Quanto é excelente a boa vontade pode-se ver pelo fato de que a ela foi dirigido o primeiro cumprimento que partiu do céu reconciliado com a terra, por meio da Encarnação do Verbo; a ela foi desejada e prometida a coisa mais doce que o homem pode gozar no mundo: a paz. Tendo vindo os Anjos anunciar o nascimento do Salvador aos pastores, disseram-lhes: «Paz na terra aos homens de boa vontade» (Lc 2,14). Paulo começou a amar Jesus, a glorificá-lo, a fazê-lo amado e glorificado; foi escolhido para ser um vaso de eleição, o Apóstolo das gentes, destinado a levar o nome de Jesus Cristo diante dos reis e dos povos da terra, somente quando disse: «Senhor, que quereis que eu faça?» (At 9,6). Por isso, entre as suas mais caras saudações encontramos esta: «Que o Deus da paz vos torne aptos para todo bem, a fim de que cumprais a sua vontade» (Hb 13,20-21).
«Aos olhos de Deus, escreve São Gregório, a nossa mão nunca está vazia de ofertas, se o nosso coração está cheio de boa vontade; pois não se pode fazer a Deus um dom mais precioso que o de uma boa vontade (1)». Eis por que Santo Agostinho faz dela uma só e mesma coisa com a caridade (Enchirid.); «Tende vontade de vos converter, e Deus está imediatamente pronto para vos ajudar a vos reerguer. E, se não podeis ser aquilo que desejaríeis, procurai querer aquilo que podeis (2)». São Bernardo diz: «Deus não olha tanto para o que fazeis, quanto para a vontade com que o fazeis (3)».
Ensina a teologia que Deus vem em auxílio daquele que faz o que pode… Se, portanto, não podeis fazer grandes coisas nem ser generosos nas ofertas, tende ao menos uma vontade grande e generosa, e estendei-a, de certo modo, até o infinito. Por exemplo, sois pobres: tende o desejo e a vontade de fazer copiosas esmolas, se pudésseis, e sereis aos olhos de Deus grandes esmoleiros e, o que é mais, tereis junto dele todo o mérito… «Pois, se a vontade está disposta, diz São Paulo, ela é aceita e recompensada segundo o que cada um possui, e não segundo o que não possui» (2Cor 8,12). E isto não nos diz que Deus olha antes para a vontade do que para o dom? O mérito e a perfeição de uma obra estão na vontade. Sejamos, pois, homens de boa vontade e chegaremos à perfeição.
«Sem mim, diz Jesus Cristo, nada podeis fazer» (Jo 15,5). A nossa boa vontade não é capaz de fazer bem algum sem o auxílio de Deus… É sabido por todos que Pedro negou seu divino Mestre, intimidado pela voz de uma criada; e, no entanto, julgava-se muito forte, porque poucas horas antes havia dito resolutamente a Jesus: «Ainda que me custasse a vida, jamais vos renegarei» (Mt 26,35). E o Evangelho observa que, depois dele, todos os outros discípulos fizeram o mesmo protesto (Ibid.). Chega a noite, e todos o abandonam no jardim das oliveiras. Três foram as razões da queda de Pedro: 1° a confiança excessiva em sua vontade; 2° a imprudência de colocar-se no meio daqueles malfeitores; 3° porque, devendo ser pastor, deveria saber compadecer-se e oferecer aos pecadores um exemplo de profundo arrependimento… Aqueles que confiam na própria vontade caem como Pedro.
«Não há pecado algum, adverte Santo Agostinho, cometido por um homem que não possa ser cometido por outro homem, se lhe faltar o apoio daquele que fez o homem (4)». Por isso Jesus Cristo exortava calorosamente os seus Apóstolos a vigiar e rezar, para que não fossem induzidos em tentação (Mt 26,41). É, portanto, cego, insensato e altamente digno de compaixão aquele que deposita confiança na própria vontade, que se aconselha somente com ela e age apenas por ela: não pode terminar senão no abismo, porque, se um cego se faz guia de outro cego, certamente ambos cairão no precipício.
A vontade humana é fraca e inconstante por sua natureza. Deus nos parece belo e bom? E nós queremos amá-lo e dar-lhe a nossa vontade; o mundo nos parece deleitável? E eis que o amamos e lhe damos a nossa vontade. Dizem-vos que a vossa alma, criada à imagem de Deus, redimida pelo sangue de Jesus Cristo, feita para a imortalidade e a glória eterna, tem um valor infinito? E eis-vos desejosos de amá-la. O corpo, inimigo declarado da alma, vos solicita a conceder-lhe o desafogo de suas brutais concupiscências? E eis-vos todos prontos a secundá-lo. Ó instabilidade da vontade humana, quando não está ligada a Deus, que é imutável! … Se fixais a vossa vontade em Deus, então ela participa das perfeições divinas; torna-se boa, forte, poderosa, invencível, supera os mais graves obstáculos, despreza as mais duras ameaças, vence os tormentos e a morte; contemplai os mártires, os confessores, as virgens… Se, ao contrário, vos apoiais na própria vontade, tornais-vos incertos, vacilantes, miseráveis; a vossa própria vontade, a partir do momento em que a quereis para vós, já não é vossa, mas pertence ao demônio, ou ao mundo, ou às paixões bestiais e degradantes…
Submetendo inteiramente e entregando totalmente a vossa vontade a Deus, implorando o seu socorro, tudo o que quiserdes com ânimo resoluto se tornará para vós não somente possível, mas fácil. Quereis sinceramente ser humildes? Pelo próprio fato de o quererdes, já o sois. Quereis ser temperantes, castos, obedientes, pacientes? Mas quereis isso decididamente? Só por esse fato já sois tais. Quereis subjugar a carne ao espírito? A carne está vencida, a alma é senhora. Diz, com efeito, Santo Agostinho: «São os bons ou os maus afetos da vontade que fazem os bons ou os maus costumes» (De Morib. Eccl.). Assim, como aqueles que amam o pecado se tornam abomináveis a Deus, também aqueles que amam a virtude, que é tão bela, e amam a Deus, que é tão grande e amável, tornam-se belos, grandes e dignos de amor. Com efeito, como ensina Santo Agostinho, «cada um é aquilo que é o seu amor; amas a terra? Tu és terra; amas a Deus? Que direi? Tu és Deus (5)».
Por isso se viu que nada avilta tanto o homem quanto a sua própria vontade. São Pedro Crisólogo diz: «Aquele que se apega à própria vontade morre para a virtude, perde a glória e a sua reputação» (Serm. V). A glória daquele que cumpre o próprio dever desaparece como um pássaro que foge… Quando uma alma rica de méritos se apega à própria vontade, suas virtudes enfraquecem, seu crédito se dissipa; primeiro o ridículo, depois o vício e a desonra tomam o seu lugar; a vergonha sucede à glória, a abominação à graça, o desprezo ao respeito, a pobreza à abundância; e tudo isso lhe acontece por justo juízo e castigo de Deus. Mau é o seu pensamento, corrompida a sua intenção; escandalosas, as suas ações.
Eis como São Paulo descreve aqueles que não agem senão segundo a própria vontade: «Há pessoas amantes de si mesmas, avarentas, arrogantes, soberbas, insolentes, rebeldes a seus pais, ingratas, manchadas de crimes, duras, implacáveis, caluniadoras, dissolutas, ásperas, inimigas dos bons, traidoras, altivas, obstinadas, ultrajantes, amantes dos prazeres, que têm uma aparência de piedade, mas não a substância» (2Tm 3,2-5). Não se veem, de fato, todos esses vícios, todas essas más inclinações naquele que atende somente à sua vontade, que não quer fazer outra coisa senão o seu capricho? «Ai de vós, diz Isaías, que vos apresentais como sábios aos vossos próprios olhos! Ai daqueles que se julgam prudentes!» (Is 5,21). Ora, não se julga acaso cheio de sabedoria e prudência aquele que adora a própria vontade?
Santo Agostinho diz: «A cidade de Deus tem seu princípio e fundamento no amor de Deus, e cresce e se eleva até o ódio de si mesma, até a renúncia da própria vontade; a cidade do demônio lança sua base no amor do homem por si mesmo, por sua própria vontade, e cresce até o ódio de Deus, no desprezo do próximo. Não consigo compreender por que inexplicável cegueira o homem não vê que, amando a si mesmo, amando a própria vontade, em vez de amar a Deus e a sua divina vontade, não se ama de modo algum; e que aquele que, em vez de amar a si mesmo e a própria vontade, ama a Deus e a vontade dele, ama verdadeiramente a si mesmo. Pois quem não pode viver de si mesmo certamente morre quando ama a si mesmo, isto é, a própria vontade; ao passo que aquele que ama a quem deve a vida ama mais a si mesmo, não se amando, para amar unicamente aquele de quem vive (6)».
São Bernardo faz-nos notar que nenhuma criatura pode separar-nos do amor de Deus, mas somente a própria vontade tem esse poder; e sabiamente conclui: «Cesse, pois, a própria vontade, e não haverá mais inferno (7)». Os demônios, dizia o abade Abraão, não nos combatem de modo algum quando fazemos a vontade deles; mas a nossa vontade se torna demônio e tormento para nós mesmos (In Vit. Patr.). E, perguntando-se ao abade Aquiles como os demônios podem vencer-nos, respondeu: «Por meio das nossas vontades» — Per voluntates nostras —; e acrescentou: As nossas almas são a madeira, o demônio é o machado, a nossa vontade é a mão que corta, derruba e despedaça; portanto, é pela nossa vontade que somos cortados e derrubados (In Vit. Patr.). «Das nossas misérias e calamidades, diz Santo Ambrósio, não devemos culpar ninguém senão a própria vontade» (Offic. 1. 2, c. IV).
Por isso, aquele menino que é castigado pelo pai, a quem deve os castigos? À sua vontade caprichosa e desobediente. Aquele jovem que desperdiça a saúde e os bens na dissolução, nos excessos, no jogo, a quem deve atribuir essas perdas irreparáveis que o conduzem a uma velhice precoce, o precipitam na miséria e em cem desgraças? À sua vontade. Aquela jovem que lançou fora a inocência e a virtude e se cobriu de infâmia e vergonha, a quem deve atribuir esse estado deplorável? À sua vontade, que jamais procurou refrear e subjugar. Àquele que lhe dava caridosos conselhos, àquele que tentava adverti-la do perigo que corria, respondia com altivez e impertinência: Eu sei conduzir-me bem; que mal há em querer conhecer a sociedade em que se vive? Além disso, não temo nada. Vós quisestes, ó jovem imprudente e insensata, ser escrava de vossa vontade; pois bem, vede, ó infeliz, aonde ela vos conduziu; medi o abismo de ignomínia em que vos precipitou. Aquele homem intemperante que consome em orgias a fortuna da família, a quem deve suas fraudes, suas injustiças, a ruína de sua casa? À sua vontade desregrada. Aqueles esposos que lutam com a miséria e entre si, que se agarram pelos cabelos, insultam-se e amaldiçoam-se, onde encontraram a causa de suas dissensões e das dificuldades domésticas? Na própria vontade, que cada um deles quis obstinadamente seguir. Se as prisões e as galés transbordam de condenados, se os patíbulos se tingem de sangue, a verdadeira causa não deve ser procurada em outro lugar senão na própria vontade dos culpados.
Com toda a razão, portanto, São Bernardo diz: «Cesse a vontade própria, e não haverá mais inferno». Não haverá mais inferno aqui embaixo, nem inferno na eternidade. Pois a parte principalíssima dos tormentos que dilacerarão os réprobos será verem-se eternamente obrigados a confessar que se perderam porque assim o quiseram, e que poderiam salvar-se se o tivessem querido (Os 13,9). Jesus Cristo escolhe para si aqueles cuja vontade é conforme à sua. Satanás apodera-se daqueles cuja vontade se adapta à sua. Ninguém carrega o jugo do demônio, do mundo e da carne senão aquele que quer vender-se… Por isso, o Sábio nos diz: «Não andeis atrás de vossos desejos e dai as costas à vossa vontade» (Eclo 18,30). E Eusébio nos adverte que não devemos contar entre os dias de nossa vida outros senão aqueles em que renunciamos à nossa vontade (8).
A vontade própria corrompe também as ações mais excelentes; tira-lhes a beleza, o mérito, o valor… «Grande mal é a vontade própria! exclama São Bernardo; ela transforma em mal o bem que fazeis (9)». Digníssimo de um cristão é este dito de Platão: Que Deus vos conceda o que quereis; ou, antes, que jamais vos dê o que quereis, mas faça com que queirais aquilo que ele quer. Pois religião pura é esta: unir-vos desse modo a Deus (10)».
É, portanto, de absoluta necessidade, para viver bem e virtuosamente, que o homem renuncie à própria vontade e se deixe conduzir pela vontade de Deus. Ora, que diremos do cristão? Altíssimo, peremptório e geral é este mandamento do divino Mestre: «Quem quiser ser meu seguidor, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e caminhe sobre os meus passos» (Lc 9,23). A estas palavras servem de comentário estas outras de Santo Egídio: Se queres ver bem e distintamente, arranca os olhos e sê cego; se queres ouvir bem, tapa os ouvidos e sê surdo; se queres falar bem, arranca a língua e sê mudo; se queres caminhar retamente, corta os pés; se queres trabalhar bem, corta as mãos; se queres amar-te bem, odeia-te; se queres viver bem, mortifica-te; se queres enriquecer, aprende a perder; se queres ser verdadeiramente sábio, sê pobre; se te agrada estar entre as delícias, aflige-te; se desejas viver em perfeita segurança, permanece continuamente no temor; amas ser elevado? Humilha-te; queres ser honrado? Despreza-te e honra aqueles que te desprezam; queres ser feliz? Suporta as cruzes; queres o repouso? Trabalha; queres ser abençoado? Deseja ser amaldiçoado. Ó que grande e admirável sabedoria é saber viver dessa maneira! E justamente porque é algo grandioso, não é concedida a todos (Vit. Patr.).