Evangelho da Oitava da Páscoa: “Ao cair da tarde daquele dia”, que se divide em cinco cláusulas.
Primeiro, sermão sobre o pregador e sobre aqueles a quem deve pregar, onde se diz: “Eu estava na cidade de Jope”.
[Da primeira cláusula.] Também sermão contra a prosperidade do mundo, onde se diz: “Não desejei o dia do homem”.
Também sermão aos pecadores convertidos, onde se diz: “Ao cair da tarde daquele dia”, e ainda: “Todo o monte Sinai fumegava”.
Também sermão sobre as portas, que são os cinco sentidos do corpo, onde se diz: “E as portas estavam fechadas”.
Da segunda cláusula. Sermão sobre a tríplice paz, sobre a caridade e sobre a natureza dos elefantes, onde se diz: “Veio Jesus”.
Da terceira cláusula. Sermão sobre a absolvição de Deus e do sacerdote, e sobre a ordem pela qual alguém é ressuscitado da morte da alma para a penitência, onde se diz: “Recebei o Espírito Santo”, e ainda: “Ouro e prata”.
Da quarta cláusula. Sermão sobre a Ressurreição do Senhor, onde se diz: “Naquele dia levantarei a tenda de Davi”.
Da quinta cláusula. Sermão sobre o leite da misericórdia divina, onde se diz: “Como crianças recém-nascidas”, e sobre a castidade dos elefantes.
1. Naquele tempo: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro depois do sábado, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se haviam reunido por medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco” (Jo 20,19).
Nos Atos dos Apóstolos, Pedro diz: “Eu estava na cidade de Jope, em oração, e, em êxtase, tive uma visão: descia do céu certo vaso, semelhante a um grande lençol, suspenso pelas quatro pontas; e chegou até mim. Fitando-o, eu o observava atentamente, e vi nele quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu. E ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro, mata e come” (At 11,5-7). Pedro representa o pregador, que deve estar em oração na cidade de Jope, que se interpreta como beleza, isto é, na unidade da Igreja, na qual há a beleza das virtudes e, fora dela, a lepra da infidelidade. Isto é o que o pregador deve fazer primeiro: dedicar-se à oração; depois dela segue-se o êxtase da mente, isto é, a elevação acima das coisas terrenas, no qual vê “certo vaso, semelhante a um lençol” etc. No vaso e no grande lençol é designada a graça da pregação, que justamente é chamada vaso, porque embriaga as mentes dos fiéis com o vinho da compunção; grande lençol, porque enxuga os suores dos trabalhos e reanima para suportar as paixões; “pelas quatro pontas”, isto é, pelas quatro doutrinas dos evangelistas, “suspenso do céu”, porque “todo dom excelente e todo presente perfeito vem do alto” (Tg 1,17). “E chegou até mim.” Nisto se assinala de modo especial o privilégio do pregador, ao qual o vaso da pregação é especialmente enviado do céu. Nesse vaso estão “os quadrúpedes da terra”, isto é, os gulosos e luxuriosos; “as feras”, assim chamadas como se fossem vastiae, isto é, os traidores e homicidas; “os répteis”, isto é, os avarentos e usurários; e “as aves do céu”, isto é, os soberbos e os elevados pelas penas da vanglória. Esse vaso é a rede lançada ao mar, que reúne peixes de toda espécie (cf. Mt 13,47), e ao pregador se diz: “Levanta-te, mata e come”. “Levanta-te” para evangelizar; “mata” para o mundo; mortifica e imola, para que faças deles uma hóstia para Deus, a fim de que, arrancados da velhice, passem à novidade; “e come”, isto é, recebe-os na unidade e na comunidade do corpo da Igreja. Sobre essa unidade e comunidade se diz no Evangelho de hoje: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro depois do sábado” etc.
2. Notai que neste Evangelho se assinalam cinco coisas. Primeiro, a reunião dos discípulos, quando se diz inicialmente: “Ao cair da tarde” etc. Segundo, a recomendação da paz por três vezes, quando se acrescenta: “Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco”. Terceiro, o poder de ligar e desligar concedido aos apóstolos, onde se diz: “E, depois de dizer isso, soprou sobre eles” etc. Quarto, a dúvida de Tomé, onde se diz: “Tomé, um dos Doze” etc. Quinto, a confissão de Tomé e a confirmação da nossa fé, onde se diz: “Oito dias depois”.
Notai ainda que neste domingo se lê a epístola do bem-aventurado João: “Tudo o que nasceu de Deus vence o mundo” (1Jo 5,4). E, durante a noite, segundo o costume da Igreja romana, leem-se os Atos dos Apóstolos. Queremos mencionar brevemente cinco episódios deles e relacioná-los com as cinco passagens acima referidas do santo Evangelho. O primeiro é a reunião dos apóstolos em Jerusalém, onde se diz: “Então voltaram a Jerusalém, vindo do monte chamado das Oliveiras”. O segundo, onde se diz: “Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos” etc. O terceiro, o do coxo desde o ventre de sua mãe, ao qual Pedro disse: “Não tenho ouro nem prata” etc. O quarto, a conversão de Saulo. O quinto, o eunuco e o centurião Cornélio.
3. Digamos, pois: “Ao cair da tarde daquele dia” etc. Nesta primeira passagem devem ser observadas cinco coisas: a tarde, aquele dia, o primeiro depois do sábado, as portas fechadas e os discípulos reunidos por medo dos judeus. Dia, palavra derivada de “dian”, que significa claridade, significa a claridade da vaidade mundana, da qual diz o Senhor em João: “Não recebo glória dos homens” (Jo 5,41); e Jeremias: “Não desejei nem procurei o dia do homem, tu o sabes” (Jr 17,16); e em Lucas: “E agora, neste teu dia, não no meu, aquilo que é para a tua paz” (Lc 19,42), não para a minha; e nos Atos dos Apóstolos: “No dia seguinte, tendo chegado Agripa e Berenice com grande ostentação” (At 25,23), isto é, com uma grande multidão que os cercava; em lugar de “ostentação”, em grego, como diz a Glosa, encontra-se “phantasia”. Agripa interpreta-se como “acúmulo repentino”; Berenice, “filha elegantemente comovida”. Agripa significa o rico deste mundo, que de repente acumula riquezas por meio de usuras e perjúrios; mas “as riquezas”, como diz Jó, “que devorou, vomitá-las-á, e Deus as arrancará de seu ventre” (Jó 20,15); Berenice significa a luxúria da carne, filha do diabo, que se comove com a elegância exterior e faz com que outras se comovam. Agripa e Berenice, portanto, isto é, os ricos e os luxuriosos, no dia da claridade mundana, avançam com grande ostentação, que é uma fantasia que os engana, porque parece “ser alguma coisa, quando nada é” (Gl 6,3), e, enquanto se julga tê-la, ela escapa.
“Ao cair, pois, a tarde daquele dia.” A tarde desse dia é a penitência, na qual o sol da claridade mundana se converte em trevas, e a lua da concupiscência carnal, em sangue. Por isso, nos Atos dos Apóstolos, Pedro, citando as palavras do Senhor proferidas por Joel, diz: “Farei prodígios no alto do céu e sinais embaixo, na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue” (At 2,19-20; cf. Jl 2,30-31).
alegoricamente. O Senhor deu sinais no céu e na terra quando desceu à terra pelo sangue da cruz; no fogo, quando enviou o Espírito Santo aos apóstolos; e assim subiu a fumaça da compunção. Por isso, nos Atos: “Ficaram compungidos no coração e disseram a Pedro e aos demais apóstolos: Que havemos de fazer, irmãos? Pedro respondeu: Fazei penitência, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo” (At 2,37-38).
moralmente. No sangue, a mortificação da carne; no fogo, o ardor da caridade; no vapor da fumaça, a compunção do coração. O Senhor dá esses sinais no céu, isto é, no justo, e na terra, isto é, no pecador.
4. Sobre estes três elementos encontras uma concordância na epístola de hoje: “Três são os que dão testemunho na terra: o Espírito, a água e o sangue” (1Jo 5,8).
Alegoricamente: o Espírito, isto é, a alma humana, que Jesus Cristo exalou na Paixão; a água e o sangue, que jorraram do seu lado, o que não poderia ter acontecido se ele não tivesse a verdadeira natureza da carne.
Moralmente. O espírito é a caridade; a água, a compunção; o sangue, a maceração da carne. Sobre estes elementos encontras uma concordância no Êxodo, onde se diz: “Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele no fogo, e dele subia uma fumaça como de uma fornalha; e todo o monte era terrível. E o som da trombeta crescia cada vez mais e se prolongava” (Ex 19,18-19). O monte Sinai é a mente do penitente; quando o Senhor desce nela no fogo da caridade, do qual ele mesmo diz: “Vim lançar fogo sobre a terra” (Lc 12,49), todo o monte fumega, e dele sobe a fumaça da compunção como de uma fornalha, isto é, do ardor da mente. E assim todo o monte é terrível por causa da maceração da carne, ou terrível para os espíritos imundos. Por isso se lê em Jó: “Ninguém lhe dirigia palavra, pois viam que a sua dor era veemente” (Jó 2,13). “E o som da trombeta”, isto é, da confissão, “crescia cada vez mais e se prolongava”, porque o penitente, ao confessar-se, deve começar primeiro pelos pensamentos ilícitos, depois pelas palavras e, em seguida, pelas obras.
Segue-se: “O sol se converterá em trevas e a lua, em sangue”. O sol se converte em trevas quando o esplendor mundano é obscurecido pelo cilício da penitência, e a lua, em sangue, quando a concupiscência da carne é castigada pela maceração, pelas vigílias e pelas abstinências. Diz-se, portanto, com razão: “Quando chegou a tarde daquele dia, o primeiro depois do sábado”. A respeito dele, o Senhor diz no Êxodo: “Lembra-te de santificar o dia de sábado” (Ex 20,8).
5. Santifica o dia de sábado aquele que permanece na quietude do espírito e se abstém das obras proibidas. “E as portas estavam fechadas.” As portas são os cinco sentidos do corpo, que devemos fechar com as trancas do amor e do temor de Deus, para que não nos aconteça o que Paulo diz nos Atos dos Apóstolos: “Sei que, depois da minha partida, entrarão entre vós lobos vorazes, que não pouparão o rebanho” (At 20,29). Paulo interpreta-se “humilde”. Quando a humildade se afasta do coração, os lobos vorazes, isto é, os desejos carnais, entram pelas portas dos cinco sentidos e devoram o rebanho dos bons pensamentos. “Onde estavam reunidos os discípulos por medo dos judeus.” Os discípulos são os juízos da razão, que devem reunir-se em um só por medo dos judeus, isto é, dos demônios, para que estes não lhes possam fazer mal. Por isso se diz no Cântico dos Cânticos: “És bela e formosa, filha de Jerusalém, terrível como um exército disposto em ordem de batalha” (cf. Ct 6,3). A alma é a filha da Jerusalém celeste, bela pela fé e formosa pela caridade; ela será terrível para os espíritos imundos se ordenar assim os juízos da razão e os pensamentos da mente, como um exército de soldados é disposto em ordem para combater contra os inimigos.
Sobre esta reunião encontras uma concordância nos Atos dos Apóstolos: “Então”, diz Lucas, “retornaram a Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que está perto de Jerusalém, à distância permitida num sábado. E, tendo entrado no cenáculo, subiram ao andar superior, onde permaneciam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas de Tiago. Todos estes perseveravam unanimemente na oração, com as mulheres, Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1,12-14). O monte das Oliveiras dista de Jerusalém uma milha, “à distância permitida num sábado”, isto é, mil passos; além dessa distância, não era lícito aos judeus avançar no dia de sábado. O cenáculo é chamado pela Glosa de “terceiro teto”; é figura da caridade, da fé consolidada e da esperança. Devemos subir a este cenáculo, permanecer ali com os discípulos e perseverar unânimes na oração, na contemplação e na efusão das lágrimas, para merecermos receber a graça do Espírito Santo. Por isso o Senhor diz em Lucas: “Permanecei”, diz ele, “na cidade, até que sejais revestidos de poder do alto”, isto é, do Espírito Santo.
Se, portanto, o dia do esplendor mundano tiver declinado e anoitecer na tarde da penitência, na qual, como num sábado, o homem deve cessar da obra perversa, e as portas dos cinco sentidos estiverem fechadas, e todos os discípulos de Cristo, isto é, os sentimentos do homem justo, estiverem reunidos em um só lugar, o Senhor fará o que vem a seguir.
6. Segue-se o segundo. “Veio Jesus, pôs-se no meio dos discípulos e disse-lhes: A paz esteja convosco. E, tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos ao verem o Senhor. Disse-lhes, pois, novamente: A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,19-21). Observa, primeiro, que neste Evangelho se diz três vezes “A paz esteja convosco”, por causa da tríplice paz que Cristo restaurou: entre Deus e o homem, reconciliando este com Deus Pai pelo seu sangue; entre o anjo e o homem, assumindo a natureza humana e elevando-a acima dos coros dos anjos; entre homem e homem, unindo em si mesmo, pedra angular, o povo judeu e o povo gentio.
Observa também que no nome paz há três letras e uma só sílaba, nas quais se designam a Trindade e a Unidade. No P, o Pai; no A, primeira das vogais, o Filho, que é a voz do Pai; no X, consoante dupla, entende-se o Espírito Santo, que procede de ambos. Quando, portanto, disse: “A paz esteja convosco”, recomendou-nos a fé na Trindade e na Unidade.
“Veio, pois, Jesus e pôs-se no meio.” O lugar próprio de Jesus é o meio, isto é, no céu, no ventre da Virgem, na manjedoura do rebanho, no patíbulo da cruz. No céu, donde se lê no Apocalipse: “O Cordeiro que está no meio do trono”, isto é, no seio do Pai, “os regerá e os conduzirá às fontes das águas da vida” (Ap 7,17), isto é, à saciedade das alegrias celestes.
No ventre da Virgem, donde Isaías: “Exulta e canta louvores, ó habitação de Sião, porque grande está no meio de ti o Santo de Israel” (Is 12,6). Ó bem-aventurada Maria, que és a habitação de Sião, isto é, da Igreja, a qual, na Encarnação de teu Filho, fundou para si a habitação da fé, exulta no coração, louva com a boca, dizendo: “A minha alma engrandece o Senhor” (Lc 1,46) etc., porque o grande, pequeno e humilde, santo e santificador de Israel está no meio de ti, isto é, no teu ventre.
Na manjedoura do rebanho, donde Habacuc: “Serás conhecido no meio de dois animais” (Hab 3,2, segundo os LXX); donde Isaías: “O boi conheceu o seu proprietário, e o jumento, a manjedoura do seu senhor” (Is 1,3).
No patíbulo da cruz, donde João: “Crucificaram com ele outros dois, de um lado e de outro, e Jesus no meio” (Jo 19,18).
“Veio”, pois, “Jesus e pôs-se no meio. Eu estou”, diz ele em Lucas, “no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Está no centro de todo coração; está no meio para que dele, como do centro, se estendam até nós, que estamos na circunferência, que giramos e caminhamos ao redor, todos os raios das graças.
7. Disto tens uma concordância nos Atos dos Apóstolos. “Naqueles dias”, diz Lucas, “levantando-se Pedro no meio dos irmãos (havia ali reunido um grupo de quase cento e vinte homens), disse: Irmãos” (At 1,15-16), e tudo o mais que se segue na eleição de Matias. Cristo, ressuscitando dos mortos, permaneceu no meio dos discípulos; e Pedro, que antes havia caído ao negá-lo, levantou-se no meio dos irmãos, insinuando-nos com isso que, levantando-nos do pecado, permaneçamos no meio dos irmãos, porque no centro está a caridade, que se estende tanto ao amigo como ao inimigo. “Veio”, portanto, “Jesus e permaneceu no meio dos discípulos, e disse-lhes: A paz esteja convosco.”
Observa que há uma tríplice paz: a paz do tempo, da qual se diz no terceiro livro dos Reis que Salomão teve paz ao redor (cf. 3Rs 4,24); a paz do coração, da qual se diz: “Em paz, juntamente, dormirei e repousarei” (Sl 4,9); e nos Atos dos Apóstolos: “A Igreja tinha paz por toda a Judeia, a Galileia e a Samaria; e, edificando-se, caminhava no temor do Senhor e era repleta da consolação do Espírito Santo” (At 9,31). Judeia interpreta-se “confissão”; Galileia, “transmigração”; Samaria interpreta-se “guardiã”. A Igreja, portanto, isto é, a alma fiel, tem paz nestas três coisas: na confissão, na transmigração dos vícios para as virtudes, na guarda do mandamento divino e da graça recebida; e assim se edifica, caminhando de virtude em virtude no temor do Senhor, não servil, mas filial; e em toda tribulação é repleta da consolação do Espírito Santo. A terceira paz é a da eternidade, da qual se diz: “Ele estabeleceu a paz em teus confins” (Sl 147,14).
A primeira deves tê-la com o próximo, a segunda contigo mesmo; e assim terás, na oitava da Ressurreição, a terceira com Deus no céu. Permanece, portanto, no centro e terás paz com o próximo. Se não permaneceres no centro, não poderás ter paz. Com efeito, nas circunferências não há paz nem tranquilidade, mas antes movimento e volubilidade. Diz-se dos elefantes que, quando lutam em combate, têm grande cuidado dos feridos; pois acolhem no meio os cansados e feridos. Assim, acolhe no centro da caridade os próximos cansados e feridos. Foi o que fez aquele carcereiro, do qual se diz nos Atos que, tomando Paulo e Silas, naquela mesma hora da noite lavou-lhes as feridas, levou-os para sua casa, pôs-lhes a mesa e alegrou-se com toda a sua família, por ter crido no Senhor (cf. At 16,33-34).
8. “Jesus permaneceu, portanto, no meio dos discípulos e disse-lhes: A paz esteja convosco. E, tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado.” Lucas assim diz: “Vede as minhas mãos e os meus pés, porque sou eu mesmo” (Lc 24,39). O Senhor, ao que me parece, mostrou aos apóstolos as mãos, o lado e os pés por quatro motivos. Primeiro, para mostrar que havia verdadeiramente ressuscitado e afastar de nós toda dúvida. Segundo, para que a pomba, isto é, a Igreja ou a alma fiel, fizesse ninho em suas chagas, como em certas aberturas, e aí se escondesse da vista do falcão que trama arrebatá-la. Terceiro, para imprimir em nossos corações os sinais insignes de sua Paixão. Quarto, mostrou-os rogando que, compadecendo-nos dele, não o crucifiquemos novamente com os cravos dos pecados. Mostrou-nos, portanto, as mãos e o lado, dizendo: Eis as mãos que vos plasmaram: vede como foram atravessadas pelos cravos; eis o lado do qual vós, fiéis, minha Igreja, fostes gerados, assim como Eva foi formada do lado de Adão; ele foi aberto pela lança para vos abrir a porta do paraíso, fechada pelo querubim e pela espada flamejante. A virtude do sangue que jorrou do lado de Cristo afastou o anjo e embotou a espada, e a água extinguiu o fogo. Não queirais, portanto, crucificar-me novamente, nem considerar profano o sangue da Aliança, no qual fostes santificados, nem ultrajar o Espírito da graça. Se prestares bem atenção a estas coisas e as escutares, ó homem, terás paz contigo mesmo. E por isso, depois de o Senhor lhes mostrar as mãos e o lado, disse novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou” para as paixões, embora me ame, com essa mesma caridade “eu vos envio” para os males aos quais o Pai me enviou.
9. Segue-se o terceiro. “E, tendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem” (Jo 20,22-23) etc. O sopro significou que o Espírito Santo não é Espírito somente do Pai, mas também seu. Gregório diz: “Na terra, o Espírito é dado para que se ame o próximo; do céu, para que se ame a Deus.” “Recebei”, diz ele, “o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes” etc., isto é, aqueles que julgardes dignos de perdão, por meio das duas chaves do poder e do discernimento, isto é, pela aplicação do poder e do discernimento; entenda-se: observando o modo e a ordem no poder de ligar e desligar. Vejamos, porém, de que modo o sacerdote perdoa os pecados e absolve o pecador.
Alguém peca mortalmente: imediatamente se torna digno da geena, ligado pela cadeia da morte eterna; depois, porém, arrepende-se e, verdadeiramente contrito, propõe-se confessar-se. Imediatamente o Senhor o absolve da culpa e da morte eterna, que, pela contrição, se transforma em pena do purgatório. A contrição poderia ser tão grande, como em Madalena e no bom ladrão, que, se morresse, voaria imediatamente para o céu. Vai ao sacerdote e confessa-se; o sacerdote impõe-lhe uma penitência temporal, por meio da qual também a pena do purgatório pode ser expiada nesta vida; e, se a cumprir devidamente, voará para a glória. Assim, Deus e o sacerdote perdoam e absolvem.
Sobre isso tens uma concordância nos Atos dos Apóstolos, onde Pedro diz [ao paralítico]: “Não possuo nem prata nem ouro; mas o que tenho, isto te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o; e imediatamente se fortaleceram os seus tornozelos e as plantas dos seus pés. E, saltando, pôs-se de pé e andava; e entrou com eles no templo de Jerusalém” (At 3,6-8). O bem-aventurado Bernardo, escrevendo ao papa Eugênio, diz: “Considera a herança que te deixaram teus pais; as tábuas do testador não atribuem nada de todos esses bens. Ouve a voz de teu predecessor, que diz: ‘Não possuo nem prata nem ouro’. Ele tinha, de fato, como diz a Glosa, o primeiro tabernáculo com as prescrições do culto terreno; o santuário secular, ornado de ouro e prata (cf. Hb 9,1). Mas, mais precioso que os metais da Lei, resplandece o sangue do Evangelho, porque o povo, que jazia enfermo diante das portas douradas, entra no templo celeste somente em nome de Jesus Cristo crucificado.” Jerônimo diz: “Se queres trazer de volta o ouro e a prata à Igreja, traz de volta o sangue imolado, que era lícito aos antigos possuir, porque essas coisas lhes eram prometidas. Agora, porém, o Cristo pobre consagrou a pobreza no próprio corpo, ele que prometeu aos seus não bens temporais, mas celestes.”
“Em nome de Jesus Cristo” etc. Eis o caminho da perfeição: primeiro, levanta-se aquele que jazia; depois, empreende o caminho das virtudes e, assim, entra com os apóstolos pela porta do reino. Observa as palavras: “levanta-te”, pela contrição; “anda”, pela confissão; e assim, “tomando-o pela mão direita, levantou-o”, isto é, absolveu-o e o despediu em paz.
Também sobre isso tens uma concordância nos mesmos Atos dos Apóstolos, onde se lê que Pedro “encontrou em Lida um homem chamado Eneias, que jazia havia oito anos num leito e era paralítico. E Pedro lhe disse: Eneias, Jesus Cristo te cura; levanta-te e prepara a tua cama. E imediatamente se levantou” (At 9,33-34). Eneias interpreta-se como “pobre” ou “miserável”, e significa o pecador que se encontra em pecado mortal, pobre de virtudes e miserável, porque é servo do diabo. Este, como um paralítico, jaz no leito da concupiscência carnal, desfeito em todos os seus membros; a ele deve dizer o vigário de Pedro: “Eneias”, pobre e miserável, “Jesus Cristo te cure; levanta-te”, pela contrição, “e prepara a tua cama”, pela confissão. “Tu, e não outro, prepara a tua cama.” “E imediatamente se levantou”, absolvido de todo vínculo dos pecados.
Há ainda outra concordância: Pedro disse: “Tabita, levanta-te.” E ela abriu os olhos. Ele lhe deu a mão e a levantou” (At 9,40-41). Tabita interpreta-se como “gazela” (cf. At 9,36), e assim se chama porque foge da mão (em latim, dammula, de manu); é um animal tímido e débil, uma cabra selvagem. Ela significa a alma do pecador, tímida e débil, que foge da mão do Pai celeste. A ela se diz: “Levanta-te”, pela contrição; e então abre os olhos, pela confissão, e se detém, humilhando-se pela satisfação, e assim é erguida pela absolvição de todos os pecados.
Que nos conceda essa absolvição o verdadeiro sacerdote e sumo pontífice Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
10. Segue-se o quarto. “Tomé, porém, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe então os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele lhes disse: Se eu não vir em suas mãos a marca dos cravos, e não puser meus dedos no lugar dos cravos, e não puser minha mão em seu lado, não acreditarei” (Jo 20,24-25). Tomé interpreta-se abismo, porque, duvidando, conheceu mais profundamente e permaneceu mais firme. Dídimo, em grego, significa gêmeo, isto é, duvidoso. Não por acaso, mas por disposição divina, Tomé esteve ausente e, ao ouvir o que lhe contavam, não acreditou. Ó disposição divina! Ó santa dúvida do discípulo! “Se eu não vir”, diz ele, “em suas mãos” etc. Desejava ver reconstruído o tabernáculo de Davi, que havia caído, a respeito do qual o Senhor diz pelo profeta Amós: “Naquele dia levantarei o tabernáculo de Davi, que caiu, e reconstruirei as aberturas de seus muros” (Am 9,11).
Por Davi, que se interpreta “de mão forte”, entende-se a divindade; pelo tabernáculo, o corpo do próprio Cristo, no qual, como em um tabernáculo, esteve a divindade, e que caiu pela morte e pela Paixão. Pelas aberturas dos muros entendem-se as feridas das mãos, dos pés e do lado. O Senhor as reconstruiu em sua Ressurreição. Delas diz Tomé: “Se eu não vir em suas mãos” etc. O Senhor misericordioso não quis deixar aquele discípulo, que haveria de tornar-se vaso de eleição, em sua piedosa dúvida; misericordiosamente lhe retirou toda a escuridão da dúvida, assim como a cegueira da infidelidade de Saulo.
Daí encontras a concordância nos Atos dos Apóstolos, onde Ananias diz: “Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus enviou-me, ele que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que vejas e fiques cheio do Espírito Santo. E imediatamente caíram de seus olhos como que escamas, e recuperou a visão; e, levantando-se, foi batizado. E, depois de tomar alimento, recobrou as forças” (At 9,17-19). Cumpriu-se a profecia de Isaías: “O lobo com o cordeiro” (Is 65,25), isto é, Saulo com Ananias, cujo nome se interpreta “cordeiro”. O corpo da serpente é coberto de escamas. Os judeus são serpentes e raça de víboras (cf. Mt 23,33); seguindo a perfídia deles, Saulo havia coberto, como que com uma pele de serpente, os olhos do coração; mas, caindo as escamas sob a mão de Ananias, manifesta-se no rosto que recebeu a luz na mente. Assim, sob a mão de Ananias, isto é, de Jesus Cristo, que foi conduzido ao sacrifício como um cordeiro (cf. Is 53,7), caíram dos olhos de Tomé as escamas da dúvida, e ele recuperou a visão da fé.
11. Daí segue-se o quinto: “E oito dias depois, estavam novamente dentro os seus discípulos, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco” (Jo 20,26). Não exponho novamente o que já foi exposto. “Depois disse a Tomé: Introduz aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; e traz a tua mão e coloca-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel. Tomé respondeu e disse-lhe: Meu Senhor e meu Deus. Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20,27-29).
Diz o Senhor por meio de Isaías: “Nas minhas mãos te desenhei” (Is 49,16). Observa que, para escrever, são necessárias três coisas: papel, tinta e pena. As mãos de Cristo foram como papel; o sangue, como tinta; os cravos, como pena. Cristo, portanto, desenhou-nos em suas mãos por três razões. Primeiro, para mostrar ao Pai as cicatrizes das chagas que sofreu por nós e assim convidá-lo à misericórdia. Segundo, para jamais se esquecer de nós; por isso ele mesmo diz por meio de Isaías: “Pode acaso uma mulher esquecer-se do seu filho, sem compadecer-se do filho de seu ventre? E, ainda que ela se esquecesse, eu, contudo, não me esquecerei de ti. Eis que te desenhei nas minhas mãos” (Is 49,15-16). Terceiro, escreveu em suas mãos como devemos ser e no que devemos crer. Não sejas, portanto, incrédulo, ó Tomé, ó cristão, mas fiel.
Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus” etc. O Senhor não disse: “porque tocaste”, mas: “porque viste”, porque a visão é, de certo modo, um sentido geral, que costuma auxiliar os outros quatro. Talvez, diz a Glosa, não tenha ousado tocar, mas somente olhou; ou talvez, tocando, também tenha visto. Via e tocava um homem e, além disso, crendo que era Deus, já afastada toda dúvida, confessava aquilo que não via. “Tomé, viste a mim”, homem, “e creste em mim”, Deus.
12. “Bem-aventurados os que não viram e creram.” Com isso ele louva a fé dos gentios; mas usa o tempo passado porque, em sua presciência, já sabia como realizado tudo o que haveria de acontecer no futuro. Daí tens a confirmação nos Atos dos Apóstolos, a respeito do eunuco de Candace, rainha dos etíopes, a quem Filipe perguntou: “Crês de todo o teu coração? Ele respondeu: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E Filipe o batizou” (At 8,37.38), e a respeito do centurião Cornélio, a quem Pedro batizou, juntamente com toda a sua família, em nome de Jesus Cristo (cf. At 10,1-48). Estes dois, crendo em Cristo, prefiguravam a Igreja dos gentios, que haveria de ser regenerada pelo santo Batismo e creria no nome de Jesus Cristo. A estes Pedro fala na entrada da missa de hoje, dizendo: “Como crianças recém-nascidas, desejai ardentemente o leite espiritual, sem falsidade” (1Pd 2,2).
A criança é assim chamada porque ainda não sabe falar, isto é, não fala (infans). Os fiéis da Igreja, gerados da água e do Espírito Santo, devem ser crianças, isto é, não falar a língua do Egito, da qual Isaías diz: “O Senhor devastará a língua do mar do Egito” (Is 11,15). Na língua é indicada a eloquência; no mar, a sabedoria filosófica; e no Egito, o mundo. O Senhor, portanto, devasta a língua do mar do Egito quando, por meio dos simples e dos ignorantes, demonstra que a eloquência e a sabedoria do mundo são mudas e insípidas.
“Espirituais, sem falsidade.” Racional é aquilo que se faz com a razão. A razão é o olhar da alma, pelo qual ela contempla a verdade por si mesma, e não por meio do corpo; ou é a própria contemplação da verdade, não por meio do corpo; ou é também a própria verdade que é contemplada. Racionais, portanto, no que diz respeito a Deus e a nós mesmos; sem falsidade, no que diz respeito ao próximo.
“Desejai ardentemente o leite.” Aquele leite de que diz Agostinho: “O pão dos anjos tornou-se leite dos pequeninos”. O leite recebe seu nome da cor, pois é um líquido branco. Com efeito, os gregos chamam o branco de leukós. Sua substância é produzida a partir do sangue. Pois, depois do parto, se algum sangue ainda não tiver sido consumido pelo alimento no útero, flui naturalmente para as mamas e, tornando-se branco pela ação delas, assume a natureza e a substância do leite. E desde então se torna alimento de todo recém-nascido, porque a substância pela qual se dá a geração é a mesma pela qual se dá a nutrição: o leite, com efeito, é como sangue fervido, digerido e não corrompido. No sangue, que causa horror à vista, é figurada a ira de Deus; no leite, porém, que é de sabor agradável e de cor muito aprazível, é figurada a misericórdia de Deus. O sangue da ira foi transformado em leite da misericórdia na mama, isto é, na humanidade de Jesus Cristo. Por isso diz o Profeta: “Transformou os relâmpagos em chuva” (Sl 134,7). Os relâmpagos da ira divina foram transformados em chuva de misericórdia, quando o Verbo se fez carne (cf. Jo 1,14).
13. Sentido moral. O eunuco etíope e o centurião Cornélio representam os pecadores convertidos. Cornélio interpreta-se “aquele que compreende a circuncisão”. É justo que Cornélio e o eunuco sejam associados: os penitentes, com efeito, fazem-se eunucos por causa do reino dos céus (cf. Mt 19,12), isto é, circuncidam e eliminam de si os desejos carnais e, crendo no nome de Jesus Cristo, lavam-se na fonte viva da compunção e renovam-se pelo batismo da penitência. Fazem, pois, como os elefantes, dos quais diz Solino: As fêmeas não conhecem o desejo sexual antes dos dez anos, nem os machos antes dos cinco; acasalam durante dois anos, por cinco dias, e não mais, em cada ano, e não retornam ao número do rebanho antes de se lavarem em águas correntes. Assim, os penitentes e os homens justos, se tiverem caído em alguma falta, envergonham-se de voltar ao número dos fiéis, a menos que antes se lavem nas águas vivas das lágrimas e da penitência.
Peçamos, portanto, caríssimos irmãos, e supliquemos humildemente a misericórdia de Jesus Cristo, para que, vindo, permaneça no meio de nós, nos conceda a paz, nos absolva dos pecados, retire do nosso coração toda dúvida e grave em nossas mentes a fé em sua Paixão e Ressurreição, a fim de que, com os apóstolos e os fiéis da Igreja, mereçamos alcançar a vida eterna. Conceda-no-la aquele que é bendito, digno de louvor e glorioso pelos séculos eternos. Diga toda alma fiel: Amém. Aleluia.