Tesouro n.º 219 · Volume III

VIGILÂNCIA VIGILANZA

1 seção · 11 parágrafos · pp. 2416–2422 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE E VANTAGENS DA VIGILÂNCIA

«Vigiai e orai, dizia Jesus aos Apóstolos no jardim das oliveiras, se não quereis cair em tentação; porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca» (Mt 26,41). «Vigiai, porque não sabeis em que hora virá o Senhor» (Mt 24,42). «Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mt 25,13). «Estai atentos, vigiai e orai. E o que digo a vós, digo a todos» (Mc 13,33,37). «Vigiai e orai sempre» (Lc 21,36). Poderia Jesus Cristo falar de maneira mais clara e mais peremptória para nos mostrar a necessidade da vigilância?

A eles fazem eco os Apóstolos: «Sede sóbrios e vigilantes, diz São Pedro, porque o demônio, vosso inimigo, anda ao redor de vós como um leão que ruge, procurando a quem devorar» (1Pd 5,8). São Paulo diz aos Romanos: «Sabemos que o tempo urge e que já é hora de despertarmos do sono» (Rm 13,11); exorta os Coríntios a vigiar, a permanecer firmes na fé, a agir com energia e a animar-se (1Cor 16,13); recomenda aos Efésios que vigiem nas orações e súplicas (Ef 6,18), para que o demônio não encontre ocasião de insinuar-se em suas almas (Ef 4,27); recomenda aos Tessalonicenses que não durmam, como os demais, mas vigiem e permaneçam sóbrios, porque o dia do Senhor chega como um ladrão durante a noite (1Ts 5,6,2); recomenda a Timóteo que se submeta a toda fadiga, cumpra o seu ministério, seja sóbrio e, sobretudo, permaneça vigilante (2Tm 4,5).

Devemos vigiar e estar atentos como quem caminha por uma senda estreita, íngreme e escarpada, ladeada por precipícios: este vigia atentissimamente os olhos, os pés e as mãos, para não escorregar; assim devemos fazer nós, se quisermos evitar mil perigos, as ciladas dos inimigos, as quedas no pecado, os precipícios do inferno… Devemos vigiar como vigiam dois inimigos que se encontram frente a frente… O homem espiritual deve vigiar ainda mais atentamente, diz Orígenes, por temor de que o bem imenso que possui não lhe seja roubado (In Evang.). Aplica-se ao seu caso aquele dito de São Paulo: «Quem julga estar de pé, cuide para não cair» (1Cor 10,12). São João Crisóstomo nos assegura que Deus não concede a sua graça senão àquele que vigia (Homil. ad pop.); e nos adverte que a alma se extingue como uma lâmpada, se não for provida de óleo e se não se mantiverem fechadas as janelas e as portas. As janelas são os olhos e os ouvidos; a porta é a boca (In Ep. ad Thess.).

Diz ainda o mesmo Doutor: É necessária a vigilância, porque o soldado cochila não sobre um leito, mas sobre a terra; não dormindo, mas vigiando, o pescador apanha os peixes. O vinhateiro fica de sentinela para que a vinha de seu senhor não seja danificada; o pastor vigia durante a noite para guardar o seu rebanho, como de si mesmo atestava Jacó: Eu era consumido pelo calor, enregelado pelo frio, e o sono fugia de minhas pálpebras. E por que vigiava com tanto cuidado? Para que nenhuma de suas ovelhas caísse presa das feras. Se Jacó guardava um rebanho com tanta vigilância, com que atenção não se deverá vigiar para guardar a própria alma? Deus exige de nós que estejamos sempre alertas; e por isso mesmo quer manter oculta a nossa última hora, para que estejamos sempre vigilantes… Grande é a profundidade da malícia, numerosos e perigosíssimos os precipícios, densas as trevas; nunca nos escapem de vista as ciladas; caminhemos com temor, prudência e tremor. Quem caminha por uma senda estreita e perigosa não ri, não se diverte, não se embriaga, mas avança devagar, cauteloso, sóbrio e vigilante. Quem se põe por tal senda não leva consigo bagagem supérflua, mas prefere estar livre de todo embaraço, para fazer melhor a sua viagem, com menor perigo e menor pena, mais facilmente e mais depressa; não tolera que outros lhe ponham obstáculos aos pés, mas quer tê-los inteiramente livres. E nós, pobres de nós; nós, carregados e embaraçados por cuidados e obstáculos inumeráveis; nós, vergados sob o peso de mil necessidades temporais; nós, risonhos e distraídos como insensatos, como podemos esperar avançar sem cair por esta via tão estreita e perigosa? (Homil. XXII).

«Vigiai, diz o Senhor no Apocalipse; lembrai-vos do que recebestes e ouvistes, praticai-o e fazei penitência. Porque, se não vigiardes, virei a vós como um ladrão; não sabereis a hora em que virei. Eis que venho em breve: guardai bem o que tendes, para que outro não vos roube a vossa coroa» (Ap 3,2-3,11). «Deus quis, diz São Gregório, manter oculta a nossa última hora, para que permanecêssemos sempre apreensivos; para que, não podendo prevê-la, estivéssemos sempre preparados para ela (1)». Assim fazia o Profeta, que diz: «Vigiarei sobre os meus caminhos, para não pecar» (Sl 38,2). «Vigiei e permaneci como um pardal solitário no alto do telhado» (Sl 101,8). Assim fazia a Esposa dos Cânticos, que assegurava a seu esposo que, mesmo durante o sono, o seu coração estava desperto e jamais perdia de vista a sua vinha (Ct 5,2; 8,12). Seja para nós, noite e dia, a vigilância como um bastião, uma porta de segurança. «Guarda o teu coração, diz o Sábio, por todos os meios, porque dele procede a vida ou a morte» (Pr 4,23). «Presta atenção a ti mesmo, porque caminhas à beira de um precipício. Vigia o que te cerca e guarda-te até dos teus próprios familiares» (Eclo 13,16; 32,26).

Crede em mim, dizia São Bernardo: aquilo que é cortado torna a brotar; os inimigos derrotados retornam; o que parecia extinto reacende-se; o que estava adormecido desperta. É pouca coisa ter resistido uma vez; é preciso cortar, extirpar muitas vezes, ou melhor, continuamente, tanto quanto possível: se estiverdes em guarda, sempre encontrareis algo para cortar e purificar. Enquanto estiverdes neste miserável corpo, enganais-vos se julgais ter conseguido, uma vez por todas, arrancar os vícios pela raiz. Queirais ou não, o jebuseu habita em vossas fronteiras, está no meio de vós; pode ser subjugado, mas não exterminado. Por isso, é necessário vigiar atentamente, cortar e recortar com prontidão e severidade as cabeças dos inimigos e das paixões, assim que reaparecerem. A virtude não pode crescer juntamente com os vícios; portanto, para que a virtude se fortaleça e cresça, é preciso impedir que os vícios brotem. Retirai o que é supérfluo, e os bons frutos crescerão e amadurecerão. Tudo quanto negais à cobiça redunda em vosso proveito. Retiremos, cortemos, arranquemos a cobiça, para que a virtude se fortaleça. É sempre tempo de cortar e arrancar, porque sempre temos necessidade disso (Serm. LVIII, in Cant.).

Não nos cansemos de vigiar a nós mesmos e ao que nos cerca; de vigiar o nosso coração, para que se mantenha longe dos vícios e se aplique à virtude; e cuidemos para que nada de mau nele entre e dele se apodere… Somos os porteiros do nosso coração; não demos acesso e morada a ninguém senão a Jesus Cristo, mantendo longe todo inimigo, todo estrangeiro, todo ladrão, todo assassino. Ó cristão, uma vez que a tua condição te faz soldado, marinheiro, sentinela, viajante a caminho do céu, permanece em contínua vigilância… São João viu diante do trono de Deus um espaço semelhante a um mar de cristal; e no meio do trono e ao redor dele viu quatro animais cheios de olhos na frente e atrás (Ap 15,6). Sejamos também nós todos olhos; olhemos o passado, o presente e o futuro; olhemos os nossos deveres, o que devemos fazer e o que devemos evitar; olhemos os nossos inimigos e os perigos, para deles escapar; olhemos a lei de Deus, a sua religião e o seu culto, para cumpri-los; a sua graça, para obtê-la; olhemos a beleza da virtude, para amá-la e praticá-la; olhemos a sordidez do vício, para desprezá-lo e evitá-lo. Olhemos o tempo, para dele fazer bom uso; a morte, para nos prepararmos para ela; o inferno, para não cairmos nele; o juízo, para torná-lo favorável e misericordioso para nós; o céu, com a sua beleza, as suas riquezas e a sua felicidade suprema, para desejá-lo, buscá-lo e chegar até ele; olhemos a eternidade, para sermos salutarmente intimidados por ela. Olhemos para Deus, para não buscar, amar e servir senão a ele somente… Mas todas essas grandes coisas que nos dizem respeito tão de perto, não as vemos nem podemos vê-las de outro modo senão por meio de uma vigilância constante e corajosa…

A morte atingiu Isbosete enquanto dormia (2Sm 4). Judite corta a cabeça de Holofernes enquanto ele jazia mergulhado no sono (Jt 13). Sísara, general do exército, adormece e é morto por Jael (Jz 4). Sansão perde a sua força, é capturado pelos inimigos, que o cegam e fazem dele o seu brinquedo; porque, enquanto dormia, Dalila lhe raspa os cabelos (Jz 16). Enquanto Saul dormia, Davi lhe subtrai a lança e o manto (1Sm 26). «Enquanto os homens estavam sepultados no sono, veio o inimigo, diz o Evangelho, e semeou o joio no meio do trigo» (Mt 13,25). O tempo propício para Satanás é o tempo do sono, do entorpecimento da alma; é a falta de vigilância… Aprendamos, pois, a necessidade de vigiar e o perigo que corre quem não permanece continuamente em guarda.

«A morte subiu pelas nossas janelas», diz Jeremias (Jr 9,21). A morte do pecado entra na alma pelos olhos e por todos os sentidos do corpo. Assim como de nada serve a uma fortaleza estar cercada de boas e sólidas muralhas, se as suas portas estão abertas, assim são inúteis, para a defesa de uma alma, as proteções da graça, se ela não vigia os próprios sentidos; e esta vigilância deve ser exercida com o máximo rigor e exatidão, se se quiser estar seguro contra todo golpe de morte contra a alma. Eva caiu e arrastou em sua queda Adão e toda a descendência humana, porque não se guardou do fascínio de seus olhos. O Gênesis o atesta com estas palavras: «A mulher viu que o fruto era bom para comer, agradável aos olhos e de aspecto desejável; então tomou-o e comeu» (Gn 3,6). Narra ainda o Gênesis que os filhos de Deus, tendo contemplado as filhas dos homens, tomaram-nas por esposas, e delas nasceram os gigantes, que, por suas desordens, foram depois a causa do dilúvio (Gn 6).

Também Holofernes foi capturado pelos olhos; com efeito, diz-nos a Escritura que a beleza de Judite o fascinou, de tal modo que Judite pôde cortar-lhe a cabeça com a própria espada dele (Jt 16,11). Davi, embora santo, é arrastado por um olhar a cometer adultério e homicídio. Por isso, o bom Jó dizia: «Fiz um pacto com os meus olhos, para que jamais se voltem a fazer-me pensar em uma mulher» (Jó 30,1); e esta é uma sentença muito sensata de Sêneca: «A cegueira conserva a inocência; os olhos provocam os vícios e conduzem ao mal (2)».

«Feliz aquele que vigia, diz o Apocalipse; ele conserva imaculada a sua alma» (Ap 16, 15). «Aquele que vigia sobre a própria conduta, diz o Sábio, conserva a sua alma» (Pr 16, 17). O homem vigilante é, como o retrata São Gregório, zeloso em defender com as palavras o seu modo de viver e em tornar eloquentes as suas palavras pelo teor da vida (3). Não há quem não saiba, diz São Pedro Crisólogo, que a vigilância é salutar para todas as coisas. Um rei vigilante se previne contra as ciladas do inimigo e as evita. Um soldado, montando guarda, salva o acampamento e o exército; o piloto vigilante entra felizmente no porto (Serm. XXIII). A vigilância frustra todos os desígnios funestos dos inimigos da alma… Por meio dela triunfa-se de tudo…; por meio dela vive-se da virtude, vive-se de Deus, em Deus, para Deus…; assegura-se a vida eterna.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.