Tesouro n.º 176 · Volume III

VERDADEIRAS RIQUEZAS RICCHEZZE VERE

1 seção · 5 parágrafos · pp. 2082–2085 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. QUAIS SÃO AS VERDADEIRAS RIQUEZAS E OS MEIOS DE ADQUIRI-LAS

«Se desejais riquezas, ó meus irmãos caríssimos, diz São Gregório Magno, buscai as que são verdadeiras; se ambicionais o auge das verdadeiras honras, aspirai ao reino celeste; se buscais a glória das dignidades, apressai-vos a fazer-vos inscrever na corte celeste (1)». Devemos, diz São Próspero, desejar aquelas riquezas que podem adornar-nos e defender-nos; aquelas riquezas que não podemos adquirir nem perder contra a nossa vontade; aquelas riquezas que nos armam contra os nossos inimigos, que nos fortificam contra seus assaltos, que nos separam do mundo, nos recomendam a Deus, enriquecem e enobrecem nossas almas. Tais riquezas estão conosco, ou melhor, em nós mesmos; não são exteriores nem estranhas (De Vita contempl. 1. 2, c, XIII). Deve ser considerado verdadeiramente rico, diz Santo Ambrósio, aquele que assim aparece aos olhos de Deus; ora, Deus considera rico somente aquele que o é para a eternidade, que acumula tesouros não de riquezas transitórias, mas de virtudes imperecíveis… Não é rico aquele que não pode levar consigo o que possui, porque aquilo que, morrendo, deixaremos aqui embaixo não nos pertence e é coisa estranha a nós (2). Por isso, o Venerável Beda diz: «Todos os bons cristãos são ricos; ninguém se despreze: o pobre de dinheiro, mas rico de consciência, dorme sobre a terra nua muito mais tranquilo do que o rico em leitos de púrpura (3)».

«As riquezas são boas para aquele que não tem pecado na consciência», lemos no Eclesiástico (Eclo 13, 30). Essas palavras querem dizer que as riquezas verdadeiras, boas e úteis consistem numa consciência reta e pura. Tal consciência é sempre rica, sempre jubilosa e contente com tudo… As verdadeiras riquezas são aquelas que satisfazem o espírito e o coração: tornam-nos serenos e felizes; ora, somente a graça e a virtude podem cumular de paz e felicidade a alma e o coração; verdadeiras e próprias são, portanto, somente aquelas riquezas que nos tornam ricos de virtudes (S. GREGOR. hom. 15, in Evang.); e fecundos naquelas obras que procedem da virtude (CLEMENT. ALEX. Strom. l. VI). Também São Bernardo nos assegura que as verdadeiras riquezas não consistem na abundância dos tesouros ou das comodidades terrenas, mas nas virtudes que a consciência leva consigo, para ser rica eternamente (4).

Ninguém é rico, exceto aquele que está livre do pecado mortal, que vive de Deus, para Deus, em Deus, com Deus; porque «assim como Deus possui todas as riquezas, diz São Cipriano, assim como tudo lhe pertence, nada pode faltar àquele que possui Deus, quando ele mesmo não faltar a Deus (5)». Mas, se a verdadeira riqueza está em possuir uma boa consciência, a mais assustadora pobreza reina numa má consciência, numa alma corrompida pelo orgulho, pela impureza, pela avareza, pela cólera e assim por diante. Que riquezas se podem encontrar numa alma privada de virtude, despojada da graça santificante, separada de Deus? Em tal alma residem as paixões, o demônio, os pecados, verdadeiros ladrões que roubam todos os tesouros… Lembremo-nos da sentença de Santo Agostinho, de que as «verdadeiras riquezas são aquelas que não podemos perder quando as possuímos (6)»; e daquelas excelentes palavras de São Próspero: Nossas verdadeiras e sólidas riquezas são: a pureza, que nos torna castos; a justiça, que nos faz santos; a piedade, que nos adorna; a humildade, que extingue o orgulho; a mansidão, que refreia a cólera; a inocência, que nos estreita em amizade com Deus; a prudência, que nos mantém vigilantes; a temperança, que afasta as doenças; a caridade, que nos granjeia as graças de Deus e dos homens. Verdadeiramente rico é aquele que é poderoso na virtude, que despreza o século e se aplica a fazer o bem (De Vita cont. l. 2, CXIII).

O verdadeiro fiel tem para si todo um mundo de riquezas infinitamente preciosas e desejáveis. Com efeito: 1° O universo foi criado por Deus para uso dos fiéis, não dos infiéis… 2° O fiel serve-se de tudo o que há no mundo, não para abusar disso, mas por necessidade, segundo a vontade de Deus e para o seu serviço. Tudo, portanto, serve fielmente ao sábio; o contrário acontece com o insensato. O sol, a lua, a água, o ar, enfim, tudo está a serviço do fiel, que de tudo se serve em consideração a Deus e está contente com tudo… 3° O bom cristão possui tudo, porque despreza tudo por Jesus Cristo; ele está acima do mundo e, mantendo o espírito fixo no céu, despreza tudo o que é terreno… 4° O verdadeiro fiel reconhece, ama, louva e glorifica o Criador em todas as coisas criadas, pois elas existem por causa dele e foram criadas para sua honra. E esse conhecimento, esse amor, esses louvores, esse culto são as verdadeiras riquezas do mundo… 5° O verdadeiro cristão serve-se, de modo ordenado e santo, de tudo o que há no mundo, para a glória de Deus e para a salvação da própria alma. Oh! Como é rico aquele que assim procede! Quão pobre é aquele que procede de outro modo! … 6° O fiel possui a Deus, a quem pertence tudo; possuindo a Deus, possui tudo o que pertence a Deus; possui, portanto, tudo o que há no mundo… 7° Deus prepara para o fiel a bem-aventurança e a glória celeste.

Dessa verdade tiveram um vislumbre os próprios sábios pagãos. Voltemos nossa mente, dizia Sêneca, para as riquezas que são eternas; elevemo-nos ao céu, meditando nas obras de Deus e em Deus nas suas obras (In Prov.). Consultado sobre os meios a empregar para tornar-se rico, Cleantes respondeu: em pouco tempo se torna rico aquele que procura fugir ao domínio das paixões e se isenta dele (STOBEUS, Serm. XCII). O próprio Epicuro disse a Pitocles: Se queres tornar-te rico, não te apegues ao dinheiro, mas trata de reprimir tuas más paixões (Epist.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.