Livro II · Alfaias · n.º 1 · col. 1553-54

A Cruz The Cross

Livro II — As alfaias e os paramentos · texto corrido · 6 parágrafos · 10 notas da tradutora · português, com o inglês a um clique

A cruz que deverá ser colocada ou sobre o altar-mor ou sobre o tabernáculo da santa Eucaristia deverá ter forma aproximadamente quadrada, com a parte inferior um pouco mais longa e terminando em um pequeno apêndice tubular, para que ela possa ser facilmente retirada de seu suporte quando tiver de ser usada em procissões ou em outros serviços eclesiásticos.

A cruz deverá ser adequada e proporcional, em tamanho e ornamento, ao altar. A cruz do altar-mor de uma basílica catedral e das igrejas colegiadas será de ouro ou, se os recursos financeiros não o permitirem, de prata. Essa cruz será usada nas solenidades e nos Ofícios; nos outros dias deverá ser usada outra, de bronze dourado, devidamente cinzelada e ornamentada.

A cruz que deverá ser colocada sobre o altar-mor nas demais igrejas, particularmente nas igrejas paroquiais, será do mesmo material ou também de prata.

O suporte pelo qual a cruz é devidamente mantida sobre o altar será feito de ouro, prata ou, pelo menos, bronze, ou ainda de madeira dourada nas igrejas cuja renda seja pequena. Será elegante e de forma graciosa, suficientemente alto e estreito para que o apêndice tubular possa ser nele firmemente inserido. A cruz que deverá ser colocada sobre um altar menor terá o mesmo suporte e a mesma forma, mas poderá ser consideravelmente menor e não deverá ser removível. O material será, no mínimo, bronze ou um metal mais precioso, mas poderá ser madeira pintada e convenientemente dourada.

A cruz capitular, ou aquela que é levada nas procissões, nos funerais e em outros serviços sagrados eclesiásticos, como é costume, terá uma haste muito resistente, convenientemente pintada, na qual ficará bem fixada.

Mas, onde é costume — como na igreja ambrosiana — que um Cabido, ou outro corpo eclesiástico, ou os párocos ou outros que cuidam das almas, durante os serviços eclesiásticos, levem uma cruz quadrada, medindo dois côvados ou um pouco mais de altura e largura, então essa cruz não terá haste, mas somente um pequeno cabo do mesmo metal. Esse costume, claramente antigo e comprovado pelo uso, deve definitivamente ser mantido.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

Borromeu emprega o termo cruz, embora o que se queira dizer seja um crucifixo ou uma cruz com a figura de Cristo, colocado sobre o altar como indicação de que o

a Vítima aqui oferecida é a mesma que foi oferecida na Cruz(1). Alguns historiadores afirmam que o documento mais antigo a tratar da colocação de uma cruz sobre o altar foi promulgado pelo Concílio de Tours, em 567(2). Jungmann (3) sustenta que o crucifixo foi levado ao altar no século XI, enquanto Hefele (4) escreve que a cruz ou o crucifixo dificilmente pode ser rastreado para além do século XIII e que a referência a Tours diz respeito à colocação de partículas da Hóstia sobre o corporal. Em seu tratado sobre a Missa, escrito no início do século XIII, Inocêncio III aconselha que a cruz do altar seja colocada centralmente entre dois castiçais.

A cruz processional, montada sobre uma haste alta, é levada à frente de uma procissão. O protocolo consiste em fazer com que, no caso de grupos colegiados, ordens religiosas e confrarias, a figura de Cristo fique voltada para o sentido do percurso da procissão; as cruzes papais e arquiepiscopais são viradas de modo que o Cristo crucificado fique voltado para os prelados(5). A imagem de um Cristo crucificado na cruz é documentada desde o século XIV e tornou-se obrigatória pelo missal pós-tridentino de Pio V de 1570, época em que, também, a cruz do altar se tornou obrigatória para a celebração da missa.

As diretrizes de Borromeu fundem as formas da cruz do altar e da cruz processional. As rubricas contemporâneas prescrevem que a haste e a cruz sejam separáveis.

  1. 1 Processional cross – carried by hand, St. Vitale, Ravenna mosaic, date c. 547

  2. Catholic Encyclopedia, Vol. I, Altar Crucifix, The Cross and Crucifix in Liturgy, vol., Processional cross, vol. XII.

  3. canon III “Ut corpus Domini in Altari, non in armario, sed sub cruces titulo componatur.

  4. Jungmann, 84

  5. Hefele, Conciliengeschichte,

  6. ath Enc, Processional cross, vol. XII.

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.