Quarto evangelho da Quaresma: “Jesus foi conduzido ao deserto”, que se divide em sermão alegórico e sermão moral.
No sermão alegórico, trata-se primeiramente do deserto tríplice e do sermão sobre a vinda do Senhor, onde se diz: “Envia, Senhor, o cordeiro”.
Também há o sermão sobre o ternário maldito, onde se diz: “Joab tomou três lanças”.
No sermão moral, primeiramente há o sermão aos religiosos, onde se diz: “Foram dadas à mulher duas asas”; e sobre a natureza da águia e as propriedades do abutre.
Também há o sermão sobre a contrição do coração, onde se diz: “No sopro veemente”; e também: “Sacrifício a Deus”.
Também há o sermão aos sacerdotes, sobre como devem manter secreta a confissão, onde se diz: “A confissão deve ser inabitável”; e também: “Cuidado para não subirdes ao monte”.
Também há o sermão sobre os sete vícios e sobre as propriedades do avestruz, do asno e do ouriço, onde se diz: “Será covil de dragões”.
Também há o sermão aos que se confessam, sobre como devem confessar os pecados e suas circunstâncias, onde se diz: “Toma a cítara”.
Também há o sermão sobre a confissão, onde se diz: “Quão terrível é este lugar”.
Também há o sermão sobre o jejum de quarenta dias, onde se diz: “E, tendo jejuado quarenta dias”; e também: “Os exploradores enviados por Moisés”.
Também há o sermão sobre as circunstâncias do pecado que devem ser confessadas e abandonadas, onde se diz: “Josué conquistou também Maceda”.
Também há o sermão sobre o ternário maldito com que o diabo nos tenta, onde se diz: “Revistamo-nos do homem novo”.
1. “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”, etc. (Mt 4,1).
Lê-se no Primeiro Livro dos Reis que Davi habitou no deserto de Engadi (cf. 1Rs 24,1-2). Davi interpreta-se “de mão forte” e significa Jesus Cristo, que, com as mãos pregadas na cruz, venceu as potências aéreas (diabólicas). Eis que fortaleza admirável: vencer o próprio inimigo com as mãos atadas! Cristo habitou no deserto de Engadi, que se interpreta “olho da tentação”. Observa que o olho da tentação é tríplice. O primeiro é o da gula, do qual se diz no Gênesis: “A mulher viu que a árvore era boa para comer, bela aos olhos e agradável à vista; tomou de seu fruto, comeu e deu-o a seu marido” (Gn 3,6). O segundo é o da soberba e da vanglória, do qual Jó, falando do diabo, diz: “Ele vê tudo o que é elevado e é o rei sobre todos os filhos da soberba” (Jó 41,25). O terceiro é o da avareza, do qual diz Zacarias: “Este é o olho deles em toda a terra” (Zc 5,6). Cristo, portanto, habitou no deserto de Engadi durante quarenta dias e quarenta noites; nele suportou do diabo a tentação da gula, da vanglória e da avareza.
2. Por isso se diz no Evangelho de hoje: “Jesus foi conduzido ao deserto”. Observa que há três desertos, e a cada um deles Jesus foi conduzido: o primeiro é o útero da Virgem, o segundo é o do Evangelho de hoje, o terceiro é o patíbulo da cruz. Ao primeiro foi conduzido somente pela misericórdia, ao segundo para nos dar o exemplo, ao terceiro para obedecer ao Pai.
Do primeiro diz Isaías: “Envia, Senhor, o cordeiro dominador da terra, da pedra do deserto ao monte da filha de Sião” (Is 16,1). “Ó Senhor, Pai, envia o cordeiro”, não o leão, “o dominador”, não o devastador, “da pedra do deserto”, isto é, da bem-aventurada Virgem, que é chamada pedra do deserto: “pedra”, por causa do firme propósito de virgindade — pelo qual respondeu ao anjo: “Como acontecerá isso, pois não conheço homem?” (Lc 1,34), isto é: firmei o propósito de não conhecê-lo —; “do deserto”, porque é incultivável; com efeito, permaneceu virgem antes do parto, no parto e depois do parto. “Envia-o”, digo, “ao monte”, isto é, à excelência, “da filha”, isto é, da Igreja, que é filha, “de Sião”, isto é, da Jerusalém celeste.
Do segundo diz Mateus: “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”, etc.
Do terceiro fala João Batista em João: “Eu sou a voz daquele que clama no deserto” (Jo 1,23). João é chamado voz porque, assim como a voz precede a palavra, ele precedeu o Filho de Deus. “Eu”, diz, “sou a voz de Cristo, que clama no deserto”, isto é, no patíbulo da cruz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Neste deserto, tudo estava cheio de espinhos, e ele ficou privado de todo auxílio humano.
3. Digamos, pois: “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto”. Costuma-se perguntar por quem. Lucas mostra clarissimamente por quem foi conduzido: “Jesus”, diz ele, “cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão; e era conduzido pelo Espírito ao deserto” (cf. Mc 1,12; Lc 4,1). Por aquele mesmo de quem estava cheio foi conduzido, daquele de quem ele próprio diz em Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu” (Is 61,1); por aquele Espírito pelo qual foi ungido mais que os seus companheiros (cf. Hb 1,9), por esse foi conduzido ao deserto, “para ser tentado pelo diabo”. Como o Filho de Deus, o nosso Zorobabel, que se interpreta “mestre da Babilônia”, viera restaurar o mundo confundido pelos pecados e, como médico, curar os enfermos, foi necessário que curasse os males com remédios contrários; assim como, na arte da medicina, as coisas frias são curadas pelas quentes, e as quentes pelas frias.
A ruína e a fraqueza do gênero humano foi o pecado de Adão, que consiste em três coisas: gula, vanglória e avareza. Daí o verso: “A gula, a glória vã e a cobiça venceram o velho Adão”. Encontram-se essas três coisas no Gênesis: “A serpente disse à mulher” (Gn 3,4): “No dia em que comerdes dele, abrir-se-ão os vossos olhos”: eis a gula; “sereis como deuses”: eis a vanglória; “conhecendo o bem e o mal” (Gn 3,5): eis a avareza. Essas foram as três lanças com que Adão foi morto juntamente com seus filhos.
Por isso se diz no segundo livro dos Reis: “Joab tomou três lanças em sua mão e cravou-as no coração de Absalão” (2Rs 18,14). Joab interpreta-se “inimigo” e significa muito bem o diabo, inimigo do gênero humano. Este “tomou”, na mão da falsa promessa, “três lanças”, isto é, a gula, a vanglória e a avareza, “e cravou-as no coração”, no qual está a fonte do calor e a vida do homem: “dele”, diz Salomão, “procede a vida” (Pr 4,23), para extinguir o calor do amor divino e tirar completamente a vida; “no coração”, diz ele, “de Absalão”, que se interpreta “paz do pai”. Este foi Adão, que foi colocado num lugar de paz e deleites para que, obedecendo ao Pai, conservasse eternamente a paz do pai. Mas, depois que não quis obedecer a Deus Pai, perdeu a paz, e o diabo cravou em seu coração as três lanças e o privou inteiramente da vida.
4. Veio, pois, o Filho de Deus no tempo favorável e, obedecendo a Deus Pai, restaurou o que fora perdido, curou os males com remédios contrários. Adão foi colocado no paraíso, no qual, repleto de delícias, caiu. Jesus foi conduzido ao deserto, no qual, perseverando nos jejuns, venceu o diabo. Vede a concordância entre as duas tentações no Gênesis e em Mateus: “A serpente disse: No dia em que comerdes dele. E, aproximando-se, o tentador disse-lhe: Se és Filho de Deus, dize que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3): eis a gula. Igualmente: “Sereis como deuses. Então o diabo tomou-o e levou-o à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo” etc. (Mt 4,5): eis a vanglória. Igualmente: “Conhecendo o bem e o mal. Novamente o diabo tomou-o e levou-o a um monte muito alto; mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrando-te, me adorares” (Mt 4,8-9); tão perverso quanto é, tão perversamente falou: eis a avareza. A Sabedoria, porém, porque sempre age sabiamente, venceu a tríplice tentação do diabo com a tríplice autoridade do Deuteronômio.
Quando o diabo o tentou quanto à gula, Jesus respondeu: “O homem não vive somente de pão” (Mt 4,4); como se dissesse: Assim como o homem exterior vive de pão material, assim o interior vive do pão celeste, que é a palavra de Deus. A Palavra de Deus chama-se Filho, que é a Sabedoria que saiu da boca do Altíssimo (cf. Eclo 24,5). A sabedoria é assim chamada por causa do sabor. Portanto, o pão da alma é o sabor da sabedoria, pelo qual ela saboreia os bens do Senhor e experimenta quão suave é o próprio Senhor (cf. Sl 33,9). Sobre este pão se diz no livro da Sabedoria: “Deste-lhes um pão do céu, que continha em si toda delícia e a suavidade de todo sabor” (Sb 16,20). E é isto que se diz: “Mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4; cf. Dt 8,3). Diz “de toda”, porque a palavra de Deus e a sabedoria possuem a suavidade de todo sabor, cujo sabor torna insípido o prazer da gula. Como Adão se desgostou deste pão, por isso cedeu à tentação da gula. Diz-se, pois, muito bem: “Não somente de pão” etc.
Do mesmo modo, quando o tentou quanto à vanglória, Jesus respondeu: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Mt 4,7; Dt 6,16). Jesus Cristo é Senhor pela criação, Deus pela eternidade. O diabo tentou-o quando persuadiu o próprio Criador do templo a lançar-se do pináculo do templo e prometeu ao Deus de todas as potências celestes o auxílio dos anjos. “Não tentarás, pois, o Senhor, teu Deus”. Também Adão tentou o Senhor Deus, quando não observou o preceito do Senhor e Deus, mas facilmente deu crédito à falsa promessa: “Sereis como deuses”. Ó que vanglória é crer que se pode tornar Deus! Ó miserável! Em vão te elevas acima de ti mesmo e, por isso, miseravelmente cairás abaixo de ti. “Não tentarás, pois, o Senhor, teu Deus”.
Por fim, quando o tentou quanto à avareza, Jesus respondeu: “Adorarás o Senhor, teu Deus, e a ele somente servirás” (Mt 4,10; cf. Dt 6,13; 10,20). Todos os que amam o dinheiro ou a glória do mundo, prostrando-se, adoram o diabo. Nós, porém, por quem Jesus Cristo veio ao seio da Virgem e suportou o patíbulo da cruz, instruídos pelo seu exemplo, venhamos ao deserto da penitência e, com o seu auxílio, reprimamos o ímpeto da gula, o vento da vanglória e o incêndio da avareza; adoremos aquele que os arcanjos adoram, sirvamos àquele a quem os anjos servem, que é bendito, glorioso, digno de louvor e excelso pelos séculos eternos. Diga toda criatura: Amém.