou a mulher de Tecoa à presença do rei, caiu diante dele” etc. Tecoa interpreta-se “trombeta”. A mulher de Tecoa é a alma penitente, que faz ressoar docemente a trombeta da confissão aos ouvidos de seu Criador. E observa que a trombeta, no Antigo Testamento, convocava para três coisas: para a guerra, para o banquete e para a festa (cf. Nm 10,8-10). Assim, a trombeta da confissão convoca para a guerra contra os demônios — pois o diabo, desprezado pela confissão, volta a erguer-se por meio dos escândalos —, para o banquete da penitência e para a festa da glória.

Observa estas três palavras: entrou à presença do rei, caiu diante dele e adorou. O rei é Cristo, que rege os povos com cetro de ferro (cf. Sl 2,9), isto é, com justiça inflexível. A alma entra à sua presença pela esperança, cai diante dele pela humildade e o adora pela fé. E diz: “Salva-me, ó rei! Ai de mim! Eu sou uma mulher viúva” etc. Observa estas três palavras: ai de mim, mulher e viúva. Diz “ai de mim” porque se aflige por causa do pecado; “mulher”, porque é fraca e frágil; “viúva”, porque está privada de todo auxílio humano; e por isso: “Salva-me, ó rei”, a mim que estou aflita, frágil e desamparada. “Salva-me”, porque sou tua serva. “Salva-me”, porque meu marido morreu. O marido da alma penitente era o mundo, que morre para ela quando ela própria morre para o mundo. Por isso diz com o Apóstolo: “Para mim, o mundo está morto, e eu estou morto para o mundo” (Gl 6,14).

Segue-se: “E a tua serva tinha dois filhos, que brigaram entre si” etc. Os dois filhos da alma são suas duas partes: a superior e a inferior, isto é, a razão e a sensualidade, entre as quais há uma grande briga, porque o espírito deseja contra a carne, e a carne contra o espírito (cf. Gl 5,17). Sobre essa briga tens uma concordância no Gênesis: “Houve uma briga”, diz Moisés, “entre os pastores dos rebanhos de Abraão e de Lot. Abraão disse a Lot: Peço-te que não haja discórdia entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus, pois somos irmãos. Eis que toda a terra está diante de ti. Peço-te: afasta-te de mim; se fores para a esquerda, eu tomarei a direita; se escolheres a direita, eu irei para a esquerda” (Gn 13,7-9).

Por Abraão entende-se a razão; por Lot, a sensualidade. Os pastores dos rebanhos são os afetos e os movimentos de ambos, entre os quais há uma briga cotidiana. Mas Abraão diz: “Peço-te que não haja discórdia entre mim e ti”. Esta é a repreensão da razão à sensualidade, querendo pacificá-la consigo; por isso também diz: “Somos irmãos”; não me combatas, não provoques uma briga. “Eis que toda a terra está diante de ti”, para que vivas segundo a necessidade, não segundo o prazer. Usa o que é lícito; vive com discrição, porque o Senhor deu a terra aos filhos dos homens (cf. Sl 113,16), não às feras. Mas, porque vejo que teus sentidos e teu pensamento estão inclinados ao mal desde a tua adolescência (cf. Gn 8,21), peço-te: afasta-te de mim, pois dois contrários não podem estar juntos. E que acordo pode haver entre a luz e as trevas? “E que parte pode haver entre o fiel e o infiel?” (cf. 2Cor 6,14-15). Afasta-te, portanto, peço-te, de mim, porque, se não te afastares, temo que, da convivência, se formem os costumes. A uva sã contrai o bolor da uva estragada que está junto dela. O companheiro mau, como diz o Filósofo, transmite ao companheiro inocente e simples a sua sarna ou ferrugem. “Afasta-te, portanto, peço-te, de mim. Se fores para a esquerda” etc.

Observa que aquilo que é direito para a carne é esquerdo para o espírito; e aquilo que é direito para o espírito é esquerdo para a carne. E isso foi significado na disposição do corpo de Cristo na cruz, na qual teve a direita voltada para o aquilão e a esquerda para o austro, insinuando que a adversidade, que julgamos esquerda, para ele é direita; e que a prosperidade temporal, significada pelo austro, que para nós é direita, para ele é esquerda. Diz-se, portanto, muito bem: “E a tua serva tinha dois filhos, que brigaram entre si no campo; e não havia ninguém que pudesse impedi-los”.

Segue-se: “E um feriu o outro e o matou”. Se tivesse se afastado do irmão, não teria sido morto. Assim, o homem justo, usando a razão, deve matar, reprimindo-o, o apetite carnal. Sobre isso tens uma concordância no Segundo Livro dos Reis, onde se diz que “Davi chamou um de seus servos e disse: Avança e lança-te sobre ele. Ele o feriu, e o homem morreu. E Davi lhe disse: O teu sangue está sobre a tua cabeça, pois a tua boca falou contra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor” (2Rs 1,15-16). Davi é o homem justo; os servos do homem justo são os afetos retos da razão, por cuja união ele deve matar o apetite carnal, que pouco antes havia matado o ungido do Senhor, isto é, a alma ungida com o sangue de Jesus Cristo.

Segue-se: “E eis que toda a parentela se levantou” etc. A parentela, má e perversa, são os primeiros movimentos, que estão unidos à sensualidade da carne por parentesco de sangue. Estes, vendo o seu parente, o apetite carnal, mortificado pela severidade discreta da razão, levantam-se todos juntos diariamente, querendo vingar a injúria feita ao parente e extinguir a centelha da razão. Por isso também a mulher de Tecoa clama ao rei: “Salva-me, ó rei, porque procuram extinguir a minha centelha, que me restou”.

Observa que a centelha é sutil, ágil e capaz de atear fogo. A centelha é a razão, que é sutil no discernimento, ágil em antecipar as tentações do diabo e capaz de incendiar a alma com o amor divino. A água da concupiscência carnal, os primeiros movimentos, essa parentela tola e insensata, procuram extinguir a centelha. E diz muito bem: “que me restou”; pois, depois da prática de todos os vícios, sempre resta à alma pecadora alguma centelha da razão, que a atormente com o remorso e a repreenda por seus pecados.

13. Falemos, pois, desta mulher: “Ou qual mulher, tendo dez dracmas?” Observa que a dracma, como diz a GLOSA, é uma moeda de determinado valor, trazendo a imagem do rei. Dragma, dragmatis, é a quarta parte do estáter; drama, dramatis, sem g, é um gênero de poema, do qual se diz: “Doces são os cânticos do drama”. Ou, de outro modo, a dracma é a oitava parte da onça. Onça chama-se assim porque, por sua unidade, vence, isto é, abrange, a totalidade das moedas. Compõe-se, porém, de oito dracmas, isto é, de vinte e quatro escrópulos. Por isso é considerada um peso legítimo, porque o número de seus escrópulos imita as horas do dia e da noite. O escrópulo pesa seis siliquas, isto é, seis grãos de alfarroba. A siliqua contém quatro grãos de cevada, isto é, cada grão de siliqua contém quatro grãos de cevada.

A onça significa Jesus Cristo, que, sendo um com o Pai e o Espírito Santo, abrange em sua unidade a totalidade de todas as criaturas. Todas as criaturas são como o centro no meio da esfera; ele, porém, é como o círculo que tudo circunda e envolve. Por isso diz no Eclesiástico: “Sozinha percorri o circuito do céu” (Eclo 24,8). A dracma, oitava parte da onça, significa a bem-aventurada Maria, que já possui, na alma e no corpo, aquela bem-aventurança, e também uma bem maior, que todos os santos terão no oitavo dia da ressurreição. Os vinte e quatro escrópulos significam os doze apóstolos, dos quais disse o Senhor: “Não são doze as horas do dia?” (Jo 11,9). O dia é Cristo; as doze horas são os doze apóstolos, que, por causa da perfeição e da confirmação do Espírito Santo, são designados por um número duplicado; eles, como escrópulos, moedinhas dos pobres, foram desprezados neste mundo e não cessam de guardar, dia e noite, como se fossem vinte e quatro horas, a Igreja que plantaram com o próprio sangue. As seis siliquas, por causa da perfeição das boas obras, significam todos os mártires e santos confessores, que dizemos ser figurados não pelas siliquas, mas pelo número seis, que é perfeito. Os quatro grãos de cevada, que é alimento dos animais, significam todos os fiéis da Igreja, que, como animais, são alimentados pela doutrina dos quatro evangelistas. Vê a ordem perfeitíssima: na onça estão contidos a dracma e os escrópulos; nos escrópulos, as siliquas; nas siliquas, os grãos de cevada. Assim: de Cristo descendem a bem-aventurada Maria e os apóstolos; dos apóstolos, os mártires e confessores; e destes, todos os fiéis da Igreja.

Como, por ocasião desta palavra dracma, fizemos uma pequena digressão, voltemos agora ao assunto do qual, contudo, não nos afastamos.

14. Digamos, portanto: “Ou qual mulher, tendo dez dracmas?” Observa que pelas dez dracmas são designados os dez preceitos do Decálogo, que a mulher, isto é, a alma, recebeu do Senhor para observar; e, se os tivesse observado, certamente teria permanecido em sua posse. Por isso, o Senhor respondeu a certo homem que lhe perguntava o que deveria fazer para alcançar a vida eterna: “Mas, se queres entrar na vida, observa os mandamentos” (Mt 19,17). A observância dos mandamentos é entrada na vida. Mas, porque esfriou a caridade e abundou a iniquidade (cf. Mt 24,12), segue-se: “E se perder uma dracma”. Perde a dracma aquele que perde a caridade, na qual está a imagem do supremo Rei, e sem a qual ninguém poderá chegar ao “oitavo dia”, isto é, à bem-aventurança eterna.

Como, porém, se perde essa dracma, encontras a concordância no Segundo Livro dos Reis, onde se diz que Joab, filho de Sarvia, matou dois chefes do exército de Israel: Abner, filho de Ner, e Amasa, filho de Geter. Abner matou assim: “Joab o conduziu, como se lê no mesmo livro, ao meio da porta, para falar-lhe com dolo; feriu-o na virilha, e ele morreu. Quando Davi ouviu isso, disse: Não falte da casa de Joab quem sofra de gonorreia, quem seja leproso, quem segure o fuso, quem caia pela espada e quem necessite de pão” (2Rs 3,27-29). Do mesmo modo, matou Amasa: “Ora, Joab estava vestido com uma túnica apertada, feita segundo a medida de seu traje, e, por cima, cingido com uma espada pendente ao lado, na bainha, que, por ter sido habilmente fabricada, podia sair e ferir com um leve movimento. Disse, pois, Joab a Amasa: Salve, meu irmão! E segurou com a mão direita o queixo de Amasa, como se o beijasse. Amasa, porém, não percebeu a espada que Joab tinha; e este o feriu no flanco, sem desferir um segundo golpe” (2Rs 20,8-10). Observa que nesses dois chefes, Abner e Amasa, são entendidos os dois preceitos da caridade, a saber, o amor de Deus e o amor do próximo. Em Abner, que se interpreta “lâmpada do pai”, é designado o amor de Deus, pelo qual somos iluminados enquanto permanecemos nas trevas. Em Amasa, que se interpreta “aquele que eleva o povo”, é designado o amor do próximo, que socorre sua necessidade. Esses dois preceitos Joab, que se interpreta “inimigo”, isto é, o diabo, nosso adversário, mata em nós deste modo: primeiro, o amor de Deus; depois, o do próximo.

“Joab”, diz, “conduziu Abner ao meio da porta” etc. Observa estas três palavras: “ao meio da porta”, “com dolo” e “na virilha”. O diabo, para matar em nós o amor de Deus, primeiro nos conduz ao meio da porta. A porta é a entrada e a saída de nossa vida, cujo meio é a vaidade do mundo. O diabo, de fato, não conduz à porta, mas ao meio dela, porque cega o pecador, para que não considere a miserável entrada e saída de sua vida, mas atenda à vaidade enganosa; nela, enquanto lhe fala com dolo, prometendo-lhe bens temporais, fere-o na virilha, isto é, com o prazer da carne, e assim a alma morre e o amor de Deus se perde.

Do mesmo modo, matou Amasa assim: “Ora, Joab estava vestido” etc. A túnica apertada do diabo são todos os perversos, dos quais ele se veste e aos quais aperta segundo a sua própria medida, porque se esforça por igualar a malícia deles à sua própria malícia. A espada na bainha é a sugestão do diabo na mente dos perversos. E porque o diabo costuma matar o amor do próximo por meio de aduladores e detratores, segue-se: “Disse, pois, Joab a Amasa: Salve, meu irmão! E segurou com a mão direita” etc. Aí diz a Glosa: Segurar o queixo com a mão direita é como afagar com benevolência; mas envia a mão esquerda à espada aquele que, movido pela malícia, fere às escondidas. Por isso, diz o Eclesiástico: “Nos seus lábios o inimigo se mostra afável, mas no seu coração arma ciladas para te lançar na cova” (Eclo 12,15). Cair na cova é perder a dracma da caridade; por causa dessa perda faz-se aquela imprecação: “Não falte da casa de Joab quem sofra de gonorreia” etc.

Observa estas cinco coisas: quem sofre de gonorreia, o leproso, quem segura o fuso, quem cai pela espada e quem necessita de pão. A casa do diabo são todos os iníquos, que não têm nem o amor de Deus nem o do próximo; sofrem sempre de gonorreia, isto é, fluem em vários desejos e na luxúria; tornam-se leprosos, porque se mancham com diversos erros; seguram o fuso, isto é, a volubilidade das coisas temporais, e depois cairão na geena, feridos pela espada da vingança divina, eternamente atormentados pela fome e pela sede. Eis como se perde a dracma da caridade. Vejamos, porém, como ela é encontrada.

15. Segue-se: “Não acende acaso a lâmpada?”, etc. Observe que na lâmpada há quatro elementos: o vaso de argila, o pavio áspero, o óleo suave e o fogo que ilumina. No vaso está indicada a lembrança da fragilidade; no pavio, a penitência austera; no óleo, a misericórdia para com o próximo; e no fogo, o amor de Deus. Feliz aquela alma que prepara para si uma lâmpada assim, para encontrar a dracma perdida. Com semelhante lâmpada, cada um deve revolver os recantos da própria consciência e procurar diligentemente a dracma perdida da caridade, até encontrá-la.

A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “O Deus de toda graça, que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo, depois de termos sofrido um pouco, ele mesmo nos aperfeiçoará, confirmará, fortalecerá e consolidará” (1Pd 5,10). Deus Pai, de quem desce toda graça operante, cooperante e eficaz, por meio de Jesus Cristo, seu Filho, que, com o vaso de nossa humanidade e a luz de sua divindade, procurou diligentemente e encontrou em nós a dracma perdida, e assim nos chamou à glória eterna, na qual, depois de termos sofrido um pouco neste mundo, nos aperfeiçoará com a dupla glorificação do corpo e da alma, nos confirmará com a sua visão eterna e nos consolidará na bem-aventurada sociedade da Igreja triunfante.

Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao Senhor Jesus Cristo que nos conceda, pelo exemplo da santa mulher, isto é, da alma penitente, preparar a lâmpada, ou seja, manter viva a lembrança de nossa fragilidade, com o pavio da penitência; acender o óleo da misericórdia com o fogo do amor divino; e, com ela, revolver os recantos de nossa consciência e procurar diligentemente a dracma há muito perdida da dupla caridade, para que, uma vez encontrada, mereçamos chegar até aquele que é a caridade (cf. 1Jo 4,8.16). Ele no-lo conceda, a quem pertencem a honra e a glória, o esplendor e o domínio pelos séculos eternos. Diga toda criatura: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.