Livro I · Capítulo 2

Planta da Igreja Plan of the Church

Livro I — A construção da igreja · 1 seção · 6 parágrafos · 2 notas da tradutora · português, com o inglês a um clique

O local da igreja foi brevemente discutido acima. Agora serão apresentadas considerações sobre a planta.

Como são possíveis muitas plantas, o Bispo deve tomar sua decisão depois de consultar um arquiteto perito e levar em conta a natureza do local e as dimensões do edifício.

Deve-se preferir a planta cruciforme, que remonta quase aos tempos apostólicos e que se vê nas basílicas maiores de Roma (1), construídas dessa maneira. O edifício circular outrora era usado para os templos pagãos e muito menos entre os povos cristãos.(2)

Toda igreja, portanto, e em particular aquelas que requerem uma aparência imponente, deve preferencialmente ser construída em forma de cruz. Há vários tipos, como, por exemplo, o oblongado, que é o mais comumente utilizado. Os outros tipos são mais raros.

Portanto, sempre que possível, deve-se usar em toda igreja a ser construída a planta cruciforme oblongada, seja ela uma catedral, uma igreja colegiada ou uma igreja paroquial.(3) Onde o local exigir uma planta que difira da forma oblongada, pode-se seguir o parecer do arquiteto, sujeito à aprovação do Bispo.

Critérios construtivos para a igreja cruciforme

A igreja cruciforme, quer tenha uma única nave, quer uma nave e duas ou quatro naves laterais, pode ser construída segundo proporções e desenhos variados, mas também adotando-se apenas este: isto é, com duas capelas construídas de cada lado da capela-mor, naturalmente para além da entrada [da capela-mor]. Estendendo-se como braços, elas se projetarão para além dos lados de todo o edifício e serão visíveis externamente conforme seu tamanho, de acordo com o tipo de arquitetura.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

  1. A segunda parte de um manual cerimonial compilado por Borromeu e por seu tio Pio IV (Pontificales secundum ritum et usum Sancte Romane Ecclesie, impresso por Giunta em Veneza, 1561) descreve os ritos para a consagração das igrejas. A xilogravura utilizada como auxílio visual no procedimento de bênção de um local mostra a planta longitudinal (Fig. 2.1). Essa publicação surge relativamente cedo no pontificado de Pio IV e oferece apoio adicional à observação de Lewine de que as soluções para alguns dos problemas fundamentais do projeto de igrejas aparecem já na década de 1530 e perduram ao longo das quatro ou cinco décadas seguintes, sem referência a Michelangelo ou às suas ideias. O estudo de Lewine examina todas as igrejas novas fundadas ou inteiramente construídas em Roma entre 1527 e 1580, e sua conclusão sustenta a teoria de que “missas frequentes, pregação regular e piedade manifesta criavam, cada uma, uma demanda sobre a estrutura de uma igreja; as respostas estilísticas dos arquitetos romanos foram imediatas, e suas soluções, duradouras.”(a)

    Como foi observado na Introdução deste estudo, Carlos Borromeu conhecia as antigas basílicas de Roma. O espírito do movimento reformador assumia uma atitude de “retorno às fontes”, isto é, um retorno ao fervor dos antigos e da Igreja medieval, que também resultou numa retomada da leitura dos Padres da Igreja e dos primeiros liturgistas. Entre os livros pessoais de Borromeu encontravam-se anotações manuscritas sobre os escritos tanto de Sicardo como de Durando,(b) o que, para os fins deste estudo, indica alguma influência de ambas essas fontes medievais. No Durandus Rationale (I, 17), afirma-se que “algumas igrejas são construídas em forma de cruz para significar que estamos crucificados para o mundo e devemos seguir os passos do Crucificado”. Com referência à planta centralizada, Durando acrescenta que “algumas (igrejas) também são construídas em forma de círculo para significar que a Igreja se estendeu por todo o círculo do mundo”.

    Cataneo parte da analogia de Durando e estabelece sua ideia de que a igreja principal de uma cidade deveria ter planta cruciforme, correspondendo às medidas do corpo humano perfeito. Em seguida, incorpora o corpo perfeito de Cristo à planta, identificando funções litúrgicas específicas com várias partes do corpo (Fig. 2.2).(c)

    Palládio, em sua discussão sobre as formas dos templos, sustenta primeiramente a planta centralizada, afirmando que os templos devem ser grandes e que, entre todas as figuras delimitadas por uma circunferência igual, nenhuma é mais espaçosa que a redonda. Sobre a planta longitudinal, diz: “Também são muito louváveis aquelas igrejas que são feitas em forma de cruz, que têm sua entrada na parte que representa o pé da cruz e, diante dela, devem estar o altar principal e o coro; e, nos dois braços que se estendem de cada lado como braços, duas outras entradas ou dois outros altares; pois, sendo conformadas em forma de cruz, representam aos olhos dos que as contemplam aquela madeira da qual pende a nossa salvação. E, dessa forma, construí San Giorgio Maggiore em Veneza.”(d)Estudos recentes produziram novas perspectivas sobre a compreensão que Palládio tinha do movimento da Reforma Católica na arquitetura: o papel da participação dos fiéis nas cerimônias religiosas.(e)

  2. “Quanto aos edifícios redondos, esse tipo de planta era utilizado nos templos pagãos e é menos usual entre os povos cristãos.” A partir dessas palavras, muitas vezes se inferiu que Borromeu desaprovava a planta central.(f) Mas Borromeu desenvolve essa ideia e conclui que alguns locais “exigem outra forma de edifício, de preferência à forma oblonga” e que se pode construir uma igreja com tal configuração. Na realidade, Borromeu simplesmente recomenda a forma retangular como primeira opção para as basílicas e as igrejas paroquiais, mas também aprova a forma redonda. A documentação a seguir comprova esse fato.

    Serviliano Latuada, em sua célebre descrição de Milão, relata como, durante a peste de 1576, as autoridades municipais, sob o incentivo do cardeal Borromeu, aprovaram recursos para construir um templo votivo em honra de São Sebastião, “con disegno…del celebre Architetto Pellegrino Pellegrini.(g)

    Por volta de 1488, foi separado um local fora da cidade de Milão para servir de acampamento às vítimas da peste. Durante a peste de 1576-78, Borromeu, em consulta com Pellegrino Tibaldi e Ludovico Moneta, aprovou outro edifício de planta centralizada. Deveria ser uma igreja octogonal aberta, no centro da qual havia um altar. Acima do altar, sustentada por colunas e pilastras, havia uma pequena cúpula de oito lados com tholos (ver o Apêndice II, n. 24, para a localização do Lazareto e da igreja). A planta original de Tibaldi encontra-se nos arquivos de Borromeu, na Isola Bella (Fig. 2.5). A inscrição, assinada por Borromeu, declara que “aprovamos a forma e a planta expressas neste desenho, segundo o parecer do arquiteto perito e, tendo-as cuidadosamente examinado, de acordo com as disposições de nossas instruções para a construção de igrejas, concedemos que a construção desta igreja seja realizada e concluída…”.

    O Archivio Arcivescovile della Curia di Milano (XXXVIII:50-26) revela ainda outra igreja de planta centralizada. O documento é datado de 30 de maio de 1578, e a descrição do registro diz: Il card. Carlo Borromeo rilascia la licenza di costruire la nuova chiesa di S.

    Rocco, licenza scritta e sottoscritta con firma autografa, in calce al progetto disegnato a penna con la pianta della nuova chiesa. E' pure unito uno schizzo a penna con la pianta sezione circolare della cappelletta di S. Rocchino.

Fontes citadas

  1. (a)M. Lewine, "The Roman Church Interior, 1527-1580" (Unpublished Ph.D. dissertation, Columbia University, 1960).
  2. (b)Saba, entry under R: RATIONALE Siceardi, et Durantis. Manuscriptum. (p. 35).
  3. (c)Cataneo, III, i.
  4. (d)Palladio, IV, ii.
  5. (e)Both S. Giorgio Maggiore (1565) and Il Redentore (1577) were designed to accommodate a specific function in religious cult. Palladio's conception of Il Redentore corresponded exactly to its role as a votive and not a parochial church. As a temple of the Republic it was principally designated for the processions and ceremonies of the Serenissima, and only secondarily for the Capuchins, who were the resident guardians of the church. The central apse contained the main altar, the lateral apses were designed to seat the Doge and the Senate, and were therefore without altars. Side altars, however, appear in S. Giorgio Maggiore, which was built primarily as a monastic church. See: A. Isermeyer, "La concezione degli edifici sacri palladiani," XIV (1972), pp. 105-35 and C. Semeszato, "Le chiese di Andrea Palladio," XV (1973), pp. 267-78 in Bollettino del centro internazionale di studi di architettura, A. Palladio (Vicenza).
  6. (f)Blunt, p. 127; also R. Wittkower, Architectural Principles in the Age of Humanism (London, 1960), p. 31.
  7. (g)S. Latuada, Descrizione di Milano (Milan, 1738), vol. III, pp. 119-25. For Tibaldi's project see Figs. 2.3, 2.4. For further documentation, see C. Baroni, Documenti per la storia dell'Architettura a Milano nel Rinascimento e nel Barocco (Rome, 1968), vol. II, pp. 157-75. (For location within the city see appendix II, #92.)

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.