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Conceito

Apreensão

A simples apreensão que é a primeira operação do espírito é o ato pelo qual ele capta, noeticamente, alguma coisa. E o que a mente capta (de capio, ceptum, daí cum-ceptum) é o conteúdo do conceito, que é construído pela mente e expresso na mente. Assim quando mentamos casa, pedra, sapiente, realizamos atos de simples apreensão. A cognição é tema de psicologia. Consiste genericamente no ato imanente, consciente e intencional da notícia de alguma coisa, que se jecta ante (ob-jecta), adquirida por similitude ou representação do objeto. Na cognição há, pois: 1) um ato, uma atuação, que consiste numa modificação de alguma capacidade subjetiva (intelectual), ação imanente, que permanece (permanere) no próprio sujeito; 2) é consciente, porque é notado pelo sujeito, como algo que é notado; 3) é intencional, porque o ato cognitivo tende in para o objeto, porque tende apontando o objeto; 4) por similitude, por semelhança, por uma representação do objeto; ou seja, por uma orientação esquemática que se assemelhe a ele, permanecendo sujeito, mas apontando-o, não fisicamente, mas intencionalmente, noeticamente, uma expressão viva do objeto, uma imitação esquemática do mesmo, uma representação, uma nova apresentação, uma semelhança, uma imagem (imago). Daí a definição de Tomás de Aquino:

Omnis cognitio fit secundum similitudinem cogniti in cognoscente

toda cognição se realiza segundo uma semelhança do conhecido no cognoscente

; 5) o conhecido (cognitum) é construído pela mente e expresso nela, porque é uma imagem do objeto, construída com elementos mentais, mas permanecendo na mente. Não é a cognição uma incorporação física do objeto, mas uma representação, uma imago, que imita por meios mentais o que ele apresenta, por meio de uma assemelhação dos esquemas, que a mente dispõe em face do que ele apresenta.

Há assim uma cognição sensitiva e uma cognição intelectual. A primeira é comum aos homens e aos animais. A segunda é própria do ser inteligente e do homem como ser inteligente. A cognição sensitiva se realiza através dos órgãos dos sentidos, segundo as diversas reações fisiológico-psicológicas, que cabem à psicologia descrever e estudar. A cognição intelectual, também chamada simplesmente intelecção, distingue-se da primeira pela ausência de um órgão e por características que são totalmente próprias. Realiza-se através de uma operação que consiste em extrair da coisa o que ela aponta de eidético, através das notas que expressa, semelhantes às notas esquemáticas que a mente acomoda aos objetos. O objeto apresenta em bruto uma série de semelhanças aos esquemas acomodados. Deles são extraídas, intencionalmente, notas semelhantes aos esquemas e ordenadas segundo ordens. O que permanece na capacidade sensitiva é o phantasma, o sensível dado em bruto aos sentidos, mas já diferenciado por estes, segundo a gama sensível, a capacidade sensível dos mesmos. Desse phantasma extrai (abstrai) as notas, segundo a capacidade intelectual; ou seja, adequadas aos esquemas noéticos. A apreensão, a noção já esquematizada (species), repetida na mente, segundo o modo de ser da mente, e nesta expressa, é o verbum mentis, o verbo mental, que os antigos também chamavam terminus mentalis, intentio. (Species, que vem do antigo specio, contemplar, ver, tem o mesmo radical de speculum, espelho. Specula, do lat., atalaia, lugar de observação. A species é o que é observado na coisa pela mente na mente, mas já esquematizado, ordenado. Specto é olhar, observar, ver. Ideyn, em grego é ver, daí idea, idéia e também eidos, no plural eide, sinônimo de species).

A idéia é a similitude do objeto expressa na mente cognoscente, sem ulterior afirmação ou negação. Não se deve confundi-la com o phantasma, que é o conjunto da intuição sensível captada pelos sentidos. A idéia não é algo material, retirado da coisa e incorporado na mente. É imaterial, É a apreensão, noção, espécie expressa, verbum mentis, terminus mentalis, intentio. Contudo todos esses termos têm significados próprios. A apreensão é o ato pelo qual captamos intencionalmente o objeto; noção (notio) o que é notado da coisa; a espécie expressa é a similitude expressa ou formal-atual da coisa na mente percipiente; verbum mentis é a expressão, manifestação, a locução interna, que a mente propõe a si mesma do objeto; terminus mentalis é o no qual ou o em que termina a operação do espírito (termo); intentio, o que do objeto para o qual tende a mente; a forma inteligível, a similitude que representa o objeto; razão (ratio) o que é princípio inteligível da coisa.

O objeto da idéia é o que se jecta ante a mente (o que se objetiva na mente). Esse objeto pode ser material ou formal. Material é o que pertence à coisa com todas as suas notas, que são os atributos, as propriedades, etc., que são cognoscíveis e podem manifestar-se. Formal é o complexo das notas, que estão representadas hic et nunc (agora e aqui) na mente. A compreensão da idéia é o objeto formal da mesma, o conjunto das notas que são representadas ou podem ser representadas; extensão da idéia são todos os objetos aos quais pode convir a compreensão, e que podem ser representados na compreensão. Há uma relação inversa relativa entre a compreensão e a extensão, Em geral, quanto maior a compreensão, menor é a extensão, e quanto maior a extensão, menor é a compreensão. Assim a idéia de ente é a de maior apreensão, pois inclui tudo quanto ao qual não se pode dizer que é nada, mas é a de mínima compreensão, porque só se pode dizer o que disse acima.

O ato apreensivo da idéia implica: atenção, que é o ato pelo qual a mente é dirigida para uma coisa; abstração, ato pelo qual a mente, de entre muitos objetos cognoscíveis, capta um, representando-o mentalmente sem outros. Vê-se que a abstração não é em si uma falsa cognição, embora seja uma cognição imperfeita, se considerada a coisa na sua totalidade, como sendo apenas a maneira abstraída. A abstração é uma, tomada da coisa separadamente, mas apenas mental. Graças à capacidade abstrativa pode-se compreender a imaginação criadora, pela qual se forma a síntese entre objetos cognoscíveis, constituindo com eles uma nova estrutura esquemática, noética, como a montanha de ouro, o centauro. A ação abstrativa que revela a atividade precisiva (que realiza precisões) da nossa mente, tem um papel analisador, sem a qual não se poderia compreender a síntese da imaginação criadora. Se por outro lado considerarmos os sentidos em seu funcionar, verificamos que, na intuição sensível, nos é possível pela atenção precisar crescentemente nossa capacidade intuitiva, dando maior intensidade a um aspecto de uma coisa que a outra. Assim podemos prestar mais atenção e precisar sensivelmente mais uma qualidade, ou o figurativo de uma coisa. A capacidade abstrativa intelectual da nossa mente tem um fundamento na capacidade abstrativa sensível. O que distingue uma de outra é o aspecto reflexivo (a reflexão). Esta é o ato pelo qual a mente atenta para o próprio objeto já mentado (re-flectere, re-flexum). É um spectare o próprio ato. Psicologicamente é o próprio ato da mente considerado como uma afecção e modificação qualquer do sujeito. Mas quando a reflexão considera esse ato próprio da mente, enquanto representação do objeto, como o conceito, objetivando-o spectatum, temos a reflexão ontológica. Não termina aí a ação da mente na apreensão. Há mais: há o ato pelo qual a mente atende (ad tensio, dirige sua tensão para) às diversas idéias, para inquirir suas relações, pô-las de par em par, para captar semelhanças e diferenças. É a chamada apreensão da comparação, que é ou não atualizada pela consciência. Evitamos assim a confusão entre idéia subjetiva e objetiva. A subjetiva é a afecção do sujeito, o conceito spectatur subjetivamente. A objetiva, enquanto representação, com seu conteúdo, é o conceito objetivamente spectatur. O papel abstratista dos nossos sentidos consiste numa intensificação da atenção intuitiva sobre um aspecto da realidade exterior. Podemos atualizar mais um aspecto que outro, considerar mais intensistamente o branco deste papel. Mas pensar sobre a sua brancura, tomada separadamente pela mente, é o que caracteriza a ação abstratora daquela. A mente, na abstração noética, realiza uma separação mental do que não é separado na realidade. Essa função abstratora é metafísica, dá-se além da física. O vício abstratista consiste, portanto, no tomar tais operações mentais sem o cuidado de considerar que devem sempre ser vistas como tais, como pertencentes a uma concreção. O papel concrecionador de nossa mente consiste na atenção que se deve devotar a esse aspecto de nosso espírito. O racionalismo foi vicioso, porque abstratista como é, permaneceu apenas na consideração das idéias, metafisicamente tomadas. Desse defeito não se podem acusar os grandes escolásticos. Contudo esse defeito fundamental é a causa da maioria dos grandes erros filosóficos do pensamento moderno, que celebrizaram tantos filósofos de renome, como Descartes, Leibniz, Spinoza, Kant, que mais contribuíram para aumentar os erros filosóficos e provocar uma problemática, que surge apenas de deficiências, do que propriamente resolverem magnos problemas da filosofia, que estavam colocados desde os gregos e que desafiaram a argúcia dos escolásticos. A função separadora (abstratora) da nossa mente distingue-se claramente da mera abstractio sensibilis, que é mais uma acentuação sobre os dados intuitivos. A abstractio mentalis realiza uma separação, mas mental, a qual consiste em considerar separadamente pela mente entre muitos aspectos do objeto um ou alguns, tomados sem os outros. Essa capacidade tem similar na captação intuitiva., Tem assim um fundamento experimental importante, o que dá validez à metafísica bem fundada, a que nunca esquece a concreção.

Quanto à origem das idéias não se pode afirmar que há idéias inatas, como alguns filósofos proclamaram, fundando-se no pensamento platônico. Considerando-se a operação que realiza a mente para alcançar a idéia, não seria possível admitir que houvesse em nós idéias inatas. Mas há alguma positividade no pensamento platônico que merece ser salientada. O cognoscente não penetra vazio no ato cognitivo. Leva já consigo uma organização psíquica que é constituída de uma esquemática que se acomoda aos fatos sensíveis. A construção de idéias pelo nosso espírito, pela nossa mente, fundamenta-se nos dados empíricos da intuição sensível. A atividade de nossa mente trabalha sobre materiais empíricos para deles extrair, por captação, estruturas eidéticas que constituem as idéias. Como se poderia realizar uma captação desproporcionada ao agente? Como pode este construir estruturas eidéticas se não tem já, potencialmente, algo semelhante ao que está na coisa, para poder realizar-se a assimilação, que é necessária a toda cognição? Há estruturas precisas, sem as quais seria impossível a cognição. É a ausência de tais estruturas que muito bem nos pode explicar porque seres puramente materiais não são capazes de conhecer. O que Platão afirmou ou pelo menos o que é consentâneo com o seu pensamento, é que não há de modo algum a tabula rasa dos empiristas. A mente humana já revela uma aptidão a construir as estruturas eidéticas, que são coordenadas pelo homem como um "despertar do que estava adormecido", como um recordar. Não há psiquicamente aquisições de elementos totalmente novos, mas apenas novas ordenações dos elementos preexistentes. Deste modo, a nova ordenação era uma possibilidade fundada em elementos virtuais. As estruturas noético-eidéticas do ser humano não são inatas, em sua ordenação estrutural, mas são possibilidades estruturais, fundadas no que há de preexistente no ser humano.

Uma idéia é primitiva quando é ela apenas intuitiva, experimental. Pode ser direta ou reflexa. Direta quando dada pelo objeto externo, e reflexa quando o objeto é interno, como os que constituem os fatos íntimos do sujeito cognoscente. Idéia primitiva (intuitiva, direta (segundo experimental) reflexa a origem) fictícia factícia arbitrária discursiva. Uma idéia é factícia quando a mente humana a constrói com as idéias primitivas, que podem ser: arbitrárias, as que dependem em sua formação do nosso arbítrio, por meio de novas abstrações ou de síntese de idéias já dadas, como o conceito de éter na ciência; e discursivas (ou dedutivas) quando surgem de operações judicatórias, como a idéia de Deus; e fictícias, as meramente ficcionais, as produzidas pela imaginação criadora do homem, como montanha-de-ouro, centauro, etc. Quanto à sua perfeição ela pode ser obscura, quando em sua compreensão as notas não são suficientes para separá-la de outras; clara, quando as notas são capazes de discerni-la de outras; estas podem ser distintas, quando além de claras permitem no mesmo objeto discernir duas notas, como na idéia de vivente a de animal racional, quanto ao homem, e podem ainda ser confusas, quando não oferecem, apesar de claras, o discernimento de duas notas, como o conceito de ente que, embora sendo uma idéia clara, é ainda confusa, porque nela estão fundidos todos os entes, apesar de suas distinções. Note-se, porém, que o termo confuso, na filosofia, não tem a mesma acepção da linguagem comum, cotidiana. Uma idéia distinta pode ser ainda: completa quando todas as notas do objeto são distinguidas; incompleta quando nem todas o são. Daí o esquema: obscura incompleta idéia distinta clara completa confusa Quanto à compreensão, uma idéia pode ser simples quando constituída apenas de uma única nota; composta quando de várias; concreta, a idéia que representa um sujeito qualquer com a sua forma ou perfeição, como a idéia de sábio que indica alguém que possui a sapiência. Esta pode ser dividida em metafísica, física e lógica. Metafísica quando a forma não se distingue realmente do sujeito, como homem; física quando se distingue realmente como cogitante; e lógica quando extrínseca ao sujeito, como amado. A idéia concreta pode ser substancial e adjetiva, segundo a distinção entre o sujeito e a forma é mais ou menos acentuada. A idéia concreta pode ser ainda abstrata quando se refere a uma forma, que é totalmente separada do sujeito, como humanidade. Pode parecer haver aqui contradição em termos. A concreção de uma idéia decorre da presença da forma no sujeito, mas essa forma pode ser real-realmente distinta dele ou não. Quando não o é, temos a idéia concreta metafísica; quando o é, temos a idéia concreta física. Humanidade é uma idéia abstrata, mas tem uma concreção no fato de o sujeito participar formalmente dela. Assim João é homem e tem humanidade (por participação). A idéia concreta pode ser ainda positiva quando representa alguma realidade ou propriedade real, como homem. E é negativa quando representa apenas a negação da realidade como não-ser (em sentido relativo), não-homem que indica indeterminadamente tudo quanto não é homem. Há contudo idéias que são apenas etimologicamente negativas ou aparentemente negativas, como a idéia de infinito que, contudo, apontam aspectos positivos. Eis o esquema: simples Idéia composta (segundo a compreensão) metafísica física lógica concreta substancial adjetiva abstrata positiva negativa Quanto à extensão as idéias podem ser: singulares, particulares e universais. Singular é a idéia que representa determinado indivíduo, cujas notas tomadas simultaneamente convêm a um só indivíduo, como Napoleão Bonaparte. Particular é a idéia universal contraída apenas a uma parte determinada de sua extensão, como "alguns homens sábios". Universal é a que representa uma totalidade tomada indivisamente: homem. A idéia universal pode ainda ser direta ou reflexa. Direta é a que sugere o objeto tomado diretamente, sem regressão, enquanto a reflexa é a que surge de uma reflexão da mente sobre os dados do conhecimento, produto assim de uma regressão do intelecto sobre o próprio objeto do conhecimento, como o são os predicáveis. singular universal Idéia (segundo a extensão) direta particular reflexa Propriamente o exame que fizemos da idéia corresponde, por sua vez, ao conceito, pois tais termos são tomados na lógica como sinônimos. Desse modo tudo quanto propusemos à idéia corresponde ao que se pode dizer quanto ao conceito. As classificações que oferecemos não são as únicas que propõem os lógicos, Nas relações entre si os conceitos apresentam as seguintes divisões: são diversos ou idênticos. Idênticos quando significam a mesma coisa; do contrário são diversos. Mas a identidade pode referir-se à compreensão ou à extensão. Quando idênticos à compreensão chamam-se estritamente idênticos, quando apenas à extensão chamam-se eqüipolentes. Assim 2 na segunda potência é estritamente idêntico a 4, enquanto animal racional é eqüipolente a animal bípede, implume. Dizem-se ainda impertinentes e pertinentes, os primeiros quando não se inferem nem se excluem, como verde e sábio, e pertinentes os que se inferem, como homem e animal, pois homem pertence a animal, ou se excluem, como homem e asno, que embora pertinentes a animal, ambos se excluem. São opostos quando há repugnância entre eles. Iguais quando permitem convertibilidade entre eles, como racional e risível, e desiguais quando não convertíveis, que mutuamente não se inferem, como homem e animal, embora homem infira animal, e não o inverso. Quanto à oposição dos conceitos, diz-se que são opostos os conceitos que, na mesma coisa e sob o mesmo respeito, não podem simultaneamente ser e não ser. Ela pode ser própria e imprópria (ou disparatada). A oposição própria é a que se dá entre conceitos opostos, contudo correspondentes, que oferecem repugnância um ao outro, como virtude e vício. Imprópria ou disparatada quando não há essa correspondência, como entre virtude e metal. A oposição própria pode ser contraditória, como a que se dá entre a coisa e a sua negação, a qual não admite meio termo, como homem e não-homem; privativa, a que se dá entre a coisa e a sua privação. A privação se dá pela carência de uma perfeição num sujeito apto a tê-la, como a oposição entre vidente e cego. Há lugar para um termo médio como não-vidente. Assim uma pedra nem é vidente, nem é não-vidente (cega). Tal defeito na pedra não é uma privação porque não é uma carência devida à natureza da pedra, pois não é esta apta a ver. Contrário dá-se entre conceitos que, sob o mesmo gênero remoto ou próximo, distanciam-se maximamente e que, no mesmo sujeito, repugnam como os extremos das cores, que admitem porém termo médio, como o amarelo entre o vermelho e o azul, as cores intermediárias. Quando a oposição contrária se dá desse modo chama-se mediata; do contrário, chama-se imediata, ou seja, quando não há termo médio, como entre honestidade e desonestidade. Relativa diz-se da oposição entre conceitos, que dizem respeito um ao outro, como pai e filho, escravo e senhor, pois o pai é pai do filho, e o filho, filho do pai. Chamam-se também correlativos. Segundo essa oposição, os conceitos são classificados em suas relações entre si como opostos, contraditórios, privativos, contrários e relativos.

Uma idéia é um ente de razão (ens rationis) quando só pode existir na mente, a qual pode ser ainda por privação ou negação, como cegueira, nada, ou meramente lógicas como a afirmação, ou meramente matemáticas como o número irracional. O contrário do ser de razão é o ser real, o qual pode ser possível ou atual. O ser real é aquele que pode existir real-realmente. É possível quando sua presença é possível de existir real-realmente como casa, chapéu. Há idéias simples e indivisíveis em si mesmas, como a de homem, vermelho, animal racional, que formam uma essência, da qual nada podemos extrair sob pena de lhes tirarmos a essência, transformando-as em outras coisas. Tais idéias ou conceitos chamam-se incomplexos ou indivisíveis. Outros, porém, chamados complexos ou divisíveis são os possuidores de várias essências ou conteúdos noético-eidéticos, tais como "a casa amarela da serra". Os antigos filósofos observavam, contudo, que os conceitos complexos e os incomplexos podem-no ser quanto aos termos que os constituem ou quanto ao conteúdo ao qual se referem. Assim poderiam ser complexos ou incomplexos in re (quanto ao conteúdo) ou in voce (de vox, voz, nos termos). Há quatro combinações: 1) Incomplexos in re et voce, incomplexos em si mesmos e segundo o modo de conceber, como homem, que se apresenta como uma única essência ao espírito e numa única apreensão inteligível. 2) Incomplexos in re et non voce, incomplexos em si e complexos segundo o modo de conceber, como animal racional que é, como essência, uma só, mas apresentada à mente em duas apreensões inteligíveis. 3) Complexos in re et non voce, complexos em si mesmos e incomplexos segundo o modo de conceber, como psicólogo, o que estuda a psique, embora com uma única apreensão inteligível. 4) Complexos in re et voce, em si mesmos e segundo o modo de conceber, como técnico em engenharia mecânica, onde são apresentadas várias essências, expressas por várias apreensões inteligíveis. Essas classificações são pouco usadas, o que é de lamentar, pois inúmeros erros de raciocínio surgem da não nítida distinção entre a complexidade ou não em si ou em termos de um certo conceito. Um conceito como animal racional, que é expresso em dois termos em nossa língua, constitui, porém, uma única essência e uma única apreensão, segundo o modo de conceber. Animal racional não é uma totalidade de composição, ou seja duas essências atuais formando um novo ser, mas um ser com uma única essência, que corresponde a homem.

Na lógica observam-se duas tendências: a dos que procuram reduzi-la apenas à extensidade, os extensistas, e a dos que procuram reduzi-la à intensidade, os compreensistas. Partindo-se do exame do conceito, notamos que a sua compreensão consiste nas notas essenciais ou qüididativas do mesmo, enquanto a sua extensão é entendida como o conjunto dos indivíduos aos quais se pode predicar o conceito. Assim, homem, compreensivamente, é animal racional; extensivamente, todos os indivíduos humanos. Para uma posição nominalista, a única realidade está nos indivíduos aos quais se pode predicar o conceito; ou seja, está apenas na extensão. Todos os lógicos, eivados de nominalismo, são quando conseqüentes, extensistas. Mas na verdade o conceito apresenta-se à mente como uma essência, uma natureza, uma qüididade, que representa alguma coisa real. Alguns lógicos modernos afirmam que pertencem à compreensão do conceito todas as notas que lhe são proporcionadas ou meramente atribuíveis, o que é um erro. Deste modo, poder-se-ia dizer que o conceito homem compreende o estar sentado, o estar andando, o estar em pé, que são meramente acidentes (per accidens). Na verdade deve-se compreender no conceito apenas o que é da essência, o que é necessário a ele. Deste modo as propriedades se são essenciais pertencem virtualmente ao conceito, não, porém, atualmente, como o ser gramático é uma propriedade da essência do homem, mas é virtual a ela, não atual. Evitar tais confusões que perturbam a lógica e a firmeza dos raciocínios, é uma necessidade em face da finalidade que deve ter essa disciplina, qual seja a de favorecer a melhor aplicação da inteligência ao exame das idéias. Ademais é mister distinguir as notas que constituem um conceito quanto a nós e quanto a si mesmo. Se certos objetos não os podemos apreender senão segundo certas notas, estas não devem ser consideradas como constituintes de sua legítima compreensão, a qual deve conter apenas as essenciais. Essa deficiência decorre do estado de nosso conhecimento. É o que observamos para exemplificar com a zoologia, onde nossos conceitos dos animais são formados de notas, segundo o que observamos nos mesmos, sem podermos alcançar-lhes a essência. Deste modo, quando Keynes, seguido por Goblot, distingue na compreensão de um conceito a conotação (conjunto das notas) e a compreensão em sentido restrito (strictu sensu), considerando a primeira o conjunto das notas com as quais definimos o objeto do conceito, e compreensão apenas as propriedades que podemos reconhecer nesse objeto, essa divisão é genuinamente nominalista. Ela afirma que nossos conceitos não alcançam a essência das coisas, ricas de inúmeras propriedades. Como salienta Maritain, "esta distinção é errônea, pois opõe as propriedades não à essência, ou aos caracteres que definem em si o objeto do conceito, mas aos caracteres que o definem para nós, que nos servem para defini-lo, e que, no caso das definições descritivas, não são os elementos constitutivos da essência, mas exatamente as propriedades". O termo conotação seria empregado apenas para indicar o que pensamos, atual e explicitamente, de algumas notas ou caracteres, que empregamos para definir um conceito. Goblot vai além, afirmando que na compreensão se incluem todos os conceitos contidos, quer como espécies ou subespécies, bem como todas as propriedades. Desse modo inclui a compreensão na extensão, aumentando aquela na proporção que aumenta esta. Mas esquece que essas propriedades não estão contidas em ato no conceito, mas apenas potencialmente (em potência). Não se deve incluí-las na compreensão do conceito, porque nesta, deve estar apenas o que lhe convém necessariamente (per se) e não per accidens. Deste modo o que se diz de um conceito, o que dele se predica, deve ser examinado se é acidental ou necessário (essencial). Na extensão devem ser compreendidos apenas os indivíduos que cabem no seu âmbito, ou seja, aqueles em número indeterminado aos quais se lhes pode predicar o conceito.

Na filosofia moderna considera-se conceito a idéia enquanto abstrata e geral. Eles podem ser a priori ou puros (Kant); isto é: não tirados da experiência, como os de unidade, relação, etc., ou a posteriori, o que eqüivale a empírico, significando então noções gerais, tiradas da observação e visando certas classes de objetos, de tal forma, que podem ser atribuídos a estes objetos individuais de uma maneira idêntica e total. Idêntica porque competem de maneira igualmente verdadeira a cada indivíduo, e total porque aqueles conceitos não contêm nenhum elemento restante ou de sobra, que não pudesse ser identificado com os indivíduos neles compreendidos. Tais conceitos gerais ou universais, formados a posteriori, por meio da abstração (vide), são, por exemplo, o de mamífero ou o de guerra, compreendendo cada um deles, uma multidão de objetos ou acontecimentos individuais, tão semelhantes entre si que, coletivamente, podem ser designados com um mesmo nome. Há filósofos, porém, que negam aos conceitos gerais a identificação com os indivíduos, e reduzem-nos a um valor meramente análogo, baseados na semelhança que há entre os indivíduos, Há também uma tendência a erigir uma distinção entre conceitos universais e gerais, tomando como universal cada conceito individual que reúne vários caracteres, ou que é capaz de assumir vários estados, qualidades, atividades ou relações. Assim, cada pessoa individual seria um conceito universal, porque reúne uma multidão de membros e estados. O conceito de triângulo não só seria um conceito geral, porquanto se aplica a todos os casos possíveis de triângulos, individualmente diferentes, mas também um triângulo individual, com determinados valores quanto à magnitude dos seus ângulos e linhas. Ainda seria um conceito universal, justamente porque representa uma pluralidade de ângulos, linhas, etc. Porém, parece ter pouco mérito estabelecer ao lado dos conceitos gerais um conceito universal assim concebido, e a designá-lo quase com o mesmo nome, visto que a sua importância filosófica se esgota em não ser confundido com o conceito geral. Na filosofia o termo conceito por influência de Descartes e de Port Royal foi substituído pelo termo idéia, gerando uma seqüência de confusões.

Vejamos a cognição. Genericamente ela é um ato imanente. Ato porque se dá através de uma atuação, de uma modificação na potência subjetiva, psíquica; ação imanente porque se realiza no próprio sujeito e efetua-se na própria potência subjetiva do mesmo. Além de um ato imanente é um ato consciente, porque é testemunhado pela consciência, notado pela consciência. Mas nele a mente tende para o objeto que conhece, intende. É por isso também intencional. Quando a mente conhece alguma , ou quando quer referir-se a esta, ou ela tem uma notícia desta coisa por meio de uma similitude com aquela, ou por uma imagem que possui do próprio objeto. Quando pretendemos mentalmente referir-nos a um objeto, há em nossa mente uma intencionalidade. Assim, quando queremos nos referir à matéria, há uma intencionalidade, que é imprescindível considerar, ou seja: algo de que as coisas são feitas. Há sempre no conceito de matéria, seja de que modo se construa ele na mente humana, uma intencionalidade: a de referir-se a uma entidade plasmável, que formaria o estofo (stoff) das coisas, a subjetividade das coisas, a sua subsistência não formal, mas apenas individual, na sua presença física. Dar ao conceito de matéria outro sentido é mudar a intencionalidade que o termo mater, materies (de onde madeira), hylê, em grego, tem: o de construir uma entidade plasmável, que é o estofo, o conteúdo físico das coisas chamadas materiais. É de máxima importância considerar-se essa intencionalidade que damos aos conceitos, pois o seu desvirtuamento foi a causa de inúmeros erros e confusões. Vejamos o conceito Deus. Qual a intencionalidade culta que pomos nele? Quer se aceite ou não a sua existência, o que se entende por Deus é um ser infinito, onipotente, senhor de toda a potência, pois é a origem e a fonte de todos os outros que dele provêm, e como não é possível admitir-se que uma perfeição possa surgir do nada, esse primeiro ser tem de conter todas as perfeições no seu grau máximo, sendo, pois, infinito e oniperfeito. Consequentemente quando se fala de Deus, tem-se a intenção de referir-se a tal ser oniperfeito. A ele não se pode atribuir qualquer imperfeição, qualquer ausência de perfeição. Ora, se um ente corpóreo, que é um ente limitado por superfícies, é um ente finito, carente de certas perfeições, nenhum ente corpóreo pode ser Deus. Se Deus existe não pode ser corpóreo. E quando o ateu, em seu primarismo filosófico, pede provas corpóreas da existência de Deus, e afirma que se acreditaria nele se o pusermos à sua frente para medi-lo, pesá-lo, tateá-lo, cheirá-lo, tal ser, assim apresentado, não seria Deus, porque se é corpóreo não é o ser ao qual com intencionalidade culta chamamos Deus. Deste modo vê-se que a cognição é um ato imanente, consciente e intencional, pelo qual adquirimos notícias de um objeto por similitude com o mesmo ou por representação do mesmo. Essas notícias ou notas são aspectos que captamos do objeto e conservamos em nossa mente por semelhança ou por representação. O conjunto dessas notícias ou notas é estruturado num esquema mental, que os escolásticos chamavam species expressa, que é uma semelhança da cognição, do que é realizado pela cognição.

No ser humano há duas maneiras de processar-se a cognição: a sensitiva e a intelectual. A primeira é comum ao homem e aos animais, enquanto a segunda é própria do homem. Para Aristóteles e os escolásticos, é a primeira a via para alcançar a segunda, conforme a máxima dos empiristas-racionalistas, expostas pelo Estagirita:

Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu

nada há no intelecto que não tenha estado primeiramente nos sentidos

A cognição sensitiva consiste no ato imanente, consciente e intencional de captar notícias singulares das coisas, objetos através dos sentidos; portanto, proporcionadas a estes, assimiláveis dentro da gama de sua acomodação, como se demonstra na psicologia. É uma operação que supera a qualquer outra operação orgânica, menos a intelectual, pois já apresenta uma forma (operação) que não se dá pela mera assimilação orgânica, como a verificável nas funções vegetativas e metabólicas. Na sensação não há incorporação do objeto assimilado, mas apenas de uma imagem do mesmo (phántasma), segundo a capacidade acomodada dos esquemas sensório-motrizes. O que é notado do objeto é o que corresponde à esquemática prévia (sensório-motriz), que é constitutiva dos sentidos, o que é por estes assimilado gradativamente. Os olhos vêem as cores que podem ver, não vêem, contudo, a cor. O ato cognoscitivo sensível é um ato complexo, que a psicologia estuda, mas sem dúvida mais complexo e mais perfectivo que um ato orgânico qualquer. Segundo os empiristas, sobre esse ato sensitivo, sobre a cognição sensível, dá-se a cognição intelectual. Toda informação material é uma informação singular. A matéria recebe uma determinada cor, não a cor, recebe uma determinada figura, não a figura, uma determinada proporcionalidade na disposição das suas partes, como a figura triangular, não o triângulo. Toda informação material é singular. Também o é a cognição sensível, pois o esquema sensível que se forma é o desta coisa. Mas a cognição intelectual ultrapassa a singularidade. Se a matéria recebe esta cor, e o intelecto capta a cor (a generalidade) esta não é esta cor, mas a cor. Há, na cognição cor, o que é imprescindível nesta para ser cor. Há uma intencionalidade que se dirige à cor, como universalidade, à cor, que esta, aquela e aquela outra também são, o que elas têm em comum. Nessa intencionalidade há uma referência ao que é necessário para que uma coisa seja chamada cor. Ora, necessário (que vem de ne e cedo, de não ceder) é o in-cedível, o que não se pode ceder para que seja cor. Esse necessário é que se chama a essência. A cognição intelectual tem a intencionalidade de referir-se a essa essência, ao não cedível, ao necessário, para que algo seja cor e não outra coisa.

Quando um adepto do filosofismo diz que não sabe o que é cognição intelectual, nem o seu esquema noético (de nous, espírito) é que desconhece esse conhecimento preliminar. Desconhece o que significa a intencionalidade, qual a sua função. E quando diz que nada sabemos da cor, porque a não podemos mostrar aos olhos, aos ouvidos, ao tato, esquece que não é só este, o sensível, o único modo de conhecimento, pois há o intelectual. E quando prosseguindo na sua crítica afirma que não conhecemos como é em si a essência de uma coisa, esquece que não é mister ter a visão direta da essência para sabermos que ela há. Não é mister que tenhamos a visão da essência cor para sabermos que há fundamento real no conceito cor, porque o que consideramos neste conceito é o que é essencial para ser cor, e não outra coisa, o pelo qual a cor é cor e não outra coisa. E quando construímos esse conceito, não construímos uma imagem sensível dela porque não é uma coisa que estimule os nossos sentidos, mas construímos, sim, uma intencionalidade, que se refere ao que é imprescindível para que algo seja chamado cor. E tanto é assim que ao vermos um verde, um azul, e um amarelo, dizemos que são cores que podem ser classificadas no esquema intencional cor, e não erramos aí, pois não as confundimos com o peso ou com o tamanho, nem tampouco os confunde aquele que afirma que nada sabe sobre a cor, o que prova que sabe algo da essência de uma coisa contra a sua própria opinião.

O que nos basta anotar são os aspectos principais desses conceitos. Sua formação processa-se pela captação das notas comuns a determinados objetos semelhantes, e a intelectualidade humana tende a captar as notas imprescindíveis, ou que ela julga imprescindíveis, pois no conceito inclui o que é necessário para que uma coisa seja o que ela é, sem o qual não é o que se afirma que é. Ao construirmos o esquema noético do conceito não há nele uma afirmação ou negação. Quando dizemos cor, não afirmamos nem negamos, nem tampouco o colocamos no tempo ou no espaço. A mente expressa o conceito, pura e simplesmente. Também em sua intencionalidade, a mente não o confunde com o phántasma, o fenomênico. Nenhum filósofo irá confundir o que pretende dizer cor com o verde desta folha de árvore. Há uma diferença fundamental que ele admite e prova com suas palavras, na sua conversação, no seu modo de proceder. De nenhum modo fará essa confusão em sua vida prática, por mais que na teórica afirme o contrário. E até em suas afirmações, nos conceitos que expressará com palavras, estará negando o que afirma, e procedendo ao inverso do que diz que pensa. Suas palavras o refutam constantemente. Qualquer um que negue a intencionalidade da essência em nossos conceitos, confundirá o que se entende por cavalo com este ou aquele cavalo, aqui e agora. Poderá afirmar que nada sabemos sobre a essência do cavalo, a cavalaridade, mas jamais poderá negar que quando diz cavalo, intencionalmente não se refere a este nem àquele cavalo, mas ao que todos os cavalos têm em comum, ao que lhe permite chamar cavalo e não mesa. Tampouco confundirá uma mesa com um cavalo. Sabe que não são a mesma coisa, e não irá nomeá-los pelo mesmo nome. Se não sabe como é a essência do cavalo, sabe porém que há nestes alguma coisa em comum, que não têm as mesas, as quais têm em comum outras coisas que não as têm os cavalos. Não é mister que saibamos como é a essência de uma coisa, que tenhamos a sua visão frontal, para sabermos que há nela algo pelo qual é o que ela é, e não é outra coisa. O que o nosso conceito cavalo quer referir-se, a sua intencionalidade, é o pelo qual o cavalo é cavalo, e não outra coisa.

Em sentido lato, diz-se que a cognição é uma apreensão, é algo que a mente apreende (de aprehendere, tomar, captar, ad, para, em face de algo), é o que se capta intencionalmente, nada se afirmando ou negando dele. Assim apreendemos uma noção, uma nota, algo que notamos num objeto, algo que distinguimos nele. Nota e noção muitas vezes são tomadas como sinônimos de apreensão. Contudo nesta consideramos o ato de captar uma nota. Esta se refere à ação que capta a segunda. Também o termo conceito é tomado como sinônimo de nota e de apreensão; contudo, quando nos referimos ao conceito, nos dirigimos para uma idéia universal, o que muitos têm em comum. O esquema mental (noético) para os escolásticos, species expressa, é a similitude expressa ou o formal-atual da coisa na mente percipiente. E quando internamente realizamos a locução que se refere ao que conhecemos, temos o verbum mentis, como o chamavam os escolásticos, a coisa proposta pela mente. Também é mister distingui-lo do termo mental, que é aquele no qual termina a operação da mente, e não se deve confundir com a intenção, que é o tender da mente ao objeto. A intencionalidade mental refere-se a alguma coisa que se torna o seu objeto. Mas este pode ser algo material ou formal. É material o que existe com as suas notas, independentemente da mente humana. Deste modo, as notas captadas na coisa material estão nela, ou há nela, o que em relação e proporcionalidade à mente humana permite ser notado e classificado, segundo as categorias que o ser humano constrói. Formal é a nota ou o conjunto das notas que são representadas pela mente. A lógica ao falar na compreensão de um conceito, refere-se à parte formal do mesmo, e ao falar da extensão, refere-se aos indivíduos que podem ser classificados no conceito. Os modernos chamam a compreensão de conotação ou intenso, e a extensão de denotação, como também o chamavam os lógicos medievalistas. Se consideramos um conceito em sua compreensão, tomamo-lo segundo as notas que constituem o seu esquema noético; se o tomamos em sua extensão, a mente se refere aos indivíduos inclusos na classificação. É, portanto, distinto um juízo em que os conceitos são tomados de um ou de outro modo, como é distinta uma lógica apenas da extensão, como em geral é a que se aplica à ciência, e uma lógica da compreensão, que é a que se aplica, sobremaneiramente, no campo da filosofia. Ademais verifica-se na lógica que à proporção que um conceito aumenta de extensão; ou seja, à proporção que abrange indivíduos de várias espécies, torna-se menor em compreensão e vice-versa. O conceito de animal é mais extenso que o de homem, mas por suas vez é de menor compreensão que este. A confusão entre cognição sensitiva e intelectual, entre conceito, apreensão, idéia, noção, esquema noético (species expressa), verbo mental, termo mental, intenção e outros, tomados muitas vezes sinonimicamente, quando apresentam distinções evidentes, é a causa de outros erros. Não é de admirar que Antístenes dissesse a Platão: "Os cavalos eu vejo, mas a cavalaridade, não". Mas se ele visse a cavalaridade, seria esta objeto de um conhecimento sensível e não seria uma forma, mas sim algo que estimularia os sentidos, algo que os esquemas do sensório-motriz acomodados poderiam assimilar, portanto algo sensível, corpóreo. Quando sabemos que alguém é mais velho que outro, esse conhecimento é produto de uma operação intelectual, realizado através de comparações e não é captado direta e imediatamente pelos sentidos. Uma forma (que muitos filósofos confundem com a figura) não é algo que possa ser notado através de apreensões sensíveis. Essas confusões surgem por não ter sido compreendido bem em que consiste a ação abstratora que realiza a nossa mente. O ato pelo qual ela se dirige a uma coisa entre muitas e o percebe especialmente, preferentemente a outras, pois põe sobre ela, em direção a ela, ad, toda a sua tensão (ad-tensão), é a atenção. Por esta atende-se a algo e desatende-se ou atende-se em grau intensistamente menor, ao resto das coisas. E quando o que atendemos é tomada isoladamente pela mente, separado pela mente, como uma unidade sem outras coisas, realizamos uma abstração. Consiste pois esta em tomar separadamente pela mente, o que na coisa está junto com as outras. Em suma, a abstração é apenas isto. Tudo o mais que se procura construir, com o intuito de complicar, confundir, não é mais abstração, mas confusão. A abstração não nega, não refuta as coisas não consideradas. Nem tampouco se pode afirmar que seja ela um modo de conhecer perfeito como alguns julgam ser o pensamento de filósofos positivos e concretos. A abstração é um modo de conhecimento imperfeito. Mas nem por isso é falsa. Se tomamos à parte, pela mente, o verde desta folha de árvore, temos um conhecimento imperfeito da folha, não, porém, um conhecimento falso. Assim ele pode ser menos perfeito ou mais perfeito. Há escalaridade. Por um conhecimento ser menos perfeito, não é, por isso, ou apenas por isso, falso.

Além do termo abstração usa-se também o termo precisão. Diz-se que se toma uma coisa precisivamente quando é ela tomada abstrativamente, quando é considerada sob um aspecto, separado mentalmente da concreção à qual pertence. Com a abstração pode-se realizar a análise do conceito, pode-se desdobrar suas notas, tomá-la precisivamente. Também pode-se fazer uma síntese de conceitos, como a montanha de ouro. Não temos nenhuma experiência de uma montanha de ouro, mas tomando precisivamente o conceito montanha e o conceito ouro sintetizamo-los no conceito de um ente meramente ficcional, a montanha-de-ouro, pelo qual compusemos um novo conceito, do qual podemos ter uma representação. A imaginação criadora do homem procede por tais sínteses e análises e obtém, não só a representação destes conceitos compostos ou separados, mas até a imagem de muitos deles. Quando a mente se põe no exame do próprio sujeito de seu ato, ela realiza um re-flectere, flexiona-se outra vez (re) sobre si, reflete, realiza uma reflexão. Esta pode ser considerada como psicológica, quando considera o próprio ato enquanto afecção e modificação de algum sujeito, é o ato subjetivo spectatur (espelhado); e é ontológica, quando a mente considera o próprio ato enquanto representação do objeto, quando considera o conceito objetivamente. Não se deve confundir representação com imagem. Há imagem quando há a imago, a presença fenomênica do objeto mentado, e há representação quando esse objeto é considerado em sua forma apenas. Há representação com imagem quando ambos se dão juntos. Assim representamos o tempo e não temos uma imagem dele, porque ele não é um objeto de conhecimento sensível, mas apenas intelectual, mas podemos representar com imagem o cavalo, por exemplo.

Se partirmos da consideração de um simples exemplo como a água, que é um composto quimicamente de hidrogênio e oxigênio, na proporção de 2 para 1, ela revela-se para nós através das suas propriedades. Não é um ser que tem aseidade (de a se, que em latim significa por si mesmo), não é um ser que tenha ipseidade (de ipsis, si mesmo), porque a água não é simples e absolutamente apenas água, mas um produto, um composto. Água é essa proporcionalidade entre o oxigênio e o hidrogênio, segundo determinadas coordenadas, que a química descreve. Na verdade há água quando elas permitem que aqueles elementos químicos se combinem segundo uma lei de proporcionalidade intrínseca, um logos, como a chamavam os pitagóricos, ou forma, segundo Aristóteles e os escolásticos. A água é isso, e sem isso não é. Essa forma, esse logos ou esse arranjamento de proporcionalidades, como dizem alguns, é essencial para que a água seja água. Nessas condições há nela uma forma, um logos, uma lei de proporcionalidade intrínseca. Quando nossa mente diz água, quando conceituamos água, a intencionalidade da mente refere-se a esse logos, a essa forma, a essa lei de proporcionalidade intrínseca, etc. Pode nossa mente, em seu esquema noético, em sua species expressa, não reproduzir o que a química já sabe. Também os antigos, que julgavam que a água era um elemento simples, que entrava na combinação dos outros seres, não sabiam que ela era formada de uma determinada proporção de hidrogênio e oxigênio em dadas condições. Não sabiam isso, mas o que intencionavam dizer com água, era água mesmo e não outra coisa. Deste modo, nossos esquemas mentais podem ser enriquecidos de novas notas que o conhecimento nos ministra, mas nem por isso, quando diz menos, deixa de dizer realmente o que é, pois nossa mente, em qualquer estágio, quando diz água, refere-se a esta água. Podemos não saber qual o logos, qual a forma, qual a lei de proporcionalidade intrínseca, qual o arranjamento de correlacionamentos físicos, do qual resulta água. Mas quando se diz água, diz-se que há, nesta, algo pelo qual é ela mesmo e não outra coisa. Nossa intencionalidade é uma referência ao que faz (causa) que ela seja água, algo que é intrínseco a ela, algo que é emergente nela, algo que a forma. Toda vez que nossos esquemas se referem a algo que há nas coisas, eles têm um fundamento na coisa; o que os escolásticos chamavam de fundamentum in re. Desde Pitágoras, até os nossos dias, todos os filósofos positivos e concretos afirmaram que a filosofia deve trabalhar com conceitos que tenham tais fundamentos, ou seja, com conceitos que se refiram ao que é fundamentalmente nas coisas. Esses conceitos são meramente entes de razão (entia rationis), construídos pela nossa razão por meio de abstrações. Mas, contudo, embora entes de razão, têm fundamentum in re, quando se referem ao que há nas coisas. A boa metafísica é aquela que se fundamenta e trabalha com tais conceitos, o que permite reverter as especulações metafísicas aos fatos da experiência. Quando trabalha com entes de razão, que não têm tal fundamento, trabalha com ficções, e recebeu o nome de metafisicismo, o que indica a forma viciosa de realizá-la.

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