A segunda parte de um manual cerimonial compilado por Borromeu e por seu tio Pio IV (Pontificales secundum ritum et usum Sancte Romane Ecclesie, impresso por Giunta em Veneza, 1561) descreve os ritos para a consagração das igrejas. A xilogravura utilizada como auxílio visual no procedimento de bênção de um local mostra a planta longitudinal (Fig. 2.1). Essa publicação surge relativamente cedo no pontificado de Pio IV e oferece apoio adicional à observação de Lewine de que as soluções para alguns dos problemas fundamentais do projeto de igrejas aparecem já na década de 1530 e perduram ao longo das quatro ou cinco décadas seguintes, sem referência a Michelangelo ou às suas ideias. O estudo de Lewine examina todas as igrejas novas fundadas ou inteiramente construídas em Roma entre 1527 e 1580, e sua conclusão sustenta a teoria de que “missas frequentes, pregação regular e piedade manifesta criavam, cada uma, uma demanda sobre a estrutura de uma igreja; as respostas estilísticas dos arquitetos romanos foram imediatas, e suas soluções, duradouras.”(a)
Como foi observado na Introdução deste estudo, Carlos Borromeu conhecia as antigas basílicas de Roma. O espírito do movimento reformador assumia uma atitude de “retorno às fontes”, isto é, um retorno ao fervor dos antigos e da Igreja medieval, que também resultou numa retomada da leitura dos Padres da Igreja e dos primeiros liturgistas. Entre os livros pessoais de Borromeu encontravam-se anotações manuscritas sobre os escritos tanto de Sicardo como de Durando,(b) o que, para os fins deste estudo, indica alguma influência de ambas essas fontes medievais. No Durandus Rationale (I, 17), afirma-se que “algumas igrejas são construídas em forma de cruz para significar que estamos crucificados para o mundo e devemos seguir os passos do Crucificado”. Com referência à planta centralizada, Durando acrescenta que “algumas (igrejas) também são construídas em forma de círculo para significar que a Igreja se estendeu por todo o círculo do mundo”.
Cataneo parte da analogia de Durando e estabelece sua ideia de que a igreja principal de uma cidade deveria ter planta cruciforme, correspondendo às medidas do corpo humano perfeito. Em seguida, incorpora o corpo perfeito de Cristo à planta, identificando funções litúrgicas específicas com várias partes do corpo (Fig. 2.2).(c)
Palládio, em sua discussão sobre as formas dos templos, sustenta primeiramente a planta centralizada, afirmando que os templos devem ser grandes e que, entre todas as figuras delimitadas por uma circunferência igual, nenhuma é mais espaçosa que a redonda. Sobre a planta longitudinal, diz: “Também são muito louváveis aquelas igrejas que são feitas em forma de cruz, que têm sua entrada na parte que representa o pé da cruz e, diante dela, devem estar o altar principal e o coro; e, nos dois braços que se estendem de cada lado como braços, duas outras entradas ou dois outros altares; pois, sendo conformadas em forma de cruz, representam aos olhos dos que as contemplam aquela madeira da qual pende a nossa salvação. E, dessa forma, construí San Giorgio Maggiore em Veneza.”(d)Estudos recentes produziram novas perspectivas sobre a compreensão que Palládio tinha do movimento da Reforma Católica na arquitetura: o papel da participação dos fiéis nas cerimônias religiosas.(e)
“Quanto aos edifícios redondos, esse tipo de planta era utilizado nos templos pagãos e é menos usual entre os povos cristãos.” A partir dessas palavras, muitas vezes se inferiu que Borromeu desaprovava a planta central.(f) Mas Borromeu desenvolve essa ideia e conclui que alguns locais “exigem outra forma de edifício, de preferência à forma oblonga” e que se pode construir uma igreja com tal configuração. Na realidade, Borromeu simplesmente recomenda a forma retangular como primeira opção para as basílicas e as igrejas paroquiais, mas também aprova a forma redonda. A documentação a seguir comprova esse fato.
Serviliano Latuada, em sua célebre descrição de Milão, relata como, durante a peste de 1576, as autoridades municipais, sob o incentivo do cardeal Borromeu, aprovaram recursos para construir um templo votivo em honra de São Sebastião, “con disegno…del celebre Architetto Pellegrino Pellegrini.”(g)
Por volta de 1488, foi separado um local fora da cidade de Milão para servir de acampamento às vítimas da peste. Durante a peste de 1576-78, Borromeu, em consulta com Pellegrino Tibaldi e Ludovico Moneta, aprovou outro edifício de planta centralizada. Deveria ser uma igreja octogonal aberta, no centro da qual havia um altar. Acima do altar, sustentada por colunas e pilastras, havia uma pequena cúpula de oito lados com tholos (ver o Apêndice II, n. 24, para a localização do Lazareto e da igreja). A planta original de Tibaldi encontra-se nos arquivos de Borromeu, na Isola Bella (Fig. 2.5). A inscrição, assinada por Borromeu, declara que “aprovamos a forma e a planta expressas neste desenho, segundo o parecer do arquiteto perito e, tendo-as cuidadosamente examinado, de acordo com as disposições de nossas instruções para a construção de igrejas, concedemos que a construção desta igreja seja realizada e concluída…”.
O Archivio Arcivescovile della Curia di Milano (XXXVIII:50-26) revela ainda outra igreja de planta centralizada. O documento é datado de 30 de maio de 1578, e a descrição do registro diz: Il card. Carlo Borromeo rilascia la licenza di costruire la nuova chiesa di S.
Rocco, licenza scritta e sottoscritta con firma autografa, in calce al progetto disegnato a penna con la pianta della nuova chiesa. E' pure unito uno schizzo a penna con la pianta sezione circolare della cappelletta di S. Rocchino.