Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 7

Domingo I da Quaresma (II) da Penitência Dominica I in Quadragesima (II) de Poenitentia

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 5 seções · 26 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Exórdio. Sermão aos religiosos, ou sobre a alma penitente

1. “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto” etc. (Mt 4,1).

Lê-se no Apocalipse: “Foram dadas à mulher duas asas de águia, para que voasse ao deserto” (Ap 12,14). Essa mulher significa a alma penitente, da qual o Senhor diz em João: “A mulher”, isto é, a alma, “quando dá à luz” na confissão o pecado que concebeu no prazer, “fica triste” (Jo 16,21), e deve ficar. A essa mulher são dadas duas asas de águia. A águia, assim chamada pela agudeza da vista ou do bico, significa o homem justo; a águia, de fato, tem a vista agudíssima e, quando seu bico engrossa por causa da extrema velhice, afia-o contra uma pedra e assim rejuvenesce. Do mesmo modo, o homem justo, pela agudeza da contemplação, contempla o esplendor do verdadeiro sol; e, se alguma vez o seu bico, isto é, o afeto da mente, engrossa por causa de algum pecado, de modo que não possa tomar o alimento habitual da doçura interior, imediatamente o afia na pedra da confissão e assim rejuvenesce na juventude da graça. Por isso o Profeta diz dele: “A tua juventude se renovará como a da águia” (Sl 102,5).

As duas asas dessa águia são o amor e o temor de Deus, dos quais o Senhor diz a Jó: “Acaso é pela tua sabedoria que o gavião se cobre de penas, estendendo as suas asas para o sul?” (Jó 39,26). A águia e o gavião, neste lugar, significam o homem justo. E observai que o gavião faz duas coisas: apanha com o pé e não apanha uma ave senão em voo. Assim também o homem justo: apanha com o pé do afeto e não alcança o bem senão voando; não se preocupa com as coisas terrenas. Este se cobre de penas pela sabedoria de Deus. As penas do gavião são os pensamentos puros do homem justo, que crescem ordenadamente na mente do justo por meio da sabedoria de Deus, assim chamada de sabor: pois, quanto saboreias Deus, tanto te cobres de penas; quanto sentes a doçura de seu sabor, tantas penas de bons pensamentos emites. E assim este gavião estende as suas asas, isto é, o amor e o temor divinos, para o sul, isto é, para Jesus Cristo, que vem do sul (cf. Hab 3,3), para derramar o calor que nutre e infundir nelas a graça que sustenta. Essas duas asas são dadas à mulher, isto é, à alma penitente, para que, elevada acima das coisas terrenas, voe para o deserto da penitência, do qual se diz no evangelho deste domingo: “Jesus foi conduzido ao deserto” etc.

2. Neste domingo, diz-se no intróito da missa: “Ele me invocará, e eu o atenderei”, e [lê-se] a epístola do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Exortamos-vos a não receberdes em vão a graça de Deus”. Como chegaram para nós os dias da penitência, para remir os pecados e salvar as almas, tratemos da penitência, que consiste em três atos: a contrição do coração, a confissão da boca e a satisfação das obras; e tratemos também de seus opostos, a saber, a gula, a vanglória e a avareza, seis coisas que são assinaladas no evangelho de hoje, para louvor de Deus e utilidade de nossa alma.

I. A contrição do coração

3. Digamos, portanto: “Jesus foi conduzido ao deserto”. “Dei-vos o exemplo”, diz Jesus, “para que, assim como eu fiz, também vós façais” (Jo 13,15). Que fez Jesus? “Foi conduzido pelo Espírito ao deserto.” E tu, que crês em Jesus e esperas de Jesus a salvação, deixa-te conduzir, suplico-te, pelo espírito de contrição ao deserto da confissão, para cumprires perfeitamente o número quarenta da satisfação.

E observa que a contrição do coração é chamada espírito; por isso Davi diz: “Com um sopro impetuoso despedaçarás as naus de Társis” (Sl 47,8). Társis interpreta-se como “busca do prazer”. As naus de Társis são as mentes dos seculares, que, pelo mar deste mundo, são arrastadas pela vela da concupiscência carnal e pelo vento da vanglória, em busca do prazer da prosperidade mundana. Portanto, com o espírito impetuoso da contrição, o Senhor despedaça as naus de Társis, isto é, as mentes dos seculares, para que, contritas, não busquem o prazer vazio, mas o pleno. E observa que o espírito de contrição é chamado impetuoso por duas razões: porque eleva a mente e elimina o eterno “ai!”. Deste espírito se diz no Gênesis: “Soprou em seu rosto o sopro de vida” (Gn 2,7). O sopro de vida, que é a contrição do coração, o Senhor sopra então no rosto da alma quando a imagem e semelhança de Deus, desfigurada pelo pecado, é novamente impressa no rosto da própria alma pela contrição do coração e, uma vez impressa, é renovada.

4. Qual deve ser a contrição, mostra-o o Profeta quando diz: “Sacrifício para Deus é um espírito contrito; um coração contrito e humilhado, ó Deus, não desprezarás” (Sl 50,19). Neste versículo são assinaladas quatro coisas: a compunção do espírito contrito pelos pecados, a reconciliação do pecador, a contrição universal de todos os pecados e a perseverante humilhação do pecador contrito. Diz, portanto: o espírito do penitente, contrito e compungido pelos pecados, que são como espinhos, “é sacrifício para Deus”, aplacando Deus em relação ao próprio pecador e reconciliando o próprio pecador com Deus. E, porque a contrição deve ser universal, acrescentou: “um coração contrito”.

E observa que não diz apenas tritum, mas contritum. O pecador deve ter ambos: tritum e contritum; tritum, para que o esmague com o martelo da contrição e o divida, com a espada da dor, em muitas partículas, e ponha uma partícula sobre cada pecado mortal, e chore sofrendo e sofra chorando; e se aflija mais por um pecado mortal que cometeu do que se tivesse perdido, sendo senhor de todo o mundo e de tudo o que nele existe, o mundo inteiro. Pois, pelo pecado mortal, perdeu o Filho de Deus, que é mais digno, mais caro e mais precioso que todas as criaturas. Deve também ter um coração contritum, isto é, triturado juntamente, para que se contrite de modo geral por todos os pecados cometidos, omitidos e esquecidos.

E, porque a consumação de todo bem é a humildade, por isso se põe em quarto e último lugar: “e humilhado”, diz ele, “Deus não o desprezará”. Antes, como diz Isaías: “O Excelso e Sublime, que habita a eternidade, habita com o contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes e vivificar o coração dos contritos” (Is 57,15). Ó bondade de Deus! Ó dignidade do penitente! Aquele que habita a eternidade habita no coração do humilde e no espírito do penitente! É próprio do coração verdadeiramente contrito humilhar-se em tudo e considerar-se um cão morto e uma pulga (cf. 1Rs 24,15).

II. A confissão da boca

5. Desse espírito de contrição, portanto, o penitente é conduzido ao deserto da confissão, que é bem chamada deserto por três motivos. Observa que se chama deserto aquela terra que é inabitável, abundante em feras e horrível pelo temor. Assim era, literalmente, o deserto no qual Jesus Cristo esteve durante quarenta dias e quarenta noites. Do mesmo modo, a confissão deve ser inabitável, isto é, privada, secreta, escondida ao conhecimento de todo homem e depositada no tesouro da memória somente do confessor, sob selo inviolável, e oculta a toda consciência humana; de tal modo que, ainda que todos os homens que estão no mundo conhecessem o pecado do pecador que se confessa a ti, tu, não obstante, deves ocultá-lo e fechá-lo sob a chave do silêncio perpétuo.

São verdadeiramente filhos do diabo, rejeitados pelo Deus vivo e verdadeiro, expulsos da Igreja triunfante, excomungados pela Igreja militante, devendo ser depostos do ofício e do benefício e expostos à infâmia pública, aqueles que, não digo com a palavra, o que é pior que todo homicídio, mas por um gesto ou por qualquer outro modo, oculto ou manifesto, por zombaria ou por aplauso, desnudam e manifestam a confissão. Digo-o com audácia: quem quer que descubra a confissão peca mais gravemente que Judas traidor, que vendeu aos judeus o Filho de Deus, Jesus Cristo. Confesso-me a um homem, não como a um homem, mas como a Deus. E o Senhor diz em Isaías: “Meu segredo é para mim, meu segredo é para mim” (Is 24,16). E o homem, nascido da terra, não selará o segredo da confissão no santuário de seu coração?

6. Diz-se, portanto, com razão, que a confissão deve ser como uma terra inabitável e inacessível, para que o segredo da confissão não se torne manifesto a homem algum. Por isso, o Senhor, ameaçando, ordena no Êxodo, dizendo: “Guardai-vos de subir ao monte e de tocar os seus limites; todo aquele que tocar o monte morrerá. Mão alguma o tocará, mas será apedrejado ou traspassado por flechas; seja animal, seja homem, não viverá” (Ex 19,12-13). Esse monte Sinai, cujo nome se interpreta como medida, significa a confissão, que é bem chamada “monte” por causa de sua excelência, isto é, a remissão do pecado — e que excelência ou altura pode ser maior que a remissão do pecado? —, e “medida” por causa da correspondência entre a própria confissão e a culpa. Com efeito, o pecador deve estabelecer tal correspondência, de modo que a confissão corresponda igualmente à culpa, para que não diga menos por vergonha ou temor, nem acrescente mais sob aparência de humildade do que corresponde à verdade do fato. Pois ninguém deve mentir por motivo de humildade.

Guardai-vos, portanto, ó confessores, ó sacerdotes, de subir a este monte. Subir ao monte é desvelar o segredo da confissão. E não digo somente: “não subais”, mas também: “nem toqueis os seus limites”. Os limites do monte são as circunstâncias da confissão, que ninguém deve tocar, nem por palavra, nem por gesto, nem de qualquer outro modo. Ai, infelizmente! Há alguns que temem subir ao monte, mas não receiam tocar os seus limites, desvelando, com certas palavras e gestos, as circunstâncias do pecado. Ouçam, portanto, esses infelizes, a sentença de sua morte: “Todo aquele”, diz o Senhor, “que tocar o monte morrerá”. E de que morte, Senhor? “A mão”, diz ele, do poder secular “não o tocará”, para que seja enforcado como ladrão ou homicida, o que talvez lhe seria mais leve, “mas será esmagado por pedras”, isto é, por severas excomunhões, “ou traspassado” pelas flechas da condenação eterna; seja “animal”, isto é, um simples sacerdote, “seja homem”, isto é, um sacerdote instruído e cheio de ciência, absolutamente “não viverá”. Ou, de outro modo: seja “animal”, isto é, um leigo ou um simples clérigo, aos quais, em caso de necessidade, se não estiver presente um sacerdote, podemos confessar-nos; seja “homem”, isto é, um sacerdote da Igreja, não viverá eternamente, porque subiu ao monte e tocou os seus limites. Diz-se, portanto, com razão, que a confissão é uma terra inabitável e inacessível.

7. A confissão também é chamada deserto porque é abundante em feras. Vejamos quais são essas feras, das quais a confissão deve estar repleta. As feras são chamadas assim, como se fossem devastadoras, e são os pecados mortais, que devastam e dilaceram a alma; deles diz Isaías, falando da pérfida Judeia, isto é, da alma pecadora: “Será covil de dragões e pastagem de avestruzes. E os demônios se encontrarão com os onocentauros; o peludo clamará ali ao outro; ali se deitou a lâmia e encontrou repouso. Ali o ouriço fez a sua toca, alimentou os filhotes, escavou ao redor e os aqueceu à sua sombra” (Is 34,13-15). Observa que nesta passagem são mencionadas sete espécies de feras: o dragão, o avestruz, os onocentauros, isto é, o asno e o touro, o peludo, a lâmia e o ouriço. Por essas feras entendemos sete espécies de pecados, todos os quais, bem como os que lhes são semelhantes, devem ser plenamente desvelados na confissão, tal como foram cometidos no consentimento da mente e na execução da obra. Diz, portanto: “Será covil de dragões” etc. No dragão é indicada a malícia venenosa do ódio e da difamação; no avestruz, a falsidade da hipocrisia; no asno, a luxúria; no touro, a soberba; nos peludos, a avareza e a usura; na lâmia, a perfídia herética; no ouriço, a astuciosa desculpa do pecador.

8. Digamos, portanto: “Será covil de dragões” etc. A mente, ou consciência do pecador, é covil de dragões por causa do veneno do ódio e da difamação. Por isso se diz no cântico de Moisés: “Fel de dragões é o seu vinho, e veneno incurável de áspides” (Dt 32,33). O seu vinho, isto é, o ódio e a difamação dos pecadores, que embriaga e intoxica a mente dos que os ouvem, é fel de dragões e veneno incurável de áspides. Por isso diz Salomão no Eclesiastes: “Se a serpente morde em silêncio, em nada é inferior a ela aquele que difama ocultamente” (Ecl 10,11). E diz bem “incurável”, porque, como afirma o Eclesiástico: “A ferida do flagelo produz um vergão, mas a ferida da língua despedaça os ossos” (Eclo 28,21). Com efeito, a ferida do flagelo produz exteriormente um vergão, mas a ferida da língua da difamação despedaça interiormente os ossos das virtudes. Diz-se, portanto, com razão: “Será covil de dragões”.

9. Segue-se: “E será pastagem de avestruzes”. O avestruz, que tem asas, mas, por causa da grandeza de seu corpo, não pode voar, significa o hipócrita que, agravado pelo amor às coisas terrenas, sob a asa de uma falsa religiosidade, finge ser um gavião, pelo voo da contemplação. “A asa”, diz Jó, “do avestruz é semelhante às asas da cegonha e do gavião” (Jó 39,13). Na mente, portanto, do falso religioso, há pastagem de avestruz. Vede com quanta propriedade se diz “pastagem”. Com efeito, o hipócrita, enquanto é louvado por causa da asa do gavião, alimenta-se do próprio louvor; faz como o pavão que, quando é louvado pelas crianças, exibe a glória de suas penas e, quando abre a cauda em roda, ao fazê-lo, descobre vergonhosamente as partes traseiras. Assim, o hipócrita, enquanto é louvado, exibe as penas da santidade que parece possuir e abre a roda de sua conduta. Com efeito, diz: Fiz isto e aquilo, comecei assim e perseverei desse modo. E, enquanto assim se pavoneia, demonstra a torpeza de sua própria vergonha. O insensato, pois, torna-se repugnante justamente por aquilo com que pensa agradar.

10. “E os demônios virão ao encontro dos onocentauros.” Onos em grego, asinus em latim; por este se entende o luxurioso. Com efeito, o jumento é estúpido, preguiçoso e tímido. Assim, o luxurioso é estúpido, porque perdeu a verdadeira sabedoria, cujo sabor torna sábio e sóbrio o homem e, desse modo, expulsa a luxúria da carne, que torna o homem insensato e estúpido. É também preguiçoso. Daí dizer o Poeta: “Pergunta-se por que Egisto se tornou adúltero. A causa é evidente: era indolente” (Ovídio). É também tímido, como o jumento. Lê-se na História Natural que o animal que tem um coração grande é tímido, e aquele que o tem mediano é mais audaz; e a condição em que esse animal se encontra por causa do medo não se deve senão ao fato de que o calor do coração é moderado e não pode preenchê-lo, porque o pouco calor se enfraquece nos corações grandes e, por isso, o sangue se torna mais frio. Ora, corações grandes encontram-se nas lebres, nos cervos, nos jumentos e nos ratos. Assim como um fogo pequeno aquece menos numa casa grande do que numa pequena, assim também sucede com o calor nesses animais. O mesmo ocorre com o luxurioso, que tem um coração grande para pensar e cometer grande maldade e grande luxúria, mas possui pouco ou nada de calor, de amor do Espírito Santo; por isso é tímido, instável e inconstante em todos os seus caminhos (cf. Tg 1,8). O touro, por sua vez, designa o soberbo. Por isso o Senhor se queixa pela boca do Profeta: “Touros gordos me cercaram” (Sl 21,13). “Touros”, isto é, soberbos, “gordos” pela opulência temporal, “me cercaram”, como os judeus que novamente queriam crucificar-me. Aos onocentauros, portanto, isto é, aos luxuriosos e soberbos, os demônios virão ao encontro na hora da morte, para apoderar-se das almas quando saírem e arrastá-las consigo às penas eternas; assim, terão como torturadores na pena aqueles que tiveram como instigadores na culpa.

11. Segue-se: “E o peludo clamará ao outro”. Peludos são os avarentos e usurários, que são justamente chamados peludos, isto é, endinheirados. A avareza clama pela usura, e a usura pela avareza; aquela convida esta, e esta aquela. Ai, que dor! O clamor desses peludos já encheu o mundo inteiro. É representado por esses o peludo Esaú, cujo nome se interpreta como carvalho; e os avarentos e usurários são peludos ao receber, mas semelhantes a carvalhos, isto é, duros e inflexíveis, ao restituir.

12. “Ali se deitou o chacal e encontrou repouso”. O chacal, segundo se diz, é uma fera que tem rosto humano, mas termina numa cauda de animal; significa os hereges que, para mais facilmente enganarem, apresentam um rosto humano e palavras suaves. Por isso, Jeremias diz deles nas Lamentações: “Os chacais descobrem o peito e amamentam seus filhotes” (Lm 4,3). Os hereges descobrem o peito quando proclamam sua seita, e amamentam seus filhotes quando, nessa falsidade, alimentam seus seguidores pérfidos, que são justamente chamados filhotes, e não filhos, porque nada mais sabem fazer, sendo rústicos, sapateiros e peleteiros, senão ladrar contra a Igreja e blasfemar contra seus católicos.

13. Segue-se: “Ali o ouriço tem a sua toca”. Observa que o ouriço é todo espinhoso; se alguém quiser capturá-lo, ele se recolhe completamente dentro de si e se torna como uma esfera na mão de quem o segura; tem a cabeça e a boca voltadas para baixo e, dentro da boca, tem cinco dentes. O ouriço é o pecador obstinado, coberto por todos os lados pelos espinhos dos pecados. Se quiseres repreendê-lo pelo pecado cometido, imediatamente ele se recolhe dentro de si e esconde, desculpando-se, a culpa que cometeu. E assim tem a cabeça e a boca voltadas para baixo. Na cabeça é designada a mente; na boca, a palavra. O pecador, ao desculpar-se do mal cometido, que outra coisa faz senão inclinar para as coisas terrenas a mente e as palavras? Por isso também se diz que ele tem cinco dentes na boca. Os cinco dentes na boca do ouriço são os cinco modos de desculpar-se do obstinado. Com efeito, quando é repreendido, ou se desculpa por ignorância, ou pela fatalidade, ou pela sugestão do diabo, ou pela fragilidade da carne, ou pela ocasião proporcionada pelo próximo; e assim “nutre”, como acrescenta Isaías, “os filhotes”, isto é, os seus impulsos, “cava ao redor deles e os nutre à sombra” de sua desculpa.

14. Essas sete feras, sob cujo número podem ser compreendidos todos os gêneros de pecados, devem aparecer abundantemente e plenamente no deserto da nossa confissão, para que nada fique oculto ao sacerdote, nada escape ao penitente, mas confesse tudo com a máxima exatidão, tanto o pecado quanto as circunstâncias do pecado. Por isso diz o Senhor por meio de Isaías: “Depois de setenta anos, Tiro será como o canto de uma prostituta. Toma a cítara, percorre a cidade, prostituta entregue ao esquecimento; canta bem, repete o canto, para que haja memória de ti” (Is 23,15-16). O número setenta dos anos e o número sete das feras significam, neste lugar, a totalidade de todos os pecados. Por isso se diz que o Senhor expulsou de Madalena sete demônios, isto é, todos os vícios. Portanto, pelos setenta anos e pelas sete feras entendemos todos os vícios. Diz, pois, Isaías: “Depois de setenta anos”, isto é, depois da prática de todos os crimes, “Tiro”, que se interpreta “angústia”, isto é, a alma angustiada pelos pecados, “será canto”, isto é, confissão dos pecados; pois, depois de cometer todos os crimes, não resta à infeliz alma outro remédio senão a confissão dos pecados, que é a segunda tábua depois do naufrágio. A ela se diz: “Ó prostituta”, porque abandonaste o verdadeiro esposo, Jesus Cristo, e te uniste ao adúltero diabo, e, se não te converteres, serás entregue ao esquecimento eterno; “toma a cítara”. Observa as palavras. Neste verbo “toma” se indica a vontade pronta de confessar-se, não coagida nem forçada; na “cítara”, a confissão de todo pecado e de suas circunstâncias. Toma, pois, a cítara, confessa voluntariamente: “Sadio e vivo”, diz o Eclesiástico, “confessarás” (Eclo 17,27).

15. Observa que, assim como na cítara se estendem as cordas, assim também na confissão devem ser expostas as circunstâncias dos pecados, que são: quem, o quê, onde, por meio de quem, quantas vezes, por quê, de que modo, quando. Distingue todas essas coisas e, tanto com mulheres como com homens, investiga-as com discrição e diligência.

Quem, isto é, se é casado ou solteiro, leigo ou clérigo, rico ou pobre, em que ofício ou dignidade está colocado, se é livre ou servo, a que ordem ou religião pertence. O quê, isto é, quão grande ou de que espécie foi o pecado: se simples fornicação, como a que ocorre entre um solteiro e uma solteira, e se aquela solteira foi prostituta ou vendeu o próprio corpo; se adultério; se incesto, que é entre consanguíneos e afins; se corrompeu uma virgem, porque abriu o caminho ao pecado e pecou gravissimamente; e cuide para não se tornar cúmplice de todos os pecados que aquela mulher possa cometer, a menos que lhe providencie algum lugar onde faça penitência, ou que lhe consiga um casamento, se tiver condições para isso; se pecado contra a natureza, que ocorre sempre que o sêmen é derramado de qualquer modo, exceto no órgão feminino. E isso deve ser investigado com máxima cautela e à distância. Se cometeu homicídio com a mente, com a boca ou com a mão; se cometeu sacrilégio, rapina ou furto, e contra quais pessoas, e se publicamente ou em particular; se praticou usura, e de que modo o fez — pois tudo o que se recebe além do capital chama-se usura —; se houve perjúrio ou falso testemunho, e de que modo o fez; se teve soberba, que é de três espécies: não querer obedecer ao superior, não querer ter um igual, desprezar o inferior: também estas coisas devemos confessar inteiramente.

Onde, isto é, se cometeu o pecado numa igreja consagrada ou não consagrada, ou junto à igreja, ou no cemitério dos fiéis, ou em algum lugar dedicado à oração, ou se nesses lugares falou de assunto ilícito.

Por meio de quem, isto é, com o auxílio ou conselho de quais pessoas pecou, ou fez outros pecarem; se poucos ou muitos foram companheiros e cúmplices de seu pecado; se cometeu o pecado por causa de dinheiro dado ou recebido.

Quantas vezes, isto é, deve confessar quantas vezes pecou, ao menos aproximadamente; se foi assíduo ou raro no pecar; se permaneceu no pecado por longo ou breve tempo; se recaiu muitas vezes e muitas vezes se confessou.

Por quê, isto é, se antecipou a tentação com o consentimento da mente ou com a execução do ato; se, de algum modo, violentou a natureza para consumar o pecado, e então pecou de maneira gravíssima.

De que modo, isto é, de que modo cometeu o pecado; se de modo indevido, extraordinário, por contato ilícito, e assim por diante.

Quando, isto é, se no tempo do jejum, na festa de algum santo; se, quando devia ir à igreja, foi praticar algo ilícito; e também em que idade estava quando cometeu este ou aquele pecado.

Porque estas circunstâncias e outras semelhantes agravam muito o pecado e atormentam a alma do pecador, todas devem ser desnudadas na confissão. Estas são as cordas estendidas na cítara da confissão, da qual se diz: “Toma a cítara”.

16. Segue-se: “Percorre a cidade”. A cidade é a vida do homem, que ele próprio deve percorrer: o tempo e a idade, o pecado e o modo do pecado, o lugar e as pessoas com quem pecou e a quem fez pecar pelo mau exemplo, pela palavra ou pelo ato; e os pecadores de cujo pecado, podendo fazê-lo, não afastou; tudo, como dissemos, deve confessar de maneira clara e aberta. Assim fazia o Profeta, quando dizia: “Percorri ao redor e ofereci em sua tenda um sacrifício de clamor” (Sl 26,6). “Percorri ao redor” toda a minha vida, à maneira do bom soldado que percorre o seu acampamento para que não haja ali alguma brecha pela qual os inimigos possam entrar; “e ofereci em sua tenda”, isto é, na Igreja, diante do sacerdote, “um sacrifício de clamor”, isto é, de confissão, que é justamente chamada clamor, porque o pecador não deve confessar os seus pecados pela metade e com a boca entrecerrada, como quem balbucia, mas de boca aberta, como quem clama. Diz-se, pois, com razão: “Percorre a cidade”.

17. Segue-se: “Canta bem”, acusando a ti mesmo, e não ao demônio, ao destino ou a qualquer outro. Ou ainda: “canta bem”, confessando todos os teus pecados a um só sacerdote, sem dividi-los entre vários. Talvez me perguntes que conselho te dar em tal caso; pois dizes: Fiz a confissão geral de todos os meus pecados a um sacerdote, mas depois recaí em pecado mortal; será necessário confessar novamente todos os pecados já confessados? Dou-te um conselho reto e salutar, e muito necessário para a tua alma. Todas as vezes que te apresentares a um novo confessor, confessa-te como se nunca tivesses sido confessado; mas, se quiseres dirigir-te àquele que conhece a tua consciência e ao qual já confessaste tudo na confissão geral, não estás obrigado a confessar-lhe senão os pecados que cometeste depois da confissão geral, ou também os que esqueceste. “Canta bem”, portanto; “repete o canto” da confissão, acusando-te mais uma vez e sempre. E por quê? “Para que haja memória de ti” diante de Deus e de seus anjos, para que ele te perdoe os pecados, te infunda a graça e te conceda a glória eterna.

18. Eis quais são as feras das quais o deserto da tua confissão deve abundar: que os pecados e suas circunstâncias apareçam na confissão de modo simples e claro; assim, o próprio deserto da confissão será terrível de grande temor. E para quem? Precisamente para os espíritos imundos. Por isso se diz no Gênesis: “Quão terrível é este lugar! Não há aqui outra coisa senão a casa de Deus e a porta do céu” (Gn 28,17). O lugar da confissão, ou melhor, a própria confissão, é terrível para os espíritos imundos. Por isso Jó diz: “O meu rugido é como águas transbordantes” (Jó 3,24). Ao rugido do leão, todas as feras detêm o passo. As águas transbordantes subvertem o obstáculo. O rugido do leão é a confissão do pecador penitente, do qual diz o Profeta: “Eu rugia por causa do gemido do meu coração” (Sl 37,9), porque do gemido do coração deve sair o rugido da confissão; ao ouvi-lo, os espíritos malignos, aterrorizados, não ousam avançar com as tentações. As águas transbordantes são as lágrimas dos contritos, que dissolvem e subvertem tudo quanto os espíritos malignos tramam contra as lágrimas do penitente.

A confissão também é chamada “casa de Deus” por causa da reconciliação do pecador. Com efeito, nela o pecador se reconcilia com Deus, assim como o filho se reconcilia com o pai quando é por ele acolhido na casa paterna. Por isso lês em Lucas que, quando o filho mais velho se aproximava da casa na qual o filho penitente festejava com o pai, ouviu música e coro (cf. Lc 15,25). Observa que naquela casa havia três coisas: o banquete, a música e o coro; assim também na casa da confissão, na qual é acolhido o pecador que retorna da região da dessemelhança, devem existir três coisas: o banquete da contrição, a música da acusação e o coro da emenda; de modo que, assim como te acusas de ser pecador, também te esforces por emendar-te. Ouve a música que ressoa suavemente: “Eu reconheço a minha iniquidade, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 50,5). Ouve o coro que responde em perfeita harmonia: “Estou pronto para os castigos, e a minha dor está sempre diante de mim” (Sl 37,18). Ó quantos fazem ressoar suavemente a música, isto é, acusam a si mesmos, mas jamais se emendam!

19. De outro modo. Se na casa da confissão ressoa a música do pranto e da amarga compunção, imediatamente responde em harmonia o coro da divina misericórdia, que perdoa os pecados. Por isso promete-se no intróito da missa de hoje: “Ele me invocará, e eu o ouvirei” etc. (cf. Sl 90,15-16). Observa que aqui ele faz quatro promessas ao penitente. Primeiro, quando diz: “Ele me invocará”, para que eu lhe perdoe os pecados; “e eu o ouvirei”, porque lhe infundirei a graça. Segundo: “Eu o libertarei” daqueles quatro males dos quais se fala no trato desta missa: do terror noturno, da flecha que voa durante o dia, da peste que perambula nas trevas e do demônio meridiano (cf. Sl 90,5-6). O terror noturno é a tentação oculta do demônio; a flecha que voa é a sua maldade manifesta; a peste que perambula nas trevas é a fraude dos hipócritas; o demônio meridiano é a ardente luxúria da carne. Desses males o Senhor liberta o verdadeiro penitente. Terceiro: “Eu o glorificarei”, no dia do juízo, com a glória de uma veste dupla. Quarto: “Eu o saciarei com longura de dias”, na perpetuidade da vida eterna.

A confissão também é chamada “porta do céu”. Verdadeiramente, verdadeiramente, porta do céu, verdadeiramente porta do paraíso; por meio dela, como por uma porta, o penitente é introduzido ao beijo dos pés da divina misericórdia, é elevado ao beijo das mãos da graça celeste, é acolhido ao beijo do rosto da reconciliação paterna. Ó casa de Deus! Ó porta do céu! Ó confissão do pecado! Feliz aquele que habitar em ti! Feliz aquele que entrar por ti! Feliz aquele que se humilhar em ti! Humilhai-vos, portanto, e entrai, ó caríssimos irmãos, pela porta da confissão; confessai, como ouvistes, os pecados e as circunstâncias do pecado, porque “eis agora o tempo favorável” para confessar, “eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2) para satisfazer. E depois disso acrescenta-se: “E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites” (Mt 4,2).

III. A satisfação pelas obras

20. O jejum de quarenta dias de Jesus Cristo nos ensina de que modo devemos fazer penitência por nossos pecados e como devemos agir para não receber em vão a graça de Deus. Por isso diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Exortamo-vos a não receberdes em vão a graça de Deus. Com efeito, ele diz” — o Senhor, por meio de Isaías —: “No tempo favorável eu te ouvi, e no dia da salvação te ajudei. Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” etc. (2Cor 6,1-2; cf. Is 49,8). Recebe em vão a graça de Deus aquele que não vive segundo a graça que lhe foi dada; ou recebe em vão a graça de Deus aquele que acredita que a graça gratuitamente concedida lhe foi dada por seus próprios méritos; ou ainda a recebe em vão aquele que, depois da confissão de sua culpa, no tempo favorável, no dia da salvação, se recusa a fazer penitência por seus pecados.

Eis, portanto, agora o tempo favorável, eis também o dia da salvação, que nos foram dados para alcançarmos a salvação. Diz o bem-aventurado Bernardo: “Nada é mais precioso que o tempo e, ai!, nada se encontra hoje que seja menos valorizado! Passam os dias da salvação, e ninguém reflete, ninguém se lamenta por perder um dia que jamais voltará. Assim como um cabelo não cairá da cabeça, também não se perderá um instante do tempo”. Diz Sêneca: “Se ainda restasse muito tempo, seria preciso administrá-lo com cautela; agora, porém, em tão grande escassez, que devemos fazer?”. E o Eclesiástico: “Filho, conserva o tempo” (Eclo 4,23), como algo sacrossanto.

Neste sacrossanto período de quarenta dias, façamos, portanto, penitência. O número quarenta consta de quatro e dez. Deus, Criador de todas as coisas, criou o corpo e a alma, e conferiu a cada um o quaternário e o denário. O corpo consta de quatro elementos e é regido e governado por dez sentidos, como que por dez príncipes, que são: dois olhos, duas orelhas, o olfato e o paladar, duas mãos e dois pés. À alma, porém, Deus conferiu quatro virtudes principais, que são: prudência, justiça, fortaleza e temperança; e deu-lhe os dez preceitos do decálogo, que são: “Ouve, Israel: o Senhor teu Deus é um só” (Dt 6,4). “Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus. Lembra-te de santificar o dia de sábado” (Ex 20,7-8). Estes três, que dizem respeito ao amor de Deus, foram escritos na primeira tábua; os outros sete, que dizem respeito ao amor do próximo, na segunda, e são: “Honra teu pai e tua mãe. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não darás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; nem desejarás a mulher dele, nem o servo, nem a serva, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que lhe pertença” (Ex 20,12-17). Portanto, como pecamos todos os dias contra o quaternário das virtudes e o denário dos preceitos neste corpo mortal, que consta de quatro elementos e é regido por dez sentidos, satisfaçamos ao Senhor com o jejum de quarenta dias.

21. E como isso deve ser feito, temos no livro dos Números, onde se narra que os exploradores, enviados por Moisés e pelos filhos de Israel, percorreram durante quarenta dias toda a terra de Canaã (cf. Nm 13,26). Canaã interpreta-se como “comércio” ou também “humilde”. A terra de Canaã é o nosso corpo, com o qual devemos comerciar, trocando, mediante um feliz comércio, as coisas terrenas pelas eternas, as transitórias pelas que permanecem, e isso sempre na humildade do coração. Sobre este comércio diz-se nos Provérbios a respeito da mulher forte: “Provou e viu que bom era o seu comércio” (Pr 31,18). Observa que diz duas coisas: “provou” e “viu”. A mulher forte, isto é, a alma, prova quando, com o saudável paladar da mente, sente a doçura da glória celeste, por cujo amor despreza o reino do mundo e todo o ornamento do século; e assim, com o passar do tempo, pelo olho iluminado da razão, vê e compreende que é bom o seu comércio, isto é, vender tudo o que possui e dá-lo aos pobres (cf. Mt 19,21), e, nu, seguir Jesus Cristo nu. É isto que diz Jó: “Pele por pele, e tudo quanto o homem possui dará por sua alma” (Jó 2,4). O homem, provando e vendo como é suave o Senhor (cf. Sl 33,9), “dará” e trocará a “pele” da pompa mundana pela “pele” da glória celeste; ou, a “pele”, isto é, este corpo de pele e mortal, “dará” ao carrasco e ao torturador, e o exporá à espada e à morte, pela “pele” gloriosa do corpo imortal. E com razão o nosso corpo é chamado “pele”: pois, assim como a pele, quanto mais é lavada, tanto mais se deteriora, assim também o nosso corpo, quanto mais é alimentado delicadamente e efeminado pelos deleites, tanto mais depressa perde as forças, envelhece e se enruga. E o homem dará não somente a pele, mas “tudo quanto possui por sua alma”, para merecer ouvir, como os apóstolos, que deixaram a pele e tudo o mais: “Sentar-vos-eis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel” (Mt 19,28).

22. Nós, portanto, como verdadeiros e valorosos exploradores, durante estes quarenta dias percorramos toda a região do nosso corpo, investigando diligentemente todos os pecados que cometemos pela visão, pela audição, pelo paladar, pelo olfato e pelo tato, confessando-os com todas as suas circunstâncias, para que não reste sequer o menor vestígio deles, seguindo o exemplo de Josué, do qual se diz no mesmo livro: “Josué tomou também Maceda e feriu à espada o seu rei e todos os seus habitantes; não deixou sequer o menor sobrevivente” (Js 10,28). Maceda interpreta-se “primeiro” ou também “combustão”, e significa o pecado pelo qual o homem é primeiro queimado pelo Batismo; esse pecado, porém, é capturado na penitência. O rei dessa cidade é a má vontade, que é ferida na boca da espada, isto é, pela espada da boca, na confissão. Os habitantes do rei são aqueles que obedecem aos cinco sentidos, os quais também devem ser mortos pela penitência, isto é, afastados do pecado. Os restos são a lembrança do pecado e o prazer de falar dele, que de modo algum devem ser deixados.

Lê-se ainda no mesmo livro: “Josué feriu toda a terra montanhosa, a meridional e a campestre, e Asedot com os seus reis; não deixou nela resto algum, mas matou tudo o que tinha respiração” (Js 10,40). A terra montanhosa é a soberba; a meridional, a avareza; a campestre, a luxúria, pela qual o luxurioso vagueia pelos campos como um cavalo desenfreado. Asedot interpreta-se “malefício do povo” e significa toda imaginação torpe, que alimenta o fogo do pecado.

Depusemos tudo isso na confissão com o propósito de nunca mais recair, e por tudo isso façamos uma penitência conveniente: quanto mais o corpo se exaltou e se rebelou, tanto mais o humilhemos na confissão; quanto mais se entregou aos prazeres, tanto mais o castiguemos com sofrimentos (cf. Ap 18,7), submetendo-o a pão e água, à disciplina e às vigílias, para que ouça, como a filha de Jefté: “Enganaste-me, minha filha, minha carne, com os prazeres da gula e da luxúria, mas agora também tu foste enganada” (cf. Jz 11,35), isto é, estás afligida com disciplinas, vigílias e jejuns. Depois de termos feito estas considerações sobre o espírito de contrição, o deserto da confissão e os quarenta dias da satisfação, nos quais consistem a remissão de todos os pecados, a infusão da graça e a recompensa da vida eterna, passemos agora a descrever os vícios que se lhes opõem: a gula, a vanglória e a luxúria.

IV. O que se opõe aos três atos da penitência, ou a tríplice tentação

23. Segue-se: “E, aproximando-se o tentador, disse-lhe: Se és Filho de Deus”, etc. O diabo procede de coisas semelhantes para coisas semelhantes. Com efeito, pela mesma ordem com que tentou Adão no paraíso, tentou também Cristo no deserto, e tenta igualmente todo cristão neste mundo. Primeiro tentou Adão pela gula, pela vanglória e pela avareza, e, ao tentá-lo, venceu-o; depois tentou o segundo Adão, isto é, Cristo, do mesmo modo, mas na tentação foi vencido, porque aquele que tentava não era apenas homem, mas também Deus. Nós, que participamos de ambos: daquele segundo a carne, deste segundo o espírito, despojemo-nos do homem velho com suas obras, que são a gula, a vanglória e a avareza; revistamo-nos do homem novo (cf. Cl 3,9), renovados pela confissão, para refrearmos com os jejuns o ardor desenfreado da gula, reprimirmos com a humildade da confissão a altivez da vanglória e pisarmos com a contrição do coração a espessa lama da avareza. “Bem-aventurados”, diz o Senhor, “os pobres de espírito”, isto é, os que têm o espírito atribulado e o coração contrito (cf. Sl 50,19), “porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

24. Observa ainda que, assim como o diabo tentou o Senhor quanto à gula no deserto, quanto à vanglória no templo e quanto à avareza no monte, assim também nos tenta todos os dias: quanto à gula, no deserto do jejum; quanto à vanglória, no templo da oração e do ofício; e, no monte da dignidade, quanto às múltiplas formas de avareza. Enquanto jejuamos, ele nos tenta quanto à gula, pela qual pecamos de cinco modos, como diz o seguinte verso: Precipitadamente, suntuosamente, excessivamente, vorazmente, refinadamente.

Precipitadamente, isto é, quando se antecipa a hora.

Suntuosamente, quando se excita a gulodice e se desperta um apetite débil com diversos temperos, especiarias e iguarias dos alimentos.

Excessivamente, quando se ingerem alimentos além da necessidade do corpo. Com efeito, alguns gulosos dizem: Devemos jejuar; portanto, comamos de uma só vez o bastante para compensar tanto o almoço como a ceia. Estes são como o brucho, que não abandona a árvore na qual se instalou enquanto não a tiver comido toda. O brucho é assim chamado como se fosse todo boca e significa os gulosos, que são inteiramente garganta e ventre e não abandonarão o prato que assediam como uma fortaleza enquanto não o devorarem por inteiro: ou o ventre rebentará, ou o prato ficará vazio.

Vorazmente, quando o homem se lança sobre toda comida e, como se fosse conquistar uma grande fortaleza, estende os braços, alonga as mãos e come com todo o seu ser; e à mesa é como um cão que, na cozinha, não tolera ter rival.

Refinadamente, quando se procuram alimentos requintados e se preparam com grande esmero. Como se lê no Primeiro Livro dos Reis acerca dos filhos de Eli, que não queriam receber carne cozida, mas crua, para prepará-la para si com maior esmero e requinte (cf. 1Rs 2,15).

25. Do mesmo modo, o diabo nos tenta no templo quanto à vanglória. Enquanto estamos em oração, no ofício e na pregação, somos assaltados pelo diabo com as setas da vanglória e, muitas vezes, ai de nós!, somos feridos. Há alguns que, enquanto rezam, dobram os joelhos e emitem suspiros, querem ser vistos. Há outros que, enquanto cantam no coro, quebram a voz e fazem trinados na garganta; desejam ser ouvidos. Há ainda outros que, enquanto pregam, enquanto trovejam com a voz, enquanto multiplicam as citações, comentando-as segundo o próprio entendimento e girando ao redor de si mesmos, desejam ser louvados. Todos estes mercenários, crede em mim, “já receberam a sua recompensa” (Mt 6,2.5.16), colocando sua filha no prostíbulo. Por isso diz Moisés no Levítico: “Não prostituirás a tua filha” (Lv 19,29). Minha filha é a minha obra, e eu a prostituo, isto é, ponho-a no lupanar, quando a vendo por um denário de vanglória. Por isso o Senhor aconselha no Evangelho de Mateus, dizendo: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai” etc. (Mt 6,6). Tu, quando quiseres orar ou fazer alguma coisa boa, o que é orar sem cessar (cf. 1Ts 5,17), “entra no teu quarto”, isto é, no segredo do teu coração, e, fechada a porta dos cinco sentidos, não desejes ser visto, ouvido ou louvado. Por isso se diz em Lucas que Zacarias entrou no templo do Senhor à hora do incenso (cf. Lc 1,9). No tempo da oração, que se eleva diante do Senhor como incenso (cf. Sl 140,2), deves entrar no templo do teu coração e assim orar a teu Pai, “e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6,6).

26. Além disso, no monte da dignidade transitória somos tentados pelo pecado da avareza em suas múltiplas formas. E observa que não há somente avareza de dinheiro, mas também de preeminência. Quanto mais os avarentos possuem, mais têm sede, e, colocados no alto, quanto mais são elevados, mais procuram subir, para que caiam com queda mais grave, porque os ventos investem contra as coisas elevadíssimas e nas alturas se imolam vítimas aos ídolos (cf. 3Rs 3,2; 4Rs 12,3). A respeito dessas duas coisas diz Salomão nos Provérbios: “O fogo nunca diz: Basta!” (Pr 30,16). “O fogo”, isto é, a avareza do dinheiro e da preeminência, “nunca diz: Basta”; mas o quê? “Traz, traz” (Pr 30,15). Ó Senhor Jesus, tira, tira estes dois “Traz, traz” dos prelados da tua Igreja, que, do teu patrimônio, adquirido por ti com bofetadas, cusparadas, flagelos, cruz, cravos, vinagre, fel e lança, se deleitam e se gloriam no monte da dignidade eclesiástica.

Nós, portanto, que recebemos o nome de cristãos do nome de Cristo, imploremos unânimes, com a devoção da mente, ao próprio Jesus Cristo, Filho de Deus, e supliquemos insistentemente que nos conceda chegar, pelo espírito de contrição, ao deserto da confissão, para que nesta Quaresma mereçamos receber a remissão de nossa iniquidade e, renovados e purificados, mereçamos fruir das alegrias de sua santa Ressurreição e ser colocados na glória da bem-aventurança eterna, por aquele cuja é a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.