Tesouro n.º 216 · Volume III

VELHICE VECCHIEZZA

5 seções · 14 parágrafos · pp. 2399–2405 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. RESPEITO À VELHICE

Deus nos ordena no Levítico que nos levantemos na presença daquele que tem cabelos brancos e honremos a pessoa do ancião (Lv 19,32); e no Eclesiástico nos admoesta a não desprezar os relatos dos anciãos, porque eles os aprenderam de seus pais; e nós aprenderemos deles a inteligência e saberemos dar resposta no momento oportuno (Eclo 8,11-12). Sinesio chama uma cabeça calva pelos anos de «assento da prudência, templo da divindade» (Lib. de Prudent.).

Devemos, portanto, respeitar a velhice, 1° porque, levando em conta a idade, a prudência e a experiência, ela é uma espécie de dignidade divina, e o ancião está entre os jovens como um deus terrestre. A velhice é a imagem da antiguidade e da eternidade de Deus… Por isso Deus se mostrou a Daniel sob a figura de um ancião: «Eu estava olhando, diz ele, até que foram colocados os tronos, e o Ancião dos dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos de sua cabeça eram como lã pura» (Dn 7,9). Do mesmo modo apareceu a São João no Apocalipse; sua cabeça era branca como a cândida lã, e seus cabelos eram como a neve (Ap 1,14). 2° Porque, assim como Deus está isento de desejos, perturbações, paixões etc., assim também é, e deve ser, a velhice. 3° Assim como Deus possui a sabedoria, também esta virtude é atributo particular da velhice. 4° Assim como Deus vê as gerações dos homens e a sucessão das coisas criadas, assim os anciãos viram surgir e desaparecer ao seu redor as gerações e os acontecimentos. 5° Assim como Deus prevê e prediz o futuro, assim os anciãos, instruídos por longa experiência, penetram o futuro e, desse modo, oferecem à juventude sábios conselhos sobre o que deve fazer ou evitar, segundo estas palavras da Escritura: «Pergunta a teu pai, e ele te instruirá; aos teus maiores, e eles te dirão coisas ocultas e úteis» (Dt 32,7).

O Sábio chama a velhice de coroa de honra (Pr 16,31)». A velhice possui muitas coroas. A primeira é a coroa dos cabelos brancos… A segunda é a coroa dos muitos anos… A terceira é a coroa dos filhos e dos netos, segundo aquela frase do rei Profeta: «Teus filhos, como jovens oliveiras, circundarão tua mesa» (Sl 127,3). Os filhos e os netos são também chamados coroa dos anciãos, no sentido de que os rodeiam, os escutam, os honram e os veneram, segundo o dito dos Provérbios: «Os filhos dos filhos são a coroa dos anciãos, e os pais são a glória dos filhos» (Pr 17,6). Assim, os fiéis são a coroa de Jesus Cristo, e, por sua vez, Jesus Cristo é a coroa e a glória da Igreja… A quarta coroa é a da sabedoria, da experiência e da prudência. A velhice é, diz Santo Ambrósio, mais branda nos costumes, mais útil nos conselhos, mais apta, por sua constância, a suportar as provações, as aflições e a morte, mais forte para reprimir as paixões, mais adequada à sobriedade do corpo e do espírito. Por isso diz o grande Apóstolo: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (Lib. 4, de Offic.). A quinta coroa é a do grau social e da preeminência; com efeito, a direção e o governo dos negócios são ordinariamente confiados aos anciãos. E o senado deriva precisamente do latim senium, velhice, para indicar um conselho ou assembleia de sábios. «A juventude, diz Plutarco, é apta para obedecer, e a velhice é chamada a comandar; a pátria então está principalmente em segurança, quando é regida pelo conselho dos anciãos e defendida pelas armas dos jovens (Tract. An seni gerend. respect.)». Em geral, os primogênitos sucedem em toda parte a seus pais, príncipes ou reis, no principado ou no reino, ou no governo da família. O vocábulo senior, velho, equivale a dominus, senhor, chefe, amo, vocábulo que os espanhóis conservaram em seu senor; os italianos, em seu signore; os franceses, em seigneur… A sexta coroa é a que cabe ao soldado que cumpriu seu serviço; porque o ancião superou todos os acidentes e as tribulações desta vida e chegou ao termo como vencedor… A sétima, e a mais bela, aquela com que a Escritura cinge a fronte dos anciãos, é a coroa da justiça e da virtude.

Se, como narra a fábula, Hércules mereceu ser coroado pelo povo porque venceu e subjugou os monstros, o leão, a hidra e o Cérbero de três cabeças, com muito mais razão e verdade merece o ancião a coroa, por ter combatido e vencido, como atleta da justiça, os monstros de suas paixões: o leão da cólera, a hidra da avareza e da volúpia, o Cérbero da gula e do orgulho. São João viu no Apocalipse os vinte e quatro anciãos coroados oferecer suas coroas ao Cordeiro (Ap 4,10). Roboão, que, por não ter querido ouvir os anciãos, foi causa da separação das dez tribos e, em seguida, do cisma e de uma multidão de crimes e desgraças, mostra-nos a necessidade de respeitar os anciãos e seus sábios conselhos… É dever sagrado de todos honrar, reverenciar e consultar os anciãos. Quanto mais avançada a idade, maior deve ser o respeito… A idade avançada deve desculpar as fraquezas e enfermidades daquele que a alcançou… Ai daqueles que desprezam ou zombam da velhice!…

2. OS VELHOS DEVEM RESPEITAR A SI MESMOS

«A velhice é coroa de honra, dizem os Provérbios, mas para aqueles que caminham pela via da justiça e da virtude» (Pr 16, 31), de modo que, para eles, a velhice seja aquilo que deve ser, segundo Santo Ambrósio, isto é, porto, não naufrágio, da vida sobrenatural (Epl. 12, ad Valent. Imper.). Feliz a velhice que pode dizer com São Paulo: «Quando eu era menino, falava como menino, pensava e raciocinava como menino; mas, tornando-me homem, abandonei tudo o que era próprio de menino» (1Cor 13, 11). Mais feliz ainda, se puder aplicar a si estas consoladoras palavras do mesmo Apóstolo: «Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Quanto ao mais, aguardo a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia» (2Tm 4, 7-8). Tendo o Papa Gregório XV ido visitar o octogenário Cardeal Bellarmino, que se encontrava no fim da vida, este lhe desejou longos anos, e ainda mais além de sua própria idade; ao que o Papa sabiamente respondeu: desejo ser cumulado e coroado não dos vossos muitos anos, mas dos muitos méritos dos vossos anos.

3. A VELHICE VERDADEIRAMENTE RESPEITÁVEL

Lemos no livro da Sabedoria que é venerável a velhice, não aquela que conta longos anos, mas aquela que se tornou digna de louvor pela virtude e pela inocência de vida (Sb 4, 8-9). E em outro lugar o Espírito Santo chama digna de honra e de glória aquela velhice que se recomenda por muita experiência, unida ao temor de Deus (Eclo 25, 8). Não são os cabelos brancos, escreve Santo Ambrósio, mas a pureza dos costumes que torna venerável a idade avançada. Verdadeiramente honrosa é a cãs que se mostra branca nos méritos, não nos cabelos; pois é venerável aquela brancura da alma que existe na pureza dos pensamentos e resplandece nas boas obras. Com efeito, qual é a verdadeira vida da velhice, senão a vida sem mácula que se prolonga não por dias ou anos, mas por séculos; cuja duração não chega ao fim e cuja longevidade não conhece desfalecimento? É venerável a velhice daquele que viveu sem mancha nas diversas idades que atravessou. As idades medem-se pelos méritos e pelas boas obras, não pelos cabelos brancos (De Cain et Abel, c. III). E ainda: O porto dos velhos seja uma fé viva e o cumprimento da lei divina. A infância seja impregnada dela, a adolescência seja nela educada, a juventude nela envelheça, e a velhice nela se rejuvenesça. Verdadeira velhice é aquela que permanece imune ao pecado (De Abel, lib. 2, c. I).

Oh! se pudéssemos dizer com São Bernardo: «Vemos muitos jovens que superam os velhos em bom senso e se mostram muito avançados em idade por seus costumes puros e severos; antecipam o tempo com seus méritos e compensam, com as virtudes, os anos que lhes faltam (Epl. 42, ad Henric Senonens.)». Feliz é o jovem, exclama Santo Ambrósio, que vive bem, mas mais afortunado é o velho que viveu bem; pois este já alcançou aquilo que o jovem espera; aquele deseja ser o que o velho foi (De Iacob., lib. 2, c. VIII)». Por isso, os Patriarcas, os Profetas e os Apóstolos vivem ainda e viverão no futuro. Sobre os túmulos de todos os Santos pode-se gravar aquele epitáfio do Cardeal Alciati: «Viveram na virtude, vivem na memória, viverão eternamente na glória ― Virtute vixit, memoria vivit, gloria vivet».

«A velhice é a flor da temperança e da prudência», diz Demócrito (PLUTARCH.). Ela consiste menos na idade que na virtude, dizem Pitágoras e Platão (ANTON. In Meliss.).

4. É DESPREZÍVEL A VELHICE SEM BONS COSTUMES

Aludindo àquela palavra de Isaías: «Morrerá menino de cem anos» (Is 65, 20), São Gregório Papa escreve: Pode, na verdade, o menino viver longo tempo, mas, se mancha com o pecado as suas diversas idades e não se arrepende, esses longos anos que a misericórdia de Deus lhe concede crescem em maldição. Quanto mais tempo Deus nos espera, tanto mais devemos necessariamente temer a condenação, por havermos convertido em iniquidade os anos que nos foram dados para a piedade e a virtude; quanto mais tempo tivemos para evitar a morte eterna, tanto mais terrível e funesta será essa morte, por termos abusado e profanado o tempo (Moral. lib. 27, c. VI). ― A quantos velhos se pode dizer: sois meninos de cem anos; sois meninos em tudo, menos na inocência; sois crianças, mas crianças culpadas, malvadas, degradadas, insensatas e desprezíveis. Não é raro que, ao vermos certos velhos, nos venham aos lábios aquelas palavras de Jó: «Esperava que a idade avançada falasse e que a longa vida ensinasse a sabedoria. Mas os mais idosos nem sempre são os mais sábios, nem todos os velhos têm entendimento» (Jó 32, 7-9). A quantos velhos caberiam bem aquelas palavras de Filão: «Até quando nós, velhos, continuaremos sendo meninos? Velhos de idade, crianças de espírito pela ignorância e pela insensatez (Lib. 2, Meliss, c. XVII)».

É espetáculo repugnante ver um velho sentado numa taberna, diz o Crisóstomo: que confusão, que escárnio é para ele mostrar exteriormente uma cabeleira branca e guardar dentro do coração uma alma pueril! Se, nessa idade, não inspirais respeito, como quereis que o jovem honre as vossas cãs? Deus vos honrou, Deus vos deu cabelos brancos, comunicou-vos uma verdadeira prerrogativa; por que traís essa honra? Como a juventude a respeitará, vendo-vos imersos nas indecências? As cãs são veneráveis quando acompanhadas de uma conduta sensata; mas, quando o velho se comporta como um jovem estouvado e leviano, torna-se um ser sumamente ridículo e vil. Como podereis vós, ó velhos, servir de conselheiros aos jovens, se vos entregais à embriaguez e à incontinência? E, enquanto vos acuso e condeno, não acuso nem condeno velhos, mas jovens, porque, se vos comportais mal, ainda que tivésseis cem anos, aos meus olhos não sois senão rapazes e moleques (Homil. 4, in Epl. ad Hebr.).

Hugo de São Vítor compara o velho vicioso aos porcos mergulhados no lamaçal; e, assim como o porco se alimenta de imundícies, do mesmo modo o velho corrompido deleita-se com aquilo que o cobre de ignomínia e pecados (De Impudicit.). E, no entanto, quantos velhos não levam até a morte os delitos de sua juventude e de seus longos anos! Quantos, às iniquidades e aos escândalos das outras idades, acrescentam os pecados e os maus exemplos da decrepitude! Nesses velhos trêmulos, cadáveres de coração ressequido, restos da idade, pasto da morte e dos vermes, não se encontra nem sabedoria nas palavras, nem pudor nos olhares, nem compostura na pessoa, nem recato no porte. O sopro de vida que lhes resta consagram aos excessos da gula, da luxúria e da indolência. E, se já não podem satisfazer os apetites desregrados e as inveteradas concupiscências, não é por falta de vontade, mas de forças físicas; deixam o mundo porque o mundo, desgostoso e nauseado deles, os evita e despreza; mas, no fundo de seu coração perverso, fervem não menos ardentes que antes as inclinações e os desejos do mal… Que vida ignominiosa! Mas que morte espantosa!

Os velhos ignorantes de seus deveres são duas vezes crianças, dizia Platão: quando vêm ao mundo e quando dele partem (De Legib.). Não é porque um homem esteja carregado de anos e traga a fronte sulcada de rugas que se deve dizer que é velho, observa Sêneca; é velho e viveu muito tempo aquele que viveu virtuosamente; caso contrário, deve-se dizer que existiu por longo tempo (De brevit. vitae, c. VIII).

5. VANTAGENS DA VELHICE CRISTÃ

Santo Ambrósio observa que a juventude, que deve atravessar um mar revolto e tempestuoso antes de chegar ao porto, não pode ser chamada feliz e tranquila; ao passo que assim é, na verdade, a velhice, porque já chegou ou está próxima de chegar ao porto. Quanto mais anos conta o homem virtuoso, tanto mais robusto é; e quanto mais piedosa foi a sua vida, tanto mais se aproximou da perfeição consumada (Lib. De Caino et Abel). «Muitas vantagens traz consigo a velhice, observa Santo Isidoro, porque se liberta de tiranos poderosos e cruéis; põe freio às volúpias, quebra o ímpeto das concupiscências; aumenta a sabedoria, sugere conselhos prudentes (Hexamer. c. 7)». O sal da sabedoria conserva a velhice virtuosa, e esta faz dele seu alimento e ornamento. A sabedoria adorna o velho, e o velho honra a sabedoria, pondo em relevo a sua riqueza e a sua glória.

O velho cujos dias são ricos em boas obras está próximo da morte; está prestes a passar da miséria do tempo à felicidade do repouso eterno; está para alcançar o feliz instante que o unirá a Deus e lhe fará gozar para sempre da visão e da glória de Deus. Dentro em pouco despirá esta desgastada e opressiva veste do corpo, para revestir uma juventude eterna, livre de toda perturbação e dor. O Senhor disse a Abraão: «Quanto a ti, irás em paz para junto de teus pais, sepultado em feliz velhice» (Gn 15, 15). A esse respeito, São João Crisóstomo faz-nos notar que Deus não disse: Tu morrerás, mas: Tu irás, como um viajante que sai de seu aposento temporário e provisório para retornar à sua verdadeira pátria. Quem passou sua longa carreira na virtude chega a uma velhice carregada de méritos; parte todo alegre desta vida miserável e vai receber as recompensas eternas (In haec. verba Gen.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.