Tesouro n.º 225 · Volume III

VOTOS VOTI

3 seções · 11 parágrafos · pp. 2488–2492 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É E QUANDO O VOTO OBRIGA

O voto é uma promessa feita a Deus de uma coisa que julgamos ser-lhe agradável e à qual não estamos obrigados por nenhum título. É isso que os teólogos querem dizer quando definem o voto como uma promessa de um bem maior. — Prometer a Deus cumprir um mandamento que ele nos deu, ou evitar uma coisa por ele proibida, não é fazer um voto, porque já estamos obrigados a isso em virtude da lei divina e das promessas batismais. Para que um voto feito a Deus tenha força de obrigação, requerem-se cinco condições: 1° que a promessa seja feita com ânimo deliberado; 2° com intenção de obrigar-se; 3° que seja livre; 4° que tenha por objeto uma coisa agradável a Deus; 5° é preciso que aquele que faz o voto possa obrigar-se.

Os três votos dos religiosos são chamados por Santo Afonso de três cravos de amor que os fixam à cruz; e aquele que se consagra a Deus pelos votos faz um verdadeiro sacrifício de si mesmo, pois morre para o mundo a fim de viver para Deus (1). A espada que o imola como vítima é a abnegação de si mesmo; a morte é a renúncia à vida secular para abraçar a vida religiosa; o fogo do sacrifício é o amor de Deus; a lenha são as orações e os exercícios de piedade; o sacrifício é a oblação e a consagração de si mesmo por meio dos três votos…

Na antiga lei oferecia-se: 1° a vítima pelo pecado, que significava a remissão plena dos pecados. O mesmo fazem os religiosos ao entrarem na vida religiosa; por isso, os Santos Padres dão à entrada na vida religiosa o nome de segundo batismo. 2° Oferecia-se a vítima pacífica, o que indica que Deus se deixa facilmente aplacar pelas orações dos religiosos e se inclina a atender-lhes os pedidos. 3° Oferecia-se o holocausto; isso representava que a vida religiosa nada mais é que um holocausto contínuo, segundo o ensinamento de São Tomás. Com efeito, assim como no holocausto toda a vítima era queimada e consumida, assim também o religioso não tem nada que não consagre e sacrifique a Deus; sacrifica-lhe as riquezas exteriores pelo voto de pobreza; o corpo, pelo voto de castidade; o espírito e a vontade, pelo voto de obediência. Finalmente, para que nenhum gênero de sacrifício falte ao estado religioso, abraçar esta sublime vida de consagração a Deus equivale a escolher um ilustre e meritório martírio, segundo este dito de São Jerônimo: «A escravidão voluntária de uma alma piedosa é um martírio contínuo (2)», e este outro de São Bernardo: «Verdadeiro martírio é a pobreza voluntária (3)».

2. DO CUMPRIMENTO DOS VOTOS

O voto é uma oblação voluntária; mas, uma vez designada por voto uma coisa a ser feita, seu cumprimento torna-se obrigatório. Ouvi como o próprio Deus fala sobre este ponto: «Se alguém fizer um voto ao Senhor, lemos no Livro dos Números, ou se obrigar por juramento, não faltará à sua palavra, mas cumprirá tudo o que prometeu» (Nm 30,3). E no Deuteronômio: «Quando fizerdes um voto a Deus acerca de alguma coisa, não demoreis a cumpri-lo, porque o Senhor, vosso Deus, vos pedirá contas dele, e, se tardardes, isso vos será imputado como culpa» (Dt 32,21). À obrigação que resulta do voto referem-se ainda estas palavras do mesmo Deuteronômio (23,23): Saída de vossa boca a palavra, observá-la-eis e fareis conforme prometestes ao Senhor; pois falastes de vossa própria vontade e com vossa própria boca.

«Se prometeste alguma coisa a Deus por voto, diz o Eclesiastes, não tardes em cumprir o voto; porque a promessa infiel e temerária lhe desagrada… É muito melhor não fazer voto do que, depois de fazê-lo, não cumpri-lo» (Ecl 5,3-4). No Levítico, Deus ordena que a casa que foi consagrada ao Senhor por voto e santificada seja vendida (Lv 27,14); e que ninguém possa resgatar aquilo que espontaneamente tiver votado (Lv 27,20). E aquele que revoga uma promessa feita por voto causa a própria ruína, diz o Sábio (Pr 20,25). Por isso, o rei Profeta dizia: «Cumprirei meus votos na presença dos que temem o Senhor» (Sl 21,26). «Cumprirei meus votos ao Senhor diante de todo o seu povo, nos átrios da casa do Senhor, dentro de teus muros, ó Jerusalém» (Sl 115,18-19).

Não basta, porém, que se cumpra o voto; o cumprimento deve ser feito do modo mais perfeito: «Maldito seja o fraudulento, diz Malaquias, que, tendo em seu rebanho um animal robusto e belo, imola a Deus, em cumprimento de um voto, aquele que é feio e defeituoso» (Ml 1,14). Isso quer dizer que a coisa oferecida a Deus por voto deve ser excelente e perfeita. Aprendam disso os religiosos e todos quantos fazem votos que seus votos devem ser firmes e generosos; cumpridos inteiramente, com zelo, exatidão, coragem, escrupulosa atenção e perfeição. Por isso, sua castidade deve ser, sob todos os aspectos, íntegra e sem mancha; sua pobreza, absoluta; sua obediência, inteira, pronta, alegre e constante: isso exige o respeito devido à suprema majestade divina, à qual o religioso se consagra por voto; e a consciência faz disso para ele um sagrado dever. A oferta que se faz a Deus deve ser daquilo que temos de maior, de melhor e de mais perfeito; e deve ser feita de plena vontade. Ofereçamos a Deus um holocausto perfeito, oferecendo-lhe todos os nossos bens por meio do voto de pobreza; o corpo, com todos os seus membros e sentidos, pelo voto de castidade; a alma, com todas as suas faculdades, pelo voto de obediência.

E, depois de vos terdes oferecido, consagrado e imolado assim a Deus, «não vos arrependais jamais, direi com Santo Agostinho (4), de vos terdes votado a ele; mas, antes, alegrai-vos e cumpram as obras as vossas promessas; aquele que exige o cumprimento de vossos votos vos dará auxílio. Feliz necessidade é aquela que impele a um bem maior! Aquele que vos exorta a fazer o voto vos dá os meios para cumpri-lo!». São Basílio nos assegura que aquele que renuncia plenamente ao século se torna um vaso divino e que, portanto, tem o dever de vigiar atentamente para que esse vaso jamais permaneça manchado nem profanado por mau uso; deve conservar-se como coisa sagrada para Deus, a fim de não se macular com o delito de sacrilégio (Constit. Monast., c. III).

3. VANTAGENS DOS VOTOS

São Anselmo, para nos fazer compreender a vantagem que tem diante de Deus uma boa obra feita por voto sobre outra feita sem voto, apresenta esta comparação: Dá um presente mais generoso quem oferece a árvore com seus frutos do que aquele que dá somente os frutos. Ora, quem não faz voto dá apenas os frutos das virtudes; quem se obriga por voto dá a Deus, juntamente com os frutos, também a árvore, isto é, sua liberdade e sua vontade, para que não possa querer nem agir de modo diverso daquele que prometeu (De Vita relig.). Consagrar-se a Deus por voto é desposar a devoção, a virtude, o fervor e a perfeição; é alcançar o sumo agrado de Deus. Esses votos contêm um ato de religião e de culto a Deus: 1° porque, por meio deles, consagrais a Deus aquela coisa; 2° porque lhe ofereceis aquela coisa consagrada.

São Tomás ensina que os religiosos são holocaustos infinitamente agradáveis a Deus, porque lhe dão, pelo voto de pobreza, tudo o que são, tudo o que possuem fora de si mesmos; dão-lhe, pelo voto de castidade, o seu corpo sem reserva; dão-lhe, pelo voto de obediência, a sua vontade, o seu juízo, a sua liberdade. Por isso, essas pessoas seguem de perto Jesus Cristo, são mártires do Esposo, são templos e vítimas de Deus (II art. 7). E houve porventura sacrifício mais heroico, mais meritório, mais precioso, mais caro a Deus? Por isso diz o Salmista: «O Senhor vos ouça no dia da tribulação; proteja-vos o nome do Deus de Jacó. Envie-vos auxílio do seio do seu santuário, vele sobre vós do alto de Sião. Lembre-se dos vossos sacrifícios, e sejam-lhe agradáveis os vossos holocaustos. O Senhor cumpra todos os vossos votos, ouça-vos em todos os vossos pedidos» (Sl 19, 1-6).

Uma ação feita por voto é mais perfeita do que outra não feita por voto: 1° porque o voto é um ato de religião e de latria; 2° porque, como acima se observou, aquele que realiza uma obra sem ser movido por voto dá a Deus somente a ação, mas aquele que lhe acrescenta o voto dá-lhe, juntamente com o ato, a sua força e o seu poder, isto é, a vontade e a liberdade; 3° porque o voto fortalece e consolida a vontade, que por si mesma é instável, fraca e inconstante além de toda medida, e a confirma no ato da virtude à qual se votou: consequentemente, a ação feita por voto é mais amadurecida, mais forte, mais constante e, por isso mesmo, melhor e mais perfeita.

Tudo o que é destinado e consagrado a Deus por voto é santo… Aqueles que, por este vínculo, se ligam a Deus veem cumprir-se neles estas suaves palavras do Senhor: «Firmarei convosco uma aliança de misericórdia, uma aliança eterna, uma aliança toda de leite e mel (Is 55,3), isto é, toda de amor, caridade, paz e misericórdia… «Os religiosos, observa Santo Agostinho, são chamados por esse nome porque, por escolha própria, se ligam a Deus, fonte de toda felicidade e de todo bem, do qual o pecado, por nossa negligência, nos afastou. A religião nos liga novamente a Deus; por isso os religiosos são assim chamados, como que novamente ligados a Deus (5)».

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.