Livro II · Alfaias · n.º 2 · col. 1554-55

Castiçais Candlesticks

Livro II — As alfaias e os paramentos · texto corrido · 9 parágrafos · 10 notas da tradutora · português, com o inglês a um clique

Se, por razões econômicas, os castiçais do altar-mor — que, segundo se diz, outrora também eram feitos de ouro — não puderem ser feitos de ouro, deverão ser feitos de prata, ao menos para uso nos Ofícios solenes. Seu material e sua execução devem corresponder aos da cruz do altar.

Os outros, porém, destinados ao uso cotidiano, podem ser feitos de latão, metal adequado para uso em toda igreja. Se, por falta de recursos, não puderem ser feitos de latão ou de um metal mais precioso, poderão ocasionalmente ser usados, nos demais altares menores, castiçais de madeira torneada.

A base do castiçal, chamada “pé”, deve ser redonda ou, melhor ainda, triangular, e deve corresponder tanto quanto possível à base da cruz. Ela [a base] deve estender-se de tal modo para todos os lados e ser tão estável que o castiçal não possa de modo algum tombar por causa do peso ou da altura de uma vela excepcionalmente grande que nele seja colocada.

O fuste, convenientemente, piedosamente e adequadamente cinzelado, deve afilar-se gradualmente até a altura exigida pelo tamanho do altar e da igreja. Além disso, no alto, terminará numa área circular, onde será fixado um espigão pontiagudo de extremidade suavemente arredondada, sobre o qual será colocado um prato, também de prata ou de latão, no qual se porá a vela.

Como pode acontecer que, com o uso, os castiçais de ouro ou de prata oscilem ou se inclinem, e que os elementos de que se compõem os fustes possam até mesmo separar-se, será útil fazer passar uma haste de ferro por todo o fuste do castiçal, de modo que ela saia pela parte superior e sobre a qual possam ser encaixados o referido prato ou a vela.

Na parte inferior, ele [o castiçal] será circundado por um aro móvel [colar] de chapa de ferro, que unirá todos os elementos e os manterá unidos e retos.

O castiçal pascal, de prata lavrada ou de latão, ou, ao menos, se a igreja dispuser de recursos limitados, de madeira maciça torneada, completamente dourada e piedosamente decorada, deve ter cerca de cinco côvados de altura. Além disso, deve possuir uma base muito estável, que o impeça de cair, para que, onde houver esse costume (como outrora se fazia), possa ser colocado, em determinados dias, no meio da igreja, diante do altar-mor. Se for usado um castiçal suspenso, não haverá necessidade de base.

O cantharus [candelabro de dois braços] (que é o tipo usado na igreja ambrosiana) pode ser de ouro, de prata, de bronze fundido ou de latão, segundo os recursos da igreja em que for usado. Será mais curto que os outros castiçais e também mais leve. Além disso, deve ter um fuste mais delgado, para que possa ser segurado mais facilmente. Deve ter uma base triangular e uma decoração adequada.

Os castiçais processionais devem ser do mesmo metal e da mesma forma que os do altar-mor, mas podem ser muito mais baixos e delgados.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

Castiçais simples, de uma só vela, têm sido usados continuamente em várias cerimônias da Igreja. Há, contudo, alguma dúvida quanto à época em que os castiçais começaram a ser colocados sobre um altar. Encontra-se uma indicação nas “Statuta Ecclesiae Antiqua”, compiladas na última parte do século V. Trata-se de uma coleção de 102 cânones sobre a disciplina e o ritual da Igreja, que inclui o rito da Ordem dos Acólitos. O acólito recém-ordenado era informado de suas responsabilidades e recebia um castiçal e uma vela não acesa, com as palavras: “Recebe o castiçal com a vela e sabe que é teu dever acender as luzes da igreja em nome do Senhor.” Há pouca evidência documental anterior ao século X que sustente o uso de castiçais sobre um altar durante a celebração da Missa. Não se faz menção a castiçais senão no caso de acólitos que os carregavam e os colocavam no chão do santuário ou perto dos cantos do altar. No século XIII, segundo Durando(1), “em ambos os cantos do altar, coloca-se um castiçal para significar a alegria dos judeus e dos gentios que se alegraram com o nascimento de Cristo”. A colocação de dois castiçais de cada lado da cruz do altar é citada por Inocêncio III (m. 1216), em Sacro Altaris mysterio(2), como parte do cerimonial romano. Esse preceito tornou-se padrão no século XVI. Atualmente, prescreve-se o acendimento de 6 velas sobre o altar para toda missa solene, 4 para toda missa cantada, 2 para toda missa rezada e 7 para uma missa pontifical(3). É evidente que, no passado, era necessária uma iluminação artificial, mas o simbolismo de Cristo como Luz do Mundo inspirou as obras de artistas, músicos e escritores. A própria vela, feita de cera virgem de abelha, era vista como a carne de Jesus Cristo, nascido de mãe virgem. O pavio simbolizava mais particularmente a alma de Jesus Cristo, e a chama, a Divindade, que absorvia e dominava ambos(4).

A vela pascal tem uma longa história, derivada dos esplendores da celebração da vigília pascal nos primeiros séculos cristãos. Tornou-se uma tradição que permanece até os dias de hoje.

(Velas e castiçais)

As velas e os castiçais eram e são de particular importância para a Igreja. Isso não se devia ao fato de que no passado fosse necessária a luz artificial, mas, como disse São Jerônimo, por serem um sinal de alegria (Mingne, P.L, XXIII, 345). Simbolicamente, a própria vela, feita de cera virgem de abelha, é vista como a carne de Jesus Cristo, nascido de uma mãe virgem. O pavio simboliza mais particularmente a alma de Jesus Cristo, e a chama, a Divindade, que absorve e domina ambos. Embora as velas sejam levadas em procissão e em ocasiões especiais, bem como oferecidas, e sejam usadas no batismo e nos funerais, o Concílio de Cartago (um sínodo realizado na Gália meridional, c. 514), ao conferir a ordem menor de acólito, determinou que fosse entregue ao candidato “um castiçal com uma vela”. Esse costume é observado até os dias de hoje. Velas como essas, quando levadas pelos acólitos (como se observa no Sacramentário Gregoriano e nos “Ordines Romani”), foram usadas constantemente no Cerimonial Romano desde o século VII e provavelmente antes. Essas velas eram colocadas sobre o pavimento do santuário e só mais tarde sobre os altares. Inocêncio III (falecido em 1216), em ***** veja Dicta 1, Cross… de Sacro Altaris mysterio (II.c.xxi), afirma que dois castiçais, um de cada lado da cruz, fazem parte do cerimonial romano. Em geral, as velas eram retiradas ao final da missa, mas, durante o século XIII, eram deixadas sobre o altar (Durandus, ration.divin.off., I,3,31). O Caeremoniale Episcoporum (1600) especificava 6 velas para uma missa cantada, 4 a 6 para uma missa rezada e, para uma missa pontifical.

As velas eram, de fato, celebrativas. O Papa Adriano I, em 772, mandou colocar no presbitério da basílica do Vaticano um castiçal de prata em forma de cruz (Cancellieri, vol III de Secretariis, p. 1449), para ser aceso quatro vezes por ano. Também se faz menção a outro grande candelabro, com tantas luzes quantos são os dias do ano, em São Pedro (Moroni, vol. vii, p209).

O costume de colocar seis grandes castiçais permanentes sobre o altar-mor, 3 de cada lado da cruz do altar, é uma questão de lei. Conforme prescrito por Borromeu, o “Caeremoniale” prescreve que eles devem corresponder, quanto ao desenho e ao padrão, ao crucifixo.

  1. Durandus, Rationale I, iii, 27

  2. II.c.xxi

  3. Caeremoniale Episcorum 1600

  4. Catholic Encyclopedia, Altar Candles, vol. I.

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.