Sermões Dominicais · Parte III · Sermão n.º 67

Domingo II depois do Natal do Senhor Dominica II post Nativitatem Domini

Sermões Dominicais — Do Advento à Epifania · 5 seções · 14 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do segundo domingo depois da Natividade: “Quando Jesus tinha doze anos”, que se divide em três cláusulas.

Primeiramente, tema do sermão na Quaresma aos penitentes, onde se diz: “Aplicai os vossos corações aos vossos caminhos”.

[Da primeira cláusula.] Também sobre o duodenário das virtudes e os pais do homem justo, a saber, a esperança e o temor, onde se diz: “Quando Jesus tinha doze anos”.

Também aos contemplativos, onde se diz: “As portas de Jerusalém”.

Também sobre o tríplice estado dos penitentes, onde se diz: “Três vezes por ano”; e sobre a sua tríplice oferta, onde se diz: “Eu vos exorto”.

Da segunda cláusula. Tema do sermão sobre a compaixão para com o próximo, onde se diz: “Havia uma visão”.

Também sobre o tríduo dos penitentes, onde se diz: “O caminho de três dias”.

Da terceira cláusula. Tema do sermão sobre a humildade e a obediência, onde se diz: “O meu amado desceu ao seu jardim”; e onde se diz: “Florescerá a amendoeira”; e onde se diz: “Era-lhes submisso”.

Exórdio. Sermão aos penitentes para a Quaresma

1. Naquele tempo: “Quando Jesus tinha doze anos” (Lc 2,42) etc.

Diz o Senhor pelo profeta Ageu: “Aplicai os vossos corações aos vossos caminhos; subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa” (Ag 1,7-8). Observa que nestas três palavras — aplicai, subi e trazei — são indicadas a contrição, a confissão e a satisfação; e quem as possui poderá edificar uma casa para o nome do Senhor. Os caminhos são as nossas ações; por isso, Jeremias diz: “Vê os teus caminhos no vale, sabe o que fizeste” (Jr 2,23). Procura no Evangelho: “Jesus estava expulsando um demônio” (“Dom. III in quadrag., I”). Aplicar o coração aos caminhos significa pensar, na contrição do coração, no que se fez. Por isso, no Salmo: “Considerei os meus caminhos e voltei os meus pés para os teus testemunhos” (Sl 118,59). Mas, como são poucos, ou talvez nenhum, os que fazem isso, o Senhor se queixa por meio de Jeremias: “Prestei atenção”, diz ele, “e escutei: ninguém fala o que é bom; não há quem faça penitência por seu pecado, dizendo: ‘Que fiz eu?’. Todos se voltaram para o seu caminho, como o cavalo que se lança impetuosamente para a batalha” (Jr 8,6). Davi, porque havia aplicado o seu coração aos seus caminhos, voltou os seus pés, isto é, os seus afetos, para os testemunhos, isto é, para os martírios do Senhor. Estes, porém, porque não pensam no que fazem nem fazem penitência, voltam-se para a corrida das coisas temporais. Quem não conhece o seu interior volta-se para as coisas exteriores e alheias. Alheio é tudo aquilo que não podes levar contigo na morte. Aplica, portanto, o teu coração ao que é teu, e não ao que é alheio, porque onde está o coração, aí está o olho; onde está o olho, aí está o conhecimento; onde está o conhecimento do que é teu, aí está o perdão.

Aplicai, portanto, os vossos corações aos vossos caminhos, e assim podereis subir ao monte, no qual é figurada a confissão, que é “o monte de Deus, monte fecundo” (Sl 67,16). Sobre a sua fecundidade, diz o Salmo: “Que a minha alma seja saciada como de gordura e abundância” (Sl 62,6). “Ungiste”, diz ele, “com óleo”, isto é, com a luz da confissão, “a minha cabeça”, isto é, a minha mente, “e assim como é precioso o meu cálice”, isto é, a bebida das lágrimas (Sl 22,5). “Ó, como é bela a geração casta, com glória!” (Sb 4,1). A confissão, porque nasce da contrição, pode ser chamada geração, cuja beleza consiste na castidade e na clareza: na castidade, para que todos os pecados sejam desnudados diante de um só sacerdote e não sejam divididos entre muitos; na clareza, para que o penitente seja inundado de lágrimas, pelas quais a sua consciência é esclarecida.

Segue-se: “Trazei madeira”, com o que é figurada a satisfação da penitência: do monte da confissão, o penitente leva a madeira da satisfação. E observa que, assim como na madeira da cruz de Cristo houve comprimento, largura, altura e profundidade, assim também nesta madeira, isto é, na cruz da penitência, devem existir o comprimento da perseverança final, a largura da caridade, a altura da esperança e a profundidade do temor (cf. Ef 3,18). Com estas coisas edifica-se a casa do Senhor, na cidade de Jerusalém, da qual se diz no Evangelho de hoje: “Quando Jesus tinha doze anos, eles subiram a Jerusalém segundo o costume da festa” (Lc 2,42).

2. Observa que neste Evangelho se notam três coisas. Primeiro, a subida de Jesus e de seus pais a Jerusalém, onde se diz: “Quando Jesus tinha doze anos”. Segundo, o seu encontro depois de três dias, onde se diz: “E aconteceu que”. Terceiro, a descida dele com seus pais a Nazaré, onde se diz: “E desceu com eles”.

No intróito da missa de hoje canta-se: “No trono excelso”, e lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Romanos (Rm 12,1ss), que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três cláusulas do Evangelho. Primeira parte: “Eu vos exorto”. Segunda: “Não vos conformeis”. Terceira: “Digo, pela graça”.

I. A ida de Jesus e de seus pais a Jerusalém

3. Digamos, portanto: “Quando Jesus tinha doze anos”. Vejamos o que significam moralmente o menino Jesus, seus pais, Jerusalém e o costume da festa.

Neste duplo nome, “menino Jesus”, é indicada a perfeição do homem justo, que deve ser “menino”, isto é, puro, quanto a si mesmo, e “Jesus”, isto é, salvador, quanto ao próximo. Para que seja puro, são-lhe necessárias seis coisas: pureza do coração, castidade do corpo, paciência nas adversidades, para não desanimar, constância nas prosperidades, para não se ensoberbecer, e, para perseverar nessas coisas, humildade e pobreza. Para que seja salvador, são-lhe necessárias as seis obras de misericórdia, que são: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35) etc. Este é o número duodenário dos anos do homem justo que deseja subir a Jerusalém com o menino Jesus, do qual se diz: “Quando Jesus tinha doze anos”.

Segue-se: “Ao subirem eles”. Os pais de Jesus, José e Maria: José interpreta-se “aumento”; Maria interpreta-se “mar amargo”. Não porque tivesse um gemido amargo de penitência, mas porque, na Paixão do Filho, recebeu, por assim dizer, como que por um presságio, o nome da amargura. Nesses dois são figuradas a esperança e o temor, que são como os pais do homem justo. A esperança é a expectativa dos bens futuros, que exprime o afeto da humildade e o diligente serviço. Eis José, humilde e diligente servidor. A esperança é chamada spes, como se fosse pes, pé para avançar: eis o aumento.

Ao contrário, fala-se de desespero, ao qual não há possibilidade alguma de avançar, pois, enquanto alguém ama o pecado, não espera a glória futura. E, para que a esperança não se corrompa em presunção, deve unir-se a ela o temor, que é o princípio da sabedoria (cf. Sl 110,10; Eclo 1,16), à doçura de cujo sabor ninguém pode chegar sem antes provar a amargura do temor. Por isso se diz no Êxodo que os filhos de Israel, antes de chegarem à doçura do maná, encontraram em Mara a amargura da água (cf. Ex 15,23). Pelo cálice da amarga medicina chega-se à alegria da cura.

Com esses pais, o homem justo deve subir a Jerusalém, na qual são figuradas a excelência da vida, a tranquilidade da mente e a suavidade da contemplação. Por isso Tobias diz: “As portas de Jerusalém serão edificadas de safira e esmeralda, e todo o circuito de seus muros, de pedras preciosas. Todas as suas praças serão pavimentadas com pedra pura e branca, e pelas suas ruas cantar-se-á Aleluia” (Tb 13,21-22). Na safira, que é de cor celeste, e na esmeralda, que é de cor verde, é figurada a excelência da vida, que consiste no desprezo das coisas terrenas e no desejo das eternas; na pedra preciosa, pura e branca, a tranquilidade da mente; no Aleluia, a suavidade da contemplação. Procura acima, no sermão do terceiro domingo de setembro, e encontrarás esta autoridade exposta mais amplamente na história de Tobias (“Dom. XV post Pent., III”).

4. Segue-se: “Segundo o costume do dia festivo” (Lc 2,42). Moisés ordenou aos filhos de Israel, no Deuteronômio, dizendo: “Três vezes por ano todo varão teu comparecerá diante do Senhor teu Deus, no lugar que ele tiver escolhido: na solenidade dos ázimos”, isto é, da Páscoa, “e na solenidade das semanas e das tendas. Ninguém comparecerá diante do Senhor de mãos vazias, mas cada um oferecerá segundo o que tiver, conforme a bênção do Senhor seu Deus, que ele lhe tiver dado” (Dt 16,16-17). Observa que, nessas três solenidades, são significados três estados: o dos principiantes, o dos que progridem e o dos perfeitos. Na solenidade dos ázimos é significado o estado dos principiantes, que devem celebrar a Páscoa “com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1Cor 5,8) e comer o cordeiro com alfaces silvestres (cf. Ex 12,8), isto é, com a amargura de seus pecados. Sobre isso, procura no sermão da Ressurreição (Na Páscoa do Senhor, I).

Na solenidade das semanas, na qual eram oferecidos ao Senhor dois pães novos das primícias (cf. Lv 23,16), é significado o estado dos que progridem, cujo homem interior se renova dia após dia (cf. 2Cor 4,16), e que oferecem ao Senhor pães novos, isto é, a pureza da mente e do corpo. Na solenidade das tendas, chamada cenopégia, isto é, fixação das tendas, é significado o estado dos perfeitos, que, como diz Isaías, habitam em tendas de confiança (cf. Is 32,18). “Belas são as suas tendas”, como diz Balaão no livro dos Números, “como vales arborizados”, nos quais se indica a humildade da pobreza, que oferece uma excelente sombra contra o ardor das coisas temporais, “como jardins junto a rios irrigados” (Nm 24,5-6), nos quais é significada a infusão da graça, que refrigera a sede da concupiscência carnal.

Este é, portanto, o costume do dia festivo, segundo o qual todo homem justo está obrigado e deve subir a Jerusalém; para não comparecer diante do Senhor de mãos vazias, deve oferecer o cordeiro da inocência no que diz respeito ao próximo, os dois pães novos da dupla continência no que diz respeito a si mesmo e, como se diz no Levítico, deve tomar os frutos da árvore mais bela e ramos de palmeira (cf. Lv 23,40) etc. Procura na última cláusula do evangelho do Domingo de Ramos (“Domingo de Ramos”).

5. À primeira parte do Evangelho concorda a primeira parte da Epístola: “Rogo-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). Todo homem justo que queira subir com os pais a Jerusalém, segundo o costume do dia festivo, deve necessariamente observar estas três coisas que aqui o Apóstolo estabelece; de outro modo, aparecerá de mãos vazias diante do Senhor, que diz no Levítico: “Tudo o que ofereceres em sacrifício, temperá-lo-ás com sal, e não retirarás do teu sacrifício o sal da aliança do teu Deus. Em toda oblação, isto é, em toda boa obra, oferecerás o sal” (Lv 2,13) do discernimento.

“Rogo-vos”, portanto, “que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo”. Observa estas três palavras: vivo, santo, agradável a Deus. Os iniciantes devem oferecer os seus corpos como sacrifício “vivo”; os que progridem, “santo”; os perfeitos, agradável a Deus. Sobre estas três coisas tens uma concordância no Levítico, onde são apresentados três gêneros de oblações. A primeira era feita de animais, a segunda de aves, a terceira de flor de farinha misturada com óleo. E esta última de três modos: no forno, na frigideira e na grelha.

A primeira [“viva”] é oferecida pelos iniciantes; por isso se diz ali: “Tirada a pele da vítima, cortar-lhe-á os membros em pedaços; e porá fogo sobre o altar, depois de preparada a pilha de lenha; dispondo sobre ela os membros cortados, isto é, a cabeça e tudo o que está unido ao fígado, tendo lavado com água os intestinos e os pés, o sacerdote queimará tudo sobre o altar como holocausto e como suave odor para o Senhor” (Lv 1,6-9). O altar é o coração; o fogo, o amor divino; a pilha de lenha, o acúmulo das paixões de Cristo; a retirada da pele, o desnudamento da culpa; os membros ou partes cortadas, as circunstâncias manifestadas na confissão; a cabeça, a origem do pecado; o fígado, o seu apego obstinado; os intestinos, a impureza dos pensamentos; os pés, os passos; a água, a efusão das lágrimas.

O pecador convertido, começando a fazer penitência, deve primeiro dispor no altar do seu coração um acúmulo das paixões de Cristo, isto é, os flagelos, as bofetadas, os escarros, a cruz, os cravos e a lança; depois, na confissão, desnudar a culpa e dividi-la minuciosamente em suas circunstâncias, bem como declarar qual foi a sua origem e quão grande foi nele o prazer e o apego. Deve também lavar com a água das lágrimas a impureza do pensamento e da obra. Se todas essas coisas forem assim ordenadas e dispostas sobre o acúmulo das paixões de Jesus Cristo, ele mesmo, que é o sumo sacerdote, colocará o fogo do seu amor, que devorará todos os pecados; então o próprio penitente se tornará holocausto, isto é, inteiramente queimado, nada reservando de si para si, mas submetendo-se por inteiro ao serviço do Senhor, para ser o bom odor de Cristo em todo lugar (cf. 2Cor 2,15); e assim oferecerá o seu corpo como sacrifício vivo: sacrifício, porque morto para o pecado; vivo, porque vivo para a justiça. Por isso diz o Apóstolo: “Eu vivo, mas já não sou eu; Cristo, porém, vive em mim” (Gl 2,20).

6. Segue-se: “Santo”. Os que progridem oferecem a segunda oblação, da qual se acrescenta no mesmo Levítico: “Se a oblação de holocausto ao Senhor for de aves, o sacerdote oferecerá no altar uma rola ou um filhote de pomba; torcendo-lhe a cabeça para o pescoço e abrindo a ferida, fará escorrer o sangue sobre a borda do altar. Quanto ao papo da garganta e às penas, lançá-los-á junto do altar, do lado do oriente, no lugar onde costumam ser derramadas as cinzas; quebrará as suas asas, sem as cortar nem dividi-las com o ferro, e queimá-la-á sobre o altar, depois de posto fogo à lenha. É holocausto e oblação de suavíssimo odor para o Senhor” (Lv 1,14-17). Faz-se a oblação do holocausto com aves quando o homem justo, alado pelas virtudes, representado na rola e na pomba pela castidade, simplicidade e gemido da penitência, progride de virtude em virtude. Ele torce a cabeça para o pescoço e a boca para o ombro quando pratica por suas obras aquilo que prega com a boca. Dessa torção resulta a ruptura, isto é, a devoção da mente, da qual escorre o sangue das lágrimas, que são, como diz Agostinho, o sangue da alma.

“Sobre a borda do altar”, isto é, sobre o ânimo do ouvinte, a doce harmonia da voz e da obra no pregador desperta a devoção, que penetra o coração de quem ouve. Portanto, não destruas, como diz o Eclesiástico, a harmonia (cf. Eclo 32,5).

Na vesícula da garganta está representado o ardor da avareza; nas penas, a vaidade da soberba: vícios que o homem justo lança para longe de si, “do lado do oriente, no lugar das cinzas”, quando considera de quanta felicidade e glória caiu por causa da avareza e da soberba dos primeiros pais, aos quais foi dito: “És cinza” (cf. Gn 3,19) etc.

Ele quebra as asas quando, considerando a humildade da Paixão do Senhor, rebaixa as suas virtudes. Por isso diz Ezequiel: “Quando se fez ouvir uma voz sobre o firmamento, os seres viventes abaixavam as suas asas” (cf. Ez 1,25). O firmamento é Cristo, sobre quem se fez ouvir a voz, a saber: “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mt 26,31). Quando estes seres viventes, isto é, os santos, ouvem isso, abaixam as suas virtudes, não confiando nelas, mas na Paixão do Pastor ferido. O homem justo, que todos os dias progride para o melhor, quebra com a humildade as asas das suas virtudes; contudo, no tempo da adversidade, não as separa de si com o ferro da impaciência; e assim se oferece como vítima santa sobre o altar, isto é, na imitação da Paixão do Senhor, com o fogo da santa devoção posto sobre a lenha, isto é, sobre os exemplos dos santos Padres; e assim se torna inteiramente holocausto e oblação de suavíssimo odor para o Senhor.

7. Segue: “agradável a Deus”. Os homens perfeitos oferecem a terceira oblação, que, como se diz no mesmo Levítico, era de flor de farinha regada com óleo (cf. Lv 2,5). A flor de farinha, puríssima e alvíssima, é a vida do homem perfeito, que não tem o farelo da vaidade mundana, resplandece pela brancura da castidade e é regada com o óleo da piedade. Ela é cozida no forno da pobreza, frita na frigideira da necessidade ou enfermidade alheia e assada na grelha da Paixão do Senhor. Verdadeiramente, verdadeiramente, esta vítima é agradável a Deus.

Estas três coisas acima mencionadas constituem o “culto espiritual”, sincero pela discrição, pleno de santidade.

Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, a Jesus Cristo, para que, assim como subiu a Jerusalém com seus pais, também nos faça subir à Jerusalém moral, com o duodenário das virtudes acima mencionado, unido à esperança e ao temor, para que possamos oferecer-lhe, na tríplice solenidade, uma vítima viva, santa e agradável a ele.

Por mercê daquele que é bendito na Jerusalém celeste. Aleluia. Amém. Aleluia.

II. O encontro de Jesus depois de três dias

8. Segue-se o segundo: “E aconteceu que, depois de três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os” (Lc 2,46). Vejamos o que significam os três dias e o templo, o fato de Jesus estar sentado, os doutores, e o fato de ele ouvir e interrogar.

O triduo é o conhecimento da própria iniquidade, a compaixão pela necessidade do irmão e a consideração ou admiração da piedade divina. Sobre o primeiro, diz o profeta Miqueias: “Quando eu me sentar nas trevas, o Senhor será a minha luz” (Mq 7,8). Sobre o segundo, diz Ezequiel: “Havia uma visão que corria no meio dos seres vivos, um esplendor de fogo, e do fogo saía um relâmpago” (Ez 1,13). O esplendor do fogo é a compaixão da caridade, que aquece e ilumina, e dela sai o relâmpago de uma obra maravilhosa. Essa visão, que verdadeiramente faz ver, deve correr no meio dos seres vivos, isto é, dos cristãos. E bem se diz “correndo”, isto é, correndo por diversos lugares. À verdadeira compaixão não basta prover à necessidade do corpo, se não provê também à da alma, e vice-versa. Se alguém adoece no corpo, ela também adoece; se alguém sofre escândalo na alma, ela também se abrasa (cf. 2Cor 11,29). Sobre o terceiro, diz o Eclesiastes: “Doce é a luz, e agradável aos olhos”, isto é, da mente, “ver o sol” (Ecl 11,7), ou seja, considerar o esplendor da piedade divina. Todos os que tiverem cumprido este triduo poderão encontrar Jesus no templo.

O templo, assim chamado como que “amplo teto”, é a mente do homem justo, que é “teto”, porque cobre com a compaixão a necessidade do próximo, e “amplo” pelo conhecimento de si mesmo e de Deus. Em tal templo, depois de tal triduo, encontra-se Jesus. E que faz ele ali? Faz três coisas: senta-se no meio dos doutores, ouve e interroga. Na mente do homem justo estão os doutores, isto é, as faculdades da razão, que ensinam do que se deve fugir e o que se deve fazer; no meio delas senta-se Jesus, quando pacifica a mente; na mente pacificada, repousa; e, repousando, dispõe suavemente todas as coisas (cf. Sb 8,1). É isso que diz Jó: “Quando eu me sentava como um rei, tendo um exército ao redor, era, contudo, o consolador dos aflitos” (Jó 29,25). Eis a consolação: ouvir e interrogar. Quando a mente está no silêncio da quietude, então Jesus ouve o afeto do coração que fala ao seu ouvido e, depois, interroga com o flagelo da correção piedosa. É isso que diz Jó: “Tu o visitas de madrugada” — eis a audição — “e de repente o provas” — eis a interrogação. Esta é a consolação dos aflitos, isto é, dos justos, que gemem pela falta da nascente do alto (cf. Js 15,18-19), no vale das lágrimas, para que o bem-aventurado Jesus os ouça e interrogue, visite e prove. “Que isto”, diz Jó, “seja a minha consolação: que, afligindo-me com a dor, não me poupe” (Jó 6,10).

9. Pode ser exposto de outro modo. O triduo é a penitência, que consiste em três atos: contrição, confissão e satisfação. Sobre esse triduo diz Moisés no Êxodo: “Faremos uma jornada de três dias pelo deserto e ofereceremos um sacrifício ao Senhor, nosso Deus” (cf. Ex 3,18). Depois desse triduo, José e Maria, isto é, os penitentes, pobres de espírito e humildes, encontrarão Jesus no templo da Jerusalém celeste. É isso também o que se diz no Gênesis: depois de três dias, o copeiro foi restituído à sua posição anterior (cf. Gn 40,20-21).

“Sentado”, diz ele, “no meio dos doutores”. É isso que diz João no Apocalipse: “Vi, e eis que havia um trono posto no céu; e sobre o trono estava alguém sentado; ao redor do trono havia vinte e quatro assentos, e sobre os tronos estavam sentados vinte e quatro anciãos” (Ap 4,1-2.4), nos quais podem ser designados os doze patriarcas e os doze apóstolos, “sentados, envolvidos em vestes brancas e com coroas de ouro sobre a cabeça” (Ap 4,4). Quase isto mesmo se canta no introito da missa de hoje: “No trono excelso vi sentado um homem, a quem a multidão dos anjos adora, cantando em uníssono, e cujo império é eterno”. Por isso, acrescenta-se ali: “E os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante daquele que estava sentado no trono e adoravam aquele que vive pelos séculos dos séculos” (Ap 4,10). Amém. E também cantavam um cântico novo, dizendo: “Digno és, Senhor” (Ap 4,11) etc.

Segue-se: “Ouvindo-os e interrogando-os”. O Senhor “ouve” os espíritos bem-aventurados quando, por meio do ministério deles, recebe benignamente a oferenda da nossa devoção. Por isso, diz-se no Apocalipse: “Subiu da mão do anjo a fumaça dos perfumes, com as orações dos santos” (Ap 8,4); e Rafael diz a Tobias: “Eu apresentei a tua oração ao Senhor” (Tb 12,12). “Todos”, diz o Apóstolo, “são espíritos servidores, enviados para o ministério em favor daqueles que hão de receber a herança da salvação” (Hb 1,14). “Interroga-os” quando lhes revela o segredo da sua vontade.

10. À segunda cláusula corresponde a segunda parte da epístola: “Não vos conformeis com este século” (Rm 12,2). Diz Deus por Isaías: “Eis que criei o ferreiro que sopra o fogo das brasas e produz um vaso para sua obra” (Is 54,16). O ferreiro é o diabo, que Deus criou segundo a substância. Este, com o sopro da má sugestão, sopra sobre as brasas no fogo, isto é, sobre as brasas ardentes, ou seja, sobre os incentivos dos vícios. Este século é como a fornalha da Babilônia, da qual se diz em Daniel: “A fornalha estava acesa excessivamente” (Dn 3,22) etc. Procure acima, na história de Daniel, no segundo domingo de novembro (“Dom. XXII depois de Pentecostes, II”). Quando esta fornalha é acesa pelo sopro do diabo, fundem-se o ferro, isto é, os soberbos; o chumbo, isto é, os avarentos; e o estanho, isto é, os luxuriosos; e então o diabo forma e apresenta “um vaso para sua obra”, isto é, para fazer a sua vontade. Um assume, pois, a forma da soberba; outro, a forma da avareza; e outro, a forma da luxúria. Estes são os vasos da ira e da ignomínia, que serão lançados no esterco da condenação eterna. Vós, portanto, que, com Maria e José, procurais e desejais encontrar Jesus, “não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Rm 12,2). É isto que diz Isaías: “Haverá cinco cidades na terra do Egito” (Is 19,18) etc. Procure acima, na interpretação moral do sermão: “Quando um homem forte está armado” (“Dom. III da Quaresma, III”).

“Para discernirdes qual seja a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita” (Rm 12,2). Eis o tríduo, depois do qual Jesus é encontrado no templo. A vontade de Deus é boa na contrição do coração, agradável na confissão e perfeita na satisfação. Sobre a primeira, diz o Salmo: “Trata benignamente Sião, segundo a tua boa vontade” (Sl 50,20) etc.; e no livro da Sabedoria: “Ó Senhor, quão bom é o teu espírito em todas as coisas!” (Sb 12,1). Sobre a segunda, em Daniel: “Assim seja o nosso sacrifício”, isto é, a confissão, “diante de ti, para que te seja agradável” (Dn 3,40). Por isso, no Gênesis: “O Senhor olhou para Abel e para as suas oferendas” (Gn 4,4). Sobre a terceira, no Salmo: “Firma os meus passos nas tuas veredas” (Sl 16,5), nas quais se designam a austeridade da vida e a aspereza da satisfação.

Peçamos, portanto, ao Senhor Jesus Cristo que nos conceda cumprir assim este tríduo, para que mereçamos encontrá-lo no templo celeste, sentado no meio dos anjos; ele, que é bendito pelos séculos eternos. Amém.

III. O retorno de Jesus a Nazaré junto com seus pais

11. Segue-se a terceira: “E desceu com eles, e foi para Nazaré; e era-lhes submisso” (Lc 2,51). Observa estas três palavras: desceu, Nazaré e submisso. Desça e sente-se no pó a filha da Babilônia (cf. Is 47,1), porque o Filho de Deus desceu. Ó soberba obstinada, que te esforças por subir acima das nuvens, por elevar o teu trono acima das estrelas do céu e por sentar-te no monte da assembleia (cf. Is 14,13-14), desce, eu te suplico, porque Jesus desceu. E tu, Cafarnaum, exaltada até o céu, antes que sejas precipitada no inferno (cf. Mt 11,23), desce com Jesus, que é o paraíso: “As tuas emanações”, diz ele, “são um paraíso” (Ct 4,13). Ó meretriz, “que estás sentada sobre uma besta escarlate, cheia de nomes de blasfêmia” (Ap 17,3), desce com Jesus.

Envergonhe-se, envergonhe-se já a soberba insensata; caia por terra a arrogância inflada, porque a Sabedoria de Deus desceu. O miserável ser humano, rastejando com mãos e pés, esforça-se por subir ao pedestal da honra, ou melhor, da própria desonra, enquanto o bem-aventurado Jesus, por causa da repreensão de sua piedosa Mãe, que dizia: “Filho, por que nos fizeste isto?” (Lc 2,48), adiou até os trinta anos a obra que começara aos doze, e desceu do templo, onde estava sentado no meio dos doutores.

12. Segue-se: “E foi para Nazaré”. É isto que diz a esposa no Cântico dos Cânticos: “O meu amado desceu ao seu jardim, ao canteiro dos aromas” (Ct 6,1), isto é, abraçou a humildade, que é a geradora das demais virtudes. Havíamos proposto passar brevemente por este trecho, mas a amenidade de Nazaré não nos permite prosseguir. A beleza do lugar, a graça da flor e a suavidade do perfume nos detêm e nos retardam, enquanto nos apressamos para celebrar as núpcias em Caná da Galileia.

Nazaré, lugar humilde, interpreta-se “flor” e significa a humildade, que é bem chamada flor, na qual se observam três coisas: a beleza da cor, a suavidade do perfume e a esperança do fruto. Assim, na verdadeira humildade há a beleza da honestidade. Por isso, no Eclesiástico: “As minhas flores dão frutos de honra e honestidade” (Eclo 24,23).

Há a suavidade da boa reputação. Assim como a flor, ao exalar perfume, não se corrompe, assim o verdadeiramente humilde não se exalta quando é louvado pelo perfume de sua boa vida. O verdadeiramente humilde, diz Bernardo, deseja ser tido por vil, e não ser proclamado humilde. Por isso, Salomão diz no Eclesiastes: “Florescerá a amendoeira, engordará o gafanhoto e será dispersa a alcaparra” (Ecl 12,5). A amendoeira, que emite flores antes das outras árvores, é o humilde, que diz com Davi no Segundo Livro dos Reis: “Brincarei” diante do Senhor “e me humilharei ainda mais do que me humilhei; e serei humilde aos meus olhos” (2Rs 6,22). Sobre esta brincadeira diz a Sabedoria do Pai nos Provérbios: “Eu me deleitava todos os dias, brincando diante dele em todo o tempo, brincando no orbe terrestre, e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens” (Pr 8,30-31). O Filho, o bem-aventurado Jesus, brincava diante do Pai quando era entregue pelo discípulo; quando, atado à coluna, era flagelado; quando era escarnecido por Herodes; quando era coroado de espinhos; quando era golpeado com bofetadas e socos; quando era coberto de escarros; quando o seu rosto era velado; quando a sua cabeça era golpeada com uma cana; quando lhe arrancavam a barba. Também brincava quando, “levando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Gólgota” (Jo 19,17), onde foi crucificado pelos soldados, ridicularizado pelos príncipes, dessedentado com fel e vinagre, e o seu lado foi perfurado pela lança. Eis de que modo a Sabedoria de Deus brincou e se fez desprezível no orbe terrestre. Eis quais delícias teve com os filhos dos homens. A esta brincadeira se conforma, quanto pode, o verdadeiro humilde, que, quanto mais se torna vil aos próprios olhos, tanto mais é elevado diante de Deus.

“Florescerá”, portanto, a amendoeira “e engordará o gafanhoto”. Quando florescem a humildade na mente e a honestidade nas obras, então “engordará o gafanhoto”, isto é, a própria alma do humilde, dando o salto da contemplação. Não engordará, como o hipócrita, com o perfume do próprio louvor, mas com a flor da verdadeira humildade. Alimentar-se-á da própria flor, e não da boca alheia; e então será dispersa a alcaparra, isto é, a soberba e a vanglória.

Há ainda a esperança de receber o fruto da abundância da casa do Senhor. Quando vejo a flor, espero o fruto; assim, quando vejo um verdadeiro humilde, espero que ele seja bem-aventurado nos céus. Mas, ai!, como diz Isaías, “todo hipócrita é perverso” (Is 9,17), e Miqueias: “O melhor entre eles é como um espinheiro; e o mais reto, como um espinho da sebe” (Mq 7,4). Verdadeiramente, hoje todos são hipócritas, espinheiros e espinhos. Hipócrita, porque finge ser o que não é; espinheiro, suave nas palavras, mas pungente nas obras; espinho, que fere os que passam, para lhes sugar o sangue do louvor e do dinheiro. No jardim de Nazaré não há espinheiro nem espinho, mas lírio e violeta; e por isso Jesus “foi para Nazaré”.

13. Segue-se: “E era-lhes submisso.” Dissolva-se toda soberba, desapareça toda arrogância, humilhe-se toda insubordinação, ao ouvir: “E era-lhes submisso.” Quem era submisso? Aquele que, com uma só palavra, criou todas as coisas do nada. Aquele que, como diz Isaías, “mediu as águas com o côncavo da mão, pesou os céus com o palmo, sustentou com três dedos a massa da terra e pesou os montes na balança e as colinas na báscula” (Is 40,12). Aquele que, como diz Jó, “move a terra de seu lugar, e as colunas do céu são abaladas. Dá ordem ao sol, e ele não nasce, e encerra as estrelas como sob um selo. Estende sozinho os céus e caminha sobre as ondas do mar. Faz a Ursa, Órion e as Híades e os recônditos do Austro. Faz coisas grandes e incompreensíveis, e maravilhas cujo número não há” (Jó 9,6-10). Aquele que faz dormir a harmonia do céu (cf. Jó 38,37). Aquele que, como com um anzol, apanhará e tirará o Leviatã, amarrará com uma corda a sua língua, furará com um caniço as suas narinas e com um gancho a sua mandíbula (cf. Jó 40,19-21). Este, tão grande e poderoso, “era-lhes submisso”.

A quem era submisso? A um carpinteiro e a uma Virgem pobrezinha. Ó Primeiro, ó Último, ó soberano dos anjos e submisso aos homens! O Criador dos céus submisso a um carpinteiro, o Deus da glória eterna submisso a uma Virgem pobrezinha. Quem jamais ouviu algo semelhante? E quem jamais viu coisa parecida? Portanto, não desdenhe o filósofo obedecer e submeter-se a um pescador, o sábio a um simples, o letrado ao analfabeto, o filho de um príncipe a um plebeu.

14. A esta terceira parte do Evangelho concorda a terceira parte da epístola: “Digo, pois, pela graça que me foi dada, a todos os que estão entre vós”, filósofos, sábios, letrados, nobres e semelhantes, “que não saibam mais do que convém saber” — donde se lê em outro lugar: “Não aspireis às coisas elevadas, mas temei” (Rm 11,20) — “do que convém saber” (Rm 12,3). Muito te falta para a sabedoria, se não és sábio para contigo mesmo. Não és sábio, se sabes mais do que convém. Saber o que convém é isto: descer, ir a Nazaré, submeter-se e obedecer perfeitamente. Isto deve ser todo o teu saber, e este “saber” é para ti “com sobriedade” (Rm 12,3). Saber mais é para a embriaguez, na qual toda sabedoria se torna insensata. Saber e discernir mais do que convém fazem errar o animal separado, o noviço precipitado e o principiante sábio, assim como erra o embriagado que vomita. Diz Bernardo: a obediência perfeita, sobretudo no principiante, é a obediência indiscriminada, isto é, não discernir o que ou por que se ordena, mas empenhar-se somente em cumprir fiel e humildemente aquilo que o superior ordena.

Todo o seu discernimento consista nisto: que nesta matéria não haja nele discernimento algum. Toda a sua sabedoria consista nisto: que nesta parte não lhe reste sabedoria alguma. E isto é “saber com sobriedade”. A pura simplicidade, que é a água de Siloé, que corre em silêncio (cf. Is 8,6), torna sóbria a alma; se o vinho da sabedoria dos sábios deste mundo for diluído, o seu saber será saber com sobriedade. Se há sábios na religião, Deus os atraiu por meio dos simples. Com efeito, escolheu as coisas loucas e humildes, fracas e desprezíveis, para por meio delas reunir os sábios, os fortes e os nobres, a fim de que nenhuma carne se glorie em si mesma (cf. 1Cor 1,27-29), mas naquele que desceu, foi a Nazaré e lhes era submisso.

A ele sejam a honra e a glória pelos séculos eternos.

Diga toda alma simples e submissa: Amém. Aleluia!

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.