1. Naquele tempo: “Jesus chegou às regiões de Cesareia de Filipe” (Mt 16,13).
Neste Evangelho observam-se três momentos: a interrogação de Jesus Cristo, a profissão de fé de Pedro e a concessão do poder de ligar e desligar.
2. A interrogação de Jesus Cristo, como em: “Jesus veio”. Nesta primeira parte são observados, em sentido moral, dois ensinamentos: a vida santa e a boa fama. Mas vejamos primeiro a história ou a alegoria.
Cesareia de Filipe situa-se onde nasce o Jordão, aos pés do Líbano, e possui duas fontes, uma chamada Jor e outra Dan, que, unidas, formam o nome Jordão. “E interrogava os seus discípulos.” Ao procurar examinar a fé dos discípulos, primeiro indaga a opinião do povo, para que a fé dos apóstolos não pareça fundada na opinião do povo, mas no conhecimento da verdade. “A quem dizem os homens que é o Filho do homem?” É acertadamente que se chamam homens aqueles que, à maneira dos homens, manifestam opiniões diversas sobre o Senhor. “Que é o Filho do homem?” Não diz “eu”, para não parecer falar com arrogância; professa, a respeito de si mesmo, a humildade da humanidade. “Eles responderam: Uns dizem que é João Batista” (Mt 16,14) etc. Talvez a opinião de que era João se devesse ao fato de este, ainda no seio materno, ter sentido a presença do Senhor (cf. Lc 1,41.44); a de que era Elias, porque foi arrebatado ao céu (cf. 4Rs 2,11) e se acreditava que haveria de voltar (cf. Mt 17,10-11); a de que era Jeremias, porque fora santificado no seio materno (cf. Jr 1,5).
3. “Jesus veio às regiões de Cesareia”, que se interpreta “posse do príncipe” ou “posse principal”, “de Filipe”, que se interpreta “boca da lâmpada”. Veio Cristo; vem também tu, ó cristão, às regiões de Cesareia. Príncipe é chamado assim porque primeiro toma posse de um lugar ou dignidade: é o espírito do homem, cuja posse é o corpo, no qual o espírito deve ocupar o primeiro lugar e a mais alta dignidade. Diz Isaías: “O príncipe pensará nas coisas dignas de um príncipe e ele estará acima dos chefes” (Is 32,8). Observa estas duas palavras: “pensará” e “estará”. Eis a dignidade e o lugar que o príncipe deve ocupar primeiro. Quais são essas coisas dignas de um príncipe, que deves pensar, ó príncipe, espírito do homem, senão voltar a ti mesmo, entrar em teu coração e ali examinar: o que és, o que foste, o que deverias ter sido, o que ainda poderás ser? O que foste por natureza, o que agora és por culpa, o que deverias ter sido por teu empenho, o que ainda poderás ser pela graça. Os chefes são os afetos e os pensamentos, sobre os quais deve estar o príncipe, para poder dominar os afetos e comandar os pensamentos, a fim de refreá-los, aos primeiros, da concupiscência ilícita, e aos segundos, da vã dispersão. “Veio”, portanto, “às regiões”, nas quais são designados os sentidos do corpo, aos quais vem ou nos quais entra o espírito do homem, quando diz a este: “Vai”, e ele vai; e a outro: “Vem”, e ele vem; e ao seu servo, o corpo: “Faz isto”, e ele o faz (cf. Mt 8,9).
E observa que esse príncipe, a quem pertence a posse, é chamado “boca da lâmpada”. Na lâmpada há quatro elementos: o vidro resplandecente, o óleo que alimenta, o pavio e a chama. No vidro está a pureza da consciência; no óleo, a compaixão pela necessidade dos irmãos; no pavio, a aspereza da contrição; na chama, o ardor do amor divino. Feliz aquele espírito, bem-aventurado aquele cristão que é a boca desta lâmpada, de modo que, quando fala, fale movido pela pureza, pela compaixão, pela contrição e pelo amor de Deus.
E observa ainda que Cesareia, isto é, a nossa carne, deve estar situada nas raízes do Líbano, onde nasce o Jordão. O monte Líbano, que se interpreta “brancura”, é a excelência da castidade, cuja raiz é a humildade, da qual brotam duas fontes: Ior, que se interpreta “rio”, e Dan, que se interpreta “juízo”; unidos, formam o Jordão, isto é, o rio do juízo, ou seja, a compunção das lágrimas, pelas quais a humildade julga a si mesma e condena o mal que fez. Eis quão grande é a virtude da humildade, da qual se eleva o monte da castidade e procede o rio da compunção. Aquele que assim chega às regiões de Cesareia de Filipe pode muito bem interrogar seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?”
4. Chama-se discípulo aquele que aprende a disciplina; quem é bom em si mesmo tem e deve ter sua família bem disciplinada e honesta, para poder dizer com Davi: “Meus olhos estão voltados para os fiéis da terra, para que se sentem comigo” (Sl 100,6) etc. Cada qual se deleita na companhia dos que lhe são semelhantes. E, porque é cruel quem despreza a própria fama, por isso pergunta, para saber com mais certeza — e, se houver algo a corrigir, emendá-lo — o que os homens dizem dele. E, porque da santidade da vida e da boa reputação costuma nascer a exaltação, por isso chama-se filho do homem. Diz Jó: “O homem é podridão, e o filho do homem, verme” (Jó 25,6). Como se dissesse: “Da podridão nasce a podridão.” Por isso, quando o Senhor mostrava grandes coisas a Ezequiel, chamava-o filho do homem, para que não se ensoberbecesse (cf. Ez passim). Quem se considera verme, de modo algum se ensoberbece de si mesmo. Pergunta, portanto: “Que dizem os homens de mim, verme e podridão?”
Oxalá lhe respondam: “Alguns dizem que és João Batista.” João Evangelista e João Batista: daquele é o ofício de anunciar, deste, o de lavar; o primeiro é bom, mas o segundo é mais seguro, porque a verdade é ouvida com mais segurança do que é pregada. Do mesmo modo, evangelista é aquele que ora somente com palavras; batista, aquele que, no silêncio e na devoção da mente, faz de si para si um batistério de lágrimas; e este é muito melhor do que aquele. E a este sucede o que se diz do Batista: “Não beberá vinho nem bebida inebriante” (Lc 1,15): o vinho é a vanglória; a bebida inebriante, a alegria vã; não as bebe quem não busca os louvores dos homens.
“Outros dizem que és Elias”, de quem se diz no Quarto Livro dos Reis que “era peludo e trazia cingido aos rins um cinto de couro” (4Rs 1,8). Eis o hábito do penitente, que despreza o mundo e castiga a carne. Elias interpreta-se “dominador robusto”. Por isso se diz dele, no Terceiro Livro dos Reis, que agarrou os profetas de Baal, levou-os ao ribeiro de Cison e ali os matou (cf. 3Rs 18,40). Baal interpreta-se “devorador”; Cison, “homem que vomita dor”. Elias é o penitente peludo contra a glória do mundo, cingido aos rins contra a luxúria da carne. Este, como um dominador robusto, agarra os profetas do ventre, que tudo devora. O ventre tem certos profetas que anunciam ao homem: “Por que jejuas assim? Por que te afliges desse modo? Cairás enfermo; chegarás a tal debilidade que não poderás ajudar nem a ti mesmo nem aos outros.” Deles diz Jeremias nas Lamentações: “Teus profetas tiveram visões falsas a teu respeito” (Lm 2,14). O penitente, porém, na contrição, apanha-os e conduz-os à confissão lacrimosa, onde vomita toda a dor da tentação e do pecado, e assim os mata.
“Outros dizem que és Jeremias”, ao qual o Senhor disse: “Eis que te constituí para arrancares” o que foi mal plantado, “destruíres” o que foi mal edificado, “dispersares” o que foi mal ajuntado, “dissipares” a sebe, “edificares” a casa e “plantares um jardim” (Jr 1,10). A concupiscência da carne planta ilicitamente; por isso diz o Deuteronômio: “Não plantarás bosque algum junto ao altar do Senhor, teu Deus” (cf. Dt 16,21); e o Apóstolo: “Temos um altar do qual não podem comer os que servem à tenda”, isto é, ao corpo (cf. Hb 13,10). Diz-se no Terceiro Livro dos Reis: “Acab falou a Nabot, dizendo: Dá-me a tua vinha, para que eu faça dela um jardim de hortaliças” (3Rs 21,2). Acab é o diabo; Nabot, o justo; a vinha, a compunção; o jardim de hortaliças, a concupiscência da gula e da luxúria. O diabo quer tirar do justo a compunção da mente e plantar a concupiscência da carne. Do mesmo modo, a soberba edifica mal; por isso diz o livro dos Provérbios: “Quem constrói muito alta a sua casa procura a ruína” (Pr 17,16). A avareza ajunta mal, por isso diz Habacuc: “Ai daquele que ajunta avareza má para a sua casa, a fim de pôr no alto o seu ninho e julgar que assim se livrará da mão do mal!” (Hab 2,9). O avarento ajunta para pôr no alto o seu ninho, isto é, para elevar a sua condição e a dos seus; mas, quando julga estar seguro, o diabo arma-lhe ali uma cilada e apanha e mata o pai com os filhotes, isto é, o usurário com seus filhos. Do mesmo modo, a obstinação faz uma sebe; por isso diz Naum: “Os teus pequenos são como gafanhotos de gafanhotos, que confiam nas sebes no dia do frio” (Na 3,17). Os gafanhotos são os usurários, que ensinam seus pequenos a praticar a usura e a dar, por assim dizer, um salto de usura em usura. Estes, no frio de sua malícia, confiam nas sebes da obstinação, porque não querem restituir o alheio nem voltar à penitência.
Verdadeiramente é Jeremias, isto é, “excelso para o Senhor”, aquele que extirpa estas quatro coisas não somente em si, mas também nos outros; que edifica a casa da humildade, na qual Deus possa repousar, e planta o jardim da caridade, no qual possa alimentar-se. Da casa da humildade diz o Senhor em Lucas: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo permanecer em tua casa” (Lc 19,5). Na casa daquele que desce, isto é, na consciência daquele que se humilha, permanece a graça do Onipotente. Do jardim da caridade diz a esposa no Cântico dos Cânticos: “Venha o meu amado ao seu jardim e coma o fruto de suas árvores” (Ct 5,1). Diz que o jardim e seus frutos pertencem ao amado, porque tudo o que ali é plantado e nasce provém inteiramente da graça de Cristo. Os frutos são as obras de caridade, das quais Cristo se alimenta cada vez que o próximo as recebe. “Tive fome”, diz ele, “e me destes de comer” (Mt 25,35).
“Ou um dos profetas.” O ofício do profeta é anunciar as coisas futuras. É bom profeta aquele que anuncia a si mesmo o fim de sua vida, a vinda do juiz e o prêmio do reino celeste. Feliz aquele que é louvado por tal fama, a quem se presta tal testemunho de vida, de modo que seja João Batista na devoção, Elias na mortificação da carne, Jeremias na extirpação dos vícios e no plantio das virtudes, e um dos profetas no anúncio das coisas futuras.
5. A confissão de Pedro, como naquele trecho: Jesus lhes disse: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Como se dissesse: Eles são homens e têm opiniões humanas; vós, porém, que sois deuses (cf. Sl 81,6), quem dizeis que eu sou? “Respondendo Pedro”, um por todos, pois todos sabiam uma só coisa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Nesta profissão de fé, ele abraçou a natureza humana e a divina. Com efeito, Cristo é assim chamado de crisma, isto é, ungido, porque, enquanto homem, foi ungido por Deus Pai com o Espírito Santo. “Ungiu-te, ó Deus Filho, Deus, teu Pai” (Sl 44,8). Por isso, em Isaías XLV: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro” (Is 45,1), que se interpreta como herdeiro, isto é, filho. De quem? “Do Deus vivo.”
Observa que o crisma é feito de bálsamo. Diz-se nas coisas naturais que o lugar onde nasce o bálsamo se chama olho do sol, e sua árvore é chamada videira, porque se assemelha à videira; e o seu líquido limpa a catarata dos olhos e elimina os calafrios das febres. Quando se extrai o seu líquido, a árvore é ferida somente na casca, da qual brota uma gota de extraordinária fragrância. A geração de Cristo é dupla: uma é a geração da divindade e a outra, a da humanidade; e cada uma delas é o olho do sol. Sobre a primeira, Isaías diz: “Quem narrará a sua geração?” (Is 53,8). Por isso, Jó XXVIII: “De onde virá a sabedoria? E onde está o lugar da inteligência? Ela está escondida aos olhos dos viventes, e até às aves do céu está oculta” (Jó 28,20-21), isto é, até aos próprios anjos é desconhecida a geração de Cristo a partir do Pai. Por isso, no Eclesiástico I: “A quem foi revelada a raiz da sabedoria?” (Eclo 1,6), isto é, a origem do Filho de Deus? Portanto, aquilo que está acima da inteligência e do conhecimento dos anjos, qual homem poderá narrá-lo? Diz Isidoro: É manifesto que somente o Pai sabe como gerou o Filho, e o Filho, como foi gerado pelo Pai. Com efeito, Cristo resplendeu do Pai como o esplendor da luz, como a palavra da boca, como a sabedoria do coração. A geração da divindade, portanto, é chamada olho do sol, porque ilumina toda a Igreja triunfante, a Jerusalém celeste. Por isso, no Apocalipse XXI: “A glória de Deus a ilumina, e o seu luzeiro é o Cordeiro” (Ap 21,23).
A geração da humanidade é chamada olho do sol, porque, pela fé em sua encarnação, ilumina toda a Igreja militante. Por isso, Zacarias IX: “O Senhor é o olho do homem e de todas as tribos de Israel” (Zc 9,1), nome que se interpreta como homem que vê Deus. Quanto crês, tanto vês. “Era”, diz ele, “a luz verdadeira que ilumina todo homem”, não porque ilumine a todos, mas porque ninguém é iluminado sem ele, “que vem a este mundo” (Jo 1,9), isto é: todo homem que nasce neste mundo só é iluminado para a vida eterna pela fé em Cristo, que diz em João XV: “Eu sou a verdadeira videira” (Jo 15,1).
6. A videira é assim chamada porque tem a força (lat. vis) de criar raízes rapidamente, ou porque as videiras se entrelaçam umas nas outras. Diz-se nas coisas naturais que a videira é abundante em ramos, com os quais se liga, por entrelaçamento, aos ramos de outra árvore; e é próprio da videira, entre todas as demais árvores, que, de um lado, num nó de seu ramo, saia uma folha e, do outro, um cacho cheio de uvas; e também é próprio da videira que as couves plantadas junto à sua raiz a façam secar. A videira é a fé em Cristo, que tem a virtude de criar rapidamente raízes no coração do homem. “Enraizados e edificados”, diz o Apóstolo, “em Cristo Jesus” (cf. Ef 3,17). Ela estende os ramos da caridade e liga a si também os outros; de um lado, tem a folha da pregação e, do outro, o cacho da boa obra, cheio do mosto do amor. As couves, isto é, as preocupações temporais e as seduções da carne, ressecam a seiva, isto é, o sentimento da fé.
Além disso, a planta do bálsamo é ferida somente na casca. A casca é figura da humanidade de Cristo, de cuja ferida brotou um líquido de maravilhosa fragrância, isto é, o seu sangue precioso, que remove do olho do coração a catarata da dúvida e da infidelidade e livra dos calafrios das febres, isto é, das tentações, porque a lembrança do Crucificado crucifica os vícios. “Tu, portanto, és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”
“Respondendo, Jesus lhe disse”, e em Pedro respondeu a todos: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas” (Mt 16,17) etc. Bar significa “filho”, e Jonas interpreta-se “pomba”. Pedro é justamente chamado “filho da pomba”, porque seguia o Senhor com devota simplicidade, ou também porque estava repleto de graça espiritual. É chamado filho do Espírito Santo, que se manifestou em forma de pomba àquele a quem ele proclamara Filho do Deus vivo; e ao filho da pomba o Pai revela o mistério da fé, que nem a carne nem o sangue puderam revelar, isto é, os homens inchados da sabedoria da carne, que não são filhos da pomba e, por isso, são alheios à sabedoria do Espírito. Destes diz Abdias: “Destruirei os sábios de Edom e a prudência do monte de Esaú” (Ab 1,8). Eis a carne e o sangue. Edom interpreta-se “sanguinolento”, e Esaú, “monte de pedras”. Toda a sabedoria e prudência deste mundo consistem em alimentar a carne e acumular um monte de pedras, isto é, de riquezas, com as quais os sábios e prudentes do mundo serão apedrejados no dia do juízo.
7. A concessão de ligar e desligar, como se lê: “E eu te digo que tu és Pedro” (Mt 16,18). Note-se que Pedro teve três nomes: Simão, que se interpreta “obediente”; Pedro, “aquele que reconhece”; e Cefas, “cabeça”. Foi Simão no momento da vocação de Cristo: “Vinde após mim.” E eles, deixando as redes, seguiram-no (Mt 4,19-20) etc.; foi Pedro na profissão de fé feita hoje, pela qual reconheceu Cristo, Filho do Deus vivo, e por isso mereceu ouvir: “Tu és Pedro”. Não digo: serás chamado Pedro, mas tu és Pedro, de mim, que sou a pedra; contudo, de tal modo que reservo para mim a dignidade do fundamento. Porque “ninguém pode pôr outro fundamento além daquele que foi posto, que é Cristo” (1Cor 3,11), sobre o qual está edificada a Igreja.
“E sobre esta pedra”, diz ele, “edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18); e, por isso, ela não deve temer se cair a chuva, isto é, a perseguição diabólica; se vierem os rios, isto é, a perversidade dos hereges; se soprarem os ventos, isto é, a ira do mundo; e se se precipitarem sobre esta casa, porque está fundada sobre uma pedra firme e estável (cf. Mt 7,25). Por isso, no livro dos Números: “Segura é a tua habitação, mas se puseres o teu ninho sobre a pedra e fores escolhido da estirpe de Caim” (Nm 24,21-22), que se interpreta “astuto” ou “ardente”, isto é, o diabo, que, com a sua astúcia, incendeia as almas dos pecadores com o calor dos vícios; estes terão como torturador, no castigo, aquele que tiveram como instigador na culpa.
“Edificarei”, diz ele, “a minha Igreja.” Note-se que Igreja se chama a Igreja triunfante, a Igreja militante e a alma fiel. A primeira ele edifica com os espíritos bem-aventurados; a segunda, com os fiéis; e a terceira, com as virtudes. Por isso é chamado também de pedreiro, como se lê em Amós: “Eis que o Senhor estava sobre um muro revestido, e na sua mão havia uma colher de pedreiro” (Am 7,7). A colher de pedreiro é assim chamada porque empurra, isto é, encaixa as pedras com a cal, e com ela também se alisam as paredes. Daí se dizer muro revestido, isto é, alisado na superfície. A colher de pedreiro é o poder de Deus, com o qual ele edifica e alisa o muro da tríplice Igreja, para que nada haja ali de desordenado, nada côncavo, nada corcovo, mas tudo se faça de modo plano e nivelado. Diz o Apóstolo: “Tudo se faça na caridade” (1Cor 16,14), que é o cimento das demais virtudes. E note-se que o Senhor está sobre o muro da Igreja por três motivos: para edificá-la, para combater, a partir dela e por meio dela, os adversários, e para protegê-la.
E por isso “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). As portas do inferno são os pecados, as ameaças ou as lisonjas, que não podem prevalecer, isto é, separar a Igreja da fé e da caridade que estão em Cristo Jesus. Com efeito, quem acolhe a fé em Cristo no íntimo do coração, com amor, vence facilmente tudo o que o assalta exteriormente. Em outro sentido: porta é assim chamada porque por ela algo é levado para fora; inferno, porque para lá são levadas as almas. Portas do inferno são chamados os sentidos do corpo, pelos quais a alma pecadora é levada para fora, a fim de buscar e desejar estas coisas inferiores. Por isso, Isaías: “Eis que o Senhor fará com que sejas levado”, isto é, permitirá que sejas levado, “como se leva um galo do galinheiro” (Is 22,17). Assim como a raposa astuta agarra um capão pela garganta e o arrasta para a sua toca, assim a concupiscência enganadora e insidiosa da carne arrasta, por meio dos sentidos do corpo, a alma para estas coisas inferiores. Mas, se ela tiver sido edificada e fundada sobre o amor de Cristo, nada poderá prevalecer contra ela.
8. Segue-se: “E a ti darei as chaves do reino dos céus” (Mt 16,19). Eis Cefas, constituído cabeça dos apóstolos e da Igreja. Diz-se que hoje Cristo interrogou os apóstolos, e Pedro, em nome de todos, confessou a fé da Igreja universal. E hoje o Senhor lhe concedeu o poder de ligar e desligar; por isso este dia se chama Cátedra de São Pedro. Aquele que, mais que os outros, professou a fé, mais que os outros recebeu as chaves. As chaves são o conhecimento e o poder de discernir, pelos quais se devem receber no reino os que são dignos e dele excluir os indignos. Por isso acrescenta: “E tudo quanto ligares”, isto é, aquele que, persistindo nos pecados, tiveres condenado às penas eternas, ou aquele que, humilde e verdadeiramente penitente, tiveres absolvido, assim será também nos céus. A Glosa de Jerônimo: “E tudo quanto ligares.” Os outros apóstolos também têm o mesmo poder judicial; a eles, de fato, o Senhor disse depois da ressurreição: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos” (Jo 20,23); e também toda a Igreja o possui em seus presbíteros e bispos. Mas Pedro a recebeu de modo especial, para que todos compreendam que quem quer que se separar da unidade da fé e da sua comunhão não poderá nem ser absolvido dos pecados nem entrar no céu. Alguns, não compreendendo este texto, tomam para si algo da soberba dos fariseus, julgando poder condenar os inocentes ou absolver os culpados, quando, diante de Deus, não se busca a sentença dos sacerdotes, mas a vida dos réus. Por isso, no Levítico, ordena-se aos leprosos que se mostrem aos sacerdotes (cf. Lv 14,2); estes não os fazem leprosos, mas discernem quais são puros ou impuros: assim também neste caso.
Pelas orações do bem-aventurado Pedro, o Senhor nos absolva dos vínculos dos pecados e nos abra o reino dos céus, ele que é bendito pelos séculos. Amém.
9. Davi, sentado na cátedra, é o príncipe sapientíssimo entre os três, e ele mesmo é como o mais tenro vermículo da madeira “(2Rs 23,8)”. Esta autoridade, no Segundo Livro dos Reis, capítulo XXIII. Davi, que se interpreta como “forte de mão”, é Simão Pedro, a quem Cristo, tomando de si mesmo o nome de pedra, deu o nome de Pedro; e, quando estendeu a mão e deixou tudo, foi forte de mão. O avarento tem a mão débil, porque a mantém fechada, contraída e árida. Por isso, em Mateus XII: “E eis que havia um homem que tinha a mão ressequida” (Mt 12,10). O Senhor lhe disse: “Estende a tua mão”. E ele a estendeu, e ela foi restituída à saúde (Mt 12,13). A Glosa diz ali: Nada é mais eficaz para a cura do que a generosidade das esmolas, pois em vão estende as mãos a Deus para pedir pelos pecados aquele que não as estende aos pobres segundo as suas possibilidades. Pedro, portanto, sentado na cátedra, é sapientíssimo. Diz-se nos Atos: “Vendo a constância de Pedro e de João, e tendo descoberto que eram homens iletrados e incultos, admiravam-se; e reconheciam que haviam estado com Jesus” (At 4,13). Não é de admirar que Pedro, embora chamado inculto, seja dito sapientíssimo, pois esteve com Jesus, a Sabedoria do Pai, a quem amou mais que aos outros, e em cuja escola aprendeu a sabedoria não do mundo, mas do céu. “Quem caminha com a Sabedoria torna-se sábio” (cf. Pr 13,20). Pedro não era aquele letrado de quem fala Isaías XXXIII: “Onde está o letrado? Onde está aquele que pondera as palavras da lei? Onde está o mestre dos pequeninos?” (Is 33,18), acerca do qual diz o Apóstolo: “Tu ensinas os outros e não ensinas a ti mesmo. Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei” (Rm 2,21.23). Pedro era inculto nas coisas da terra, mas sapientíssimo nas coisas do céu; hoje recebeu as suas chaves e sentou-se na cátedra, isto é, no poder judiciário de ligar e desligar. Sentou-se também na cátedra material, em Antioquia e em Roma, e hoje a sua cátedra é apresentada ao povo.
Príncipe entre os três. Os três, entre os quais o príncipe dos apóstolos se sentou na cátedra, foram a tríplice constância da fé. A primeira foi na confissão de hoje: “Tu és”, disse ele, “o Cristo” etc. A segunda, na pregação, donde: “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29). A terceira, em sua paixão.
Ele mesmo é como o mais tenro vermículo da madeira. Observa que nada é mais mole que o verme quando tocado, e nada é mais forte que o verme quando toca. Assim foi o bem-aventurado Pedro. Ninguém foi mais terno que ele, isto é, mais paciente, quando era flagelado e quando era crucificado; por isso instruía os discípulos, na sua primeira Epístola: “Sede modestos, humildes, não retribuindo mal por mal, nem injúria por injúria” (1Pd 3,8-9) etc. Mas, quando tocava, ninguém era mais forte que ele. Por isso diz a Ananias, nos Atos V: “Por que Satanás tentou o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e fraudasses o preço do campo? Não mentiste aos homens, mas a Deus”. Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu e expirou (At 5,3-5); e a Simão Mago: “O teu dinheiro esteja contigo para a perdição” (At 8,20).
Que dela nos livre aquele que deu a Pedro o poder de ligar e desligar. Amém.
10. Davi, sentado na cátedra. Algo semelhante se encontra no Eclesiástico: “O rei, sentado no trono, dissipa todo mal com o seu olhar” (Pr 20,8). Davi, isto é, o justo ou o penitente, é forte de mão. Por isso, no Gênesis, acerca de Ismael, XVI: “Ele será um homem feroz: a sua mão será contra todos, e a mão de todos será contra ele; e armará as suas tendas diante de seus irmãos” (Gn 16,12). Onde nós temos “feroz”, o hebraico tem “fara”, que significa “asno selvagem”. No asno selvagem é indicado o penitente, que no campo da penitência suporta o peso do dia e do calor (cf. Mt 20,12); cujas mãos, isto é, as obras, são contra todos os demônios; e as mãos de todos os demônios são contra ele. “Para que tu combatas bem, o inimigo, combatendo bem, faz de ti um bom combatente” (Ovídio). E, diante, isto é, em oposição às tendas dos irmãos, isto é, dos movimentos ou sentidos do corpo, armará, isto é, firmará solidamente, as tendas da penitência, sempre preparado para lhes resistir.
E de onde lhe vem tamanha fortaleza? Certamente, da cátedra. “Sentado na cátedra”, diz, “é sapientíssimo”. A sabedoria é o conhecimento das coisas que existem e que recebem uma substância imutável. Sábio deriva de sabor, porque, assim como o paladar serve para discernir o sabor dos alimentos, assim o sábio serve para discernir o que tem sabor e o que é insípido, o mal e o bem. O penitente, portanto, ou o justo, é sábio ao chorar os males passados, mais sábio ao prevenir as ciladas, sapientíssimo ao saborear os bens eternos. Ele se senta na cátedra. A cátedra, assento elevado do juiz, é a razão, que também é chamada trono, como que algo sólido; aquele que nela se senta dissipa com o seu olhar todo mal do diabo, da carne e do mundo. A razão é o olhar do espírito, pelo qual ele contempla em si mesmo a verdade, e não por meio do corpo; ou é a própria contemplação da verdade, não por meio do corpo; ou ainda é a própria verdade que ele contempla.
Ou então, a cátedra é a memória da morte, na qual ele se senta, isto é, se humilha. Com efeito, ninguém pode governar bem a sua nave, se não procurar colocar o seu assento na parte final dela. A nave, estreita no princípio e no fim, mas larga no meio, é a vida do homem, que na entrada e na saída é muito estreita, porque miserável e amarga, mas no meio é larga, porque volúvel e licenciosa. Ninguém pode governá-la bem, a não ser que procure humilhar-se na memória da morte. E observa que diz “sapientíssimo”. O timoneiro, que se senta na popa, isto é, na parte posterior da nave, é e deve ser o mais sábio de todos, porque vê a todos, prevê tudo para todos, desperta os preguiçosos, conforta os que trabalham e, na tempestade, promete a bonança do tempo, ou melhor, a calmaria, tornando-os alegres com a esperança de um bom porto. Assim, aquele que se humilha na memória da morte dispõe bem toda a sua vida, contempla tudo ao redor; sabe afastar de si a preguiça, fortalecer-se no trabalho, esperar na misericórdia do Senhor na adversidade e dirigir bem a sua vida ao porto da vida eterna.
11. E por isso, é o príncipe sapientíssimo entre os três, nos quais são designadas a contrição, a confissão e a satisfação. Sobre esses três se diz no Primeiro Livro dos Reis, onde Samuel fala a Saul: “Quando chegares”, diz ele, “ao carvalho do Tabor, encontrarás ali três homens que sobem a Deus, em Betel: um levando três cabritos, outro três formas de pão, e outro levando uma ânfora de vinho” (1Rs 10,3). Vejamos o que significam o carvalho do Tabor, os três homens, Betel, os três cabritos, as três formas de pão e a ânfora de vinho. O carvalho é assim chamado porque os antigos nele procuravam alimento, isto é, bolotas, das quais outrora os homens se alimentavam. Tabor interpreta-se “luz que vem”.
O carvalho é a penitência, na qual os antigos pais procuravam o alimento da alma, isto é, a luz que vem da graça divina. Da penitência vem a luz celeste, que mostra ao homem a si mesmo e suas obras, que antes não via. “Quando”, pois, chegares “à” penitência, “encontrar-te-ão ali três homens que sobem”, isto é, que te fazem subir, “a Deus, em Betel”, que se interpreta “casa de Deus”, isto é, a Jerusalém celeste. A contrição leva três cabritos, nos quais se assinala o tríplice mau odor do pecado: o da consciência, o da pessoa e o da reputação. O penitente deve, na contrição, afligir-se porque corrompeu a própria consciência pelo consentimento, a pessoa pelo ato e a reputação pelo mau exemplo.
Do mesmo modo, a confissão leva três formas de pão, nas quais se assinalam três espécies de lágrimas: “Minhas lágrimas foram meu pão dia e noite” (Sl 41,4). E com razão as lágrimas são chamadas formas de pão, porque são obtidas pela torção do coração. Por isso são chamadas lágrimas por causa da dilaceração da mente. O pão é assim chamado porque é posto juntamente com todo alimento, ou porque todo ser animado o procura. Devemos unir a compunção a todo alimento de nossa alma, porque toda obra seria insípida sem a devoção; e a pedimos e devemos pedi-la diariamente a Deus, porque dela necessitamos todos os dias: “O pão nosso de cada dia” (Lc 11,3) etc. O pecador deve, portanto, chorar na confissão, porque maculou a veste da inocência batismal, porque adquiriu a geena e porque perdeu a vida eterna.
Do mesmo modo, a satisfação leva uma ânfora de vinho, na qual se designa a alegria da satisfação, que não deve ser feita com pusilanimidade nem preguiça: “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7). O jejum e a esmola devem ser feitos com alegria, e a oração, com esperança na misericórdia divina. Nestas três coisas consiste a satisfação. Feliz, portanto, aquele penitente, príncipe de si mesmo, sentado na cátedra da razão ou humilhando-se na memória da morte, que assim estará entre estes três.
12. “Ele é como o mais delicado vermezinho da madeira.” Observa que o verme faz três coisas: está sempre em movimento; levanta a cabeça, para ver o caminho pelo qual possa arrastar-se melhor; encurta-se, para poder estender-se mais longe. Assim é o justo: está sempre em atividade. Jerônimo diz: “Faze sempre alguma obra, para que o diabo te encontre ocupado, porque a ociosidade ensinou muita maldade” (Eclo 33,29). Pergunta-se por que Egisto se tornou adúltero. A causa é evidente: era preguiçoso (Ovídio). Diz-se nas coisas naturais que, da ociosidade, crescem no corpo as superfluidades. Assim também na alma. Mas o trabalho consome as superfluidades, pois está entre as coisas que fazem evaporar muito. Diz-se também que todas as espécies de plantas, se não forem cultivadas, tornam-se silvestres. Do mesmo modo, levanta a cabeça, isto é, a mente, para que, com o olho do discernimento, veja o caminho de sua ação, pelo qual possa orientar-se melhor para Deus. “Os olhos do sábio estão na sua cabeça” (Ecl 2,14), isto é, a luz do discernimento está na mente, “e que as tuas pálpebras precedam os teus passos” (Pr 4,25). Do mesmo modo, pela humildade ele se encurta, para estender-se até a vida eterna. Digne-se concedê-la a nós aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
13. “Davi, sentado na cátedra.” Davi, que se interpreta “de belo aspecto”, é Cristo, que na cruz, com as mãos pregadas, venceu as potências aéreas; os anjos desejam contemplar a beleza de seu rosto (cf. 1Pd 1,12), porque, como se diz no Apocalipse, “seu rosto resplandece como o sol em todo o seu vigor” (Ap 1,16). Ele “sentou-se”, isto é, humilhou-se, “na cátedra”, isto é, na cruz, “sapientíssimo”, porque é a Sabedoria de Deus Pai, na qual ele fez todas as coisas. Algo semelhante se encontra no Terceiro Livro dos Reis: “Salomão era mais sábio que todos os homens e discorreu sobre as árvores, desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede” (3Rs 4,31.33). Salomão, Cristo, é mais sábio que todos, porque é a própria Sabedoria, da qual diz o Eclesiástico: “Quem investigou a sabedoria de Deus, que precede todas as coisas? Antes de tudo foi criada a sabedoria. A fonte da sabedoria é o Verbo”, isto é, o Filho, “de Deus, nas alturas” (Eclo 1,3-5), do qual, como a água da fonte, deriva toda sabedoria.
Ele, sentado sobre o madeiro da cruz, “discorreu sobre o cedro do Líbano”, isto é, sobre a grandeza da divindade, “até o hissopo”, isto é, até a humildade de sua humanidade, que saiu “da parede”, isto é, da bem-aventurada Virgem, conforme Isaías: “Ezequias voltou o rosto para a parede e chorou com grande pranto” (Is 38,2-3). Fora feita a Davi a promessa de que Cristo nasceria de sua descendência; mas, como Ezequias se via morrer sem herdeiro, julgou que a promessa acerca de Cristo seria anulada; por isso, chorou com grande pranto e voltou o rosto, isto é, o olhar da mente, para a parede, isto é, para a bem-aventurada Virgem, que desejava acima de tudo que nascesse de sua descendência, para que dela nascesse Cristo. Foi máxima a sabedoria de Cristo na cruz: ele apanhou o diabo com o anzol da divindade, quando este quis apanhar a isca da humanidade; por isso diz Jó: “Sua sabedoria golpeou o soberbo” (Jó 26,12).
14. “Sentou-se, pois, na cátedra o príncipe entre os três.” Entende-o assim: ele mesmo é um dos três: Dimas e Gestas, e, no meio, a potência divina. Por isso João diz: “Crucificaram com ele outros dois, de um lado e de outro, e Jesus no meio” (Jo 19,18). Eis como se sentou, como se humilhou o príncipe dos anjos: como se fosse um ladrão, é crucificado no meio de ladrões. Por isso, acerca de sua humildade, segue-se ainda: “Ele é como o minúsculo verme da madeira.”
Observa que o verme faz três coisas: arrasta-se com a boca; a madeira em que se encontra, quando é queimada, ele a faz estalar fortemente; nada é mais mole que ele quando tocado; nada é mais forte quando toca. Assim, Cristo, com a própria boca, ao censurar a malícia dos judeus, arrastou-se para a cruz. A verdade gera ódio e, por isso, suporta o suplício. Do mesmo modo, dele se lê: “O escaravelho clama da cruz.” O escaravelho é um pequeno animal voador, que tem os olhos no alto da cabeça. Assim também Cristo, pequeno na humildade, voa pela própria potência da divindade: “Voou, voou sobre as asas dos ventos” (Sl 17,11), isto é, sobre as potências dos anjos e dos santos: “Deus é a cabeça de Cristo” (1Cor 11,3); tem os olhos no alto da cabeça, porque, pela força da divindade, tudo contempla, e diante de seus olhos nenhuma criatura é invisível (cf. Hb 4,13). Ele, quando ardia no madeiro da cruz no fogo da Paixão, clamou fortemente: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Além disso, ninguém foi mais paciente nem mais humilde do que ele quando foi flagelado, coroado de espinhos e golpeado com bofetadas; ninguém será mais forte do que ele quando, no juízo, por sentença irrevogável, precipitar no inferno o diabo com todos os seus membros. Dessa sentença nos livre aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
15. “Davi, sentado na cátedra entre os três” etc. Davi, que se interpreta como misericordioso, é qualquer prelado da Igreja, eleito para este fim: compadecer-se dos outros com tríplice misericórdia. Por isso foi dito três vezes a Pedro: “Apascenta!” (cf. Jo 21,15-17), e nem uma só vez lhe foi dito: “Tosquia!”. Apascenta pela palavra da pregação, pelo auxílio da oração devota e pelo benefício temporal. Este se assenta na cátedra da dignidade eclesiástica; e oxalá seja sapientíssimo com aquela sabedoria da qual diz Tiago: “A sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, modesta, dócil, concorde com os bons, cheia de misericórdia e de bons frutos, julgando sem dissimulação” (Tg 3,17). Eis os sete degraus pelos quais o prelado deve subir à cátedra.
“De sete degraus — diz Ezequiel — é a sua subida” (cf. Ez 40,22). A vida do prelado deve ser temperada com a sabedoria que vem do alto, de modo que seja, primeiramente, pura, pela pureza da mente no que diz respeito a si mesmo; pacífica, no que diz respeito ao súdito, para cuja reconciliação tanto com Deus quanto com o próximo foi colocado na cátedra; modesta, pela honestidade dos costumes; dócil, isto é, apta a deixar-se persuadir; concorde com os bons, pelo afeto e pelo efeito; cheia de misericórdia. Eis Davi misericordioso para com os pobres, aos quais pertence tudo quanto possui, conservando apenas o necessário; de outro modo, haveria em sua casa espoliação dos pobres (cf. Is 3,14), e por isso deveria ser julgado como um ladrão. Ou então: cheia de misericórdia na compaixão do espírito e de bons frutos na realização das obras; julgando sem dissimulação, para que no juízo não faça acepção de pessoas; ou atribua a si mesmo a medida da penitência com que julga os outros, porque “peso e peso, medida e medida, ambos são abomináveis ao Senhor” (Pr 20,10), e “a medida menor está cheia de ira” (Mq 6,10).
Segue-se: “Príncipe entre três”. Estes são a vida, a ciência e a eloquência, que principalmente devem fortificar o prelado. Vida pura, ciência sã, eloquência expedita. Mas, ai! Hoje a vida é imunda, a ciência é cega e a eloquência é muda. “Ele é como o vermículo mais tenro da madeira.” A Glosa diz a esse respeito: Davi, nas tribulações, em casa e para com os súditos, foi mais manso que os outros; no trono e contra os inimigos, ninguém foi mais perspicaz que ele.
E aqui Davi é louvado por três qualidades, isto é, pela sabedoria, pela humildade e pela fortaleza. Assim deve ser o prelado que deseja governar bem o povo que lhe foi confiado.
Queira conceder-lho aquele que é bendito pelos séculos. Amém.