Evangelho do primeiro domingo depois do Natal do Senhor: “José e Maria se admiravam”, que se divide em três cláusulas.
Primeiramente, o tema do sermão é sobre a graça e a glória de Jesus Cristo, no trecho: “Aprende onde está a sabedoria”.
[Da primeira cláusula]. Também sobre a pobreza, no trecho: “Deus me fez crescer”.
Também sobre a miséria dos ricos, no trecho: “O Senhor te ferirá com a indigência”.
Também sobre a humildade, a condenação dos soberbos e a exaltação dos humildes, no trecho: “O Senhor olhou pela coluna de nuvem”.
Também sobre a tristeza útil dos penitentes, no trecho: “O espírito triste”.
Também sobre a obediência, no trecho: “Fala, Senhor”.
Também aos penitentes e religiosos, no trecho: “Issacar, jumento forte”.
[Da segunda cláusula]. O tema do sermão é sobre a soberba e a humildade do coração, no trecho: “Depôs os poderosos”.
Também sobre a queda salutar para os pecadores convertidos, no trecho: “Será a ruína do cavalo”.
Também sobre a ressurreição da alma dos pecados, no trecho: “A mão do Senhor veio sobre mim”; e sobre as propriedades dos nervos.
Também contra os amantes dos bens temporais, no trecho: “Estendi as minhas mãos”.
Também sobre o duplo parto da bem-aventurada Maria, no trecho: “Antes que desse à luz”; e sobre a Paixão do próprio Filho, no trecho: “Lembra-te da minha pobreza”.
Também sobre as quatro estações do ano e seu significado, no trecho: “Quando chegou a plenitude do tempo”.
[Da terceira cláusula] Também sobre a Anunciação ou o nascimento do Senhor, no trecho: “Enquanto todas as coisas guardavam tranquilo silêncio”.
Também um sermão moral sobre a penitência, no trecho: “Enquanto todas as coisas guardavam tranquilo silêncio”.
1. Naquele tempo: “José e Maria, mãe de Jesus, estavam admirados com as coisas que se diziam a respeito dele” (Lc 2,33).
Diz Baruc: “Aprende onde está a sabedoria, onde a prudência, onde a fortaleza, onde a inteligência, para saberes ao mesmo tempo onde estão a longevidade da vida e o alimento, onde a luz dos olhos e a paz” (Br 3,14). Diz-se no Salmo: “O Senhor dará a graça e a glória” (Sl 83,12): a graça no presente, a glória no futuro. As primeiras quatro coisas mencionadas na autoridade citada referem-se à graça; as outras quatro, à glória. A sabedoria, assim chamada de sabor, está no gosto da contemplação; a prudência, em prevenir-se contra as ciladas; a fortaleza, em suportar as adversidades; a inteligência, em rejeitar os males e escolher os bens. Do mesmo modo, a longevidade da vida será para os santos na bem-aventurança eterna, donde se lê: “Eu vivo, e vós vivereis” (Jo 14,19); o alimento consistirá na fruição da alegria, donde se lê: “Eu vos preparo um reino, para que comais e bebais à minha mesa” (Lc 22,29-30) etc.; a luz dos olhos consistirá na visão da humanidade glorificada de Cristo, donde se lê em João: “Pai, quero que aqueles que me deste estejam comigo onde eu estou, para que vejam a minha glória, que me deste” (Jo 17,24); a paz consistirá na glorificação do corpo e da alma, donde diz Isaías: “Conservarás a paz, a paz, porque em ti esperamos”, Senhor (Is 26,3). Sobre a longevidade da vida e a luz dos olhos diz-se no Salmo: “Em ti está a fonte da vida, e na tua luz veremos a luz” (Sl 35,10); sobre a paz e o alimento: “Estabeleceu a paz em teus confins e te sacia com a flor do trigo” (Sl 147,14). A flor do trigo é a fruição da alegria proveniente da humanidade de Jesus Cristo, da qual os santos serão saciados.
Ou então assim. Aprende, ó homem, a amar Jesus, e então aprenderás onde está a sabedoria etc. Ele mesmo é a sabedoria, donde se lê nos Provérbios: “A Sabedoria edificou para si uma casa” (Pr 9,1). Ele mesmo é a prudência, donde diz Jó: “A sua prudência”, isto é, a do Pai, “feriu o soberbo” (Jó 26,12), isto é, o diabo. Ele mesmo é a fortaleza, donde diz o Apóstolo: “Ele é a fortaleza de Deus e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,24). Nele está a inteligência de todas as coisas; aos seus olhos tudo está nu e aberto (cf. Hb 4,13). Ele mesmo é a vida: “Eu”, diz ele, “sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Ele mesmo é o alimento, porque é o pão dos anjos e o alimento dos justos. Ele mesmo é a luz dos olhos: “Eu”, diz ele, “sou a luz do mundo” (Jo 8,12). “Ele é a nossa paz, aquele que fez de ambos um só” (Ef 2,14).
Aprende, ó homem, esta sabedoria, para saberes; esta prudência, para te precaveres; esta fortaleza, para seres forte; esta inteligência, para conheceres; esta vida, para viveres; este alimento, para não desfaleceres; esta luz, para veres; esta paz, para repousares. Ó bem-aventurado Jesus, onde te procurarei? Onde te encontrarei? Onde, depois de te encontrar, encontrarei tão grandes bens? Onde, possuindo-te, possuirei tão grandes bens? Procura e encontrarás. E onde, suplico, habita ele? Onde repousa ao meio-dia? (cf. Ct 1,6). Queres ouvir onde? Dize, suplico-te. No meio de José e Maria, de Simeão e Ana, encontrarás Jesus. Por isso se lê no evangelho de hoje: “José e Maria, mãe de Jesus, estavam admirados” etc.
2. Neste evangelho são apresentadas estas quatro pessoas; vejamos, portanto, o que significam moralmente. José interpreta-se “crescente”, Maria, “Estrela do mar”, Simeão, “aquele que ouve a tristeza”, Ana, “aquela que responde”. Em José é indicada a pobreza; em Maria, a humildade; em Simeão, a penitência; em Ana, a obediência. Tratemos de cada uma delas.
3. José, “que cresce” (cf. Gn 49,22). Quando o homem miserável se enche de prazeres e se expande nas riquezas, então diminui, porque perdeu a liberdade. Com efeito, a preocupação com as riquezas o torna escravo; enquanto lhes serve, ele diminui de si mesmo e em si mesmo. Infeliz a alma que é menor do que aquilo que possui: é menor quando se submete à coisa, e não a coisa a si. Essa submissão servil se reconhece mais claramente quando aquilo que se possui com amor se perde com dor. A própria dor é uma grande escravidão. Que mais dizer? Em parte alguma há verdadeira liberdade, senão na pobreza voluntária. Este é José, “que cresce”, o qual diz no Gênesis: “Deus me fez crescer na terra da minha pobreza” (Gn 41,52). Na terra, diz ele, da pobreza, não da abundância, “Deus me fez crescer”: naquela, crescer; nesta, diminuir. Por isso se diz no segundo livro dos Reis que “Davi progredia e se fortalecia cada vez mais, enquanto a casa de Saul diminuía diariamente” (2Rs 3,1). Davi, que diz no Salmo: “Eu sou mendigo e pobre” (Sl 39,18), “como luz resplandecente, progride e cresce até o dia perfeito” (Pr 4,18), e se torna mais forte do que antes, porque a pobreza alegre e voluntária concede vigor. Por isso Isaías: “O espírito dos fortes”, isto é, dos pobres, “é como um turbilhão que impele a parede” (Is 25,4), isto é, das riquezas. Os prazeres e as riquezas, porém, enfraquecem e dissolvem. Por isso Jeremias:
“Até quando te dissolverás nos prazeres, filha errante?” (Jr 31,22).
A casa de Saul, que se interpreta “aquele que abusa”, isto é, a casa dos ricos deste mundo, que abusam dos bens e dos dons do Senhor para o prazer do próprio corpo, diminui diariamente. Por isso Moisés no Deuteronômio: “O Senhor te ferirá com a indigência, a febre, o frio, o calor, a aridez, o ar corrompido e a ferrugem, e te perseguirá até que pereças” (Dt 28,32). O Senhor fere, isto é, permite que seja ferido, o rico deste mundo com a indigência, porque sempre está necessitado; com a febre, porque se atormenta e sofre com a felicidade alheia; com o frio, isto é, o temor de perder o que adquiriu; com o calor, para adquirir o que não possui; com o ardor da gula; com o ar corrompido da má fama; com a ferrugem da luxúria. Eis como diminui a casa de Saul. A casa de Davi, porém, do mendigo e do pobre, cresce de virtude em virtude na terra de sua pobreza.
4. Segue-se falar da humildade. Maria, estrela do mar. Ó humildade! Estrela resplandecentíssima, que ilumina a noite, conduz ao porto, brilhando como chama e mostrando Deus, Rei dos reis, que diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Quem carece desta estrela “é cego e anda às apalpadelas” (2Pd 1,9); sua nave se despedaça na tempestade, e ele próprio submerge em meio às ondas. Por isso se diz no Êxodo que “o Senhor, olhando da coluna de nuvem e de fogo para o acampamento dos egípcios, matou o seu exército e subverteu as rodas dos seus carros, e estes eram levados para o fundo. Os filhos de Israel, porém, avançaram pelo meio do mar seco, e as águas lhes serviam como um muro à direita e à esquerda” (Ex 14,24-25.29). Os egípcios, que a nuvem tenebrosa obscurecia, significam os ricos e poderosos deste mundo, obscurecidos pela névoa da soberba, aos quais o Senhor matará; e subverterá as rodas de seus carros, isto é, sua dignidade e glória, que giram ao longo das quatro estações do ano; e os precipitará no profundo do inferno. Os filhos de Israel, porém, iluminados pelo esplendor do fogo, significam os penitentes e pobres de espírito, que o esplendor da humildade ilumina; estes atravessam a pé enxuto o mar deste mundo, cujas águas, isto é, cujas amargas inundações, lhes servem de muro, ou seja, os fortificam e defendem à direita da prosperidade e à esquerda da adversidade; isto é, para que o favor popular não os exalte e a tentação da carne não os precipite.
A respeito disso, tens no Deuteronômio: “Sugarão as inundações do mar como leite” (Dt 33,19). Observa que ninguém pode sugar algo sem comprimir os lábios. Aqueles que têm a boca escancarada na aquisição de riquezas, no comércio da vanglória e no favor popular não podem sugar as inundações do mar. Com dificuldade se separam os lobos da carniça, as formigas do grão, as moscas do mel, os coveiros do vinho, as meretrizes do prostíbulo e os mercadores da praça. Algo semelhante diz Salomão nos Provérbios: “É um provérbio: o jovem segue o seu caminho; mesmo quando envelhecer, não se afastará dele” (Pr 22,6). Somente os humildes, que comprimem os lábios, afastando-os do amor das coisas temporais, sugam as inundações do mar como leite.
Ó estrela do mar! Ó humildade do coração, que transformas o mar amargo e horrendo em leite doce e agradável! Ó, quão doce é a amargura para o humilde! Quão leve é a tribulação que ele suporta pelo nome de Jesus! As pedras foram doces para Estêvão, a grelha para Lourenço, os carvões acesos para Vicente: por Jesus, sugaram as inundações do mar como leite.
Também neste verbo “sugar” se indica avidez acompanhada de deleite. Somente a humildade sabe sugar a tribulação e a dor com avidez e deleite do espírito. Por isso, diz-se no Cântico: “Quem me dera que fosses meu irmão, que sugasse os seios de minha mãe?” (Ct 8,1). Aqui são introduzidas três pessoas: a mãe, a irmã e o irmão. A mãe é a penitência, que tem dois seios: a dor na contrição e a tribulação na satisfação; a irmã é a pobreza; o irmão, o espírito de humildade. Diz, portanto, a irmã pobreza: Quem me dera ter como irmão o espírito de humildade, para que sugasse avidamente os seios de nossa mãe? Eis o irmão e a irmã, José e Maria, esposo e esposa, pobreza e humildade. “Quem tem uma esposa é esposo” (Jó 3,29). Feliz o pobre que toma a humildade por esposa.
5. Segue-se falar da tristeza da penitência. Simeão, aquele que ouve a tristeza. A respeito dela diz o Apóstolo: “A tristeza segundo Deus produz a salvação” (cf. 2Cor 7,10). E nos Provérbios: “O espírito triste seca os ossos” (Pr 17,22), isto é, da gordura da lascívia e da impudência. Por isso, Jó: “Ele o repreende pela dor no leito e faz que todos os seus ossos definhem. O pão se torna abominável para ele durante a vida, e o alimento antes desejável para a sua alma” (Jó 33,19-20). O leito é o prazer da carne, no qual a alma jaz como paralítica, com todos os membros desarticulados. Por isso, em Mateus: “Levaram-lhe um paralítico deitado no leito” (Mt 9,2). O Senhor repreende pela dor no leito quando infunde a dor dos pecados na alma que repousa no prazer da carne; então ela experimenta a tristeza que faz definhar todos os seus ossos.
É isto que diz Daniel, quando teve a visão: “Não restou em mim força alguma; meu aspecto também se alterou em mim, e desfiz-me em fraqueza, sem conservar força alguma” (Dn 10,8). Quando isso acontece, o pão, isto é, o prazer da carne, torna-se abominável para ele durante a vida, e para sua alma, isto é, para sua animalidade, o alimento antes desejável. É isto que diz Daniel: “Não comi o pão desejável; a carne e o vinho não entraram em minha boca, nem me ungi com perfume” (Dn 10,3).
Diz Salomão: “O coração que conhece a amargura de sua alma não permitirá que um estranho participe de sua alegria” (Pr 14,10). Onde está a mirra da tristeza, não se mistura o verme da luxúria. Por isso, Isaías: “Afastai-vos de mim; chorarei amargamente; não vos esforceis para me consolardes pela devastação da filha do meu povo” (Is 22,4). Assim deve dizer o penitente aos espíritos imundos: “Afastai-vos de mim; chorarei amargamente”. Assim como a fumaça afugenta as abelhas, assim a compunção amarga e banhada de lágrimas expulsa os demônios, que cercam a alma como as abelhas cercam o favo. “E não vos esforceis”, ó afetos carnais, “para me consolardes”, porque, como diz Jó, “todos vós sois consoladores importunos” (Jó 16,2). “Minha alma recusou ser consolada” (Sl 76,3) por vosso consolo. “Vossas consolações, Senhor”, não as minhas — pois “ai de vós, que tendes a vossa consolação” (Lc 6,24) —, “alegraram a minha alma” (Sl 93,19). Portanto, “não vos esforceis para me consolardes pela devastação”, isto é, pela aflição, “da filha”, isto é, da carne, que é filha “do meu povo”, isto é, da multidão dos meus cinco sentidos. A respeito disso, diz o Salmo: “Ele submeteu o meu povo a mim” (Sl 143,2).
6. Segue-se falar da obediência. Ana, aquela que responde, com Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo escuta” (1Rs 3,10); e com Isaías: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8); e com Saulo: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9,6). Diz o Eclesiástico: “A resposta branda aplaca a ira” (Pr 15,1), “e a língua graciosa abundará no homem bom” (Eclo 6,5). A “resposta branda” do súdito humilde “aplaca a ira” do prelado soberbo. Por isso, nos Provérbios: “A paciência”, isto é, a do súdito, “abrandará o príncipe” (Pr 25,15). “Não te oponhas”, como diz o Eclesiástico, “ao ímpeto do rio” (Eclo 4,32), isto é, à vontade do prelado, “mas inclina diante dele a tua cabeça” (Eclo 4,7). “E a língua graciosa”, isto é, de boa disposição, “abundará no homem bom”, no súdito, para que diga com Jó: “Chama-me, e eu te responderei” (cf. Jó 14,15). Responde àquele que o chama quem obedece de coração àquele que lhe dá uma ordem.
Eis que tratamos brevemente destas quatro virtudes, para que aquele que deseja encontrar Jesus tenha consigo estas quatro pessoas, pois no meio delas repousa a salvação. José e Maria levam Jesus ao templo. Simeão e Ana o reconhecem e o bendizem. Com efeito, a pobreza e a humildade levam o pobre e humilde Jesus. A pobreza o leva sobre os ombros.
7. Por isso, lemos no Gênesis: “Issacar, jumento robusto, deitado sobre os limites, viu que o lugar de repouso era bom e que a terra era excelente; inclinou o ombro para carregar o peso” (Gn 49,14-15). Issacar interpreta-se como recompensa e significa a pobreza, que rejeita todas as coisas temporais para poder receber a recompensa da eternidade. Aqui é chamado “jumento robusto”. O jumento é um animal de carga, que se alimenta de coisas ásperas e de pouco valor. Assim também a pobreza carrega o peso do dia e do calor (cf. Mt 20,12), e serve-se de coisas grosseiras e rudes. Diz o bem-aventurado Bernardo: O pão de farelo e a água pura, as verduras simples ou as leguminosas simples, de modo algum são alimentos agradáveis; mas, no amor de Cristo e no desejo da doçura interior, é muito agradável poder satisfazer com eles, de bom grado, um ventre bem moderado. Quantos milhares de pobres satisfazem com prazer as necessidades da natureza com esses alimentos ou com algum deles! Com efeito, seria facílimo e também agradável viver segundo a natureza, acrescentando o tempero do amor de Deus, se nossa insensatez no-lo permitisse.
Segue-se: “Deitado sobre os limites”, não “entre os limites” (Gn 49,14). Há dois limites: a entrada e a saída de nossa vida. Sobre eles se deita, isto é, repousa, a pobreza. Ela considera a entrada miserabilíssima do homem e volta sua atenção para sua partida extremamente lastimosa; por isso, não quer deitar-se entre os limites, para ouvir, como se diz no livro dos Juízes, os balidos dos rebanhos (Jz 5,16), isto é, a suave sugestão dos demônios. Habita ou se deita entre os limites aquele que não considera a entrada nem a saída de sua vida, mas repousa no prazer da carne e na vaidade do mundo.
Segue-se: “Viu que o lugar de repouso”, da bem-aventurança celeste, “era bom, e que a terra”, da estabilidade eterna, “era excelente; inclinou o seu ombro para carregar” o pobre Jesus, Filho de Deus. Carrega Jesus aquele que, por amor dele, suporta pacientemente tudo o que lhe acontece de adverso. Por isso, diz o Eclesiástico: “Aceita tudo o que te for aplicado e suporta-o na dor” (Eclo 2,4). A pobreza carrega sobre os ombros; a humildade carrega junto ao peito, nos braços. Por isso, no Cântico dos Cânticos: “Meu amado é para mim um pequeno feixe de mirra; ele repousará entre os meus seios” (Ct 1,12). Neste diminutivo, “pequeno feixe”, designa-se a humildade; na mirra, a amargura da Paixão do Senhor. O coração está entre os seios, como se a esposa humilde dissesse: Carrego no coração o meu amado Jesus, pequeno feixe de mirra, isto é, humilde e crucificado, para ser humilde de coração e estar, com o corpo, pregada à cruz juntamente com ele. Portanto, a pobreza e a humildade levam Jesus ao templo, isto é, até chegarem ao templo da Jerusalém celeste, não feito por mãos humanas.
Do mesmo modo, a penitência e a obediência confessam e bendizem. Por isso, no Salmo: “Confissão e beleza diante dele” (Sl 95,6), no que diz respeito ao penitente, cuja confissão é sua beleza. Com efeito, a confissão limpa a lepra do pecado e adorna com a graça do Espírito Santo. Por isso, no Salmo: “Vestiste a confissão e a beleza” (Sl 103,2), isto é, os penitentes, que pela confissão são purificados e pela graça são adornados. Segue-se: “Santidade e magnificência na sua santificação” (Sl 95,6), no que diz respeito ao obediente, a quem o Senhor santifica com a santidade da consciência, na mortificação da própria vontade, e com a magnificência da vida, no cumprimento da ordem alheia. Eis onde habita o rei das virtudes. Possui, portanto, estas virtudes e encontrarás a sabedoria de Deus e a força de Deus, Jesus.
A ele, caríssimos irmãos, imploremos humildemente que edifique sobre estas quatro colunas a casa de nossa conduta, para que ele possa habitar conosco e nós com ele. Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos. Amém.
8. “Disse Simeão a Maria, sua mãe: Eis que este menino foi posto para a ruína e para a ressurreição de muitos em Israel” (Lc 2,34). A bem-aventurada Maria diz em seu cântico: “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). “Depôs”, isto é, colocou embaixo. É o que diz o Senhor pelo profeta Abdias: “A soberba do teu coração te exaltou, a ti que habitas nas fendas das rochas, elevando o teu trono. Dizes em teu coração: ‘Quem me lançará por terra?’ Ainda que te eleves como a águia e ponhas o teu ninho entre as estrelas, de lá te farei cair”, isto é, te puxarei para baixo, “diz o Senhor” (Ab 1,3-4). Veja sobre este assunto, no evangelho, “Saiu o semeador a semear a sua semente” (Domingo da Sexagésima), e, no evangelho, “Um cego estava sentado à beira do caminho” (Domingo da Quinquagésima, I).
“Depôs”, portanto, “os poderosos”. É o que se diz em Daniel: “Eis que um vigilante, um santo, desceu do céu, clamou em alta voz e disse: Cortai a árvore, desbastai os seus ramos, sacudi as suas folhas e dispersai os seus frutos” (Dn 4,10-11). A árvore, chamada assim de robur, força e carvalho, significa o poderoso deste mundo, que, como diz Jó, “estendeu a mão contra Deus e se fortaleceu contra o Onipotente” (Jó 15,25). Este é cortado pelo machado da morte e arrastado para baixo, ao inferno; então são cortados os seus ramos, isto é, o poder da parentela e a nobreza da estirpe, que ele costumava ampliar e estender; então são sacudidas as folhas, isto é, as palavras vãs, cheias do vento da soberba; então são dispersos os frutos das riquezas e dos prazeres, que ele acumulou para a sua própria ruína.
“Depôs”, portanto, “os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”. É o que diz Jó: “Ergue os que sofrem, restituindo-lhes a saúde” (Jó 5,11); e ainda: “Quando te julgavas destruído, ressurgirás como a estrela da manhã. E terás confiança, posta diante de ti a esperança” (Jó 11,17-18). Depôs o soberbo Amã e exaltou o humilde Mardoqueu. Aquele caiu do trono, este se levantou em seu lugar. Bem diz, portanto, a bem-aventurada Maria: “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”. Por isso, o santo Simeão lhe diz, a respeito de seu Filho, no evangelho de hoje: “Eis que este foi posto para a ruína”, etc. É o que ele mesmo diz em João: “Eu vim a este mundo para julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). Sobre a ruína destes diz Isaías: “Jerusalém caiu em ruínas, e Judá sucumbiu, porque a sua língua”, ‘Crucifica-o, crucifica-o’, “e as suas maquinações”, a saber, ‘Posso destruir este templo feito por mãos humanas’, etc., “são contra o Senhor, para provocar os olhos de sua majestade” (Is 3,8).
9. Moralmente. Lemos no livro dos Provérbios: “Derruba o ímpio, e ele não existirá mais” (cf. Pr 12,7), isto é, não será mais ímpio. Caiu Saulo perseguidor, e levantou-se Paulo pregador. Portanto, isto significa: “Eis que foi posto para a ruína”, isto é, dos pecadores. A respeito dela diz Zacarias: “Será a ruína do cavalo e da mula, do camelo e do jumento e de todos os animais de carga” (Zc 14,15). No cavalo é indicada a soberba; por isso, em Jeremias: “Todos se voltaram para o seu caminho, como o cavalo que corre impetuosamente” (Jr 8,6). Na mula, a luxúria; por isso, no Salmo: “Não vos torneis como o cavalo e a mula” (Sl 31,9). No camelo, a avareza; por isso, o camelo, isto é, o avarento, não pode passar pelo buraco da agulha, isto é, pela pobreza de Jesus Cristo (cf. Mt 19,24). No jumento, o torpor da negligência, que é a sentina de todos os vícios. Por isso se chama jumento, como que “deixando de lado as coisas elevadas” (alta sinens). O torpor da negligência não permite subir às alturas, mas quer sempre caminhar pelo plano. Por isso Abraão disse aos seus servos, no Gênesis: “Ficai aqui com o jumento” (Gn 22,5). Os servos são os afetos infantis e carnais, que ficam com o jumento, isto é, com a inércia e a lentidão próprias do jumento. Nos animais de carga é designado o deleite voluptuoso dos cinco sentidos, a respeito dos quais Isaías diz: “Peso dos animais do sul. Numa terra de tribulação e angústia, a leoa e o leão, a víbora e o dragão voador” (Is 30,6). A terra é a carne, que nos produz os espinhos da tribulação e os abrolhos da angústia. Este é o peso dos animais de carga, isto é, dos cinco sentidos, que são os animais de carga do sul, isto é, do prazer mundano. Nesta terra de tribulação e angústia, que os animais de carga pisoteiam e sujam com esterco, estão a leoa da luxúria e o leão da soberba, a víbora da ira e o dragão voador da inveja e da vanglória.
Ó Senhor Jesus, caiam em ruína todos esses animais e animais de carga, para que o pecador bestial caia juntamente com eles e, ao cair em ruína, faça ressurgir o homem espiritual. Digamos, portanto: “Eis que este foi posto para a ruína”.
10. Segue-se: “E para a ressurreição de muitos”. A respeito disso, há uma concordância em Ezequiel: “A mão do Senhor”, diz ele, “esteve sobre mim e me conduziu a um campo que estava cheio de ossos de mortos. Eram muito numerosos e estavam completamente secos. E disse-me: Profetiza, filho do homem, sobre estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Eis que introduzirei em vós o espírito, e vivereis; porei sobre vós os nervos, farei crescer sobre vós a carne e estenderei sobre vós a pele” (Ez 37,1-2.4-6). Os ossos secos são os pecadores, que estão secos, privados da umidade da graça; o seu coração secou, porque se esqueceram de comer o pão (cf. Sl 101,5), que possui todo sabor e toda suavidade (cf. Sb 16,20). A respeito deles diz Jó: “Os ossos do Beemot são como tubos de bronze” (cf. Jó 40,13). Todos pervertidos na malícia, duros como os ossos do diabo, porque sustentam os homens carnais, assim como os ossos sustentam a carne; são como tubos de bronze, porque, à maneira do bronze, repelem de si as flechas da pregação e, ao golpe da repreensão, emitem o estridor da murmuração. Também confessam Cristo com palavras — eis o tubo —, mas o negam com as obras (cf. Tt 1,16) — eis a dureza do bronze.
Mas, porque a misericórdia do próprio Cristo é maior que a aridez e a dureza dos ossos, acrescenta: “Eis que introduzirei em vós o espírito, e vivereis”, etc. Observa estas quatro coisas: o espírito, os nervos, a carne e a pele. No espírito é indicada a infusão da graça preveniente; nos nervos, o entrelaçamento, a rede dos bons pensamentos; na carne, a compaixão para com o próximo; na pele, a extensão da perseverança final. “Introduzirei em vós o espírito, e vivereis.” Por isso, no Gênesis: “Soprou em sua face o sopro da vida” (Gn 2,7), etc. Veja sobre este assunto o segundo sermão do primeiro domingo da Quaresma: “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto”.
11. “E porei sobre vós os nervos.” Grande quantidade de nervos se encontra nas mãos, nos pés, nas costas, nas articulações dos ombros e no pescoço; e os ossos, que se unem entre si, são ligados pelos nervos. Ao redor deles há certa umidade, da qual são gerados e nutridos. Quando o Senhor introduz no pecador o espírito da graça, então nasce em seu coração a umidade da compunção, da qual é gerado e nutrido o nervo do bom afeto e da boa vontade, que une e liga todo o corpo da boa obra.
“E farei crescer sobre vós a carne.” É isto que diz o mesmo Profeta em outra passagem: “Tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26), isto é, um coração compungido, que sofra por compaixão do próximo, porque ele é nossa carne e nosso irmão (cf. Gn 37,27). Ó coração de pedra, que não te comoves por nenhuma compaixão para com o próximo! Com efeito, ele diz: “Por acaso sou eu o guarda de meu irmão?” (Gn 4,9). Sabe que, se fores seu guarda, terás grande recompensa (cf. Sl 18,12). Lê-se no Primeiro Livro dos Reis que “o coração de Nabal morreu dentro dele, e ele se tornou como uma pedra” (1Rs 25,37). De fato, não quis compadecer-se de Davi, nem dar-lhe nada do que possuía; pelo contrário, irrompeu em palavras de insulto, dizendo: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Hoje aumentaram os servos que fogem de seus senhores. Deveria eu tomar os meus pães, as minhas águas e as carnes dos animais que abati para os meus tosquiadores, e dá-los a homens que não sei de onde são?” (1Rs 25,10-11). Hoje, os avarentos e usurários, que têm o coração de pedra, dizem estas palavras e outras semelhantes aos pobres de Jesus Cristo.
“E estenderei sobre vós a pele.” O estender da pele é figura da perseverança final. “Vós”, diz o Senhor, “sois aqueles que perseverastes comigo nas minhas provações” (Lc 22,28). Mas ai daqueles que perderam a perseverança! Por isso, Jó diz: “Minha pele secou e se enrugou” (Jó 7,5). A pele seca e se contrai quando a boa obra é despojada do efeito da perseverança final. Por isso, diz o Eclesiástico: “A nudez do homem aparece no seu fim” (cf. Eclo 11,29). Então, com efeito, será manifesta a sua torpeza.
Eis que foi explicado de antemão de que modo o Senhor vivifica os ossos secos: ele “foi posto para a ressurreição de muitos”.
12. Segue-se: “E como sinal de contradição” (Lc 2,34). Sobre isso, diz Mateus: “E então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24,30); e Isaías: “Erguei um sinal sobre o monte tenebroso, levantai a voz e levantai a mão” (Is 13,2). O monte tenebroso representa o diabo: monte por causa da soberba, tenebroso por causa da escuridão da sugestão que ele introduz na mente. E sobre esse monte os pregadores erguem um sinal quando pregam que ele foi vencido pela força da cruz; levantam a voz quando, em ocasião oportuna ou inoportuna, admoestam, suplicam e repreendem (cf. 2Tm 4,2); levantam a mão quando praticam com as obras aquilo que pregam com a voz.
Do mesmo sinal diz o Senhor por meio de Ezequiel: “Marca com um tau (T) as frontes dos homens que gemem e sofrem por todas as abominações que se cometem no meio dela” (Ez 9,4). Somente estes não contradizem o sinal da Paixão do Senhor, porque o trazem na fronte. E quem são os que gemem e sofrem, senão os penitentes, os pobres de espírito, que se gloriam na cruz de Cristo e sofrem e gemem por todas as abominações que se cometem no mundo? Os infiéis contradizem-no com a palavra e com a obra — por isso diz o Apóstolo: “Pregamos Jesus crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23) —; os falsos cristãos, com as obras. “Ai”, diz Isaías, “daquele que contradiz o seu formador, como um caco de terra de Samos!” (Is 45,9), isto é, de barro. Samos é a cidade onde foi descoberta a arte dos oleiros. O caco, chamado em latim testa, quase como tosta, é o falso cristão: queimado, porque sem devoção; frágil nas obras; de barro por sua criação; e contradiz o seu formador, ou Cristo, que o formou com as mãos pregadas na cruz e, se não fosse por ele, o restaurou à honra da dignidade primeira. Por que, então, o infeliz contradiz, pelo testemunho de sua vida má, o seu formador, o seu redentor?
13. Por isso, Isaías se lamenta: “Estendi as minhas mãos todo o dia a um povo incrédulo, que caminha por um caminho que não é bom, seguindo os seus próprios pensamentos; povo que continuamente me provoca à ira diante da minha face, que imola nos jardins e sacrifica sobre tijolos, que habita nos sepulcros e dorme nos templos dos ídolos, que come carne de porco e caldo impuro em seus vasos” (Is 65,2-4). “Estendi”, como alguém generoso, nada negando aos que pedem. Por isso, nos Provérbios: “Estendi a minha mão, e não houve quem olhasse” (Pr 1,24). No primeiro advento, a mão do Senhor esteve estendida e aberta; mas, no segundo, estará fechada, e então golpeará com o punho, “e quebrará os dentes dos leões” (Sl 57,7). “Estendi”, portanto, “as minhas mãos”, isto é, na cruz, a respeito das quais se diz no Cântico dos Cânticos: “As suas mãos são torneadas, de ouro, cheias de jacintos” (Ct 5,14). As mãos de Cristo são chamadas “torneadas” pelo torneamento da Paixão, pois foram perfuradas pelos cravos como por um torno; “de ouro”, por causa da pureza da obra; “cheias de jacintos”, isto é, dos prêmios da vida eterna; e o primeiro jacinto mereceu receber o ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
“Todo o dia”, diz, e também a noite, porque, quando o dia da prosperidade mundana nos sorri, então devemos recordar-nos da morte de Jesus Cristo. Por isso, diz-se que o sol se obscureceu na sua morte (cf. Lc 23,45). O sol da glória mundana deve obscurecer-se para nós na memória da Paixão do Senhor.
“Estendi”, diz, “as mãos a um povo incrédulo”. Isaías diz: “O incrédulo age infielmente” (Is 21,2). Diz Agostinho: crer em Deus é amar a Deus, ir a ele e ser incorporado aos seus membros. Quem não faz isso mente quando diz: “Creio em Deus”. Incrédulo, portanto, é aquele que não crê desse modo e age infielmente: a sua fé está morta, porque carece de caridade.
“Que caminha por um caminho que não é bom”, largo e espaçoso, que conduz à morte (cf. Mt 7,13). Algo semelhante se encontra nos Provérbios: “O homem apóstata, homem inútil, caminha com a boca perversa, fala apontando o dedo, faz sinais com os olhos, esfrega os pés” (Pr 6,12-13). “Seguindo os seus próprios pensamentos”, dos quais se diz no livro da Sabedoria: “Os pensamentos perversos afastam de Deus” (Sb 1,3); e: “O Espírito Santo afasta-se dos pensamentos que não têm entendimento” (Sb 1,5).
“Povo que me provoca à ira”, isto é, à vingança, por seu empenho em delinquir. Por isso, Sofonias diz: “Ai da cidade provocadora e resgatada” (Sf 3,1), como se dissesse: Provocam-me à ira aqueles que resgatei com o meu sangue.
“Diante da minha face continuamente”, isto é, abertamente, o que é pior. Diz Isaías: “Proclamaram o seu pecado como Sodoma, e não o esconderam” (Is 3,9).
“Que imolam nos jardins”: eis a luxúria. Por isso, Isaías: “Vós vos envergonhareis dos jardins”, isto é, dos lugares de prazer, “que escolhestes” (Is 1,29) para a vossa luxúria.
“E sacrificam sobre tijolos”: eis a avareza. Por isso, no Êxodo: “Não vos será dada palha, e entregareis o número habitual de tijolos” (Ex 5,18). Muitas vezes acontece que se subtraia aos avarentos e usurários a palha, isto é, as riquezas; e, contudo, eles não deixam de fabricar para o diabo os tijolos da avareza, ao menos pela vontade e pela palavra. Ou sacrificam sobre tijolos aqueles que prestam o ofício divino ao Senhor junto ao fogo, ao leito e coisas semelhantes.
“Que habitam nos sepulcros”: eis a detração. “A sua garganta é um sepulcro aberto” (Sl 13,2) etc. “E dormem nos templos dos ídolos”: eis a hipocrisia, que, como um ídolo, ostenta uma aparência de religião, mas carece da verdade das obras. Ai! Quantos hoje são adoradores dos ídolos, que veneram um simulacro que finge uma santidade alheia.
“Que comem carne de porco”: eis a imundície da gula; “e caldo impuro em seus vasos”, isto é, em seus corações: eis a impureza dos pensamentos. Aqueles que fazem essas coisas contradizem o sinal da Paixão do Senhor.
14. Segue-se: “E também a tua própria alma será atravessada por uma espada” (Lc 2,35). A dor que a bem-aventurada Maria suportou na Paixão de seu Filho foi como uma espada que lhe atravessou a alma. É isto que diz Isaías: “Antes de sentir as dores, deu à luz” (Is 66,7). Observa que o parto da bem-aventurada Maria foi duplo: um na carne e outro no espírito. O parto da carne foi virginal e repleto de toda alegria, porque a Virgem deu à luz sem dor a alegria dos anjos. Por isso diz com Sara, no Gênesis: “O Senhor me deu o sorriso; todo aquele que o ouvir sorrirá comigo” (Gn 21,6). Devemos sorrir com a bem-aventurada Maria e alegrar-nos com ela pelo nascimento de seu Filho; devemos também compadecer-nos dela em sua Paixão, na qual uma espada lhe atravessou a alma, e então aconteceu o segundo parto, doloroso e repleto de toda amargura. E não é de admirar: o Filho de Deus, que a Virgem, pela cooperação do Espírito Santo, havia concebido e dado à luz, ela o via pregado com cravos no madeiro e suspenso entre ladrões. Que há de admirar, se uma espada lhe atravessou a alma? “Considerai e vede se há dor semelhante à sua dor” (Lm 1,12). Antes, pois, de dar à luz na Paixão, deu à luz na Natividade.
15. Moralmente. Jeremias, nas Lamentações, falando em pessoa de Jesus Cristo ao Pai, diz: “Lembra-te da minha pobreza, da minha superação, do absinto e do fel” (Lm 3,19). A Paixão de Cristo é chamada superação, porque superou a dor e o sofrimento de todos os mártires. Por isso, Lucas diz que “Moisés e Elias falavam da sua partida”, isto é, da Paixão, que excedeu todo sofrimento, “que ele haveria de consumar em Jerusalém” (Lc 9,31). Quando o justo considera isso, logo acrescenta o que segue nas mesmas Lamentações: “Lembrar-me-ei, lembrar-me-ei, e a minha alma se consumirá dentro de mim” (Lm 3,20).
Ó Filho de Deus, “lembrar-me-ei, lembrar-me-ei” — a repetição da palavra exprime o profundo afeto de quem ama — “da tua pobreza”, que foi tão grande que, na morte, não teve um sudário com que fosse envolvido, nem um sepulcro em que fosse sepultado, se não lhe tivesse sido oferecido, como a um pobre mendigo, por misericórdia e esmola; “e da tua superação”, isto é, da Paixão, na qual superaste e foste além de toda dor humana. Por isso, em João: “Jesus saiu”, diz ele, “com os seus discípulos para além da torrente do Cedron” (Jo 18,1), que se interpreta como tristeza profunda. Com efeito, na Paixão, ele superou toda tristeza e pesar. Todos os mártires, antes de suportarem a paixão, ignoravam quão grande seria nela a força da dor e, por isso, não sofriam tanto quanto sofreriam se o soubessem. O Senhor, porém, que conhece tudo antes que aconteça, antes de se encaminhar para a Paixão conhecia inteiramente a intensidade da dor; por isso, não é de admirar que sofresse mais do que todos os outros.
“Do absinto e do fel”, a respeito do qual se diz no Salmo: “Deram-me fel por alimento” (Sl 68,22), fel de touro, como se diz, do qual nada existe de mais amargo. Quando recordo tudo isso, a minha alma desfalece, trespassada pela espada da tua Paixão. Quando isso acontece, então, como se segue naquele texto, “revelam-se os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,35). É o que diz Jó: “Ele revela as profundezas das trevas e traz à luz a sombra da morte” (Jó 12,22). Quando o Senhor trespassa a alma com a espada da sua Paixão, então revela as profundezas, isto é, os vícios que estão muito longe do fundo da suficiência, porque nunca dizem: “Basta”, mas sempre: “Traz, traz” (cf. Pr 30,15); “ele os tira das trevas”, isto é, da cegueira da mente, pela contrição do coração, para que o homem os reconheça e, depois de reconhecê-los, os manifeste na confissão; pois acrescenta: “e traz à luz a sombra da morte”, isto é, traz o pecado mortal à luz da confissão.
16. A esta parte do trecho evangélico concorda aquela parte da epístola de hoje: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo” (Gl 4,4). Com efeito, se, como diz o Eclesiastes, “para todo negócio há um tempo oportuno” (Ecl 8,6), e o Eclesiástico: “O sábio permanecerá calado até o tempo oportuno” (Eclo 20,7), é razoável crer que também Deus tenha escolhido o tempo oportuno para realizar a obra da salvação do homem e enviar o seu Verbo. Observa que no ano há quatro estações: inverno, primavera, verão e outono. De Adão até Moisés tivemos, por assim dizer, o inverno: “Reinou”, diz o Apóstolo, “a morte desde Adão até Moisés” (Rm 5,14). Foi primavera de Moisés até Cristo. Nessa primavera começaram a brotar as flores, promessa do fruto. Quando, porém, chegou o verão, que é a “plenitude do tempo”, no qual as árvores se carregam de frutos, então “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4).
A isso também concordam as palavras do Levítico: “Dar-vos-ei as chuvas no tempo oportuno, a terra produzirá os seus germes, e as árvores se encherão de frutos. A debulha alcançará a vindima, e a vindima alcançará a semeadura; comereis o vosso pão até a saciedade” (Lv 26,3-5). O Senhor enviou a chuva quando o orvalho molhou toda a eira e a chuva caiu sobre o velo (cf. Jz 6,40), isto é, quando, ao anúncio do anjo, a Virgem concebeu o Filho de Deus. A terra produziu o seu germe quando a própria Virgem deu ao mundo o Salvador, que, pela pregação e pela realização de milagres, encheu as árvores, isto é, os apóstolos, dos frutos das virtudes. E a debulha, isto é, a paixão do Senhor, na qual ele foi esmagado por nossas iniquidades (cf. Is 53,5), uniu-se à vindima, isto é, à infusão do Espírito Santo, pela qual os apóstolos ficaram como que embriagados: “Consideram-nos”, diz, “cheios de vinho novo, aqueles que o Espírito Santo havia enchido” (cf. At 2,13-14). E a própria vindima se uniu à semeadura seguinte, isto é, à pregação dos Apóstolos: pois começaram imediatamente a pregar e a dizer: “Fazei penitência, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo” (At 2,38).
O outono será na bem-aventurança celeste, na qual os santos comerão o pão até a saciedade e “se sentarão”, como diz Miqueias, “debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os amedronte” (Mq 4,4).
Segue-se: “Feito sob a lei” (Gl 4,4), isto é, sujeito às observâncias da lei. Com efeito, disse: “Não vim abolir a lei, mas cumpri-la” (Mt 5,17), “para redimir os que estavam sob a lei” (Gl 4,5). Lemos algo semelhante na Epístola aos Hebreus: “Para destruir, pela morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que, pelo temor da morte, durante toda a vida, estavam sujeitos à escravidão” (Hb 2,14-15). Eis que agora se vê claramente em que sentido ele foi posto para a ruína dos demônios e para a ressurreição de muitos. Por isso segue-se: “Para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4,5). Que grande graça! Adotou os escravos como filhos! “E, se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8,17).
17. A esta passagem da epístola corresponde o introito da missa de hoje: “Enquanto um grande silêncio envolvia todas as coisas, e a noite percorria a metade de seu curso, a tua palavra onipotente, guerreiro implacável, precipitou-se dos tronos reais para o meio da terra do extermínio, levando como espada afiada o teu decreto inexorável; e, permanecendo de pé, encheu tudo de morte e, permanecendo na terra, atingia o céu” (Sb 18,14-16). Eis o texto literal do livro da Sabedoria: “Enquanto um silêncio tranquilo envolvia todas as coisas” (Sb 18,14).
É isto que diz o Senhor em Lucas: “Quando o homem forte e bem armado”, isto é, o diabo, “guarda o seu átrio”, isto é, o mundo ou o inferno, “estão em paz todos os seus bens” (Lc 11,21). Por isso, Senaquerib, no qual é figurado o próprio diabo, diz em Isaías: “A minha mão destruiu a força dos povos como um ninho”, isto é, como se fossem incapazes de se defender; “e, como se recolhem os ovos abandonados”, isto é, pela mãe, “assim reuni toda a terra, e não houve quem movesse uma asa”, isto é, levantasse a mão contra mim, “abrisse a boca e gemesse” (Is 10,14). Eis como todas as coisas estavam envolvidas por um silêncio tranquilo.
“E a noite percorria a metade de seu curso.” Diz-se “metade” em relação aos extremos. Os extremos da noite são o conticínio e a aurora. Desde Adão até a Lei houve como que um conticínio; desde a Lei até a Anunciação da bem-aventurada Virgem Maria chegou-se como que à meia-noite, na qual é figurada a transgressão do preceito. Nem Adão no paraíso, nem o povo no deserto guardaram o preceito; todos estavam obscurecidos pela escuridão desta noite e, por isso, necessitavam da aurora, isto é, do benefício da vinda do Senhor, que começou na saudação do anjo. O princípio da noite foi a sugestão diabólica da serpente a Eva. O início do dia foi a saudação do anjo a Maria. E então, ó Pai, a palavra onipotente consubstancial a ti, isto é, teu Filho, veio dos tronos reais, isto é, do seio de tua majestade, a respeito do qual João diz: “O Filho unigênito, que está no seio do Pai, ele mesmo o revelou” (Jo 1,18).
“Guerreiro implacável.” É isto que se diz em Lucas: “Mas, se vier sobre ele alguém mais forte” (Lc 11,22). Aquele que vinha para quebrar as portas de bronze e despedaçar as barras de ferro (cf. Sl 106,16) devia, sem dúvida, ser um guerreiro implacável. O Senhor diz a respeito do diabo, no livro de Jó, que ele considera “o ferro como palha, e o bronze como madeira podre. O arqueiro não o fará fugir; para ele, as pedras da funda se transformam em palha. Considerará o martelo como palha e zombará daquele que brandir a lança” (Jó 41,18.20). Que mais dizer? “Foi feito de modo a não temer ninguém” (Jó 41,24). Era, portanto, necessário que fosse um guerreiro implacável aquele que vinha despojar o diabo, e contra quem o diabo nada pudesse.
“No meio da terra”, que está entre o céu e o inferno, “do extermínio”, isto é, aquela que o diabo exterminara, ou seja, pusera fora dos limites da vida eterna. Por isso, Isaías diz a seu respeito: “É este o homem que perturbava a terra, que abalava os reinos, que reduzia o mundo a um deserto e destruía as suas cidades?” (Is 14,16-17); “precipitou-se”, com os dois pés unidos: a divindade e a humanidade.
“Espada afiada.” É isto que diz o Apóstolo: “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que toda espada de dois gumes” (Hb 4,12) etc. A espada é a divindade, que estava escondida na bainha da humanidade. Por isso, Isaías diz: “Verdadeiramente tu és um Deus oculto, Deus de Israel, Salvador” (Is 45,15). Por esta espada foi transpassado o diabo, que exterminava a terra. Por isso, Isaías diz: “A poeira acabou, pereceu o miserável, desapareceu aquele que pisoteava a terra” (Is 16,4).
18. “Levando o teu decreto inexorável.” João diz: “O Pai entregou tudo em suas mãos” (cf. Jo 3,35; 13,3). E ainda: “Tudo quanto o Pai possui é meu” (Jo 16,5). Igualmente: “Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu” (Jo 17,10). Levou, portanto, o decreto do Pai, que lhe dera poder sobre toda carne (cf. Jo 17,2); o seu poder é um poder eterno (cf. Dn 7,14); ele é aquele que ordena aos ventos e ao mar, e eles lhe obedecem (cf. Lc 8,25). “Levando o decreto inexorável”: é isto que diz Marcos: “Ensinava-os como quem tem autoridade, e não como os seus escribas” (Mc 1,22), que ensinavam com hipocrisia e fingimento. E em Lucas: “Que palavra é esta? Pois ordena com autoridade e poder aos espíritos imundos, e eles saem!” (Lc 4,36).
“E, permanecendo de pé, encheu tudo de morte.” Permanecendo de pé, com as mãos estendidas na cruz, encheu com sua morte todas as coisas que haviam sido esvaziadas pela desobediência do primeiro pai. E de sua plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1,16).
“E atingia o céu”, no qual está a divindade, pois a Sabedoria se estende vigorosamente de uma extremidade à outra (cf. Sb 8,1), “permanecendo na terra”, na qual é figurada a humanidade. Diz em João: “Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu” (Jo 3,13). A seu respeito se diz em Jó: “É mais alto que o céu: que farás? É mais profundo que o inferno: de onde o conhecerás? Sua medida é mais longa que a terra e mais larga que o mar” (Jó 11,8-9).
A ele, caríssimos irmãos, supliquemos humildemente que nos faça ruir quanto aos vícios e ressurgir para as virtudes, que a espada de sua Paixão atravesse a nossa alma, para que mereçamos chegar à alegria da ressurreição geral.
Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito pelos séculos. Amém.
19. “Enquanto um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas”, exponha-se em sentido moral. Jó diz do diabo: “Dorme à sombra, no esconderijo do caniço e em lugares úmidos” (Jó 40,16). Na sombra está figurada a soberba, que é chamada sombra da morte, isto é, do diabo. Pois, assim como a sombra segue o corpo, assim a soberba segue o diabo. Por isso se diz no Apocalipse: “E eis um cavalo pálido, e aquele que o montava chamava-se Morte; e o inferno o seguia” (Ap 6,8). Eis o cavalo, o cavaleiro e o escudeiro. O cavalo pálido é o hipócrita; o cavaleiro, cujo nome é Morte, é o diabo; o escudeiro, o inferno, isto é, a soberba, que alimenta o cavalo com cevada e água, isto é, com a austeridade da abstinência, para parecer aos homens que jejua (cf. Mt 6,16); põe-lhe por baixo a sela da falsa humildade e o refreia com o freio do silêncio. “O insensato”, diz Salomão, “se calar, será tido por sábio” (Pr 17,28); assim também o hipócrita é tido por santo. Sobre esse cavalo monta a morte e percorre o mundo: caça louvores, busca saudações nas praças, cátedras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes (cf. Mt 23,6-7). Não há soberba maior que a do hipócrita; a justiça simulada não é justiça, mas dupla iniquidade.
Também no caniço, de que deriva calamidade, é figurada a avareza; à sua vacuidade, que jamais diz: “Basta”, segue-se a calamidade eterna. Nos lugares úmidos são figuradas a gula e a luxúria. Com efeito, a umidade é mãe da corrupção, da qual nascem vermes e coisas semelhantes. Nos soberbos, nos avaros e nos luxuriosos, dorme e repousa o diabo; e então um silêncio tranquilo envolve todos os seus membros. O coração cala-se quanto ao bom pensamento, a língua quanto ao louvor de Deus, e as mãos quanto à obra reta. Diz Isaías: “Ai de mim, porque me calei!” (Is 6,5). Nesse silêncio está o “ai” da condenação eterna.
“E a noite teria percorrido metade do seu curso.” A noite é assim chamada por prejudicar, porque faz mal aos olhos, e significa o pecado mortal, pelo qual se obscurece a luz da razão. Quem anda de noite tropeça (cf. Jo 11,10). Os extremos dessa noite são o primeiro escurecimento, chamado conticínio, e a aurora, isto é, o consentimento da mente cegada e a infusão da graça; entre ambos está a própria ação e o hábito do pecado. Desse caminho intermediário se diz no Salmo: “O caminho dos ímpios perecerá” (Sl 1,6).
Isso aconteceu quando “a palavra onipotente se lançou”, isto é, a graça do Espírito Santo, que é justamente chamada palavra onipotente: onipotente, porque é capaz de romper todos os obstáculos à salvação; palavra, porque semeia e enxerta as virtudes na mente, ou porque conserva a mente, que curou do pecado. Por isso, no livro da Sabedoria: “Não foi a erva, isto é, o viço das riquezas, que logo seca, nem o lenitivo dos prazeres que os curou, mas a tua palavra onipotente, Senhor, que cura todas as coisas” (cf. Sb 16,12), “vinda dos tronos reais” da divina bondade e misericórdia. Por isso diz Joel: “Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque ele é benigno e misericordioso” (Jl 2,13).
20. “Guerreiro implacável”, na contrição. A graça é chamada guerreiro implacável porque, como um martelo, despedaça a dureza da mente: “Porventura não são minhas palavras como fogo e como um martelo que despedaça as pedras?” (cf. Jr 23,29).
“Para o meio da terra”, isto é, para a mente do pecador, que é chamada terra porque aprecia as coisas terrenas; meio, porque está situada entre a misericórdia e a justiça. Por isso se diz em João que “Jesus ficou sozinho, e a mulher no meio” (Jo 8,9), isto é, entre a misericórdia e a justiça.
“Do extermínio.” Há dois extremos: a entrada e a saída de nossa vida. Quando a mente do homem não habita neles nem neles pensa, então está exterminada, isto é, colocada fora dos limites. Diz Isaías: “O clamor percorre o território de Moab” (cf. Is 15,8); nele é designado o pecador, em cujos dois extremos há clamor: quando entra no mundo, ele chora e clama; quando dele sai, os seus choram. Por isso se diz no Eclesiastes: “Percorrerão”, isto é, com o cadáver, “a praça, lamentando” (Ecl 12,5).
Segue-se: “Espada afiada”, na confissão. A graça é então espada afiada quando aguça a língua do pecador na confissão, para que possa dizer com Isaías: “Pôs a minha boca como uma espada afiada” (Is 49,2). A esse respeito diz o Senhor a Ezequiel: “E tu, filho do homem, toma para ti uma espada afiada, que raspe os pelos, e passa-a sobre a tua cabeça e a tua barba” (Ez 5,1). O pecador deve raspar a cabeça com a espada da confissão, na qual está a mente, para que nenhum pecado permaneça na consciência; e a barba, na qual é figurada a força da boa obra, para que não confie em si mesmo, mas no Senhor, de quem procede todo bem.
Por isso segue-se: “Levando o teu império não fingido.” A verdadeira confissão não conhece simulação; ela manifesta a verdade da consciência diante do Altíssimo e do próprio confessor e, então, leva o império não fingido do Senhor. Observa que quatro são os inimigos da confissão: o amor ao pecado, a vergonha de confessar-se, o medo da penitência e o desespero do perdão. Quem na confissão vence completamente esses quatro inimigos leva, sem dúvida, o império não fingido do Senhor.
Segue-se: “E, permanecendo de pé, encheu tudo de morte”, na satisfação, isto é, na reparação da penitência. A graça permanece de pé quando faz o penitente perseverar virilmente na penitência, para que encha todos os seus membros de morte, isto é, de mortificação, a fim de que, morto para o pecado, viva para Deus (cf. Rm 6,11). E então se poderá dizer dele o que segue: “E, permanecendo de pé na terra, alcançava o céu.” A graça alcança o céu, permanecendo na terra, quando faz o penitente, ainda colocado na carne, alcançar o céu por meio de uma vida celeste, para que diga com o Apóstolo: “Nossa pátria está nos céus” (Fl 3,20).
Peçamos, portanto, caríssimos irmãos, ao Senhor Jesus Cristo que envie à terra do extermínio a graça do Espírito Santo, a qual despedace a dureza da mente, aguçe a língua na confissão e encha de mortificação os membros do corpo, para que mereçamos alcançar o céu por meio de uma vida celeste. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos. Amém.