Livro I · Capítulo 6

O Pavimento The Floor

Livro I — A construção da igreja · texto corrido · 1 parágrafos · 3 notas da tradutora · português, com o inglês a um clique

Já se disse o suficiente acerca do teto. Segue-se agora a discussão sobre o pavimento. Na igreja, ele não deve ser feito de tijolos dispostos em espinha de peixe, nem de tijolos cozidos, nem de outra alvenaria de tijolos, a menos que seja vidrada; mas, na igreja mais importante e nas capelas-mores, bem como nas demais construções de destaque, deve ser revestido de mármore ou de outra pedra resistente, em tesselas ou com ladrilhos em forma de losango, perfeitamente lisos, ou também em mosaico. Nas demais igrejas e capelas, onde isso não for possível, o pavimento deve ser feito de lajes lisas de pedra ou de tijolo. No pavimento, qualquer que seja o material empregado, não se deve pintar nem representar em relevo uma cruz, nem qualquer outra imagem ou história sagrada, ou outra figura que simbolize o mistério sagrado.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

  1. A experiência de Borromeu nas visitas pastorais levou-o a observar que os pavimentos das igrejas feitos apenas de terra batida não eram adequados ao uso constante que ele esperava que o espírito da Reforma Católica promovesse. Uma superfície de material sólido, fosse de tijolo vidrado ou de mármore, seria certamente mais funcional e eliminaria a possibilidade de buracos e irregularidades — problemas que restringiam um fluxo ordenado, uniforme e ininterrupto de pessoas

  2. Na Antiguidade pagã, o pavimento de um templo, de uma basílica e de uma casa era uma das principais artes decorativas, desenvolvida até alcançar um esplendor perfeito, como atestam os mosaicos de Roma, que Borromeu também teria conhecido.

    Os pavimentos em opus sectile das igrejas da Itália central, entre o século XII e meados do século XIII, eram conhecidos como pavimentos cosmatescos. Suas características específicas eram os medalhões circulares e/ou quadrifólios, ladeados à direita e à esquerda por grupos repetidos de retângulos ornamentados, separados por interstícios de mármore branco. Os materiais normalmente eram pórfiro, mármore branco, giallo antico e serpentina. Os medalhões tinham uma orientação longitudinal, começando na entrada da igreja, e eram concebidos para conduzir o olhar ao longo da nave, em linha direta até o altar, proporcionando, com efeito, uma espécie de percurso processional. Muitos desses pavimentos ainda existem e servem como exemplos de programas visuais iconográficos coerentes.(a)

  3. Durando compara o pavimento ao fundamento da fé, dizendo que, na Igreja espiritual, o pavimento representa os pobres de espírito, isto é, aqueles que se humilham em todas as coisas; os quais, em sua humildade, são como o pavimento.(b) Ele não faz menção a imagens.

    Os pavimentos decorativos com animais embutidos, símbolos do zodíaco e trabalhos dos meses já são conhecidos do leitor. Figuras desse tipo apresentavam variações regionais, e alguns exemplos notáveis na arquidiocese de Milão durante a época de Borromeu (ainda conservados) são os pavimentos em mosaico de S. Michele, em Pavia; o Duomo de Cremona(c) com sua interpretação figurativa da batalha entre corpo et anima; e a Basílica de S. Colombano, em Bobbio, e seu pavimento do século XII, com representações dos meses, a história dos Macabeus e várias criaturas fantásticas.

    Quanto às imagens sagradas no pavimento das igrejas e das ruas, é interessante observar que o sínodo florentino de 1517 proibiu que cruzes e símbolos de qualquer santo fossem colocados, esculpidos, cinzelados ou pintados onde pudessem ser pisados por homens e animais.(d)

    Na quarta sessão do Concílio Provincial de 1576, Borromeu não poupou palavras ao proibir imagens sagradas nos pavimentos, quando declarou: “O que foi por nós ratificado no que diz respeito à imagem da sacrossanta Cruz no terceiro Concílio Provincial, seja igualmente interdito; a saber, que outras imagens sagradas e histórias dos santos, ou figuras e símbolos dos sagrados mistérios, sejam esculpidos, pintados ou representados em qualquer pavimento, assentado sobre o chão ou em qualquer lugar sórdido, mesmo fora da igreja.”(e)

    Em 1567, Borromeu aprovou o projeto de Tibaldi para a pavimentação da Catedral de Milão e, em outubro de 1580, aparece nos arquivos outro registro relativo a algumas deliberações da Fabbrica sobre sua construção.(f) O plano de Tibaldi continha vários desenhos como partes do conjunto total. A capela-mor deveria contrastar marcadamente com o restante da igreja, e essa variação de padrão e cor serviria para aumentar a percepção dos degraus inclinados que conduziam ao altar-mor. Não havia qualquer símbolo sagrado.(g)

Fontes citadas

  1. (a)D. Glass, "Papal Patronage in the Early Twelfth Century: Notes on the Iconography of Cosmatesque Pavements." Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, XXXII (1969), pp. 386-390.
  2. (b)Durandus, I, 28.18
  3. (c)The visitor must actually leave the Duomo proper and go into the adjacent cemetery where a tiny staircase leads underground to the lower floor of the destroyed church of S. Ambrogio.
  4. (d)R. Trexler, Synodal Law in Florence and Fiesole, 1306-1518 (Vatican, 1971), p. 130.
  5. (e)Quod de sacrosanctae Crucis effigie in Concilio Provinciali tertio per Nos sancitum est, itidem interdictum sit, sacras alias scilicet imagines, ac Sanctorum Sanctarumve historias, sacrorumve mysteriorum figuras et significantiones in ullo quovis humi strato pavimento, aut loco sordido, etiam extra ecclesiam, insculpi, pingi effingive. AEM, 307.
  6. (f)Arch. Arciv. Milano, Metropolitana LXXI, 446, 9 and 17.
  7. (g)This general practice is in effect today as may be seen in directives for church floors: "sacred figures or monograms should not be wove in the rug or carpet used in the sanctuary, as it is naturally objectionable that such holy representations should be trodden upon." H. Collins, The Church Edifice and Its Appointments (Maryland, 1962), p. 117.

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.