Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 11

Domingo IV da Quaresma Dominica IV in Quadragesima

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 3 seções · 5 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do IV domingo da Quaresma: “Com cinco pães”.

Primeiro, sermão para o pregador: “Lança o teu pão”.

Também sermão para a reprovação do pecado: “Judas, por meio de um jovem de Odolam, enviou um cabrito a Tamar”; e os cinco pães e seu significado.

Também sermão sobre os cinco côvados da árvore da mirra: “Com cinco pães”; os cinco irmãos de Judá e seu significado.

Também sermão sobre as quatro coisas malditas e o encontro quíntuplo e seu significado: “Por três coisas se move a terra”.

Exórdio. Sermão ao pregador

1. Com cinco pães e dois peixes, o Senhor saciou cinco mil homens (cf. Jo 6,1-15).

Aos pregadores fala Salomão no Eclesiastes: “Lança o teu pão sobre as águas que passam, e depois de muito tempo o encontrarás” (Ecl 11,1). As águas que passam são os povos que escoam para a morte. Por isso diz a mulher de Técoa: “Todos escorregamos como a água” (cf. 2Rs 14,14). Diz Isaías: “Este povo rejeitou as águas de Siloé, que correm em silêncio, e tomou antes Rasin e Facee, filho de Romelias” (Is 8,6). Siloé interpreta-se “enviado”. As águas de Siloé são, portanto, a doutrina de Jesus Cristo, enviado pelo Pai.

Rejeitam esta água aqueles que se deixam arrastar pelos desejos terrenos e tomam Rasin, isto é, o espírito da soberba, e Facee, isto é, a impureza da luxúria; e por isso escorregam como a água para o profundo da geena. “Sobre” as “águas que passam”, portanto, ó pregador, “lança o teu pão”, o pão da pregação, do qual se diz: “Não só de pão” etc. (Mt 4,4), e Isaías: “A ele”, isto é, ao justo, “foi dado o pão” (Is 33,16); “e depois de muito tempo”, isto é, no dia do juízo, “o encontrarás”, isto é, encontrarás a recompensa por ele. Em nome do Senhor lançarei o pão sobre as águas, compondo para a vossa caridade um breve sermão sobre os cinco pães e os dois peixes.

Dos cinco pães e dos dois peixes

2. Digamos, portanto: “Dos cinco pães e dos dois peixes”, etc. Os cinco pães são os cinco livros de Moisés, nos quais se encontram os cinco alimentos espirituais da alma. O primeiro pão é a reprovação do pecado na contrição; o segundo, a manifestação do pecado na confissão; o terceiro, o desprezo e a humilhação de si mesmo na satisfação; o quarto, o zelo pelas almas na pregação; o quinto, a doçura da pátria celeste na contemplação.

Sobre o primeiro pão, tens no primeiro livro, isto é, no Gênesis, que Judá enviou, por meio de um jovem de Odolam, um cabrito a Tamar (cf. Gn 38,20). Judá interpreta-se “aquele que confessa” e significa o penitente, que deve enviar um cabrito, isto é, a reprovação do pecado, a Tamar, que se interpreta “amarga, transformada, palma”. Esta é a alma penitente, e na tríplice interpretação de seu nome se designa o tríplice estado dos penitentes: amarga, quanto ao estado dos principiantes; transformada, quanto ao dos que progridem; palma, quanto ao dos perfeitos. Odolamita interpreta-se “testemunho na água” e significa a compunção das lágrimas, pelas quais o penitente testemunha reprovar o pecado e não mais cometê-lo no futuro. E assim, desta Tamar, como diz Mateus, Judá poderá gerar Farés e Zara (cf. Mt 1,3). Farés interpreta-se “divisão”, e Zara, “oriente”. Primeiro, de fato, o penitente deve separar-se, dividir-se do pecado e depois voltar-se para o oriente, isto é, para a luz das boas obras. Diz o Profeta: “Afasta-te do mal”: eis Farés; “e faze o bem” (Sl 36,27): eis Zara.

Sobre o segundo pão, tens no segundo livro de Moisés, isto é, no Êxodo, onde se diz que Moisés “depois de ferir o egípcio, escondeu-o sob a areia” (Ex 2,12). Moisés interpreta-se “aquático” e significa o penitente, como que dissolvido nas águas da compunção. Ele deve ferir o egípcio, isto é, o pecado mortal, na contrição, e escondê-lo sob a areia na confissão. Diz, com efeito, Agostinho: “Se tu descobres, Deus cobre; mas, se tu cobres, Deus descobre”. Esconde, portanto, o egípcio aquele que revela o seu pecado; esconde-o, digo, diante de Deus, e revela-o ao sacerdote. Por isso se diz no Gênesis que Raquel escondeu os ídolos de Labão (cf. Gn 31,34). Raquel interpreta-se “ovelha”. Esta é a alma penitente, que deve esconder os ídolos de Labão, isto é, os pecados mortais do diabo. “Felizes”, diz o Profeta, “aqueles cujos pecados foram cobertos” (Sl 31,1).

Sobre o terceiro pão, tens no terceiro livro de Moisés, isto é, no Levítico, onde se ordena aos sacerdotes que lancem o papo da garganta e as penas no lugar das cinzas, no lado oriental (cf. Lv 1,16). No papo da garganta é indicado o ardor e a sede da avareza, da qual diz Jó: “Contra ele”, isto é, contra o avaro, “se inflamará a sede” (Jó 18,9). Na pena, a leviandade da soberba: “A pena”, diz Jó, “do avestruz”, isto é, do hipócrita, “é semelhante às penas da garça e do falcão” (Jó 39,13), isto é, do homem contemplativo. Estas coisas são lançadas no lugar das cinzas quando, com o coração compungido, pensamos na palavra da primeira maldição: “És cinza e à cinza retornarás” (Gn 3,19). O lado meridional é a vida eterna, da qual decaímos por causa dos primeiros pais. O penitente, portanto, humilha-se na satisfação e lança para longe de si o papo da avareza e a pena da soberba quando traz à memória a sentença da primeira maldição e geme diariamente por ter sido afastado da face dos olhos de Deus.

Sobre o quarto pão, tens no quarto livro, isto é, nos Números, onde se diz que Fineias, tomando um punhal, transpassou os dois fornicadores nas partes genitais (cf. Nm 25,7-8). Fineias é o pregador que, tomando o punhal, isto é, a palavra da pregação, deve transpassar os fornicadores nas partes genitais, para que, desnudada e como que lançada diante de seu rosto a sua torpeza, se envergonhem do crime cometido. “Revelarei”, diz o Senhor pelo Profeta, “as tuas vergonhas diante do teu rosto” (Na 3,5). E Davi diz: “Enche-lhes o rosto de ignomínia” (Sl 82,17), etc.

Sobre o quinto pão, tens no quinto livro, isto é, no Deuteronômio, onde se diz que Moisés subiu das planícies de Moab ao monte Abarim, e ali morreu diante de Deus (cf. Dt 34,1.5). Moisés, isto é, o penitente, das planícies de Moab, que se interpreta “do pai”, isto é, da conduta dos homens carnais, que têm por pai o diabo, deve subir ao monte Abarim, que se interpreta “passagem”, isto é, à sublimidade da contemplação, “para passar deste mundo ao Pai” (Jo 13,1).

Estes são os cinco pães dos quais se diz: “Dos cinco pães e dos dois peixes”, etc.

3. Estes são os cinco côvados da mirra, da qual Solino diz que, na Arábia, há uma árvore chamada mirra, elevada cinco côvados acima da terra (cf. Solino, “Polistória”, 46). A Arábia interpreta-se como “sagrada” e significa a santa Igreja, na qual está a mirra da penitência, que, pelos cinco côvados — que são os cinco pães evangélicos — eleva o homem acima das coisas terrenas. Estes são os cinco irmãos de Judá, dos quais Jacó diz no Gênesis: “Judá, teus irmãos te louvarão” (Gn 49,8); são eles: Rúben, Simeão, Levi, Issacar e Zabulon. Rúben interpreta-se “o que vê”; Simeão, “a escuta”; Levi, “o acrescentado”; Issacar, “recompensa”; Zabulon, “morada da fortaleza”.

Tenha, pois, Judá seu irmão Rúben, para que veja, na contrição, com aqueles sete olhos dos quais diz Zacarias: “Em uma só pedra”, isto é, no penitente, que deve ser pedra pela constância e uno pela unidade da fé, “havia sete olhos” (cf. Zc 3,9). Com o primeiro deve ver as coisas passadas, para chorá-las; com o segundo, as futuras, para precaver-se; com o terceiro, as prósperas, para não se exaltar; com o quarto, as adversas, para não se deixar abater; com o quinto, as coisas do alto, para saboreá-las; com o sexto, as coisas de baixo, para delas tomar desgosto; com o sétimo, as coisas interiores, para agradar a si mesmo em Deus.

Tenha, pois, também o segundo irmão, Simeão, na confissão, para que o Senhor ouça a sua voz, como diz Moisés no Deuteronômio: “Ouve, Senhor, a voz de Judá” (Dt 33,7); e dela se diz no Cântico dos Cânticos: “Que a tua voz ressoe aos meus ouvidos; doce é a tua voz” (Ct 2,14).

A estes dois, isto é, à contrição e à confissão, acrescenta-se o terceiro irmão, Levi, na satisfação, para que a medida da pena corresponda à culpa: “Produzi”, diz ele, “frutos dignos de penitência” (Lc 3,8). Com efeito, no Sinai, que se interpreta como “medida”, foi dada a lei. A lei da graça é dada àquele cuja penitência é proporcional à culpa.

Tenha também Judá o quarto irmão, Issacar, para que, fervoroso no zelo pelas almas, receba a recompensa da bem-aventurança eterna; mas o tronco inútil que ocupa a terra e o ignorante insensato que impede o lugar da Igreja não receberão a recompensa da vida eterna, mas a amargura da morte eterna.

Tenha, não obstante, suplico, o quinto irmão, Zabulon, para que, habitando na morada da contemplação com o simples Jacó (cf. Gn 25,27), mereça receber o sabor da doçura celeste.

Estes são os cinco pães dos quais se diz: “Dos cinco pães e dos dois peixes” etc.

4. Os dois peixes são o intelecto e a memória, com os quais devem ser temperados os cinco livros de Moisés, para que compreendas o que lês e guardes no tesouro da memória aquilo que compreendeste. Ou então, os dois peixes que são trazidos das profundezas do mar para a mesa do rei são Moisés e Pedro: Moisés, assim chamado por causa da água da qual foi tirado (cf. Ex 2,10), e Pedro, o pescador, elevado ao apostolado. Àquele foi confiada a Sinagoga; a este, a Igreja. Estas são Sara e Agar, das quais ouvistes na epístola de hoje: “Está escrito que Abraão teve dois filhos” (Gl 4,22) etc. A escrava Agar, que se interpreta como “solene”, significa a Sinagoga, que se gloriava nas observâncias da lei, como em certas solenidades. Sara, que se interpreta como “carvão em brasa”, significa a santa Igreja, inflamada pelo fogo do Espírito Santo no dia de Pentecostes. O filho daquela, isto é, o povo dos judeus, combate contra o filho desta, isto é, o povo dos crentes.

Ou, de outro modo: Sara, que se interpreta como “princesa”, é a parte superior da razão, que deve governar, como senhora, a escrava, isto é, a sensualidade, representada por Agar, que se interpreta como “abutre”. Com efeito, a sensualidade, como um abutre, segue os cadáveres dos desejos carnais. O filho desta, isto é, o impulso da carne, persegue o filho daquela, isto é, o movimento da razão — e isto é o que diz o Apóstolo: “A carne deseja contra o espírito, e o espírito contra a carne” (cf. Gl 5,17) —, para expulsá-la juntamente com seu filho. Por isso se diz: “Expulsa a escrava e seu filho” (Gl 4,30).

A carne, prenhe de bens naturais e rica de coisas temporais, insurge-se contra a senhora, e acontece aquilo que diz Salomão nos Provérbios: “Por três coisas a terra se agita, e não pode suportar a quarta: por um escravo que se torna rei, por um insensato que se farta de comida, por uma mulher odiosa que é tomada em casamento e por uma escrava que se torna herdeira de sua senhora” (Pr 30,21-23). O escravo que reina é o corpo rebelde. O insensato saciado de comida é a alma embriagada de prazeres. A mulher odiosa é a atividade má, que é tomada em casamento quando o pecador cai no vínculo do mau hábito. E assim a escrava Agar, isto é, a sensualidade, torna-se herdeira de sua senhora, isto é, da razão. Mas, para que seja dissolvido esse domínio funesto, o Senhor saciou cinco mil homens com cinco pães e dois peixes.

5. Tudo isso concorda com o que se lê no intróito da missa: “Alegra-te, Jerusalém, e reuni-vos todos vós que a amais” (cf. Is 66,10-11) etc. Observa que, segundo o número de cinco mil homens, são cinco as assembleias: a primeira foi celebrada no céu; a segunda, no paraíso; a terceira, no monte das Oliveiras; a quarta, em Jerusalém; a quinta, em Corinto.

Na primeira assembleia nasceu a discórdia. Com efeito, o primeiro anjo, primeiro branco, mas depois feito monge negro, porque primeiro foi lúcifer e depois tenebrífero, semeou a cizânia da discórdia entre as fileiras dos irmãos. No coro da concórdia, não começou a cantar a antífona da soberba a partir de baixo, mas do alto: “Subirei”, disse, “ao céu”, isto é, à igualdade do Pai, “e serei semelhante ao Altíssimo” (cf. Is 14,13-14), isto é, ao Filho. E, enquanto cantava assim do alto e as veias do coração se lhe inchavam, caiu irreparavelmente, pois o firmamento não pôde suportar a sua soberba.

Do mesmo modo, na segunda assembleia, no paraíso, nasceu a desobediência, por causa da qual nossos primeiros pais foram lançados na miséria deste exílio.

Na terceira, nasceu a simonia, que consiste em comprar ou vender algo espiritual ou aquilo que está ligado ao espiritual. O que há, pois, de mais espiritual, de mais santo que Cristo? Cremos que Judas, vendendo-o, incorreu no perigo da simonia e, por isso, suspenso pelo laço, rompeu-se ao meio (cf. At 1,18). Assim, todo simoníaco, se não restituir e não se arrepender verdadeiramente, suspenso pelo laço da condenação eterna, romper-se-á ao meio.

Na quarta assembleia, em Jerusalém, faltou a pobreza, quando Ananias e Safira, mentindo ao Espírito Santo, retiveram para si parte do preço do campo vendido e, por isso, imediatamente sofreram a sentença de um castigo manifesto (cf. At 5,1-10). Assim, aqueles que renunciaram aos próprios bens e se marcaram com o selo da santa pobreza, se quiserem reconstruir a Jericó destruída, suportarão eternamente o opróbrio da maldição.

Na quinta, faltou a castidade; como se lê na epístola aos Coríntios, Paulo não hesitou em ferir com a sentença de excomunhão, para a perdição da carne, aquele fornicador que tomou a mulher de seu pai (cf. 1Cor 5,1-5).

Vós, porém, que sois membros da Igreja, cidadãos da Jerusalém celeste, fazei uma assembleia quíntupla, excluindo a cizânia da discórdia, o furor da desobediência, a cobiça da simonia, a lepra da avareza e a imundície da luxúria, para que mereçais ser contados entre os cinco mil que foram saciados com os cinco pães e os dois peixes, como que aperfeiçoados pela perfeição do número mil. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.