Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 29

Domingo II depois de Pentecostes Dominica II post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 5 seções · 12 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do segundo domingo depois de Pentecostes: “Certo homem deu uma grande ceia”, que se divide em três partes.

Primeiramente, sermão sobre o combate dos demônios contra os justos, onde se diz: “Reunindo os filisteus”.

[Da primeira parte]. Também sermão aos religiosos, onde se diz: “Ana amamentou seu filho”.

Também sermão sobre o banquete da glória celeste, onde se diz: “O Senhor dos exércitos preparará”.

Também sermão aos penitentes, onde se diz: “O Senhor Deus dos exércitos chamou”.

Da segunda parte. Sermão contra as preocupações temporais, onde se diz: “Comprei uma propriedade”, e também: “A arca da aliança do Senhor”.

Também sermão contra o desejo desenfreado de dominar, onde se diz: “Saul, constrangido pela necessidade”, etc.

Também sermão sobre as cinco juntas de bois e seu significado, onde se diz: “Comprei cinco juntas de bois”.

Também sermão sobre a devastação dos vícios e a mortificação da carne, onde se diz: “Naás, o amonita, subiu”.

Da terceira parte. Sermão contra o amante do mundo que, quando é abandonado e desprezado pelo mundo, é acolhido por Cristo, onde se diz: “Um jovem egípcio, servo de um homem”.

Exórdio. O combate entre os demônios e os justos

1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. E, à hora da ceia, enviou seu servo para dizer aos convidados que viessem” (Lc 14,16-17).

Lê-se no Primeiro Livro dos Reis: “Reunindo os filisteus seus exércitos para o combate, congregaram-se em Soco de Judá e acamparam entre Soco e Azeca, nos confins de Dommim. Saul, porém, e os filhos de Israel, reunidos, congregaram-se no vale do Terebinto e dispuseram-se em linha de batalha para lutar contra os filisteus” (1Rs 17,1-2). Filisteus interpreta-se como “os que caem por causa da bebida”; Soco, “tendas”; Judá, “confissão”; Azeca, “armadilha”; Dommim, “vermelha”. Os filisteus são os demônios que, embriagados pela bebida da soberba, caíram do céu. Estes, reunindo seus exércitos, congregam-se para o combate em Soco de Judá, isto é, para lutar contra aqueles que militam nas tendas da penitência; e acampam entre Soco e Azeca, que está nos confins de Dommim. Com efeito, os demônios atacam os homens justos para enredá-los na armadilha da sugestão perversa e, depois de os enganarem, conduzi-los ao sangue do pecado.

Por isso se diz no Terceiro Livro dos Reis que os cães lamberam o sangue de Acab (cf. 3Rs 22,38). Os cães são os demônios, que lambem o sangue de Acab, nome que se interpreta como “irmãos do mesmo pai”, isto é, daquele que costumava habitar na fraternidade dos penitentes, os quais têm um só Deus por Pai. Os filhos de Israel, porém, isto é, os verdadeiros pregadores, reunidos na unidade da fé, devem dirigir a força da mente e da pregação para combater contra os demônios. Mas em que lugar? Certamente no vale do Terebinto, isto é, na humildade da cruz, da qual emanou a preciosíssima resina do sangue de Jesus Cristo, que diz no evangelho de hoje: “Certo homem deu uma grande ceia” etc.

2. Observa que neste evangelho se notam três coisas. Primeiro, a preparação da grande ceia e o convite para ela por meio do servo, quando se antepõe: “Certo homem”. Segundo, a desculpa dos convidados, quando se acrescenta: “E todos começaram, ao mesmo tempo, a desculpar-se”. Terceiro, a introdução dos pobres, dos fracos, dos cegos e dos coxos na ceia, quando se acrescenta: “Então, irado, o dono da casa” etc. A estas três partes harmonizaremos algumas histórias do Primeiro Livro dos Reis.

Neste domingo, no introito da missa, canta-se: “O Senhor tornou-se meu protetor” (Sl 17,19), e lê-se a epístola do bem-aventurado João: “Não vos admireis se o mundo vos odeia”, que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três partes do evangelho. A primeira é: “Não vos admireis”. A segunda: “Nisto conhecemos o amor de Deus”. A terceira: “Quem possuir os bens deste mundo”.

I. A preparação da ceia e os convites para ela

3. Digamos, portanto: “Um homem fez uma grande ceia.” Observa que há uma dupla ceia: a da penitência e a da glória. Mas, visto que sem a primeira não se chega à segunda, preparemos a primeira e vejamos quais são os alimentos necessários.

Sobre isso temos uma concordância no Primeiro Livro dos Reis, onde se diz que Ana “amamentou seu filho até que o tirasse do leite. E, depois de o desmamar, levou-o consigo com três novilhos, três medidas de farinha e uma ânfora de vinho; e levou-o à casa do Senhor, em Silo” (1Rs 1,23-24). Ana, que se interpreta como graça, significa a graça do Espírito Santo, a qual, com os dois seios — isto é, a graça preveniente e a subsequente, ou cooperante — amamenta o penitente até afastá-lo completamente do leite da concupiscência carnal e da vaidade do mundo. Observa que, assim como a mãe que quer afastar o filho do leite unge o seio com suco amargo, para que, enquanto a criança busca a doçura, encontre a amargura, pela qual se aparte da doçura, assim a graça do Espírito Santo unge o seio dos bens temporais com o amargo suco da tribulação, para que o homem aborreça essa doçura salpicada de amargura e busque a verdadeira doçura.

Por isso, acrescenta-se: “E levou-o, depois de o desmamar, com” — isto é, junto com — “três novilhos”. Eis quais são os alimentos necessários para preparar a ceia da penitência. A graça leva consigo o penitente com três novilhos, nos quais se assinala uma tríplice oferta: a do novilho de um coração contrito e aflito. Por isso, diz o Salmo: “Porão novilhos sobre o teu altar” (Sl 50,21). Sobre o altar, isto é, na contrição do coração, os penitentes põem novilhos, isto é, sacrificam as lascívias e os pensamentos impuros.

Também o novilho da confissão. Por isso, no final de Oseias: “Tomai”, diz ele, “convosco palavras, convertei-vos ao Senhor e dizei-lhe: Retira toda a iniquidade e aceita o bem, e ofereceremos os novilhos de nossos lábios” (Os 14,3). Leva consigo palavras aquele que se esforça por cumprir o que ouve e assim se converte ao Senhor. A ele também diz: “Retira toda a iniquidade” que cometi, “e aceita o bem” que deste. “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória” (Sl 113B,1). E assim te oferecerei “os novilhos de meus lábios”, isto é, a confissão do pecado e o louvor.

Também o novilho do corpo, mortificado pela penitência. Novilho e novilha são assim chamados por causa da idade verdejante. O novilho ou a novilha significam a nossa carne, que, na verdejante idade da juventude, corre desenfreadamente pelos prados da licenciosidade cativa. Dela diz Sansão no Livro dos Juízes: “Se não tivésseis arado com a minha novilha, não teríeis encontrado a solução do meu enigma” (Jz 14,18). Sansão é o espírito; a novilha é a nossa carne: se aramos nela, isto é, se a afligimos, encontraremos a solução do enigma, que é: “Que há de mais doce que o mel, que há de mais forte que o leão” da tribo de Judá? (Jz 14,18). Que há de mais doce que o mel, isto é, que a contemplação? Que há de mais forte que o leão, isto é, que o pregador, ao cujo rugido todos os animais devem deter o passo? Que há de mais doce que o mel da mansidão? Que há de mais forte que o leão da severidade? Diz-se, portanto, com razão: “E levou-o consigo com três novilhos.”

“E três medidas de farinha.” O grão é moído e reduzido a farinha. A farinha, misturada com água, solidifica-se em pão, que sustenta o coração do homem (cf. Sl 103,15). Do mesmo modo, o grão de nossas obras deve ser moído pela reflexão, triturado pelo exame, para ser purificado à maneira da farinha. Esse exame, porém, deve ser tríplice, designado pelas três medidas. É preciso examinar a natureza da obra, sua origem e seu fim. Depois, a obra deve ser misturada com as águas das lágrimas, para que se chore pelo regadio inferior e superior (cf. Jz 1,15): ou oferecemos a obra pela remissão da má obra passada, ou pelo desejo da alegria eterna, o que é designado pelas duas rolas oferecidas na Lei, das quais uma era oferecida pelo pecado e a outra era queimada em holocausto (cf. Lv 12,8). Da farinha, portanto, e da água se forma o pão, que sustenta o coração do homem, porque, da obra misturada às lágrimas, a consciência do homem se nutre e se enriquece.

Segue-se: “E uma ânfora de vinho”, que contém três medidas. No vinho é figurada a alegria da mente, que consiste em três coisas: no testemunho de uma boa consciência, no progresso do próximo e na esperança da alegria eterna. Com todas essas coisas, a mãe Ana, isto é, a graça do Espírito Santo, leva seu filho, o homem justo, à casa do Senhor, em Silo, que se interpreta como transferida, isto é, à vida eterna, para a qual os santos são transferidos da peregrinação deste mundo e, na ceia de sua glória, banqueteiam-se com os anjos bem-aventurados.

4. A ceia é assim chamada pela reunião dos que comem, porque antigamente se comia uma só vez por dia, isto é, todos juntos à tarde. A ceia da glória eterna significa o banquete no qual os santos se saciarão juntos da visão de Deus, pois será dado um único denário aos que trabalham na vinha (cf. Mt 20,2). Sobre o banquete desta ceia diz Isaías: “O Senhor dos exércitos fará para todos os povos, neste monte, um banquete de iguarias gordurosas, um banquete de vindima, de iguarias gordurosas e suculentas, de vindima purificada” (Is 25,6). Eis como o Evangelho concorda com Isaías. O Senhor diz: “Um homem preparou uma grande ceia.” Isaías: “O Senhor dos exércitos fará”, etc. O que ali se chama “grande ceia”, aqui se chama “banquete de iguarias gordurosas”.

Observa estas quatro palavras: banquete, iguarias gordurosas, carnes suculentas e vindima purificada. No banquete, que se chama assim por ser alimento de muitos reunidos, é indicada a gloriosa assembleia de todos os santos; nas iguarias gordurosas, a caridade deles; nas carnes suculentas, a felicidade das almas na visão de Deus; na vindima purificada, a glorificação dos corpos. Neste monte, portanto, isto é, na Jerusalém celeste, o Senhor dos exércitos, isto é, dos exércitos angélicos, fará um banquete de iguarias gordurosas, isto é, reunirá todos os santos, que estarão nutridos pela riqueza da caridade, repletos de uma felicidade inefável na visão de Deus e bem-aventurados pela glorificação dos corpos. Então haverá verdadeiramente uma vindima purificada. Vindima, isto é, a colheita da vinha, ou seja, a coleta das uvas, chama-se purificada, isto é, sem borra ou limpa de toda impureza. Na vindima da ressurreição geral haverá a coleta dos corpos dos santos, purificada, isto é, limpa de toda a borra da corrupção e da mortalidade, e recolocada no celeiro celeste. Diz-se, pois, com razão: “Um homem preparou uma grande ceia.”

Observa que naquela “grande ceia” comeremos grandes alimentos, isto é, aqueles frutos que os filhos de Israel, como se diz no livro dos Números, trouxeram da Terra Prometida: uvas, figos e romãs (cf. Nm 13,24). Na uva, da qual se espreme o vinho, é significado o gozo que os santos terão na visão do Verbo encarnado. Os próprios homens verão Deus feito homem, ao passo que os anjos não verão Deus feito anjo; verão a sua natureza elevada acima dos anjos. Sobre esse gozo diz Habacuc: “Eu, porém, exultarei no Senhor e me alegrarei em Deus, meu Jesus” (Hab 3,18). E diz bem: “meu Jesus”. Ele, para me salvar, tomou de mim, isto é, tomou a minha carne, e a elevou acima dos coros dos anjos.

Do mesmo modo, no figo, assim chamado por causa da fecundidade e mais doce que todos os frutos, é indicada a doçura que os santos terão na visão de toda a Trindade. Sobre ela diz o Profeta: “Quão grande é a multidão da tua doçura, Senhor, que escondeste para os que te temem” (Sl 30,20). “Escondeste-a”, diz ele, para que fosse buscada com maior ardor; buscada, fosse encontrada; encontrada, fosse amada com doçura; amada, fosse possuída eternamente. E ainda: “Preparaste na tua doçura para o pobre, ó Deus” (Sl 67,11). Não diz o que preparou, porque aquilo que preparou não pode ser expresso por palavras. Daí dizer o Apóstolo: “O que o olho não viu”, porque está escondido; “nem o ouvido ouviu”, porque está no silêncio e não pode ser exprimido; “nem subiu ao coração do homem” (1Cor 2,9), porque é incompreensível.

Do mesmo modo, nas romãs é simbolizada a unidade da Igreja triunfante e a diversidade das recompensas. As romãs são assim chamadas porque têm dentro grãos perfumados. Observa que, assim como na romã todos os grãos estão escondidos sob uma única casca e, contudo, cada grão tem separadamente a sua própria célula, assim, na vida eterna, todos os santos terão uma só glória e, contudo, cada um receberá uma recompensa maior ou menor, segundo o seu próprio trabalho. Por isso diz o Senhor: “Na casa de meu Pai” — eis a casca — “há muitas moradas” (Jo 14,2) — eis as células distintas.

5. Eis quais alimentos comeremos na grande ceia, da qual se diz: “Um homem preparou uma grande ceia”. Este homem é Jesus Cristo, Deus e homem, que preparou a grande ceia da penitência e da glória, para a qual chamou muitos, mas muitos desdenham vir. Por isso diz nos Provérbios: “Chamei, e vós recusastes; estendi a minha mão, e não houve quem olhasse” (Pr 1,24). O Verbo do Pai chamou pessoalmente; chama também por meio das palavras de outros, e eles recusam vir. Estende a sua mão na cruz, pronto para conceder muitos benefícios, mas não há quem olhe. Contudo, virá o tempo em que fará da mão estendida um punho, com o qual golpeará impiamente (cf. Is 58,4).

O Senhor chama à primeira ceia, isto é, à penitência. Por isso Isaías: “Naquele dia, o Senhor Deus dos exércitos chamou ao pranto, ao lamento, à raspagem da cabeça e ao cingir-se de saco” (Is 22,12). Nestas quatro coisas está contida a verdadeira penitência. No pranto, a contrição; no lamento, a confissão; na raspagem da cabeça, a renúncia aos bens temporais; e no cingir-se de saco designa-se a satisfação. A esta ceia chama o Senhor, mas não querem vir, porque preparam para si outro banquete, do qual se acrescenta: “Eis a alegria e o júbilo: matar novilhos, degolar carneiros, comer carnes e beber vinho: comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (Is 22,13).

Igualmente, o Senhor chama à ceia da glória celeste. Por isso se diz no livro de Esdras que Ciro “fez proclamar em todo o seu reino, também por escrito, dizendo: Quem dentre vós pertence a todo o povo do Deus do céu? Esteja o seu Deus com ele; suba a Jerusalém, que está na Judeia, e edifique a casa do Senhor, Deus de Israel: ele é o Deus que está em Jerusalém” (Esd 1,1.3). Ciro interpreta-se como herança e significa Jesus Cristo, que é a nossa herança. Por isso diz o Profeta: “Uma herança ilustre”, isto é, ilustre acima dos outros santos, “coube-me” (Sl 15,6). Ele ordena a todo o povo que suba à Jerusalém celeste, “que é construída como uma cidade” (Sl 121,3), com pedras polidas, isto é, com as almas justas. Mas este povo diz pelo profeta Ageu: “Ainda não chegou o tempo de se edificar a casa do Senhor” (Ag 1,2).

O Senhor, cuja misericórdia não tem medida (cf. Jó 9,10), não chama somente por si mesmo, mas também por meio da ordem dos pregadores, conforme se segue: “E, à hora da ceia, enviou o seu servo para dizer aos convidados que viessem, porque tudo já estava preparado” (Lc 14,17). Diz a Glosa: A hora da ceia é o fim do mundo. Por isso o Apóstolo aos Coríntios: “Nós somos aqueles sobre os quais chegaram os fins dos séculos” (1Cor 10,11). Neste fim é enviado o servo, isto é, a ordem dos pregadores, aos convidados pela Lei e pelos Profetas, para que, afastado o fastio, se preparem para saborear a ceia, porque tudo já está preparado. Com efeito, depois de Cristo ter sido imolado, a entrada do reino está aberta. A abertura do reino é a Paixão de Cristo, pela qual a Igreja, ou o homem justo, tendo entrado na primeira ceia e estando para entrar na segunda, diz no intróito da missa de hoje: “O Senhor tornou-se o meu protetor; conduziu-me para um lugar espaçoso, salvou-me, porque me quis” (Sl 17,19-20). O Senhor tornou-se meu protetor, ao estender os braços na cruz, em sua Paixão; conduziu-me para um lugar espaçoso, na missão do Espírito Santo; salvou-me da perseguição dos inimigos, porque quis que eu entrasse na ceia da vida eterna.

À primeira cláusula do Evangelho de hoje corresponde a primeira parte da epístola de hoje, na qual o bem-aventurado João fala aos convivas da ceia da vida eterna: “Não vos admireis”, diz ele, “irmãos, se o mundo vos odeia. Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3,13-14). O mundo, isto é, os amantes do mundo, odeia os cidadãos da vida eterna. E não é de admirar, porque odeiam a si mesmos. E quem é mau para consigo, como pode ser bom para com os outros? (cf. Eclo 14,5). Por isso encontras concordância no primeiro livro dos Reis: “Saul tornou-se inimigo de Davi todos os dias. Saul não olhava Davi com bons olhos desde aquele dia em diante” (1Rs 18,29.9). Não vos admireis, portanto, se o mundo vos odeia. Sabemos que passamos da morte do pecado para a vida e para a ceia da penitência, porque amamos os irmãos. O amor dos irmãos é a entrada na ceia da vida eterna.

Peçamos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo que nos introduza na ceia da penitência e, desta, nos transfira para a ceia da glória celeste. Ele no-lo conceda, aquele que é bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Amém.

II. As desculpas dos convidados

6. Segue-se o segundo: “E todos começaram ao mesmo tempo a se desculpar. O primeiro disse: Comprei uma propriedade e preciso sair para vê-la; peço-te que me tenhas por desculpado. E outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; peço-te que me tenhas por desculpado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. E, tendo voltado, o servo anunciou estas coisas ao seu senhor” (Lc 14,18-21). Observa estas três coisas: a propriedade, as cinco juntas de bois e a esposa.

A propriedade, chamada villa, de vallum, isto é, de aterro de terra ou fosso, é o amor de dominar, do qual diz o bem-aventurado Bernardo: “Não temo tanto o fogo nem a espada quanto a paixão de dominar; os que ardem por ela avançam como que cercados pelo baluarte das riquezas e das honras”. Esta é aquela propriedade de Getsêmani, na qual o Senhor foi traído e amarrado. Getsêmani (cf. Mt 26,36) interpreta-se como vale dos gordurosos. Ao vale descem os excrementos com os quais ele é adubado. Assim, na propriedade de Getsêmani, isto é, naqueles que desejam estar à frente dos outros e não servir-lhes de proveito, que repousam no vale, isto é, no prazer da carne, e que, como porcos, se engordam com os excrementos das coisas temporais, Jesus Cristo é traído, isto é, a fé em Jesus Cristo é destruída. Com efeito, a fé rejeita as coisas temporais, não deseja dominar, quer estar submissa e cresce em meio às injúrias. Compra-se esta propriedade de Getsêmani, quando seria melhor não a possuir nem sequer de graça, porque ela obriga a sair da contemplação interior de Deus para a solicitude exterior.

Por isso encontras concordância no primeiro livro dos Reis, onde se diz que a arca da aliança do Senhor dos exércitos, sentado sobre os querubins, foi para o acampamento e foi capturada pelos filisteus (cf. 1Rs 4,4.5.11). A arca é o homem contemplativo, no qual há o maná da suavidade, as tábuas de ambas as leis e a vara da correção. Ele é chamado arca da aliança do Senhor, com o qual fez aliança para servi-lo perpetuamente, daquele que se senta sobre os querubins (cf. Sl 79,2), nome que se interpreta como plenitude da ciência, isto é, sobre aquela alma que está repleta de caridade. Com efeito, a plenitude da lei é a caridade (cf. Rm 13,10). Esta arca, por exigência dos pecados, sai do esconderijo da face de Deus, do Santo dos Santos, para o acampamento, compra uma propriedade e deseja estar à frente. Enquanto assim se eleva, é capturada pelos demônios e levada a Azoto, que se interpreta como incêndio, isto é, o ardor da concupiscência carnal. Diz, portanto: “Comprei uma propriedade”.

7. “E devo sair para vê-la.” Observa estas palavras: “devo sair e ver”. Quem adquire uma propriedade do domínio terreno atrai sobre si necessidades e obrigações; sendo livre, fez-se escravo de uma miserável servidão. Assim Saul, como se narra no Primeiro Livro dos Reis, compelido pela necessidade, desceu até a pitonisa que estava em Endor; por isso disse: “Estou extremamente angustiado. Com efeito, os filisteus combatem contra mim, Deus afastou-se de mim e não quis ouvir-me” (1Rs 28,15).

A propriedade e a pitonisa significam a mesma coisa. Endor interpreta-se como fonte da geração; por ela entendemos Adão, que foi a fonte e a origem da geração humana. Tendo dado o paraíso como preço, para dano de sua alma, quis comprar a propriedade do domínio, quando ouviu falsamente: “Sereis como deuses” (Gn 3,5). Por isso, aqueles que buscam o domínio caminham segundo o homem velho, e não segundo o homem novo, Jesus Cristo (cf. Cl 3,9.10); este, como diz João, quando soube que viriam homens para arrebatá-lo e fazê-lo rei, fugiu para o monte (cf. Jo 6,15). Alguns dizem que pitão é a arte de ressuscitar os mortos; por isso a mulher que conhece essa arte é chamada pitonisa. Ai! Quantos religiosos, mortos para o mundo e sepultados nos claustros, esta pitonisa, isto é, o amor ao domínio, despertou do sono da contemplação, da quietude e da paz, e levou para o público. Por isso diz Isaías: “Serás humilhado, falarás desde a terra; da poeira se ouvirá o teu discurso, e a tua voz será como a da pitonisa, desde a terra, e da poeira o teu discurso murmurará” (Is 29,4).

Eis o que acontece àquele que compra a propriedade, consulta a pitonisa e sai do sepulcro da quietude: “Serás humilhado”, isto é, serás precipitado enquanto crês subir; “desde a terra”, isto é, das coisas terrenas, “falarás”, tu que antes costumavas falar das coisas celestes; “e da poeira”, isto é, do ventre e da gula, umedecidos por comidas e bebidas, “ouvir-se-á o teu discurso”, tu que antes costumavas proferir palavras a partir da doçura da mente e da abstinência da gula; “e será como a da pitonisa, desde a terra, a tua voz”, isto é, a prelazia, tu cuja voz antes costumava falar de renúncia e humildade; “e da poeira o teu discurso murmurará”, isto é, resmungará, tu que antes depositavas a tua fortaleza no silêncio e na esperança (cf. Is 30,15). Eis quanta necessidade e quanta perversidade! Diz, portanto: “Comprei uma propriedade; devo sair.”

Segue-se: “Sair”. Sobre isso tens no Gênesis que Esaú, homem agricultor, saiu para caçar, e Jacó, homem simples, permanecendo no abrigo da mente, arrebatou-lhe a bênção (cf. Gn 25,27-33). Com efeito, quando alguém, por amor às coisas temporais, sai da quietude da mente para caçar uma propriedade ou consultar uma pitonisa, sem dúvida lhe é arrebatada a bênção eterna. “Devo”, diz ele, “sair e vê-la”, como se dissesse: quero vê-la ao menos uma vez, antes de morrer. Este é o único fruto das riquezas. Por isso diz o Eclesiastes: “Onde há muitas riquezas, muitos há que as comem; e que proveito tem o seu possuidor, senão o de contemplá-las com os próprios olhos?” (Ecl 5,10).

Eis que tens claramente que aquele que compra a propriedade do domínio terreno não vai à ceia do Senhor, mas, apresentando uma falsa desculpa, diz: “Peço-te, considera-me desculpado.” Há humildade na voz, quando diz: “Peço-te”, mas há soberba no afeto, quando despreza ir. Assim, frequentemente se diz ao homem justo: “Ora por mim, porque sou pecador”; nessas palavras soa a humildade, enquanto se pede oração, mas permanece a soberba, enquanto não se abandona o pecado. Sobre isso tens uma concordância no Primeiro Livro dos Reis, onde Saul disse a Samuel: “Agora, peço-te, perdoa o meu pecado e volta comigo, para que eu adore o Senhor” (1Rs 15,25).

8. “E outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las” (Lc 14,19) etc. Observa que pelas cinco juntas de bois entendemos os cinco sentidos do corpo. Com efeito, assim como os bois são emparelhados sob o jugo, assim também dois órgãos servem aos nossos sentidos. Há dois ouvidos, dois olhos, duas narinas; no paladar, há também dois órgãos: a língua e o palato; no tato, as duas mãos. Estes são os dez príncipes dos quais Salomão diz no Eclesiastes: “A sabedoria fortaleceu o sábio mais que dez príncipes da cidade” (Ecl 7,20). A sabedoria, assim chamada de sabor, é o amor e a contemplação de Deus, que fortalece o sábio, isto é, a alma que saboreia o sabor do amor, acima dos dez príncipes da cidade, isto é, acima de todo prazer dos dez sentidos do corpo. Aquela verdadeiramente sacia; estes deixam tudo vazio. Aquela adoça; estes amargam. Quem serve àquela é livre; quem serve a estes é miserável. Compra, portanto, juntas de bois aquele que, numa negociação infeliz, desprezando o sabor do amor divino, submete-se ao prazer infeliz dos cinco sentidos, em miserável servidão.

Oxalá o homem tomasse sobre si o jugo do Senhor, que é suave (cf. Mt 11,29-30), e não o jugo do diabo, que é áspero, acerca do qual diz Isaías: “Porque superaste o jugo de sua carga, a vara de seu ombro e o cetro de seu opressor, como no dia de Madiã” (Is 9,4). Eis como Isaías concorda com o Evangelho. O que o Evangelho chama “propriedade”, Isaías chama “vara”; o que aquele chama “juntas de bois”, este chama “jugo de sua carga”; e o que aquele chama “esposa”, este chama “cetro”. Assim como Gedeão, que se interpreta “aquele que gira no ventre”, venceu Madiã com trezentos homens, com trombetas e lâmpadas, como se diz no livro dos Juízes (cf. Jz 7,15-16), assim também o penitente, que deve girar no ventre, isto é, na contrição da mente, considerando o que cometeu e o que omitiu, com trezentos, isto é, com a fé na Santíssima Trindade, com as trombetas da confissão e as lâmpadas de uma satisfação digna, deve superar o jugo da carga do diabo, isto é, o prazer dos cinco sentidos, com o qual o diabo oprime a alma; e a vara de seu ombro, isto é, a cobiça de dominar, com a qual o diabo fere o homem, como o camponês fere o seu asno com uma vara; e o cetro de seu opressor, isto é, a petulância da carne, que consiste em duas coisas: a gula e a luxúria. O cetro que domina é a luxúria, que quase sobre todos exerce o seu domínio. O opressor é a gula, que todos os dias, sob o pretexto da necessidade, deseja usurariamente o prazer.

9. Sobre isso, encontra-se uma concordância no Primeiro Livro dos Reis, onde se diz que “Naás, o amonita, subiu e começou a combater contra Jabes de Galaad; e os homens de Jabes disseram a Naás: Faze conosco uma aliança, e nós te serviremos. Naás lhes respondeu: Com esta condição farei aliança convosco: arrancarei os olhos direitos de todos vós e farei de vós o opróbrio entre todos os povos de todo o Israel” (1Rs 11,1-2). E acrescenta-se: “E o espírito do Senhor investiu Saul, quando ouviu essas palavras; e sua ira se inflamou grandemente. E, tomando os dois bois, cortou-os em pedaços” (1Rs 11,6-7).

Naás interpreta-se “serpente”, o que convém muito bem ao diabo, que, sob a forma de serpente, enganou os nossos primeiros pais. Amonita interpreta-se “povo de aflição”, ou “opressor”, ou “aquele que angustia”. Naás, portanto, é o rei dos amonitas, porque a antiga serpente, isto é, Satanás, é o príncipe dos malvados, que vivem na aflição da tristeza, a qual, segundo o Apóstolo, produz a morte (cf. 2Cor 7,10). Estes oprimem e angustiam a vida dos santos. Por isso diz o Eclesiástico: “O que a fornalha faz ao ouro, a lima ao ferro e o malho ao grão, isso faz a tribulação ao justo” (cf. Pr 27,17.21; Eclo 27,6). O ímpio vive para o piedoso, isto é, para proveito do piedoso, porque a convivência com os maus é como uma grelha para os justos. Naás, portanto, combate contra os homens de Jabes de Galaad. Jabes interpreta-se “ressequida”, e Galaad, “monte de testemunho”. Esta é a alma que primeiro deve ser ressequida dos vícios e depois preenchida com os testemunhos da Paixão do Senhor. Naás, portanto, combate contra os homens de Jabes de Galaad, para lhes arrancar os olhos direitos, sabendo que, uma vez arrancado aquele olho, cada um se torna menos apto para a guerra. O olho direito é a visão do discernimento, que o diabo se esforça por arrancar, deixando o esquerdo, do amor mundano, pois sabe que quem não deseja os bens eternos ama a prosperidade terrena: se está preso às coisas terrenas, facilmente cede no combate.

Quem quiser libertar a sua alma do assédio e da perseguição do diabo, é necessário que faça o que vem a seguir: “E o espírito do Senhor investiu Saul” etc. Saul interpreta-se “ungido”; no início do seu reinado, quando libertou esta cidade, ele era bom e, por isso, significa o homem justo ungido pela graça de Deus. Quando o espírito do Senhor, isto é, a contrição do coração, investe esse homem, então ele se ira contra os seus pecados passados e assim corta os dois bois em pedaços. Os dois bois são os dois olhos; os dois bois são os dois ouvidos, e assim por diante. Corta os dois bois em pedaços aquele que consome em lágrimas os olhos com que cobiçou as coisas ilícitas. Corta os dois bois aquele que cerca com uma sebe de espinhos os dois ouvidos, para que doravante não ouçam a difamação nem a adulação; e o mesmo se diga dos outros sentidos, para que, quantos foram os deleites que teve em si, tantos holocaustos encontre em si mesmo.

10. “E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso vir” (Lc 14,20) etc. A muitos não é o matrimônio, mas o mau uso do matrimônio que os afasta e retrai da ceia do Senhor. Com efeito, não contraem matrimônio para a fecundidade da prole, mas por causa dos desejos da carne. Por isso, deve-se observar que a mulher deve ser tomada por três motivos. Primeiro, para gerar filhos. Por isso, no Gênesis: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28). Segundo, para auxílio. Por isso se diz ali: “Não é bom que o homem esteja só; façamos-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2,18). Terceiro, por causa da incontinência. Por isso diz o Apóstolo: “Se alguém não é continente, case-se, contanto que seja no Senhor” (cf. 1Cor 7,9.39). Ai daquele que tomar mulher por outro motivo além destes!

Além disso, embora o matrimônio seja bom em si mesmo, traz consigo, contudo, muitos perigos. Por isso diz o Apóstolo na Primeira aos Coríntios: “Aquele que está com a mulher preocupa-se com as coisas do mundo, em como agradar à mulher, e está dividido” (1Cor 7,33), entre uma dupla preocupação, isto é, a de Deus e a da mulher. É difícil caminhar assim pelo meio, de modo que alguém esteja dividido entre duas coisas sem se separar de uma delas. Por isso se diz no Primeiro Livro dos Reis que “as duas mulheres de Davi foram levadas cativas, e Davi ficou muito contristado” (1Rs 30,5-6). Se não tivesse tido mulheres, sem dúvida não teria ficado tão contristado. Observa que, neste lugar, por mulher se entende a luxúria da carne, da qual não se diz que foi comprada, mas tomada; pois cada pecador trouxe consigo o pecado carnal desde o início do seu nascimento.

Mas pergunta-se: por que os dois anteriormente mencionados pediram que fossem desculpados, enquanto o terceiro de modo algum o fez? Deve-se responder que o prazer da carne retém o homem nos deleites de tal modo que ele não deseja chegar aos deleites eternos, nem se preocupa em desculpar-se; e por isso fica claro que não ama a Deus, que, convidado pelas preces dos pais do Antigo Testamento a desposar a natureza humana, desceu benignamente às núpcias.

Por isso, a esta segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Nisto conhecemos o amor de Deus: que ele entregou a sua vida por nós; e nós devemos entregar a vida pelos irmãos” (1Jo 3,16). Observa que aqui o bem-aventurado João toca em três coisas, a saber: Deus, nós e os irmãos. Quem ama a Deus não compra a propriedade do domínio. Quem ama a sua alma reprime os jugos dos cinco sentidos. Quem ama o próximo, por quem é obrigado a entregar a vida, não toma de modo algum a mulher da luxúria, pela qual o escandaliza e ofende.

Rogamos, portanto, Senhor Jesus, que nos tires a propriedade de todo domínio, reprimas os prazeres dos cinco sentidos e nos faças viver sem a maldita mulher da concupiscência, para que possamos vir livres à tua ceia.

Conceda-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

III. A entrada na ceia daqueles que o mundo despreza

11. Segue-se o terceiro: “Então, irado, o pai de família disse ao seu servo: Sai depressa pelas praças e pelas ruas da cidade; e introduze aqui os pobres, os débeis, os cegos e os coxos” (Lc 14,21). Como os três primeiros convidados se recusaram a ir à ceia do Senhor, envia-se o servo para introduzir os pobres, os débeis, os cegos e os coxos. Raramente pecam aqueles a quem faltam os atrativos do pecado; e convertem-se mais prontamente à graça os que não têm neste mundo de que se deleitar. Feliz, portanto, a miséria que conduz a coisas melhores, e feliz a escuridão que gera a claridade. Com efeito, privados da abundância dos bens mundanos, como os pobres, e da saúde do corpo, como os débeis, os cegos e os coxos, aos quais falta o atrativo de pecar, são mais facilmente introduzidos à ceia do Senhor.

A isso corresponde o que se lê no Primeiro Livro dos Reis, onde se diz que um jovem egípcio, escravo de um amalecita, foi desprezado por seu senhor e abandonado, porque começara a adoecer; Davi o encontrou, alimentou-o e fez dele o guia de seu caminho (cf. 1Rs 30,11-15). O jovem egípcio é o amante deste mundo, coberto pela negrura dos pecados. Como não pode correr, nas obras mundanas, junto com o mundo que corre, é desprezado pelo mundo e deixado em sua enfermidade. Cristo o encontra, porque converte ao seu amor aqueles que o mundo abandona com desprezo, alimenta-os com o alimento da palavra de Deus e os faz guias de seu caminho, pois algumas vezes assume tal homem como pregador.

E nota que não sem razão ele nomeou especialmente estes quatro, a saber: os pobres, os débeis, os cegos e os coxos. Pobre é chamado aquele que pouco manda ou pouco tem. Débil é chamado aquele que se tornou frágil por causa da bile; a bile, com efeito, é o humor do fel, que afeta o corpo. Daí vêm debilidade e debilitar, isto é, tornar débil. Cego é chamado aquele que carece de visão, que não vê com nenhum dos dois olhos. Coxo é chamado aquele que é como que fechado ao andar.

Por estes quatro são designados os quatro tipos de homens enredados em quatro vícios, isto é, a avareza, a ira, a luxúria e a soberba. O avarento é pobre, pois não é ele que manda em si, mas o próprio dinheiro; não é possuidor, mas possuído; e, embora tenha muito, julga ter pouco. Por isso diz o Filósofo: “Aquele a quem seus bens não parecem muito amplos, ainda que seja senhor do mundo inteiro, é miserável”. E ainda: “Não considero pobre aquele a quem basta o pouco que lhe resta”. O débil é o iracundo que, aspergido pela amargura da bile, inflama-se de ira; e, quando a possui, não pode praticar a justiça de Deus (cf. Tg 1,20). A seu respeito diz Jó: “A ira mata o insensato” (Jó 5,2). O luxurioso é cego, privado da visão da graça, desprovido dos dois olhos, isto é, da razão e do entendimento. O soberbo é coxo, pois não pode caminhar com passos retos pelo caminho da humildade. Sobre estes e semelhantes vícios diz o Filósofo: “É preciso evitar por todos os meios, arrancar com fogo e ferro e separar com todo artifício a enfermidade do corpo, a ignorância da alma, a luxúria do ventre, a sedição da cidade e a discórdia do homem”. A estes quatro pecadores, detidos nas praças, isto é, pelo prazer da carne, e nas ruas, isto é, pela vaidade do mundo, o Senhor misericordioso chama, por meio do pregador da santa Igreja, à ceia da pátria celeste.

Nota também que, pela terceira vez, se diz ao servo: “Sai pelas estradas e junto às cercas, e força-os a entrar, para que se encha a minha casa” (Lc 14,23) etc. Por estes que são forçados a entrar são significados aqueles que, por meio de castigos e adversidades, são compelidos a entrar na ceia do Senhor. Por isso diz o Senhor em Oseias: “Eis que cercarei de espinhos os teus caminhos, cercá-los-ei de um muro, e não encontrará as suas veredas; seguirá os seus amantes, mas não os alcançará; procurá-los-á, mas não os encontrará, e dirá: Irei e voltarei ao meu primeiro marido, porque então me ia melhor do que agora” (Os 2,6-7). O Senhor fecha com a cerca da adversidade e com o muro da enfermidade os caminhos da alma pecadora, isto é, suas obras perversas, pelas quais ela segue seus amantes, isto é, os demônios, para que se converta e retorne ao seu primeiro marido. Tendo experimentado a doçura de seu amor, então, quando gozava de sua contemplação, diz que lhe era melhor, e muito melhor, do que agora, quando abusa do prazer da miserável carne.

12. A esta terceira parte, na qual se trata dos pobres, corresponde também a terceira parte da epístola: “Se alguém possui os bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, lhe fecha o coração, como permanece nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e na verdade” (1Jo 3,17-18). Diz o Senhor em Lucas: “Dai em esmola o que resta; e eis que tudo será puro para vós” (Lc 11,41). Diz a Glosa: Dai aos pobres aquilo que vos sobra do que é necessário para o alimento e o vestuário. Portanto, quem possuir os bens deste mundo e, tendo retido o necessário para o alimento e o vestuário, vir que seu irmão, por quem Cristo morreu, está em necessidade, deve dar-lhe o que lhe sobra. E, se não lho dá e fecha o coração ao irmão pobre, afirmo que peca mortalmente, porque o amor de Deus não está nele; se nele estivesse, certamente daria de bom grado ao irmão pobre. Ai, portanto, daqueles que têm as adegas cheias de vinho e os celeiros cheios de trigo, e dois ou três pares de roupas, enquanto os pobres de Cristo, com o ventre vazio e o corpo quase nu, clamam às suas portas; e, se algo lhes é dado, é dado com parcimônia, e não do melhor, mas do pior. Virá, sim, virá a hora em que também eles clamarão, estando do lado de fora, à porta: “Senhor, Senhor, abre-nos” (cf. Mt 25,11), e ouvirão, eles que não quiseram ouvir: “Em verdade, em verdade vos digo: não vos conheço” (cf. Mt 24,12). “Ide, malditos, para o fogo eterno” (cf. Mt 25,41). “Quem fecha o seu ouvido”, diz Salomão, “para não ouvir a voz do pobre, clamará ele próprio e não será atendido” (Pr 21,13).

Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo, para que aquele que nos chamou por esta pregação se digne chamar-nos, pela inspiração de sua graça, à ceia da glória celeste, na qual, saciados, contemplaremos quão suave é o Senhor (cf. Sl 33,9).

Que o Deus uno e trino, bendito, louvável e glorioso pelos séculos eternos, nos torne participantes dessa suavidade.

Diga toda alma fiel, introduzida nessa ceia: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.