Quinto evangelho do segundo domingo da Quaresma: “Jesus tomou consigo Pedro”.
Primeiro, sermão aos pregadores, onde se diz: “Sobe a mim ao monte”.
Também sermão aos penitentes ou religiosos, onde se diz: “Quando chegares ao carvalho do Tabor”.
Também sermão na Natividade do Senhor ou na festa da bem-aventurada Maria, onde se diz: “Jacó viu em sonho uma escada”.
Também sermão aos fiéis da Igreja, onde se diz: “Moisés e Aarão”, e sobre a propriedade da safira.
Também sermão sobre o discernimento, onde se diz: “O teu nariz é como a torre do Líbano”, etc.
Também sermão sobre a contemplação, onde se diz: “Provai e vede”, e sobre a propriedade do sol.
Também sermão sobre a misericórdia de Deus para com os pecadores convertidos, onde se diz: “Se os vossos pecados forem como o escarlate”.
Também sermão ao prelado, onde se diz: “E apareceram Moisés e Elias”.
Também sermão na dedicação de uma igreja ou na festividade de um mártir
1. “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e conduziu-os a um monte muito elevado”, etc. (Mt 17,1).
No Êxodo, o Senhor falou a Moisés, dizendo: “Sobe a mim ao monte e permanece ali; e dar-te-ei duas tábuas, a lei e os mandamentos que escrevi, para que os ensines aos filhos de Israel” (Ex 24,12). Moisés interpreta-se como ‘aquático’ (cf. Ex 2,10), e significa o pregador que irriga as mentes dos fiéis com a água da doutrina “que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). A este diz o Senhor: “Sobe a mim ao monte”. O monte, por causa de sua altura, significa a sublimidade da vida santa, à qual o pregador deve subir, deixando o vale das coisas temporais, pela escada do amor divino; e ali encontrará o Senhor. Com efeito, é na sublimidade da vida santa que se encontra o Senhor. Por isso se diz no Gênesis: “No monte o Senhor verá” (Gn 22,14), isto é, na sublimidade da vida santa ele fará ver e compreender o que se deve a Deus e o que se deve ao próximo.
“Dar-te-ei”, diz ele, “duas tábuas”. Nas duas tábuas é indicada a ciência dos dois Testamentos, a única que sabe ensinar, a única que torna sábios; esta é a única ciência que ensina a amar a Deus, a desprezar o mundo e a submeter a carne. O pregador deve ensinar isso aos filhos de Israel, pois toda a lei e os profetas dependem disso (cf. Mt 22,40). Mas onde se encontra esta ciência tão preciosa? Verdadeiramente, no monte. “Sobe”, diz ele, “a mim ao monte e permanece ali”, porque ali está “a mudança feita pela direita do Altíssimo” (Sl 76,11), a transfiguração do Senhor, a contemplação da verdadeira alegria. Por isso, acerca desse monte, diz-se no evangelho de hoje: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João”, etc.
2. Observa que neste evangelho se assinalam cinco acontecimentos muito dignos de nota: a subida de Jesus Cristo com os três apóstolos ao monte, a sua transfiguração, a aparição de Moisés e Elias, a sombra produzida pela nuvem luminosa e a declaração da voz do Pai: “Este é o meu Filho caríssimo”. Vejamos, para honra de Deus e utilidade de vossas almas, o que estes cinco acontecimentos significam moralmente, conforme Deus se dignar inspirar.
3. Digamos, pois: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João”. Estes três apóstolos e companheiros íntimos de Jesus Cristo representam as três faculdades de nossa alma, sem as quais ninguém pode subir ao monte da luz, isto é, à sublimidade da vida santa. Pedro interpreta-se como ‘aquele que reconhece’, Tiago, ‘aquele que suplanta’, e João, ‘graça do Senhor’. Jesus tomou, pois, consigo Pedro etc. Toma também tu, que crês em Jesus e esperas de Jesus a salvação, Pedro, isto é, o conhecimento, a consciência do teu pecado, que consiste em três coisas: na soberba do coração, na lascívia da carne e na avareza do mundo. Toma Tiago, isto é, a supressão desses vícios, para que, como sob a planta da razão, esmagues a soberba do teu espírito, mortifiques a lascívia da tua carne e reprimas a vaidade do mundo enganador. Toma também João, isto é, a graça do Senhor, que está à porta e bate (cf. Ap 3,10), para que te ilumine a fim de reconheceres os males que cometeste e te conserve no bem que começaste.
Estes são os três homens de quem Samuel disse a Saul, no Primeiro Livro dos Reis: “Quando chegares ao carvalho do Tabor, encontrarás ali três homens que sobem a Deus, em Betel: um levando três cabritos, outro três pães redondos e outro levando uma ânfora de vinho” (1Rs 10,3). O carvalho do Tabor e o monte Tabor significam a sublimidade da vida santa, que bem é chamada carvalho, monte e Tabor: ‘carvalho’, porque é constante e inflexível pela perseverança final; ‘monte’, porque é elevada e sublime pela contemplação de Deus; ‘Tabor’, que se interpreta como ‘luz que vem’, pela iluminação do bom exemplo. Na sublimidade da vida santa requerem-se estas três coisas: que seja constante em si mesma, contemplativa para com Deus e iluminadora do próximo. “Quando, pois, chegares”, isto é, quando decidires chegar ou subir ao “carvalho” ou ao monte “Tabor, encontrarás ali três homens que sobem a Deus, em Betel”. Estes três homens são Pedro, isto é, aquele que reconhece; Tiago, isto é, aquele que suplanta; e João, isto é, a graça do Senhor. Pedro leva três cabritos, Tiago três pães redondos, João uma ânfora de vinho.
Pedro, isto é, aquele que se reconhece pecador, leva três cabritos. No cabrito é assinalado o fedor do pecado; nos três cabritos, os três gêneros de pecados pelos quais pecamos principalmente: a soberba do coração, a petulância da carne e a avareza do mundo. Portanto, quem quiser subir ao monte da luz deve levar estes três cabritos, isto é, reconhecer-se pecador nessas três coisas.
Tiago, isto é, aquele que suplanta os vícios da carne, leva três pães redondos. O pão significa a suavidade da alma, que consiste na humildade do coração, na castidade do corpo e no amor à pobreza; ninguém poderá ter essa suavidade se antes não tiver suplantado os vícios. Leva, pois, três pães redondos, isto é, a tríplice suavidade da alma, aquele que reprime a soberba do coração, restringe a petulância da carne e rejeita a avareza do mundo.
João, isto é, aquele que, pela graça do Senhor que o precede e acompanha, conserva todas essas coisas fiel e perseverantemente, leva verdadeiramente a ânfora de vinho. O vinho na ânfora é a graça do Espírito Santo na boa vontade.
“Jesus tomou, pois, consigo Pedro, Tiago e João.” Toma também tu estes três homens e sobe ao monte Tabor.
4. Mas, crede em mim, difícil é a subida, porque o monte é elevado. Quereis, portanto, subir com toda a facilidade? Tende aquela escada da qual se lê e se canta assim na história bíblica deste domingo: “Jacó viu em sonho uma escada erguida, ou apoiada sobre a terra, cujo cimo tocava o céu; viu também os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada” (Gn 28,12-13). Observai cada palavra, e haverá concordância com o Evangelho. “Viu”: eis o conhecimento do pecado, acerca do qual diz o bem-aventurado Bernardo: ‘Que Deus não me conceda outra visão senão conhecer os meus pecados’. “Jacó”, que na interpretação tem o mesmo significado de “Tiago”: eis a sujeição da carne; dele, com efeito, disse Esaú: “Eis que me suplantou pela segunda vez” (Gn 27,36). “Em sonho”: eis a graça do Senhor, que infunde o sono da quietude e da paz. O sono é assim descrito pelo Filósofo: “O sono é o repouso das faculdades animais, com a intensificação das naturais”. Com efeito, quando alguém dorme o sono da graça, nele repousam as coisas carnais de suas obras más e se fortalecem as espirituais. Por isso se diz no Gênesis: “Quando o sol se pôs, um torpor caiu sobre Abraão, e um grande horror o invadiu” (Gn 15,12). Por “sol” entende-se aqui o prazer carnal; quando este se põe, um torpor, isto é, o êxtase da contemplação, cai sobre nós, e um grande horror nos invade por causa dos pecados passados e das penas do inferno. Quereis ouvir o fortalecimento das faculdades espirituais e o enfraquecimento das carnais? “Eu durmo”, diz a esposa no Cântico dos Cânticos, isto é, repouso do amor às coisas temporais, “e o meu coração vigia” (Ct 5,2) na contemplação das celestes. Diz-se, portanto, com razão: “Jacó viu em sonho uma escada”, pela qual podes subir ao monte Tabor.
5. Observa que esta escada tem dois braços e seis degraus, pelos quais se torna possível a subida. Esta escada significa Jesus Cristo; os dois braços significam a natureza divina e a humana; os seis degraus são sua humildade e pobreza, sabedoria e misericórdia, paciência e obediência. Foi humilde ao assumir a nossa natureza, quando “olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Foi pobre em seu nascimento, no qual a pobre Virgem, dando à luz o próprio Filho de Deus, não teve onde recliná-lo, senão depois de envolvê-lo em faixas e recliná-lo numa manjedoura de animais (cf. Lc 2,7). Foi sábio em sua pregação, porque “começou a fazer e a ensinar” (At 1,1). Foi misericordioso ao acolher benignamente os pecadores: “Não vim”, diz ele, “chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13) à penitência. Foi paciente sob os flagelos, as bofetadas e os escarros; por isso ele mesmo diz por Isaías: “Tornei o meu rosto como uma pedra duríssima” (Is 50,7). A pedra, quando é golpeada, não revida nem murmura contra aquele que a golpeia. Assim foi Cristo: “Quando era ultrajado, não revidava com ultrajes; quando sofria, não ameaçava” (1Pd 2,23). Foi também “obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Esta escada permanecia apoiada na terra quando ele se dedicava à pregação e à realização de milagres; tocava o céu quando, como diz Lucas, passava a noite em oração (cf. Lc 6,12).
Eis que a escada está erguida. Por que, então, não subis? Por que continuais a rastejar pela terra com as mãos e os pés? Subi, pois, porque Jacó viu os anjos subindo e descendo pela escada. Subi, pois, ó anjos, ó prelados da Igreja, ó fiéis de Jesus Cristo; subi, digo, para contemplar quão suave é o Senhor (cf. Sl 33,9); descei para ajudar e aconselhar, porque disso necessita o próximo. Por que tentais subir por outro caminho, em vez de subir pela escada? De qualquer lado por onde quiserdes subir, um precipício vos ameaça. “Ó insensatos e tardos de coração”, não digo “para crer” (Lc 24,25), porque credes, e também os demônios creem (cf. Tg 2,19); mas sois duros e de pedra para agir! Presumis poder subir por outro caminho ao monte Tabor, ao repouso da luz, à glória da bem-aventurança celeste, senão pela escada da humildade, da pobreza e da Paixão do Senhor? Convencei-vos de que não é possível! Pois esta é a palavra do Senhor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). E em Jeremias: “Tu me chamarás Pai e não deixarás de caminhar atrás de mim” (Jr 3,19). Como diz Agostinho: “O médico bebe primeiro o remédio amargo, para que o doente não se recuse a bebê-lo”. E Gregório: “Pelo cálice amargo da poção chega-se à alegria da cura”. “Para salvar a vida, suportarás o ferro e o fogo” (Ovídio, “Remédios do amor”). Subi, pois, não tenhais medo, porque o Senhor está junto ao topo da escada, pronto para acolher os que sobem. “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu a um monte muito alto”.
6. Segue-se o segundo ponto: “E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,2). Imprime-te, pois, como cera mole, nesta figura, para que possas receber a figura de Jesus Cristo, que foi assim: “Seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes se tornaram brancas como a neve” (Mt 17,2). Nesta passagem são observadas quatro coisas: o rosto e o sol, as vestes e a neve. Vejamos o que significam moralmente o rosto e o sol, as vestes e a neve.
Observa que na parte anterior da cabeça, que se chama rosto do homem, há três sentidos, ordenados e dispostos com admirável ordem: a visão, o olfato e o paladar. O olfato está situado entre a visão e o paladar, como uma espécie de balança. Do mesmo modo, no rosto da nossa alma há três sentidos espirituais, dispostos na ordem perfeita pela sabedoria do sumo Artífice: a visão da fé, o olfato do discernimento e o paladar da contemplação.
7. A respeito da visão da fé, lê-se no Êxodo que “Moisés e Aarão, Nadab e Abiú e setenta dos anciãos de Israel viram o Senhor de Israel; e sob seus pés havia algo semelhante a uma obra de pedra de safira, e semelhante ao céu quando está sereno” (Ex 24,9-10). Nesta passagem são descritos todos aqueles que veem, e o que devem ver, isto é, crer, com o olho da fé. “Moisés e Aarão” etc. Moisés interpreta-se como “aquático” e significa todos os religiosos, que devem ser banhados pelas águas das lágrimas. Para isso, com efeito, foram tirados do rio do Egito, a fim de que semeiem nesta solidão horrível entre lágrimas e depois colham com júbilo na terra prometida. Aarão, sumo pontífice, interpreta-se como “montanhês” (cf. Ex 4,27) e significa todos os prelados maiores da Igreja, que estão constituídos no monte da dignidade. Nadab, que se interpreta como “espontâneo”, significa todos os súditos, que devem obedecer espontaneamente, e não por coação. Abiú, que se interpreta como “pai deles”, significa todos aqueles que estão unidos em matrimônio segundo a forma da Igreja, para que sejam pais de filhos. Os setenta anciãos de Israel significam todos os batizados, que receberam no Batismo o Espírito da graça sétupla.
Todos estes veem, isto é, creem, e devem ver, isto é, crer, no Deus de Israel. “E sob seus pés havia algo semelhante a uma obra de pedra de safira” etc. Eis o que devem crer. Quando se diz “Senhor de Israel”, eis a divindade; quando se diz “sob seus pés”, eis a humanidade de Jesus Cristo, que devemos crer verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Sobre esses pés Moisés diz no Deuteronômio: “Os que se aproximam de seus pés receberão a sua doutrina” (Dt 33,3). Por isso se diz que Maria estava sentada aos pés do Senhor e ouvia a sua palavra (cf. Lc 10,39). Sob os pés do Senhor, isto é, depois da Encarnação de Jesus Cristo, apareceu a obra do Senhor, semelhante a uma pedra de safira e semelhante ao céu quando está sereno. A pedra de safira e o céu sereno têm a mesma cor.
E observa que a safira tem quatro propriedades: mostra em si mesma uma estrela, mata o carbúnculo, é semelhante ao céu sereno e estanca o sangue. A pedra de safira significa a santa Igreja, que começou depois da Encarnação de Cristo e durará até o fim dos séculos. Ela se divide em quatro ordens, a saber, apóstolos, mártires, confessores e virgens, que entendemos corretamente pelas quatro propriedades da pedra de safira.
A safira mostra em si mesma uma estrela; e nisso significa os apóstolos, que foram os primeiros a mostrar a estrela matutina da fé aos que estavam sentados nas trevas e na sombra da morte (cf. Lc 1,79). A safira mata, com o seu toque, o carbúnculo, que é uma doença mortal; e nisso significa os mártires, que com o seu martírio mataram o carbúnculo da idolatria. A safira, que é semelhante à cor celeste, significa os confessores, que, considerando todas as coisas temporais como esterco, suspenderam-se, pela corda do amor divino, à contemplação da bem-aventurança celeste, dizendo com o Apóstolo: “A nossa cidadania está nos céus” (Fl 3,20). Do mesmo modo, a safira estanca o sangue; e nisso significa as virgens, que, pelo amor do Esposo celeste, estancaram inteiramente em si mesmas o sangue da concupiscência carnal. Esta é a admirável obra da pedra de safira que apareceu sob os pés do Senhor. Eis que tens claramente o que a tua alma deve ver e o que deve crer com o olho da fé.
8. Sobre o olfato do discernimento, diz-se no Cântico do amor: “Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para Damasco” (Ct 7,4). Nesta autoridade há quatro palavras muito dignas de nota: nariz, torre, Líbano e Damasco. No nariz se indica o discernimento; na torre, a humildade; no Líbano, que se interpreta “brancura”, a castidade; em Damasco, que se interpreta “aquele que bebe sangue”, designa-se a malícia do diabo. O nariz da alma, portanto, é a virtude do discernimento, pela qual, como por meio do nariz, deve distinguir o odor do mau cheiro, o vício da virtude, e também pressentir as coisas colocadas longe, isto é, as tentações futuras do diabo. Por isso diz Jó acerca do homem justo: “De longe sente o odor da guerra, a exortação dos chefes e o brado do exército” (Jó 39,25). Com efeito, a alma fiel, pelo nariz, isto é, pela virtude do discernimento, pressente a “guerra” da carne e a “exortação dos chefes”, isto é, as sugestões da razão vã, representadas pelos chefes, para que, sob a aparência de santidade, não caia na cova da iniquidade; e “o brado do exército”, isto é, as tentações dos demônios, que uivam como feras. Uivar, com efeito, é próprio das feras.
Este nariz da esposa deve ser como a torre do Líbano: pois é sobretudo na humildade do coração e na castidade do corpo que consiste a virtude do discernimento. E com razão a humildade é chamada torre da castidade, porque, assim como a torre defende o castelo, assim a humildade do coração defende a castidade do corpo contra os dardos da fornicação. Se tal for o nariz da esposa, poderá olhar bem para Damasco, isto é, para o diabo, que deseja beber o sangue de nossas almas, desmascarando a sutileza de sua malícia.
9. Sobre o gosto da contemplação, diz o Profeta: “Provai e vede quão suave é o Senhor” (Sl 33,9). Provai, isto é, com a garganta de vossa mente triturai e, triturando, recordai a bem-aventurança daquela Jerusalém celeste, a glorificação das almas santas, a inefável glória da dignidade angélica, a eterna doçura da Trindade e da Unidade; considerai também quão grande será a glória de participar dos coros dos anjos, de louvar a Deus com eles com voz incansável, de contemplar o rosto presente de Deus, de admirar o maná da divindade na urna dourada da humanidade. Se provardes bem essas coisas, verdadeiramente, verdadeiramente vereis quão suave é o Senhor. Feliz aquela alma cujo rosto é assinalado e adornado por tais sentidos!
E note-se que o olfato, como uma espécie de balança, é colocado entre a visão da fé e o gosto da contemplação. Com efeito, na fé é necessário o discernimento, para que não queiramos aproximar-nos e ver a sarça ardente (cf. Ex 3,3), nem desatar a correia da sandália (cf. Lc 3,16), isto é, investigar o segredo da Encarnação do Senhor. Crê somente, e isso basta. Não está em teu poder desatar a correia. Diz Salomão: “Quem perscruta a majestade será oprimido pela glória” (Pr 25,27). Creiamos, portanto, firmemente, e confessemos com simplicidade.
Também na contemplação é necessário o discernimento, para que não saboreemos da sabedoria celeste mais do que convém saborear (cf. Rm 12,3). Por isso diz Salomão nos Provérbios: “Filho, encontraste mel”, isto é, a doçura da contemplação? “Come o que te basta, para que, saciado, não o vomites” (Pr 25,16). Vomita o mel aquele que, não contente com a graça que lhe foi dada gratuitamente, deseja investigar com a razão humana a doçura da contemplação, sem atentar para aquilo que se diz no Gênesis: ao nascer Benjamim, morreu Raquel (cf. Gn 35,17-19). Em Benjamim é representada a graça da contemplação; em Raquel, a razão humana. Ao nascer, portanto, Benjamim, morre Raquel, porque, quando a mente, elevada acima de si mesma na contemplação, contempla algo da luz da divindade, toda razão humana sucumbe. A morte de Raquel é o desaparecimento da razão. Por isso disse alguém: Ninguém chega ali pela razão humana, onde Paulo foi arrebatado.
Seja, portanto, o olfato do discernimento como uma espécie de balança entre a visão da fé e o gosto da contemplação, para que o rosto de nossa alma resplandeça como o sol.
10. E note-se que no sol há três coisas: claridade, brancura e calor. E vede quão bem estas três propriedades do sol correspondem aos três sentidos da alma acima mencionados. A claridade do sol corresponde à visão da fé, que, pela clareza de sua luz, contempla e crê nas coisas invisíveis; a brancura, isto é, a limpeza ou pureza, corresponde ao olfato do discernimento. E com razão, porque, assim como fechamos e desviamos o nariz de uma coisa fétida, assim devemos afastar-nos da imundície do pecado pela virtude do discernimento. Também o calor do sol corresponde ao gosto da contemplação, na qual há verdadeiramente o calor do amor. Por isso diz o bem-aventurado Bernardo: É impossível contemplar o Bem supremo sem amá-lo; pois o próprio Deus é amor.
Atendei, portanto, caríssimos, e vede quão útil, quão salutar é tomar consigo estes três companheiros e subir ao monte da luz, porque ali há verdadeiramente a transfiguração da aparência deste mundo, que passa (cf. 1Cor 7,31), para a figura de Deus, que permanece pelos séculos dos séculos; dela se diz: “Seu rosto resplandeceu como o sol”. Resplandeça também o rosto de nossa alma como o sol, para que aquilo que vemos pela fé brilhe nas obras; e o bem que discernimos interiormente realizemos exteriormente na pureza da ação, pela virtude do discernimento; e aquilo que saboreamos na contemplação de Deus arda com calor no amor do próximo. E assim nosso rosto resplandecerá como o sol.
11. Segue-se: “Suas vestes tornaram-se brancas como a neve” (Mt 17,2), “como nenhum lavadeiro pode fazê-las sobre a terra” (Mc 9,2). As vestes de nossa alma são os membros deste corpo; eles devem ser cândidos. Por isso diz Salomão: “Em todo tempo sejam brancas as tuas vestes” (Ecl 9,8). Mas com que brancura? “Como a neve”, diz ele. O Senhor promete aos pecadores convertidos, por meio de Isaías: “Se os vossos pecados forem como o escarlate, serão embranquecidos como a neve” (Is 1,18). Note aqui duas coisas: o escarlate e a neve. O escarlate é um tecido que tem a cor do fogo e do sangue. A neve é fria e branca. No fogo é designado o ardor do pecado; no sangue, a sua imundície; no frio da neve, a graça do Espírito Santo; na brancura, a pureza da mente. Diz, portanto, o Senhor: “Se os vossos pecados forem como o escarlate” etc., como se dissesse: Se vos converterdes a mim, infundirei em vós a graça do Espírito Santo, que extinguirá o ardor do pecado e lavará a sua imundície. Ele mesmo diz por meio de Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados de todas as vossas imundícies” (Ez 36,25). Portanto, as vestes, isto é, os membros de nosso corpo, sejam brancas como a neve, para que o frio da neve, isto é, a compunção da mente, extinga o ardor do pecado, e a brancura da santa conduta lave a imundície do pecado.
Ou então, as vestes de nossa alma são as virtudes, com as quais revestida ela aparece gloriosa diante do Senhor. Sobre essas vestes diz-se, na história do domingo presente, que Rebeca vestiu Jacó com vestes muito boas, que tinha consigo (cf. Gn 27,15). Rebeca, isto é, a Sabedoria de Deus Pai, vestiu Jacó, isto é, o homem justo, com vestes, isto é, com virtudes boas, porque tecidas pela mão e pela arte da própria Sabedoria; vestes que ela guarda consigo, depositadas no tesouro de sua glória — guarda-as verdadeiramente, porque é a Senhora e possuidora de tudo; guarda-as verdadeiramente, porque as dá a quem quer, quando quer e como quer. Essas vestes são cândidas pelo efeito que produzem, porque tornam o homem cândido, não digo apenas como a neve, mas embranquecem-no mais do que a neve.
Tais vestes o lavadeiro, isto é, o pregador, não pode fazer sobre a terra na lavanderia de sua pregação.
12. Segue-se o terceiro: “E apareceram Moisés e Elias, falando com ele” (Mt 17,3). Ao homem justo, assim transfigurado, assim iluminado, assim revestido, aparecem Moisés e Elias. Por Moisés, que era o mais manso de todos os homens que habitavam sobre a terra (cf. Nm 12,3), cujo “olho”, como se diz no Deuteronômio, “não se obscureceu, nem seus dentes se moveram” (Dt 34,7), entende-se a mansidão da paciência e da misericórdia. Manso diz-se como que habituado à mão (manui assuetus). Ele, como um filho, como um animal manso, está habituado à mão da graça divina; seu olho, isto é, a razão, não se obscurece com a fuligem do ódio, nem se turva com a nuvem do rancor; seus dentes não se movem contra ninguém por meio da murmuração, nem mordem por meio da difamação.
Em Elias, que, como se diz no terceiro livro dos Reis, matou os profetas de Baal na torrente de Cison (cf. 3Rs 18,40), entende-se o zelo pela justiça. Baal interpreta-se como “superior” ou “devorador”; Cison, “a dureza deles”. Portanto, aquele que verdadeiramente arde de zelo pela justiça mata, com a espada da pregação, da ameaça e da excomunhão, os profetas e servos da soberba, que sempre procuram as alturas, e os servos da gula e da luxúria, que tudo devoram, para que, mortos para o vício, vivam para Deus (cf. Gl 2,19). E realiza isso na torrente de Cison, isto é, na abundância da dureza de seu coração, segundo a qual acumulam para si a ira no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus (cf. Rm 2,5).
A respeito disso, o Senhor diz a Ezequiel: “São filhos de dura cerviz e de coração indomável, aos quais eu te envio” (Ez 2,4); “toda a casa de Israel tem, com efeito, a fronte endurecida e a cerviz dura” (Ez 3,7). Tem a fronte endurecida aquele que, quando é repreendido, não somente despreza a correção, mas também não se envergonha do pecado. A este Jeremias repreende: “Tornou-se para ti a fronte de uma prostituta; não quiseste envergonhar-te” (Jr 3,3). Moisés e Elias, isto é, a mansidão da misericórdia e o zelo pela justiça, devem aparecer junto do homem justo, já transfigurado no monte da santa conduta, para que, como o samaritano, possa derramar vinho e óleo sobre as feridas do ferido, de modo que o vigor do vinho supra a suavidade do óleo, e a suavidade do óleo atenue o vigor do vinho.
Por isso, diz-se no Evangelho de Mateus, a respeito do anjo que apareceu na Ressurreição de Cristo, que seu aspecto era como um relâmpago, e suas vestes, como a neve (cf. Mt 28,3). No relâmpago é designada a severidade do juízo; na brancura da neve, a doçura da mansidão. O anjo, isto é, o prelado, deve ter o aspecto do relâmpago, para que as mulheres, isto é, as mentes efeminadas, temam ao contemplar sua santa conduta. Assim fez Ester, da qual se diz em seu livro: “Quando o rei Assuero levantou o rosto e, com os olhos ardentes, manifestou a ira de seu peito, a rainha caiu por terra e, mudando-se sua cor em palidez, reclinou a cabeça desfalecida sobre a serva” (Est 15,10). Mas o prelado, como fez Assuero, deve estender o cetro de ouro da benevolência e vestir as vestes da neve, para que aqueles a quem a severidade paterna repreendeu sejam consolados pela piedosa benevolência materna. Por isso se diz: Tendo os castigos do pai, tenha também os seios da mãe.
O prelado deve ser como o pelicano, que, segundo se conta, mata seus filhotes, mas depois extrai sangue do próprio corpo e o derrama sobre os filhos mortos, fazendo-os assim voltar à vida. Do mesmo modo, o prelado deve, com seu sangue, isto é, com a compunção da mente e a efusão das lágrimas — que, como diz Agostinho, são o sangue da alma —, reconduzir à penitência, na qual está a vida da alma, seus filhos, seus súditos, que corrige com o flagelo da disciplina e mata com a espada da áspera repreensão.
13. E, se estas três coisas, a saber, a subida ao monte, a transfiguração e a aparição de Moisés e Elias, tiverem precedido em ti, alcançarás a quarta, da qual se acrescenta: “Eis que uma nuvem luminosa os cobriu” (Mt 17,5). Algo semelhante encontras no fim do Êxodo, onde se diz: “Depois que tudo foi concluído, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho; e a glória do Senhor o encheu” (Ex 40,31-32).
Observa que no tabernáculo do testemunho havia quatro coisas: o candelabro com sete lâmpadas, a mesa da proposição, a arca do testamento e o altar de ouro (cf. Ex 25,31-37). O tabernáculo do testemunho é o homem justo: “tabernáculo”, porque “a sua vida é uma luta sobre a terra” (Jó 7,1); com efeito, do tabernáculo os soldados armados costumam atacar os inimigos e ser por eles atacados, e o homem justo, colocado no combate, enquanto luta é atacado; por isso se diz: “Para que tu combatas bem, o inimigo, combatendo bem, faz com que combatas bem” (Ovídio, “Pônticas”); “do testemunho”, porque o tem não somente daqueles que estão fora (cf. 1Tm 3,7), cujo testemunho às vezes não se mostra verdadeiro, mas de si mesmo, cuja glória é o testemunho de sua consciência (cf. 1Cor 1,12), e não da língua alheia.
Neste tabernáculo do testemunho, o candelabro de ouro, trabalhado a martelo, com sete lâmpadas, é a compunção do coração de ouro do homem justo, que é golpeada por múltiplos suspiros, como por certos martelos. As sete lâmpadas deste candelabro são os três cabritos, os três pães redondos e a bilha de vinho, que são levados pelos três companheiros acima mencionados do homem justo. Há também no tabernáculo do homem justo a mesa da proposição, pela qual se entende a excelência da vida santa; sobre ela devem ser postos os pães da proposição, isto é, o alimento da pregação, que deve ser oferecido a todos. Por isso diz o Apóstolo: “Sou devedor aos gregos e aos bárbaros” (Rm 1,14). Ali está também a arca do testamento, na qual havia o maná e a vara. Na arca, isto é, na mente do homem justo, deve estar o maná da mansidão, para que seja como Moisés, e a vara da correção, para que seja como Elias. Há também ali o altar de ouro, pelo qual se entende o firme propósito da perseverança final. Neste altar oferece-se diariamente o incenso da devota compunção e o perfume da oração fragrante.
14. Diz-se, portanto, com razão: “Depois que tudo foi concluído, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho”. Esse tabernáculo, no qual está aperfeiçoado tudo o que diz respeito à perfeição, é coberto pela nuvem e preenchido pela glória do Senhor, da qual se diz no Evangelho de hoje: “E uma nuvem luminosa os envolveu”. Com efeito, a graça do Senhor protege o homem justo transfigurado no monte da luz, isto é, da santa conduta: protege-o do ardor da prosperidade mundana, da chuva da concupiscência carnal, da tempestade da perseguição diabólica; e assim ele merece ouvir o sussurro de uma brisa suave (cf. 3Rs 19,12), a doçura de Deus Pai: “Este é o meu filho caríssimo; ouvi-o” (Mt 17,5). É verdadeiramente digno de ser chamado filho de Deus aquele que tomou consigo os três companheiros acima mencionados, subiu ao monte, transfigurou-se da figura do mundo na figura de Deus, teve Moisés e Elias como companheiros e mereceu ser envolvido pela nuvem luminosa.
Rogamos, portanto, Senhor Jesus, que nos faças subir do vale da miséria ao monte da santa vida, para que, marcados pela imagem da tua Paixão e enriquecidos pela mansidão da misericórdia e pelo zelo da justiça, mereçamos, no dia do juízo, ser envolvidos pela nuvem luminosa e ouvir a voz da alegria, da felicidade e da exultação: “Vinde, benditos de meu Pai”, que vos abençoou no monte Tabor, “recebei o reino que vos foi preparado desde a origem do mundo” (Mt 25,34). Digne-se conduzir-nos a esse reino aquele a quem pertencem a honra e a glória, o louvor e o domínio, a majestade e a eternidade pelos séculos dos séculos. Diga todo espírito: Amém.