Tesouro n.º 217 · Volume III

VIRGINDADE VERGINITÀ

4 seções · 19 parágrafos · pp. 2405–2414 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. EXCELÊNCIA DA VIRGINDADE

Os que praticam o celibato por virtude são anjos, porque têm sempre o pensamento voltado para aquilo que pertence a Deus, a fim de se manterem santos de corpo e de alma (1Cor 7, 14); e lhes está prometida por Jesus Cristo a visão de Deus (Mt 5, 8). Com razão, portanto, São Bernardo chama a virgindade de vida verdadeiramente angélica (Serm. de Nativ. B. M. V.); e São Gregório a exalta como a mais bela das flores que adornam o jardim do Esposo celeste (Moral.). O Venerável Beda diz que as virgens são assim chamadas como que para indicar que são insignes pela virtude; quanto à etimologia de celibatário, faz derivar a palavra de céu, como se quisesse dizer celibatário, isto é, homem que imita na terra a vida dos cidadãos do céu (Lib. 2, de Tabern. c. III). São Cipriano vê na virgindade a irmã dos anjos, a vitória das paixões, a rainha das virtudes, a posse de todos os bens; chama aquelas que são adornadas com ela de flor da ordem eclesiástica, beleza e ornamento da graça espiritual, a porção mais ilustre do rebanho de Cristo (Lib. de Virg.). «Como é encantadora a graça da virgindade, exclama Santo Ambrósio, se mereceu que Jesus a escolhesse para ser templo corporal de Deus, tendo nela habitado corporalmente a plenitude da divindade! Uma Virgem gerou a salvação do mundo, uma Virgem deu à luz a vida de todos (De offic. lib. I)».

É incontestável que a virgindade e o celibato são muito mais excelentes que o matrimônio. Porque: 1° o corpo e o espírito são conservados incorruptos e incorruptíveis… 2° há nisso uma alta perfeição… 3° exige-se uma temperança, uma virtude heroica: há nisso o poder de Deus (Lc 1,51). Tanta e tão sublime virtude via São Fulgêncio na virgindade, que faz derivar o nome de virgem da virtude (Epist. 3, c. IV). Santo Adelmo, bispo dos Saxões, diz: Há três estados na Igreja: a virgindade, o celibato e o matrimônio. Se quereis conhecer e estabelecer a excelência e o mérito de cada um desses estados, comparai a virgindade ao ouro, o celibato à prata e o matrimônio ao ferro; a virgindade às riquezas, o celibato ao bem-estar e o matrimônio à pobreza. A virgindade é a paz; o celibato, a liberdade; o matrimônio, a escravidão. A virgindade é o sol; o celibato, a lua; o matrimônio, as trevas. A virgindade é uma rainha; o celibato, um senhor; o matrimônio, um servo (De Laud. Virg. c. IX).

Oito prerrogativas admiráveis tornam bela e sublime a virgindade. A primeira consiste em que a integridade é a porção dos Anjos (S. AUGUST. De Virgin. c. XIII), é imitação e emulação da vida angélica; e, se o matrimônio povoa a terra, a virgindade dá habitantes ao céu (HIERON. Contra Iovin. l. IV). Por isso, segundo a observação de São Jerônimo, assim que o Filho de Deus entrou no mundo, criou imediatamente nele uma nova família, para que aquele que era adorado no céu pelos Anjos tivesse também Anjos que o adorassem na terra (Ad Eustoch. de Custod. Virg.). «A virgindade, diz São João Crisóstomo, está tão acima do matrimônio quanto o céu dista da terra, quanto os Anjos estão acima dos homens (Lib. de Virgin. c. XI)». «Ó virgindade, riqueza inesgotável — exclama Santo Atanásio —, ó virgindade, coroa incorruptível, templo de Deus, morada do Espírito Santo, gema preciosa, destruição da morte e do inferno, vida dos Anjos, coroa dos Santos! (Lib. de Virgin.)».

A segunda prerrogativa da virgindade está em sua qualidade de holocausto. Por isso, São Jerônimo chama essa virtude de martírio (Contra Iovin.) … A terceira prerrogativa consiste nisto: a virgem contrai um esponsalício divino com Jesus Cristo, que é seu esposo… A família que nasce dessas núpcias celestes é a numerosa multidão das virtudes… A quarta é que as virgens são as prediletas de Jesus Cristo. O Salvador ama-as com afeto inteiramente especial; ama-as com amor de esposo, porque elas são suas esposas.

A quinta prerrogativa é apontada por São Cipriano, que faz das virgens a porção mais eleita da Igreja (De Virg.). Por isso, Santo Atanásio ensina que a virgindade é um caráter seguro, um indício certo da verdadeira religião e da verdadeira Igreja; pois a verdadeira religião aconselha a virgindade e o celibato, admite-os e exalta-os; a infidelidade e a heresia rejeitam-nos e desprezam-nos (Lib. De Virg.). E por que fazem isso os infiéis e os hereges? — pergunta Santo Ambrósio — porque, zelosos defensores do mal, querem impedir a busca e a prática da virtude (De Virtutis). Os infiéis e os hereges não são, nem podem ser, virgens, porque, sem a graça de Deus, cujo princípio é a fé, é impossível que, em meio a tantos estímulos da carne, a tantas tentações e a tantas concupiscências, se conserve por longo tempo a virgindade. E Santo Atanásio já observava que este santo e celeste conselho não se cumpre felizmente em nenhuma outra religião, entre nenhum outro povo, senão na religião e entre o povo cristão (In Apolog. ad Constantin. Imper.). E quanto não aumenta o valor da virgindade, fazendo do conselho um preceito, uma obrigação em força de um voto voluntário, ponderado, sagrado e perpétuo! Eis o sublime da virtude!

A sexta prerrogativa resulta de que, como dizem os Santos Jerônimo e Cipriano, a virgindade povoa o céu (De Discip. et habitu virg.). «As virgens — escreve São Basílio — antecipam a glória da ressurreição (De Virg. c. LXXIX)». E não nos anuncia o próprio Jesus Cristo que, no estado da ressurreição, os homens já não terão mulheres, nem as mulheres terão maridos, mas que uns e outras serão como os Anjos de Deus no céu? (Mt 22,30). As virgens, portanto, representam na terra o céu, os Anjos… A sétima é que as virgens terão no céu uma coroa mais esplêndida. Somente as virgens seguem o Cordeiro por onde quer que vá e cantam diante do trono um hino reservado somente às virgens, que nenhum outro pode cantar (Ap 14,3-4).

A oitava prerrogativa é que a virgindade torna semelhante à Igreja, aos Anjos, à Virgem Imaculada, a Jesus Cristo, a Deus e à Santíssima Trindade aquele que a cultiva… «Ser virgem ou anjo é a mesma coisa, diz São Gregório: essas duas coisas fazem uma só (De Virgin.)»; e, se há alguma diferença entre eles, diz São Bernardo (Epist. XLII), esta consiste na felicidade, não na virtude: a castidade do Anjo é mais feliz; a do homem é mais heroica. «A virgindade — diz Santo Ambrósio — foi buscar no céu o modelo que devia imitar na terra. Elevando-se acima das nuvens, do firmamento e dos Anjos, dirigiu-se a Deus e encontrou o Verbo eterno de Deus no próprio seio do Pai (Lib. de Institut. virg. c. XV)». Por isso, as virgens foram vistas por São João Evangelista não sobre uma montanha comum, mas sobre o monte Sião, isto é, no céu. Ele as viu diante do trono de Deus, formando-lhe cortejo e coroa, e cantando um hino reservado somente a elas (Ap 14,1-4). São Basílio chama a virgem de vaso vivo de Jesus Cristo; e à virgindade, uma virtude superior às leis da natureza. Afirma que ela torna o homem sumamente semelhante a Deus; despoja a nossa vida da corrupção e a conduz à glória (De Laud. Virg.).

«A integridade virginal — escreve Santo Agostinho — é a parte dos Anjos; e é, numa carne corruptível, a preparação para a posse da eterna incorruptibilidade, que é Deus; por isso, as virgens são anjos terrestres e homens celestes (De Virgin. c. XIII)». São Gregório chama a virgindade de rival da glória angélica (In Laud. Virg.), com alguma vantagem da parte daquela, pois, segundo a observação de São Jerônimo, ser anjo é uma fortuna, mas ser virgem é um mérito adquirido pela virtude, porque a virgem se esforça para obter, com a graça, aquilo que o anjo possui por natureza (De Virg.). Quem, portanto, não dirá com São Cirilo: A virgindade é rosa odorífera, lírio esplêndido pela brancura; e, ao mesmo tempo, flor e fruto? Ó virtude magnética da virgindade! Ó virtude divinamente imantada, que atrai a si a natureza! Ó admirável safira, que põe em fuga a carne, o mundo e os demônios! Ó esmeralda resplandecente e sempre verde, virgindade inviolável, que jamais sofre a fétida corrupção da volúpia! (Catech.)… A virgindade e a glória eterna são irmãs: uma merece, a outra recompensa… As virgens gozam da familiaridade de Deus; Deus as ilumina e abençoa de modo inteiramente extraordinário; é próprio delas aquele dito da Esposa dos Cânticos: «O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta-se entre os lírios» (Ct 2,16). A virgem imita o Filho da Virgem, o esposo das virgens, ele mesmo virgem e unido a uma Igreja virgem, diz São Boaventura (In Speculo). Ó rica joia! — exclama Santo Atanásio — feliz quem te possui; afortunado quem, por meio da paciência, se apega constantemente a ti, porque, ao término de seus trabalhos, encontrará em ti imensas recompensas! (Lib. de Virg.), pois, como diz o Espírito Santo, «retas são as ações de um coração sem mancha; e quem ama a pureza do coração terá por amigo o rei do céu» (Pr 21,8; 22,11).

Quando Deus promete às virgens o melhor lugar e o mais belo nome, prefere-as aos Anjos. E com razão, porque a virgindade nos Anjos não é virtude; eles não podem deixar de ser virgens; as virgens, porém, sendo-o por própria escolha, por heroísmo da vontade, nesse sentido levam vantagem sobre os Anjos… Obtêm, além disso, um nome mais esplêndido, porque a virgindade embeleza, adorna e enobrece o homem mais do que qualquer outra virtude, ainda que excelente… Diz São Bernardo: Nada há de mais esplêndido do que essa luz, nada de mais glorioso do que esse testemunho cuja verdade brilha na alma e no qual a alma se vê. Mas qual é essa luz, qual é esse testemunho? É a virgindade, pura, modesta, tímida, circunspecta, que nada admite de maculado, que é a glória da consciência, que não tem nem pode ter remorsos, que não teme o olhar de Deus. Eis o que é verdadeiramente belo e o que alegra mais do que qualquer outra coisa os olhos de Deus. Esse esplendor da alma virgem penetra com seus raios celestes todo o corpo, espalha-se por todos os membros e por todos os sentidos, de tal modo que as ações, as palavras, os olhares, o porte, o riso, se por acaso houver, são mesclados de gravidade e exalam honesto candor; os movimentos, os gestos e os traços são sérios, puros, reservados, isentos de toda e mínima leviandade, insolência, imodéstia e negligência; são santos e animados da mais fervorosa piedade. Feliz a alma que está revestida deste precioso hábito da branca inocência, pela qual tem uma gloriosa conformidade não com o mundo, mas com o Verbo, que é a brancura resplandecente da vida eterna, o espelho sem mancha da majestade divina (Serm. 85, in Cant.).

A virgem consagrada — diz São Basílio — no hábito, no porte e no trato, mostra-se de tal modo que quem a encontra, vendo nela a viva imagem de Deus, inclina-se com respeito, todo maravilhado da grande santidade que dela se irradia; e, advertido por um impulso interior das virtudes que nela existem, retira disso o desejo de imitá-la. Cheio de admiração e respeito por aquilo que viu, retorna à sua casa ele próprio mais respeitável. A virgem esposa do Senhor, sabendo que não pode subtrair-se nem ao ouvido, nem ao olhar, nem à presença de seu divino esposo, comporta-se em tudo como se estivesse diante dele, como se fosse vista e ouvida por Jesus Cristo; porque tudo o que diz, a virgem cristã, ainda que esteja sozinha, diz aos ouvidos de seu esposo; tudo o que faz, embora sozinha, realiza sob o olhar atento do divino esposo; tudo o que pensa, sente que seu celeste esposo compreende. Ela, portanto, respeita primeiramente a si mesma e à sua consciência, embora sozinha e inteiramente oculta; depois, respeita o seu Anjo da guarda; finalmente, e acima de tudo, a Deus. Ela sabe que é o tabernáculo de Jesus Cristo. A tais almas Deus destina um lugar e um nome superiores aos próprios Anjos (De vera Virgin.). Santo Agostinho pensa que esse nome significa a glória especial que distingue as virgens dos outros Santos, assim como as pessoas se distinguem por seus nomes próprios. Esse nome significa a glória e a alegria inteiramente próprias das virgens: alegrar-se em Jesus Cristo, com Jesus Cristo, por Jesus Cristo, seguindo Jesus Cristo (Lib. De vera Virgin.).

As virgens cristãs são esposas de Jesus Cristo, conforme aquela palavra do Apóstolo aos Coríntios: «Eu vos desposei com um único esposo, Jesus Cristo, para vos apresentar a ele como virgens puras» (2Cor 11,2). Ora, esse esponsalício divino com Jesus Cristo não pode ser estéril, mas é fecundo. A família que nasce desse celeste matrimônio é toda espiritual; e essa família são as obras de piedade, de devoção, a prática das virtudes, as esmolas e os outros atos de caridade aos quais a virgem se consagra. São Bernardo, escrevendo à sua irmã, que era virgem, sobre o modo de bem viver, dizia-lhe: Não digas, minha querida irmã em Jesus Cristo, não digas: Sou um lenho seco, uma árvore infrutífera; pois, se amas Jesus Cristo, teu esposo, e o temes como é teu dever, tens sete filhos: 1° a modéstia; 2° a paciência; 3° a sobriedade; 4° a temperança; 5° a caridade; 6° a humildade; 7° a castidade. Portanto, pela graça do Espírito Santo, dás à luz sem dor e de um seio incorruptível sete filhos para Jesus Cristo, para cumprir em ti aquelas palavras da Escritura: A que era estéril gerou sete filhos. E esses filhos que deste à luz para Jesus Cristo deves nutrir, aquecer, vestir, criar, governar, fortalecer e corrigir (De modo bene viv., c. XXII). São Cipriano assegura-nos que a Igreja se alegra e exulta nas virgens, e por meio delas a gloriosa fecundidade dessa terna mãe cresce e se estende maravilhosamente; quanto maior é o número delas, tanto mais aumenta a alegria da Igreja (De habit. Virg.). «Se a Igreja católica é virgem — observa Santo Agostinho —, se, como diz o Apóstolo, ela é esposa de Jesus Cristo, de que honra não são dignos aqueles entre os seus membros que conservam na carne aquilo que ela conserva na fé? Com efeito, também a Igreja é mãe e virgem (De vera Virgin.)».

2. PRODÍGIOS DA VIRGINDADE

A bem-aventurada e Imaculada Virgem Maria, mãe, modelo e irmã das virgens e dos virgens, gerou uma nobre e grande família, a família dos virgens de Jesus Cristo. «De uma virgem nasceu Jesus Cristo, escreve São Gregório. Ó mulheres, honrai e praticai a virgindade, para que sejais mães de Jesus Cristo (Orat. 38, de Nativ.)». Não é porventura da virgindade que se disse: «Eu sou a flor dos campos e o lírio dos vales»? (Ct 2,1) Os virgens formam o ornamento da corte de Deus, o esplendor do palácio celeste, a nobreza da Igreja… Os fatos mais sublimes, os prodígios mais extraordinários que a fé e o amor realizaram no mundo foram concebidos e levados a termo por corações virgens, por mentes puras.

Tão poderosa e miraculosa se mostrou sempre a proteção de Deus sobre as virgens, que, em meio aos furores e às violências de toda espécie dos ímpios e dos tiranos, sempre se conservaram imaculadas, escaparam ilesas, preservaram-se íntegras. Eis, entre outros, um exemplo memorável em Santa Teófila, martirizada sob o imperador Maximiano. Condenada a ser conduzida a um lupanar, a virgem rezou assim: Meu Jesus, meu amor, minha luz e meu espírito, guardião da minha pureza e da minha vida, vede a que está exposta a vossa pobre esposa; correi em meu socorro, para que estes lobos não devorem a vossa ovelhinha; meu esposo, conservai ilesa a vossa esposa. Ó fonte de toda pureza, conservai a minha íntegra. Chegou assim ao lugar infame, mas, assim que um insolente se dispôs a ultrajá-la, eis que aparece um Anjo que o derruba morto; aproxima-se um segundo, e é atingido pela cegueira; outros tentam fazê-lo, e todos são no mesmo instante atingidos por diversos castigos, de modo que ninguém mais ousa aproximar-se, e gritam a uma só voz: Quem é semelhante ao Deus dos cristãos? Exemplos semelhantes encontramos também na vida de Santa Inês, de Santa Cecília e de Santa Luzia. Anuncia-se a Santa Clara que seu mosteiro está sendo atacado por uma multidão de soldados furiosos; ela sobe às muralhas e dali clama a Deus: «Não queirais, ó Senhor, entregar às feras as almas que em vós confiam» (Sl 73,19). Dito isso, lança o olhar ao redor e já não vê ninguém; Deus pôs os soldados em fuga, e o mosteiro e a cidade estão salvos.

Pela proteção de Deus, nenhuma virgem jamais perdeu involuntariamente o seu pudor, apesar das promessas, das ameaças, dos terrores, das solicitações, das violências e dos tormentos dos tiranos. Ó milagre dos milagres da graça, que se encontra somente na religião católica, apostólica, romana!… Ó virgindade, exclama Santo Anatólio, tu não és vencida pela morte e salvas da morte eterna!… São Casimiro, rei da Polônia, preferiu a morte à perda da virgindade; e a todas as instâncias dos médicos respondia: Quero morrer virgem. ― Vivi virgem, morrerei virgem; quero viver virgem com Jesus virgem e, por amor dele, escolho de bom grado morrer virgem (In Vita).

3. PRÊMIO DA VIRGINDADE

«A incorruptibilidade aproxima de Deus» (Sb 6,20), havia dito o Sábio; e esta sua sentença encontra explicação e cumprimento naquela outra de Jesus Cristo: «Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus» (Mt 5,8). O Salmista nos assegura que o Senhor considera os dias do homem puro e imaculado; que a herança deste será eterna; que não será confundido no dia mau; que será saciado de bens (Sl 36,18-19)… A virgindade enche o céu… As famílias segundo a carne perdem-se, morrem, desaparecem; a família dos virgens viverá eternamente…

Santo Agostinho diz que a alegria, a felicidade e a paz são os filhos da virgindade, a qual, se não tem filhos segundo a carne, gera, contudo, outros que valem mais do que estes: a paz do coração, da alma e do espírito. A continência nunca é estéril, mas fecunda em alegria, por meio do Senhor Deus, seu esposo (Confess. lib. 8, c. XI)… Uma tríplice coroa cinge os virgens: a coroa da virgindade, a coroa nupcial de suas núpcias com Jesus Cristo, a coroa dos atletas; porque, como lutadores valorosos, sustentam um longo e terrível combate contra a concupiscência e a carne. Uma quarta coroa ainda lhes cabe, a do martírio, pois têm todo o mérito dele.

4. MEIOS PARA CONSERVAR A VIRGINDADE

O Evangelista observa que a Imaculada Virgem Maria se perturbou inteiramente à vista do Anjo que vinha anunciar-lhe a Encarnação do Verbo (Lc I); porque, como observa Santo Ambrósio, é próprio das virgens temer e tremer à vista dos homens e perturbar-se com suas palavras (In Luc. lib. 2, c. 8). «Sempre tímida é a casta virgindade, escreve Tertuliano; ela foge dos olhares e, com o seu véu, faz para si quase um elmo contra os golpes das tentações, as setas dos escândalos, das suspeitas e das maledicências (De veland. Virg.)». Ela sabe que traz o seu tesouro em frágil vaso de barro (2Cor 4,7); por isso, é toda solicitude em praticar aquele aviso do Nazianzeno: «Sê virgem de olhos, de língua e de ouvidos» (Laud. Virg.).

Os astrônomos colocam no firmamento o signo da Virgem entre a Balança e o Leão; é um belo símbolo para nos indicar que a virgindade precisa da força do leão e da balança da prudência!… Quanto mais elevada é a continência virginal, observa Santo Agostinho, tanto mais teme o orgulho que a mata. Só Deus concede a virgindade e somente ele a conserva; e Deus é também caridade; portanto, o guardião da virgindade é o amor de Deus e a humildade. O lugar onde ela se conserva é a humildade (De S. Virgin. c. CI). «Vesti-vos, escrevia Tertuliano às Virgens, da couraça do pudor, cercai-vos do baluarte da modéstia, protegei vosso sexo com o muro da reserva, que detenha os vossos olhares e os alheios (De velando Virgin. c. XVI)».

Os meios potentíssimos e eficacíssimos para proteger e conservar a virgindade são: a meditação da Paixão de Jesus Cristo… o uso dos sacramentos… a desconfiança de nós mesmos… a devoção à Virgem Imaculada… Finalmente, a vigilância, a fuga e a oração são três armas sem as quais não existe pureza nem virgindade.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.