Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 19

Domingo III depois da Páscoa Dominica III post Pascha

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 6 seções · 16 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do terceiro domingo depois da Páscoa: “Mais um pouco e já não me vereis”, que se divide em três cláusulas.

Primeiramente, sermão aos ouvintes da palavra de Deus, e sobre o que ela comunica aos ouvintes, naquele trecho: “Vai e toma o livro”.

[Da primeira cláusula]. Igualmente, sermão sobre a brevidade da glória temporal, naquele trecho: “A esperança do ímpio é como penugem”.

Igualmente, sermão sobre os sete vícios, pelos quais serão punidos com sete castigos aqueles que neles estiverem enredados, naquele trecho: “Ouvi uma grande voz”.

Da segunda cláusula. Sermão sobre o pranto dos justos e a alegria dos carnais, naquele trecho: “Em verdade, em verdade vos digo: vós chorareis”, e naquele trecho: “O Senhor chamará ao pranto”.

Igualmente, sermão contra os amantes deste século, os carnais e os fornicadores, naquele trecho: “Vi uma mulher sentada sobre uma besta escarlate”, e sobre os três nomes do diabo, os dez chifres e as sete cabeças da besta, e seu significado.

Igualmente, sermão sobre a tristeza dos santos, naquele trecho: “O mundo se alegrará”.

Da terceira cláusula. Sermão sobre o fato de que Deus nos vê de três modos, naquele trecho: “Novamente vos verei”, e sobre o coração.

Igualmente, sermão sobre a glória da bem-aventurança eterna e o esplendor da Jerusalém celeste, naquele trecho: “O anjo mostrou-me um rio de água viva”.

Igualmente, exposição moral do Evangelho: “Quando a mulher dá à luz, sente tristeza”; em cujo prólogo se fala da natureza dos pequenos corvos e da alma penitente, naquele trecho: “Uma mulher abandonada”.

Igualmente, no mesmo texto se diz de que modo o homem é concebido no ventre da mãe, e o que se segue, e como essas coisas devem ser entendidas moralmente.

Igualmente, sermão sobre a confissão, na qual a alma deve esforçar-se como uma mulher que dá à luz, naquele trecho: “Sente dores e geme!”

Exórdio. Sermão aos ouvintes da palavra de Deus

1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Um pouco, e já não me vereis; e de novo um pouco, e me vereis, porque vou para o Pai” (Jo 16,16).

O anjo disse a João no Apocalipse: “Vai e toma o livro da mão do anjo e devora-o; ele fará amargar o teu ventre, mas em tua boca será doce como o mel” (Ap 10,8-9). O livro, assim chamado como se fosse abundância de letras, significa a abundância da santa pregação. Este é aquele poço que Isaac, no Gênesis, chamou de “Abundância” (cf. Gn 26,33). Este é o rio cuja correnteza alegra a cidade de Deus (cf. Sl 45,5), isto é, a alma na qual Deus habita. Ó homem, “toma”, isto é, apodera-te deste livro, para que com sua fecundidade expulses a tua esterilidade, e com sua abundância, a tua miséria. “E devora-o.” Devora o livro aquele que ouve com avidez a palavra do Senhor. Por isso se diz no livro de Esdras que “os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro” (2Esd 8,3). Ergue os ouvidos para o livro aquele que ouve atentamente a palavra de Deus. “E ele fará amargar o teu ventre.” O ventre é a parte que digere os alimentos recebidos, e assim é chamado porque distribui por todo o corpo os alimentos da vida; significa a mente do homem, que deve acolher a palavra de Deus, digeri-la, uma vez acolhida, na meditação, e, depois de bem digerida, transmiti-la à prática de cada virtude. A palavra do Senhor faz amargar o ventre, porque, como diz Isaías, “é amarga a bebida para os que a bebem” (Is 24,9); e Ezequiel: “Parti amargurado, na indignação do meu espírito” (Ez 3,14). Não é de admirar que a palavra do Senhor faça amargar a mente, pois anuncia a ruína das coisas temporais, a brevidade da vida presente, a amargura da morte e a aspereza das penas do inferno. Mas em tua boca será doce como o mel, porque tudo o que é difícil no mandamento e amargo nas palavras da pregação se torna leve e doce para aquele que ama; ou então é amargo no presente, porque incita à penitência, mas será doce na pátria, porque conduzirá à glória. Por isso, acerca destas duas coisas, diz o Senhor no evangelho de hoje: “Um pouco, e já não me vereis”.

2. Notemos que neste evangelho se observam três coisas. Primeiro, a breve duração de nossa vida, quando se diz: “Um pouco, e já não me vereis”. Segundo, a vã felicidade dos mundanos, quando se afirma: “Em verdade, em verdade vos digo: vós chorareis e vos entristecereis”, etc. Terceiro, a glória eterna, quando se diz: “Mas de novo vos verei, e o vosso coração se alegrará”, etc. Queremos harmonizar as três últimas partes do Apocalipse com as três partes deste evangelho. A primeira parte trata dos sete anjos que têm taças cheias da ira de Deus. A segunda, da condenação da grande prostituta, isto é, da vaidade mundana. A terceira, do rio de água viva, isto é, da eternidade da vida futura.

No intróito da missa canta-se: “Aclamai a Deus, ó terra inteira”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Pedro: “Exorto-vos, como estrangeiros e peregrinos”.

I. Da breve duração da nossa vida

3. Digamos, portanto: “Um pouco, e já não me vereis”; como se dissesse: Resta pouco, isto é, um breve tempo, até que eu padeça e seja encerrado no sepulcro; e depois, ainda um pouco de tempo até que me vejais ressuscitado. Ou então: pouco tempo, isto é, três dias, durante os quais, encerrado no sepulcro, não serei visto; e de novo pouco tempo, isto é, quarenta dias, durante os quais, ressuscitado, serei visto. “Porque vou para o Pai”; isto é, porque chegou o tempo de, deposta a mortalidade, levar a natureza humana aos céus.

Moralmente. Notemos que neste evangelho se repete sete vezes a palavra “um pouco”, para significar que a nossa vida, que transcorre no ciclo de sete dias, é breve e limitada. Por isso, Tiago diz: “O que é a nossa vida? É vapor que aparece por um pouco e depois desaparece” (Tg 4,05). Por isso, Jó: “Passam os seus dias em prosperidade e num instante descem ao inferno” (Jó 21,13). E ainda: “Breve é o louvor dos ímpios, e a alegria do hipócrita é como um ponto” (Jó 20,5). Ponto vem de pungir, e é tão brevíssimo que carece de duração; por causa de sua incompreensível brevidade, não pode ser dividido em partes. O ponto é a vida do pecador, na qual há a pungida da consciência e a brevidade da vida. Por isso, no livro da Sabedoria: “A esperança do ímpio é como a lanugem que o vento leva, e como a espuma ligeira que a tempestade dispersa, e como a fumaça que o vento espalha, e como a lembrança do hóspede de um só dia que passa” (Sb 5,15). O prazer que se espera da abundância dos bens terrenos é volátil como a lanugem. Lanugem é assim chamada como lã sobre os frutos; ou é o fruto da cana, vazio e superficial como a espuma, acerca da qual diz Oseias: “Samaria fez passar o seu rei como espuma sobre a superfície da água” (Os 10,7). Samaria é a dignidade, que faz passar o seu rei, isto é, o prelado, como espuma; por ela entende-se a soberba, que depressa é levada pela tempestade da fragilidade. O prazer também é como a fumaça da mente, que turva os olhos; deixa para trás excrementos, isto é, as imundícies do pecado, como um hóspede de passagem. A isso correspondem estas quatro comparações de Oseias: “Serão”, diz ele, “como a nuvem da manhã e como o orvalho matutino que passa, como a poeira arrebatada pelo turbilhão da eira e como a fumaça da chaminé” (Os 13,3). A nuvem e o orvalho são dispersados e consumidos pelo sol nascente. A poeira é arrebatada pelo vento, e a fumaça se dissolve em ares tênues. Assim, quando chegar o ardor da morte, a abundância das coisas temporais fugirá e desaparecerá, e a concupiscência carnal e toda vanglória se dissiparão. Ai, portanto, daqueles que, pela breve abundância desta vida, por um momentâneo prazer miserável, perderam a eternidade da vida: nos sete dias deste infeliz exílio, estão enredados nos sete vícios e, por isso, beberão das sete taças da ira de Deus.

4. Daí tens a concordância com o Apocalipse: “Ouvi”, diz João, “uma grande voz do céu, que dizia aos sete anjos: Ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus. E partiu o primeiro e derramou a sua taça sobre a terra. E o segundo derramou a sua taça no mar. E o terceiro derramou a sua taça sobre os rios e sobre as fontes das águas. E o quarto derramou a sua taça sobre o sol. E o quinto derramou a sua taça sobre o trono da besta, e o seu reino tornou-se tenebroso. E o sexto derramou a sua taça naquele grande rio Eufrates. E o sétimo derramou a sua taça no ar” (Ap 16,1-17). Pela terra são designados os avaros e usurários; pelo mar, os soberbos e inflados (cf. Is 51,9-10); pelos rios e pelas fontes das águas, os luxuriosos; pelo sol, os vangloriosos; pelo trono da besta, os invejosos e negligentes; pelo rio Eufrates, que se interpreta “abundância”, os ébrios e gulosos; pelo ar, os falsos religiosos.

Sobre a terra da avareza, diz o Senhor à serpente no Gênesis: “Comerás terra todos os dias da tua vida” (Gn 3,14), porque o avaro é alimento do diabo.

Sobre o mar da soberba, diz Jó: “O mar diz: ‘Não está comigo’” (Jó 28,14), isto é, a sabedoria, porque “Deus resiste aos soberbos” (Tg 4,6).

Sobre o rio da luxúria, diz-se no Êxodo que o faraó ordenou a todo o seu povo, dizendo: “Todo filho do sexo masculino que nascer, lançai-o no rio” (Ex 1,22). Faraó interpreta-se como “aquele que dispersa” ou “aquele que o despoja”, e significa o diabo, que, depois de dispersar a estrutura das virtudes, despoja e desnuda o miserável homem do manto da graça. Este deseja matar no rio da luxúria toda obra viril, virtuosa e perfeita, mas conservar as mulheres, isto é, as mentes efeminadas, das quais possa abusar.

Sobre o sol da vanglória, falando das sementes do semeador, diz o Senhor em Mateus: “Nascido o sol, queimaram-se e, porque não tinham raiz, secaram” (Mt 13,6). As sementes são as boas obras, que, quando arde o sol da vanglória, secam. Com efeito, tudo o que fazes por vanglória, perdes completamente. A esse respeito diz o bem-aventurado Bernardo: “De onde te vem a glória, a ti, que és cinza e pó? Da santidade da vida? Mas é o Espírito que santifica: não o teu, mas o de Deus. Ou acaso te lisonjeia o favor popular, porque proferiste bem a boa palavra? Mas é Deus quem deu a boca e a sabedoria. Que é a tua língua, senão a pena do escriba que escreve velozmente?” (cf. Sl 44,2).

Diz o Filósofo: “Por um caminho breve chegam à glória aqueles que se esforçam para ser realmente aquilo que querem parecer”.

Sobre o trono da inveja, no qual habita a besta, isto é, o diabo, diz-se no Apocalipse: “Sei onde habitas, onde está o trono de Satanás” (Ap 2,13). Os invejosos são o trono do diabo. Por isso diz Jó: “A besta entrará em seu esconderijo e permanecerá em seu antro” (Jó 37,8). O esconderijo e o antro significam os corações dos invejosos, que estão obscurecidos pela fuligem da inveja. Com efeito, antro é como se dissesse “atro”, isto é, escuro.

Sobre o Eufrates da gula, diz-se em Jeremias que a cinta apodreceu no rio Eufrates (cf. Jr 13,7). A cinta da castidade apodrece nos excessos da gula e da embriaguez. Diz o Filósofo: “Come e bebe para viver bem; não vivas somente para comer e beber”.

Sobre o ar da falsa religião, diz-se no Apocalipse que “o ar foi obscurecido pela fumaça do poço” (Ap 9,2). O poço é a cobiça, cuja fumaça já enfumaçou quase todos os religiosos. Todos aqueles que tiverem ficado enredados nesses sete vícios durante os sete dias desta vida serão embriagados pelas sete taças, isto é, pelas sete pragas, ou seja, pelas sete sentenças judiciais, no inferno. Pois serão eternamente punidos no corpo e na alma, com os quais pecaram.

II. Da vã alegria dos mundanos

5. Segue-se o segundo: “Em verdade, em verdade vos digo: vós chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará. Vós, porém, ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando dá à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, quando deu à luz o filho, já não se lembra da aflição, por causa da alegria de ter vindo um homem ao mundo” (Jo 16,20-21). Nas tribulações deste século, todos os bons choram, mas os amantes do mundo se alegram. Por isso, diz Isaías a respeito de ambos: “O Senhor dos exércitos chamou ao pranto, ao lamento, à raspagem da cabeça e ao cinturão de saco; e eis alegria e regozijo, matar bezerros e degolar carneiros, comer carnes e beber vinho: Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (Is 22,12-13). Todos os justos foram chamados pela graça de Deus ao pranto da contrição e ao lamento da confissão; à raspagem da cabeça, isto é, à renúncia dos bens temporais, e ao cinturão de saco, isto é, à aspereza da penitência. Mas os amantes do mundo vivem na alegria do mundo, na alegria do pecado, embriagados de gula e luxúria.

6. Esta é aquela Babilônia à qual se referem as palavras do Apocalipse: “Vi”, diz João, “uma mulher sentada sobre uma besta escarlate, cheia de nomes de blasfêmia, que tinha sete cabeças e dez chifres. E a mulher estava revestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, tendo na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e da imundície de sua fornicação” (Ap 17,3-4). Mulher, assim chamada de mollities, efeminação, significa aqueles efeminados que se conformam a Eva, da qual teve início o pecado. A respeito dessa mulher diz Salomão: “A mulher fornicadora é como esterco na estrada” (Eclo 9,10). Chama-se esterco porque é espalhado nos campos. A mulher fornicadora são todos os mundanos, que são pisados pelos demônios, como o esterco pelos que passam. A respeito dessa meretriz o Senhor se queixa por meio de Jeremias: “Desde há muito”, diz ele, “quebraste o meu jugo, rompeste os meus vínculos e disseste: ‘Não servirei’. Pois em toda colina elevada e sob toda árvore frondosa te prostituías” (Jr 2,20). Os filhos deste século, geração depravada, adúltera e perversa; filhos espúrios, companheiros dos ladrões, isto é, dos demônios, quebraram o jugo da obediência, romperam os vínculos dos mandamentos de Deus e disseram: “Não serviremos”. Por isso diz Jó: “Quem é o Onipotente”, dizem eles, “para que o sirvamos? E que proveito teremos se o adorarmos?” (Jó 21,15). Em toda colina elevada da soberba e sob toda árvore frondosa da luxúria — pois a luxúria procura lugares frondosos e escuros — prosternam-se diante do diabo como uma meretriz.

Diz, pois, muito bem João: “Vi uma mulher sentada sobre uma besta escarlate”. A besta, assim chamada de vastia, devastadora, é o diabo, que devasta as virtudes da alma; ele é sanguinário em si mesmo e nos seus. Sobre ele se sentam os mundanos, porque ele é o fundamento deles e eles se apoiam nele. Mas quem se apoia no diabo, que cai do céu, necessariamente cairá com aquele que cai. Por isso diz Jó: “À vista de todos será precipitado” (Jó 40,28), tanto ele quanto os réprobos, dos quais ele é a cabeça.

“Cheia”, diz ele, “de nomes de blasfêmia”. O diabo tem três nomes, como se diz no Apocalipse: “Em hebraico, Abdo; em grego, Apollyon; em latim, tem o nome de Exterminans” (Ap 9,11). Abdo significa servo; Apollyon interpreta-se exterminador. Ou então Apollyon, em grego, diz-se ‘apotheis polin’, isto é, nocivo, e também é chamado infernal. Estes são os nomes de blasfêmia com os quais o diabo e seus membros blasfemam contra Deus. Com efeito, são servos do pecado, nocivos e exterminadores infernais, isto é, põem a si mesmos e aos outros fora dos limites da vida eterna.

“Tendo sete cabeças e dez chifres.” As sete cabeças são aqueles sete vícios dos quais fala o Profeta no Salmo: “Vi a iniquidade e a contradição na cidade. Dia e noite a iniquidade a circundará sobre os seus muros, e o afã e a injustiça estarão no seu meio; e não desapareceu de suas praças a usura e a fraude” (Sl 54,10-12). A cidade do sangue, toda cheia de mentira, na qual o Senhor não entra, é a multidão reunida dos carnais; nela há a iniquidade contra Deus, aqui mencionada duas vezes, porque se peca contra o Senhor de dois modos: cometendo o mal e omitindo o bem; a contradição refere-se ao prelado; o afã e a injustiça, a ti mesmo; a usura e a fraude, ao próximo. Os dez chifres são aqueles de que fala o Apóstolo aos Romanos: “Repletos”, diz ele, “de toda iniquidade, malícia, fornicação, avareza, perversidade, cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade” (Rm 1,29). Ou então, as sete cabeças e os dez chifres são aqueles dos quais se diz no livro da Sabedoria: “Tudo está misturado: sangue, homicídio, furto e engano, corrupção, infidelidade, desordem e perjúrio, confusão entre os bons, esquecimento do Senhor, corrupção das almas, perversão sexual, infidelidade matrimonial, desregramento, concubinato e impudícia, culto de ídolos abomináveis” (Sb 14,25-27).

Trecho ainda sem tradução — texto em latim

7. Sequitur: "Et mulier erat circumdata purpura" etc. In purpura, amor dignitatis; in coccino, quod sanguinei est coloris, crudelitas mentis; in auro, mundana sapientia; in lapide pretioso et margaritis divitiarum opulentia designatur. Istis mulier fornicaria, Babylon magna, Satanae synagoga, carnalium turba circumdatur et ornatur. De qua subditur: "Habens poculum aureum in manu sua" etc. Poculum, vel calix aureus, in manu Babylonis est mundi gloria, foris aurea, sed intus omni spurcitia et abominatione plena. Unde Salomon in Parabolis: "Fallax gloria, et vana pulchritudo" (Prov 31,30). Hoc calice inebriantur reges mundi, Ecclesiae praelati, religiosae et religiosi. Unde Ioannes: "Cum qua, inquit, fornicati sunt reges terrae, et inebriati sunt qui habitant terram de vino prostitutionis eius" (Apoc 17,2).

De qua ebrietate dicit Isaias: "Dominus immiscuit in medio AEgypti spiritum vertiginis, et errare fecit AEgyptum in omni opere suo, sicut errat ebrius et vomens" (Is 19,14). Vertigo proprie est quotiescumque ventus consurgens terram in gyrum mittit, vel dolor capitis. In medio AEgypti, idest in mundanis, Dominus miscuit, idest misceri permisit, spiritum vertiginis, idest amorem cupiditatis, cuius impulsu, quasi quodam vento, in circuitu mutantur, et sic errant sicut ebrius, qui numquam invenit viam latam; et sicut ebrius dum trahitur, dum percutitur non sentit, sic nec isti. Unde dicunt in Parabolis: "Verberaverunt me, et non dolui, traxerunt me et non sensi" (Prov 23,35); quia miser peccator non dolet, cum a daemonibus verberatur; nec sentit, cum de peccato in peccatum ab ipsis trahitur.

De hoc habes concordantiam in Threnis Ieremiae: "Gaude et laetare, filia Edom, quae habitas in terra Hus: ad te quoque perveniet calix, inebriaberis atque nudaberis" (Lam 4,21). Edom interpretatur sanguis. Filia Edom est carnalium effeminata voluptuositas. Huic ironice loquitur Propheta: "Gaude et laetare." Gaudet in abundantia saeculi, laetatur in carnis luxuria. Haec habitat in terra Hus, quod interpretatur consilium, de quo dicit Isaias: "Sapientes consiliarii Pharaonis dederunt consilium insipiens" (Is 19,11). Sapientes huius mundi dant consilium insipiens, temporalia scilicet quaerere, fugientia apprehendere, falsae mundi promissioni credere. Istius mundi consilio filia Edom decepta, calice aureo mundanae gloriae inebriatur et postmodum denudatur. Huius enim saeculi amatores post temporalium ebrietatem nudabuntur omnibus bonis, et nudati damnabuntur aeternis poenis.

Unde subdit Ioannes in Apocalypsi: "Sustulit, inquit, unus angelus fortis unum lapidem quasi molarem magnum, et misit in mare dicens: Hoc impetu mittetur Babylon, illa magna civitas et ultra non invenietur" (Apoc 18,21). "Angelus fortis" est Christus, quia aereas potestates devicit. "Sustulit unum lapidem," quia elevat malos habentes dura corda, ut gravius puniat; "quasi molarem magnum," quia per mundana volvuntur, vel quia alios conterunt; "et misit

in mare," idest in amaritudinem inferni, ut quantum se Babylon exaltavit et in deliciis fuit, tantum sentiat tormentorum (cf. Apoc 18,7).

8. Diz, portanto, muito bem o Senhor no Evangelho de hoje: “O mundo se alegrará, mas vós ficareis tristes; contudo, a vossa tristeza se transformará em alegria”, e a alegria daquele se transformará em tristeza. Por isso, neste mesmo evangelista, diz o Senhor: “Todo homem põe primeiro o vinho bom e depois o inferior” (Jo 2,10). Neste mundo bebem o vinho da alegria, mas no outro beberão o vinagre da geena. Por isso, em Jeremias: “Eis que aqueles a quem não fora imposto beber o cálice, dele beberão; e tu, acaso serás deixada como inocente? Não serás inocente, mas, bebendo, beberás. Porque jurei por mim mesmo, diz o Senhor, que Bosra será transformada em deserto, opróbrio, escárnio e maldição” (Jr 49,12-13). Os santos, aos quais não foi imposto beber o cálice da tristeza deste século, bebem-no com a amargura do coração e hão de bebê-lo com a dor do corpo; pois sofrem e gemem por todas as abominações que se cometem no meio de toda a terra. E tu, Babilônia, mãe das fornicações, serás deixada como inocente? Não serás inocente, mas, tendo bebido neste século o vinho da alegria, beberás no outro o vinagre do inferno. Diz Gregório: “Se tão grande é a fragilidade da vida mortal, que nem sequer os justos, que hão de habitar no céu, passam daqui para a outra vida sem trabalhos, por causa do incalculável acúmulo da miséria humana, quanto mais aqueles que serão privados da glória celeste devem esperar o certo desfecho de sua condenação eterna?” E ainda: “Sempre que considero a paciência de Jó e recordo em minha mente a morte de são João Batista, digo-te, ó pecador: compreende desde já o que hão de sofrer aqueles que o Senhor reprova, se sofrem assim aqueles que, pelo testemunho do próprio juiz, são louvados. Que será do arbusto do deserto, quando o cedro do paraíso é abalado pelo temor?

Segue-se: “Jurei por mim mesmo, diz o Senhor”, porque não tenho ninguém maior (cf. Hb 6,13), “que Bosra”, que se interpreta como fortificada, isto é, a pérfida sinagoga dos mundanos, que se fortifica contra o Senhor com os baluartes dos pecados e os dardos das defesas, “será transformada em deserto”, porque permanecerá sozinha, sem a companhia da graça, “em opróbrio”, porque despojada dos bens temporais, “em escárnio”, porque enganada pelos demônios, “e em maldição”, isto é: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41).

Segue-se: “A mulher, quando dá à luz, sente tristeza”. Triste é assim chamado, como que triturado, de tero, teris. Os santos, na peregrinação deste exílio, são triturados, afligidos e angustiados; deles o mundo não era digno (cf. Hb 11,37-38). A eles fala Pedro na epístola de hoje: “Caríssimos, exorto-vos, como estrangeiros e peregrinos, a vos absterdes dos desejos carnais, que combatem contra a alma” (1Pd 2,11). Advena é assim chamado, como que vindo de outro lugar. Peregrino é aquele que parte para fora de sua pátria. Todos somos estrangeiros, porque de outro lugar, isto é, da alegria do paraíso, viemos para a miséria deste exílio; somos também peregrinos, porque, expulsos da presença e dos olhos de Deus, partimos mendigando, fora da pátria celeste.

Abstenhamo-nos, portanto, dos desejos da carne, imitando Nabot, que se interpreta “conspícuo”, para que, assim como ele preferiu morrer, conforme se diz no terceiro livro dos Reis, a vender sua herança (cf. 3Rs 21,1-14), também nós devamos preferir sofrer quaisquer penas a entregar a glória eterna pelos deleites da carne.

E, se fizermos isso, nossa tristeza se transformará em alegria. A isso se harmoniza o intróito da missa de hoje: “Aclamai a Deus, ó terra inteira, entoai um salmo ao seu nome; dai glória ao seu louvor” (Sl 65,1-2). Diz três coisas: “Aclamai”, isto é, com o coração; “entoai um salmo”, com a boca; “dai glória”, com as obras, para que mereçamos chegar à glória da alegria eterna.

III. Da glória eterna

9. Segue-se o terceiro: “Novamente, porém, vos verei, e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo 16,22). Observa que Deus nos vê de três modos. Primeiro, conferindo-nos a graça. Por isso disse a Natanael: “Quando estavas debaixo da figueira, eu te vi” (Jo 1,48). Os exilados do paraíso receberam vestes feitas de folhas de figueira, que provocam comichão na carne. Está debaixo da figueira aquele que escolhe para si uma morada à sombra de uma conduta tíbia e na comichão da carne libidinosa. Deus vê este homem quando lhe confere a graça. Em segundo lugar, vê quando conserva a graça concedida. Por isso se lê no Gênesis: “O Senhor viu todas as coisas que havia feito; e eram muito boas” (Gn 1,31). Todas as coisas que o Senhor realiza em nós, quando nos infunde a graça, são boas; mas quando vê, isto é, quando conserva em nós essas mesmas coisas, então são muito boas, isto é, perfeitas. Em terceiro lugar, nos verá quando nos tomar para si. Por isso diz: “Novamente vos verei, e o vosso coração se alegrará”.

O coração é a fonte do calor e o princípio do sangue, e é também o princípio dos movimentos das coisas agradáveis e das nocivas; e, em geral, os movimentos de todos os sentidos começam nele e a ele retornam. E a força espiritual permanece por último no coração; e acontece que todos os membros padecem a mortificação antes do coração, que é o primeiro e o último a mover-se em nós. Portanto, como o coração é o membro mais nobre que os demais, o Senhor diz dele: “E o vosso coração se alegrará”, para que, assim como dele procede a vida, dele também proceda a alegria.

10. “E ninguém vos tirará a vossa alegria.” A isso corresponde a última parte do Apocalipse: “O anjo”, diz João, “mostrou-me um rio de água viva, resplandecente como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da praça da cidade” (Ap 22,1-2). No rio é designada a eternidade; na água viva, a saciedade; no cristal resplandecente, a claridade; e no trono de Deus e do Cordeiro, Deus e homem, é designada a humanidade glorificada. Eis a vossa alegria, que ninguém vos tirará.

Do rio da eternidade diz o Senhor por meio de Isaías: “Ah! se tivesses atendido aos meus mandamentos, a tua paz teria sido como um rio” (Is 48,18). O rio tem águas perenes. Ó homem, se atendes aos mandamentos de Deus, gozarás seguro na paz da eternidade. Da saciedade proporcionada pela água viva se diz no Salmo: “Em ti está a fonte da vida” (Sl 35,10): fonte inesgotável, fonte que sacia a todos; quem dela beber não terá sede eternamente (cf. Jo 4,13). Sobre o esplendor se diz no mesmo Apocalipse: “A cidade não necessita do sol nem da lua; pois a claridade de Deus a ilumina, e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,23), isto é, o Filho de Deus. Do seu trono, isto é, da humanidade na qual a divindade se humilhou, procedem a luz da eternidade, a água viva da eterna saciedade e o esplendor cristalino da claridade divina, para o meio, isto é, para a comunidade, da praça da cidade, da Jerusalém celeste, porque Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28); todos receberão um só denário, todos participarão da mesma recompensa, dando graças ao Verbo encarnado, porque por meio dele se tornaram eternos, saciados, resplandecentes e bem-aventurados.

Também nós vos rogamos, Senhor Jesus, que, no setenário desta breve vida, nos façais conceber o espírito da salvação e dar à luz, na tristeza do coração, o herdeiro da vida eterna, para que na Jerusalém celeste mereçamos beber do rio de água viva e nos alegremos convosco. Concedei-nos isso, vós que sois bendito, glorioso, digno de louvor e de amor, doce e imortal pelos séculos eternos. Diga toda criatura: Amém. Aleluia.

IV. Da alma sofredora e que dá à luz a boa obra

11. “A mulher, quando dá à luz, sente tristeza.” Diz Isaías: “O Senhor te chamou como uma mulher abandonada e aflita de espírito” (Is 54,6). O Senhor, pela inspiração de sua graça e pela pregação da Igreja, chama à penitência a mulher, isto é, a alma pecadora, fraca e efeminada: abandonada pelo diabo, mas acolhida por Deus. Por isso ela diz: “Meu pai”, isto é, o diabo, “e minha mãe”, isto é, a concupiscência carnal, “abandonaram-me; mas o Senhor acolheu-me” (Sl 26,10). Aqueles que o diabo abandona, Cristo acolhe.

Diz-se que o corvo não alimenta seus filhotes antes de ver crescer neles penas negras; por isso, enquanto isso, os pequenos corvos vivem assim: moscas se reúnem em torno da espuma que escorre da boca dos corvinhos; então estes sugam a própria espuma juntamente com as moscas e, desse modo, são maravilhosamente alimentados. Por isso, Jó diz: “Quem prepara alimento para o corvo, quando seus filhotes clamam a Deus, vagando, por não terem comida?” (Jó 38,41). E no Salmo: “Ele dá alimento aos animais e aos filhotes dos corvos que o invocam” (Sl 146,9). Mas o corvo, se vê crescer brancas as penas de seus filhotes, abandona-os e lança-os para fora do ninho.

O corvo é o diabo. Os filhos do corvo são os pecadores que vivem em pecado mortal, imitando a negrura paterna. Por isso, deles diz o profeta Naum: “O rosto deles é como a negrura da panela” (Na 2,10). A panela contrai a negrura do fogo e da fumaça. O rosto são as obras, pelas quais, como pelo rosto, o homem é reconhecido. “Pelos frutos deles os conhecereis” (Mt 7,16). As obras dos pecadores são, portanto, como a negrura da panela, porque foram enegrecidas pelo fogo da sugestão diabólica e pela fumaça da concupiscência carnal. Por isso, diz Jeremias nas Lamentações: “Seu rosto se tornou negro sobre as brasas” (Lm 4,8). Os pecadores são, portanto, filhos do diabo; mas, quando, pela graça, recebem novamente a brancura da remissão dos pecados, então o diabo os abandona, e o Senhor, cheio de misericórdia, acolhe-os nos braços de sua misericórdia.

Diz-se, portanto, com razão: “Uma mulher abandonada e aflita de espírito”. Por isso, ela diz nas Lamentações de Jeremias: “Ele me deixou desolada, consumida de tristeza o dia inteiro” (Lm 1,13). “Desolada”, isto é, privada do consolo das coisas temporais; “consumida de tristeza”: excelente composição, quando, com estas três espécies escolhidas — a contrição, a confissão e a satisfação — e com o bálsamo da divina misericórdia, pela obra do boticário, isto é, do Espírito Santo, se prepara o electuário para a alma penitente. Dela diz o Senhor no Evangelho de hoje: “A mulher, quando dá à luz, sente tristeza”.

E, porque o Senhor apresentou o exemplo da mulher que dá à luz e de sua dor, para nos ensinar a entristecer-nos pelo pecado e a dar à luz a boa obra, queremos, por isso, explicar de que modo o homem é concebido no ventre materno, como se forma, como é levado durante nove meses e como nasce com dor; primeiro falaremos segundo a natureza e, depois, explicaremos moralmente algumas dessas coisas.

12. [segundo a natureza]. A mulher concebe no prazer e dá à luz na dor. Depois da fecundação, aumenta de peso e forma-se em seus olhos como que uma sombra; em algumas, isso acontece cedo, depois de dez dias, e em outras mulheres demora mais. Durante a gestação, sobrevém às grávidas uma diminuição do apetite, quando começam a nascer cabelos na cabeça do embrião. Entre todos os órgãos, o coração é formado primeiro, e os órgãos internos formam-se antes dos externos. E primeiro se configura a parte superior, do diafragma para cima, e ela é, em proporção, a maior; a parte inferior, porém, é menor. Necessariamente, o órgão que é o coração deve ser criado antes dos outros, pois é o princípio do movimento e é o órgão que possui um grande campo de influência, porque dele procede a vida. E o coração está situado na parte superior e na parte anterior: aquilo que é mais nobre está naturalmente colocado no lugar mais nobre.

Somente o coração, entre todos os órgãos internos, não pode sofrer dor nem grande enfermidade. E isso é justo, porque, quando o princípio se corrompe, já não auxilia em nada os órgãos restantes. Os outros órgãos recebem força do coração; o coração, porém, não a recebe deles. E não há osso em nenhum coração, exceto no do cavalo e no de uma certa espécie de vacas, pois no coração desses animais há um osso por causa da grandeza do corpo. O osso, com efeito, é colocado naturalmente no coração para sustentá-lo, como em todos os demais membros.

Depois da criação do coração, portanto, é criada a parte superior do corpo. Por isso, na formação do embrião, aparecem primeiro a cabeça e os olhos. Já os membros que estão abaixo do umbigo, como as pernas e as coxas, aparecem muito pequenos, pois a parte inferior do corpo é ordenada somente à parte superior.

Deve, portanto, estar no coração o fundamento dos sentidos e todas as potências naturais; por isso o coração é criado primeiro. E, por causa do calor do coração e da saída das veias a partir dele, a natureza colocou, em oposição ao coração, um órgão frio, isto é, o cérebro; por isso, no processo da geração, a cabeça é formada depois da criação do coração. O tamanho da cabeça é maior que o dos outros membros, porque o cérebro é grande e úmido desde o início de sua formação. Por isso, os recém-nascidos não conseguem sustentar a cabeça por muito tempo, por causa do peso do cérebro. E todos os membros recebem primeiro sua configuração e seus traços; depois recebem, com precisão, suas cores, sua dureza e sua maciez, pois o pintor primeiro desenha e depois aplica as cores sobre o desenho, até completar sua obra.

Se no corpinho se formam os atributos masculinos, a cor é mais bela nas grávidas e o parto do útero será mais fácil. O menino começa a mover-se já no quadragésimo dia. O outro sexo, isto é, o feminino, começa a palpitar somente no nonagésimo dia, e, desde que concebida, a menina cobre de palidez o rosto da gestante e torna-lhe as pernas fracas e lentas. Em ambos os sexos, quando nascem os cabelos, aumentam os incômodos da mãe, e nas luas cheias a indisposição se agrava; a lua cheia também sempre prejudica os que já nasceram. Se a grávida come alimentos muito salgados, o filho nasce sem unhas.

Observa também que todo animal quadrúpede permanece estendido no útero, e todo animal sem pés permanece de lado no útero, como os peixes — por exemplo, a baleia e o golfinho, que carregam os filhos no ventre. Outros peixes, porém, põem seus ovos na água e, por isso, amam pouco os filhos, porque pouco se esforçam por eles. Por isso diz Habacuc: “Fizeste os homens como os peixes do mar e como o réptil que não tem chefe” (Hab 1,14).

E todo animal que tem dois pés permanece curvado no útero, como as aves e o homem, pois permanecem dobrados no útero, com o nariz entre os joelhos e os olhos acima dos joelhos. Por isso as faces são chamadas assim por causa dos joelhos — em latim, genae, faces, derivado de genu, joelho —; e, quando dobramos os joelhos na oração, os olhos são, por uma espécie de piedosa afinidade, levados às lágrimas.

E suas orelhas ficam para fora. E todos os animais, no princípio, mantêm a cabeça voltada para cima; quando estão completos e se movem para sair, voltam a cabeça para baixo. Isso porque a parte superior é maior que a inferior, como acontece com a balança, quando o lado mais pesado se inclina para a terra.

E as mãos do embrião humano ficam estendidas sobre as costelas; mas, quando a criança nasce, imediatamente as mãos vão à boca.

Quando a mulher está próxima de libertar o útero e chega o momento do parto, convém que retenha o máximo possível o fôlego, pois o bocejo pode interromper o parto, e tal demora seria mortal. Isso acontece sobretudo às mulheres que não têm o tórax amplo e, por isso, não conseguem reter bem a respiração. Observa ainda que, em muitas mulheres, o estado de saúde piora durante a gestação; isso acontece por causa da inatividade, pela qual se acumulam nelas muitos humores supérfluos. Nas mulheres que trabalham, porém, a gestação não produz tais inconvenientes como nas outras; e talvez deem à luz imediatamente, pois o trabalho consome os humores supérfluos. O trabalho é uma daquelas coisas que fazem evaporar muito, de modo que a mulher, no momento do parto, pode reter o fôlego; pois, se fizer isso, o parto será rápido e fácil; se não o fizer, ocorrerá o contrário, porque será doloroso, difícil e triste. A mulher, portanto, quando dá à luz, fica na tristeza.

13. Sentido moral. A mulher é a alma. A graça do Espírito Santo é como que o esposo, que a engravida do filho da bênção, isto é, do propósito da boa vontade e do espírito da salvação. Por isso, diz Isaías: “Diante de tua face, Senhor, concebemos e demos à luz o espírito da salvação” (cf. Is 26,17-18). Depois de engravidar, a alma se torna pesada, porque se aflige pelos pecados; sua visão se embota pela névoa, porque o esplendor das coisas temporais se obscurece para ela. Por isso, diz Jó: “Escureçam-se as estrelas pela sua névoa” (Jó 3,9). As estrelas da glória mundana serão obscurecidas pela névoa da penitência. Durante a gravidez sobrevêm a diminuição do apetite e a repugnância, porque a alma, depois de engravidada pela graça de Deus, se torna incapaz do mal e sente repugnância pelos vícios de antes. Por isso, diz a esposa do Cântico dos Cânticos: “Anunciai ao meu Amado que desfaleço de amor” (cf. Ct 5,8). O homem que desfalece é fraco e sente repugnância pelos alimentos. Assim, a alma desfalece de amor por seu esposo quando se torna incapaz de praticar o mal e sente repugnância pelos vícios anteriormente praticados.

O coração é formado primeiro entre todos os membros. No coração é indicada a humildade, na qual ela escolhe sua principal morada. “Aprendei”, diz o Senhor, “de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Esta deve formar-se antes das demais virtudes, porque ela é a forma que reforma o que foi deformado. Dela, com efeito, procede o princípio motor de toda boa obra, tendo grande domínio entre as demais, porque é a mãe e a raiz de todas as virtudes. Por isso, diz Salomão nos Provérbios: “Melhor é o cão vivo que o leão morto” (Ecl 9,4). A Glosa diz nesse lugar: É melhor o publicano humilde que o fariseu soberbo; quanto mais se humilhou, tanto mais foi exaltado. Por isso, o bem-aventurado Bernardo: “Quanto mais profundamente lançares os fundamentos da humildade, tanto mais alto se elevará o edifício”. A humildade é mais nobre que as demais virtudes, pois, com sua nobreza, suporta humildemente as coisas menos nobres e menos honrosas; deve ser ordenada principalmente no lugar superior, isto é, nos olhos, e no lugar anterior, isto é, nos gestos do corpo. Por isso, diz-se do publicano humilde: “Não ousava levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Deus, tem piedade de mim, pecador” (Lc 18,13).

Assim como o coração não pode sofrer dor nem enfermidade, assim a verdadeira humildade não pode suportar isto, a saber, afligir-se pela injúria recebida nem adoecer por causa da prosperidade alheia. E isso é justo, porque, se a humildade se corrompe, desfaz-se a estrutura das demais virtudes. Por isso, diz Gregório: “Quem reúne virtudes sem humildade é como aquele que lança poeira contra o vento”.

E em nenhum coração há osso, exceto no coração do cavalo e de certas vacas. No cavalo é representado o hipócrita arrogante; na vaca, o luxurioso. Na humildade simulada do hipócrita há o osso da soberba e da rapina: com efeito, ele se envaidece com as penas do avestruz e rouba os louvores da santidade alheia. Na humildade instável do luxurioso há o osso da desculpa e da obstinação. Por meio desses dois animais, o cavalo e a vaca, entendem-se todos os gêneros de vícios.

14. Segue-se: depois da criação do coração, etc. Depois que a humildade se forma na mente do homem, então se faz a distinção entre a parte superior e a inferior; e, porque a parte superior é mais digna que a inferior, ela é formada primeiro, e nela aparecem antes de tudo a cabeça e os olhos. A parte superior é a vida contemplativa, na qual aparece primeiro, e deve aparecer primeiro, a cabeça da caridade, da qual se diz no Cântico dos Cânticos: “A sua cabeça é ouro puríssimo” (Ct 5,11). O ouro é puro e luminoso. Assim também a caridade deve ser pura para com Deus e luminosa para com o próximo.

E aparecem os olhos, isto é, o conhecimento da felicidade eterna. A vida ativa, como parte inferior, deve servir à contemplação, porque a parte inferior existe somente em função da parte superior. Por isso diz o Apóstolo: “Não o homem por causa da mulher, mas a mulher foi formada por causa do homem” (cf. 1Cor 11,9), porque não a vida contemplativa foi instituída por causa da ativa, mas a vida ativa por causa da contemplativa.

E assim como o cérebro, membro frio, está colocado em oposição ao coração, para temperar o seu calor, assim também a vida contemplativa, que consiste na compunção da mente, está colocada em oposição à vida ativa, para que, com a sua oração e com a compunção das lágrimas, tempere o fervor do trabalho e o calor da tentação desta, a qual deve consistir na humildade do coração.

E assim como a grandeza da cabeça é maior que a dos outros membros, assim a graça da contemplação é mais sublime, porque está mais próxima de Deus, a quem contempla. Ai! Quantas crianças, isto é, quantos inconstantes de mente, tentaram suportar a grandeza desta cabeça, mas não puderam carregá-la por muito tempo, por causa de sua grandeza. Somente Abraão, isto é, o homem justo, subiu ao monte da vida contemplativa com o menino, isto é, com a pureza da mente. Os servos, porém, permaneceram no vale do prazer mundano, esperando com o jumento (cf. Gn 22,3-5), isto é, com a lentidão do jumento.

E assim como todos os membros recebem primeiro os seus limites, sinais, cores, dureza e suavidade, assim também todas as virtudes devem ter os seus “limites”, para que, caminhando pela via régia, não se desviem para a direita nem para a esquerda; para que, sob o pretexto da justiça, a crueldade não reivindique para si um lugar, e a negligência indolente não se disfarce com o manto da mansidão. Devem ter também os “sinais” da Paixão do Senhor, para que tudo quanto fazemos de virtuoso seja inteiramente marcado com o selo sanguíneo da Cruz do Senhor. E devem ter “cores”, não sombrias, mas verdadeiras, para que os vícios, tingidos com a cor das virtudes, não enganem a alma. Por isso diz Santo Isidoro: Alguns vícios apresentam a aparência das virtudes; por isso enganam mais funestamente os seus seguidores, pois se ocultam sob o véu da virtude. E o Filósofo: Não há ciladas mais ocultas do que aquelas que se escondem sob a aparência do dever. Com efeito, o cavalo de Troia enganou precisamente porque fingia ter a forma de Minerva. As virtudes devem ter também “dureza” e “suavidade”: vinho e óleo, vara e maná, golpes e seios, ferro e unguento.

15. Segue-se: “Se o corpinho for figurado como macho” etc. No macho é designada a obra virtuosa; na fêmea, a obra efeminada. Quando a alma concebe uma obra virtuosa, está em boa disposição, porque dispõe todas as coisas reta e ordenadamente; e tem boa cor, porque agrada a Deus e edifica o próximo. É este o macho que o faraó, isto é, o diabo, quer submergir no rio do Egito (cf. Ex 1,22), isto é, no amor deste mundo. A respeito deste macho se diz no primeiro livro dos Reis: “Senhor dos exércitos”, disse Ana, “se deres à tua serva um filho varão, eu o entregarei ao Senhor por todos os dias da sua vida” (1Rs 1,11). Ela pede um filho varão, não uma fêmea. Pois sabia que o faraó havia ordenado que as fêmeas lhe fossem reservadas (cf. Ex 1,22). No sexo feminino, portanto, é designada a obra da mente efeminada; quando a mísera alma a concebe, seu rosto se cobre de palidez, isto é, torna-se disforme pelo amor das coisas terrenas, e é impedida por uma lânguida lentidão, porque, negligente e tíbia, privada de forças, é retardada na boa obra. Esta é a filha do rei do Egito, que tornou vã a sabedoria de Salomão e desviou o seu coração, para que seguisse deuses estrangeiros (cf. 3Rs 11,3-4). Ai! Quantos sábios hoje, tíbios pela efeminação da mente, seguem os pecados mortais! Quantos pecados mortais tens, tantos deuses adoras. Diz o bem-aventurado Bernardo: “Ainda que sejas sábio, falta-te sabedoria se não o fores para o teu próprio bem”.

Quando surgem na mente os cabelos, isto é, os pensamentos supérfluos, causam grande dano à alma, porque “os pensamentos perversos”, como diz Salomão, “separam de Deus” (Sb 1,3).

E quando a grávida come alimentos muito salgados, o filho nasce sem unhas. O sal torna estéril a terra. A mulher de Lot foi transformada numa estátua de sal (cf. Gn 19,26). O Senhor ordenou que o sal insípido fosse lançado fora (cf. Mt 5,13). O sal, neste lugar, significa a vanglória, que torna estéril toda obra. Se a alma que está para dar à luz o herdeiro da vida eterna comer o sal da vanglória, sua obra ficará sem unhas, isto é, será privada da perseverança final e da glória celeste.

Do mesmo modo, a ave e o homem estão curvados no ventre; seus narizes estão entre os joelhos, os olhos sobre os joelhos e as orelhas voltadas para fora. No nariz é designada a discrição; nos joelhos, a compunção das lágrimas e a aflição da penitência; nos olhos, a iluminação da mente; e nas orelhas, o mandamento da obediência. A ave e o homem significam o propósito da boa vontade, porque a ave voa na contemplação, e o homem trabalha na ação. “O homem”, diz Jó, “nasce para o trabalho, e a ave para voar” (Jó 5,7). O seu nariz deve estar entre os joelhos, para que proceda com discrição, tanto na compunção da mente como na aflição do corpo, seguindo o meio-termo; e os olhos sobre os joelhos, para que faça todas as coisas com a iluminação de uma consciência alegre, porque Deus ama quem dá com alegria (cf. 2Cor 9,7); e as orelhas voltadas para fora, para que obedeça livremente, porque a obediência, como diz Gregório, insere em si as demais virtudes e conserva as que foram inseridas.

Este filho da alma deve estender as mãos sobre as costelas. As costelas são assim chamadas porque por elas se protegem as partes interiores; significam a pequenez de si mesmo e o desprezo do mundo, que protegem muito bem todas as virtudes. Sobre elas, o filho da alma deve estender e firmemente apoiar as mãos das obras, para dizer com Abraão: “Falarei ao meu Senhor, embora eu seja pó e cinza” (Gn 18,27); e com Davi: “A quem persegues, rei de Israel? A quem persegues? A um cão morto persegues, e a uma só pulga” (1Rs 24,15); e com o Apóstolo: “Para mim o mundo está crucificado, e eu para o mundo” (Gl 6,14) etc.

E, ao nascer, imediatamente leva as mãos à boca. Com isso se significa que cada um, lembrado de seu nascimento, deve pôr a mão sobre a boca, para não pecar com a língua, porque, como diz Salomão, quem guarda os seus lábios guarda a sua alma (cf. Pr 21,23).

Do mesmo modo, quando a mulher se aproxima do momento de dar à luz, chegam os momentos da maturação etc. “A mulher, quando dá à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora.” A hora do parto da mulher é a confissão da alma penitente, na qual deve entristecer-se e emitir gemidos amargos, dizendo com o Profeta: “Cansei-me de tanto gemer” (Sl 6,7). Note-se que na mulher que dá à luz se consideram quatro coisas: a dor e o trabalho de parto, a alegria pelo nascimento e o ofício da parteira. Essas mesmas coisas se consideram também no penitente, cuja figura é a mulher que dá à luz.

16. Do sofrimento e do trabalho fala o profeta Miqueias: “Acaso não tens rei, ou pereceu o teu conselheiro, porque te apoderou a dor como a uma parturiente? Sofre e esforça-te, filha de Sião, como uma parturiente; porque agora sairás da cidade, habitarás na região e chegarás até a Babilônia: ali serás libertada, ali o Senhor te resgatará da mão dos teus inimigos” (Mq 4,9-10). Jesus Cristo é o rei, porque governa a alma para que não se desvie; “conselheiro”, porque a aconselha a esperar na misericórdia, e lhe diz: “Sofre, ó filha de Sião”, isto é, alma, com a dor da contrição; esforça-te, isto é, empenha-te bastante, no trabalho da satisfação, para que a pena corresponda à culpa, “porque agora sairás da cidade”, isto é, da congregação dos santos, o que se faz com os penitentes no início do jejum, pois o leproso habitava separado, fora do acampamento (cf. Lv 13,46); “e habitarás na região” da dessemelhança, na qual o filho pródigo dissipou os bens do pai, vivendo dissolutamente (cf. Lc 15,13). Habitarás, digo, para reconhecer a tua dessemelhança e recuperar a semelhança com Deus, segundo a qual foste formada, “e chegarás até a Babilônia”, isto é, à confusão do pecado, para que, confundida com o teu pecado, reconheças o pecado, reconhecido o chores e, chorando, recebas a graça; “ali serás libertada”, porque, como diz Agostinho, “se tu reconheces, Deus perdoa”; “ali Deus te resgatará da mão dos teus inimigos”, porque a confusão do pecado é a expulsão dos demônios.

Da alegria do parto espiritual diz o Senhor em Lucas: “Há alegria no céu por um só pecador que faz penitência” (Lc 15,7); e: “Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que havia perdido” (Lc 15,9); e, acerca de João, Gabriel diz: “Muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1,14); e no Gênesis se diz que Abraão ofereceu um grande banquete no dia em que Isaac foi desmamado (cf. Gn 21,8): com efeito, quando o pecador é desmamado, isto é, separado do leite da convivência mundana e da concupiscência carnal, então Abraão, isto é, Deus Pai, oferece um grande banquete no céu. Por isso diz em Lucas: “É preciso festejar e alegrar-se, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado” (cf. Lc 15,32).

Sobre o ofício das parteiras, isto é, sobre a diligência dos sacerdotes, diz Jó: “Com a sua mão em função de parteira, foi extraída a serpente tortuosa” (Jó 26,13). As parteiras são assim chamadas de obstando, isto é, de servir; as parteiras são os sacerdotes, que devem servir e assistir aos pecadores que se confessam. Por isso se diz: “Com a sua mão em função de parteira”. A mão do Senhor é o sacerdote, por meio do qual deve ser extraída do pecador a serpente, isto é, o homem velho, para que depois dê à luz o homem novo. Assim como, segundo se conta, em certa região as mulheres, ao dar à luz, primeiro expulsam um sapo antes da criança, assim também o penitente: primeiro, pela confissão, expulsa o homem velho e, por fim, dá à luz em si o homem novo. Se quiser dá-lo à luz com mais segurança, facilidade e tranquilidade, cuide para não bocejar.

Boceja aquele que confessa a história de seus pecados com tibieza e como que dormindo. Boceja aquele que, impedido pela vergonha, não confessa o pecado que se havia proposto confessar. Por isso Isaías diz: “Os filhos chegaram até o parto, mas não há força para dá-los à luz” (Is 37,3). Isso acontece quando o pecado está na boca, mas, por causa da vergonha, não é revelado na confissão, e assim morre a infeliz alma. Se sofresse e trabalhasse, sem dúvida se alegraria com o parto.

Mas, por causa da inércia e da tibieza, pelas quais se acumula nela um excesso de maus pensamentos, a sua disposição piora e ela corre perigo no parto. Diz Jerônimo: É preciso fazer sempre alguma coisa, para que, quando a mão cessa, o campo do nosso coração não seja ocupado pelos espinhos dos maus pensamentos. E Isidoro: A luxúria queima mais intensamente aquele que encontra ocioso. Na alma, porém, do verdadeiro penitente há dor e trabalho e, por isso, o parto da confissão é leve e fácil. Com efeito, o trabalho consome as superfluidades e é uma das coisas que fazem evaporar abundantemente. Por isso o Senhor diz no Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Rosto é assim chamado porque nele se manifesta a vontade da alma. No rosto do verdadeiro penitente manifesta-se a dor da contrição e escorrem as lágrimas da amargura, como que um certo suor do corpo, e ali está o pão e o alimento do próprio penitente.

Diz-se, portanto, com razão: “A mulher, quando dá à luz, fica triste; mas, quando dá à luz o filho, já não se lembra da aflição, por causa da alegria” (Jo 16,21), isto é, da glória eterna. Por isso Isaías diz: “As tribulações anteriores foram entregues ao esquecimento e não estarão na memória nem subirão ao coração; mas vós vos alegrareis e exultareis para sempre” (Is 65,16-18).

Digne-se conduzir-nos, da tristeza deste mundo, àquela alegria, aquele que vive e reina com Deus Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.