Livro I · Capítulo 10

Capela-mor Main Chapel

Livro I — A construção da igreja · texto corrido · 7 parágrafos · 1 nota da tradutora · português, com o inglês a um clique

Depois de termos tratado de assuntos que dizem respeito quase todos ao exterior da igreja, devemos ainda falar do interior e, sobretudo, do altar-mor e da capela-mor.

O local dessa capela deve ser escolhido na cabeceira da igreja, em lugar proeminente e alinhado com o eixo da entrada principal. A parte posterior deve estar voltada para o oriente, ainda que haja casas atrás dela. Não deve estar voltada para o oriente do solstício de verão, mas para o do equinócio.(1)

Se isso não for possível, o Bispo pode decidir e permitir que ela seja construída voltada para outra direção; neste caso, porém, deve-se cuidar ao menos para que, se possível, não fique voltada para o norte, mas para o sul.

Em todo caso, a capela na qual o sacerdote celebra a Missa a partir do altar-mor, voltado para o povo, de acordo com os ritos da Igreja, deve estar voltada para o ocidente.(2)

A capela será abobadada e devidamente ornamentada com mosaicos ou alguma outra ilustre decoração pictórica ou arquitetônica, correspondente às características e à dignidade da igreja que está sendo construída.

Seu piso será mais elevado que o da igreja,(3) em relação à sua localização e ao tipo de igreja a que pertence. Se for uma igreja paroquial, será mais elevado em pelo menos oito onças ou, no máximo, um côvado. Se for uma igreja colegiada ou catedral, ou uma igreja paroquial maior, será mais elevado em não menos de um côvado e não mais de um côvado e dezesseis onças. Quando, porém, estiver situado [abaixo] o lugar chamado confessio , os critérios aplicados à altura do piso dependerão adequada e convenientemente da altura da confessio.

Os degraus que conduzem à capela-mor serão de mármore, de pedra resistente ou, se o mármore ou a pedra não forem abundantes, de tijolo, em número ímpar, isto é, um, três, cinco ou mais, conforme a altura. Cada degrau não deverá ter mais de oito onças de altura, nem menos de dezesseis onças ou mais de um côvado de largura. Se a altura do piso da capela for inferior a um côvado, serão construídos três degraus de igual altura. Se, ao contrário, for aproximadamente superior a um côvado, haverá cinco degraus. Se, então, por causa da confessio, for muito superior a um côvado, haverá tantos degraus quantos forem necessários, contanto que sejam sempre em número ímpar e tenham a mesma altura, proporcionalmente ao número de onças que constituem a altura total do piso; mas nunca deverão ter mais de oito onças.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

  1. A Apostolic Constitutione é uma obra do século IV composta de oito tratados distintos que descrevem a disciplina religiosa e as disposições litúrgicas. No segundo tratado dessa obra, são designadas áreas específicas para o bispo, os diáconos ou presbíteros, os leitores e os leigos.

    E, antes de tudo, que o edifício seja de forma oblonga, com a cabeceira voltada para o oriente… No centro, seja colocada a cátedra do bispo, e de cada lado dele sentem-se os presbíteros; … sentem-se os leigos nos outros lados, com toda a tranquilidade e boa ordem. Que as mulheres se sentem separadamente… No centro, permaneça o leitor sobre algum lugar elevado. (a)

    Na arquitetura dos primeiros edifícios eclesiásticos, a capela-mor era mais elevada que o restante do piso da basílica e geralmente se localizava na extremidade oriental mais afastada da nave, em frente à porta principal. Tradicionalmente, terminava em uma ábside semicircular, ao fundo da qual ficava a cátedra do bispo, com bancos simples de pedra de cada lado para o clero (Figs. 10.5, 10.6). Se a cátedra do bispo estivesse encostada à parede posterior da basílica, o altar (que devia estar sob uma estrutura semelhante a um dossel, sustentada por quatro colunas, chamada cibório (baldaquino)) era colocado entre a cátedra e o povo. O altar ficava voltado para o povo em razão da disposição hierárquica da igreja e, quando o bispo se aproximava do altar, naturalmente permanecia do lado mais próximo de sua cátedra, voltado para o povo. Nas igrejas românicas, a capela-mor continuava elevada acima do nível da nave, mas sua altura dependia da cripta abaixo (Fig. 10.7). Quanto mais próximo da parede posterior o altar era colocado, mais necessário se tornava que a própria parede tivesse importância; daí os mosaicos e afrescos.

    A orientação para o leste era preferida, mas nem sempre observada, e os teóricos do Renascimento indicam uma flexibilidade prática. Serlio, por exemplo (cujo tratado se encontrava na biblioteca de Borromeu), escreveu que “quanto à posição do templo, os antigos colocavam o altar voltado para o sol do oriente, prática que nós, cristãos, não seguimos; mas, onde quer que a igreja seja construída, a fachada é voltada para a praça, na rua mais ‘nobre’” (Serlio citado por Barocchi, p. 437). Do mesmo modo, Borromeu, no quarto Concílio provincial, em 1576, escreveu: Curet omino ita illam aedificari, ne ab antiquo more, probataque traditione discedatur, ut sacerdos in altari maiori Missam celebrans Orientam spectet.

Fontes citadas

  1. (a)Constitutio Apostolorum, II, 57, 2-4.
  2. (b)Neale, p. 167.

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.