Também o Evangelho do mesmo domingo: “Jesus, tendo saído dali”.
Primeiro, sermão aos pregadores, no trecho: “Israel saiu”.
Também sermão sobre o desprezo do mundo, no trecho: “Jacó saiu de Bersabéia”.
Também sermão aos penitentes, no trecho: “Aquilo que antes não queria tocar”; e sobre a tríplice tentação do diabo, e de quantos modos acontece a polução noturna.
Também sermão aos religiosos, no trecho: “E tu, filho do homem, toma para ti trigo”.
Também sermão sobre a confissão, na qual são necessárias cinco coisas, no trecho: “Jesus, tendo saído dali, retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia”, e sobre as quatro coisas que há no arco e na cítara.
Também sermão contra os curiosos e os que vagueiam em torno das coisas seculares, no trecho: “Dina saiu”.
1. “Jesus, tendo saído dali, retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia. E eis que uma mulher cananeia, saída daqueles lugares, clamou, dizendo: Tem misericórdia de mim, Senhor, filho de Davi”, etc. (Mt 15,21-22).
Diz-se no primeiro livro dos Reis: “Israel saiu ao encontro dos filisteus para o combate e acampou junto à pedra do socorro” (1Rs 4,1). Israel interpreta-se como semente de Deus e significa o pregador ou a própria pregação, da qual diz Isaías: “Se o Senhor dos exércitos não nos tivesse deixado uma semente”, isto é, a pregação, “teríamos sido como Sodoma e seríamos semelhantes a Gomorra” (Is 1,9). Ele deve sair ao encontro dos filisteus para o combate. Filisteus interpreta-se como “os que caem pela bebida” e significa os demônios que, embriagados pela soberba, caíram do céu. Contra eles sai para o combate quando, por meio de sua pregação, se esforça para arrancar o ímpio de suas mãos; mas não pode fazê-lo, a não ser que tenha acampado junto à pedra do socorro.
A pedra do socorro é Cristo, do qual se diz na narrativa bíblica deste domingo: “Jacó tomou uma pedra, colocou-a sob a cabeça e dormiu” (Gn 28,11). Assim, o pregador deve colocar sob a cabeça, isto é, em sua mente, a pedra do socorro, Jesus Cristo, para que nele repouse e nele e por meio dele vença os demônios; e é isto que significa: “acampou junto à pedra do socorro”, porque junto de Jesus Cristo, que é auxílio nas tribulações, confiando nele e atribuindo tudo a ele, deve estabelecer o acampamento de sua conduta e fixar as tendas de sua pregação.
Em nome, portanto, de Jesus Cristo sairei contra o filisteu, contra o demônio, para poder, nesta pregação, libertar de sua mão o pecador, cativo do pecado, confiando na graça daquele que saiu para a salvação de seu povo (cf. Hab 3,13). Por isso se diz na leitura do Evangelho deste domingo: “Jesus, tendo saído dali, retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia”.
2. Observa que a essência deste Evangelho consiste sobretudo em três coisas: na saída de Jesus Cristo, na súplica da mulher cananeia por sua filha atormentada pelo demônio e na libertação da própria filha. Vejamos o que cada uma dessas três coisas significa moralmente.
3. “Tendo saído”, diz Mateus, “Jesus” etc. A saída de Jesus significa a saída do penitente da vaidade do mundo; acerca disso se lê e se canta na história deste domingo: “Jacó, tendo saído de Bersabéia, ia para Harã” (Gn 28,10). Eis a concordância de ambos os Testamentos: “Tendo saído”, diz Mateus, “Jesus retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia”; e: “Tendo saído”, diz Moisés no Gênesis, “Jacó de Bersabéia, ia para Harã”. Jacó interpreta-se “suplantador” e significa o pecador convertido, que, sob a planta da razão, calca aos pés a sensualidade da carne. Ele sai de Bersabéia, que se interpreta “sétimo poço” e significa a insaciável cobiça deste mundo, que é a raiz de todos os males (cf. 1Tm 6,10). Desse poço diz João no Evangelho, ao relatar as palavras da Samaritana que falava com Jesus: “Senhor, não tens com que tirar água, e o poço é profundo” (Jo 4,11). E Jesus acrescentou: “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede” (Jo 4,13). Ó Samaritana, disseste verdadeiramente, sim, verdadeiramente, que o poço é profundo; pois a cobiça do mundo é profunda, porque não tem o fundo da suficiência. E, por isso, todo aquele que beber da água deste poço — pela qual entendemos as riquezas e os prazeres transitórios — tornará a ter sede. Verdadeiramente tornará a ter sede, porque, como diz Salomão nos Provérbios, “a sanguessuga tem duas filhas que dizem: ‘Dá, dá!’” (Pr 30,15). A sanguessuga é o demônio, que tem sede do sangue de nossas almas e deseja sugá-lo. Suas são as duas filhas: as riquezas, isto é, e os prazeres, que sempre dizem: “Dá, dá!”, e nunca: “Basta!”.
Do mesmo modo, acerca desse poço se diz no Apocalipse: “Subiu do poço uma fumaça como a fumaça de uma grande fornalha, e escureceram-se o sol e o ar. E da fumaça do poço saíram gafanhotos sobre a terra” (Ap 9,2-3). A fumaça que cega os olhos da razão sobe do poço da cobiça mundana, que é a grande fornalha da Babilônia. Por essa fumaça foram escurecidos o sol e o ar. O sol e o ar significam os religiosos. O sol, porque devem ser puros, fervorosos e luminosos: puros pela castidade, fervorosos pela caridade, luminosos pela pobreza; o ar, porque devem ser aéreos, isto é, contemplativos.
Mas, por exigência de nossos pecados, saiu fumaça do poço da cobiça e já a todos enfumaçou. Por isso Jeremias lamenta nas Lamentações: “Como se escureceu o ouro, como mudou a sua esplêndida cor!” (Lm 4,1). Sol e ouro, ar e esplêndida cor significam a mesma coisa: o esplendor do sol e do ouro foi obscurecido; o ar e a cor foram alterados. E vê com quanta propriedade ele disse “obscurecido” e “alterado”. Com efeito, a fumaça da cobiça obscurece o esplendor da religião e enfumaça a esplêndida cor da contemplação celeste, na qual o rosto da alma é misticamente revestido de uma esplêndida cor, isto é, torna-se branco e vermelho: branco pela Encarnação do Senhor, vermelho pela sua Paixão; branco pelo marfim da castidade, vermelho pelo ardente desejo do esposo celeste.
4. Ai, ai! Hoje esta esplêndida cor é alterada, porque é enfumaçada pela fumaça da cobiça, acerca da qual ainda está escrito: “E da fumaça do poço saíram gafanhotos sobre a terra”. Os gafanhotos, pelos saltos que dão, representam todos os religiosos, os quais, unindo os dois pés da pobreza e da obediência, devem saltar à altura da vida eterna. Mas, ai de nós!, com um salto para trás saíram da fumaça do poço para a terra e, como se diz no Êxodo, cobriram toda a superfície da terra (cf. Ex 10,5). Hoje não há mercado, não se realizam assembleias civis ou eclesiásticas nas quais não se encontrem monges e religiosos. Compram e revendem, constroem e destroem, mudam o quadrado em redondo (Horácio, “Epístolas” I). Nas causas, convocam as partes, litigam diante dos juízes, contratam decretistas e legistas, apresentam testemunhas, prontos a jurar com elas por uma coisa transitória, frívola e vã. Dizei-me, ó religiosos insensatos, se nos profetas ou nos Evangelhos de Cristo, ou nas epístolas de Paulo, ou na regra de São Bento ou de Santo Agostinho, encontrastes estas disputas, estas dispersões e estes clamores e protestações em causas por uma coisa transitória e perecível. Pelo contrário, o Senhor diz aos apóstolos, aos monges e a todos os religiosos — não aconselhando, mas ordenando, pois escolheram o caminho da perfeição —: “Digo-vos”, diz no Evangelho de Lucas, “amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei os que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. E ao que te ferir numa face, oferece também a outra. E ao que te tirar o manto, não recuses a túnica. Dá a todo aquele que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não o reclames. E, assim como quereis que os homens vos façam, fazei-lhes também vós do mesmo modo. E, se amais os que vos amam, que mérito tendes? Pois também os pecadores amam os que os amam. E, se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, que mérito tendes? Pois também os pecadores fazem o mesmo” (Lc 6,27-33). Esta é a regra de Jesus Cristo, que deve ser preferida a todas as regras, instituições, tradições e invenções, porque “o servo não é maior que o seu senhor, nem o apóstolo é maior que aquele que o enviou” (Jo 13,16). Observai, escutai e vede, ó povos todos, se há insensatez, se há presunção igual à deles. Na regra ou constituição deles está estabelecido que cada monge ou cônego tenha duas ou três túnicas, dois pares de calçados, adequados ao inverno e ao verão. Se por acaso acontecer que não tenham essas coisas no tempo e lugar devidos, protestam que a ordem não é observada, porque assim se peca miseravelmente contra a regra. Vede com quanto zelo observam uma regra ou constituição do corpo; mas a regra de Jesus Cristo, sem a qual não podem salvar-se, observam pouco ou nada.
Que direi também do clero e dos prelados da Igreja? Se algum bispo ou prelado da Igreja fizer algo contra uma decretal de Alexandre, ou de Inocêncio, ou de outro papa, é imediatamente acusado; o acusado é convocado; o convocado é declarado culpado; e o culpado é deposto. Se, porém, cometer algo mortal contra o Evangelho de Jesus Cristo, que está obrigado a observar acima de tudo, não há ninguém que o acuse, ninguém que o repreenda. “Pois todos amam o que é seu, e não o que é de Jesus Cristo” (cf. Fl 2,21). E por isso o próprio Cristo diz acerca de todos estes, tanto religiosos como clérigos, em Mateus: “Anulastes o mandamento de Deus por causa da vossa tradição. Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me cultuam, ensinando doutrinas e mandamentos de homens” (Mt 15,6-9). E novamente diz em Lucas: “Ai de vós, fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce, da arruda e de toda hortaliça, e deixais de lado a justiça e a caridade de Deus. Estas coisas era necessário fazer, sem omitir aquelas. Ai de vós, fariseus, que amais os primeiros lugares nas sinagogas e as saudações nas praças. E ai de vós, doutores da Lei, porque carregais os homens com fardos que não podem levar, e vós mesmos nem com um dedo tocais nesses fardos. Ai de vós, doutores da Lei, porque tomastes a chave da ciência: vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam” (Lc 11,42-43.46.52). Diz-se, portanto, com toda razão no Apocalipse que “subiu do poço uma fumaça como a fumaça de uma grande fornalha, e escureceram-se o sol e o ar, e da fumaça do poço saíram gafanhotos sobre a terra”.
5. Observa ainda que o poço da cobiça mundana é chamado sétimo poço, e isso por duas razões: ou porque é a fossa e o lago dos sete crimes — pois “a cobiça”, como diz o Apóstolo, “é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10) —; ou porque, assim como não se lê no Gênesis que o sétimo dia tenha tarde (cf. Gn 2,2), assim também a cobiça não tem fundo de suficiência. Desse poço infeliz, portanto, sai o pecador penitente, a respeito do qual se diz: “Jacó saiu de Bersabéia e dirigia-se para Harã. E Jesus, saindo dali, retirou-se para as regiões de Tiro e Sidon”.
Vejamos o que significam estes três nomes: Tiro, Sidon e Harã. Tiro interpreta-se como “angústia”; Sidon, “caça da tristeza”; Harã, “elevada” ou “indignação”. O penitente, portanto, saindo da cobiça do mundo, retira-se para as regiões de Tiro, isto é, da angústia. Observa que a angústia do verdadeiro penitente é dupla: a primeira é aquela que sente pelos pecados que cometeu; a segunda é aquela que suporta por causa da tríplice tentação do diabo, do mundo e da carne. Da primeira diz Jó: “Aquilo que antes minha alma não queria tocar, agora, por causa da angústia, é o meu alimento” (Jó 6,7). Para o penitente, com efeito, por causa da angústia da contrição que suporta pelos pecados, a assiduidade das vigílias, a abundância das lágrimas e a frequência dos jejuns são como alimentos delicadíssimos; antes de voltar à penitência, a alma, isto é, sua sensualidade, saciada com as coisas temporais, aborrecia até tocá-los. Por isso, Salomão diz nos Provérbios: “A alma saciada calca aos pés o favo de mel, mas a alma faminta toma até o amargo como doce” (Pr 27,7).
6. Sobre a segunda angústia da tríplice tentação do homem justo, diz Isaías: “Como os turbilhões vêm do Africo, do deserto vem a devastação, de uma terra horrível. Uma visão dura me foi anunciada. Por isso meus lombos se encheram de dor; a angústia me possuiu como a angústia da parturiente; caí por terra ao ouvir, fiquei perturbado ao ver. Meu coração desfaleceu, as trevas me encheram de terror” (Is 21,1-2.3-4).
Observa todas estas palavras: no turbilhão entende-se a sugestão do diabo (cf. Is 22,1); na devastação, a cobiça do mundo; na visão dura, a tentação da carne. Portanto, os turbilhões que vêm do Africo são as sugestões do diabo, que perturbam e afligem a alma do penitente. Por isso se diz no livro de Jó: “De repente, um vento impetuoso irrompeu da região do deserto e abalou os quatro cantos da casa; e esta, desabando, esmagou” (Jó 1,19) os filhos de Jó. O vento impetuoso, que irrompe da região do deserto, é a súbita sugestão do diabo, a qual às vezes irrompe de improviso com tanta força que abala desde os fundamentos os quatro cantos da casa, isto é, as quatro virtudes principais da alma do homem justo, e às vezes, ai!, faz que ela desabe no pecado mortal; e assim morrem os filhos de Jó, isto é, as boas obras ou os bons afetos do homem justo.
7. Do mesmo modo, a devastação que vem do deserto é a cobiça, que vem do deserto, isto é, do mundo cheio de feras, e deseja devastar as riquezas da pobreza no homem santo, o penitente contrito. Por isso, Joel diz: “O fogo devorou as belezas do deserto, e a chama incendiou todas as árvores da região” (Jl 1,19). O fogo, isto é, a cobiça, comeu, isto é, devorou, as belezas do deserto, isto é, os prelados e ministros da Igreja, que estão estabelecidos no deserto deste mundo e foram dados por Deus para a beleza e o decoro da própria Igreja. E a chama da avareza incendiou todas as árvores da região, isto é, todos os religiosos, que são justamente chamados árvores da região. Região é religião, na qual foram transplantados da região da dessemelhança, isto é, da vaidade mundana, para que produzam frutos da glória celeste.
8. Do mesmo modo, a visão angustiosa, anunciada por uma terra espantosa, é a tentação da carne, que justamente é chamada terra espantosa, porque é horrenda e abominável por pensamentos depravados, palavras falsas e hostis, obras perversas, inúmeras impurezas e torpezas. E observa que a tentação da carne é chamada visão angustiosa porque consiste principalmente na visão dos olhos. Por isso diz o Filósofo: “As primeiras flechas da luxúria são os olhos”. E por isso lamenta Jeremias nas Lamentações: “O meu olho devastou a minha alma” (Lm 3,51). E o bem-aventurado Agostinho: “O olho impudico é o mensageiro de um coração impudico”. E por isso, como diz o bem-aventurado Gregório, os olhos devem ser rebaixados, porque são como certos salteadores, dos quais se diz no quarto livro dos Reis: “Salteadores roubaram uma menina da terra de Israel, que estava a serviço da mulher de Naamã, o leproso” (cf. 4Rs 5,2). Os salteadores são os olhos, que roubam a menina, isto é, a pudicícia e a castidade, da terra de Israel, isto é, da mente do homem justo, que vê a Deus, e assim a fazem servir à mulher, isto é, à fornicação, que é a mulher de Naamã, o leproso, isto é, do diabo. Dessa mulher, o diabo leproso gera muitos filhos e filhas leprosos.
Ou, de outro modo: chama-se visão angustiosa aquela que costuma acontecer durante o sono, e que é chamada polução carnal, que perturba profundamente, e deve perturbar, a mente do homem justo. Por isso diz Jó: “Tu me aterrorizarás, isto é, permitirás que eu seja aterrorizado, com sonhos, e me abalarás com visões horrendas. Por isso a minha alma preferiria o enforcamento, e os meus ossos prefeririam a morte” (Jó 7,14-15). Com efeito, o homem justo, quando se sente abalado pelo horror da ilusão ou da visão, deve imediatamente levantar-se e suspender a sua alma na contemplação das coisas celestes, e afligir com gemidos e golpes os ossos do corpo que lisonjeia, os quais sentiram um prazer momentâneo.
E observa que essa polução costuma acontecer de quatro modos: ou acontece pelo excesso de acumulação nos vasos nos quais aquele humor é recebido; ou pela debilidade do corpo, e então não há pecado algum, ou há, no máximo, pecado venial; ou pelo excesso de comida e bebida, e, se isso se tornar habitual, é pecado mortal; ou pela contemplação prévia da aparência de uma mulher, com o consentimento da mente, e então é absolutamente pecado mortal.
Diz, portanto, o penitente que, tendo saído de Bersabéia, retirou-se para as regiões de Tiro, isto é, para a angústia: assim como os turbilhões, isto é, as sugestões, vêm do Áfrico, isto é, do diabo, assim também a devastação, isto é, a cobiça que tudo devasta, vem do deserto, isto é, do mundo; assim também me foi anunciada, por uma terra espantosa, isto é, pela carne miserável, a visão angustiosa da tentação. Ai! Ai! Senhor Deus, em tão grande turbilhão, em tão grande devastação, em visão tão angustiosa, para onde fugir? Que fazer? Ouve o que o penitente acrescenta: “Por isso os meus lombos estão cheios de dor, a angústia apoderou-se de mim como a angústia de uma parturiente”. Quando a visão angustiosa é anunciada ao penitente pela terra espantosa, os seus lombos enchem-se de dor, e não de prazer. Por isso diz com o Profeta: “Queima os meus rins” etc. (Sl 25,2). “E a angústia”, diz ele, “apoderou-se de mim”. Verdadeiramente esse penitente se havia retirado para as regiões de Tiro, pois dizia: “A angústia apoderou-se de mim”. E que angústia? A da parturiente. Pois, assim como não há angústia maior que a da parturiente, assim também não há angústia maior que a do homem justo submetido à tentação. Por isso se diz no Êxodo: “Os egípcios odiavam os filhos de Israel, atormentavam-nos e zombavam deles, e tornavam amarga a sua vida” (Ex 1,13-14). Os egípcios são os demônios, os pecadores iníquos e os movimentos carnais. Todos estes odeiam os filhos de Israel, isto é, os homens justos: os demônios os atormentam, os pecadores iníquos zombam deles, e os movimentos carnais tornam amarga a sua vida.
9. Segue-se: “Caí por terra ao ouvir, fiquei perturbado ao ver. Meu coração desfaleceu, as trevas me encheram de terror”. Aplica cada expressão ao que lhe corresponde. Diz o penitente: “Ao ouvir” os turbilhões que vêm do Africo, imediatamente caí por terra, com o rosto no chão, suplicando ao Senhor que não permitisse que eu fosse arrastado por aquele turbilhão. Com efeito, o homem justo, quando ouve as sugestões do diabo, deve imediatamente cair em oração, porque “esta espécie” de demônios “não se expulsa senão pela oração e pelo jejum” (Mt 17,20). “Fiquei perturbado” ao ver chegar a devastação da cobiça mundana. E diz muito bem: “fiquei perturbado”. Pois o homem justo, quando alguma cobiça das coisas temporais quer sorrir-lhe, deve imediatamente ter o ânimo e o rosto perturbados, para não sorrir para elas. “Meu coração desfaleceu” por causa do humor da luxúria; “as trevas” da morte eterna “me encheram de terror”, quando “me foi anunciada pela terra horrível uma visão dura”. Assim como um prego expulsa outro prego, assim o temor da geena expulsa o prazer da luxúria. Diz-se, portanto, muito bem do homem penitente: “Saído de Bersabéia, retirou-se para as regiões de Tiro e dirigiu-se a Harã”.
E vê como Tiro e Harã, isto é, a angústia e o elevado, concordam muito bem, porque quem quer chegar às alturas não pode fazê-lo sem passar pela angústia. Assim, o penitente que quer subir à plenitude da vida eterna deve primeiro passar por Tiro. Por isso diz o Senhor no Evangelho de Lucas: “Não era necessário que o Cristo padecesse” — eis Tiro — “e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24,26) — eis Harã. Que faremos, pois, ao penitente que sai do poço da cobiça mundana e se dirige às alturas da bem-aventurança celeste? O monte é elevado, a subida dificílima e cheia de angústia. Para que não desfaleça no caminho, construamos para ele uma escada pela qual possa subir suavemente; dela se diz na história bíblica deste domingo: “Jacó viu em sonho uma escada, apoiada sobre a terra” etc. (Gn 28,12).
10. Observa que esta escada tem dois braços e seis degraus, pelos quais se faz a ascensão. Esta escada é a santificação do penitente, da qual diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, para que cada um de vós saiba conservar o seu vaso com honra e santificação” (1Ts 4,3-4). Os braços desta escada são a contrição e a confissão. Os seis degraus são aquelas seis virtudes nas quais consiste toda a santificação da alma e do corpo: a mortificação da própria vontade, o rigor da disciplina, a virtude da abstinência, a consideração da própria fragilidade, o exercício da vida ativa e a contemplação da glória celeste.
Sobre estas seis virtudes fala o Senhor por meio de Ezequiel, dizendo: “E tu, filho do homem, toma para ti trigo, cevada, favas, lentilhas, painço e ervilhaca, põe tudo num só vaso e faze para ti pães” (Ez 4,1.9). No trigo, que morre quando é lançado à terra, é significada a mortificação da nossa vontade; na cevada, que tem uma palha resistente, o rigor da disciplina; na fava, que é alimento dos abstinentes, a virtude da abstinência; na lentilha, que é pequeníssima e de pouco valor, a consideração da nossa fragilidade; no painço, que necessita de cuidados frequentes, o exercício da vida ativa; na ervilhaca ou na aveia, que se eleva para o alto, entende-se a contemplação da glória celeste. Porque nestas coisas consiste a nossa santificação e pureza, tomemo-las e coloquemo-las em nosso vaso, do qual diz o Apóstolo: “Para que cada um de vós saiba conservar o seu vaso com honra e santificação”; e dessas seis coisas façamos para nós pães, com os quais, alimentados, possamos retirar-nos para as regiões de Tiro e prosseguir para Harã. Por isso se diz: “Saindo dali, Jesus retirou-se para as regiões de Tiro”.
11. Segue-se: “e de Sidon”. Sidon interpreta-se como “caça da tristeza”. Observa que o caçador que deseja fazer boa caça deve ter cinco coisas: um corno sonoro, um cão veloz e corajoso, um dardo polido e afiado, uma aljava com flechas e um arco. O corno, para soar; o cão, para capturar; o dardo, para matar; as flechas e o arco, para ferir de longe as feras que não pode matar de perto com o dardo. O caçador é o penitente, a quem o pai diz na história bíblica deste domingo: “Toma tuas armas, a aljava e o arco, e traz-me da tua caça, para que eu coma e minha alma te abençoe” (cf. Gn 27,3-4). As armas do filho do penitente são a aljava e o arco; as flechas na aljava são as pungentes dores da contrição no coração, das quais diz Jó: “As flechas do Senhor estão cravadas em mim, e a indignação delas sorve o meu espírito” (Jó 6,4). As flechas do Senhor são as pungências do coração, com as quais o Senhor fere misericordiosamente o coração do pecador, para que, indignado contra si mesmo por causa do pecado, humilhe o espírito de soberba. E é isso que se segue: “A indignação delas sorve”, isto é, consome, “o meu espírito”, isto é, a minha soberba. No arco está indicada a confissão. Por isso diz o Senhor no Gênesis: “Porei o meu arco nas nuvens do céu, e ele será o sinal da aliança entre mim e a terra” (Gn 9,13); entre Deus e a terra, isto é, entre Deus e o pecador, a quem foi dito: “Tu és terra e à terra voltarás” (cf. Gn 3,19), coloca-se o arco da confissão, que é sinal da aliança, da paz e da reconciliação. E vede quão apropriadamente o arco significa a confissão.
12. Observa que no arco há quatro elementos: as duas extremidades flexíveis, o centro rígido e inflexível, e a corda macia, pela qual as próprias extremidades são vergadas. Do mesmo modo, na confissão devem existir quatro elementos. As duas extremidades do arco da confissão são a dor pelos pecados passados e o temor das penas eternas; o centro rígido e inflexível é o firme propósito que o penitente deve ter, para não voltar mais ao vômito; a corda macia é a esperança do perdão, que verdadeiramente dobra, tirando-lhes a rigidez, essas duas extremidades da dor e do temor. De tal arco, portanto, são lançadas “as flechas agudas do poderoso” (Sl 119,4).
Além disso, o caçador, isto é, o penitente, deve ter uma trompa sonora, um cão e um dardo. Na trompa é indicado o clamor da acusação sincera; no cão, o ladrar da consciência que morde; no dardo, o castigo, a indignação contra si mesmo e a satisfação, isto é, a obra penitencial reparadora. O pecador deve, pois, com o arco da confissão, ter a trompa da acusação sincera e o cão da consciência que morde, para não deixar intacto nada do pecado nem das circunstâncias do pecado. Deve também ter o dardo do castigo, da indignação e da satisfação, para ferir a si mesmo, indignar-se contra si próprio e satisfazer por seus pecados, de modo que, quanto teve em si de prazeres, tantos holocaustos encontre em si mesmo. Esta é uma boa caça, da qual o pai diz ao filho: “Traz-me da tua caça, para que eu coma e a minha alma te abençoe”. Dessa caça, portanto, se diz no evangelho presente: “Tendo saído Jesus, retirou-se para as regiões de Tiro e Sidônia”. Segue-se o segundo.
II. Do pedido da mulher cananeia por sua filha atormentada pelo demônio, ou da oração da alma penitente
13. “Eis que uma mulher cananeia, tendo saído daqueles confins, clamou, dizendo: Tem piedade de mim, Filho de Davi; minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio” (Mt 15,22). Observa que a mulher cananeia sai então e então derrama súplicas pela filha, quando Jesus se retira para as regiões de Tiro e de Sidônia; pois, quando o pecador sai do abismo insaciável do mundo e da própria carne e se retira para as regiões de Tiro, isto é, para a angústia que sente na contrição, e de Sidônia, isto é, para a busca que deve fazer na confissão, então a mulher cananeia, isto é, a alma pecadora, reconhecendo a sua iniquidade, começa a clamar, dizendo: “Tem piedade de mim, Senhor, Filho de Davi”. Esta deve ser a oração própria da alma penitente, que, a exemplo de Davi, o qual, depois do adultério e do homicídio, fez verdadeira penitência, se converte à penitência. Diz, portanto: “Tem piedade de mim, Senhor, Filho de Davi”, como se dissesse: Ó Senhor, por isso quiseste assumir a carne da família e da tribo de Davi, para infundir a graça do perdão e estender a mão da misericórdia aos pecadores convertidos, que, a exemplo de Davi, esperam na tua misericórdia e fazem penitência. “Tem, pois, piedade de mim, Filho de Davi”.
14. “Ele, porém, não lhe respondeu palavra” (Mt 15,23). Ó mistério do conselho divino! Ó insondável profundidade da sabedoria eterna! O Verbo que no princípio estava junto do Pai, por quem tudo foi feito (cf. Jo 1,1.3), não responde uma palavra à mulher cananeia, isto é, à alma penitente. O Verbo que torna eloquente a língua das crianças (cf. Sb 10,21), que dá boca e sabedoria (cf. Lc 21,15), não responde palavra! Ó Verbo do Pai, que tudo crias e recrias, que tudo governas e sustentas, responde ao menos com uma palavra a mim, mulher miserável, a mim, que sou penitente. E provo-te pela palavra do teu profeta Isaías que deves responder. Assim, com efeito, o Pai promete aos pecadores, por meio dele, dizendo: “A minha palavra”, diz, “que sair da minha boca, não voltará para mim vazia, mas fará tudo quanto quis, e prosperará naquilo para que a enviei” (Is 55,11). E que quis o Pai? Certamente, que acolhesses o penitente e respondesses com a palavra da misericórdia. Não disseste tu: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou?” (Jo 4,34). Tem, pois, piedade de mim, Filho de Davi; responde uma palavra, ó Verbo do Pai.
Provo-te igualmente pela palavra do teu profeta Zacarias que deves ter piedade e responder. Assim, com efeito, profetizou ele a teu respeito: “Naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de Davi, para a purificação do pecador e da mulher impura” (Zc 13,1). Ó fonte de piedade e de misericórdia, que nasceste da terra bendita, isto é, da Virgem Maria, que era da casa e da família de Davi, lava as imundícies do pecador e da mulher impura. “Tem”, pois, “piedade de mim”, Filho de Davi; minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio.
Por que o Verbo não respondeu palavra? Certamente, para suscitar na alma do penitente uma contrição maior, uma dor mais profunda. Por isso, a esposa fala dele no Cântico dos Cânticos: “Procurei-o e não o encontrei; chamei-o, e ele não me respondeu” (Ct 5,6).
15. Mas vejamos mais claramente de que dor padeça esta mulher cananeia. “Minha filha”, diz ela, “é cruelmente atormentada pelo demônio”. Sobre esse tormento há também uma correspondência na narrativa bíblica deste domingo, onde se diz: “Dina, filha de Lia, saiu para ver as mulheres daquela região. Tendo-a visto Siquém, filho de Hemor, o heveu, príncipe daquela terra, apaixonou-se por ela e raptou-a; e uniu-se a ela, violentando a virgem. E a sua alma se apegou a ela” (Gn 34,1-3). Eis como “minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio”. Lia interpreta-se “laboriosa”; Dina, “causa” ou “juízo”. Lia é a alma do penitente, que, perseverando nas obras de penitência, fatiga-se, dizendo com o Profeta: “Cansei-me de tanto gemer” (Sl 6,7). Ela representa a mulher cananeia, que se interpreta “negociante”. O empenho da alma penitente consiste em desprezar o mundo, mortificar a carne, chorar os pecados passados e não tornar a cometer nada que depois deva chorar. A filha desta cananeia, isto é, de Lia, é a mente, a consciência do homem, que justamente é chamada Dina, isto é, causa ou juízo, porque deve manifestar e apresentar ao juiz, isto é, ao sacerdote, a causa dos seus pecados, e aceitar de bom grado o juízo e a sentença que dele receber. E presta atenção: neste lugar, por mente ou consciência do homem não entendo outra coisa senão a própria alma do penitente. Com efeito, muitas vezes, na Sagrada Escritura, pessoas diversas representam uma única e mesma coisa, como neste lugar: a mulher cananeia e sua filha significam moralmente a alma de um só penitente.
16. Dela se diz: “Dina saiu para ver as mulheres daquela região”. As mulheres da região significam a beleza, a abundância, a vaidade e o prazer das coisas temporais deste mundo, e são chamadas mulheres porque amolecem e efeminam as mentes dos homens. Por isso se diz no Terceiro Livro dos Reis que as mulheres desviaram o coração de Salomão (cf. 3Rs 11,3). Com efeito, a beleza e a abundância dos bens temporais entorpecem o coração do sábio. A alma infeliz sai para ver essas mulheres quando se deleita com a abundância e a beleza das coisas temporais; e assim sucede à infeliz o que vem em seguida: “Quando a viu Siquém, filho de Hemor, o heveu, príncipe daquela terra, apaixonou-se por ela” etc. Siquém interpreta-se “trabalho”; Hemor, “jumento”; heveu, “feroz” ou “péssimo”.
Siquém é o diabo, que sempre trabalha para agir iniquamente: “Circulei”, diz ele, “pela terra e percorri-a” (Jó 2,2). É chamado filho de Hemor, o heveu, porque, pela estultícia e pela ferocidade da soberba, de anjo se tornou diabo; de filho da excelsa glória, tornou-se filho da morte eterna. É chamado príncipe da terra, isto é, daqueles “que se ocupam das coisas terrenas” (Fl 3,19). Diz o Senhor: “O príncipe deste mundo será lançado fora” (Jo 12,31). Quando este vê a alma infeliz, que deveria levar a sua causa e sofrer o julgamento pelos seus pecados, vagar entre as vaidades das coisas temporais, faz-lhe o que vem em seguida: “Apaixonou-se por ela, raptou-a e dormiu com ela, violentando a virgem, e a sua alma ficou colada a ela”.
Observa as palavras: o diabo apaixona-se pela alma quando lhe sugere o pecado; rapta-a quando ela consente mentalmente à sugestão; dorme com ela e a priva da virgindade quando põe em prática a malícia premeditada. A sua alma fica colada a ela quando, pelo vínculo do mau costume, é mantida cativa e acorrentada. Eis de que modo a minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio. “Tem, pois, piedade de mim, filho de Davi, porque a minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio”, por Siquém, filho de Hemor, o heveu. “E o Senhor”, compadecendo-se, pois as suas misericórdias são sem número, libertou maravilhosamente a filha que era atormentada pelo demônio.
17. Por isso, continua na mesma história do Gênesis: “Tendo Simeão e Levi, os dois filhos de Jacó, irmãos de Dina, tomado as espadas, entraram corajosamente na cidade; e, depois de matarem todos os homens, mataram igualmente Hemor e Siquém, tirando Dina, sua irmã, da casa de Siquém” (Gn 34,25-26). Simeão interpreta-se “aquele que ouve a tristeza” e significa a contrição do coração; Levi interpreta-se “acréscimo” e significa a confissão da boca, que deve ser acrescentada à contrição do coração. Esses dois filhos de Jacó, isto é, do homem penitente, e irmãos de Dina, isto é, da própria alma, devem empunhar as espadas do amor e do temor de Deus e matar o diabo, a sua soberba e tudo o que lhe pertence, isto é, o pecado e as circunstâncias do pecado; e assim poderão libertar sua irmã, a alma, cativa na casa do diabo e atada com a cadeia do mau costume.
Peçamos, portanto, caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo que, por sua santa misericórdia, nos conceda sair da vaidade do mundo e entrar nas regiões de Tiro e de Sidônia, isto é, da contrição e da confissão, de tal modo que nossa filha, nossa alma, possa ser libertada do diabo e de sua tentação e ser colocada na bem-aventurança do reino celeste; conceda-no-lo aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos.
Todo homem diga: Amém