Evangelho do III domingo da Quaresma: “Jesus estava expulsando um demônio”, que se divide em cinco partes.
Primeiro, sermão sobre a utilidade da pregação, no trecho: “Sempre que o espírito maligno do Senhor”.
[Da primeira parte]. Também sermão aos penitentes ou aos claustrais, no trecho: “José, enviado do vale de Hebron”, e sobre a natureza da ave calandra.
Também sermão sobre a cegueira do pecador, no trecho: “Logo que José chegou”, e sobre as propriedades do cisne.
Também sermão sobre a Paixão de Cristo, no trecho: “Sede imitadores de Deus”.
Da segunda parte. Primeiro, sermão ao pregador, no trecho: “Seu arco apoiou-se no Forte”.
Também sermão sobre a armadura do diabo e o seu combate, no trecho: “Saiu um homem bastardo”, e sobre a teia da aranha e suas propriedades.
Também sermão sobre a armadura de Cristo e sua vitória, no trecho: “Vestiu-se da justiça como de uma couraça”.
Da terceira parte. Primeiro, sermão contra os soberbos, no trecho: “Vi um carneiro com os chifres”, e sobre a disposição dos chifres nos animais e seu significado.
Também sermão sobre a humildade, no trecho: “Mas, se um mais forte do que ele”.
Também sermão aos religiosos, sobre como devem mudar a vida anterior, no trecho: “Naquele dia haverá cinco cidades”.
Da quarta parte. Primeiro, sermão sobre a solidão da mente e a doçura da contemplação, no trecho: “Como um jardim de delícias”.
Também sermão sobre a morada do diabo, no trecho: “Dorme à sombra”.
Também sermão aos penitentes ou religiosos, no trecho: “Na terra deserta”, e sobre a natureza das abelhas.
Também sermão sobre a tríplice vassoura e seu significado, no trecho: “Voltarei à minha casa”.
Também sermão contra os tíbios, no trecho: “Os amalecitas investiram”.
Também sermão aos penitentes e sobre a natureza das abelhas, no trecho: “Encontra-a vazia e adornada”, e no trecho: “Sou negra, mas formosa”.
Da quinta parte. [Outro sermão “em louvor da bem-aventurada Virgem Maria”].
Também sermão sobre a bem-aventurança da bem-aventurada Maria e sua virgindade, no trecho: “Bem-aventurado o ventre”, e no trecho: “Teu ventre é como um monte de trigo”.
Também sermão sobre o nascimento de seu Filho, no trecho: “Cerva caríssima”, e sobre as propriedades da cerva e da palma.
Também sermão para qualquer festa da própria Virgem, no trecho: “Eu via diante de mim uma videira”.
1. Naquele tempo: “Jesus estava expulsando um demônio, e este era mudo; e, quando expulsou o demônio, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas” (Lc 11,14).
Lê-se no Primeiro Livro dos Reis: “Sempre que o espírito maligno do Senhor se apoderava de Saul, Davi tomava a cítara e a tocava com sua mão; e Saul se reanimava e se sentia melhor, pois o espírito maligno se retirava dele” (1Rs 16,23). O espírito maligno do Senhor é o diabo, que é chamado do Senhor porque foi criado por ele; maligno, porque, por sua própria malícia, de luzeiro se transformou em portador de trevas, de anjo em diabo; por isso também é chamado diabo, isto é, aquele que precipita para baixo. Este se apodera de Saul — que se interpreta “aquele que abusa” —, isto é, do pecador, ao qual, como diz Jó, “Deus concedeu ocasião para a penitência, mas ele dela abusa para a soberba” (Jó 24,23), quando o impele de pecado em pecado. Mas Davi, isto é, o pregador, deve tomar a cítara, isto é, a melodia da pregação, e tocá-la com a mão de sua ação; e assim a doçura da cítara, isto é, a força da pregação do Senhor, mitigará o furor do pecador e expulsará dele o demônio, do qual se diz no Evangelho de hoje: “Jesus estava expulsando um demônio” etc.
2. Observa que neste Evangelho há quatro partes, sobre cada uma das quais queremos compor um breve sermão, para honra de Deus e maior utilidade dos ouvintes. A primeira parte é: “Jesus estava expulsando um demônio”. A segunda: “Quando o homem forte e armado”. A terceira: “Quando o espírito impuro sai de um homem”. A quarta: “Uma mulher da multidão, levantando a voz” etc. Do mesmo modo, a história do Gênesis, que se lê e se proclama neste domingo, divide-se em quatro partes. A primeira trata da venda de José. A segunda, de seu encarceramento e da interpretação dos sonhos do copeiro e do padeiro. A terceira, das sete vacas e das sete espigas e dos sete anos de fome. A quarta, da libertação de todo o Egito por obra da habilidade do próprio José. Em nome, pois, de Jesus Cristo, falemos da primeira parte deste Evangelho.
3. “Jesus estava expulsando um demônio”. Observa que, em um só homem, o Senhor Jesus operou quatro milagres: iluminou o cego — pois Mateus recorda que este endemoninhado também era cego —, fez o mudo falar, fez o surdo ouvir e libertou-o do demônio. Vejamos como o Senhor opera espiritualmente todos os dias estes quatro milagres nos pecadores da santa Igreja, e o que cada um deles significa moralmente.
“Jesus estava expulsando um demônio” etc. Observa atentamente que, assim como este endemoninhado perdeu a capacidade natural nos três sentidos principais e mais nobres que os demais, isto é, a capacidade de ver, falar e ouvir, assim também o pecador que, pelo pecado mortal, é possuído pelo diabo perde a capacidade espiritual nos três sentidos de sua alma, mais principais e mais nobres que os demais: a capacidade de ver, falar e ouvir. E observa que na visão é representado o conhecimento; na língua, a confissão; e no ouvido, a obediência. Vê claramente aquele que reconhece a própria malícia; fala retamente aquele que confessa, com franqueza e clareza, a malícia reconhecida; ouve com agudeza aquele que obedece voluntariamente à voz de seu confessor.
Sobre estas três coisas tens uma concordância na primeira parte da história deste domingo, onde se diz que José, enviado do vale de Hebron, chegou a Siquém e de Siquém a Dotain (cf. Gn 37,14-17). José interpreta-se “crescente” (cf. Gn 49,22); Hebron, “visão”; Siquém, “trabalho”; Dotain, “enfraquecido”. José é o penitente, que cresce tanto aos olhos de Deus quanto diminui aos próprios olhos. Por isso, o Senhor diz a Saul, no Primeiro Livro dos Reis: “Quando eras pequeno aos teus próprios olhos, constituí-te chefe das tribos de Israel” (cf. 1Rs 15,17). No vale de Hebron, isto é, da visão, é indicado o reconhecimento do pecado; em Siquém, o trabalho da confissão; em Dotain, o enfraquecimento da própria vontade.
O penitente, portanto, enviado do vale de Hebron, chega a Siquém. O vale de Hebron, que se interpreta como visão, é o reconhecimento do pecado. Por isso, Jeremias diz: “Vê os teus caminhos no vale profundo” (Jr 2,23). No vale profundo, isto é, na dupla humildade, interior e exterior, vê, isto é, reconhece, os teus caminhos, isto é, os teus pecados, pelos quais, como por certos caminhos, te encaminhas para o inferno. Deles diz o Profeta: “Considerei”, diz ele, “os meus caminhos e voltei os meus pés para os teus testemunhos” (Sl 118,59). E novamente Jeremias: “Sabe e vê”, isto é, reconhece, “que é mau e amargo teres abandonado o Senhor, teu Deus, e não haver em ti temor de mim, diz o Senhor Deus dos exércitos” (Jr 2,19). E ainda: “Levanta os teus olhos diretamente e vê onde agora estás prostrada” (Jr 3,2).
E observa que ele diz: “diretamente”. Ai! Quão poucos são hoje os que levantam os olhos diretamente; quase todos olham de esguelha, como estrábicos. Sem dúvida, levanta os olhos diretamente aquele que reconhece a própria iniquidade tal como a cometeu e, exatamente como aconteceu, a confessa de modo direto, ponto por ponto, com toda precisão. “Levanta, portanto, os teus olhos diretamente”, e não de esguelha: não te envergonhes, não temas; pois estas duas coisas costumam impedir a direção dos olhos. Diz-se que existe uma ave que, se olhar diretamente e de frente para o rosto de um enfermo, o enfermo será inteiramente libertado; mas, se a ave desviar do rosto do enfermo o olhar dos próprios olhos ou olhar para o lado, isso é sinal de morte. Assim, pecador, se levantares os olhos diretamente e contemplares e reconheceres os teus pecados, crê em mim: “viverá e não morrerá” (Ez 33,15). Mas, se olhares de esguelha, ou confessares os teus pecados dissimulando-os ou encobrindo-os, isso é sinal e indício de condenação eterna. “Levanta, portanto, os teus olhos diretamente e vê”, isto é, reconhece, “onde”, isto é, em quanta miséria, “agora”, tu que antes eras “senhora das nações”, isto é, dominavas os vícios, “princesa das províncias”, isto é, senhora dos cinco sentidos, estás prostrada, porque “te tornaste tributária” (Lm 1,1) do diabo e do pecado.
4. É bom, portanto, caríssimos irmãos, habitar no vale de Hebron, ver e reconhecer primeiro a nossa culpa e a nossa iniquidade, e depois chegar a Siquém, que se interpreta como trabalho, isto é, à confissão, que verdadeiramente é trabalho e dor. Por isso, o profeta Miqueias diz: “Sofre e esforça-te muito, filha de Sião, como uma parturiente” (Mq 4,10). Ó filha, isto é, ó alma, que és e deves ser “filha de Sião”, isto é, da Jerusalém celeste, “sofre” na contrição, “e esforça-te”, isto é, faz tudo quanto é necessário, “como uma parturiente” na confissão. E bem se diz: “como uma parturiente”. Com efeito, assim como a parturiente trabalha e sofre, assim o pecador deve trabalhar e sofrer na confissão, para ser como a cerva, que dá à luz com dor e trabalho. Por isso, Jó diz: “As cervas se curvam para dar à luz, parem e emitem bramidos” (Jó 39,3). As cervas são os penitentes, que diante do sacerdote devem curvar-se e humilhar-se, dar à luz os seus pecados e emitir bramidos amarguíssimos. Mas, ai! ai!, quantos há hoje que dão à luz não como as cervas, mas como as éguas.
Lê-se nas coisas naturais que as éguas não sentem dor quando dão à luz e, por causa da fumaça de uma luz extinta, abortam. Assim são certos pecadores que, ao confessarem os seus pecados, dão-nos à luz sem trabalho e sem dor; mas “a mulher, quando dá à luz, sente aflição”, diz o Senhor (Jo 16,21); e, quando nesses pecadores se extingue a luz da graça, fumegando a concupiscência, abortam, isto é, dão à luz o pecado. Por isso, Tiago diz: “A concupiscência, quando concebe, dá à luz o pecado; e o pecado, quando consumado, gera a morte” (Tg 1,15).
Ouve de que modo o santo Jó, cujo nome se interpreta “dolente”, veio do vale de Hebron a Siquém, quando dizia: “Eu não pouparei a minha boca; falarei na tribulação do meu espírito, lamentar-me-ei na amargura da minha alma” (Jó 7,11). Eis uma forma breve e muito útil de confissão. Não poupa a sua boca aquele que confessa, com franqueza e clareza, o pecado e as circunstâncias do pecado; fala na tribulação do seu espírito aquele que, com o coração contrito e o espírito atribulado, acusa a si mesmo, atribui tudo a si, julga a si mesmo; conversa com a amargura de sua alma aquele que nada reserva para si, mas renova uma e outra vez a sua dor; expondo-se inteiramente ao arbítrio do sacerdote, diz com Saul: “Senhor, Senhor, que queres que eu faça?” (At 9,6).
Por isso, também se acrescenta com propriedade: “E de Siquém chegou a Dotain”, que se interpreta como enfraquecimento. Com efeito, o penitente deve renunciar a si mesmo e obedecer voluntariamente aos preceitos de seu confessor, de seu superior, dizendo com Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo escuta” (1Rs 3,10). Eis que já tens claramente o que o penitente deve ver, o que deve falar e o que deve ouvir. Mas, como tudo o que se diz é mais bem conhecido pelo seu contrário, vejamos agora o que se opõe a estas três coisas de que falamos.
5. “Jesus estava expulsando um demônio” etc. Esse demônio é aquela fera cruelíssima, da qual se diz na história deste domingo: “Uma fera cruelíssima — disse Jacó — o devorou; uma fera devorou José” (Gn 37,33). Vejamos de que modo essa fera devora José. Foi dito acima que o demônio infligira àquele endemoninhado três males: tirou-lhe a luz, privou-o da voz e da audição. Assim, ao pecador que vive em pecado mortal, tira a luz, para que não conheça os seus pecados; priva-o da voz, para que não os manifeste na confissão; fecha-lhe os ouvidos, para que não ouça a voz daquele que sabiamente o admoesta (cf. Sl 57,6). Sobre essas três coisas tens uma concordância na mesma história do Gênesis, na qual se acrescenta: “Logo que José chegou junto dos irmãos, despojaram-no da túnica talar e multicolorida; lançaram-no numa cisterna que não tinha água. Depois, tirando-o da cisterna, venderam-no aos mercadores ismaelitas, que o levaram para o Egito” (Gn 37,23-24.28).
Observa estas três ações: despojaram-no da túnica, lançaram-no numa cisterna e venderam-no. Na túnica talar e multicolorida é designado o conhecimento do pecado. Por isso se diz no Evangelho de João, perto do fim, que Pedro “cingiu-se com a túnica, pois estava nu, e lançou-se ao mar” (Jo 21,7). Na verdade, Pedro estava nu quando, à voz da criada, negou Cristo (cf. Jo 18,17); mas cingiu-se com a túnica quando reconheceu a culpa de sua tríplice negação. E então foi verdadeiramente Pedro, isto é, aquele que reconhece; e assim lançou-se ao mar, isto é, na amargura das lágrimas. Por isso Lucas diz: “Pedro, recordando-se da palavra de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes; saiu para fora e chorou amargamente” (Lc 22,61-62). Assim, o pecador deve cingir-se com a túnica, isto é, reconhecer a sua iniquidade, e lançar-se ao mar, isto é, na amargura da contrição. Mas muitos há hoje que se cingem com a túnica, reconhecem a sua culpa, mas não querem lançar-se ao mar, porque se recusam a fazer penitência por seus pecados.
E observa que essa túnica é chamada talar e multicolorida. A túnica da nossa alma, que é o conhecimento do pecado, deve ser talar, isto é, final. Pois, embora durante toda a nossa vida devamos reconhecer diariamente os nossos pecados e, depois de reconhecê-los, chorá-los, no fim de nossa vida devemos reconhecê-los com maior empenho, diligência e devoção, e confessá-los todos, tanto particular como universalmente. Então devemos fazer como faz o cisne, que, quando morre, morre cantando; e dizem que isso acontece por causa de uma certa pena que ele tem na garganta. Contudo, esse canto lhe é doloroso. O cisne branco é o pecador convertido, embranquecido como a neve. Este, no momento da morte, deve cantar devotamente, isto é, recordar os seus pecados na amargura de sua alma. A pena na garganta do cisne é o conhecimento do pecado e a confissão na boca do justo, da qual deve proceder um canto doloroso, porque então será muito proveitoso. E assim essa túnica talar será multicolorida, isto é, ornada com a variedade das virtudes; pois todo louvor é cantado no fim. Mas, ai! ai! Os demônios despojam José dessa preciosíssima túnica quando cegam os olhos da alma infeliz e lhe tiram o conhecimento de sua iniquidade, para que não veja nem conheça a vergonha e a ignomínia de sua nudez.
Segue-se o segundo: “Lançaram-no numa cisterna velha, que não tinha água”. A cisterna velha, sem água, é a mente do pecador envelhecida nos dias maus (cf. Dn 13,52), na qual não há a água da confissão nem a lágrima da compunção. Na cisterna da obstinação, o pecador é encerrado pelos demônios, para que não possa sair à luz da confissão. Por isso se diz no quarto livro dos Reis que Nabucodonosor arrancou os olhos de Sedecias, atou-o com correntes e o levou para a Babilônia (cf. 4Rs 25,7). Assim, o diabo primeiro arranca os olhos do pecador, para que não conheça a sua iniquidade; depois, ata-o com as correntes do mau costume e o põe no cárcere da obstinação, para que não possa sair à luz da confissão.
Segue-se o terceiro: “Venderam-no aos mercadores ismaelitas, que o levaram para o Egito”. O pecador é vendido e levado para o Egito quando se subtrai à pregação da Igreja, não se submete aos conselhos dos bons e fecha os ouvidos para não ouvir a voz daquele que sabiamente o admoesta. Verdadeiramente, este é um endemoninhado possuído pelo diabo, porque não vê a culpa de sua iniquidade, não fala na confissão e não ouve a doutrina da vida eterna. Mas que fez o bondoso e misericordioso Jesus?
6. Diga Lucas: “Jesus estava expulsando um demônio...” Jesus expulsa o demônio dos pecadores quando imprime em seu coração o selo de seu amor e nele põe o sinal de sua Paixão. Por isso, diz o bem-aventurado Paulo na epístola de hoje: “Sede imitadores de Deus, como filhos caríssimos; e caminhai no amor, assim como Cristo nos amou e se entregou por nós como oferenda e vítima, em odor de suavidade” (Ef 5,1-2). Nesta autoridade são assinaladas duas coisas: o amor de Cristo e a sua Paixão; estas duas coisas expulsam o demônio. Por causa do imenso amor com que nos amou, “entregou-se por nós como oferenda e vítima, em odor de suavidade”. O odor deste sacrifício vespertino, isto é, da Paixão de Jesus Cristo, expulsa todo demônio. Por isso, lê-se no livro de Tobias que Tobias “tirou de sua bolsa uma parte do fígado e a pôs sobre carvões ardentes. Então o anjo Rafael agarrou o demônio e o amarrou no deserto do Alto Egito” (Tb 8,2-3). No fígado, com o qual amamos, é designado o amor de Cristo; nos carvões ardentes, a sua Paixão. Coloquemos, portanto, uma parte do fígado, ainda que não todo o fígado, sobre carvões ardentes; consideremos como o Filho de Deus, nosso amor e, por assim dizer, nosso fígado, somente por amor foi assado por nós sobre carvões ardentes, isto é, sobre a cruz e pregos muito agudos, em odor de suavidade. Crede em mim, irmãos, pois este odor de suavidade, esta memória da Paixão do Senhor, expulsa todo demônio. E, se fizermos isso, então Rafael, que se interpreta “medicina”, isto é, o próprio Jesus Cristo, que é nossa medicina e o anjo do grande Conselho, agarrará o diabo e o amarrará no deserto do Alto Egito, para que não mais possa nos fazer mal.
Por isso, diz-se com razão: “Jesus estava expulsando um demônio e, depois de expulsá-lo”, aquele homem viu, “falou” e ouviu, “e as multidões ficaram admiradas”. E não é de admirar, pois, cessando a causa, cessa o efeito. Expulso do coração do pecador o demônio do pecado mortal, ele imediatamente começa a ver, isto é, a conhecer; a falar, isto é, a confessar; e a ouvir, isto é, a obedecer. Por isso, diz o Apóstolo no final da epístola de hoje: “Éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor: caminhai como filhos da luz. O fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade” (Ef 5,8-9). Observa estas três palavras: “em toda bondade”: eis o reconhecimento do pecado, sem o qual ninguém poderá alcançar a bondade; a respeito dela dizia aquele bom penitente: “Reconheço a minha iniquidade” (cf. Sl 50,5). “E justiça”: eis a confissão do pecado. Que justiça é maior do que acusar a si mesmo? “O justo”, diz Salomão, “é, em primeiro lugar, acusador de si mesmo” (Pr 18,17). “E verdade”: eis a obediência, que consiste em obedecer voluntariamente aos preceitos da verdade, isto é, de Jesus Cristo e de seu vigário.
Demos, portanto, graças a Jesus Cristo, Filho de Deus, que expulsou o demônio, iluminou o cego, fez o mudo falar e o surdo ouvir. E, unânimes na devoção da mente, supliquemos todos ao próprio Cristo e peçamos humildemente que expulse da mente de todo cristão o pecado mortal e nela infunda a graça de Deus, para que reconheça a sua iniquidade, a manifeste na confissão e obedeça fielmente aos conselhos e mandamentos de seu confessor. Digne-se ele conceder isso a nós e a vós, o próprio Jesus Cristo, a quem pertencem a honra, a majestade e o domínio, o louvor e a glória pelos séculos eternos. Diga toda criatura: Amém.
7. “Quando um homem forte e bem armado guarda o seu pátio, estão em segurança os seus bens; mas, se sobrevém um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe todas as armas em que confiava e distribui os seus despojos” (Lc 11,21-22).
Diz-se na bênção de José, perto do fim do Gênesis: “Seu arco apoiou-se no Forte” (Deus) (Gn 49,24). José interpreta-se “crescimento” e significa o pregador, que deve aumentar diariamente a Igreja por sua pregação, para poder dizer com o mesmo José: “Deus me fez crescer na terra da minha pobreza” (Gn 41,52). Deus faz o pregador crescer na terra da pobreza, isto é, no exílio desta miserável peregrinação, quando, por meio dele, aumenta o número dos fiéis para seu mérito. Seu arco é a pregação; pois, assim como no arco há duas coisas, a saber, a madeira e a corda, assim também na pregação deve haver a madeira do Antigo Testamento e a corda do Novo. A respeito deste arco diz Jó: “Meu arco se reforçará em minha mão” (Jó 29,20). O arco se reforça na mão quando a pregação é auxiliada pelas obras. Diz o bem-aventurado BERNARDO: não basta pregar a Deus com fruto àquele que não precede o som da língua com o testemunho das obras. Este arco deve apoiar-se no Forte, não no fraco; não no pregador, mas em Cristo, para que atribua tudo a ele, sem o qual nada de bom pode fazer. Ele foi verdadeiramente forte, pois amarrou o forte diabo. Por isso, diz-se no Evangelho de hoje: “Quando um homem forte e bem armado guarda o seu pátio” etc. Exponhamos esta segunda parte do santo Evangelho primeiro alegoricamente e depois moralmente.
8. O diabo é o forte armado. Por isso, dele e de sua armadura se diz no Livro dos Reis: “Saiu dos acampamentos dos filisteus um homem espúrio, chamado Golias, de Get, de seis côvados e um palmo de altura. Tinha na cabeça um capacete de bronze e estava revestido de uma couraça de escamas; trazia grevas de bronze nas pernas, e um escudo de bronze cobria-lhe os ombros. O cabo de sua lança era como o cilindro dos tecelões” (1Rs 17,4-7). Golias interpreta-se como “o que transmigra” ou “o que se transfigura”, e significa o diabo, que transmigrou das virtudes para os vícios, da alegria para a pena; e que todos os dias se transfigura em anjo de luz (cf. 2Cor 11,14), para enganar o homem. E ele é de Get, que se interpreta como “lagar”; pois o diabo comprime os homens nas tribulações, assim como a uva é comprimida no lagar, para que os bons, como vinho, sejam guardados nas adegas da vida eterna, e os maus, como bagaços, sejam lançados no monturo da condenação eterna. Este sai dos acampamentos dos filisteus, que se interpretam como “os que caem por causa da bebida”, e significam os pecadores que, embriagados pelo amor do mundo, caem da graça de Deus na culpa e depois da culpa precipitam-se na geena. Nos acampamentos destes habita o diabo; com efeito, o coração do homem perverso é a morada do diabo. Por isso, diz a Glosa, sobre aquilo de Habacuc: “Por causa da iniquidade vi as tendas da Etiópia” (Hab 3,7): Os que se afadigam por causa das riquezas e das honras tornam-se morada dos demônios, quando deveriam ser templo de Deus.
Golias era espúrio. Chama-se espúrio aquele que é em parte nobre e em parte ignóbil. Assim, o diabo é nobre quanto à criação, mas ignóbil quanto aos vícios. Diz-se que este tinha “seis côvados e um palmo de altura”. Lê-se em Ezequiel que aquele homem, cuja aparência era como a do bronze, tinha na mão uma cana de medir, com a qual mediu o templo, e essa cana era de seis côvados e um palmo (Ez 40,3.5). Eis, portanto, que, tal como era a medida do templo, tal era também a medida de Golias. A medida do templo consiste na diversidade dos graus existentes na Igreja, e o diabo tem sua medida contra estes. Pelos seis côvados entendem-se as obras de misericórdia, isto é, as obras da vida ativa; pelo palmo, a vida contemplativa, da qual nesta vida apenas se pode provar um pouco, e por isso é bem representada pelo palmo. E o diabo se lança tanto contra os ativos como contra os contemplativos.
Segue-se: “E um capacete de bronze estava sobre sua cabeça”. Observa que todas as armas de Golias eram de bronze. Assim também são as armas do diabo. As armas do diabo são aqueles que o defendem, para que ele não seja vencido e eliminado nos maus. São de bronze porque são fortes para defender sua causa. Por isso, em Jó: “Seus ossos são como tubos de bronze” (Jó 40,13). Os ossos sustentam a carne. Os ossos do diabo são aqueles que sustentam outros no mal; são como tubos de bronze, porque têm apenas som e não sentimento, como os tubos. Dizem palavras, mas não fazem obra alguma de bem; e, assim como o bronze ressoa ao ser golpeado, assim estes, ao golpe da repreensão, respondem murmurando.
“E estava revestido de uma couraça de escamas”, de modo que uma placa estava presa à outra. A couraça do diabo são os maus, inseparavelmente ligados a ele. Por isso, Jó: “Seu corpo é como escudos fundidos, e unido por escamas que se apertam umas contra as outras. Uma está unida à outra, e nem sequer uma fresta passa entre elas; uma aderirá à outra, e, estando presas umas às outras, de modo algum se separarão” (Jó 41,6-8). As escamas do diabo, isto é, seus defensores, apertam-se umas contra as outras, porque um defende o outro. Há grande concórdia entre os devassos. Com efeito, estão tão unidos e ligados que nem o sopro da graça divina nem a palavra da pregação do Senhor podem passar por eles. E, assim como são cúmplices no mal aqui, assim também participarão juntos do suplício eterno.
“E tinha grevas de bronze nas pernas”. As grevas são as desculpas da luxúria. O luxurioso, com efeito, como que protege as coxas com certas grevas, quando defende a culpa da luxúria, para maior acúmulo de sua condenação. Por isso, Jó: “As sombras protegem a sua sombra” (Jó 40,17). “As sombras”, isto é, os luxuriosos, negros e obscuros, “protegem a sombra”, isto é, defendem a própria luxúria; “a sua”, isto é, do diabo, sob a qual ele dorme e repousa.
“E um escudo de bronze cobria-lhe os ombros”. O escudo do diabo são aqueles que repelem de si as flechas da pregação; deles diz o Senhor a Ezequiel: “Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, povos apóstatas, que se afastaram de mim. Falarás a eles as minhas palavras, na esperança de que talvez ouçam e cessem, pois são provocadores” (Ez 2,3.7). “Mas não querem ouvir-te, porque não querem ouvir-me” (Ez 3,7).
9. “A haste de sua lança era como o subbio dos tecelões”. Com o auxílio da haste se faz a tela. Esta é a tentação do mal, com cujo auxílio o diabo tece a tela da iniquidade. Com efeito, o diabo tece a tela como a aranha, da qual se diz assim no livro das Coisas Naturais: A aranha primeiro estende os fios da trama e os fixa nas extremidades; depois tece no meio, entre essas extremidades, e dispõe uma trama suficiente e prepara um lugar conveniente para a caça; e ela mesma vem para o centro, como quem espreita algum animalzinho. E, se alguma mosca ou outro inseto semelhante cair, imediatamente a aranha se move, sai de seu lugar e começa a amarrá-la e envolvê-la com sua teia, até reduzir a presa à imobilidade. Depois leva-a para o lugar onde deposita o que capturou. E, quando sente fome, suga-lhe os humores; e sua vida e seu alimento consistem somente nesses humores.
Assim também o diabo, quando quer capturar um homem, primeiro estende certos fios de pensamentos capciosos e os fixa como que nas extremidades, isto é, nos sentidos do corpo, pelos quais pode astutamente descobrir a qual vício o homem é mais propenso. Depois tece no meio, isto é, no coração, e aí dispõe uma trama suficiente, isto é, uma tentação maior, e no próprio coração prepara um lugar conveniente para a caça. E ele mesmo vem para o centro, como quem espreita algum animalzinho. Com efeito, o diabo não encontra em todo o corpo do homem nenhum membro tão conveniente para caçar, espreitar e enganar quanto o coração, porque dele procede a vida. E, se vir alguma mosca, isto é, algum homem entregue à carne, que verdadeiramente deve ser chamado mosca, cair na trama de sua sugestão, pelo consentimento do coração, imediatamente começa a amarrá-lo com diversas tentações e a envolvê-lo em trevas, até que o reduza à debilidade, isto é, ao enfraquecimento da mente; e assim leva a mosca, isto é, o pecador, para o lugar onde deposita o que capturou. O lugar próprio do diabo é a realização da má obra; aí deposita o que a trama sutil da sugestão capturou e, assim, suga-lhe o humor, isto é, a compunção da alma; pois, enquanto a alma possui a compunção, o diabo não pode prejudicá-la. Com razão, portanto, se diz: “A haste de sua lança era como o subbio dos tecelões”.
10. Eis as armas com que o diabo se arma, daquele que se diz: “Quando um homem forte e armado guarda a sua casa, tudo o que possui está em segurança”. Antes da vinda de Cristo, o mundo inteiro era a casa do diabo, não por causa da criação, mas pela transgressão do primeiro progenitor; por causa de cuja desobediência, na sua descendência, teve poder, com a permissão de Deus. E assim possuía tudo em segurança, porque nem Moisés, nem Elias ou Jeremias, nem algum dos pais do Antigo Testamento puderam expulsá-lo da casa. Veio, portanto, “dos tronos reais”, isto é, do seio do Pai, “o guerreiro implacável”, como se diz no livro da Sabedoria, e “lançou-se no meio da terra de extermínio” (Sb 18,15), que o diabo havia exterminado, unindo os dois pés da divindade e da humanidade; e assim “libertou aqueles que, pelo temor da morte”, como diz o Apóstolo aos Hebreus, “durante toda a vida” estavam submetidos e “sujeitos à escravidão” (Hb 2,15).
Por isso se segue: “Mas, se chega um mais forte que ele e o vence, tira-lhe todas as armas nas quais confiava e distribui os seus despojos”. Mais forte é Jesus Cristo, de cuja armadura diz Isaías: “Vestiu-se de justiça como de uma couraça, e o capacete da salvação está sobre a sua cabeça; vestiu-se das vestes da vingança e cobriu-se de zelo como de um manto” (Is 59,17). A couraça de Jesus Cristo foi a justiça, pela qual expulsou justamente o diabo da casa que ele possuía em segurança; e, porque o diabo estendeu a mão contra Cristo, sobre o qual não tinha poder algum, mereceu justamente perder Adão e a sua descendência, sobre os quais julgava ter algum poder. Com razão merece ser privado de um privilégio aquele que abusa do privilégio que lhe foi concedido.
“E o capacete da salvação sobre a sua cabeça”. A cabeça é a divindade. “A cabeça de Cristo é Deus”, diz o Apóstolo (1Cor 11,3). O capacete é a humanidade. Portanto, a cabeça escondida sob o capacete é a divindade escondida sob a humanidade, a qual operou a salvação no meio da nossa terra (cf. Sl 73,12). “Vestiu-se” também “das vestes da vingança e cobriu-se de zelo como de um manto”. Precisamente para isso Jesus Cristo vestiu as vestes da nossa humanidade: para vingar-se do inimigo, o diabo, e libertar das suas mãos a sua própria esposa, isto é, a nossa alma. Diz-se, portanto, com razão: “Se chega um mais forte que ele e o vence, tira-lhe todas as armas”. As armas do diabo eram aqueles de quem se falou acima. Cristo arrebatou-lhe todas elas quando, de filhos da ira, os fez filhos da graça. Assim como Davi derrubou Golias com a funda e a pedra (cf. 1Rs 17,49-50), assim Cristo venceu o diabo com a funda da sua humanidade e a pedra da sua paixão. Por isso Davi diz: “Toma as armas e o escudo e levanta-te em meu auxílio” (Sl 34,2). “Toma as armas”, ó Filho de Deus, isto é, os membros humanos, “e o escudo”, isto é, a cruz, para que, assim armado, venças o forte diabo, que mantinha o gênero humano acorrentado no cárcere.
11. Este é o nosso José, que na cruz, como numa espécie de cárcere, atado pelas mãos e pelos pés, foi pregado com cravos entre dois ladrões. Assim como aquele José, filho de Jacó, não quis consentir no nefando adultério da meretriz, mas, deixando nas mãos dela o manto pelo qual ela quis retê-lo, fugiu; por isso ela o acusou perante seu marido Potifar de que ele quisera ultrajá-la. Este, irado, lançou-o no cárcere, onde eram mantidos presos o copeiro e o padeiro do rei do Egito. A estes, segundo a conveniente interpretação dos sonhos, anunciou com certeza e verdade o que lhes haveria de acontecer: ao copeiro, que sairia do cárcere para o palácio do rei; e ao padeiro, que, retirado do cárcere, seria suspenso no patíbulo (cf. Gn 39,7-20; 40,1-22). Assim, Jesus Cristo, Filho de Deus, porque não quis consentir com a meretriz, isto é, a sinagoga dos judeus, que quis retê-lo pelo manto das observâncias legais e das tradições dos anciãos, com as quais eles se cobriam como que com um manto para parecer justos aos homens. Mas ele, deixando o manto, isto é, abandonando o rito da observância legal, fugiu, como senhor, não servo, da lei. A sinagoga, vendo-se desprezada, acusou-o perante Potifar. Potifar interpreta-se “boca que se inclina para despedaçar” e significa Pilatos, que inclinou a boca para despedaçar, isto é, flagelar Jesus: “Depois de o flagelar, vo-lo entregarei”, disse (cf. Mt 27,26).
Perante este, a meretriz sinagoga acusou o nosso José, dizendo: “Encontramos este homem subvertendo a nossa nação e proibindo que se paguem tributos a César. Ele agita o povo, ensinando por toda a Judeia, começando pela Galileia até aqui” (Lc 23,2-5). Pilatos, porém, consentindo nas palavras da meretriz, decretou que se fizesse o que ela pedia e entregou Jesus para que fosse crucificado (cf. Lc 23,24). Ele, pregado na cruz com cravos, entre dois ladrões, foi atado como José entre o copeiro e o padeiro. Aquele ladrão, ou melhor, para falar com mais verdade, santo confessor, que, enquanto Pedro negava, confessou Cristo, foi verdadeiramente um copeiro: embriagou-se com o vinho da compunção e ofereceu ao Senhor o cálice de ouro da fé, da esperança e da caridade, dizendo: “Lembra-te de mim, Senhor, quando entrares no teu reino” (Lc 23,42). Por isso mereceu ouvir: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Já aquele ladrão pérfido, que blasfemou contra Cristo, dizendo: “Se tu és o Cristo, salva a ti mesmo e a nós” (Lc 23,39), foi um padeiro que, segundo a arte da panificação, fez o pão, não digo com farinha, mas com o farelo da má vontade e a água da infidelidade, e o assou no forno do desespero; assim, da cruz, como de um cárcere, mereceu chegar ao patíbulo da condenação eterna.
12. Segue-se: “E distribuirá os seus despojos”. Os despojos do diabo eram as almas dos justos que, por causa da desobediência do primeiro pai, eram mantidas nas trevas. Cristo distribuiu esses despojos quando despojou o inferno e concedeu a cada alma a glória do reino celeste. Ou então os despojos foram os apóstolos e os demais discípulos de Jesus Cristo, dos quais o Pai diz ao Filho por meio de Isaías: “Apressa-te, toma os despojos; apressa-te a despojar” (Is 8,3). Ó Filho, apressa a encarnação; toma os despojos na pregação; apressa-te a despojar o diabo na tua Paixão. Cristo distribuiu esses despojos quando deu à Igreja alguns como apóstolos, outros como evangelistas e outros como doutores (cf. Ef 4,11). Por isso, o Profeta diz: “O Rei das potências estará sujeito ao Diletíssimo, e à beleza da casa concederá dividir os despojos” (Sl 67,13). Ó fiéis do “Diletíssimo, Diletíssimo”, isto é, de Jesus Cristo, o “rei”, isto é, o Pai, que é rei das potências celestes, dará ao seu Filho dileto, do qual disse: “Este é o meu Filho dileto” (Lc 9,35), “dividir os despojos”, isto é, os apóstolos, os evangelistas e os doutores; “à beleza”, isto é, para o embelezamento da casa, isto é, da Igreja, a fim de que a tornem bela. Faça-nos participar dessa beleza aquele que venceu o diabo e lhe arrebatou as armas, Jesus Cristo, que é bendito, Deus acima de todas as coisas, pelos séculos dos séculos. Amém.
13. “Quando um forte, armado, guarda sua casa”. O forte armado é o espírito da soberba, cujas armas são os chifres altíssimos, com os quais fende o ar e investe contra todo o mundo. Por isso, Daniel diz: “Vi um carneiro que agitava os chifres contra o ocidente, contra o setentrião e contra o meio-dia, e nenhuma fera podia resistir-lhe, nem libertar-se de suas mãos; fez segundo a sua vontade e engrandeceu-se” (Dn 8,4). Esse carneiro significa o espírito da soberba, que, com os chifres da arrogância e da altivez, investe contra o ocidente, o setentrião e o meio-dia. Pelo ocidente entendem-se os pobres e os menores, nos quais falta o calor da força e do poder; pelo setentrião, os iguais — “Porei”, diz o diabo em Isaías, “o meu trono ao setentrião, e serei semelhante, isto é, igual, ao Altíssimo” (cf. Is 14,13-14) —; pelo meio-dia, os superiores, nos quais arde o calor da dignidade e do poder. Portanto, o carneiro cornudo, isto é, o espírito da soberba cornuda, investe contra o ocidente, ou seja, oprime os pobres e os menores; contra o setentrião, porque despreza os iguais; e contra o meio-dia, porque escarnece e zomba dos superiores. “E todas”, diz ele, “as feras não podiam resistir-lhe, nem libertar-se de suas mãos”. Ó soberba cornuda, quem poderá libertar-se de tuas mãos, se elevaste a tão alto cume de ambição até mesmo Lúcifer — selo de semelhança, cujo revestimento, como diz Ezequiel, era toda espécie de pedra preciosa (cf. Ez 28,12-13)? És de origem celeste e, por isso, costumavas insinuar-te nas mentes dos seres celestes, escondendo-te sob a cinza e o cilício.
O profeta Davi suplicava ser salvo dos chifres desta fera, quando dizia: “Salva-me da boca do leão e, dos chifres dos unicórnios, a minha humildade” (Sl 21,22). Na soberba do unicórnio entende-se a soberba individual, porque o soberbo quer sobressair sozinho; por isso: “Todo poder será intolerante com um companheiro” (Lucano). E Davi detesta a soberba, dizendo: “Senhor, meu Deus, se fiz isto” (Sl 7,4). E observa que, para mostrar quanto detestava a própria soberba, não quis sequer nomeá-la por seu nome. Deus detesta a soberba acima de todos os pecados. Por isso, Pedro diz: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a graça aos humildes” (1Pd 5,5). E acerca do unicórnio se diz em Jó: “Porventura quererá o rinoceronte”, ou monoceronte, isto é, unicórnio, “servir-te, ou permanecerá junto à tua manjedoura?” (Jó 39,9). Como se dissesse: “A tua, não”. Pois o soberbo não pode considerar a manjedoura do Senhor, isto é, o fato de ele ter sido colocado numa manjedoura por nós.
14. Deve-se observar que alguns animais têm os chifres recurvados para trás, e por eles é significada a soberba de alguns, que é destruída pela luxúria deles, de modo que aqueles que são arrogantes no pensamento são humilhados pela luxúria da carne. Por isso, Oseias diz: “A arrogância de Israel testemunhará contra ele” (Os 5,5). Com efeito, costuma acontecer que aquele que não reconhece a soberba oculta se envergonhe dela quando a descobre por causa do vício da luxúria.
Há também certos animais que têm os chifres inclinados para a frente, como os unicórnios; por eles é significada a soberba dos hipócritas, que disfarçam sua soberba sob a aparência da religião. Deles diz o Eclesiástico: “Há quem se humilha falsamente, mas seu interior está cheio de dolo” (Eclo 19,23). E o bem-aventurado Gregório: “Preciosa é a humildade, com a qual a própria soberba deseja disfarçar-se, para não ser desprezada”.
Além disso, alguns animais têm os chifres recurvados para si mesmos, como a vaca selvagem; por eles é significada a soberba de alguns, que se destrói em si mesma. Por isso, diz Isaías: “O Senhor dos exércitos quebrará, no terror, o pequeno vaso de barro; os altos de estatura serão cortados, e os sublimes serão humilhados” (Is 10,33). O pequeno vaso de barro é a mente do pecador soberbo, feita de barro e frágil, cheia da água da altivez; e o Senhor a quebra quando incute na mente do próprio soberbo o terror do juízo final. Nesse juízo, os “altos de estatura”, isto é, aqueles que agora parecem permanecer seguros diante daquela sentença: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (cf. Mt 25,41), “serão cortados”; e os “sublimes”, que agora caminham com o pescoço estendido e com meneios dos olhos (cf. Is 3,16), e avançam com passo solene, serão “humilhados” até o inferno e até o profundo do lago (cf. Is 14,15), no qual não há água de refrigério.
Por fim, alguns animais têm os chifres erguidos para cima, como o cervo; eles significam a soberba de alguns que nasce unicamente da religião. E esta é a soberba mais funesta. A respeito dela, Isaías, dirigindo-se aos religiosos, aos quais sobretudo convém apresentar o sinal da humildade, falando sob a figura da visão do vale, diz: “Que te aconteceu também, para que subisses aos telhados?” (Is 22,1). Como se dissesse: É tolerável que os seculares desejem alcançar as alturas; mas vós, religiosos, que vedes muitas coisas, o que vos ocorreu para que também busqueis as alturas?
15. Digamos, portanto: “Quando um forte, armado, guarda sua casa”. A casa da soberba cornuda é o coração do soberbo, no qual a soberba escolheu sua morada particular. Assim como do coração partem as veias e nele reside a primeira força que cria o sangue, assim da soberba do coração procede todo mal. Por isso: “O princípio de todo pecado é a soberba” (Eclo 10,15). Ela guarda a casa do coração, para que nenhum de seus adversários entre por algum caminho contrário e perturbe a sua paz, da qual diz o Senhor em Lucas: “Se também tu, neste teu dia, tivesses compreendido o que serve para a tua paz” (Lc 19,42); e o Profeta: “Tive inveja dos ímpios, vendo a paz dos pecadores” (Sl 72,3).
Segue-se: “Mas, se sobrevindo alguém mais forte do que ele, o vencer”, etc. Mais forte é a humildade; acerca de sua força, Davi diz a Saul, no Primeiro Livro dos Reis: “Eu, teu servo, matei o leão e o urso” (1Rs 17,36). Davi interpreta-se “de mão forte” e significa o humilde, que, quanto mais se humilha, tanto mais forte se torna. O humilde é como certo verme, chamado intestino da terra, que se contrai para depois se estender mais; assim o humilde se contrai e se apequena, para estender-se com maior força na conquista dos bens celestes. A respeito dele diz o Eclesiástico: “Elevou-o desde a sua humilhação e exaltou-lhe a cabeça” acima da tribulação; “e muitos se admiraram dele” (Eclo 11,13). Esse Davi humilde e forte diz: “Eu sou teu servo”. Ó pérola resplandecente! Ó nardo perfumado! Ó humildade, canela aromática! “Eu”, diz ele, “sou teu servo”. O humilde considera-se servo, chama-se servo, submete-se aos pés de todos, rebaixa-se, pensa menos de si do que realmente é. Por isso, Gregório diz: “É próprio dos eleitos pensar menos de si do que são”.
Esse humilde servo mata o leão da soberba e o urso da luxúria. E observa que ele diz ter matado primeiro o leão e depois o urso, porque ninguém pode mortificar em si a luxúria se antes não se esforçou por expulsar do átrio de seu coração o espírito da soberba. Por isso se diz: “Se, sobrevindo alguém mais forte do que ele, o vencer, tira-lhe todas as armas em que confiava”. As armas, ou “vasos”, como diz Mateus (Mt 12,29), do espírito da soberba são os cinco sentidos do corpo, com os quais, como se fossem armas, ele ataca os demais, e nos quais, como se fossem vasos, leva o veneno da altivez e o oferece aos outros. Sobrevém, portanto, a humildade de Jesus Cristo, que é Deus bendito acima de todas as coisas (cf. Rm 9,5), e que diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Ele entra na casa do forte, isto é, no átrio do coração, no qual habita a soberba, vence-a e expulsa-a para fora; pois o antídoto da humildade expulsa o veneno da altivez e, uma vez expulso este, a humildade retira todas as armas em que ele confiava, para que, daí em diante, nada de arrogante, nada de altivo, nada de vicioso apareça nos sentidos do corpo, mas em toda parte apresentem os sinais da humildade.
16. “Esta é a mudança operada pela direita do Altíssimo” (Sl 76,11), da qual diz Isaías: “Naquele dia haverá cinco cidades na terra do Egito, que falarão a língua de Canaã: uma será chamada cidade do sol” (Is 19,18). Egito interpreta-se “trevas” ou “tristeza”, e significa o corpo do homem, que é terra de trevas e de tristeza: de trevas, porque obscurecida pela névoa da ignorância e da malícia; de tristeza, porque cheia de dor e aflição. Nesta terra do Egito há cinco cidades, isto é, os cinco sentidos do corpo. Destas cinco cidades, uma é chamada cidade do sol. A cidade do sol são os olhos. Pois, assim como o sol ilumina todo o mundo, assim os olhos iluminam todo o corpo (cf. Mt 6,22).
“Naquele dia”, portanto, quando a humildade, que é mais forte, tiver sobrevindo, tiver entrado no coração do homem, vencido o espírito de soberba e expulsado a cegueira da mente, então as cinco cidades na terra do Egito, que antes falavam a língua egípcia, isto é, a língua da concupiscência carnal, falarão a língua de Canaã, que se interpreta “mudada”, porque passarão dos vícios às virtudes e da soberba à humildade. Então aparecerão nos olhos a humildade e a simplicidade; na boca ressoarão a verdade e a benignidade; dos ouvidos será removida toda detração e adulação; nas mãos haverá pureza e piedade; nos pés se encontrará maturidade.
Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, a Jesus Cristo, que venceu a soberba do diabo com a sua humildade, para que nos conceda quebrar, com a humildade do coração, os chifres da soberba e da altivez, e ostentar por toda parte, nos sentidos do nosso corpo, o título da humildade, a fim de que mereçamos chegar à sua glória. Ele no-lo conceda, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
17. “Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso, e, não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, de onde saí. E, quando chega, encontra-a limpa e adornada. Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; eles entram, habitam ali, e o estado final daquele homem se torna pior que o anterior” (Lc 11,24-26).
Diz o profeta Joel: “A terra diante dele é como um jardim de delícias, e, depois dele, a solidão do deserto” (Jl 2,3). A terra, que deriva seu nome de tero, teris, isto é, ‘triturar’, é a mente do homem, contrita por causa dos pecados. Enquanto está diante dele, isto é, de Deus, ela é como um jardim de delícias. Que deleite tão grande, que alegria tão grande pode haver para a mente do homem, senão estar diante daquele com quem e no qual tudo o que existe verdadeiramente existe, sem o qual tudo o que parece existir é nada e tudo o que abunda é pobreza? A mente do homem está então diante dele quando considera não possuir em si, por si nem mediante si mesma bem algum, mas atribui tudo àquele que é todo o bem, o sumo bem, e do qual, como de um centro, todas as linhas das graças se estendem em trajetória reta até a circunferência. Essa terra, enquanto está diante dele, é verdadeiramente um jardim de delícias, porque nela há a rosa da caridade, a violeta da humildade, o lírio da castidade. A respeito desse jardim diz a esposa no Cântico: “Meu amado desceu ao seu jardim, ao canteiro dos aromas” (Ct 6,1). O jardim do amado é a mente do penitente, na qual há um canteiro de aromas. Canteiro é o diminutivo de área e significa a humildade da mente, que é geradora dos aromas, isto é, das virtudes. A esse jardim desce o amado; nesse canteiro ele repousa. Por isso ele mesmo diz em Isaías: “Para quem olharei, senão para o humilde e tranquilo ou ‘pobre de espírito’, que treme diante das minhas palavras?” (Is 66,2). Diz-se, portanto, muito bem: “A terra diante dele é como um jardim de delícias”.
Segue-se: “E, depois dele, a solidão do deserto”. Quando a mente do homem permanece diante da face de Deus, contemplando a sua bem-aventurança e saboreando a sua doçura, então é verdadeiramente um jardim de delícias. Mas, quando a infeliz não quer permanecer diante dele, e sim atrás dele, isto é, quando quer contemplar as suas costas, o jardim de delícias se transforma em solidão do deserto. As costas do Senhor são as coisas temporais, a respeito das quais o Senhor diz a Moisés no Êxodo: “Verás as minhas costas; mas não poderás ver a minha face” (Ex 33,23). Vê somente as costas do Senhor, e não a sua face, aquele que se deleita nas coisas transitórias, nas coisas temporais. Por isso Agar disse no Gênesis: “Vi as costas daquele que me vê” (Gn 16,13). Agar interpreta-se ‘a que suscita festa’ e significa o prazer dos carnais, que se gloria nas comilanças e nas bebedeiras como numa espécie de festa. Ela vê as costas do Senhor porque se deleita nessas coisas visíveis, que contempla carnalmente. Por isso diz Gregório: A mente dos carnais não é capaz de considerar bom senão aquilo que vê carnalmente. Diz-se, portanto, muito bem: “E, depois dele, a solidão do deserto”.
Na solidão é designada a esterilidade da mente; no deserto, a malícia do diabo. Com efeito, o diabo torna deserta e estéril de boas obras a mente na qual habita. Eis que tens, na autoridade de Joel, a concordância com este santo Evangelho. Quando Joel diz: “A terra diante dele é como um jardim de delícias”, concorda com a primeira cláusula do Evangelho: “Quando o espírito imundo sai do homem”. Quando, porém, acrescenta: “E, depois dele, a solidão do deserto”, concorda com a última cláusula: “Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele” etc. Digamos, portanto: “Quando o espírito imundo sai do homem” etc.
Observa que neste Evangelho se assinalam quatro coisas muito importantes: a saída do diabo, a sua tentação contra os justos, a convivência tíbia da alma negligente e o retorno do espírito imundo com sete espíritos. A primeira, quando se diz: “Quando o espírito imundo”; a segunda, quando se acrescenta: “anda por lugares áridos”; a terceira, quando se diz ainda: “e, quando chega, encontra-a limpa e adornada”; a quarta, quando se conclui: “Então vai e toma consigo outros sete espíritos” etc.
18. Digamos, portanto: “Quando o espírito imundo”. Observe que o diabo é chamado espírito imundo. Espírito, como diz Gregório, é o nome da natureza, que Deus criou pura, limpa e boa; mas, pela imundície de sua soberba, tornou-se imundo; caiu da pureza da glória celeste e, como um porco imundo, escolheu como morada a imundície dos pecados e nela repousa. Por isso, dele diz Jó: “Dorme à sombra, no esconderijo do caniço, em lugares úmidos” (Jó 40,16). Aqui são indicados três vícios. Na sombra, que é fria e escura, é designada a soberba, que tira o calor do amor divino e a claridade da verdadeira luz. No caniço, que é a cana agitada pelo vento, bela por fora e vazia por dentro, cujo fruto é a penugem, entende-se o avarento, que é levado de um lado para outro pelo vento da cobiça, gloria-se nas coisas exteriores, mas é privado da graça no interior; suas riquezas, acumuladas para sua própria ruína, serão dispersas como penugem pelo turbilhão da morte. Nos lugares úmidos são designados os luxuriosos, que se revolvem no lodaçal da luxúria e da gula. Eis em que morada dorme aquele porco, repousa aquele espírito imundo, do qual se diz: “Quando o espírito imundo sai do homem”. O espírito imundo sai do homem quando o homem reconhece a imundície de sua iniquidade.
Por isso, lê-se no segundo livro das Crônicas que “os príncipes e o exército do rei dos assírios prenderam Manassés e, amarrado com correntes e algemas, conduziram-no para a Babilônia. Depois que se viu na tribulação, orou ao Senhor, seu Deus, e fez grande penitência diante do Deus de seus pais; suplicou a Deus e o implorou com grande insistência. E Deus ouviu sua oração, reconduziu-o a Jerusalém, ao seu reino; e Manassés reconheceu que o Senhor era verdadeiramente Deus” (2Cr 33,11-13). Manassés interpreta-se “esquecido” e significa o pecador que, quando as coisas prosperam, se esquece de Deus e de seus mandamentos. Por isso, diz-se no Gênesis que, “quando a prosperidade voltou, o chefe dos copeiros esqueceu-se de seu intérprete” (Gn 40,23). Nosso intérprete é Jesus Cristo, que nos interpreta a vida eterna, da qual nos esquecemos quando somos elevados pelas prosperidades transitórias. Com efeito, as coisas temporais fazem Deus cair no esquecimento. Manassés, portanto, isto é, o pecador esquecido de Deus, é capturado pelos assírios, que se interpretam “dirigentes”, isto é, pelos demônios, que dirigem a flecha da tentação desde o arco da malícia, para matar a alma; é capturado pelo consentimento da mente, preso com as correntes da má ação e com as algemas do mau hábito, e assim é conduzido para a Babilônia, isto é, para a confusão da mente cegada.
Mas, porque a misericórdia de Deus é maior que toda malícia do pecador, este deve fazer como fez Manassés, de quem se acrescenta: “Orou ao Senhor, seu Deus, e fez grande penitência; suplicou-lhe e implorou-lhe com grande insistência”. Assim, o pecador deve opor estas quatro atitudes às quatro anteriormente mencionadas. Deve orar ao Senhor para que o liberte das mãos dos demônios; fazer penitência para dissolver as correntes da má ação; deve suplicar-lhe que quebre as algemas do mau hábito e implorá-lo com grande insistência para que o livre da confusão da mente cegada. E Deus misericordioso, cuja misericórdia não tem número, fará o que vem a seguir: “Ouviu sua oração, reconduziu-o a Jerusalém, ao seu reino; e Manassés reconheceu que o Senhor era verdadeiramente Deus”. Deus ouve a oração do pecador contrito e humilhado e o reconduz a Jerusalém, ao seu reino. Que Jerusalém é essa senão a infusão da graça, a remissão dos pecados, a reconciliação de Deus com o pecador, na qual há a visão da paz, na qual reina aquele que saiu da prisão e das correntes para chegar ao reino, como se diz no Eclesiastes? (cf. Ecl 4,14). E nisso pode reconhecer que o Senhor é verdadeiramente Deus, aquele que o libertou e fez sair dele o espírito imundo, do qual se diz: “Quando o espírito imundo sai do homem”.
19. Segue-se o segundo: “Anda por lugares sem água, procurando repouso”. O andar do diabo nada mais é que a sua tentação. Por isso ele responde em Jó: “Percorri a terra e caminhei por ela” (Jó 1,7). Primeiro, o diabo dá voltas em torno da terra, isto é, da mente do homem; ou seja, investiga sutilmente a qual vício ela é mais inclinada; depois, percorre-a, porque, conforme o que tiver visto, tenta cada um. “Anda”, portanto, “por lugares sem água”. Os lugares sem água — isto é, “áridos”, como diz Mateus (Mt 12,43) — são os santos, ressecados da umidade da gula e da luxúria. Por isso, um deles diz no Salmo: “Numa terra deserta, intransitável e sem água; assim me apresentei a ti no santuário, para contemplar o teu poder e a tua glória” (Sl 62,2-3).
Observa aqui três virtudes que santificam os homens e iluminam a mente para contemplar a Deus. “Na terra deserta” é designada a pobreza; na terra “intransitável”, a castidade; na terra “sem água”, a abstinência. A terra, portanto, é o corpo ou a mente do homem justo, que é como um jardim de delícias diante de Deus, ao qual diz: “Ó Deus, meu Deus, na terra”, isto é, no meu corpo ou na minha mente, “deserta” pela pobreza, “intransitável” pela castidade — “intransitável”, isto é, sem aquela via da qual diz Salomão: “A mulher fornicadora é como esterco na via” (Eclo 9,10), e Isaías: “Puseste o teu corpo como terra e como caminho para os transeuntes” (Is 51,23) — e “sem água”, isto é, ressecada pela abstinência de comida e bebida; “assim, no santuário”, isto é, numa santa conduta, “me apresentei a ti”, para que tu, que estás sentado sobre os querubins, aparecesses para mim. Por isso acrescenta: “para contemplar”, isto é, para que pudesse contemplar, “o teu poder e a tua glória”, isto é, Jesus Cristo, teu Filho. Dele diz o Apóstolo: “Ele é o poder de Deus e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,24); e a glória do pai, diz Salomão, é o filho sábio (cf. Pr 13,1). Este é o caminho para contemplar o poder e a glória de Deus. Quem não caminha por ele é cego e como quem apalpa a parede com a mão.
Diga-se, portanto: “Anda por lugares sem água”. Com efeito, o diabo tenta os santos e os justos. Por isso Jó diz a respeito dele: “Confia que o Jordão afluirá à sua boca” (Jó 40,18). Jordão interpreta-se “descida humilde”, ou “riacho do juízo”, e significa os homens santos que, se cometerem alguma falta, imediatamente, humilhados, descem de si mesmos e se julgam no riacho da compunção e da confissão. O diabo, portanto, andando por lugares sem água, confia que tais homens afluirão à sua boca, que entrarão nela. É nesses que procura repouso. Mas eles, como diz Jó, “estão prontos para fazer levantar o Leviatã” (Jó 3,8). Fazem levantar o Leviatã, isto é, expulsam o diabo, aqueles que não lhe permitem repousar na hospedaria do seu coração, negando-lhe o consentimento da mente.
Com efeito, os santos devem fazer como fazem as abelhas, que, segundo se conta, permanecem sentadas vigiando as aberturas da colmeia; e, se por acaso algum elemento estranho entrar por essas aberturas, não permitem que permaneça entre elas, mas perseguem-no continuamente, até expulsá-lo para fora das colmeias. As abelhas são assim chamadas porque se atam pelos pés, ou porque nascem sem pés. Daí deriva de a, que significa “sem”, e pes, “pé”; significam os homens justos, que se atam pelos pés, isto é, pelos afetos da caridade, os quais lhes são dados não pela natureza, da qual diz o Apóstolo: “Todos nascemos filhos da ira” (cf. Ef 2,3), mas somente pela graça.
As colmeias deles são os corpos, cujas aberturas são os cinco sentidos e, em sentido espiritual, os olhos, sobre os quais devem sentar-se e vigiar diligentemente, para que nada estranho, nada diabólico, entre por eles. E, se por acaso alguma sugestão do diabo ou algum deleite da carne entrar por essas aberturas, de modo algum, por nenhuma razão, permitam que permaneça dentro deles, porque a demora traz perigo e, como dizem alguns, o pensamento prolongadamente acolhido é pecado mortal; pois, quando a razão percebe que o pensamento se inclina para algo ilícito e não o refreia quanto pode, diz-se que esse pensamento é prolongado. Mas as abelhas devem imediatamente insurgir-se e persegui-lo com os aguilhões da contrição e da oração, expulsando-o para fora das colmeias dos seus corpos. Diz-se, portanto, muito bem que os justos estão prontos para fazer levantar o Leviatã, para que ele não encontre neles repouso.
20. Segue-se o terceiro: “E, não encontrando repouso, diz: Voltarei à minha casa, de onde saí; e, ao voltar, encontra-a varrida e adornada”. Mateus diz: “Encontra-a vazia, varrida e adornada” (Mt 12,44). Observa que há três tipos de vassoura: a da contrição, a da confissão e a da satisfação. Sobre a vassoura da contrição diz o Profeta: “Eu varria o meu espírito” (Sl 76,7). Varre o seu espírito aquele que, com a vassoura da contrição, limpa da face da sua alma as imundícies dos pensamentos impuros e o pó da vaidade mundana. Sobre a vassoura da confissão e da satisfação diz o Senhor por Isaías, quando fala da Babilônia: “Eu a varrerei com a vassoura da destruição, diz o Senhor Deus dos exércitos” (Is 14,23). O Senhor varre a Babilônia quando, pela confissão, purifica dos pecados a alma confundida por eles. Com a vassoura da destruição, ele a tritura quando a golpeia com os flagelos da satisfação. Com estas três vassouras, a casa, isto é, a alma do homem, é purificada. Sobre essa purificação diz o Senhor por Isaías: “Lavai-vos, purificai-vos, afastai da minha presença o mal dos vossos pensamentos”, pela vassoura da contrição; “cessai de agir perversamente”, purificados pela vassoura da confissão; “aprendei a fazer o bem” (Is 1,16-17), castigados pela vassoura da satisfação.
Mas, como das boas obras costuma nascer uma vã segurança e a ociosidade, que é inimiga da alma, acrescenta-se: “Encontra-a vazia e adornada”. O bem-aventurado Bernardo diz que o ócio é a sentina de todas as tentações e de todos os pensamentos maus e inúteis. Por isso se diz no Primeiro Livro dos Reis que “os amalecitas lançaram um ataque contra Siceleg pelo lado do sul, feriram Siceleg e a incendiaram; e levaram cativas as mulheres que nela estavam, do menor ao maior” (1Rs 30,1-2). Amalecitas interpreta-se “os que lambem o sangue” e significa os demônios, que desejam lamber e devorar o sangue das almas, isto é, a compunção das lágrimas. Estes atacam Siceleg pelo lado do sul. O austro é um vento tépido, do qual diz Jó: “Considerai os caminhos de Temã, as estradas de Sabá” (Jó 6,19). Temã interpreta-se “austro tépido”. Esta é a conduta de vida superficial e ociosa, pela qual o diabo tenta. Pois, quando o espírito imundo encontra a casa desleixada e entregue ao ócio, entra nela. Por isso, como se diz no Segundo Livro dos Reis, porque Davi permaneceu em Jerusalém (cf. 2Rs 11,1) e não saiu para a guerra, foi punido pelo vício, definhando no ócio. Sabá interpreta-se “rede” ou “cativa”, e significa o vínculo da culpa, que se une muito bem à tibieza e à ociosidade. Com efeito, quem não caminha segundo um juízo rigoroso, mas vai com passos dissolutos e negligentes e se envolve em ações licenciosas, fica impedido para as coisas de Deus. Siceleg, portanto, que se interpreta “emissão de voz clara”, isto é, a alma que deve anunciar o seu pecado não balbuciando, mas falando corretamente, é capturada pelos espíritos malignos pelo lado do sul, isto é, pela tibieza e pela ociosidade da sua vida, e incendiada pelo fogo da iniquidade; e tudo quanto há de virtude em seu interior é levado cativo, do menor ao maior. Diz-se, portanto, muito bem: “Encontra-a vazia e adornada”.
21. Lê-se na História Natural que as abelhas pequenas são as mais laboriosas, têm asas delicadas, sua cor é escura e parecem queimadas. E as abelhas ornamentadas pertencem ao número daquelas que nada fazem. As abelhas pequenas são os homens penitentes, pequenos aos próprios olhos. São de grande laboriosidade, pois sempre fazem alguma obra, para que o diabo não encontre sua casa vazia e ociosa; têm também asas delicadas, que são o desprezo do mundo e o amor do reino celeste, com as quais, elevados acima das coisas terrenas, se equilibram no ar, contemplando com maior sutileza a glória de Deus. São também de cor escura e parecem queimadas.
Por isso, no Cântico dos Cânticos, fala a alma do penitente: “Sou morena, mas bela, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como as peles de Salomão. Não vos detenhais em considerar que sou morena, porque o sol me descoloriu” (Ct 1,4-5). Ó “filhas de Jerusalém”, isto é, virtudes angélicas ou almas fiéis, “sou morena” exteriormente, por causa da cinza e do cilício, dos jejuns e das vigílias, “mas bela” interiormente, pela pureza da mente e pela integridade da fé. “Sou morena como as tendas de Cedar”, que se interpreta como “tristeza”: habito, com efeito, em tendas que são transferidas de um lugar para outro e das quais os soldados atacam e são atacados, porque não tenho aqui cidade permanente, mas procuro a futura (cf. Hb 13,14); e, enquanto combato, sou atacada. Em tudo isso, não tenho senão tristeza e dor. “Mas sou bela como as peles de Salomão”, que eram azul-celestes e avermelhadas. Nas peles azul-celestes são designadas a pureza da mente e a contemplação da glória celeste; nas avermelhadas, a integridade da fé e a aspereza do martírio ou da aflição. “Não vos detenhais em considerar que sou morena, porque o sol me descoloriu.” O sol, sofrendo um eclipse, isto é, uma privação, descolore todas as coisas. Assim, o verdadeiro sol, Jesus Cristo, que conheceu o seu ocaso (cf. Sl 103,19), sofrendo na cruz o eclipse da morte, deve descolorir todas as aparências, todas as vaidades, todas as glórias e todas as honras falsas.
Por isso, diz a alma do penitente: “Sou morena, sou escura, porque o sol me descoloriu”. Com efeito, quando, com o olho da fé, vejo o meu Deus, o meu esposo, o meu Jesus pendente da cruz, pregado com cravos, dessedentado com fel e vinagre, coroado com uma coroa de espinhos, toda beleza, toda glória, toda honra, toda pompa transitória se transforma em palidez, e tudo reputo como nada. Assim são as pequenas abelhas, escuras e como queimadas. Mas as abelhas ornamentadas são os religiosos tíbios e insensatos, que se vangloriam do ornamento de seu hábito, que exibem os filactérios de sua vida e engrandecem as franjas de sua santidade; sua casa é ornada exteriormente, mas interiormente está cheia de toda imundície e de ossos de mortos. E por isso lhes acontecerá o que segue: “Então vai e toma consigo outros sete espíritos” etc.
22. Eis o quarto ponto. Observa que esses sete espíritos são aquelas sete vacas das quais se diz, na história de José, no Gênesis, que eram disformes e consumidas pela magreza, e que devoraram outras sete, cuja aparência e conformação dos corpos eram maravilhosas (cf. Gn 41,1-4). Do mesmo modo, esses sete espíritos são sete espigas atingidas pela ferrugem, que devoraram a plenitude e a beleza de outras sete (cf. Gn 41,5-7). E são sete anos de extrema esterilidade, cuja intensidade consumiu a abundância de sete anos. As sete vacas belas e muito gordas, as sete espigas cheias e formosas e os sete anos de grande fertilidade significam os sete dons do Espírito Santo, dos quais Isaías diz: “Repousará sobre ele o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, e o espírito do temor do Senhor o encheu” (Is 11,2-3).
Esses dons são chamados vacas belas e gordas por causa da beleza dos costumes e da fecundidade das virtudes que conferem àquele sobre quem repousam; são chamados espigas cheias e formosas por causa da plenitude da fé em Jesus Cristo, que foi grão de trigo, e da maturidade do duplo amor de Deus e do próximo.
Esses sete dons do Espírito são também chamados sete anos de grande fertilidade, porque, no septenário desta peregrinação, fazem a mente sobre a qual repousam abundar em grande fecundidade, mediante o dom da graça sétupla. Mas, ai! ai! as sete vacas disformes e macilentas, as sete espigas atingidas pela ferrugem, os sete anos de extrema esterilidade, os sete espíritos mais perversos que o espírito imundo entram na casa vazia e ornamentada e devoram os sete dons do Espírito; e assim o estado final daquele homem se torna pior que o anterior. E por isso são chamados mais perversos pelo efeito, porque tornam o homem pior do que antes era.
E observa que esses sete espíritos mais perversos são chamados vacas disformes e macilentas por causa da deformação da imagem e semelhança de Deus e do enfraquecimento da caridade, que é a gordura da alma; espigas atingidas pela ferrugem, que é o fedor de uma coisa queimada, por causa do fedor dos crimes; anos de extrema esterilidade, por causa da esterilidade das boas obras, que infligem todos esses males à mente miserável e a mantêm miseravelmente ocupada. Diz-se, portanto, com razão: “E o estado final daquele homem se torna pior que o anterior”.
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que, pelo poder de tua virtude, o espírito imundo saia dos corações dos fiéis, os torne lugares áridos e sem água, torne pura a consciência deles e fervorosa em teu santo serviço, e a encha com o espírito da graça sétupla.
Digne-se conceder-nos isso aquele a quem pertencem a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
1. Naquele tempo: “Uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse-lhe: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que mamaste” etc. (Lc 11,27).
O esposo fala à esposa no Cântico dos Cânticos: “Faça-se ouvir a tua voz aos meus ouvidos, pois a tua voz é doce” (Ct 2,14). Doce é a voz do louvor da gloriosa Virgem, que ressoa dulcissimamente aos ouvidos do Esposo, isto é, de Jesus Cristo, Filho da mesma Virgem. Elevemos, portanto, todos juntos e cada um de nós a voz em louvor da bem-aventurada Maria, e digamos a seu Filho: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que mamaste”.
2. Bem-aventurado diz-se de quem é bem enriquecido. Bem-aventurado é aquele que tem tudo o que quer e nada quer de mau. Bem-aventurado é aquele a quem tudo o que deseja sucede. Bem-aventurado, portanto, o ventre da Virgem gloriosa, que mereceu trazer durante nove meses todo o Bem, o sumo Bem, a bem-aventurança dos anjos e a reconciliação dos pecadores. Por isso, Agostinho diz: “Fomos reconciliados somente pelo Filho segundo a carne, mas não somente com o Filho segundo a divindade. Com efeito, a Trindade nos reconciliou consigo pelo fato de a própria Trindade ter feito carne somente o Verbo”. Bem-aventurado, portanto, o ventre da Virgem gloriosa, da qual o bem-aventurado Agostinho diz, no livro “Da natureza e da graça”: “Excetuada a santa Virgem Maria, da qual, por causa da honra do Senhor, não quero absolutamente que se levante questão alguma quando se trata de pecados. Sabemos, com efeito, que lhe foi conferida uma graça maior para vencer inteiramente o pecado, pois mereceu conceber e dar à luz aquele que, consta, não teve pecado algum. Excetuada, pois, essa Virgem, se todos os santos e santas pudessem ser reunidos e lhes fosse perguntado se tinham pecado, que responderiam senão o que João diz? ‘Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós’” (1Jo 1,8). Aquela Virgem gloriosa, porém, foi prevenida e repleta por uma graça singular, para que tivesse como fruto de seu ventre justamente aquele que, desde o princípio, tinha como Senhor do universo.
3. Bendito, portanto, o ventre do qual o Filho, em louvor de sua Mãe, diz no Cântico dos Cânticos: “Teu ventre é como um monte de trigo, cercado de lírios” (Ct 7,2). O ventre da gloriosa Virgem foi como um monte de trigo: “monte”, porque nele foram acumuladas todas as prerrogativas de méritos e prêmios; “de trigo”, porque nele, como num celeiro, pela diligência do verdadeiro José, foi depositado o trigo, para que todo o Egito não perecesse de fome. Chama-se triticum o trigo porque é guardado num celeiro puríssimo, ou porque seu grão é moído e triturado; branco por dentro, vermelho por fora, significa Jesus Cristo, que ficou guardado por nove meses no celeiro do ventre bem-aventurado da gloriosa Virgem e que, na mó da cruz, foi triturado por nós: cândido pela inocência da vida, vermelho pelo derramamento do sangue. Este ventre bem-aventurado foi “cercado de lírios”. O lírio, assim chamado como que por ser leitoso, significa, por sua brancura, a virgindade da bem-aventurada Virgem Maria. Seu ventre foi “cercado”, isto é, protegido pelo vale da humildade, “de lírios” de ambas as virgindades, a interior, isto é, a do espírito, e a exterior. Por isso, diz Agostinho: “O Deus unigênito, ao ser concebido, recebeu da Virgem a verdadeira carne e, ao nascer, conservou na Mãe a integridade da virgindade”. “Bendito, portanto, o ventre que te trouxe”.
Verdadeiramente bendito, porque trouxe a ti, Deus e Filho de Deus, Senhor dos anjos, Criador do céu e da terra, Redentor do mundo. A Filha trouxe o Pai; a Virgem pobrezinha trouxe o Filho. Ó querubins! Ó serafins! Ó anjos e arcanjos! Com o rosto abaixado e a cabeça inclinada, adorai reverentemente o templo do Filho de Deus, o sacrário do Espírito Santo, o ventre bem-aventurado cercado de lírios, dizendo: “Bendito o ventre que te trouxe”. Ó filhos terrenos de Adão, aos quais foi concedida esta graça, esta prerrogativa especial, devotos na fé, compungidos no espírito, prostrados por terra, adorai o trono de marfim do verdadeiro Salomão, excelso e elevado (cf. 3Rs 10,18-20; Ct 3,9-10), o trono do nosso Isaías (cf. Is 6,1), dizendo: “Bendito o ventre que te trouxe”.
4. Segue-se: “E as mamas das quais mamaste”. Delas diz Salomão nos Provérbios: “Cerva amabilíssima e gracioso filhote: que suas mamas te embriaguem em todo tempo e deleita-te continuamente em seu amor” (Pr 6,19). Observa que a cerva, como se diz no livro das Coisas Naturais, dá à luz numa via frequentada, sabendo que o lobo evita a via frequentada por causa dos homens. A “cerva amabilíssima” é a bem-aventurada Maria, que numa via frequentada, isto é, numa hospedaria, deu à luz o gracioso filhote, porque nos foi dado gratuitamente e no tempo oportuno. Por isso, Lucas diz: “Deu à luz o seu filho primogênito e envolveu-o em faixas”, para que recebêssemos a veste da imortalidade, “e depô-lo numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Aí diz a Glosa: Não encontrou lugar na hospedaria para que nós tivéssemos muitas moradas nos céus. Que as mamas desta cerva, amabilíssima para todo o mundo, “te embriaguem”, ó cristão, “em todo tempo”, para que, esquecido de todas as coisas temporais, como um embriagado, te estendas para aquilo que está diante de ti (cf. Fl 3,13). Mas é muito de admirar que ele tenha dito: “embriaguem”, quando nas mamas não há vinho, que embriaga, mas um leite suavíssimo. Ouve por quê. Seu Esposo, o Filho, louvando-a, diz no Cântico dos Cânticos: “Como és bela, como és graciosa, caríssima, em delícias! A tua estatura é semelhante à da palmeira, e as tuas mamas, a cachos de uvas” (Ct 7,6-7). Como és bela na alma, como és graciosa no corpo, minha mãe, minha esposa, cerva amabilíssima, em delícias, isto é, nas recompensas da vida eterna.
5. “A tua grandeza é semelhante à da palma.” Observa que a palma, embaixo, é áspera por causa da casca; no alto, porém, é bela à vista e pelos frutos, e, como diz Isidoro, produz fruto quando chega aos cem anos. Assim, a bem-aventurada Maria foi neste mundo áspera pela casca da pobreza, mas no céu é bela e gloriosa, porque é rainha dos anjos; e mereceu alcançar o fruto centuplicado, que é dado às virgens, ela que é a Virgem das virgens, acima de todas as virgens. Diz-se, portanto, muito bem: “A tua grandeza é semelhante à da palma, e os teus seios são como cachos”.
Cacho é uma espécie de fruto, formado por muitos frutos reunidos num só conjunto, como as uvas que nascem na videira. A respeito dela, na história de José, no Gênesis, o copeiro do rei diz: “Eu via diante de mim uma videira, na qual havia três ramos; ela crescia pouco a pouco, lançava brotos e, depois das flores, amadureciam as uvas” (Gn 40,9-10). Nesta passagem há sete elementos: a videira, os três ramos, os brotos, as flores e as uvas. Vejamos como essas sete coisas convêm admiravelmente à bem-aventurada Maria. A videira, assim chamada porque tem força para enraizar-se mais prontamente, ou porque se entrelaça com outras, é a bem-aventurada Maria, que, mais que todos os outros, se enraizou mais pronta e profundamente no amor de Deus e se entrelaçou inseparavelmente à verdadeira videira, isto é, a seu Filho, que disse: “Eu sou a verdadeira videira” (Jo 15,1); e de si mesma disse no Eclesiástico: “Eu, como a videira, produzi um fruto de suave perfume” (Eclo 24,23). O parto da bem-aventurada Virgem não tem exemplo entre as mulheres, mas encontra semelhança na natureza das coisas. Perguntas de que modo a Virgem gerou o Salvador? Como a flor da videira produz perfume. Encontrarás incorrupta a flor da videira depois de ter exalado o seu perfume; assim, crê inviolada a pureza da Virgem, pelo fato de ela ter dado à luz o Salvador. Que outra coisa é a flor da virgindade senão a suavidade do seu perfume?
Os três ramos desta videira foram a saudação do anjo, a vinda do Espírito Santo e a inefável concepção do Filho de Deus. Desses três ramos se propagou a descendência dos fiéis, que todos os dias se difunde por todo o mundo pela fé, isto é, se multiplica. Os brotos da videira são a humildade e a virgindade da bem-aventurada Maria; as flores são a fecundidade sem corrupção e o parto sem dor; os três cachos de uvas na videira são a pobreza, a paciência e a abstinência da bem-aventurada Virgem. Estas são as uvas maduras, das quais jorra o vinho maduro e aromático, que embriaga e, ao embriagar, torna sóbrias as mentes dos fiéis. Diz-se, portanto, muito bem: “Que os seus seios te embriaguem em todo tempo, e deleita-te continuamente no seu amor”, para que, pelo amor dela, possas desprezar a falsa alegria do mundo e calcar aos pés a concupiscência da tua carne.
6. Refugia-te junto dela, ó pecador, porque ela é a cidade de refúgio. Assim como outrora o Senhor, conforme se diz no livro dos Números, separou cidades de refúgio, para as quais fugisse aquele que, sem querer, tivesse cometido um homicídio (cf. Nm 35,11-14), assim agora a misericórdia do Senhor providenciou o nome de Maria como refúgio de misericórdia também para os homicidas voluntários. O nome da Senhora é uma torre fortíssima; junto dela refugiar-se-á o pecador e será salvo. Nome doce, nome que conforta o pecador e é de feliz esperança. Senhora, o teu nome é o desejo da alma (cf. Is 26,8). “E o nome”, diz Lucas, “da Virgem era Maria” (Lc 1,27). “O teu nome é como óleo derramado” (Ct 1,2). O nome de Maria é júbilo no coração, mel na boca, melodia no ouvido. Diz-se, portanto, muito apropriadamente, em louvor da mesma Virgem: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”.
Observa que “sugar” se diz como que “agir tomando” (lat. sugere, sumendo agere). Pois, enquanto Cristo tomava o leite, realizava a nossa salvação. A nossa salvação foi a sua Paixão; ele suportou a Paixão no corpo que havia sido nutrido com o leite da Virgem. Por isso diz no Cântico dos Cânticos: “Bebi o meu vinho com o meu leite” (Ct 5,1). Por que não disseste, Senhor Jesus: “Bebi o vinagre com o meu leite”? Amamentado por seios virginais, foste dessedentado com fel e vinagre. A doçura do leite foi transformada na amargura do fel, para que a sua amargura nos proporcionasse a eterna doçura. Sugou os seios aquele que, no monte Calvário, quis ser traspassado pela lança no peito, para que os pequeninos sugassem sangue em lugar de leite. A respeito deles diz Jó: “Os filhotes da águia lambem o sangue” (Jó 39,30).
7. Segue: “Mas ele disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28). Aí diz a Glosa: Como se dissesse: Maria não deve ser louvada somente porque trouxe o Verbo de Deus no ventre, mas também é bem-aventurada porque observou na prática os preceitos de Deus.
Rogamos, portanto, ó nossa Senhora, nossa esperança, que, a nós sacudidos pela tempestade deste mar, tu, Estrela do mar, nos ilumines e conduzas ao porto; que, no momento de nossa passagem, protejas nosso êxodo com o amparo de tua presença, para que mereçamos sair seguros do cárcere e chegar alegres à alegria infinita. Conceda-nos isso aquele que trouxeste em teu ventre bendito e amamentaste com teus sacratíssimos seios; a ele sejam a honra e a glória pelos séculos eternos. Amém.