Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.
Blunt (p. 129), referindo-se às normas de Borromeu sobre as portas, observa que “mesmo em questões de pormenor, o recurso à antiga tradição cristã é decisivo: as portas, por exemplo, devem ter verga reta, e não ser arqueadas, porque o primeiro tipo se encontra nas basílicas cristãs primitivas, ao passo que o segundo é um desenho pagão. Em todos os casos, predominam as razões eclesiásticas, e considerações puramente artísticas só são admitidas em questões que são eclesiasticamente indiferentes”.
Cataneo (III, ii) sugere várias medidas proporcionais à largura da igreja: delle tre porte principali della fronte del tempio, quella di mezzo si farà di piedi dieci larga, e vinti in altezza, e le due dalle bande piedi sette e tre quarti larghe, e duo tanti in altezza. Para uma igreja de cinco naves (III, iii), sugere que “La porta maggiore di mezzo delle cinque navate si farà da piedi undici in sino dodici larga, ” , enquanto para uma igreja pequena (III, v) aconselha: “la porta principale e larga piedi nove e mezzo…” O projeto de Cataneo mostra uma fachada com três portas: as duas portas laterais são como Borromeu prescreve, mas a porta central, contrariamente às normas, é arqueada.
O tratado de Durando dá uma indicação da atitude medieval quanto à divisão dos sexos. Ele explica que “na igreja, homens e mulheres se sentam separadamente; o que, segundo Beda, recebemos do costume dos antigos; e foi por isso que José e Maria perderam o Menino Jesus, pois aquele que não o viu em sua própria companhia pensou que ele estivesse com a outra… Mas os homens permanecem do lado sul, e as mulheres, do lado norte, para significar que os santos mais avançados na santidade devem se colocar diante das maiores tentações deste mundo, e os menos avançados, diante das menores; ou que o sexo mais audaz e mais forte deve ocupar o lugar mais adequado à ação… pois os membros mais fortes se opõem aos perigos maiores. Mas, segundo outros, os homens devem ficar na parte dianteira [voltada para o leste], e as mulheres atrás, porque ‘o marido é a cabeça da mulher’ e, portanto, deve ir à frente dela.”(a)
Essa reafirmação da antiga prática da separação dos sexos é descrita mais detalhadamente por Gian Possevino, contemporâneo milanês de Borromeu. Ele relata que, com grande diligência, procurou-se eliminar todo perigo para a imortalidade espiritual mediante o retorno ao antigo método de separar os homens das mulheres.(b) Possevino prossegue explicando o modo como se fazia cumprir a norma, uma vez que essa prática havia sido abandonada havia muito tempo. Dois clérigos eram colocados diante das portas da igreja para dissuadir qualquer homem ou mulher de passar para o lado “proibido”. Ao mesmo tempo, esses clérigos observavam para que nenhuma mulher entrasse na igreja com a cabeça descoberta. (Os chapéus eram proibidos porque eram objetos de luxo e incitavam à vaidade!) E, caso algum homem ousasse passar para o lado das mulheres, provocando desordem, os guardas deveriam levá-lo à prisão.(c)
O simbolismo da vigilância espiritual levou ao uso de leões de pedra para guardar os portais das igrejas, pois a tradição dizia que o leão jamais fechava os olhos durante o sono (Sl 120, 4. Eis que aquele que guarda Israel não dormitará nem dormirá). Outras interpretações do símbolo do leão iam da realeza à imortalidade.
As várias diferenças iconográficas na pose dos leões constituem um estudo interessante: alguns aparecem em relevo nas ombreiras das portas, outros nas vergas, outros são suportes de base para colunas que sustentam pórticos pouco profundos, e outros seguram um animal ou um homem entre as patas — o que pode ser uma representação simbólica do Reino pacífico.(d)Figuras de leões também eram usadas para sustentar púlpitos (ver Capítulo XXII), bem como vasos de água benta (Figs. 7.1–7.6).
As portas de madeira de Santa Sabina, em Roma, e de Santo Ambrósio, em Milão, são anteriores às portas de bronze do portal principal do período românico. Pensa-se que essas portas decorativas tenham servido de modelo para as de bronze, na medida em que também são divididas em painéis e representam cenas bíblicas esculpidas. Várias igrejas românicas ainda possuem portas de bronze no portal central, e essas portas se enquadram em dois estilos básicos: as que apresentam representação plana e prata incrustada, e as que são executadas em alto-relevo.
Como se observou na discussão sobre a forma de uma igreja (Capítulo II), tanto Palládio quanto Cataneo descreveram entradas e/ou altares nas extremidades dos “braços” ou transeptos de uma igreja. Na Milão de 1565 até aproximadamente 1577, Borromeu viu aumentar o abuso dessas entradas adicionais. Naquela época, o Duomo encontrava-se na posição singular de estar literalmente cercado por oficinas ao ar livre de escultura, talha em madeira, corte de blocos de mármore, sopro de vidro etc., devido ao fato de que os espanhóis que haviam tomado a cidade estavam remodelando parte do Castello Sforzesco; o Palazzo Reale estava sendo parcialmente redecorado; e estavam em andamento obras no Duomo, bem como na residência do arcebispo Borromeu. Todos esses locais ficavam nas imediações do Duomo. As pessoas que se dirigiam ao antigo mercado atrás do Palazzo Reale achavam mais fácil conduzir suas carroças, seus produtos e seus animais pelas portas do transepto, que lhes proporcionavam uma passagem menos perigosa, livre de lascas e fragmentos de madeira e mármore projetados, levando-as de norte a sul nos dias de mercado e evitando um desvio de quase dois quilômetros.
Borromeu foi levado ao ponto da exasperação. Ele ordenou que as barras verticais das grades dos altares fossem aproximadas umas das outras, para ao menos impedir que os cães vagassem pelas proximidades dos altares laterais e do altar-mor. Por fim, resolveu o problema emitindo uma ordem que deveria ser cumprida sob pena de multa ou prisão, ou ambas. Essa ordem foi registrada por Giovan B. Casali, que escreveu: “Registramos que, no ano de 1577, o Ilustríssimo Cardeal Borromeu ordenou que todas as igrejas que tivessem três portas na fachada frontal, isto é, a porta principal e uma de cada lado dela, e todas as igrejas que tivessem portas laterais (a isso todas as igrejas devem obedecer imediatamente), fechassem todas essas outras portas, e que o povo usasse somente as três portas acima mencionadas da fachada frontal. Isso se tornou uma ordenança do concílio sagrado. A primeira a observá-la foi o Duomo, seguida por Santo Ambrósio, São Francisco, São Nazaro, Santo Estêvão, Santa Maria della Scala, São Marcos, São Lourenço, seguidos por outras igrejas.”(e)
Carlo Bascapé, um dos amigos íntimos de Borromeu e que frequentemente atuava como seu representante nos assuntos eclesiásticos, relata que as portas foram fechadas nas laterais das igrejas porque as pessoas, por conveniência, atravessavam irreverentemente a igreja como se ela fosse uma rua, sem qualquer consideração pela dignidade do lugar, e que o fechamento das portas também ajudava a manter a separação dos sexos.(f)