Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 18

Domingo II depois da Páscoa Dominica II post Pascha

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 6 seções · 15 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do segundo domingo depois da Páscoa: “Eu sou o bom pastor”, que se divide em quatro partes.

Primeiro, sermão ao pregador, no trecho: “Foi-me dada uma cana”, e sobre as três coisas que há na vara e seu significado.

[da primeira parte]. Também sermão sobre o cuidado de Cristo para conosco, que somos o seu povo e as ovelhas do seu pasto, no trecho: “Eu sou o bom pastor”.

Também sermão alegórico e moral sobre Cristo e o prelado da Igreja, no trecho: “Ouvi atrás de mim uma grande voz”.

Também sermão sobre as sete coisas necessárias ao prelado, no trecho: “Vi sete candelabros de ouro”.

Também sermão contra aqueles que abandonam a teologia e se dedicam às ciências lucrativas, no trecho: “Cantai ao Senhor um cântico novo”.

Também sermão sobre o bem-aventurado Paulo: “Porventura atarás o rinoceronte?”

da segunda parte. Sermão sobre os quatro cavalos e o que significam, e sobre a natureza da murta, da saliunca e da urtiga e seu significado, no trecho: “Vi, e eis um cavalo branco”.

Também sermão contra o prelado iníquo, no trecho: “Ó pastor e ídolo”, e: “Heli jazia em seu lugar”, e: “Canaã tem em suas mãos uma balança”.

Também sobre a natureza do lobo e o que ele significa, no trecho: “O mercenário, porque as ovelhas não são suas”.

da terceira parte. Sermão sobre os doze patriarcas e o que significam, no trecho: “Ouvi o número dos assinalados”.

Também sermão sobre a Paixão de Cristo, que deve ser impressa na fronte da nossa alma: “Passa pelo meio da cidade”, e: “Seremos inocentes”, e: “O feixe de hissopo”.

da quarta parte. Sermão alegórico e moral sobre a santa Igreja e a alma fiel, no trecho: “Uma mulher vestida de sol”.

Também sermão à assembleia dos religiosos, no trecho: “Estende o teu manto com que te cobres”.

Também sermão para a mortificação da carne, no trecho: “E a lua sob os seus pés”.

Também sermão sobre as doze estrelas e seu significado, no trecho: “E uma coroa de doze estrelas”.

1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11) etc.

Diz João no Apocalipse: “Foi-me dada uma cana semelhante a uma vara” (Ap 11,1). A cana é a pregação do Evangelho. Assim como a cana escreve as letras na pele, também a pregação deve escrever a fé e os bons costumes no coração do ouvinte. A cana e a pena são instrumentos do escriba. Chama-se cana porque deposita um líquido; por isso os marinheiros usam “calar” no sentido de “depor”. Mas, como de cana deriva calamidade, porque à vacuidade se segue a infelicidade, a pregação é comparada à vara, na qual se assinalam três coisas: solidez, retidão e correção. A pregação deve ser sólida, isto é, repleta da plenitude da boa obra: verdadeira, não falsa, nem com palavras ridículas, frívolas ou lisonjeiras, mas com palavras que movam à contrição e ao pranto. Por isso, Salomão diz no Eclesiastes: “As palavras dos sábios são como aguilhões e como pregos profundamente fincados” (Ecl 12,11). Assim como o aguilhão, ao ferir, faz sair sangue, e o prego, quando se finca na mão, provoca grande dor, também as palavras dos sábios devem aguilhoar o coração do pecador e fazer sair o sangue das lágrimas, que, como diz Agostinho, são o sangue da alma, e provocar a dor pelos pecados passados e pelas penas da geena. A pregação deve ser reta, para que o pregador não contradiga, com suas obras, aquilo que disse no sermão. Com efeito, perde-se a autoridade da palavra quando a voz não é amparada pelas obras. Deve também ser corretiva, para que os ouvintes, ao escutarem a pregação, corrijam e emendem a própria vida. Com semelhante vara, o bom pastor, o digno prelado da Igreja e também o pregador, corrija e apascente o rebanho de suas ovelhas, como corrigia e apascentava aquele bom pastor que, no Evangelho de hoje, diz: “Eu sou o bom pastor”.

2. Observa que neste Evangelho se destacam quatro pontos. Primeiro, o cuidado solícito do bom pastor para com as ovelhas e a disposição de dar a vida por elas, se necessário, quando se diz: “Eu sou o bom pastor”. Segundo, a fuga do mercenário e o assalto do lobo, quando se acrescenta: “O mercenário, porém, que não é pastor e a quem não pertencem as ovelhas” etc. Terceiro, o conhecimento recíproco entre o pastor e as ovelhas, onde se diz: “Eu sou o bom pastor e conheço as minhas” etc. Quarto, a Igreja católica, que será formada pela união dos dois povos, o judeu e o gentio, onde se diz: “Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste aprisco” etc.

Neste domingo e no próximo canta-se e lê-se um trecho do Apocalipse, que queremos dividir em sete partes. A primeira parte trata das sete Igrejas; a segunda, dos quatro cavalos; a terceira, dos escolhidos das doze tribos assinaladas; a quarta, da mulher vestida de sol. Queremos relacionar estas quatro partes com as quatro partes deste Evangelho. A quinta parte do Apocalipse trata dos sete anjos que têm taças cheias da ira de Deus; a sexta, da condenação da grande meretriz, isto é, da vaidade mundana; a sétima, do rio de água viva, isto é, da perenidade da vida eterna. E estas três partes, querendo Deus, relacionaremos com as três partes do Evangelho do domingo seguinte. Também neste domingo, no intróito da missa, canta-se: “A terra está cheia da misericórdia do Senhor” etc. E lê-se a carta do bem-aventurado apóstolo Pedro: “Cristo sofreu por nós”.

I. Do cuidado solícito do bom pastor pelas ovelhas

3. Digamos, portanto: “Eu sou o bom pastor” etc. Cristo pode muito bem dizer: “Eu sou”, porque para ele nada é passado nem futuro, mas tudo lhe é presente. Por isso, ele mesmo diz no Apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor Deus, que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Ap 1,8); e no Êxodo: “Eu sou. Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Aquele que é’ enviou-me a vós” (Ex 3,14). Diz, portanto, com razão: “Eu sou o bom pastor”. Pastor deriva de “pasco, pascis”, e Cristo nos alimenta diariamente com sua carne e seu sangue, no sacramento do altar. Por isso, diz Iesse (pai de Davi), no Primeiro Livro dos Reis: “Ainda resta o menor, que está apascentando as ovelhas” (1Rs 16,11). O nosso Davi, pequeno e humilde, apascenta como um bom pastor. Ele é o nosso Abel que, como se diz no Gênesis, foi pastor de ovelhas (cf. Gn 4,2); Caim, o fratricida, isto é, o povo judeu, matou-o por inveja. Do mesmo pastor diz o Pai, em Ezequiel: “Suscitarei um só pastor, que apascentará o meu rebanho, o meu servo Davi”, isto é, o meu filho Jesus: “ele mesmo o apascentará e ele mesmo será para eles um pastor” (Ez 34,23); e em Isaías: “Como um pastor apascentará o seu rebanho; com seu braço reunirá os cordeiros e os levará ao peito; ele mesmo carregará as ovelhas grávidas” (Is 40,11). Fala à maneira de um bom pastor, que, quando conduz seu rebanho ao pasto e o faz voltar, reúne com o braço os cordeirinhos que não podem andar, leva-os ao peito e ele mesmo carrega as ovelhas grávidas e cansadas. Feta significa, algumas vezes, cheia; outras vezes, libertada.

Assim, Jesus Cristo nos apascenta diariamente com os ensinamentos evangélicos e os sacramentos da Igreja; reuniu-nos com seu braço estendido na cruz. Por isso, João diz: “Para reunir em um só os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11,52). “E os levará ao peito.” No seio de sua misericórdia, como a mãe leva o filho, ele nos elevou. Por isso, ele mesmo diz em Oseias: “Eu fui nutriz de Efraim; carreguei-os em meus braços” (Os 11,3). Ele nos alimenta com seu sangue, como com leite. No seio, ou sob o seio, no monte do Calvário, foi ferido por nós pela lança, para nos oferecer seu sangue, como a mãe oferece leite ao filho; e carregou-nos em seus braços estendidos na cruz.

4. Por isso, Pedro diz na epístola de hoje: “Ele levou nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça: por suas chagas fomos curados” (1Pd 2,24). E ele próprio conduz as grávidas, isto é, as almas dos penitentes, grávidas e herdeiras da vida eterna. Por isso, ele mesmo diz no Êxodo: “Vós mesmos vistes o que fiz aos egípcios, e como vos carreguei sobre asas de águias e vos tomei para mim” (Ex 19,4). Ele submerge os egípcios, isto é, os demônios e os pecados mortais, no mar Vermelho, isto é, na amargura da penitência, das lágrimas e da aflição avermelhada pelo sangue; e carrega os penitentes sobre asas de águias, quando, desprezadas as coisas terrenas, os eleva às celestes, para que contemplem o sol da justiça com olhos não ofuscados. Diz, portanto, muito bem: “Eu sou o bom pastor”. Daí Davi: “Tu és bom, e em tua bondade ensina-me” (Sl 118,68), a ovelha errante. “Andei errante como ovelha que se perdera” (Sl 118,176). E no livro da Sabedoria: “Ó quanto é bom e suave, Senhor, o teu espírito em todas as coisas!” (Sb 12,1).

“O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Ele exprime o que é próprio e exclusivo do bom pastor: dar a vida por suas ovelhas, o que Cristo fez. Por isso, Pedro diz na epístola de hoje: “Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, para que sigais os seus passos” (1Pd 2,21). A Glosa diz a esse respeito: Alegra-te, porque Cristo morreu por ti. Atenta para o que segue: “Deixando-vos um exemplo” de injúrias, tribulações, cruz e morte. “O bom pastor, portanto, dá a vida por suas ovelhas.” A respeito delas, Pedro diz no final da epístola: “Éreis como ovelhas errantes, mas agora voltastes ao pastor e bispo de vossas almas” (1Pd 2,25). Eis quanta misericórdia! Dela se diz no intróito da missa de hoje: “A terra está cheia da misericórdia do Senhor. Pela Palavra”, isto é, pelo Filho de Deus, “os céus”, isto é, os apóstolos e os homens apostólicos, “foram firmados” (Sl 32,5-6), para não serem como ovelhas errantes, mas serem conservados sob a vara do pastor e bispo das almas.

5. As ovelhas, pelas quais o bom pastor, Jesus Cristo, entregou a sua vida, são aquelas sete Igrejas, das quais tens a concordância no Apocalipse: “Ouvi”, diz João, “atrás de mim uma grande voz, como de trombeta, que me dizia: O que vês, escreve-o num livro e envia-o às sete Igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, à Filadélfia e a Laodiceia. E voltei-me para ver a voz que falava comigo; e, voltando-me, vi sete candelabros de ouro e, no meio dos sete candelabros de ouro, alguém semelhante ao Filho do homem, vestido de uma túnica talar e cingido junto aos seios com uma faixa de ouro; a sua cabeça e os seus cabelos eram brancos como lã branca e como a neve, e os seus olhos eram como chama de fogo; os seus pés eram semelhantes ao oricalco, como numa fornalha ardente; e a sua voz era como a voz de muitas águas. E tinha na sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma espada afiada dos dois lados; e o seu rosto era como o sol, quando resplandece em todo o seu vigor” (Ap 1,10-16). Expliquemos esta autoridade primeiro alegoricamente, a respeito de Cristo, e depois moralmente, a respeito do prelado da Igreja.

[alegoricamente]. Éfeso interpreta-se como “minha vontade” ou “meu conselho”; Esmirna, “o canto deles”; Pérgamo, “que divide os chifres” ou “que disseca o vale”; Tiatira, “iluminada”; Sardes, “princípio da beleza”; Filadélfia, “que conserva” ou “que salva aquele que adere ao Senhor”; Laodiceia interpreta-se como “tribo amável”. Os “sete candelabros de ouro” significam todas as Igrejas, ardentes e iluminadas pela sabedoria do Verbo divino. Assim como o ouro, provado pelo fogo e estendido pelos golpes, se transforma em candelabro, assim a Igreja, purificada pelas tribulações e estendida em comprimento pelos golpes das tentações, chega à perfeição. “E no meio dos sete candelabros”, isto é, na comunidade de todas as Igrejas, porque Deus se oferece a todas e está pronto a socorrer a todas, “vi alguém semelhante ao Filho do homem”, isto é, um anjo na pessoa de Cristo, que já não é filho do homem, mas semelhante, porque já não morre; ou semelhante ao filho do homem, porque não veio com o pecado, mas apenas na semelhança da carne do pecado; “vestido de uma túnica talar”, isto é, com vestimenta sacerdotal, ou seja, com a carne na qual se ofereceu e todos os dias se oferece, apresentando-se a Deus Pai; “e cingido junto aos seios com uma faixa de ouro”, isto é, com o cinto da caridade, por causa da qual se entregou à morte por nós.

“A sua cabeça e os seus cabelos eram brancos como lã branca e como a neve.” A cabeça é a Divindade; por isso diz o Apóstolo: “A cabeça de Cristo é Deus” (1Cor 11,3); ou o próprio Cristo, que é a cabeça da Igreja (cf. Ef 5,23), em quem se encontram todas as coisas necessárias ao governo da Igreja. Os cabelos são os fiéis, aderentes à própria cabeça. Portanto, a cabeça e os cabelos, isto é, Cristo e os seus cristãos, são brancos como a lã, branca pela simplicidade e pureza, e como a neve, pelo fulgor da imortalidade, porque, assim como ele vive, também nós viveremos com ele (cf. Jo 14,19). “E os seus olhos eram como chama de fogo.” Os olhos, isto é, o olhar da graça de Jesus Cristo, como chama de fogo, derretem o coração congelado do pecador. Por isso o Senhor olhou para Pedro (cf. Lc 22,61), com os olhos da misericórdia, e ele chorou amargamente (cf. Lc 22,62), porque o gelo do coração se dissolveu em lágrimas de compunção. “E os seus pés”, isto é, os pregadores que o levam por todo o mundo, são “semelhantes ao oricalco”, não a qualquer oricalco, mas ao que está “numa fornalha ardente”. Chama-se oricalco porque tem semelhança com o ouro e com o bronze. Com efeito, o bronze se diz em grego chalkós. No ouro é designado o esplendor da sabedoria; no bronze, a sonoridade da eloquência. Os pés de Jesus Cristo são semelhantes ao oricalco, porque os pregadores devem resplandecer pelo fulgor da sabedoria e pela sonoridade da eloquência.

“E a sua voz era como a voz de muitas águas.” A pregação de Cristo possui a virtude da água, porque lava. Por isso disse aos Apóstolos: “Estais limpos por causa da palavra que vos falei” (Jo 15,3). Muitos povos já recebem a voz de Jesus Cristo, e são comparados às águas por causa do fluxo da mortalidade. Ou: “a sua voz era como a voz de muitas águas”, isto é, fonte de muitas águas, ou seja, de muitas graças. Por isso segue-se: “E tinha na sua mão direita sete estrelas”, isto é, as sete graças do Espírito Santo, que ele tem na mão direita, assim chamada como que por dar para fora; pois, do tesouro da sua magnificência, dá as graças a quem quer, quando quer e como quer. Ou ainda, as estrelas são os bispos, que devem resplandecer para os outros pela palavra e pelo exemplo; ele os tem na mão direita, isto é, nos dons mais excelentes, significados pela mão direita. “E da sua boca saía uma espada afiada dos dois lados.” Da sua boca, isto é, da sua manifestação, saiu a pregação, que corta de ambos os lados: no Antigo Testamento, as obras carnais; e, no Novo, as concupiscências. “E o seu rosto era como o sol, quando resplandece em todo o seu vigor.” O rosto de Jesus Cristo são os bons prelados da Igreja e todos os santos, por meio dos quais, como por meio do rosto, conhecemos Cristo. Estes resplandecem como o sol em seu vigor, isto é, ao meio-dia, sem nuvens; ou, quando o sol estiver fixo na eternidade, assim resplandecerão, isto é, tornar-se-ão semelhantes ao verdadeiro sol, Jesus Cristo.

6. Moralmente. “Eu sou o bom pastor.” Feliz aquele prelado da Igreja que verdadeiramente pode dizer: “Eu sou o bom pastor.” Para ser bom, é necessário que seja semelhante ao Filho do homem e esteja no meio de sete candelabros de ouro. Deles diz João: “Vi sete candelabros de ouro”; neles são indicadas as sete qualidades necessárias ao prelado da Igreja: a pureza da vida, o conhecimento da Sagrada Escritura, a eloquência da palavra, a assiduidade na oração, a misericórdia para com os pobres, a disciplina para com os súditos e o cuidado solícito pelo povo que lhe foi confiado. Estes sete candelabros correspondem à interpretação das sete Igrejas.

Éfeso interpreta-se “minha vontade” ou “meu conselho”. Esta é a pureza da vida, da qual diz o Apóstolo: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, para que cada um saiba possuir o seu próprio corpo com honra e santificação” (1Ts 4,34). E Isaías: “Toma conselho, reúne o conselho” (Is 16,3). “Toma conselho”, para viveres puramente quanto à alma; “reúne”, isto é, refreia, “o conselho” dos cinco sentidos, para viveres castamente quanto ao corpo.

Esmirna, “o canto deles”. Esta é o conhecimento da Sagrada Escritura, por isso diz o Profeta: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (Sl 95,1). Todas as ciências mundanas e lucrativas são o cântico velho, o cântico da Babilônia. Somente a teologia é o cântico novo, que ressoa docemente aos ouvidos de Deus e renova a alma. Este deve ser o canto deles, isto é, dos prelados. Se não houvesse em Israel, como se diz no Primeiro Livro dos Reis, um ferreiro, não teria sido de admirar que os filhos de Israel descessem aos filisteus para afiar o seu arado, a sua enxada, o seu machado e o seu sacho. Mas, graças a Deus, em Israel, isto é, na Igreja, há não digo um só ferreiro, mas muitos; ferreiros, isto é, muitos teólogos, que sabem afiar muito bem o arado, o machado, a enxada e o sacho, e prepará-los perfeitamente. O arado é assim chamado porque escava a terra, ou por vomitar a terra; a enxada é assim chamada porque levanta a terra; o machado é assim chamado porque com ele se cortam as árvores, como que “cortas”; o sacho é uma ferramenta de ferro com cabo, necessária ao cultivo dos campos. Por esses instrumentos de trabalho entendem-se os exercícios da pregação, que escavam o húmus da cobiça e levantam da face da mente a terra da iniquidade, cortam os ramos secos da árvore infrutífera e cultivam o campo da Igreja militante.

Por que, então, os filhos de Israel, isto é, os prelados, descem aos filisteus, que se interpretam “caídos pela bebida”, isto é, às ciências lucrativas? Descendem a elas para se embriagarem com a bebida da dignidade transitória, da gula e da luxúria, com a ambição da vanglória e do dinheiro, e, embriagados, caírem no profundo do inferno. Por isso, acerca deles, diz o bem-aventurado Bernardo: “Infeliz, sem dúvida, a ambição que não sabe aspirar às grandes coisas; amam, de fato, as primeiras cátedras, mas devem temer, pois cairão como figos prestes a cair. Cuidem, portanto, aqueles que desejam as primeiras cátedras, para que não fiquem privados também das segundas e, no fim, com vergonha, comecem a ocupar o último lugar do inferno.”

Além disso, Pérgamo interpreta-se “que divide os chifres” ou “que disseca o vale”. Esta é a eloquência de uma língua erudita, que divide os chifres dos soberbos e disseca o vale dos carnais. Por isso, diz o Senhor pelo Profeta: “Quebrarei todos os chifres dos pecadores” (Sl 74,11). E no livro de Jó: “Acaso atarás o rinoceronte para arar com a tua rédea, ou ele quebrará os torrões dos vales atrás de ti?” (Jó 39,10). O rinoceronte, pequeno animal semelhante a um cabrito, que tem na narina um chifre extremamente agudo, significa o bem-aventurado Paulo, que, respirando ameaças e morte, enquanto ia para Damasco, foi atado pela rédea do poder divino para arar, isto é, para pregar. Por isso, o Senhor disse a Ananias: “Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel” (At 9,15). Ele quebrou os torrões dos vales, isto é, as mentes dos carnais e dos infiéis, com o arado da pregação.

Tiatira interpreta-se “iluminada”. Esta é a assiduidade na oração, que ilumina a mente. Por isso, diz-se no Apocalipse: “A claridade de Deus a ilumina, e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,23). No cordeiro são assinaladas a inocência e a simplicidade, duas coisas especialmente necessárias para quem ora. Estas, como “claridade” e “lâmpada”, iluminam a mente de quem reza.

Sardes, “princípio da beleza”. Esta é a misericórdia para com os pobres, que expulsa a lepra da avareza e torna bela a alma. Por isso: “Dai esmola, e eis que tudo será puro para vós” (Lc 11,41).

Filadélfia interpreta-se “que preserva ou salva aquele que adere ao Senhor”. Esta é a disciplina para com os súditos, que conserva no serviço do Senhor aquele que a ele adere e o salva do perigo da morte. Sobre ela diz o Apóstolo aos Hebreus: “Toda disciplina, no presente, parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza; depois, porém, dará um fruto muito pacífico de justiça aos que por ela foram exercitados” (Hb 12,11).

Laodiceia interpreta-se “tribo amável ao Senhor”. Esta é a Igreja católica do povo cristão, pela qual o prelado deve velar com cuidado solícito. Sobre o amor por ela diz João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1), isto é, amou-os tanto que o amor o conduziu até a morte.

Estes são os sete candelabros que iluminam todas as Igrejas, reunidas pelo Espírito da graça sétupla; no meio delas, o prelado, semelhante ao Filho do homem, isto é, a Jesus Cristo, deve caminhar na pobreza, na humildade e na obediência, vestido da alva. Poderis chama-se túnica talar; esta é a túnica de linho que Aarão vestia e significa a castidade do corpo, à qual deve unir-se a pureza do coração.

7. Daí se segue: “Era cingido junto aos seios por um cinturão de ouro.” Daniel viu o homem cingido em torno dos rins, porque no Antigo Testamento são restringidas as obras carnais; João viu-o junto aos seios, porque no Novo Testamento também são julgados os pensamentos. Portanto, pelo cinturão de ouro, isto é, pelo amor de Deus, são restringidos os seios, isto é, o fluxo dos maus pensamentos.

Daí se segue: “Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como lã branca e como neve”. Diz-se cabeça porque compreende todos os sentidos; ela significa a mente, que é a cabeça da alma; os cabelos significam os pensamentos. Na mente costuma haver a impureza e o ardor do pecado. Portanto, a mente e os pensamentos sejam brancos como lã branca, contra a impureza do pecado, e como a neve, contra o seu ardor.

“E seus olhos eram como chama de fogo.” Os olhos do prelado são a contemplação de Deus e a compaixão pelo próximo; devem ser como chama de fogo, isto é, irradiantes de simplicidade para com Deus e de inocência para com o próximo.

“E seus pés eram semelhantes ao oricalco.” Os pés são os afetos da mente e os efeitos das obras. Com esses dois pés caiu aquele Mifiboset, cujo nome se interpreta “homem de confusão”, como se lê no Segundo Livro dos Reis; caiu dos braços da ama e ficou coxo (cf. 2Rs 4,4). Por ele entendemos o pecador, homem da confusão eterna, que, pelo pecado mortal, cai dos braços da ama, isto é, da graça do Espírito Santo, e fica coxo de ambos os pés. Mas os pés do bom prelado devem ser semelhantes ao oricalco. O oricalco, como foi dito, tem a cor do ouro e do bronze: no ouro está o afeto da mente; no bronze, a ressonância das boas obras. O oricalco também é frequentemente aquecido ao rubro e adquire uma cor melhor; assim, o bom prelado: quanto mais é abrasado pelo fogo da tribulação, tanto mais luminoso se torna.

“E sua voz era como a voz de muitas águas.” Assim como muitas águas, que correm impetuosamente, rompem todo obstáculo, assim a voz da pregação do prelado deve romper todo obstáculo dos vícios e todo impedimento à salvação.

“E ele tinha na mão direita sete estrelas.” As sete estrelas são as sete glorificações do corpo e da alma. Estas são da alma: a sabedoria, a amizade e a concórdia; estas, do corpo: a luminosidade, a agilidade, a sutileza e a imortalidade. Deve tê-las na mão direita, para que tudo quanto pensa e tudo quanto faz seja reto, e para que possa ter essas sete estrelas na direita da vida eterna, colocado à direita com as ovelhas.

“E de sua boca saía uma espada afiada dos dois lados.” A espada é a confissão, que deve ser afiada dos dois lados, para que possa cortar os vícios espirituais, que são a soberba e a vanglória, e os vícios carnais, que são a avareza, a gula e a luxúria.

“E seu rosto era como o sol brilhando em todo o seu fulgor.” O rosto do prelado são suas obras, pelas quais ele é reconhecido, como pelo rosto. “Pelos seus frutos”, diz o Senhor, “os conhecereis” (Mt 7,16). Se forem boas, brilharão como o sol em todo o seu fulgor. Daí dizer o Senhor: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5,16). Se o prelado for assim, poderá verdadeiramente dizer: “Eu sou o bom pastor”.

II. Da fuga do mercenário e da rapina do lobo

8. Segue-se o segundo: “O mercenário, porém, que não é pastor e a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge; e o lobo arrebata e dispersa as ovelhas. O mercenário foge porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas” (Jo 10,12-13). Pouco antes, neste mesmo capítulo, o Senhor havia dito: “Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e salteador” (Jo 10,1). Aqui são assinaladas quatro pessoas: o bom pastor, o ladrão e salteador, o mercenário e o lobo.

Estes são os quatro cavalos dos quais encontras a correspondência no Apocalipse. Diz João: “Vi, e eis um cavalo branco, e aquele que o montava tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo, para vencer ainda. E saiu outro cavalo, vermelho, e ao que o montava foi dado tirar a paz da terra, para que os homens se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada. E eis um cavalo negro, e aquele que o montava tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz como que no meio dos quatro seres viventes, dizendo: Duas libras de trigo por um denário, e seis libras de cevada por um denário, e não desperdiceis o vinho e o óleo. E eis um cavalo esverdeado, e aquele que o montava chamava-se Morte, e o inferno o seguia. Foi-lhe dado poder sobre as quatro partes da terra, para matar pela espada, pela fome e pela morte, e pelas feras da terra” (Ap 6,2-8).

Alegoricamente: “Vi, e eis um cavalo branco.” O cavalo branco significa a humanidade do bom pastor Jesus Cristo, que é justamente chamado cavalo branco, porque foi imune de toda mancha de pecado. Acerca desse cavalo diz-se em Zacarias: “Vi durante a noite, e eis um homem montado num cavalo vermelho, e ele estava entre as murtas que se achavam no profundo” (Zc 1,8). A noite em que se vê a visão significa a obscuridade dos mistérios. O homem sobre o cavalo vermelho é o Salvador, cujas vestes, isto é, a carne, são vermelhas pelo sangue da Paixão; ele se mostra sobre um cavalo vermelho ao povo cativo; no Apocalipse de João, porém, já mostra-se sobre um cavalo branco ao povo libertado. Ele está entre as murtas, isto é, entre as potestades angélicas, que o serviam também no profundo, isto é, enquanto estava na carne. Daí dizer Mateus: “E os anjos aproximaram-se e o serviam” (Mt 4,11).

Ou então: “Entre as murtas.” Mirtal é o lugar onde nascem as murtas. A murta é uma espécie de árvore de bom odor e de virtude temperante; é chamada assim por causa do mar, por ser sobretudo litorânea. A murta significa a pureza do homem justo, que é de bom odor para com o próximo e de virtude temperante para consigo mesmo; ela existe sobretudo no litoral, isto é, na compunção do coração. Sobre isso diz Isaías: “Em lugar da saliunca crescerá o abeto, e em lugar da urtiga, a murta” (Is 55,13). A saliunca é uma erva salgada, espécie de arbusto ou de salgueiro. O abeto é assim chamado porque se eleva acima das outras árvores. A saliunca é a avareza, amarga e estéril; em seu lugar, quando Deus infunde a graça na mente, eleva-se o abeto da contemplação celeste. A urtiga, assim chamada porque seu toque queima o corpo — é, de fato, de natureza ígnea —, significa a luxúria da carne; em seu lugar o Senhor faz crescer a murta da continência. Portanto, o Senhor está entre as murtas, isto é, entre aqueles que, pela virtude da pureza e pelo odor da boa fama, servem a Deus no profundo da humildade.

Digamos, portanto: “Vi, e eis um cavalo branco, e aquele que o montava tinha um arco.” O cavaleiro do cavalo é a divindade, que, como um cavaleiro, está montada sobre a humanidade. O arco, composto de corda e madeira, significa a misericórdia e a justiça de Deus. Assim como a corda curva a madeira, assim a misericórdia curva a justiça. Daí dizer Tiago: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2,13). Na primeira vinda, Cristo trouxe consigo a corda flexível da misericórdia, para conquistar os pecadores; na segunda vinda, porém, ferirá com a madeira da justiça, retribuindo a cada um segundo suas obras. “E foi-lhe dada uma coroa.” A Cristo, Deus e homem, foi dada uma coroa quanto à humanidade, com a qual sua mãe o coroou no dia de suas núpcias (cf. Ct 3,11). Ou então, foi-lhe dada uma coroa de espinhos por sua madrasta, a Sinagoga. “E saiu vencendo, para vencer ainda.” “Saiu para aquele lugar que se chama Calvário”, como diz João, “carregando sua cruz” (Jo 19,17), vencendo o mundo, para vencer também o diabo.

9. Moralmente. “Vi, e eis um cavalo branco.” O cavalo branco significa o corpo do bom pastor e do prelado da Igreja. Este cavalo deve ser branco pela brancura da castidade. O cavaleiro deste cavalo é o espírito, que deve refreá-lo com o freio da abstinência e incitá-lo, com as esporas do amor e do temor de Deus, a alcançar o prêmio da vida eterna. Não faz mal aplicar a espora ao cavalo lançado a correr. O arco significa a divina Escritura: pelo lenho é designado o Antigo Testamento; pela corda, que abranda a dureza, o Novo Testamento; pela flecha, a inteligência que fere os corações. Este arco, portanto, o bom pastor deve tê-lo na mão, isto é, na ação. A seu respeito diz Jó: “Meu arco será fortalecido em minha mão” (Jó 29,20). O arco é fortalecido na mão quando a pregação é confirmada pelas obras. “E foi-lhe dada uma coroa.” A coroa sobre a cabeça é a pura intenção na mente, da qual diz Jeremias nas Lamentações: “Caiu a coroa de nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos!” (Lm 5,16). A coroa cai da cabeça quando o homem perde a pura intenção; por isso: ai dele! “E saiu vencendo, para vencer.” Saiu da cobiça do mundo, vencendo a luxúria da carne, para vencer a soberba do diabo. Se o prelado for semelhante a este cavalo, poderá dizer com razão: “Eu sou o bom pastor.”

“E saiu outro cavalo, vermelho”, etc. O cavalo vermelho é o ladrão e salteador, “que não entra pela porta no aprisco das ovelhas” (cf. Jo 10,1). A porta é Cristo (cf. Jo 10,9), e não entra por ele aquele que busca o que é seu, e não o que é de Jesus Cristo (cf. Fl 2,21). Salteador é chamado assim por esconder-se; ladrão, de furvo, isto é, negro. Salteador é aquele que se esconde para despojar e matar os incautos; ladrão é aquele que, na noite escura, subtrai os bens alheios. É ladrão e salteador aquele que, ambiciosamente, assume para si a honra, sem ser chamado por Deus como Aarão (cf. Hb 5,4). Quem obtém uma prelazia por simonia é ladrão, porque usurpa o ofício de pastor por meio da simonia, como numa noite escura, fazendo seu o que é alheio: faz suas as ovelhas de Deus, que roubou do Senhor; é salteador porque se esconde sob o pretexto da santidade: apresenta-se como ovelha, quando é lobo; como falcão, quando é avestruz; e assim despoja os incautos de suas virtudes e os mata nas almas; por isso é corretamente chamado “cavalo vermelho”.

O cavaleiro deste cavalo é o espírito da ambição e da glória temporal, que “tira a paz da terra”, isto é, da mente do próprio ladrão e salteador. Com efeito, o espírito da ambição não permite ao miserável ter a tranquilidade da mente, pois é como um caçador que persegue aquilo que foge e corre de um lado para outro em busca das coisas temporais. A respeito dele diz o bem-aventurado Bernardo: “Multiplicas as prebendas, sobes ao arquidiaconato, aspiras ao episcopado, sobes gradualmente, mas num instante e sem degrau descerás ao inferno.” E diz ainda: “O explorador diligente percorre tudo; simula e dissimula; segue e presta obséquios, rastejando com mãos e pés, para de algum modo introduzir-se no patrimônio do Crucificado.”

Ou então: “Tira a paz da terra”, quando, por meio de tal filho da perdição, semeia a discórdia na Igreja. Por isso segue: “E foi-lhe dada uma espada, para que se matassem uns aos outros.” Com a espada da discórdia e da inveja, os ladrões e salteadores, os prelados simoníacos, matam-se uns aos outros quando se difamam, quando murmuram e latem uns contra os outros. Por isso diz Isaías: “Os peludos saltarão ali” (Is 13,21); e ainda: “O peludo clamará ali ao outro” (Is 34,14). Hoje, na Igreja, os peludos, isto é, os simoníacos endinheirados, saltam e brincam; e um simoníaco acusa o outro; passam o dia inteiro em causas e preocupações, em clamores, vexações e dilacerações. Por isso segue: “E foi-lhe dada uma grande espada.” A espada aguda e afiada é a glória temporal, com a qual e por causa da qual os infelizes ferem e matam a si mesmos.

10. “E eis um cavalo negro; e aquele que estava sentado sobre ele tinha uma balança na mão”, etc. Negro, dito como que nubígero, porque não está coberto de claridade, mas de escuridão. O cavalo negro é o mercenário, do qual diz o Senhor: “O mercenário e aquele que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo chegar”, etc. O mercenário, assim chamado por ser contratado mediante pagamento, significa o prelado que serve na Igreja somente por uma recompensa temporal. De tal homem diz o Profeta: “Ele te louvará quando lhe fizeres o bem” (Sl 48,19). E no Evangelho de João diz o Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” (Jo 6,26). Quando o ventre está saciado, o miserável canta de bom grado o miserere.

Este mercenário não é pastor, mas um ídolo. Por isso diz Zacarias: “Ó pastor e ídolo que abandona o rebanho, a espada estará sobre o seu braço e sobre o seu olho direito; o seu braço secará pela aridez, e o seu olho direito, obscurecendo-se, ficará entenebrecido” (Zc 11,17). No braço é designada a força da ação; no olho, a luz da razão. Diz, portanto: “Pastor e ídolo”. E isso é posto como correção, como se dissesse: “Não pastor, mas ídolo”. És tão celerado que és chamado não adorador de ídolos, mas tu mesmo ídolo. O ídolo tem o nome de Deus, mas não é Deus; assim também o mau pastor, que abandona o rebanho, porque as suas ovelhas não lhe pertencem. E por isso a espada, isto é, o furor do Senhor, estará sobre o seu braço e sobre o seu olho direito, para que a sua força e a ostentação da sua fortaleza sequem pela aridez da graça e das boas obras, e a luz da razão se obscureça pelas trevas terrenas, pois, pelo justo juízo de Deus, ele será tornado incapaz de agir e obscurecido para discernir.

Por isso se diz no primeiro livro dos Reis: “Heli jazia em seu lugar, e seus olhos se tinham obscurecido, e não podia ver a lâmpada do Senhor antes que ela se extinguisse” (1Rs 3,2-3). Heli interpreta-se “estranho” e significa o prelado contratado por pagamento, estranho ao reino de Deus. Este jaz em seu lugar, isto é, dissoluto no lodaçal da carne; os seus olhos, isto é, a luz da razão e do intelecto, são obscurecidos pela névoa, isto é, pelo amor das coisas terrenas; e assim não pode ver a lâmpada, isto é, a graça de Deus, antes que ela se extinga, ou seja, não percebe nem reconhece que está privado da luz da graça, senão quando a própria luz da graça já se extinguiu nele. Com efeito, muitos ficam tão cegos que não reconhecem ter perdido a graça de Deus senão quando, da própria graça, caíram na cegueira do pecado mortal. Bem se diz, portanto, no Apocalipse: “E eis um cavalo negro”, isto é, o mercenário, coberto não pela claridade da graça, mas pela escuridão da culpa.

“E aquele que estava sentado sobre ele tinha uma balança na mão.” O cavaleiro do cavalo negro, isto é, do mercenário, é o espírito da negociação. Estimulado por suas esporas, vende, como um comerciante, a pomba, isto é, a graça de Deus, que deve ser dada gratuitamente, por um preço; e assim faz da casa de Deus uma casa de comércio (cf. Jo 2,16). Ele tem na mão uma balança enganosa, da qual diz Oseias: “Canaã, tendo na mão uma balança enganosa, amou a fraude” (Os 12,7). Canaã interpreta-se “comerciante” e significa o mercenário da Igreja que, envolvido nos negócios seculares, não cuida das ovelhas de Deus. Diz Jerônimo: O que é a usura no leigo, é a negociação no clérigo.

Em sua mão está uma balança enganosa, porque prega de um modo e vive de outro; faz uma coisa e mostra outra; prega a pobreza, sendo avaro; a castidade, sendo luxurioso; o jejum e a abstinência, sendo guloso; impõe aos ombros dos homens cargas pesadas e insuportáveis, mas não quer movê-las sequer com o dedo (cf. Mt 23,4). Esta é a balança enganosa, contrária ao que diz o Senhor: “Tende um módio justo e uma medida justa” (cf. Lv 19,36). A balança é assim chamada porque pende equilibrada por uma haste central entre dois pratos. Os dois pratos são o desprezo do mundo e o desejo do reino dos céus. A haste no meio é o amor de Deus e do próximo. Esta é a balança que pesa com igualdade, dando a cada um o que lhe é devido: ao mundo, o desprezo; a Deus, o serviço; ao próximo, o afeto. Mas na mão de Canaã, do mercenário comerciante, não há tal balança, mas uma enganosa. “Agindo com engano”, diz o Profeta, “fez com que a sua iniquidade fosse encontrada para sua condenação” (Sl 35,3), porque “amou a fraude”. Fraude deriva de calvando, isto é, de enganar.

Este mercenário comerciante costura almofadas sob todo cotovelo dos braços e faz travesseiros, como diz Ezequiel, sob a cabeça de pessoas de toda idade (cf. Ez 13,18), porque, por causa do lucro, afaga os vícios, suaviza as culpas e não impõe penitências proporcionais; e, ocultando a sua avareza sob a aparência de misericórdia e compaixão, diz: “Paz, paz!”, quando não há paz (cf. Ez 13,10), vivificando almas que não vivem (cf. Ez 13,19), e assim engana os fiéis de Jesus Cristo, dos quais se acrescenta: “Duas libras de trigo por um denário”, etc.

Bilíbris é um recipiente que comporta dois sextários. No trigo é designada a fé; no único denário, o sangue de Jesus Cristo. A bilíbris de trigo é a Igreja dos fiéis, formada por dois povos e resgatada pelo sangue de Jesus Cristo. “E três bilíbres de cevada por um denário.” As três bilíbres de cevada são os fiéis da mesma Igreja, constituídos em grau inferior, que permanecem na fé da Santíssima Trindade; e também estes são resgatados pelo único denário do sangue de Jesus Cristo.

De outro modo. No trigo são designados os religiosos; na cevada, os leigos. A bilíbris de trigo é a vida dos religiosos que, como o trigo, deve ser branca interiormente, pela pureza da mente, e rubra exteriormente, pela mortificação do corpo. Ela deve conter em si dois sextários. No duplo sextário é designada a caridade para com Deus e para com o próximo, que conduz todo homem à perfeição. A cevada, assim chamada porque, entre todos os tipos de grão, se torna seca primeiro, significa os leigos que, surgido o sol da perseguição, secam rapidamente, porque “creem por algum tempo, mas no tempo da tentação afastam-se” (Lc 8,13). Portanto, as três bilíbres de cevada são todos os fiéis leigos da Igreja, que têm ao menos a fé na Santíssima Trindade; tanto os religiosos como os leigos são resgatados pelo único denário, marcado com a imagem e a inscrição do rei, isto é, pelo preceito da obediência, pois, enquanto o primeiro homem observou esse preceito, não perdeu a imagem e a semelhança de Deus.

“E não danifiques o vinho e o azeite.” No vinho, que embriaga, é designada a vida contemplativa, que embriaga de tal modo as mentes que elas se esquecem de todas as coisas temporais. No azeite, que flutua sobre todo líquido e, lançado na água, torna mais claras as coisas ocultas no fundo, é designada a vida ativa, que se eleva acima de toda necessidade e enfermidade do próximo e, pelas obras de misericórdia, esclarece a obscuridade da pobreza. Portanto, como a Igreja é constituída de religiosos e leigos, de ativos e contemplativos, ordena-se ao mercenário que não prejudique estes com o seu mau exemplo. Diz Gregório: O prelado é digno de tantas mortes quantos forem os maus exemplos que transmitir aos pósteros.

11. Este “mercenário, porque as ovelhas não são suas, vê o lobo chegar e foge”. O lobo é assim chamado porque, quase como o leão, tem força nos pés, de modo que tudo quanto calca com o pé deixa de viver; arma ciladas às ovelhas e investe contra a garganta delas, para as engolir rapidamente. De constituição corporal bastante rígida, não consegue dobrar facilmente o pescoço; move-se com certo ímpeto e, por isso, muitas vezes é enganado. Se avista primeiro alguém, diz-se que, por certa força da natureza, lhe arrebata a voz; mas, se percebe que foi visto, abandona a audácia da ferocidade. Quando tem fome e não encontra facilmente algo que possa roubar, alimenta-se de terra, sobe a um monte e, de boca aberta, reanima com o vento as entranhas necessitadas. Teme grandemente duas coisas: o fogo e a estrada frequentada. O lobo significa o diabo e o tirano deste mundo, cujo cavaleiro é o diabo.

Este é o quarto cavalo, do qual se lê no Apocalipse: “E eis um cavalo pálido, e aquele que o montava tinha por nome Morte” etc. Assim como o soldado serve-se do cavalo, também o diabo, cujo nome é Morte, porque por meio dele a morte entrou no mundo (cf. Sb 2,24), por meio do cruel tirano deste século derruba e perturba a Igreja de Cristo. Quando o mercenário o vê chegar, “abandona as ovelhas e foge, e o lobo arrebata e dispersa as ovelhas”. Um abandona e o outro arrebata; um foge e o outro dispersa. O diabo, como um lobo, mata tudo quanto calca com o pé da soberba. Por isso, Davi, temendo ser esmagado por esse pé, orava, dizendo: “Não venha sobre mim o pé da soberba” (Sl 35,12). Com efeito, assim como todos os membros se apoiam no pé, assim também todos os vícios se apoiam na soberba, porque ela é o princípio de todo pecado (cf. Eclo 10,15). O diabo arma ciladas às ovelhas, isto é, aos fiéis da Igreja, e lhes aperta a garganta, para que não confessem os pecados. É tão soberbo que não pode dobrar o pescoço à humildade. Ataca de improviso, irrompendo com certo ímpeto de tentação, mas é enganado pelos santos, que não ignoram as suas astúcias. Se vê um homem incauto, faz com que se cale, para que não confesse o próprio crime nem louve o seu Criador. Se, porém, o homem vigilante sobre si mesmo prevê a sua tentação, o diabo envergonha-se de ser descoberto e, assim, perde as forças da tentação. Quando não encontra nos santos algo de que comer, alimenta-se da terra, isto é, dos avarentos e luxuriosos. Sobe ao monte, isto é, vai até aqueles que se encontram no alto da dignidade, e ali se reanima com o vento da vanglória e da pompa mundana. O diabo teme especialmente duas coisas acima de tudo: o fogo da caridade e a estrada trilhada da humildade. Se o mercenário tivesse essas duas coisas, certamente não fugiria; mas por isso “foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas”.

O mercenário e o diabo estão unidos por certa amizade e ligados por um pacto. O diabo diz ao prelado o mesmo que o rei de Sodoma disse a Abraão, no Gênesis: “Dá-me as almas; quanto ao restante”, isto é, a lã, a carne e o leite, “toma-o para ti” (Gn 14,21). O diabo e o tirano deste mundo fazem com os prelados do nosso tempo o que os lobos fazem com os pescadores do pântano Meótide. Diz-se que os lobos vêm aos lugares próximos dos pescadores e, se estes lhes dão peixes, não lhes fazem mal; mas, se não lhes dão, destroem as redes quando eles as estendem sobre a terra para secá-las. Assim, os prelados da Igreja dão ao diabo os peixes, isto é, as almas que vivem na água do Batismo, e entregam os bens eclesiásticos ao tirano secular, para que ele não impeça nem corrompa as redes de seus negócios, de suas intrigas temporais e da ligação com os seus parentes. Bem se diz, portanto: “E eis um cavalo pálido, e aquele que o montava tinha por nome Morte, e o inferno o seguia”, isto é, os insaciáveis das coisas terrenas o imitam. “E foi-lhe dado poder sobre as quatro partes da terra”, isto é, sobre todos os maus que habitam em toda parte, “para matar com a espada” da má persuasão, “com a fome” da palavra divina, “com a morte” do pecado mortal, “e com as feras da terra”, isto é, com os primeiros movimentos da carne miserável.

III. Do conhecimento mútuo entre o pastor e as ovelhas

12. Segue-se o terceiro: “Eu sou o bom pastor e conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem. Assim como o Pai me conhece, também eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10,14-15). Depois da culpa do pastor falso, ele contrapõe novamente a forma do verdadeiro pastor: “Eu sou o bom pastor”, para distinguir-se do ladrão ou do mercenário; “e conheço as minhas”, marcadas com o meu caráter. Estas ovelhas têm “o seu nome e o nome de seu Pai escritos em suas frontes” (Ap 14,1). Daí se encontra a concordância no Apocalipse: “Ouvi”, diz João, “o número dos assinalados: cento e quarenta e quatro mil assinalados, de toda tribo dos filhos de Israel. Da tribo de Judá, doze mil assinalados; da tribo de Rúben, doze mil assinalados; da tribo de Gad, doze mil assinalados; da tribo de Aser, doze mil assinalados; da tribo de Neftali, doze mil assinalados; da tribo de Manassés, doze mil assinalados; da tribo de Simeão, doze mil assinalados; da tribo de Levi, doze mil assinalados; da tribo de Issacar, doze mil assinalados; da tribo de Zabulon, doze mil assinalados; da tribo de José, doze mil assinalados; da tribo de Benjamim, doze mil assinalados” (Ap 7,4-8).

“Ouvi o número dos assinalados”, isto é, compreendi quais deveriam ser assinalados: “cento e quarenta e quatro mil”, por causa da perfeição. Ele apresenta um número finito, porque Deus compreende todos sob certo número. “De toda tribo dos filhos de Israel”, isto é, de todas as nações que imitam a fé de Jacó. Por “doze” entendemos aqueles que, pela fé na Trindade, estão assinalados nas quatro partes do mundo; e, para mostrar que são perfeitos, multiplicamos doze por quatro, obtendo quarenta e oito. E, para que essa perfeição se refira à Trindade, triplicamos quarenta e oito e assim obtemos cento e quarenta e quatro.

“Da tribo de Judá” etc. Diz-se no Gênesis que Jacó amaldiçoou três filhos, a saber, Rúben, Simeão e Levi, que foram os primeiros na ordem do nascimento (cf. Gn 49,3-7). Por isso se dá a entender que nenhum deles teve o direito de primogenitura. O quarto foi Judá, a quem Jacó louvou e abençoou, dizendo: “Judá, teus irmãos te louvarão” (Gn 49,8). Judá, aquele que confessa; Rúben, filho da visão; Gad, aquele que está cingido; Aser, bem-aventurado; Neftali, amplitude; Manassés, esquecido; Simeão, escuta da tristeza; Levi, acrescentado ou assumido; Issacar, recompensa; Zabulon, habitação da fortaleza; José, aumento; Benjamim, filho da direita (Gn 35,18): assim se interpretam. Judá é o penitente, que deve ter consigo estes onze irmãos, para que em sua confissão veja claramente; na tribulação, deve cingir-se de sabedoria; deve temer a Deus, porque “bem-aventurado o homem que teme o Senhor” (Sl 111,1); deve dilatar-se na caridade; esquecido do passado, deve estender-se para as coisas que estão adiante (cf. Fl 3,13); contristado pelos pecados, deve afligir-se, para que Deus o ouça; deve acrescentar dor à dor, para que possa ser elevado da dor à alegria. E assim receberá a recompensa da vida eterna, na qual habitará com fortaleza e confiança (cf. Dt 33,28), porque não haverá quem o amedronte (cf. Jó 11,19); aumentado no número dos anjos, enriquecido com as verdadeiras riquezas, pela bênção da direita, colocado à direita, será bendito pelos séculos dos séculos.

13. Na interpretação destes doze nomes, designa-se toda a perfeição da glória e da graça, à qual, quem quer que deseje chegar, é necessário que seja assinalado na fronte com um tau. Por isso, em Ezequiel: “Disse o Senhor ao homem que estava vestido de linho: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um tau as frontes dos homens que gemem e se afligem por todas as abominações que se cometem no meio dela” (cf. Ez 9,2-4). O homem vestido de linho é Jesus Cristo, revestido do linho da nossa carne; a este o Pai ordenou que marcasse com um tau, isto é, o sinal da sua cruz e a memória da sua Paixão, as frontes, ou seja, as mentes dos penitentes, que gemem na contrição e se afligem na confissão por todas as abominações que cometeram ou que outros cometem. Sobre este sinal disseram os exploradores a Raab, no livro de Josué: “Seremos livres do juramento com que nos fizeste jurar, se, quando entrarmos na terra, este cordão escarlate não estiver como sinal, e se não o tiveres amarrado à janela” (Js 2,17-18). O cordão escarlate na janela é a memória da Paixão do Senhor em nossos sentidos; se não a tivermos, pereceremos com os condenados.

E por isso devemos fazer como o Senhor ordena no Êxodo: “Mergulhai o feixe de hissopo no sangue que está na soleira, e aspergi com ele a verga superior e ambos os umbrais” (Ex 12,22). O hissopo é uma erva própria para purificar os pulmões; nasce entre as pedras, aderindo com as raízes à rocha, e significa a fé em Jesus Cristo, da qual diz o Apóstolo: “Purificando pela fé os seus corações” (At 15,9). Esta fé está radicada e fundada no próprio Cristo.

Vós, portanto, fiéis, tomai o feixe da fé, mergulhai-o no sangue de Jesus Cristo e aspergi com ele a verga superior e ambos os umbrais. A verga superior é o entendimento; os dois umbrais são a vontade e a ação, que devem ser realizadas na memória da Paixão de Jesus Cristo. Por isso, a Esposa lhe diz no Cântico dos Cânticos: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço” (Ct 8,6). No coração é indicada a vontade; no braço, a ação: ambos devem ser assinalados com o selo da Paixão de Jesus Cristo. Portanto, todos os que tiverem sido marcados com este sinal, o Senhor os reconhecerá, e eles reconhecerão o Senhor. Por isso diz: “Conheço as minhas, e as minhas conhecem-me. Assim como o Pai me conhece, também eu conheço o Pai.” O Filho reconhece o Pai por si mesmo; nós o reconhecemos por meio dele. Por isso ele mesmo diz: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). “E dou a minha vida pelas minhas ovelhas.” Esta é a prova do amor para com o Pai e para com as ovelhas. Assim também Pedro, confessando pela terceira vez o seu amor, recebe a ordem de apascentar as ovelhas e morrer por elas. Por isso o Senhor lhe diz três vezes: “Apascenta, apascenta, apascenta”; não: “Tosquia, tosquia, tosquia.”

IV. A Igreja será formada de ambos os povos: o judeu e o gentio

14. Segue-se o quarto: “Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil; também a estas devo conduzir: elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16). A ovelha, animal macio pela lã e pelo corpo, é chamada em latim ovis, de oblação, porque no princípio não se ofereciam touros em sacrifício, mas ovelhas. As ovelhas são os fiéis da Igreja de Cristo, que todos os dias, no altar da Paixão do Senhor e no sacrifício do coração contrito, oferecem a si mesmos como hóstia imaculada, santa e agradável a Deus (cf. Rm 12,1). “Tenho ainda outras ovelhas”, isto é, dentre os gentios, “que não são deste redil”, ou seja, do povo de Israel, “e a estas devo conduzir”, por meio dos apóstolos, “e haverá um só rebanho e um só pastor”. Esta é a Igreja congregada de ambos os povos.

Esta é aquela mulher de que se fala no Apocalipse: “Apareceu”, diz João, “um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas; e, estando grávida, clamava com as dores do parto e sofria para dar à luz” (Ap 12,1-2).

Alegoricamente. Esta mulher significa a Igreja, que é justamente chamada mulher por causa da fecundidade de muitos filhos, os quais gerou da água e do Espírito Santo. Esta é a mulher vestida de sol. O sol é assim chamado porque aparece sozinho, obscurecendo com seus fulgores todas as estrelas. O sol é Jesus Cristo, que habita numa luz inacessível (cf. 1Tm 6,16), cuja claridade ofusca e escurece os pequenos raios de todos os santos, se comparados a ele, porque “não há santo como o Senhor” (1Rs 2,2). “Ainda que me lave”, diz Jó, “como com águas de neve, e minhas mãos resplandeçam como as mais puras, contudo me mergulharás na imundície, e minhas vestes me abominarão” (Jó 9,30-31). Nas águas de neve é figurada a compunção das lágrimas; nas mãos puríssimas, a perfeição das obras. Diz, portanto: “Ainda que me lave como com águas de neve”, isto é, da compunção, “e minhas mãos resplandeçam como puras”, pelo fulgor da ação perfeita, “contudo me mergulharás na imundície”, isto é, mostrarás que sou imundo, “e me abominarão”, isto é, tornar-me-ão abominável, “as minhas vestes”, isto é, as minhas virtudes ou os membros do meu corpo, se quiseres, supõe-se, tratar-me com rigor. “Tornamo-nos”, diz Isaías, “como um ser imundo”, isto é, como um leproso, “todos nós; e todas as nossas justiças, como um pano de mulher menstruada; e caímos todos como a folha, e as nossas iniquidades, como o vento, nos levaram” (Is 64,6). Portanto, aquele sol é o único bom, o único justo e santo, cuja fé e graça revestem a santa Igreja.

“E a lua debaixo dos pés dela.” A lua, por causa de sua mutabilidade, significa a instabilidade desta nossa miserável condição. Daí o verso: O jogo da fortuna varia como a aparência da lua. Cresce e decresce, e não sabe permanecer no mesmo estado. Por isso diz o Eclesiástico: “O insensato muda como a lua” (Eclo 27,12). Com efeito, o insensato, isto é, o amigo deste mundo, passa dos cornos da soberba à redondeza, isto é, à concupiscência carnal, e vice-versa. Esta mutável prosperidade das coisas caducas deve estar debaixo dos pés da Igreja. Os pés da Igreja são todos os prelados, que devem sustentá-la como os pés sustentam o corpo. Sob esses pés, como esterco, devem ser pisadas todas as coisas temporais. Por isso, nos Atos dos Apóstolos: “Todos”, diz Lucas, “quantos possuíam campos ou casas, vendendo-os, traziam o valor do que haviam vendido e o colocavam aos pés dos apóstolos” (At 4,34-35), porque consideravam tudo como esterco.

“E sobre a cabeça dela, uma coroa de doze estrelas.” As doze estrelas são os doze apóstolos, que iluminam a noite deste mundo. “Vós”, diz o Senhor, “sois a luz do mundo” (Mt 5,14). A coroa, assim chamada quase como uma roda da cabeça, das doze estrelas, é a fé dos doze apóstolos; e é coroa porque não admite acréscimo nem diminuição, como a figura circular; e isso porque está completa. A Igreja tem filhos, concebidos com a semente da palavra de Deus; clama, com as dores do parto, nos penitentes, e sofre para dar à luz na conversão dos pecadores. Por isso ela diz em Jeremias, nas palavras de Baruc: “Fui deixada sozinha; despi-me da veste da paz, vesti-me do cilício da súplica e clamarei ao Altíssimo por todos os meus dias. Tende ânimo, filhos; clamai ao Senhor, e ele vos livrará da mão dos príncipes inimigos. Pois ele vos enviou com luto e pranto; mas o Senhor vos reconduzirá a mim com alegria e júbilo” (Br 4,19-21.23). Isto acontece no dia das Cinzas, quando os penitentes são expulsos da igreja, e no dia da Ceia do Senhor, quando são recebidos de volta.

15. Moralmente. “Uma mulher vestida de sol”. Esta é a alma fiel, da qual Salomão diz nos Provérbios: “Quem encontrará uma mulher forte? Seu valor vem de longe e dos confins da terra” (Pr 31,10). Bem-aventurada aquela alma que, revestida de força do alto, permanece firme nas adversidades e na prosperidade, e vence corajosamente as potências do ar. O preço desta mulher foi Jesus Cristo, que veio para redimi-la de longe, isto é, do seio do Pai, segundo a divindade, e dos confins da terra, isto é, de pais pobríssimos, segundo a humanidade. Ou então, por preço entende as virtudes; por este preço somos resgatados. Por isso Salomão: “O resgate do homem são as suas próprias riquezas” (cf. Pr 13,8), isto é, as virtudes. A virtude vem de longe; os vícios são familiares, porque vêm de nós; as virtudes vêm do alto.

Esta mulher está vestida de sol. Observa que no sol há três coisas: candor, esplendor e calor. No candor é designada a castidade; no esplendor, a humildade; no calor, a caridade. Dessas três coisas se faz o manto da alma fiel, esposa do Esposo celeste. Sobre este manto Booz disse a Rute: “Estende o teu manto com que te cobres e segura-o com ambas as mãos. Quando ela o estendeu e o segurou, ele mediu seis medidas de cevada e as colocou sobre ela” (Rt 3,15). Booz interpreta-se forte; Rute, aquela que vê ou se apressa. Vejamos o que significam a extensão do manto, as duas mãos e as seis medidas de cevada. Rute é a alma que, vendo a miséria deste mundo, a falsidade do diabo e a concupiscência da carne, apressa-se para a glória da vida eterna. Ela estende este manto quando atribui não a si, mas a Deus, a castidade, a humildade e a caridade, e as mostra para a edificação do próximo; e segura-o com ambas as mãos, isto é, com o temor e o amor, para não o perder. A mão é assim chamada porque protege o homem, ou porque é o serviço e o dom de todo o corpo. Com efeito, ela leva o alimento à boca e realiza todas as funções. Assim, o temor e o amor de Deus protegem e fortalecem o homem, para que não caia, e infundem o dom da graça, para que persevere. Se a alma estender e segurar assim este manto, Booz, isto é, Jesus Cristo, forte e poderoso, medirá seis medidas de cevada. Na cevada é designado o rigor ou a aspereza da penitência, que consiste em seis coisas: contrição, confissão, jejum, oração, esmola e perseverança final.

Segue-se: “E a lua sob os seus pés”. Observa que na lua há três coisas contrárias às três mencionadas acima: mancha, obscuridade e frieza. A lua é o corpo do homem, que cresce e diminui com a sucessão das idades; a partir do ponto em que começa, retorna ao mesmo ponto, porque “és terra e à terra irás” (cf. Gn 3,19); tem uma mancha, porque foi concebido na iniquidade; é obscuro pela enfermidade e frio pela incineração final. Ou então: tem uma mancha, porque é maculado pela luxúria; é cegado pela obscuridade da soberba; e torna-se frio pelo gelo do ódio e do rancor.

Esta lua a mulher deve ter sob os pés, isto é, sob os afetos da mente, para que a carne sirva ao espírito e a sensualidade se submeta à razão. Por isso se diz no primeiro livro dos Reis que Abigail montou num jumento e foi ter com Davi (1Rs 25,42). Abigail interpreta-se “exultação de meu pai” e significa a alma convertida à penitência. Por isso haverá alegria para os anjos no céu (cf. Lc 15,10) etc. Ela sobe sobre o jumento quando castiga o corpo e o obriga a servir à razão, e assim se aproxima de Davi, isto é, de Jesus Cristo. Sobre isso tens uma concordância no profeta Naum: “Entra no lodo, pisa-o e amassa o tijolo” (cf. Na 3,14). Entra no lodo, considerando-te lodo e quase esterco, para que, sofrendo com o sofredor Jó, também tu te sentes dolorido sobre a esterqueira, e com um caco, isto é, com a aspereza da penitência, raspe a podridão da culpa (cf. Jó 2,8); e, tendo na mão, em vez de perfume, o fedor da carne, amassa o tijolo, isto é, castiga a carne. O tijolo solidifica-se com o fogo e dissolve-se com a água. Assim, a carne, como que cozida pelas aflições, fortalece-se, ao passo que se enfraquece nos prazeres. Por isso Jeremias: “Até quando te dissolverás nas delícias, filha errante?” (Jr 31,22). E Oseias diz: “Como uma vaca lasciva, Israel desviou-se” (Os 4,16). A vaca lasciva corre de um lado para outro com o olhar desvairado, não toma alimento, carrega o touro e não o vê; e, enquanto é esmagada pelo peso, deleita-se na lascívia. Assim a carne, quando transborda de delícias, vagueia pelos campos da licenciosidade; não toma o alimento da alma; carrega o diabo e não o vê, enquanto ele a oprime com o peso do pecado e a inflama de luxúria.

Segue-se: “E uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça”. As estrelas são assim chamadas a partir de estar, porque permanecem sempre fixas no céu e são levadas com o céu em movimento perpétuo. Pois, quando parece que as estrelas caem, não são estrelas, mas pequenos fogos que caem do ar, formados quando o vento, buscando as alturas, arrasta consigo o fogo etéreo. Na cabeça, isto é, na mente da alma, deve haver uma coroa de doze estrelas, isto é, de doze virtudes. Três na fronte: fé, esperança e caridade; três à direita: temperança, prudência e fortaleza; três na parte posterior: a memória da morte, o amargo dia do juízo e a pena indefectível do inferno; três à esquerda: paciência, obediência e perseverança final.

Roguemos, portanto, Senhor Jesus, a ti, que és o bom pastor, que guardes a nós, tuas ovelhas, nos defendas do mercenário e do lobo e nos coroes em teu reino com a coroa da vida eterna.

Concedendo-no-lo tu, que és bendito, glorioso e digno de louvor pelos séculos dos séculos. Diga toda ovelhinha, toda alma fiel: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.