Voltar ao Dicionário

Antepredicamentos

Antepredicamentos

(do lat. antepredicamenta)

Chamam os lógicos de antepredicamentos os preâmbulos e os pré-requisitos para ordenar os predicamentos, propostos por Aristóteles, classificando-os em quatro ordens. A primeira divisão consiste em unívocos, equívocos, análogos e denominativos. Chama-se unívoca a predicação quando a razão total é absolutamente a mesma; equívoca quando as razões são totalmente diversas; análoga quando parte é a mesma e parte é diversa; denominativa quando derivada do abstrato, assim o branco da brancura. O que predicamos de um é o nome apenas ou alguma coisa decorrente do nome. Se o que se predica faz-se apenas pelo nome e não pela conceituação temos o equívoco e, no segundo, temos a predicação unívoca. Assim, no primeiro caso, cão pode significar a peça de uma arma, ou ainda, o animal, e predicando para ambos é predicado equivocamente, e animal, predicado de homem e de cavalo, é predicado univocamente. Quando se predica saudável do remédio e do homem, predica-se analogamente, porque remédio e homem são diversos, porque pertencem a gêneros diferentes, mas a sanidade é uma e refere-se à mesma.

a)

A analogia pode ser segundo o ser, e não segundo a intenção.

b)

Segundo a intenção apenas, e não segundo o ser.

c)

Segundo o ser e segundo a intenção. Esta última constitui a predicação propriamente analógica. Um termo é unívoco quando o nome e a razão total são os mesmos; assim o nome animal, univocamente, predica-se de leão e de homem, não somente porque o nome animal convém a ambos, mas também porque a sua definição essencial é a mesma, já que tanto homem como leão são animais. Podem haver termos equívocos, não porém conceitos equívocos, porque se os termos quando equívocos são os mesmos, os conceitos que eles significam são diversos. Assim há termos equívocos, não porém conceitos equívocos. Os conceitos só podem ser unívocos ou análogos. Há três modos de ser dos conceitos análogos: no primeiro tipo não são propriamente análogos porque há univocidade segundo o ser, pois referem-se à mesma razão de ser; no segundo e no terceiro temos propriamente a analogia.

Os predicados devem ser analisados quanto à sua complexidade in re et in voce. (Vide Conceito e Idéia). Examinem-se os predicamentos que estão no sujeito ou que se dizem do sujeito. Quatro são as combinações:

1) os que se dizem do sujeito, mas que não estão no sujeito (a substância universal, a substância segunda);

2) os que estão no sujeito, mas não se dizem do sujeito (accidentes singulares, como branco);

3) os que não se dizem do sujeito, nem estão no sujeito (substâncias singulares, como este homem, como a substância primeira, a matéria);

4) os que se dizem do sujeito e que estão no sujeito (acidentes universais, como ciência, que está no homem enquanto ele é sujeito, e se diz desta ou daquela ciência).

Esta divisão dos predicamentos é feita por Aristóteles. Quatro são as regras dos antepredicamentos:


Razões dos antepredicamentos — A primeira razão dos antepredicamentos consiste em serem eles considerados segundo tríplice aspecto. Primeiro, o daqueles predicados que estão acima de todo predicamento: os análogos e os equívocos. Segundo, o daqueles que se coordenam no mesmo predicamento: os unívocos. Terceiro, o daqueles que estão num predicamento em relação aos que estão em outro, os denominativos. Deve-se considerar a conveniência e a inconveniência nos nomes, pois o lógico não trata das coisas senão enquanto são explicadas pelos nomes e pelos conceitos. Os análogos e os equívocos não estão acima dos predicamentos em algo que seja unívoco. A razão dos segundos antepredicamentos consiste em serem coordenações das coisas simples, não das complexas. As coisas simples têm uma única definição e quididade. Só é um ente simpliciter (simplesmente ente) aquele que tem unidade e quididade na essência. Essa a razão (logos) da distinção dos complexos e dos incomplexos, como antepredicamentos. A razão do terceiro antepredicamento consiste no estarem ou não no sujeito, no se atribuírem intencionalmente ou não do sujeito, cujas combinações são citadas por Aristóteles. O que se predica de um sujeito é algo real, que inere no mesmo ou algo que dele se diz, como algo que apenas intencionalmente atribuímos ao sujeito. Neste terceiro antepredicamento distingue Aristóteles um duplo gênero de entes; ou seja, a substância e o acidente, e um duplo gênero das intenções, a universalidade e a singularidade, o que conduz à formação dessas coordenações dos predicamentos acidentais e da substância, segundo a singularidade e a universalidade. A razão do quarto antepredicamento consiste em ser necessário conhecer, na coordenação dos predicamentos, não só a conexão deles, que se colocam em linha reta, que pertence à colocação reta do predicamento, como também à conexão ou separação deles, que se colocam de lado enquanto diferença. Duas regras surgem aqui: o que se predica essencialmente de um superior predica-se de seus inferiores (naturalmente subordinados); o que se predica do sul-americano predica-se do brasileiro. É imprescindível que o inferior esteja coordenado, portanto, em linha direta ao superior. Os gêneros que não estão subordinados não possuem as mesmas diferenças. Quando estão subordinados, as diferenças são as mesmas. Os gêneros subalternados ou se põem um sob o outro, ou sob um terceiro, como animal e planta, que se subordinam a vivente. Possuem os gêneros em potência diferenças pelas quais se dividem em suas espécies. Contudo é mister nunca confundir as diferenças constitutivas das diferenças acidentais. Assim, bípede e quadrúpede são diferenças acidentais, mas corpóreo e incorpóreo são diferenças constitutivas.


Dos equívocos — Define Aristóteles como equívocos (homonymá) as coisas que se têm em comum o nome, contudo a razão designada por esse nome é diversa. Assim animal é tanto um homem real como um homem pintado num quadro. A definição, porém, de Aristóteles refere-se aos equívocos equivocados, tanto que os trata no plural. Quanto ao equívoco equivocante é mister atender para o que segue: a equivocação dá-se no nome, não no conceito, pois não há conceitos equívocos, mas apenas unívocos ou análogos. O conceito seria outro que outro; outro conceito, portanto. Há sim, nomes equívocos, quando o nome é o mesmo e a razão ao qual intencionalmente se refere é outra, distinta. Há assim termos verbais equívocos, não conceitos equívocos; há equivocidade in voce não in ratione. Note-se que Aristóteles não diz que vox é equívoca mas nomen. Portanto a equivocidade está na razão do nome, enquanto nome. Mas o nome é o que tem muitas significações. Tanto os análogos como os equívocos, quando tomados em seu significado, o que deles se predica lhe é proporcionado. Assim, "O leão corre" é proporcionado ao leão animal real, mas o leão que há em nós corre seria inadequado. Assim o predicado é adequado e verdadeiro segundo é tomado o nome equívoco ou análogo.


Dos análogos — A maneira mais comum de entender a analogia é a de um médium entre a univocidade e a equivocidade. Para uns é uma espécie de univocidade, para outros porém uma espécie de equivocidade. São conceitos análogos os que têm em sua razão alguma nota em comum. Se assim se entende, neste caso, há analogia entre todas as entidades, porque há entre elas algo em comum quanto à sua razão, não apenas considerada em sua quididade, mas em sua afirmação entitativa. Essa razão que os identifica, chamam-na os pitagóricos e os platônicos de logos analogante, o logos que analoga os analogados. Mas o que analoga vários, esse logos tanto pode referir-se ao que é intrínseco como ao que é extrínseco às coisas ou a uma delas, pelo menos. Por essa razão se dividiu a analogia em analogia de atribuição extrínseca, quando o logos faz parte ou se refere ao que é extrínseco à coisa. Assim o sol no crepúsculo, em sua agonia, assemelha-se ao herói, que agoniza após a luta. Esse logos analogante refere-se à extrinsidade, portanto essa analogia é de atribuição extrínseca, característica da metáfora. Mas antes dessa divisão de atribuição, temos que notar que há semelhanças, não de atribuição quer intrínseca quer extrínseca, mas de mera proporcionalidade. Neste caso a divisão seria: 1) analogia de atribuição e analogia de proporcionalidade; 2) analogia de atribuição intrínseca e de atribuição extrínseca. Essa divisão nos é apresentada por Tomás de Aquino. Um ente puramente equívoco seria um ente totalmente outro, sem sua entitas e em sua quididade, que qualquer outro. Ora tal ente teria pelo menos em comum o ter entitas, o ter uma quididade, etc. Consequentemente a equivocidade absoluta é impossível. Portanto entre os equívocos há, pelo menos, um logos analogante, embora haja diferenças quididativas numerosas. Também a univocidade pura implicaria a total identificação entre os entes, negando-se assim qualquer distinção, o que é absurdo, já que os entes apresentam aspectos outros que outros. Consequentemente decorre que a analogia apresenta graus e esses são notados entre o que os unívoca e os equivoca, o que demonstra que a analogia é incompreensível sem a univocidade e a equivocidade. Esta é, porém, matéria controversa e cabe à ontologia estudá-la. Longa é a polêmica em torno dessa matéria e há obras especializadas que tratam do tema ex-professo. Os conceitos unívocos são aqueles cujas razões são absolutamente semelhantes; ou seja com igualdade e paridade em alguma natureza, enquanto os análogos são os que se ausentam dessa unidade ou conveniência absoluta, e só têm conveniência de modo relativo; ou seja, na justa proporção ou comensuração. Por isso também se pode falar numa analogia de proporção e numa analogia de proporcionalidade. A primeira é comumente confundida com a de atribuição (assim são, quando se refere ao animal e ao alimento). A segunda é a analogia que se refere à qualidade ou à comparação das próprias proporções. A analogia de proporção ou de atribuição se diz secundum intentionem (segundo a intenção) e não secundum esse em ambos analogados, mas apenas em um deles. O logos analogante, portanto, em um dos analogados é não só segundo a intenção, mas também segundo o ser. O primeiro tomou o nome de analogado superior e o segundo de analogado inferior. Na analogia de proporcionalidade, o logos analogante em nenhum é segundo o ser, mas apenas segundo a intenção. A analogia de proporcionalidade pode ser própria ou imprópria (ou metafórica). Própria quando a razão significada pelo análogo dá-se em ambos analogados, como a analogia que se dá entre a substância e o acidente. Metafórica ou imprópria quando a razão significada dá-se formalmente em um e por similaridade ou por translação em outro, como risonho ao referir-se ao homem e ao prado. Conclui-se: os conceitos análogos por atribuição e os análogos metaforicamente não possuem um conceito comum, nem objetivo, nem formal, mas muitos, com unidade de comparação e de conotação, pelo qual diferem dos puramente equívocos. E ainda: Os conceitos análogos por proporcionalidade própria podem ter um conceito um a respeito de todos os analogados, inadequado e imperfeito, que não prescindem dos inferiores por algo que inclua naquela potência e exclua em ato, mas por algo que em ato não explica, como também em ato os inclua ou implique.


A analogia e a unicidade segundo os escotistas — Eles admitem quatro graus de univocação:

1)

Primeiro grau, o mais perfeito. Dá-se este grau quando algo, além de ser unívoco segundo o nome e segundo a razão, é também segundo o modo de ser, segundo a mesma ordem e segundo a mesma perfeição. Assim homem se diz não só no nome, mas também na razão, no mesmo modo de ser, na mesma ordem e na mesma perfeição para todos os singulares individuais da espécie humana.

2)

Segundo grau é o que é comum no nome e na razão, no mesmo modo de ser, na mesma ordem, não porém na mesma perfeição. Temos assim animalidade, que se predica do homem e do bruto univocamente, menos na mesma perfeição, já que é mais perfeita no homem que no bruto.

3)

Terceiro grau: o que é comum no nome, na razão, no mesmo modo de ser, não porém na mesma ordem, nem na mesma perfeição, como número, quando se refere a binário ou a ternário.

4)

Quarto grau é aquele que o é apenas no nome e na razão e em nenhum dos outros, como ente que se diz da substância e do acidente, que não se univocam segundo o modo de ser, nem segundo a ordem, nem segundo a perfeição. Este último grau de univocação é chamado pelos escotistas de unívoco-análogo. Se compararmos a substância e o acidente, enquanto entes, e ente enquanto nome e razão, há univocidade; não há porém no modo de ser, já que a substância é in se e o acidente in alio (em outro), nem segundo a ordem, já que a substância sustenta o acidente, o que lhe dá prioridade, nem segundo o modo de perfeição, já que a substância além de fruir da inseidade, frui também da independência, enquanto o acidente é um ens-entis, um ser em outro, dependente de outro, a substância.

Voltar ao Dicionário