Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 28

Domingo I depois de Pentecostes Dominica I post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 6 seções · 19 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do primeiro domingo depois de Pentecostes: “Havia um homem rico”, que se divide em quatro partes.

Primeiro, sermão ao prelado ou pregador da Igreja, que, com a funda e a pedra, isto é, com a obra e a palavra, deve vencer o diabo; daí: “Tomou o bastão”.

[Da primeira parte]. Também sermão contra os ricos deste mundo, daí: “Havia certo homem no deserto de Maon”.

Também sermão contra o deleite dos cinco sentidos, daí: “Ai de vós, que vos levantais de manhã para a embriaguez”.

Também sermão contra os gulosos, daí: “Vinha o servo do sacerdote”.

Também sermão sobre a caridade, daí: “Deus é caridade”.

Também sermão moral sobre o rico, isto é, o corpo, e Lázaro, isto é, a alma pecadora, daí: “Havia um homem”.

Também sermão sobre a piscina, seus cinco pórticos e seus significados, daí: “Havia em Jerusalém uma piscina probática”.

Também sermão aos pregadores, daí: “Mas vinham os cães”.

[Da segunda parte]. Sermão sobre o rico e o pobre, daí: “Havia duas mulheres, a saber, Fenena e Ana”.

Sermão sobre a condenação do rico e a glória do pobre, daí: “Dagon jazia por terra”, e daí: “Morrerei em meu pequeno ninho”.

Sermão sobre a sepultura do ímpio, daí: “Assim diz o Senhor a Joaquim”, e daí: “Quando o homem morrer”.

[Da terceira parte]. Sermão contra os detratores, daí: “Não estejas nos banquetes do povo”, e sobre a tríplice espada da detração.

Note-se também que, para aquele que está em pecado mortal, as boas obras que faz, boas por seu gênero, aproveitam de cinco modos.

Também sermão contra aqueles que vivem nas riquezas e nos deleites, dos quais serão em breve privados, daí: “Davi tomou a lança e a bilha de água”.

[Da quarta parte]. Sermão sobre a casa do Pai e os cinco irmãos do rico, e sobre o significado deles, daí: “Peço-te, pai”.

Também sermão sobre a servidão dos cinco sentidos, daí: “Abigail apressou-se e levantou-se”.

Exórdio. Sermão ao prelado ou pregador da Igreja

1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e banqueteava esplendidamente todos os dias” (Lc 16,19) etc.

Diz-se no primeiro livro dos Reis que Davi “tomou o seu bastão, que sempre tinha nas mãos, escolheu para si cinco pedras muito lisas do regato, colocou-as na bolsa de pastor que levava consigo, tomou a funda na mão e avançou contra o filisteu” (1Rs 17,40). Observa estas quatro coisas: o bastão, as cinco pedras, a bolsa e a funda. No bastão está figurada a cruz de Cristo; nas cinco pedras, o conhecimento do Antigo Testamento; na bolsa, a graça do Novo; na funda, a justa balança do juízo. Portanto, Davi, isto é, o pregador, deve tomar o bastão, isto é, a cruz de Cristo, para que, apoiado nela, possa suportar mais facilmente o trabalho do caminho.

Sobre este bastão diz-se no Gênesis: “Com o meu bastão atravessei este Jordão, e agora retorno com duas turmas” (Gn 32,10). O homem justo atravessa, com o bastão da cruz de Jesus Cristo, o amor transitório deste mundo e assim retorna à terra prometida com duas turmas, isto é, com as recompensas da vida ativa e da contemplativa. O pregador deve ter sempre este bastão nas mãos, isto é, nas obras. Por isso diz Habacuc: “O seu esplendor será como a luz, e os chifres estarão em suas mãos” (Hab 3,4). O esplendor da vida santa e da pregação é a luz do pecador: “Vós sois”, diz ele, “a luz do mundo” (Mt 5,14). Nas próprias mãos do pregador devem estar os braços da cruz, para que, com as mãos pregadas neles, não as estenda a coisa alguma ilícita.

“E escolheu cinco pedras muito lisas do regato e colocou-as na bolsa de pastor que levava consigo.” A bolsa é um recipiente no qual se guarda o leite e significa o Novo Testamento, no qual se encontra a graça, comparável ao leite. Com efeito, nada é mais agradável que o leite, pois a mãe o oferece gratuitamente ao filho, nada exigindo dele. As cinco pedras são os cinco livros de Moisés, pelos quais entendemos o conhecimento de todo o Antigo Testamento; o pregador deve tomá-los do regato, isto é, da abundância da Sagrada Escritura, para auxílio de sua pregação, e colocá-los na bolsa do Evangelho. Pois no Novo Testamento está depositada a compreensão do Antigo, “porque uma roda está no meio de outra roda” (Ez 1,16).

Ou, pelas cinco pedras são designadas as severas repreensões com que devem ser golpeados com extrema dureza aqueles que se entregam aos sentidos da carne. Com efeito, os transgressores do Antigo Testamento, apedrejados até a morte, prefiguravam os pecadores do Novo Testamento, que devem ser golpeados com duras repreensões.

“E tomou a funda”, diz ele, “na mão e avançou contra o filisteu.” Na funda, que tem as cordas de igual comprimento, está designada a igualdade entre a doutrina e a vida. O pregador deve tomar na mão esta funda, para que a mão corresponda à boca, e a conduta corresponda à pregação; e assim poderá avançar contra o filisteu e matá-lo. Filisteu interpreta-se como ‘aquele que cai por causa da bebida’ e significa o rico deste mundo vestido de púrpura (cf. Lc 16,19), embriagado pela bebida da gula e da luxúria, que cai da graça na culpa e, depois, da culpa precipitar-se-á na geena; dele se diz no Evangelho de hoje: “Havia um homem rico” etc.

2. Note-se que neste Evangelho se observam quatro coisas. Primeiro, a desigual condição de vida do rico vestido de púrpura e do mendigo Lázaro, quando se diz: “Havia um homem”. Segundo, a morte de ambos, quando se acrescenta: “Aconteceu, porém, que morreu o mendigo” etc. Terceiro, a pena do rico e a glória de Lázaro, daí: “Levantando os olhos” etc. Quarto, a súplica do rico por seus cinco irmãos, daí: “Peço-te, portanto, pai” etc. Estas quatro partes, concordá-las-emos, conforme o Senhor conceder, com algumas histórias do primeiro livro dos Reis.

Note-se também que, no intróito deste domingo, canta-se: “Senhor, esperei em tua misericórdia” (Sl 12,6); e lê-se a epístola do bem-aventurado João: “Deus é caridade” (1Jo 4,8), que queremos dividir em quatro partes e concordá-las com as quatro partes do Evangelho acima mencionadas. Primeira parte: “Deus é caridade”. Segunda: “Nisto se aperfeiçoou a caridade”. Terceira: “Não há temor na caridade”. Quarta: “Nós, portanto, amemos a Deus”.

I. A desigual condição do rico vestido de púrpura e do mendigo Lázaro

3. Digamos, portanto: “Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e banqueteava esplendidamente todos os dias” (Lc 16,19) etc. Este rico, como que desconhecido diante de Deus, não é designado pelo nome. Foi certamente justo que seu nome não fosse escrito neste santo Evangelho, pois jamais deveria ser escrito no livro da vida eterna. Para sua reprovação, antepõem-se as palavras: “Havia certo homem”. Com efeito, costumamos dizer “certo homem” daquele que reprovamos ou que não conhecemos. Este “certo homem” representa todo homem mundano, carnal e vendido sob o pecado (cf. Rm 7,14), acerca do qual se diz no Salmo: “Eis o homem que não fez de Deus o seu auxílio, mas esperou na multidão de suas riquezas e prevaleceu em sua vaidade” (Sl 51,9). Observa estas três coisas: não fez, esperou e prevaleceu. A estas correspondem aquelas três palavras do Evangelho: “Havia um homem rico” e, por isso, “não fez de Deus o seu auxílio”. “E vestia-se de púrpura e linho fino”, porque “esperou na multidão de suas riquezas”. “E banqueteava esplendidamente todos os dias” e assim “prevaleceu em sua vaidade”.

Sobre isto tens uma concordância no primeiro livro dos Reis: “Eis certo homem no deserto de Maon, e sua propriedade em Carmelo; e aquele homem era muito rico. E eis que havia em sua casa um banquete semelhante ao banquete de um rei, e seu coração estava alegre, pois estava muito embriagado. O nome daquele homem era Nabal” (1Rs 25,2.36). Nabal interpreta-se ‘estulto’; Maon, ‘habitação’; Carmelo, ‘brando’. As três palavras desta passagem correspondem às três palavras do santo Evangelho. No Evangelho diz-se: “Havia um homem rico”; no primeiro livro dos Reis: “Havia certo homem”. Ali se diz: “E vestia-se de púrpura e linho fino”; aqui: “E aquele homem era muito rico”. Ali: “E banqueteava esplendidamente todos os dias”; aqui: “E eis que havia para ele um banquete” etc.

4. O rico deste mundo é insensato, porque não aprecia as coisas que são de Deus (cf. Mt 16,23; Mc 8,33); ele está “no deserto de Maon”, isto é, naquela habitação da qual se diz: “Torne-se deserta a sua habitação” (Sl 68,26); “e sua posse está em Carmelo”, isto é, na moleza. Por isso, diz o profeta Amós: “Ai de vós que dormis em leitos de marfim e vos entregais à moleza em vossos divãs” (Am 6,4). “E aquele homem era muito rico.” Por isso, diz Davi: “Vi o ímpio exaltado e elevado como os cedros do Líbano” (Sl 36,35). E Jó: “Vi o insensato com raiz firme e imediatamente amaldiçoei sua aparência” (Jó 5,3). “E eis que havia em sua casa um banquete, como um banquete de rei” etc. Por isso, diz Amós: “Ai de vós que sois ricos em Sião, que comeis cordeiros do rebanho e novilhos do meio do gado, bebeis vinho em grandes taças e vos ungis com os melhores perfumes” (Am 6,1.4.6). E Isaías: “Ai de vós que vos levantais de manhã para procurar a embriaguez e beber até a tarde, para vos inflamardes de vinho! A cítara, a lira, o tímpano, a flauta e o vinho estão em vossos banquetes; mas não olhais para a obra do Senhor, nem considerais as obras de suas mãos” (Is 5,11-12).

Nesses quatro instrumentos musicais e no vinho é figurado o prazer dos cinco sentidos. A “cítara”, na qual são estendidas cordas feitas com os tendões de um animal morto, é a visão, que se estende, por assim dizer, para a coisa que contempla avidamente. A “lira”, assim chamada pela variedade dos sons, porque produz sons diversos, é a audição, que se deleita com a variedade das vozes. O “tímpano”, que ressoa quando percutido pelas mãos, é o tato. A “flauta” é o olfato das narinas, pelas quais emitimos o sopro, como por uma flauta. O “vinho” refere-se ao paladar. Entregues a esses cinco sentidos, não olham para a obra do Senhor, aquilo que ele realizou no meio da terra (cf. Sl 73,12), isto é, sua paixão e morte; nem querem olhar para as obras de suas mãos, isto é, seus pobres, que ele mesmo, como o oleiro molda o barro, formou com suas mãos na roda da pregação e cozeu na fornalha da pobreza.

5. “Havia um certo homem rico, que se vestia de púrpura e de bisso, e todos os dias banqueteava esplendidamente.” Observa que na púrpura é designada a dignidade mundana; no bisso, a preciosidade das vestes; e no banquete, o prazer da gula. A púrpura é a cor do traje régio; é extraída das conchas marinhas, abertas com ferro. As conchas, assim chamadas porque, quando falta a lua, se escavam, isto é, se esvaziam, significam os pobres, que, quando falta a lua, isto é, quando desaparece a prosperidade do mundo, são esvaziados de seus bens. A esses, o “certo homem” rico, isto é, o poder secular, corta com o ferro de seu poder, extrai deles o sangue do dinheiro e dele faz para si a púrpura da dignidade. Por isso, Jó diz de tais homens: “Ceifam o campo alheio e vindimam a vinha daquele a quem oprimiram pela força. Deixam os homens nus, tirando as vestes daqueles que não têm com que se cobrir no frio” (Jó 24,6-7). De semelhante púrpura estava revestida aquela meretriz de que se fala no Apocalipse (cf. Ap 17,4). O certo homem e a meretriz significam a mesma coisa: homem, porque tem sabor de húmus; meretriz, porque se entrega ao diabo.

O bisso é uma espécie de linho branco e muito macio, no qual é figurada a suavidade das vestes. E “os que se vestem com roupas macias estão nas casas dos reis” (Mt 11,8), isto é, dos demônios. “Não te glories de tuas vestes”, diz o Eclesiástico (Eclo 11,4); e Pedro: “Não seja o vosso adorno exterior: cabelos trançados, ornamento de ouro ou luxo das vestes; mas seja o homem oculto do coração, com a incorruptibilidade de um espírito manso e sereno, que é rico aos olhos de Deus” (1Pd 3,3-4).

“E todos os dias banqueteava esplendidamente.” A isso corresponde também o que se lê no Primeiro Livro dos Reis: “Enquanto se cozia a carne, vinha o servo do sacerdote, com um garfo de três dentes na mão, e o introduzia na caldeira ou na panela; e tudo o que o garfo tirava, o sacerdote o tomava para si. Vinha também o servo do sacerdote e dizia àquele que oferecia o sacrifício: Dá-me carne para eu a cozer para o sacerdote; pois não aceitarei de ti carne cozida, mas crua” (1Rs 2,13-14.15). O sacerdote é o ventre. O servo desse sacerdote é o apetite da gula, do qual diz Salomão nos Provérbios: “O jovem deixado à sua própria vontade envergonhará sua mãe” (Pr 29,15). Com efeito, se o apetite da gula não é refreado, mas é deixado à própria vontade, envergonha sua mãe, isto é, a carne, que às vezes, por causa do excesso de comida, contrai uma enfermidade e, outras vezes, é conduzida ao laço. Esse servo tem na mão um garfo de três dentes, no qual se assinala a tríplice rapina da gula: ou devora e come os bens alheios, ou consome os próprios vivendo dissolutamente, ou não observa o tempo e a medida nos alimentos permitidos. Com esses três dentes, tudo o que o garfo levanta, o sacerdote-ventre reivindica para si; e deseja que lhe seja dada, como ao lobo, não carne cozida, mas crua, para prepará-la com maior cuidado. Diz-se, portanto, com razão: “E todos os dias banqueteava esplendidamente”.

6. “E havia certo mendigo, de nome Lázaro” etc. Opõe cada coisa à sua correspondente; opõe o ouro ao chumbo, para que a vileza do chumbo se mostre ainda mais vil diante do esplendor do ouro. Aquele é chamado “certo homem”; este, “de nome Lázaro”. Aquele, “rico”; este, “mendigo”. Aquele “vestia-se de púrpura e linho fino”; este, “cheio de chagas”. Aquele “banqueteava-se esplendidamente todos os dias”; este “desejava saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava; mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas” (Lc 16,20-21). Nem ele próprio podia afastá-los de si, nem havia quem os afastasse. Ó divina condescendência! Ó bem-aventurança do mendigo! Ó miserável condenação do rico! “Nada”, diz Jerônimo, “é mais infeliz que a felicidade dos pecadores.” Agostinho: “Não há sinal mais evidente de condenação do que quando as coisas temporais sucedem conforme a nossa vontade.” Aos santos, porém, Deus subtrai as coisas temporais, para que não percam as eternas. Daí dizer Gregório: “Tiramos o dinheiro das crianças, embora lhes conservemos toda a herança.”

“E havia certo mendigo, de nome Lázaro.” O pobre humilde é conhecido pelo nome, em sinal de estima. Este Lázaro, que se interpreta como “ajudado”, representa todos os pobres de Jesus Cristo, aos quais ele mesmo ajuda e socorre em suas necessidades. Por isso, as duas palavras “mendigo” e “Lázaro” são convenientemente unidas. É chamado mendigo porque tem menos do que necessita para viver; ou porque “diz com a mão” (manu dico), pois entre os antigos era costume fechar a boca dos necessitados e fazê-los estender a mão, como se dissessem com a mão. Aquele pobre foi ajudado pelo Senhor porque fechou a boca às palavras de impaciência e estendeu a mão de uma mente devota.

“Jazia”, diz ele, “à porta do rico.” Eis que a arca do Senhor jaz diante de Dagon (cf. 1Rs 5,2). Mas presta atenção por um instante e ouvirás, ao contrário, a expulsão de Dagon e a elevação da arca (cf. 1Rs 5,3-5). O pobre não entrou pela porta do rico, nem o rico lhe ofereceu, do lado de fora, o benefício de uma refeição. Não era assim Jó, que diz: “O peregrino não ficou do lado de fora, e minha porta esteve aberta ao viajante” (Jó 31,32). E ainda: “Se neguei aos pobres o que pediam, e fiz esperar os olhos da viúva. Se comi sozinho o meu pedaço de pão, sem que dele comesse o órfão” (Jó 31,16-17).

“Cheio de chagas.” A chaga, que nasce na pele, é a própria gangrena. Cheio de chagas estava aquele que, pouco depois, seria levado pelas mãos dos anjos ao seio de Abraão.

“Desejando saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava.” Migalha é assim chamada porque é a menor parte que cai do pão. O verdadeiro pobre contenta-se com o mínimo, deseja o mínimo; esse mínimo, unido ao grande de Deus, sacia-o e restaura-o. Mas aquele que não quis dar sequer uma migalha de pão não mereceu receber nem uma gota de água.

“Mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.” Diz a Glosa: Se vemos nos pobres algo repreensível, não devemos desprezá-los, porque talvez aqueles que a fraqueza dos costumes feriu sejam curados pelo remédio da pobreza. Num só fato se realizam dois juízos de Deus: ao rico que não se compadece ao ver o pobre é imposto o cúmulo da condenação. E, por sua vez, o pobre é diariamente tentado e provado ao ver o rico; para sua maior provação, afligem-no ao mesmo tempo a pobreza, a doença, a visão da abundância do rico e a ausência de qualquer consolo que lhe seja oferecido.

Por isso, este, privado de todo auxílio humano e confiando somente na misericórdia de Deus, diz no introito da missa de hoje: “Senhor, esperei em tua misericórdia. Meu coração exultou em tua salvação; cantarei ao Senhor, que me cumulou de bens” (Sl 12,6). Nota que disse três coisas: “esperei”, “meu coração exultou” e “cantarei ao Senhor”. O verdadeiro pobre espera na misericórdia de Deus, seu coração exulta em meio à miséria do mundo e assim cantará ao Senhor na glória eterna.

7. À primeira parte do Evangelho concorda a primeira parte da epístola de hoje: “Deus é amor” (1Jo 4,8). Sendo a caridade a principal das virtudes, façamos sobre ela algumas considerações num breve sermão especial.

É certamente o mesmo amor com que se ama a Deus e ao próximo, e esse amor é o Espírito Santo, porque “Deus é amor” (1Jo 4,8). Esta regra do amor, como diz Agostinho, foi estabelecida por Deus, para que ames a Deus por si mesmo e de todo o coração, e ao próximo como a ti mesmo; isto é, em ordem ao próximo e por causa do próximo deves amar também a ti mesmo. Com efeito, deves amar a ti mesmo no bem e por causa de Deus. Portanto, o próximo deve ser amado no bem, não no mal, e por causa de Deus. Por próximo, porém, deve-se entender todo homem, porque não há ninguém com quem se deva agir mal. O modo de amar a Deus é indicado quando se diz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração”, isto é, com todo o entendimento; “com toda a tua alma”, isto é, com toda a vontade; “com toda a tua mente”, isto é, com toda a memória, de modo que dirijas a ele todos os pensamentos, toda a vida e todo o entendimento, daquele que te deu tudo quanto diriges a ele. Ao dizer isso, não deixa livre nenhuma parte de nossa vida; mas tudo o que vier à mente seja arrebatado para onde corre o ímpeto do amor.

O bem-aventurado João propôs muitas coisas sobre o amor de Deus e do próximo na epístola de hoje e nos convidou a ele: “Nisto se manifestou em nós o amor de Deus: Deus enviou ao mundo o seu Filho unigênito, para que vivamos por meio dele” (1Jo 4,9). Quão grande foi o amor do Pai para conosco, ele que enviou para nós o seu Filho unigênito, para que, vivendo por meio dele, o amássemos, pois sem ele viver é morrer, porque “quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Se Deus nos amou de tal modo que nos deu aquele que lhe era amado, por meio de quem fez todas as coisas, também nós devemos amar-nos uns aos outros. “Dou-vos”, diz ele, “um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros” (Jo 13,34). Como o rico vestido de púrpura não guardou esse mandamento, permaneceu na morte. Com efeito, foi sepultado vivo, porque não amou a vida, que é a caridade; pecou porque inverteu a ordem.

Diz Agostinho: “Há quatro coisas que se devem amar: a primeira, aquele que está acima de nós, isto é, Deus; a segunda, aquilo que somos, isto é, nós mesmos; a terceira, aquilo que está junto de nós, isto é, o próximo; a quarta, aquilo que está abaixo de nós, isto é, o corpo.” O rico amou primeiro e principalmente o seu corpo; não cuidou de Deus, de sua alma nem do próximo e, por isso, foi condenado.

Devemos, diz o bem-aventurado Bernardo, considerar nosso corpo como um enfermo confiado aos nossos cuidados: a ele devemos negar muitas coisas inúteis que deseja, e impor-lhe também coisas úteis que não quer. Devemos agir com ele como se não fosse nosso, mas daquele por quem fomos comprados a grande preço, para que o glorifiquemos em nosso corpo (cf. 1Cor 6,20). Cuidemos para que o Senhor não nos repreenda, por meio de Ezequiel, dizendo: “Esqueceste de mim e me lançaste para trás do teu corpo; tu também carrega a tua culpa e as tuas prostituições” (Ez 23,35). Portanto, devemos amar o corpo em quarto e último lugar, não como se vivêssemos por causa dele, mas como se não pudéssemos viver sem ele. Digne-se conduzir-nos desta miserável vida do corpo até si aquele que é a vida que vive eternamente. Ele é bendito pelos séculos eternos. Amém.

Trecho ainda sem tradução — texto em latim

8. moraliter. "Homo quidam erat dives" etc. Per hominem corpus, per Lazarum animam intelligimus. Homo, dictus ab humo, est corpus de humo creatum, de quo dicit Ieremias: "Maledictus homo qui confidit in homine" (Ier 17,5), idest in corpore suo. Maledictus qui in maledicto confidit. Corpus nostrum est maledictum. Unde in Genesi: "Maledicta terra," idest corpus, "in opere tuo" (Gen 3,17), idest propter opus tuum, idest propter peccatum inobedientiae. Et, qua maledictione maledictum? "Spinas", inquit, "et tribulos germinabit tibi" (Gen 3,18). In spinis fames, sitis et moriendi necessitas, in tribulis carnis tentatio, animam tribulans, designatur. Ecce maledicta terra quales fructus nobis germinat. De hoc maledicto dicit Moyses in Deuteronomio: "Maledictus omnis qui pendet in ligno" (Gal 3,13; cf. Deut 21,23). Lignum aridum est huius mundi gloria, in qua homo iste fune terreni amoris pendet suspensus, et ideo maledictus. Bene ergo dicitur: "Homo quidam erat dives."

Heu! quantis divitiis homo iste affluit et affluere appetit, cui totus mundus non sufficit. Unius hominis corpusculo tot possessiones tot divitiae non sufficiunt. Iste miser homo in egressu ab utero matris non purpura et bysso, sed secundina, viscosa et horribili, exivit indutus, et in fine suae vitae ingreditur terram nudus et vacuus. Et hoc clarius possumus videre per ipsius corporis augmentum, statum et declinationem.

Nota quod, cum completur homo erit pars superior sui corporis minor inferiori. Et dico partem superiorem, quae est a capite usque ad exitus superfluitatum; et deinde usque ad extrema pedum dico partem inferiorem. Cum ergo fuerit homo puer, erit pars superior sui corporis maior, et cum decrepescit, erit e converso. Et haec causa diversitatis motus eius, cum fuerit in augmento, statu, declinatione. Quoniam infans in principio sui motus extra ambulat super pedes et manus, deinde erigit suum corpus paulatim donec iuvenescat et vigorescat; et cum processerit in aetatem incurvabitur. Istud miserum corpus in principio suae vitae est minimum, in senectute incurvatum, in medio vero, scilicet in iuventute, divitiis dilatatur, vestibus decoratur, epulis, tamquam porcus glandibus, impinguatur. Bene ergo dicitur: "Homo quidam erat dives et induebatur purpura et bysso, et epulabatur quotidie splendide."

9. Segue-se: “E havia um mendigo chamado Lázaro.” O mendigo Lázaro é a alma miserável, pobre e mendicante, que jaz à porta do rico, coberta de chagas. A porta do rico são os cinco sentidos do corpo, entre os quais jaz a alma mendicante, coberta das chagas dos pecados. Por isso se diz em João: “Havia em Jerusalém uma piscina probática, que tinha cinco pórticos. Neles jazia uma grande multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos, à espera do movimento da água” (Jo 5,2-3). Chama-se piscina porque está cheia de peixes; ela é o corpo cheio de peixes, isto é, de pensamentos vãos e indiscretos. Essa piscina tem cinco pórticos, isto é, os cinco sentidos. Pórtico chama-se assim porque é aberto; com efeito, os cinco sentidos do corpo estão abertos aos vícios. Por isso diz Jeremias: “A morte entrou pelas nossas janelas” (Jr 9,21). E Naum: “As portas da tua terra serão abertas aos teus inimigos; o fogo devorará as tuas trancas” (Na 3,13). Quando o fogo da concupiscência carnal devora as trancas, isto é, os dons da graça e da natureza, pelos quais a alma, quando deles é dotada, é protegida e guardada, então as portas da nossa terra, isto é, os cinco sentidos do nosso corpo, abrem-se aos nossos inimigos, isto é, aos vícios e aos demônios. Nesses cinco pórticos jaz a alma enferma, cega, coxa e seca. Enferma, porque privada da força das virtudes; cega, porque privada da luz da razão; coxa de ambos os pés, isto é, privada do afeto da boa vontade e da realização da boa obra; seca, sem a umidade da compunção. Estas são as chagas das quais jaz coberta à porta do rico, “desejando saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico.”

A mesa deste mundo significa a prosperidade, cujos quatro pés são: as riquezas, as honras, os prazeres e a saúde do corpo. Dela diz o Apóstolo aos Coríntios: “Não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1Cor 10,21). A mesa do Senhor foi a pobreza, da qual ele participou com os seus apóstolos; a mesa dos demônios é a prosperidade dos seculares, da qual diz o Profeta: “Torne-se a mesa deles diante deles um laço, uma retribuição e um escândalo” (Sl 68,23). A prosperidade torna-se para os carnais “um laço” do pecado, “uma retribuição” de Deus, que lhes retribuirá os males do inferno em troca dos bens do mundo, “e um escândalo para o próximo.”

As migalhas que caem dessa mesa são os pensamentos imundos, as várias preocupações, as diversas ocupações, que brotam como vermes da chaga da alma. Delas a alma infeliz deseja saciar-se, mas não pode. Por isso diz Jeremias nas Lamentações: “Deram todas as coisas preciosas em troca de alimento, para restaurar a alma” (Lm 1,11). “Todas as coisas preciosas” são as virtudes, que os carnais vendem em troca de alimento, isto é, dos prazeres da carne, que não saciam, mas que às vezes parecem restaurar a alma.

10. Para este mendigo Lázaro, coberto de chagas, resta um único consolo: a língua dos cães. Por isso acrescenta-se: “Mas também os cães vinham e lambiam as suas chagas.” Os cães, assim chamados pelo som do latido, significam os pregadores, dos quais se diz no Salmo: “A língua dos teus cães receba dele a sua parte entre os teus inimigos” (Sl 67,24), isto é, do Senhor: aqueles que eram teus inimigos tornaram-se teus amigos, como aconteceu quando de Saulo se fez Paulo. E observa que, assim como a língua do cão é medicinal, assim também é a língua do pregador, que é o médico das almas. Por isso diz Jeremias: “Porventura não há bálsamo em Galaad? Ou não há médico para ti? Por que, então, não foi curada a ferida da filha do meu povo?” (Jr 8,22). Galaad, que se interpreta como “monte de testemunho”, é a santa Igreja, na qual se acumularam os testemunhos das Escrituras, na qual há o “bálsamo” da penitência e o “médico”, isto é, o pregador, que o prepara. Por que, então, não foi curada a chaga da alma pecadora e não foi cicatrizada a ferida?

“Vinham”, portanto, “os cães e lambiam as suas chagas.” E observa que neste verbo “lambiam” se indicam duas coisas: a avidez e a delicadeza; por isso se diz “lamber”, isto é, “agir suavemente”. Com efeito, o pregador deve, com avidez, curar com a língua da pregação as chagas dos pecadores e lambê-las com delicadeza, para que haja mel e leite sob a sua língua (cf. Ct 4,11), isto é, uma doutrina doce e suave. Por isso diz o Apóstolo: “Se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, instruí-o em espírito de mansidão” (Gl 6,1).

Roguemos, portanto, ao Senhor Jesus Cristo que faça deste homem rico, isto é, do nosso pobre corpo, um pobre voluntário, que o vista de cinza e de cilício, que lhe dê “pão duro e pouca água” (Is 30,20), que cure as chagas da alma com a língua da sua doutrina e o coloque no seio de Abraão. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A morte do rico e de Lázaro

11. Segue-se o segundo: “Aconteceu, porém, que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado no inferno” (Lc 16,22). Cumpriu-se, porém, o que Ana dissera no primeiro livro dos Reis: “O arco dos fortes foi vencido e os fracos foram cingidos de força”, e assim por diante, até “ocupe um trono de glória” (1Rs 2,4-8). Sobre esta passagem do Evangelho, tens uma concordância no princípio do primeiro livro dos Reis, onde havia duas mulheres, a saber, Fenena e Ana. “Fenena tinha filhos; Ana, porém, não tinha filhos. Sua rival, isto é, Fenena, afligia-a e a repreendia severamente, a tal ponto que lhe lançava em rosto o fato de o Senhor ter fechado o seu ventre, e assim a provocava. Ana, por sua vez, chorava e não tomava alimento” (1Rs 1,2.6.7). Fenena, que se interpreta como “conversão”, representa o rico vestido de púrpura, cuja conversão não foi para Deus, mas para o mundo; não para o céu, mas para o inferno. Ana, que se interpreta como “graça”, representa o mendigo Lázaro, que, prevenido pela graça de Deus, mereceu passar à glória, à qual o Senhor lhe concedeu graça e glória.

Fenena teve filhos. Filho deriva de “philos”, que significa “amor”. Com efeito, o rico teve tantos filhos quantas foram as obras que gerou do amor da carne e da vaidade do mundo. Por isso, lê-se no livro dos Juízes que Jerobaal, filho de Joás, teve setenta filhos, que saíram de sua coxa, porque ele tinha muitas mulheres. Observa que Fenena teve sete filhos, como se diz nas histórias, e Jerobaal, setenta; esse número significa o mesmo que sete, número no qual se designa a totalidade dos vícios. Jerobaal interpreta-se como “superior”; Joás, como “temporal”. O rico foi, neste mundo, superior ao mendigo Lázaro. Filho é o sucesso temporal, que, da soberba, da gula, da avareza e da vanglória, como de esposas, gerou a totalidade dos vícios.

Ana, porém, não tinha filhos, porque era estéril; assim também o mendigo Lázaro, homem justo, não tem filhos de más obras e é estéril, isto é, sem aquele fruto do qual se diz: “Multiplicaram-se com o fruto do seu trigo, do vinho e do azeite” (Sl 4,8). No trigo é designada a abundância das riquezas; no vinho, o prazer da carne; no azeite, a laутa da gula. Com essas três coisas multiplicou-se aquele rico, do qual se diz: “Havia um homem rico”: eis o trigo; “e vestia-se de púrpura e linho fino”: eis o vinho; “e todos os dias banqueteava-se esplendidamente”: eis o azeite. Ele, assim multiplicado, foi sepultado no inferno. “Eu, porém”, diz o pobre, “em paz, no mesmo lugar, dormirei e repousarei” (Sl 4,9), no seio de Abraão.

E observa que Fenena fazia quatro males a Ana: afligia-a, repreendia-a, desprezava-a e provocava-a. Assim também o rico fazia quatro coisas ao mendigo Lázaro. “Afligia-o”, porque lhe subtraía o benefício que lhe devia dar. Por isso, Isaías fala àqueles que não dão aos pobres os bens dos pobres: “O que foi roubado aos pobres está em vossa casa. Por que esmagais o meu povo e triturais o rosto dos pobres?, diz o Senhor” (Is 3,14-15). “E o repreendia.” Repreender é convencer ou demonstrar. De nenhum modo o chumbo é tão bem demonstrado ou provado como vil quanto pela comparação com o ouro; assim também a pobreza, pela oposição das riquezas. Portanto, a abundância do rico demonstrava a miséria do mendigo. “E o desprezava.” Ao Lázaro coberto de chagas, o rico o desprezava quando, vestido de púrpura, passava diante dele, que jazia à sua porta; e assim o “provocava” a um amor maior de Deus.

Por isso, segue-se: “Ana, por sua vez, chorava e não tomava alimento.” Lázaro “chorava” por causa da miséria deste exílio e pelo retardamento da glória, “e não tomava alimento”, porque desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava. E até quando, Senhor Deus, aquele prosperará e este será afligido? “Por que”, diz Jeremias, “prospera o caminho dos ímpios, e tudo vai bem aos que prevaricam e praticam o mal?” (Jr 12,1). E Habacuc: “Por que não olhas para os que praticam a iniquidade e te calas enquanto o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (Hab 1,13). Dize, Senhor Jesus, até quando isso acontecerá?

12. “Aconteceu”, diz ele, “que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado no inferno.” Eis: “O arco dos fortes foi vencido”, até “ocupe um trono de glória”. Sobre isso tens uma concordância no primeiro livro dos Reis, onde se diz que Dagom [um ídolo] jazia “por terra diante da arca do Senhor; a cabeça de Dagom e as duas palmas de suas mãos estavam decepadas sobre o limiar; somente o tronco de Dagom permanecera em seu lugar” (1Rs 5,4-5). A arca do Senhor é o mendigo Lázaro, no qual, como na arca do Senhor, havia três coisas: o maná, as tábuas e a vara. Havia nele o maná da paciência, as tábuas da dupla caridade e a vara da disciplina. Esta arca repousou no seio de Abraão, diante da qual Dagom jazia prostrado. Dagom interpreta-se como “peixe da tristeza”. Este é o rico vestido de púrpura, que foi um peixe que percorria os caminhos do mar, neste mundo de tristeza e no inferno. “Sua cabeça e as duas palmas de suas mãos estavam decepadas sobre o limiar.” Na cabeça é designada a grandeza temporal; nas duas palmas das mãos, o poder e a abundância; no limiar, a saída da vida e a entrada na morte. Quando, portanto, caiu Dagom, isto é, quando morreu o rico, a cabeça de sua honra e excelência e as duas palmas de seu poder e abundância foram decepadas dele e permaneceram no limiar, isto é, na saída da vida; e assim ele, como um tronco, sozinho, nu e vazio, foi sepultado em seu lugar, isto é, no inferno. Diz-se, portanto, com razão: “Morreu também o rico e foi sepultado no inferno.”

Eis quão grande é a justiça de Deus! O mendigo jazia à porta do rico, coberto de chagas; agora é o rico que jaz sozinho, como um tronco. Por isso, Salomão, nos Provérbios: “Os maus jazerão diante dos bons, e os iníquos diante das portas dos justos” (Pr 14,19). Lázaro morreu no pequeno ninho de sua pobreza, sobre o qual Jó diz: “Morrerei em meu pequeno ninho e multiplicarei meus dias como a palmeira” (Jó 29,18). Quem morre no pequeno ninho da pobreza será plantado como a palmeira na casa da eternidade e da eterna juventude. “O justo”, diz-se, “florescerá como a palmeira” (Sl 91,13).

13. “O rico, porém, foi sepultado no inferno.” Sobre este sepultamento diz Jeremias: “Assim diz o Senhor acerca de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá: Não o prantearão, dizendo: Ai, irmão! e: Ai, irmã! Não clamarão por ele: Ai, senhor! e: Ai, ilustre! Será sepultado com sepultura de jumento, apodrecido e lançado para fora das portas de Jerusalém” (Jr 22,18-19). Observa que o sepultamento do jumento é assim: seu dono fica com a pele, e os cães devoram as carnes. Pelos ossos, que duram por muito tempo, é significada a alma; a pele, isto é, os bens exteriores, fica com os filhos; as carnes devoram-nas os vermes; a alma arrebatam-na os demônios. Por isso diz o Eclesiástico: Quando o homem morrer, herdarão-no as feras, as serpentes e os vermes (cf. Eclo 10,13). As feras, isto é, os filhos bestiais; as serpentes, isto é, os demônios, e os vermes. Tal sepultamento teve o rico coberto de púrpura, que foi sepultado no inferno.

A esta segunda parte concorda a segunda parte da epístola de hoje: “Nisto se aperfeiçoou em nós a caridade de Deus: que tenhamos confiança no dia do juízo; porque, assim como ele é, também nós somos neste mundo” (1Jo 4,17). Diz a Glosa: Mostramos amar perfeitamente a Deus se não tememos a vinda do juiz, não temendo comparecer diante do juiz. O mendigo Lázaro, porque amava perfeitamente a Deus, não temia a vinda do juiz, a quem esperava não como aquele que o julgaria, mas como aquele que o recompensaria. O rico, porém, coberto de púrpura, em quem não houve caridade, não teve confiança no dia do juízo, porque nesta vida não quis compadecer-se do pobre. Os homens justos, porém, têm confiança porque imitam a perfeição do amor dele, amando neste mundo também os inimigos; assim como ele “faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,45), permanecendo no céu.

Rogamos, portanto, Senhor Jesus, nós, teus mendigos e pobres, que nos faças morrer, com o mendigo Lázaro, no pequeno ninho da pobreza, e que sejamos levados pelos anjos ao seio de Abraão. Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

III. A pena do rico e a glória de Lázaro

14. Segue-se a terceira parte. “Tendo levantado os olhos, estando em tormentos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. E ele, clamando, disse: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar na água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, porque sou atormentado nesta chama’” (Lc 16,23-24). O rico levantou os olhos, mas em vão, porque nesta vida havia decidido manter os olhos voltados para a terra (cf. Sl 16,11). Por isso Isaías: “Olhando para a terra, eis as trevas da tribulação, e a luz se obscureceu na sua caligem” (Is 5,30). Porque o rico olhou para o amor das coisas terrenas, por isso as trevas da tribulação o cobriram, e a luz, isto é, a sua prosperidade, obscureceu-se na sua caligem, isto é, na caligem do inferno. “Viu”, diz, “Lázaro no seio de Abraão.” Quão grande seja a aflição dos maus ao verem a alegria dos bons, mostra-o o livro da Sabedoria: “Ao vê-los, serão perturbados por um temor horrível e se admirarão diante da inesperada salvação, gemendo pela angústia do espírito e, arrependendo-se, dirão dentro de si: Estes são aqueles que outrora tivemos por objeto de escárnio e de desprezo. Nós, insensatos, considerávamos loucura a vida deles e sem honra o seu fim; como, pois, foram contados entre os filhos de Deus, e entre os santos está a sua sorte” (Sb 5,2-5).

“E ele, clamando, disse: ‘Pai Abraão...’” Pediu uma gota de água aquele que não quis dar uma migalha. Deseja que da ponta do dedo de Lázaro caia água em sua boca aquele que não quis dar-lhe sequer as migalhas de pão que caíam da sua mesa. Menciona o dedo, não porque Lázaro tivesse apontado o dedo, mas para mostrar, desse modo, que o rico consideraria um grande benefício até o mínimo auxílio, como seria molhar um dedo, se pudesse obter o que pedia.

Por isso acrescenta: “Para refrescar a minha língua.” Não tinha língua, mas sofreu a pena pelo pecado da língua, porque, como também costuma acontecer entre os convivas, entregou-se à loquacidade. Era atormentado antes do juízo, porque, para o luxurioso, ficar privado dos deleites já é uma pena. Observa que não pecou somente pelo vício da gula, mas também com a língua, quando, durante o banquete, se entregava à loquacidade. Contra isso diz Salomão nos Provérbios: “Não estejas entre os convivas bebedores, nem entre os que, em suas comezainas, ajuntam carnes para comer” (Pr 23,20). Pela detração do próximo, comem não somente carnes, mas também excrementos, porque não detraem apenas das boas obras, mas também mentem; e, por isso, comem não somente carnes de animais, mas, o que é abominável, carnes humanas, quando também roem com o dente da detração as louváveis obras dos irmãos. Ai! Quantos religiosos hoje não comem carnes, mas dilaceram seus irmãos com o dente da detração. Sobre tais pessoas disse Sêneca: “Assim como fedem por baixo, também fedem por cima.” E o bem-aventurado Bernardo: “Detrair ou ouvir um detrator: qual dessas coisas é mais condenável, não saberia dizê-lo facilmente.” E ainda: “A língua do detrator é uma espada de três gumes; sem dúvida, porque com um só golpe mata três, a saber, o detrator, aquele que o ouve e aquele de quem se detrai, quando a própria detração chega até ele.”

15. Segue-se: “E Abraão lhe disse: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens durante a tua vida, e Lázaro, igualmente, os seus males; agora, porém, ele é consolado, e tu és atormentado. E, além de tudo isso, entre nós e vós foi firmado um grande abismo, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem de lá podem atravessar para cá” (Lc 16,25-26). Observa que este rico teve algo de bom, isto é, fez algumas coisas do gênero dos bens, embora não na caridade; a abundância da misericórdia divina o recompensou com bens temporais.

“E Lázaro, igualmente, os seus males.” Pelos males que fez, pecando venialmente, recebeu, em compensação, o mal da adversidade. E por isso “agora ele é consolado, e tu és atormentado”. Observa também que, para aquele que se encontra em pecado mortal, os bens do gênero dos bens que pratica são úteis de cinco maneiras. Primeiro, porque se torna mais apto para receber a graça; segundo, para dar bom exemplo ao próximo; terceiro, para habituar-se ao bem; quarto, para a recompensa do benefício temporal, como aconteceu com este rico; quinto, para uma pena mais branda do inferno, se morrer em pecado mortal.

Segue-se a resposta de Abraão ao pedido do rico: “Entre nós e vós” etc. Assim como os réprobos querem passar dos tormentos para a glória dos santos, assim também os justos, por misericórdia, querem ir em pensamento até aqueles que estão nos tormentos, para libertá-los. Mas não podem, porque as almas dos justos, embora tenham misericórdia pela bondade da sua natureza, já então estão unidas à justiça do seu Autor e constrangidas por tamanha retidão, que não se deixam mover por compaixão alguma para com os réprobos. Entre o pobre e o rico há um abismo, “de modo que os que querem” etc., porque depois da morte os méritos não podem ser mudados.

16. Sobre isso, encontras uma concordância no Primeiro Livro dos Reis, onde se diz que Davi tomou a lança e o cântaro de água que estava junto à cabeça de Saul. Quando Davi havia passado para o lado oposto e se sentara no alto do monte, ao longe, e havia grande distância entre eles, gritou e disse a Abner: “Vê agora onde está a lança do rei e onde está o cântaro de água que estava junto à sua cabeça” (cf. 1Rs 26,12-13.14.16). Davi interpreta-se “forte de mão”; Saul, “aquele que abusa”. Na lança é designada a riqueza; no cântaro de água, o prazer da gula. Davi significa o mendigo Lázaro, que foi forte em meio a tão grande adversidade; Saul significa o rico vestido de púrpura, que abusou dos bens que Deus lhe havia concedido. Davi tomou de Saul a lança e o cântaro de água, porque Lázaro, pelo fato de Saul não ter querido compadecer-se dele, tirou-lhe — entende-o em sentido causativo — a lança, isto é, o poder das riquezas, e o cântaro de água, isto é, o prazer da gula. E Lázaro passou da angústia ao repouso e sentou-se no alto do monte, ao longe, isto é, repousou no seio de Abraão, que estava longe dos tormentos do rico. “E, levantando os olhos de longe”, etc. “E Davi gritou a Abner: Vê onde está a lança do rei e onde está o cântaro de água que estava junto à sua cabeça.” Ó rico epulão, onde está agora a lança de tuas riquezas, com a qual costumavas ferir os pobres? Onde está o cântaro de água, onde está o prazer da gula? Agora, que és atormentado na chama, que ele molhe a tua língua. Diz-se, portanto, com razão: “Este é consolado, tu, porém, és atormentado”.

A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola de hoje: “Não há temor no amor, mas o amor perfeito lança fora o temor, porque o temor traz consigo a pena; e quem teme não é perfeito no amor” (1Jo 4,18). No amor do mendigo Lázaro não houve temor, pois o amor perfeito o lançou fora, porque, como diz a Glosa, o amor faz que não se temam as tribulações presentes. O temor do rico, porém, que temeu perder o que possuía, conduziu-o ao castigo da morte.

Roguemos, portanto, Senhor Jesus Cristo, que nos livres da sede insaciável e do fogo ardente e nos coloques no seio de Abraão com o bem-aventurado Lázaro. Conceda-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

IV. A súplica desesperada do rico por seus cinco irmãos

17. Segue-se o quarto: “Rogo-te, portanto, pai, que o mandes à casa de meu pai. Tenho, com efeito, cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, a fim de que também eles não venham a este lugar de tormentos” (Lc 16,27-28). Tarde começa este rico a ser mestre, quando já não tem tempo nem de aprender nem de ensinar. Depois que ao rico ardente se extingue a esperança quanto a si mesmo, recorre aos parentes, dizendo: “Rogo-te, pai”, etc. Observa estas três coisas: “casa”, “de meu pai” e “cinco irmãos”. O pai do rico foi o diabo, por imitação. Sua “casa” é o mundo, isto é, os mundanos, na qual estão “cinco irmãos”, ou seja, todos aqueles que se entregam aos cinco sentidos do corpo. O rico, vendo-se condenado por causa dos cinco sentidos do corpo, que teve como caros irmãos, procura, por uma espécie de misericórdia, prover a esses que se entregam aos cinco sentidos, ele que foi sem misericórdia para consigo mesmo. E observa que os homens carnais amam os cinco sentidos do corpo como irmãos. Os justos, porém, consideram-nos como servos.

Por isso, encontras uma concordância no Primeiro Livro dos Reis, onde se diz que “Abigail se apressou e se levantou, montou num jumento, e cinco moças foram com ela, suas servas; e seguiu os mensageiros de Davi e tornou-se sua esposa” (1Rs 25,42). Abigail interpreta-se “exultação de meu pai” e significa a alma penitente, sobre a qual há alegria no céu (cf. Lc 15,7). Ela monta num jumento, isto é, reprime a carne; e vão com ela suas cinco servas, isto é, os cinco sentidos do corpo: a visão da inteligência, a audição da obediência, o gosto da aprovação, o olfato da investigação e o tato da ação. E assim segue os mensageiros de Davi, isto é, a pobreza, a humildade e a Paixão de Jesus Cristo, que nos anunciam o que ele foi neste mundo. E assim se torna sua esposa, desposada com ele pelo anel da fé formada.

18. Segue-se: “E Abraão lhe disse: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Mas ele disse: Não, pai Abraão; mas, se alguém dentre os mortos for ter com eles, farão penitência. Ele, porém, lhe disse: Se não ouvem Moisés e os profetas, tampouco acreditarão se alguém ressuscitar dentre os mortos” (Lc 16,29.31). Daqui se conclui que este rico era judeu, porque seus irmãos estavam submetidos à Lei de Moisés e aos profetas; por isso, talvez, Abraão o chamou de filho, e ele o chamou de pai. Aquele que desprezara as palavras de Deus julgava que seus seguidores não poderiam ouvi-las. Aqueles que desprezam as palavras da Lei cumprirão tanto mais dificilmente os preceitos do Redentor, que ressuscitou dos mortos, quanto mais sublimes eles são. E, se recusam cumprir as palavras daquele, sem dúvida recusam-se a crer nele. Os carnais, entregues aos sentidos da carne, não ouvem nem Moisés, isto é, o santo prelado da Igreja, nem os profetas, isto é, os pregadores; e, o que é pior, não creem em Cristo, que ressuscitou dos mortos. Saul acreditou em Samuel, suscitado por meio do espírito da pitonisa; e nós não creremos no Filho de Deus, que verdadeiramente ressuscitou dos mortos por Deus Pai?

Assim, encontras uma concordância no Primeiro Livro dos Reis. Saul disse à mulher pitonisa: “Pratica para mim a adivinhação por meio da pitonisa e suscita-me aquele que eu te disser”. E a mulher lhe disse: “Quem suscitarei para ti?”. Ele respondeu: “Suscita-me Samuel”. Quando a mulher viu Samuel, clamou em alta voz e disse a Saul: “Por que me enganaste? Tu és Saul”. E o rei lhe disse: “Não temas. O que viste?”. E a mulher disse a Saul: “Um homem velho e glorioso, vestido com o manto sacerdotal”. E Saul, compreendendo que era Samuel, adorou-o. E a alma de Samuel, como diz Josefo, disse: “Por que me perturbaste, para que eu fosse suscitado?”. Sobre essa aparição — como se encontra nas histórias — alguns dizem que um espírito maligno apareceu sob a forma de Samuel, ou que ali apareceu fantasticamente sua imagem, a qual foi chamada Samuel. Alguns afirmam que, permitindo-o Deus, somente a alma dele apareceu ali, revestida de um corpo semelhante. Outros, porém, dizem que somente o corpo foi suscitado por um espírito vivificante — isto é, vegetativo, que temos em comum com os animais irracionais —, enquanto a alma permanecia tranquila em seu lugar.

Nós, porém, tenhamos os cinco sentidos do corpo não como irmãos, mas como servos; ouçamos Moisés e os profetas; creiamos em Cristo, ressuscitado dos mortos e sentado à direita do Pai, e, crendo, amemo-lo.

19. Por isso, à quarta cláusula corresponde a quarta parte da epístola: “Amemos, portanto, a Deus, porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, e odiar seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (1Jo 4,19-20). A esse respeito, diz Agostinho: “Se amasse com caridade espiritual aquele a quem vê com a visão humana, veria a Deus, que é a própria caridade, com a visão interior, pela qual ele pode ser visto. Portanto, quem não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus, que é o amor, do qual carece aquele que não ama o irmão?”

Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, a Deus, que é amor, que nos conceda amar a pobreza do mendigo Lázaro, aborrecer as riquezas do rico vestido de púrpura, ser libertados da sepultura do inferno e ser colocados no seio de Abraão.

Conceda-no-lo ele, a quem pertencem a honra e a glória, o decoro e o império, pelos séculos eternos.

Diga todo verdadeiro pobre: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.