Depois de termos dado brevemente as instruções relativas às capelas maiores e menores e aos altares, daremos agora indicações sobre os lugares, vasos e loculi nos quais as sagradas relíquias são guardadas e conservadas.
Os corpos dos Santos são guardados piedosa e convenientemente, sobretudo naquela parte subterrânea da igreja conhecida como “confessio” ou, na língua vernácula, como “scurolo”, se a igreja possuir uma, e nos altares de pedra ou sob eles, conforme o antigo costume. Portanto, será conveniente preparar uma arca de mármore ou, ao menos, de pedra maciça, bem polida em seu interior, provida de uma tampa em duas águas do mesmo material, na qual os corpos sagrados possam ser guardados, hermeticamente fechados. Ela será firmemente colocada dentro dos altares ou sob eles.
As relíquias também podem ser guardadas em outro lugar proeminente da igreja, além dos altares. Nesse caso, a arca deverá ser de mármore mais precioso, esculpida externamente e distinguida por sua ornamentação piedosa e religiosa.
Sustentada por quatro ou mais pequenas colunas de mármore, finamente executadas, e, se as características do lugar permitirem que isso seja feito com facilidade, a arca será decorosamente colocada ou no interior da própria igreja, desde que suas dimensões o permitam, ou numa capela mais importante, exceto naquela onde se conserva a Santíssima Eucaristia. Se estiver localizada na parte central da igreja, deverá ficar afastada das paredes e de qualquer outra construção. Se estiver localizada numa capela, poderá ser colocada na parte posterior ou junto ao altar. Será encostada à parede ou parcialmente encerrada num recesso côncavo apropriado da parede. Será colocada a quatro côvados acima do pavimento da capela. Toda arca, portanto, colocada em algum lugar proeminente, quer elevada acima do pavimento, quer na parede, deverá ter grades de ferro adequadas e decorosas, de acordo com o lugar. Se os corpos dos santos já estiverem guardados em algum outro lugar sob o pavimento, e não no altar ou sob ele, esse lugar será inteiramente coberto e provido, de todos os lados, de grades de ferro, com trabalho cerrado na parte superior.
Para que os corpos dos Santos ou os ossos sagrados sejam conservados incorruptos e inviolados para sempre, livres de toda sujeira e poeira e protegidos de toda afronta, deverá ser tomada a seguinte precaução. Toda arca, colocada em lugar proeminente ou sob o altar, será extremamente sólida e compacta externamente e mantida unida, de todos os lados, por barras de ferro e chumbo, de modo que não se veja nem mesmo a menor fenda. Além disso, em seu interior será encerrado outro cofre, de ouro, prata ou estanho dourado, de construção sólida, no qual os corpos sagrados serão conservados. Quando forem colocados nesse cofre, serão envolvidos e cobertos com um tecido de seda ou com um véu ainda mais precioso, de cor apropriada ao Santo cujos ossos sagrados encerram, em conformidade com as normas e os ritos eclesiásticos. O cofre, ou caixa, ou os loculi ou os vasos, de qualquer tipo que sejam, serão ritualmente abençoados, com a oração prescrita do Pontifical ou do Ritual, antes que as santas relíquias sejam encerradas neles.
A fim de separar e distinguir os corpos de diferentes Santos colocados na mesma arca, esta será talhada em dois ou três compartimentos, conforme o número de corpos ou relíquias sagrados. Ou será adequadamente e convenientemente dividida por divisórias de placas de mármore ou de outro modo, ou, ao menos, subdividida pelos cofres de prata ou estanho.
Em toda arca será encerrada uma placa de bronze, na qual serão gravados os nomes dos Santos. Também será gravada na pedra da arca uma inscrição que indique precisamente os nomes e os corpos dos Santos, quando foram depositados na igreja e depois transferidos, bem como outras informações semelhantes, desde que sejam certas.
Para que as cabeças dos Santos, separadas de seus corpos, possam ser expostas à veneração dos fiéis em dias determinados, serão devidamente conservadas separadamente. Serão encerradas em um relicário de ouro ou de prata, ou, se isso não for possível, de bronze dourado, que reproduza a forma e os traços da cabeça, com o pescoço e meio busto.(1)
Para que os corpos dos santos, ainda íntegros e com todos os seus membros, que se conservam dentro do altar ou em lugar visível, possam às vezes ser vistos, o altar ou a arca será feito de modo a ter na parte frontal uma pequena janela. Esta será ornamentada e bem executada, provida de uma grade de ferro ou de bronze, solidamente fechada, como se indicará abaixo, através da qual os corpos possam ser vistos.(2)
Nas igrejas em que se conservam relíquias importantes ou membros de Santos, o lugar preciso em que são guardadas pode ser construído de uma ou de outra das formas descritas abaixo, segundo o exemplo das santas basílicas romanas.
Será construído um estrado em uma nave lateral da igreja, se esta for grande, do lado do Evangelho, a quatro ou cinco côvados das colunas ou pilares da nave. Esse mesmo estrado terá aproximadamente cinco côvados de extensão e será sustentado por quatro colunas de mármore ou de pedra maciça, com seis ou oito côvados de altura.
O armário em que se conservam as sagradas relíquias será colocado sobre esse estrado. O armário será de mármore ou de outra pedra, finamente ornamentado e apropriado, revestido internamente de nogueira ou de madeira mais preciosa e forrado de seda da cor que, segundo o rito da Igreja, seja apropriada às santas relíquias nele conservadas. Terá uma pequena porta, fechada por painéis revestidos externamente de bronze e forrados internamente de seda da mesma cor acima mencionada. Para fechar a porta, serão usados dois ferrolhos, e pelo menos duas fechaduras e igual número de chaves, nenhuma igual à outra.
No alto das colunas, sobre a parte plana do estrado, deverá ser erguido um estrado elevado, com um côvado e meio de largura e tão comprido quanto o próprio estrado. Terá uma grade na parte frontal, de bronze, ou de ferro, ou de mármore, ou de outra pedra maciça, ou de madeira torneada. Não haverá escadas que conduzam ao estrado, nem em espiral nem de outro tipo, mas serão usadas escadas portáteis de madeira somente nos dias determinados em que as sagradas relíquias forem mostradas ao povo.(3)
Se uma igreja não for suficientemente grande para o que foi descrito acima e possuir relíquias importantes, será construído um estrado fora da capela-mor, do lado do Evangelho, aproximadamente no centro, mas mais próximo do altar-mor, ou junto à parede na cabeceira da nave. O estrado será fixado à parede e terá o comprimento e a largura prescritos acima para a forma precedente. Um armário para conservar as relíquias será embutido na parede à qual o estrado está fixado e será nela assentado com argamassa. O armário será de mármore ou de outra pedra maciça, revestido internamente com painéis de carvalho ou de outra madeira, tratada de modo a durar longo tempo, e inteiramente decorado com seda da cor apropriada, segundo a tradição da Igreja, aos santos cujas relíquias são conservadas em seu interior. Esse armário será fechado com portas revestidas de bronze e com duas fechaduras diferentes, como acima.
Podem ser acrescentados degraus de pedra ou de madeira para alcançar o estrado, desde que possam ser convenientemente colocados atrás do armário e não ocupem espaço na igreja. Caso contrário, será usada uma escada portátil, como acima.(4)
O terceiro tipo será usado nas igrejas que possuem relíquias, mas nas quais não foi possível estabelecer previamente, nem se teve à disposição, um lugar correspondente ao primeiro ou ao segundo tipo, conforme prescrito acima.
Na capela-mor, isto é, dentro da clausura, do lado do Evangelho, deve ser embutido na parede um armário, se possível voltado para o altar-mor. Terá a largura, o comprimento, a altura e a profundidade exigidos pelo número e pelo tamanho das santas relíquias que nele serão conservadas.
A base do armário ficará quatro côvados acima do piso da capela. Em seu interior, será inteiramente revestido de painéis de madeira e decorado por todos os lados com seda da cor conveniente às relíquias. Será hermeticamente fechado com portas revestidas de bronze, bem executadas, dotadas de fechadura sólida e de duas chaves, cada uma de feitura diferente. Nesse armário, primorosamente executado, as relíquias, encerradas em recipientes ou caixas, serão conservadas em boa ordem.
Os recipientes em que as relíquias são conservadas serão de ouro, prata ou cristal, ou de algum outro metal, primorosamente trabalhado e dourado, conforme a importância das relíquias e os recursos da igreja em que são conservadas.
Haverá tantos recipientes quantas forem as espécies de relíquias, para que em cada recipiente possam ser conservadas uma, duas ou mais espécies, cuidadosamente separadas e em ordem distinta. Cada recipiente será coberto por um véu, cuja cor será diferente conforme o tipo de relíquia que ele contenha.
Se as santas relíquias forem tão pequenas que não sejam necessários recipientes, os quais seriam demasiado grandes, mas bastem recipientes ainda menores, serão conservadas da seguinte maneira. Escolher-se-á um painel de nogueira ou de alguma outra madeira, bem alisado, ou também de material mais precioso, como marfim ou prata. Primorosamente trabalhado pelo artesão, terá o comprimento e a largura necessários para o uso a que se destina. Nele serão escavadas tantas pequenas cavidades ou compartimentos quantas forem as relíquias a conservar, com a profundidade de três onças. Na parte superior, esses compartimentos serão circundados por pequenas molduras ornamentais douradas.
O painel, assim preparado, será envidraçado, de modo que cada compartimento fique protegido por vidro transparente. A cobertura de vidro será provida de uma moldura de madeira dourada ou de material mais precioso, que servirá de decoração e, ao mesmo tempo, a manterá firmemente no lugar. Além disso, cada santa relíquia será envolvida duas vezes em tafetá de seda ou em ormesino, ou em algum outro tecido de seda de qualidade mais fina, entretecido de ouro e prata, em cores diversas, conforme convier, segundo o rito da Santa Madre Igreja, aos santos, aos apóstolos ou aos mártires, às virgens ou aos confessores cujas relíquias ali são conservadas.(5)
Para cada uma das relíquias cujo nome seja conhecido, será anexada uma inscrição em pergaminho, com letras claras, mas de tamanho pequeno, a qualquer tipo de compartimento, armário ou recipiente em que as relíquias sejam conservadas, ou, antes, à seda em que estão envolvidas. Essa inscrição especificará quais são as relíquias ali conservadas e a qual santo pertencem.
Se houver prova segura de que algumas relíquias pertencem a determinados santos, mas estiverem misturadas de tal modo que seja impossível dizer que pertencem a este ou àquele santo, essas relíquias serão colocadas em um único compartimento ou recipiente, no qual serão inscritos os nomes de cada um dos santos cujas relíquias nele são guardadas. O mesmo se fará ao nomear o recipiente ou compartimento em que as inscrições tiverem sido separadas das relíquias e misturadas, de modo que seja impossível encontrar uma maneira de identificá-las, apesar da presença das inscrições acima mencionadas.
Então, se houver relíquias cujo nome seja desconhecido, serão guardadas em um único compartimento com esta inscrição: “Santas relíquias cujos nomes são desconhecidos”.
Em uma das paredes do armário em que são guardadas as sagradas relíquias, serão pintadas, de modo apropriado e piedoso, as efígies dos santos aos quais pertencem as relíquias mais importantes ali guardadas.
Serão feitas duas hastes de madeira de marfim, ou daquela conhecida como “braxilio”, ou de algum outro tipo adequado, com três côvados de comprimento. Na parte superior, terão uma placa de prata e pares de pequenos ganchos. Neles, os fiéis pendurarão seus rosários para que toquem as sagradas relíquias ou, melhor, seus recipientes.
Finalmente, em qualquer igreja em que haja relíquias ou corpos de santos, será colocada uma placa de bronze ou mármore em lugar visível e importante, como na coluna da capela-mor, do lado do Evangelho, ou em algum outro lugar semelhante, e firmemente fixada à parede ou à coluna. Nela será gravado, em letras grandes, um breve resumo da história das relíquias ali guardadas.(6)