Há uma dupla vocação e eleição: uma para a fé e a graça, outra para a felicidade e a glória; uma para viver de Deus e para Deus aqui na terra, outra para gozar de Deus no céu… A vocação é consequência da eleição… Deus elege e depois chama… «Deus nos previne para chamar-nos, escreve Santo Agostinho, e nos acompanha para glorificar-nos (1)».
Há também uma vocação especial para a perfeição e para o ministério evangélico… Deus chamou Abraão e o constituiu pai do povo do Senhor, para que de sua descendência nascesse o Messias… Deus escolhe e chama Moisés para que seja o chefe de seu povo e o liberte da escravidão do Egito… Deus elege e envia os profetas… Deus escolhe os sacerdotes, os religiosos, as virgens… Deus dá a cada um a sua própria vocação…
Narra São Lucas que Jesus Cristo «chamando a si os discípulos, escolheu doze dentre eles, aos quais chamou Apóstolos», e aos quais depois dizia: «Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos dei por missão ir e produzir frutos» (Jo 15, 16).
São Paulo diz de si mesmo que Deus o havia separado e reservado para si desde o seio de sua mãe, e o havia chamado por sua graça (Gl 1, 15).
Deus nos chama de dois modos: 1° exteriormente, por meio dos exemplos…, das pregações…, das leituras…, das cruzes…; 2° interiormente, por meio da graça preveniente…, excitante…
Para que fim Deus nos chama, ensina-no-lo São Paulo, quando escreve aos Tessalonicenses: Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, na santificação do Espírito e na fé da verdade; para essa salvação vos chamou por meio de nosso Evangelho, a fim de que alcanceis a glória de nosso Senhor Jesus Cristo (2Ts 2, 12-13); indica-no-lo o divino Mestre nas palavras já citadas, dirigidas aos Apóstolos: «Eu vos escolhi e constituí com este fim: que vades, produzais fruto e que o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). «Deus nos escolheu para sua herança e para lugar de sua morada», diz o rei Profeta (Sl 46,5; 31,13). «O Senhor vos escolheu, anuncia Moisés aos hebreus, para que sejais seu povo entre todos os povos que estão sobre a terra» (Dt 7, 6). Desses testemunhos resulta que o fim pelo qual Deus nos chama é que nos apliquemos a conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, para chegar à vida eterna…
Deus não somente nos chama, mas também nos dá a força para corresponder à sua chamada, segundo aquilo que diz o Apóstolo: «Aquele que vos chama é fiel e ele mesmo se fará vosso auxílio no cumprimento dos deveres de vossa vocação» (1Ts. 5, 24). «Deus, escreve em outro lugar o mesmo Apóstolo, nos libertou e chamou por meio de sua santa vocação, não em consideração às nossas obras, mas segundo seu decreto e a graça que nos foi dada por Jesus Cristo antes dos tempos» (2Tm. 1, 9). «Por isso, chamados a participar da vocação celeste, consideremos o Apóstolo e pontífice de nossa fé, Jesus Cristo; e demos graças a Deus Pai, que nos tornou dignos de ter parte na herança dos Santos na luz; que nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o reino de seu Filho amado» (Hb. 3, 1; Cl. 1, 12-13).
Ninguém, diz São Paulo, deve atribuir a si mesmo honra alguma, mas somente aquele que é chamado por Deus (Hb 5, 4). Ora, quantas vontades são colocadas no lugar da vontade de Deus! Quantas pessoas forjam para si uma vocação sem consultar nem a Deus, nem seus representantes, nem os parentes, nem os amigos! Daí, depois, tantas penas, tantas dificuldades, tantas adversidades na vida, tantos escândalos, tantas causas de perdição… Ser voluntariamente infiel à vocação divina é colocar-se fora do caminho da salvação… Nesse estado, a pessoa se encontra como um peixe fora d’água, como um soldado sem armas no meio da batalha, como uma ovelha desgarrada… Ó jovens incautos e imprudentes, que quereis seguir os caprichos de uma vontade iludida pelas paixões nascentes, que quereis abraçar um estado de vida para o qual Deus não vos chama, quanto sois dignos de compaixão, e que triste futuro preparais para vós!
Ao contrário, aquele que procura conhecer a vocação de Deus e, depois de conhecê-la, se empenha em cumpri-la fielmente, torna-se, como outrora São Paulo, um vaso de eleição, destinado a ser preenchido pelas mais especiais e elevadas graças de Deus, e assegura para si a glória eterna. Da correspondência à graça da vocação dependem muitas outras graças; esta graça é a base, a raiz, a fonte das graças seguintes. Não é, portanto, de admirar que, faltando à graça da vocação, nos encontremos privados das outras graças particulares. Quem voluntariamente falha à própria vocação, voluntariamente põe um obstáculo à efusão das graças; o coração não passa de um regato árido; daí uma vida dissipada, inútil, estéril; é um ramo cortado do tronco, bom apenas para ser lançado ao fogo… Quem corresponde à própria vocação: 1° torna-a segura; 2° se firma na graça e evita facilmente o pecado; 3° assegura para si a entrada no reino dos céus; 4° prepara para si uma coroa de valor infinito, como se depreende destas palavras de São Pedro (2Pd 1, 10-11).
A vocação a um estado de maior perfeição, como o estado sacerdotal e o religioso, é o indício mais certo da predestinação à glória, como formalmente diz São Paulo: «Aqueles que Deus predestinou, também chamou; e aqueles que chamou, justificou; e aqueles que justificou, glorificou» (Rm 8, 30). Que excelência! Que preciosidade de favor!
A vocação ao estado clerical é uma distinção e uma elevação inteiramente especiais, das quais fala o Senhor quando diz pela boca do Salmista: «Elevei o meu eleito no meio do meu povo», «consagrei-o com a unção da minha santidade. A minha mão lhe servirá de apoio, e o meu braço, de sustentáculo. O inimigo não o enganará, nem o ímpio lhe causará dano; exterminarei todos os seus inimigos diante de seus próprios olhos. A minha misericórdia e a minha verdade caminharão com ele, e ele se engrandecerá pelo meu nome. Ele me dirá: Tu és meu Pai, meu Deus, o refúgio da minha salvação; e eu lhe conservarei para sempre o meu favor, e a minha aliança permanecerá eternamente com ele» (Sl 88, 20-29). Os outros estarão com os homens; o meu eleito estará comigo… Os outros se unirão entre si; o meu eleito se unirá a mim. Os outros terão o nada por esposo, mas o meu amado desposá-lo-ei para mim por toda a eternidade (Os 2, 19). Os outros serão pobres; o meu eleito será rei… Os outros serão fracos e enfermos; o meu eleito será robusto e forte; haurirá a vida nas fontes celestes… Os outros serão esquecidos; o meu eleito terá fama eterna… Os outros morrerão; o meu eleito viverá eternamente…
«O Senhor dá a conhecer aqueles que lhe pertencem, diz a Escritura, e chama os seus santos; e aqueles que ele escolhe se aproximarão dele» (Nm 16, 5). «Deus conduz aqueles que chama; conduz-nos pelo caminho reto, para a cidade de sua morada» (Sl 105, 7). «Escolhi esta alma, diz Deus; escolhi-a para minha morada: nela repousarei eternamente» (Sl 131, 13-14). E a alma, por sua vez, também diz: Escolhi Deus por minha porção; nele repousarei até o último suspiro e por toda a eternidade… Ah, sim, dizei, vós que fostes chamados ao estado religioso, dizei com alegria: «O Senhor é a parte da minha herança e do meu cálice. Sois vós, ó meu Deus, que me restituireis a minha herança» (Sl 15, 5).
A alma que segue sua vocação ao estado sacerdotal ou religioso vê realizados em si, no domínio espiritual e divino, infinitamente mais desejável e precioso que o terreno e temporal, todos os benefícios, todas as riquezas prometidas por Deus em sentido material ao povo hebreu, quando lhe dizia que o introduziria numa terra de leite e mel (Dt 31, 20), que lhe daria o domínio de um país fertilíssimo e abundante em vinhas, trigo, figos, azeite e, em suma, em todos os bens terrenos (Dt 18, 7-10). E, assim como, para tirar os hebreus do Egito, Deus manifestou o seu poder (Ex 14, 8), também, para chamar para fora das trevas do mundo, para libertar da escravidão e do mar tempestuoso do século estas almas de que falamos, para estabelecê-las no monte santo, no santuário de sua morada, ele realiza obras maravilhosas de poder e de força (Ex 15, 17, 13). Pode-se dizer-lhes aquilo que Moisés disse a Israel: «Porque o Senhor vos amou, por isso vos tirou do Egito, com o poder de seu braço; arrancou-vos da escravidão e do poder do Faraó» (Dt 7, 8-9).
«Eu vos tomarei, anuncia o Senhor, e vos guardarei como um anel com sinete, porque vos escolhi» (Ag 2, 24). Com isso, Deus quer dizer: 1° que seus eleitos, os chamados ao estado clerical, são por ele guardados e conservados com o cuidado com que se guarda e conserva um anel nupcial…; 2° que eles são para ele motivo de honra e glória, como o é, para quem o possui, um anel precioso…; 3° que lhe são caros como um diamante, e ele os mantém sempre diante dos olhos e nunca os depõe, exatamente como se faz com um anel. Por isso, com razão, São Cipriano assevera que aquele que renuncia ao século para seguir a Deus, que o chama ao estado religioso, é muito maior que todas as honras e reinos do século (Serm. in Orat. Domin.), e Santo Agostinho exclama:
«Escolham os outros as coisas terrenas e temporais; quanto a mim, o Senhor é a minha porção (2)».
São João Crisóstomo, para nos fazer compreender a excelência do estado religioso, estabelece esta comparação: assim como aquele que, do alto de um cume elevadíssimo, olhando para a planície abaixo, vê todas as coisas pequeníssimas, e não somente os homens e as árvores, mas até as cidades e os exércitos lhe parecem pouco mais que formigas, assim também aquele que, com a mente elevada, habita nas regiões celestes, vê tão pequenas, desprezíveis e vis as coisas humanas, o poder, a glória, as riquezas, que não as julga dignas de aplicar-lhes, nem sequer por um instante, a nobreza de seu espírito (Homil. XV ad pop.). Ah, sim! A alma que permanece fixa no céu contempla o mundo com olhar indiferente; antes, despreza-o, e se gloria santamente da excelência de sua vocação… Foi desta vocação que Jesus falava quando dizia de Madalena, sentada a seus pés: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (Lc 10, 42).
Tratando-se da vocação de Paulo e Barnabé ao ministério sacerdotal, o Espírito Santo disse: «Separai-me Saulo e Barnabé para a obra à qual os chamei» (At 13, 2). «Exaltei aquele que escolhi», diz o Senhor (Sl 88, 20). E São Pedro chama os eleitos ao clero de «raça escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido, para que proclameis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a luz resplandecente» (1Pd 2, 9). Aqui é o caso de exclamar com o Salmista: «O Senhor não tratou assim com todos os homens» (Sl 147, 20).
Quem foi favorecido com tal vocação tem toda a razão para dizer: «Senhor, vós me tomastes pela mão e me guiastes segundo os vossos desígnios, e me recebestes na vossa glória» (Sl 72, 24). «Bem-aventurado, ó Senhor, aquele que escolhestes e chamastes para habitar no vosso santuário! Seremos saciados dos bens da vossa casa, no templo em que reside a vossa Majestade» (Sl 74, 5).
O Senhor conduz essas almas eleitas em meio à alegria e à exultação (Sl 104, 43). Velará por sua entrada e por sua saída, hoje e sempre (Sl XXX, 8). O Senhor velará por sua entrada em sua sublime vocação; velará por sua saída do mundo na morte, fazendo-as morrer da bendita morte dos justos; velará por sua entrada na eternidade, para abrir-lhes o céu e coroá-las de glória. Por isso, quando alguém se sente chamado ao estado eclesiástico, deve dizer: «Alegrei-me com aquilo que me foi anunciado: Vamos à casa do Senhor» (Sl 121, 1). Dizer adeus a um mundo vil, desprezível, perverso, corrompido; dizer adeus a esta região dos mortos, a esta terra de maldição; separar-se do nada; escolher em lugar da terra o céu, em vez do mundo o paraíso, no lugar da criatura, Deus, em vez do tempo, a eternidade; viver somente em Jesus, por Jesus, de Jesus: que sabedoria! Que felicidade inexprimível para o tempo e para a eternidade!
É necessário que a vocação seja provada, diz o Apóstolo (1Tm 3,10); e, por isso, recomenda a Timóteo que não se apresse em impor as mãos a ninguém (1Tm 5,22). Quando os Apóstolos quiseram ordenar alguns diáconos, procuraram pessoas das quais o povo pudesse dar testemunho de que gozavam de boa reputação e eram cheias do Espírito Santo e de sabedoria (At 6,3) … São necessárias provas da parte de Deus; incertezas, dúvidas, aridezes…; provas da parte dos parentes…; dos superiores…; provas da parte do demônio…
São João Crisóstomo delineia em três fases a regra que se deve observar na admissão dos ordenandos ao estado eclesiástico (In Moral.). Admita-se aquele a quem seja necessário fazer violência para que entre; aquele a quem se pede que entre, evite-se; aquele que é apenas convidado, fuja… Eis, ó superiores, a vossa norma…; eis, ó aspirantes, o vosso dever…
Quando Moisés e Aarão intimaram, da parte de Deus, o faraó a deixar livre o povo hebreu, aquele rei respondeu: E quem é o Senhor, para que eu deva ouvir a sua voz e deixar Israel em liberdade? (Ex 5,1-2). Oh! quantas vezes Deus chama, a graça solicita, e, entretanto, o demônio, o mundo, a carne, e às vezes os parentes, levantam obstáculos, interpõem dificuldades para que não se obedeça ao chamado divino! Quantas vocações ao estado eclesiástico ou religioso não ficam impedidas pelos faraós rebeldes a Deus! … Mas, se Deus, diz São Bernardo, faz de vosso filho seu filho e ministro, o que perdeis vós? O que perde vosso filho? Se é rico, torna-se mais rico; se é honrado, torna-se mais nobre; se é renomado, torna-se mais ilustre; e, o que é mais, se é pecador, torna-se um santo. E vós, pais, não somente não perdeis, mas ganhais: pois adquiris tantos filhos quantos são os religiosos que recebem vosso filho como irmão (Epist. XC),
Em sua terceira carta, o santo Doutor repreende severamente os pais de certo Elias, porque o desviavam de sua vocação. Ó pai cruel!, exclama; ó mãe desumana!
— Ou, melhor dizendo, parentes que não sois parentes, mas assassinos, porque a salvação de um filho vos torna infelizes, a felicidade dele vos torna infelizes, a felicidade dele vos aflige. Preferis que ele se condene convosco, a vê-lo reinar sem vós. Espantosa ilusão! A casa está em chamas, o fogo a tomou, e vós proibis a saída àquele que quer fugir! Ou, uma vez tendo escapado, obrigais-lo a voltar para ela! E isso da parte daqueles que se encontram em meio ao incêndio e que, por uma obstinação insensata, por uma teimosia que tem algo de frenética, não querem fugir de um perigo iminente! Ora, por que, não cuidando vós de vossa morte eterna, quereis ainda arrastar convosco vosso filho? Se negligenciais a vossa salvação, que proveito vos traz a perda da dele?
Deus pune terrivelmente aqueles que procuram afastar os jovens de seguir sua vocação e, por isso, fazê-los perder a alma, a Deus, a salvação eterna. Com efeito, esses expulsam Deus daquela alma que ele escolhe para sua morada; arrancam-na de Jesus Cristo, que a chama para desposá-la consigo mediante santo vínculo; mais ainda, matam-na, porque a arrancam daquele que é a vida. Tais pessoas tornam-se culpadas para com Deus, para com Jesus Cristo e para com o próximo, e perdem-se ao perder aquele que retêm no mundo e para o mundo. Se, como diz Jeremias, «aquele que separa o vil do precioso, isto é, como explica Santo Anselmo, a sua alma do século, será como a boca de Deus» (Jr 15,19), o que será, e o que terá de esperar aquele que impede, que afasta de seu propósito, quem quer realizar essa separação? … O Senhor diz: «Este jovem que chamo ao estado religioso será meu filho, e eu serei seu pai» (2Sm 7,14). E aqueles que se opõem à sua vocação respondem: Senhor, não será assim como dizeis: vós quereis que ele seja para o céu, nós queremos que seja para a terra; vós quereis que seja feliz, nós o queremos infeliz; vós quereis ser seu pai, nós preferimos que tenha Satanás por pai; vós quereis dar-lhe a vida da graça e da glória, nós queremos dar-lhe a morte do pecado, a morte no inferno.
Se os parentes, se os estranhos não podem, em consciência, interpor obstáculos à vossa vocação, com maior razão não deveis vós mesmos levantá-los. «Vede, examinai a vossa vocação… Examinai, considerai a vossa eleição», diz o grande Apóstolo (1Cor 1,26; 1Ts 1,4). «O que temeis?, diz São Bernardo; por que hesitais? Aquele que vos chama é o Anjo do grande conselho, do qual não há ninguém nem mais sábio, nem mais forte, nem mais feliz (3)».
Ouvi e aprendei de São Paulo: «Quando aprouve àquele que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça chamar-me, imediatamente (ouvi a sua voz) e não dei atenção aos conselhos da carne e do sangue» (Gl 1,15-16). «E, esquecendo o que deixo para trás e lançando-me ao que está diante de mim, corro para o objetivo ao qual Deus me chamou em Jesus Cristo» (Fl 3,13-14). Por isso, também nós perguntemos frequentemente a nós mesmos por que fomos chamados ao estado clerical ou religioso; repitamos com São Bernardo: ― Bernarde, ad quid veniti? (Serm. in Psalm.).
Àqueles que entraram no estado sacerdotal ou religioso dirigem-se de modo especialíssimo estas palavras de São Paulo aos Efésios: «Eu vos conjuro a que vos comporteis de modo digno da vocação à qual fostes chamados» (Ef 4,1); e estas outras aos Tessalonicenses: «Suplico-vos que tenhais uma conduta digna de Deus, que vos chamou ao seu reino e à sua glória» (1Ts 2,12); isto é, que vivais de modo digno de Jesus Cristo, digno da Igreja, digno dos Anjos, digno da glória celeste: pois sois chamados a todas essas coisas sublimes e divinas. A mesma exortação repete São Pedro quando diz: «Esforçai-vos por tornar cada vez mais segura a vossa vocação e eleição, por meio das boas obras» (2Pd 1,10).
Lembrai-vos de que todo aquele que o Senhor eleger será santo (Nm 16,7); portanto, escutai a advertência do Eclesiástico: «Ao entrares na casa do Senhor, vigia sobre os teus passos e aproxima-te para ouvir; pois a obediência vale mais que os sacrifícios» (Eclo 4,17). Tende os sentimentos do Salmista, que dizia: «Preferi ser o último na casa do Senhor a habitar nas tendas dos pecadores» (Sl 83,11). Abri-me, ó Senhor, as portas da justiça; entrarei por elas e vos louvarei, ó Senhor (Sl 117,19-21).
A vós se diz, como já a Elias: «Sai e permanece no monte diante do Senhor» (1Rs 19,11); e como a Abraão: «Parte de tua terra, deixa tua parentela, abandona a casa de teu pai e vem para a terra que estou para mostrar-te» (Gn 12,1). Cassiano aplica este tríplice mandamento a uma tríplice renúncia. A primeira consiste em não fazer caso das riquezas e das vantagens que o mundo oferece: ― Egredere de terra tua. ― A segunda implica o desapego dos vícios, das inclinações, das afeições da alma e da carne: ― Egredere de cognatione tua. ― A terceira consiste no afastamento do espírito de todas as coisas presentes e visíveis, no desejo e na contemplação das futuras e invisíveis: ― Egredere de domo patris tui (Collat. III). Por essas três separações, da pátria, da parentela e da casa paterna, ensina-nos Alcuíno que devemos sair do homem terreno e carnal, do apego aos nossos vícios, do mundo, que é a casa do demônio (Quaest. CLIV, in Genes.).
A oração é indispensável àquele que quer conhecer e seguir a própria vocação; por meio dela obtemos do céu as luzes, a força e as graças de que necessitamos em um assunto tão importante como a escolha de um estado de vida… Depois que Judas morreu enforcado no patíbulo, os Apóstolos e a comunidade dos primeiros fiéis puseram-se a rezar assim: «Senhor, vós que conheceis os corações de todos, mostrai-nos qual destes dois escolhestes para suceder no lugar e no ministério do apostolado ao qual Judas renunciou, para ir ao seu lugar». Em seguida, lançaram sortes e, tendo recaído favoravelmente sobre Matias, este foi contado entre os doze Apóstolos» (At 1,24-26).
O que assegura a vocação diante de Deus é, em primeiro lugar, o desejo de salvar a própria alma. Quando alguém está penetrado pelo pensamento de que não há outra coisa necessária senão salvar a alma, apega-se a todos os meios mais eficazes para assegurar-lhe a salvação; ora, o melhor de todos os meios é seguir a voz de Deus que nos chama. Em segundo lugar, os bons costumes e uma vida santa formam e asseguram a vocação à glória. Quantas pessoas perdem a sua vocação pelos desregramentos de sua vida! No tumulto das paixões do coração, já não se ouve a voz de Deus, já não se vê a vontade de Deus, e o homem se lança cegamente num estado ao qual Deus não o chama… Daí uma vida miserável e pecaminosa, a perda da graça, da salvação e da glória.