A palavra religião deriva, segundo Santo Agostinho, do verbo ligar ou religar (De Civ. l. X, c. IV). A religião, tomada em seu verdadeiro sentido e considerada em seu objeto, é o conhecimento de Deus e de suas leis; é a observância de seus preceitos, é a fé nele e o culto que se lhe presta… A religião é a relação, o trato que existe entre Deus e o homem… «Toda a religião consiste, diz Santo Agostinho, em imitar aquele Deus que venerais» (De Civ. l. 8, c. XVII); portanto, podemos, com o Nisseno, chamar o Cristianismo de imitação da vida divina (Serm.).
O desígnio da religião cristã é divino. Aquilo que a religião católica, apostólica romana, nos ensina acerca de Deus, do fim último do homem e dos admiráveis meios que conduzem a esse fim é doutrina inteiramente celeste, doutrina infinitamente superior a toda inteligência criada e, portanto, tal que jamais teria sido conhecida, se Deus não a tivesse revelado aos homens. Com efeito, essa doutrina não nos revelou somente aquilo que podia ser compreendido pela razão mais refinada e descoberto por meio da lei natural, mas se estende para além de toda imaginação, ultrapassando esses limites, pois chega a penetrar nos mais profundos segredos da divindade (1Cor 2,10).
Onde está a mente que saberia conceber coisas tão sublimes como aquelas que a nossa religião nos ensina acerca da natureza de Deus? Que Ele existe em três Pessoas; que essas três Pessoas são realmente distintas numa mesma essência; que n’Ele se encontra o ápice de todas as perfeições possíveis, sem nenhuma mistura de defeito ou imperfeição; que Ele é o primeiro princípio e o fim último de todas as coisas; que é absolutamente independente de todos os seres; que exerce um império absoluto sobre todo o universo; que une à mais plena liberdade uma perfeita imutabilidade; que possui a eternidade sem sucessão, a imensidade sem divisão em partes; uma sabedoria infinita, à qual nada está oculto, nem do que foi nem do que será, porque tudo lhe é presente; um poder infinito em suas operações, uma prudência ilimitada no governo do mundo, uma santidade incomparável nos mandamentos que nos dá. E pensar que, na posse desse Ser infinito sob todos os aspectos, a religião cristã estabelece o fim último do homem! Poderia o espírito humano, sem uma revelação divina, imaginar mistérios tão elevados acerca da divindade e um fim tão nobre, tão excelente, acerca do homem?
Pode-se encontrar algo mais santo do que aquilo que a religião prescreve aos homens para que alcancem esse fim último: amar a Deus acima de todas as coisas e referir a Ele todas as nossas ações; amar o próximo como a nós mesmos e tratá-lo como gostaríamos de ser tratados? E, como a natureza corrompida nos conduz continuamente a toda espécie de transgressões que nos afastam de Deus, esta religião nos ordena refrear as nossas paixões, mortificar os sentidos, desprezar as riquezas, não dar importância às honras, que são isca para o vício; e estar dispostos a renunciar ao ganho do mundo inteiro antes que perder a alma. Finalmente, esta religião prescreve tudo o que a humanidade, a piedade, a justiça e a razão exigem do homem; e tudo isso em ordem ao serviço de Deus, ao qual tudo deve ser referido como ao nosso fim último.
E quais meios nos propõe a religião cristã para realizar e consumar a nossa salvação? Meios admiráveis, eficacíssimos e plenamente adequados. A presença de um Deus que vela incessantemente sobre todas as nossas ações e que penetra os mais ocultos esconderijos do coração; a expectativa de um juízo terrível, no qual se prestará contas de todos os pensamentos, não menos que de todas as ações; a justiça e a severidade do supremo Juiz, que não deixará pecado algum sem castigo, nem virtude alguma sem prêmio; a grandeza das recompensas para os justos, a gravidade dos suplícios para os pecadores, e tanto umas como outros por toda a eternidade. Além disso, de quanto auxílio não nos são os exemplos de Jesus Cristo, nosso Deus, nosso Rei, nosso Salvador, que caminha adiante de nós na estrada da salvação, que nos marcou com o seu sangue, que subiu ao céu, onde reinará eternamente, e que, do alto do seu trono, nos convida à coroa e à glória? Repitamo-lo: meios tão adequados, tão eficazes, tão admiráveis poderiam ser invenção humana? E onde poderiam os homens tê-los aprendido, se Deus não lhes houvesse revelado?
Mas não é menos admirável a conexão que reúne entre si todos os mistérios que a religião ensina. Com efeito, se Deus é o primeiro princípio de todas as coisas, segue-se que somente Deus existe desde toda a eternidade; que tirou do nada o universo; que é o único soberano Senhor de todos os homens. Se Deus é o fim último do homem, daí resulta que as almas são imortais; que os corpos ressuscitarão um dia; que não se deve buscar a felicidade neste mundo; que tudo o que nos conduz a Deus deve ser considerado um bem, por maior que seja a dificuldade encontrada, por maior que seja a pena que custe; que tudo o que nos afasta de Deus, seja satisfação intelectual ou sensual, deve ser visto como um mal. Finalmente, nada se encontra na religião católica que não esteja admiravelmente ligado a tudo o mais e que não se refira ao mesmo fim, que é Deus…
Se, além disso, a fé nos apresenta mistérios infinitamente superiores à capacidade de todo intelecto criado, como, por exemplo, o mistério da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo, também isso está conforme à sã razão, porque a razão nos sugere que devemos ter acerca de Deus ideias e sentimentos que superem infinitamente a capacidade natural do nosso espírito; que não sentimos melhor e mais perfeitamente o que Deus é senão quando compreendemos que os seus atributos e as suas perfeições são incompreensíveis a todo espírito humano; que Deus já não seria Deus, se pudéssemos compreender toda a extensão das suas perfeições. E eis o maior motivo de credibilidade e a razão mais invencível que prova incontestavelmente a verdade e a divindade da religião cristã: é a revelação do mistério da Trindade, que nos desvela, de algum modo, o interior de Deus; interior que, não sendo nem podendo ser conhecido por outro senão por Ele mesmo, em vão seriam empregados, para prová-lo e penetrá-lo, todo estudo e todo esforço do intelecto humano, se Deus não o manifestasse aos homens, falando-lhes. Por isso, o verdadeiro fundamento de uma religião verdadeiramente divina e a prova mais inegável de que Deus revelou essa religião está na revelação do mistério, porque ninguém, exceto Ele, poderia tê-lo revelado… E, do mesmo modo, que há de mais conforme à sã razão do que o mistério da Encarnação do Verbo? Não era acaso conveniente que o mediador entre Deus e os homens fosse Deus e homem ao mesmo tempo: Deus, para nos trazer o remédio; homem, para nos dar o exemplo? E disso é fácil compreender quão terrível é a justiça de Deus, se ela não pôde ser plenamente satisfeita por outro senão pelo Homem-Deus. É fácil compreender, em segundo lugar, quão excessiva foi a misericórdia de Deus, pois quis sofrer a morte para resgatar escravos. É fácil compreender, em terceiro lugar, quão admirável é a sabedoria de Deus, que soube transformar o mal em bem e fazer do pecado uma fonte de benefícios e de graças.
Digam-nos os incrédulos de que fonte brotou doutrina tão maravilhosa. Que espírito tão sublime pôde inventar um cristianismo assim? Que gênio tão transcendente e prodigioso soube descobrir todos esses altíssimos segredos da divindade? Mostrem-nos esse homem extraordinário; digam-nos onde nasceu e em que época viveu. Será possível que tenha formado tal desígnio, retirando fragmentos das diversas seitas dos antigos filósofos? Mas acaso não sabe o mundo inteiro que eles jamais fizeram outra coisa senão combater-se e contradizer-se? Porventura puderam eles concordar acerca do fim último do homem, que estabeleceram em coisas vis e vergonhosas? Boa parte das pretensas virtudes deles, das quais faziam tanto alarde, não era, afinal, um requinte de vícios? Que outra coisa produziram as suas escolas senão discípulos vaidosos e corrompidos? E a ciência que ensinaram não é porventura uma ciência puramente humana que, reduzida ao seu verdadeiro valor, deve chamar-se grosseira loucura? Mas a doutrina da religião cristã manteve-se sempre constante, invariável, transbordante de sabedoria inteiramente celeste, conforme em tudo à mais pura verdade e tão admirável em sua moral que, se fosse exatamente observada, este mundo gozaria de paz inalterável… Não resulta, pois, evidente que tal doutrina não poderia ter sido revelada senão por Deus? Que o desígnio de tal religião pertence somente a Deus?
Para prová-lo de modo invencível, limitar-me-ei às profecias e aos milagres. 1° As profecias. Antes de tudo, estabeleço como princípio incontestável que somente Deus pode predizer infalivelmente o futuro, porque somente Ele o vê e pode fazê-lo acontecer; os homens só podem predizê-lo por acaso e por conjectura, porque não veem nem sabem o que há de suceder, nem podem fazer que suceda. Ora, todos os mistérios da religião cristã foram, muitos séculos antes, figurados na religião dos judeus, cuja lei, como diz o Apóstolo, não era senão a sombra da lei futura, não a expressão verdadeira das coisas (Hb 10,1); isto é, o começo de uma lei mais perfeita; e é certo, por todos os oráculos dos Profetas, que todos os mistérios da religião cristã foram preditos até em seus menores pormenores, e de modo tão claro que se diria que os Profetas viram esses mistérios com os próprios olhos (Veja-se, sobre JESUS CRISTO, As Profecias). 2° Os milagres (Veja-se, sobre JESUS CRISTO, os Milagres).
1° Fraqueza dos meios. ― O Evangelista São Lucas nos narra como Jesus, tendo chamado para junto de si os discípulos, escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos (Lc 6,13). Estas palavras são assim comentadas por Santo Agostinho: ― Ó misericórdia infinita do divino fundador da Igreja! Ele sabia que, se tivesse escolhido um senador, o senador diria: foi a minha dignidade que me fez ser eleito. Se tivesse escolhido um rico, este teria visto em sua riqueza o motivo da eleição. Se um rei, este teria acreditado que o seu poder havia determinado a sua escolha. Se tivesse escolhido um orador, este atribuiria o mérito à sua eloquência. Se um filósofo, este atribuiria a sua nomeação à fama de sua sabedoria. Mas que faz Ele? Chama pescadores: vinde a mim, vós que sois pobres, vós que nada tendes, que nada sabeis; segui-me. Por que vos consumis pescando no mar? Eu quero fazer de vós pescadores de homens (Mt 4,19). Os pescadores deixam as suas redes, recebem a graça e tornam-se oradores divinos. Em breve, as palavras dos pescadores serão lidas pelo mundo, e os filósofos e os oradores inclinarão a cabeça.
«Aquilo que o mundo considera loucura, Deus o escolheu para confundir o que há de sábio, dizia São Paulo; e aquilo que é fraco, para derrubar o que é forte; aquilo que é ignóbil, desprezível e inconsistente, para destruir o que é nobre, honroso e sólido, a fim de que ninguém se glorie em sua presença» (1Cor 1,27-29). Deus, ao chamar os homens à fé, à justiça e à salvação, não levou em conta as três coisas que o mundo costuma admirar: a sabedoria, o poder e a nobreza; ao contrário, escolheu três coisas inteiramente opostas a elas: a loucura, a impotência e a baixeza, para mostrar que a sua obra era toda divina. A palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem, diz São Paulo; ela, ao contrário, é o poder de Deus para aqueles que se salvam. Com efeito, está escrito: Eu destruirei a sabedoria dos sábios e porei à prova a prudência dos prudentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o partidário deste século? Não terá Deus reduzido a nada a sabedoria deste mundo? Pois, não tendo o mundo conhecido a Deus por meio da sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem por meio da loucura da pregação. A loucura de Deus é muito mais sábia do que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus vale muito mais do que toda a força humana (ut supra).
Agora, ó Pedro, tu conquistarás os homens, não ferindo-os como feras, mas sem ferida, como se apanham os peixes na rede. Assim, tu conquistarás, tu pescarás os homens, não com armas mortíferas, mas com a virtude e a eficácia do Espírito Santo. Os pescadores apanham os peixes vivos para matá-los e comê-los; tu, ó Pedro, apanharás e transportarás os homens da morte para a vida, tu os alimentarás com a palavra divina e lhes darás a comer a carne de Jesus Cristo. Tu pescarás os mortos e lhes darás a vida; pescarás os homens na água corrompida e envenenada das paixões e dos vícios, que os matou, e os lançarás na onda viva, fresca e vivificante da graça, para ressuscitá-los, lavá-los, fazê-los viver e torná-los bem-aventurados.
A virtude e o poder de Jesus Cristo, segundo a observação do Crisóstomo, resplandeceram não somente em si mesmos, mas também na pregação de seus enviados. Resplandeceram: 1) no fato de que um pequeno grupo de Apóstolos, simples pescadores, pobres, obscuros, sem estudos, de nascimento judeu, sem apoio algum do mundo, todavia submeteu o universo pagão à cruz…; 2) no fato de que aqueles doze estrangeiros venceram os mais aguerridos inimigos: os demônios, as diversas concupiscências, as paixões, os pecados, a morte, o inferno, os reis, os príncipes, os filósofos, os oradores orgulhosos, os gregos, os bárbaros, as leis, os costumes, os juízes, toda espécie de seitas…; 3) no fato de que convenceram os espíritos e deles triunfaram, não com as armas, não com a astúcia humana, não com a eloquência profana, mas com sua simples pregação…; 4) no fato de que, em pouco tempo, espalharam a fé por todo o mundo…; 5) no fato de que, mediante a graça de Jesus Cristo, superaram, com uma vontade perfeitamente submissa e um coração indomável, as ameaças dos tiranos, as pancadas dos algozes, as cadeias, as prisões, as torturas, os cutelos dos carrascos e cem outras provas insuportáveis às forças da natureza, e finalmente a morte…; 6) no fato de que levaram os homens a crer na doutrina não de um Deus todo-poderoso e todo glorioso, mas de um Deus crucificado; fizeram crer nesse crucificado e fizeram-no adorar; fizeram aceitar e praticar a sua lei, contrária e repugnante à natureza e à carne…; 7) no fato de que os lobos se tornaram cordeiros; os perseguidores, vencidos e tornados mansos, fizeram-se defensores da religião…; 8) no fato de que os cordeiros triunfaram dos lobos (De Apostol.).
Ó religião sublime, exclama São Nilo, mais poderosa que os reis, mais régia que a própria soberania! Pois ela derrubava sem armas aquilo que os reis preparavam com as armas; fazia praticar, morrendo no martírio, aquilo que os reis e os tiranos proibiam sob pena de morte, e erguia seus troféus contra seus próprios carrascos, com a morte de seus filhos (Homil. 2, de Christi Asciens.).
Antes de tudo, representai em vossa mente, diz um célebre pregador, qual era a face do universo antes do anúncio de Jesus Cristo: vedes todos os povos enlouquecidos por mil erros, abandonados às paixões mais vergonhosas, imersos na caligem de uma idolatria monstruosa, que colocava sobre os altares um patife, atribuindo-lhe como mérito o ser assassino e adúltero. A madeira, a pedra e o metal eram adorados; as divindades dos pagãos eram monstros de crimes, e assim as queriam os homens corrompidos, para desculpar, com o exemplo delas, os excessos de suas iniquidades. Tudo era Deus, exceto Deus, diz Bossuet, e o universo não passava de um vasto templo de ídolos. Assim erravam quase todos os homens. Ora, em meio àquele cegamento universal, àquela ruína total de todo princípio, àquele dilúvio de desordens, surge o Cristianismo e dirige-se às nações. Ele emprega, para a rápida conquista do mundo, instrumentos de extrema fraqueza, instrumentos que, segundo as aparências, deveriam mostrar-se inteiramente ineficazes, pois que proporção há entre tais instrumentos e o objetivo que se trata de alcançar? Quem acreditará que doze pescadores sejam aptos para a missão que lhes é confiada e que queiram aceitá-la? Que diferença entre o modo seguido pelos grandes conquistadores da Antiguidade e o modo seguido por Jesus Cristo! Para subjugar a Judeia, Holofernes, Nabucodonosor e os romanos põem em campo numerosos e aguerridos exércitos. Para submeter a Ásia, Alexandre marcha à frente de formidáveis falanges; ora, que diriam eles ao verem Jesus Cristo enviar à conquista do mundo inteiro nada mais que doze homens? Nós mesmos, hoje, se considerássemos o fato apenas com as luzes da razão e víssemos esses doze homens lançar sobre as nações um olhar de senhores e dividi-las entre si como herança, tomando cada um para si impérios imensos, reinos vastíssimos e povos inumeráveis, não seríamos tentados a compará-los àquele menino que quisesse pôr, num pequeno vaso, todas as águas do mar?
Mas serão ao menos esses doze homens outros tantos monarcas que tragam na fronte um caráter de grandeza? De modo algum; são gente tirada da escória da plebe, criada às margens dos lagos e acostumada desde a infância a trabalhos obscuros. Mas serão sábios famosos, gênios superiores, capazes de arrastar consigo, encantados por uma eloquência vitoriosa, os povos? Muito pelo contrário; são homens rudes, sem estudos e sem letras, que falam grosseiramente sua língua materna e de outra coisa não entendem senão de redes, cujo manejo ocupou toda a sua vida. Mas serão ricos que acumularam tesouros e sabem distribuí-los a tempo e lugar, para conquistar seguidores? Tampouco; privados de todo bem-estar e até do necessário, não querem possuir coisa alguma. Quereis dizer que sejam invulneráveis e que todo golpe desferido contra eles caia em vão? Segui-os pelas diversas regiões que percorrem, e os vestígios de seu sangue vos servirão de guia; sensíveis à dor como todos os demais homens, morrem entre torturas, nas cruzes, sob os cutelos, em meio às chamas. Viverão ao menos todos juntos num só país, para se ajudarem e apoiarem mutuamente? Não: é verdade que todos têm um só coração e uma só alma e falam como uma só boca, mas voam separadamente de um polo ao outro e, colunas da Igreja, enquanto sustentam o mesmo edifício, mantêm entre si enorme distância. Mas, finalmente, limitar-se-ão a percorrer pequenas aldeias e rudes cabanas? Ah, não! Seu zelo os impele para os centros mais populosos, para o meio das cidades mais renomadas, para os palácios mais suntuosos.
Assim fala São João Crisóstomo sobre este assunto: Eis, diz ele, Pedro que, vestido de uma simples túnica e com um bastão na mão, avança, armado de uma cruz de madeira, em meio a um mundo encharcado de corrupção, em meio a religiões mestras da dissolução. — Aonde vais, ó Pedro? — A Roma. — E para fazer o quê? — Para subjugar a senhora do mundo, derrubar o Capitólio, virar do avesso seus altares, quebrar seus simulacros e fazê-la, apesar de seu orgulho, cair aos pés de um homem crucificado. — Ó céu, que empreendimento! E, para consegui-lo, onde estão teus apoios, teus meios, teus soldados? — Eu não os tenho; se o mundo estivesse comigo, eu estaria menos seguro de vencer; sou invencível porque estou só, porque não possuo outra coisa senão esta cruz de madeira. — Mas falas sério? Quando se viu empreendimento mais temerário e louco que este? — Será temeridade e loucura, como vos aprouver, mas o céu me assegura o bom êxito. Ora, não parece isto uma tarefa superior às forças da natureza? E, ouvindo esse homem de nada falar com tanta decisão e franqueza, vendo-o apresentar-se com tamanha intrepidez e segurança, que pensais? Mas qual não será o vosso assombro quando essas magníficas promessas se cumprirem à risca! Não duvideis: ele as cumprirá, e mais e melhor do que possais imaginar. Enquanto isso, ele entra em Roma; e eu quase vos diria que, à sua aproximação, o Capitólio treme, e os deuses do paganismo balançam, espavoridos, sobre suas bases de pórfiro, pressagiando sua próxima ruína. Chegado a esta metrópole, a esta cidade cheia de orgulho, ele fala, e é ouvido; ensina, e é admirado; ordena, e é obedecido; troveja, e a cruz, este esplêndido estandarte, este sagrado sinal de paz e salvação, tremula em toda a sua extensão sobre as ruínas do paganismo derrubado. Os Césares invejosos haviam jurado destruí-la; e eis este sinal divino a elevar-se acima do trono dos Césares, a cintilar sobre suas frontes, a pousar majestoso sobre os ídolos despedaçados. De modo que se pode dizer, com muito maior razão, de Pedro aquilo que foi dito do primeiro dos Césares: Ele vem, vê e triunfa. Em pouco tempo, os frutos de seu zelo estendem-se às regiões mais remotas, e a voz de Pedro ressoa em lugares onde jamais haviam penetrado as legiões romanas. Depois de mais de seiscentos anos de guerras e combates, Roma não chegara senão a ser a capital de um império; e, em pouco tempo, sob um só homem que nada entende de guerra, torna-se a metrópole do mundo cristão. Haverá, depois disso, algum homem tão ousado que se atreva a afirmar que o estabelecimento de que se trata não é obra de Deus? Que Deus não é o único e verdadeiro autor, vendo, da parte dos homens, meios tão desproporcionados e insuficientes? Não, não; o Rei dos reis não precisa, para cumprir a sua vontade, de nossos débeis auxílios; seu braço basta a si mesmo; e, quando emprega instrumentos fracos para realizar grandes coisas, então mais do que nunca ostenta seus milagres (De S. Petro). E, em outro lugar, o mesmo santo irrompe nesta exclamação: «Ó supremo dos prodígios, ó milagre dos milagres, ver o orbe inteiro acorrer a Cristo, atraído por doze homens pobres e ignorantes! (In Act.)».
Diz Tertuliano de maneira eminente: Salomão reinou, mas dentro dos limites da Judeia, de Dã até Bersabeia. Dario reinou sobre os babilônios e os partos, mas não além. O Faraó reinou, mas somente sobre os egípcios. Nabuco reinou desde a Judeia até a Etiópia. Alexandre não ocupou toda a Ásia. Do mesmo modo, os germanos, os bretões, os gauleses, os mauritanos e os romanos tiveram um limite para seu império. Mas o nome de Jesus e seu império estendem-se por todas as partes do mundo; em toda parte se crê em Jesus; todas as línguas o adoram; todos os povos o veneram. Ele é de todos, rei de todos, juiz de todos, Deus e Senhor de todos; e seu reino é um reino eterno, seu império não terá fim (Lib. Contra Iudaeos). Ó santa e divina religião, possa eu amar-te e praticar-te até o último suspiro! …
Por meio de sua paixão, de sua morte e de sua cruz, Jesus estabeleceu divinamente a sua religião pelo ministério de seus Apóstolos e a conserva pelo de seus sucessores… Quando o povo judeu gritava que o Salvador merecia a morte porque se fizera rei, certamente aqueles furiosos, observa Bossuet, falavam muito mais sensatamente do que pensavam; porque Jesus Cristo deve reinar por sua morte. Quando o vemos levar sobre os ombros inocentes a cruz, todo homem que não seja cristão se espantaria com sua impotência; mas o fiel deve recordar o que dele dissera Isaías: «O seu principado estará sobre os próprios ombros». Esse império, esse principado que ele leva sobre os ombros, é a sua cruz divina. A sua cruz é o seu cetro. Ela convocará e reunirá todos os povos sob o estandarte do Salvador. Escreve, ó Pilatos, em três línguas, este belo título sobre a cruz do Redentor: Jesus Nazareno, rei dos judeus! Sim, a soberania de Jesus Cristo seja escrita em língua hebraica, que é a linguagem do povo de Deus; e em língua grega, que é a língua dos doutos e dos filósofos; e em língua romana, que é a língua do império do mundo. E vós, ó Gregos, inventores e cultores das artes; vós, ó Judeus, herdeiros das promessas; vós, ó Romanos, senhores da terra, vinde, lede esta admirável inscrição, dobrai o joelho diante de vosso rei. Em breve vereis este homem, abandonado por seus próprios Apóstolos, reunir todos os povos sob a invocação de seu nome! Em breve se realizará o que outrora predisse: que, depois de sua morte, atrairia a si todas as coisas e transformaria o instrumento do mais infame suplício em uma máquina celeste para elevar os corações. Em breve as nações incrédulas, às quais estende os braços, virão receber, entre seus paternos abraços, aquele beijo de paz que, segundo as antigas profecias, deve reconciliá-las com o verdadeiro Deus que elas não conhecem. Em breve este crucificado será coroado de honra e de glória, porque, pela graça de Deus, provou a morte por todos, como diz a Epístola aos Hebreus (Hb 11,9). Ele verá surgir de seu sepulcro uma numerosa posteridade, e gloriosamente se cumprirá aquele célebre oráculo de Isaías: «Se sacrificar a sua alma pelo pecado, verá longa descendência de filhos» (53, 10). A pedra rejeitada na construção do edifício será colocada como pedra angular e fundamental, que sustentará todo o novo edifício; e aquele misterioso grão de trigo, que figura o nosso Salvador, tendo caído na terra, multiplicar-se-á em virtude de sua própria corrupção; isto é, o Filho de Deus cairá da cruz no sepulcro e, por um maravilhoso ricochete, todos os povos cairão a seus pés (Sl 44, 6).
E que estas não sejam exagerações nem amplificações, demonstra-o, sem falar de outros textos, somente aquele de São Paulo aos Romanos: «A vossa fé, e, portanto, o culto de Jesus Cristo, é anunciada por todo o mundo» (Rm 1, 8). E Tertuliano, já no século III, dizia altivamente diante dos gentios: «Nós, cristãos, formamos quase a maioria de vossas cidades». ― «Jesus Cristo reina por toda parte, é adorado em todo lugar. É algo maravilhoso de se crer! Não foram os nobres e os imperadores que conduziram a Cristo os simples e os pobres; ao contrário, Jesus conduziu a si os reis pelo magistério dos pecadores» (Apolog.). Os Partos, jamais subjugados pelos Romanos, e os Trácios, impacientes diante de toda lei, submeteram-se voluntariamente ao reino de Cristo. Os Medos, os Armênios, os Persas, os Indianos mais distantes, os Mouros, os Árabes, os habitantes das imensas regiões do Oriente, o Egito, a Etiópia, a África selvagem, os Citas, sempre nômades, os Sármatas, os Getas e todas as demais nações bárbaras no nome e nos costumes foram civilizadas e educadas na modesta e humilde doutrina do Salvador Jesus…
2° Severidade do dogma e da moral. ― E até quando, ó profanos, clamam os Apóstolos às nações pagãs, vivereis vós no erro? Será possível que não cesseis, uma vez por todas, de prostituir o vosso incenso a divindades sacrílegas e mentirosas? Vós ignorais o verdadeiro Deus, e nós viemos para vo-lo ensinar. Esse Deus que reina desde todos os séculos não é tal como o erro vo-lo pinta; seu poder formou todos os seres, sua imensidade abrange todos os lugares, sua sabedoria dispõe todos os acontecimentos. Um dia chamará do sepulcro todos os homens para julgá-los e, segundo suas virtudes ou seus vícios, distribuirá prêmios ou castigos eternos. Esse Deus é único; e, embora seja único, sua essência simples e indivisível contém, em perfeita unidade, três pessoas essencialmente distintas. A segunda dessas pessoas adoráveis, por amor de vós, revestiu-se de carne humana. Esse grande Deus feito homem morreu por vós sobre uma cruz. Mortais, adorai esta cruz, adorai este Deus morto crucificado. Diante de tal visão e de tais palavras, qual não deveria ter sido a surpresa, o espanto, a estupefação do universo idólatra? Como! deveriam exclamar entre si aqueles pagãos, tudo o que tem vida foi tirado do nada! Os mortos ressuscitarão! Para punir o pecado, uma pena eterna! Um Deus único e, contudo, em três pessoas! Um Deus imenso e, no entanto, feito homem! Um Deus adorável e, não obstante, crucificado! Que estranhos paradoxos! São verdades ou são fábulas? E ainda nos pedem que nos sujeitemos a crê-las; será que podemos? Isto quanto aos mistérios e aos dogmas…
Mas ouvi coisas ainda mais duras para a fraqueza humana, contidas na moral apostólica. Os Apóstolos prosseguem: Homens cegos, correis atrás dos prazeres, das riquezas, das honras; sabei que todas essas coisas são precisamente aquelas que deveis desprezar. Quereis ser felizes? Chorai, mortificai-vos, renegai a vós mesmos, crucificai-vos; nisso está a felicidade. Avarentos, dareis os vossos tesouros aos pobres. Vingativos, não vos vingareis, mas perdoareis e retribuireis o mal com o bem. Luxuriosos, vivereis castos. Esta moral inaudita e austera, esses mistérios e esses dogmas incompreensíveis são aceitos, cridos e praticados. Eis o maior dos milagres, milagre que prova com toda a evidência a divindade desta moral e da religião que os ensina…
Se a fraqueza dos instrumentos empregados por Deus para fundar a sua religião, se os dogmas abstrusos e a moral severa que são propostos e recebidos provam claramente a divindade da religião cristã, não menos evidentemente a demonstram os formidáveis obstáculos que ela sempre encontrou e que sempre venceu felizmente… A religião de Jesus Cristo provoca uma revolta geral: calúnias, promessas, artifícios, traições, furores, crueldades, tudo é posto em ação contra ela. Todas as potências infernais e terrenas vêm lançar-se ao mesmo tempo contra Cristo e contra a sua religião. Não, diz a razão, tu não reinarás sobre mim; os teus dogmas e os teus mistérios são incompreensíveis. Não, diz a paixão, tu não reinarás sobre mim; demasiado pesada é a tua moral. Não, diz a política, tu não reinarás sobre os povos, porque tolhes em demasia a sua licença; não reinarás sobre os reis, porque refreias em demasia a sua tirania.
Com efeito, escreve o autor do Ensaio sobre a indiferença, às esplêndidas festas do paganismo, às sedutoras imagens de uma mitologia mágica, à cômoda licença da moral filosófica, a todos os atrativos das artes voltadas para o prazer, o Cristianismo opõe as pompas da dor, as lágrimas da penitência, cerimônias graves e lúgubres, ameaças terríveis, mistérios formidáveis, o aparato assustador da pobreza, a cinza, o cilício, a cruz e todos os símbolos de um despojamento absoluto e de uma profunda consternação. Com efeito, foi isso o que o paganismo viu, à primeira vista, na religião cristã. Então eis que todas as paixões se lançam furiosas contra o inimigo que se apresenta para lhes disputar o império. Os povos precipitam-se em multidões sob a sua bandeira; a avareza arrasta para ela os sacerdotes dos ídolos, o orgulho impele os sábios, a política conduz os imperadores. Então se inicia uma luta espantosa, que não considera idade, não poupa sexo, não olha para condição; as praças, os campos e até os lugares mais desertos fervilham de instrumentos sempre novos de tortura, de invenções sempre novas de morte. Os jogos misturam-se aos massacres; de todas as partes acorre-se apressadamente para gozar da agonia e da morte dos pobres inocentes que são horrivelmente degolados; e o bárbaro grito: ― Aos leões com os cristãos! ― faz palpitar de alegria uma multidão embriagada de sangue. Mas, nesses horríveis holocaustos que o mundo oferece às suas divindades agonizantes, é preciso que cada uma tenha as suas vítimas escolhidas, e uma crueldade engenhosa inventa novos suplícios contra o pudor. Finalmente, cansos, os carrascos param; o cutelo cai-lhes das mãos; mas não sei que virtude celeste, saída da cruz, começa por tocá-los a eles mesmos; seguindo o exemplo de nações inteiras, já subjugadas antes deles, também eles, os dominadores do mundo, caem aos pés do Cristianismo, que, em troca de seu arrependimento, lhes promete a imortalidade e já lhes dá a esperança dela.
Vós, portanto, conspirastes todos juntos, reis, filósofos, paixões, terra e inferno; unistes as vossas forças; o mundo inteiro ressoou com os vossos golpes; agora, qual será o resultado? A cruz domina, erguida sobre as vossas cidades, resplende entre os diamantes na fronte dos vossos reis: vejo frustradas as vossas maquinações, rompidas as tramas, quebradas as cadeias. O glorioso estandarte da cruz, embora dilacerado e ensanguentado, obtém o império do mundo. Vós vos rebelais, ó paixões, vós vos agitais furiosamente, gritando aos quatro ventos que, se o Evangelho for seguido, será preciso estar em contínua guerra consigo mesmo; e, ao contrário, prometeis aos que vos seguem as mais sedutoras doçuras: quem vencerá? A cruz triunfa. Ela não oferece, é verdade, senão um lenho rígido, nós cruéis, cravos enormes, lágrimas misturadas com sangue; contudo, ó paixões, a parte mais nobre do gênero humano encontra na cruz mais atrativos do que em vós e se liberta de vossos braços para lançar-se nos dela. Tiranos, reuni os vossos lictores, armai os vossos sicários, polai as vossas armas, preparai as vossas torturas; de tanta gente que é conduzida diante de vós, uns são afogados nas ondas, outros lançados às fogueiras; estes são dados como pasto às feras, aqueles dilacerados por pentes de ferro; todos expiram entre os horrores de uma morte cruel; mais ainda, a vossa requintada barbárie não derrama o sangue senão gota a gota, para prolongar o suplício dos pacientes; enquanto o Filho de Maria está desarmado e indefeso, vós, cercados de soldados, presidis a execuções bárbaras. Contudo, quem entre vós e ele encontrará seguidores? Quem acabará por triunfar? ― O Cordeiro imolado torna-se o Cordeiro dominador da terra. Generais de exército, governadores de províncias, prefeitos do pretório vêm pedir-vos a morte por amor do Crucificado; e com eles vêm ternos meninos e meninas. Tiranos, em meio ao esplendor de vossa grandeza, sois vencidos por crianças; e vedes crianças não vencidas por vossos algozes. O mundo assiste a um espetáculo jamais visto: torturas e alegria, dores agudíssimas e gritos de júbilo unidos; quanto mais vítimas são imoladas, tanto mais se apresentam, e a Igreja cresce fecunda sobre as próprias ruínas; vogando sobre rios de sangue que jorra das veias de seus filhos, ela é conduzida mais pronta e majestosamente até as extremidades da terra.
Onde estais, ó perseguidores de Cristo? exclama Bossuet; que foi feito daqueles leões rugidores que queriam devorar o rebanho do Salvador? Já não existem; Jesus os pôs em fuga, ou os matou, ou os reduziu, humildes e mansos, a seus pés. Aconteceu-lhes o mesmo que aconteceu a São Paulo, do qual escreve Santo Agostinho: «Jesus fez morrer nele o seu perseguidor e fez nascer um sublime e santo Apóstolo» (De S. Paulo). Assim, aqueles povos bestiais que rugiam como leões contra os inocentes cordeiros do Salvador já não existem, desapareceram; Jesus os feriu no coração. No coração e com o coração insurgiam-se contra ele, e no coração os abateu, ferindo-os com o dardo de seu santo amor. Os inimigos foram derrotados; o Salvador fez deles amigos. Como? Por meio da cruz. O reino que não era deste mundo subjugou o mundo orgulhoso, não com a altivez de um combate, mas com a humildade da paciência. Eu te venero, ó religião santa e divina; os teus triunfos, alcançados por meio da cruz nos primeiros séculos, fornecem-me prova invencível de que tu és a sagrada esposa de um Deus crucificado…
Da cruz parte a luz da verdade e vai iluminar o mundo; diante da montanha sagrada do Calvário, as outras montanhas se abaixam; a nova religião adquire a preeminência. Subsistirá, continuará, durará ela? Um sábio do século responde audaciosamente que não; e, como primeira razão, diz-nos que a atração da novidade, atração invencível e sedutora, cedo ou tarde cessará, e então o homem, não encontrando mais nela nada que o atraia, dela se desgostará; quantos exemplos na história não atestam essa inconstância natural do homem? Como segunda razão, alega que esta religião, sem jamais nada ceder de sua inflexível caridade, combate sem trégua as inclinações, nunca se adapta às tendências, subjuga e refreia a cobiça. Conceda-se que, por ostentação, por fanatismo, por obstinação, se viva algum tempo sob a sujeição e a coação; mas onde está aquele que queira submeter-se por toda a vida a um senhor imperioso e severo? Onde está o homem que escolha, por seu próprio arbítrio, o sofrimento contínuo? A atração do prazer desaparece com o tédio; mas os espinhos da dor sempre pungem numa parte sensibilíssima do homem, e não se adquire o hábito deles; e, visto que a lei cristã incomoda eternamente, deve necessariamente perecer. Acontecerá com ela o mesmo que com aqueles espetáculos que atraem povos inteiros; são grandiosos, são surpreendentes, mas têm um ato final. Assim também se deveria raciocinar e crer acerca da religião, segundo as regras da prudência ordinária. E, contudo, o que acontece? Ela sobrevive a todas as perseguições, a todos os perigos, a todas as ciladas; ela perdura. Tantos célebres prodígios da arte, tantos magníficos palácios, tantos soberbos mausoléus, tantas cidades opulentas e imensas jazem arruinados. Os egípcios, os gregos, os romanos etc. já não existem. No curso de convulsões sociais, leis, costumes, impérios e reinos mudaram ou desapareceram; e, em meio a todas essas ruínas, a todas essas revoluções, a religião não muda, subsiste sempre, a fé é sempre a mesma. Enquanto ao redor dela tudo vacila, desaba e desaparece, enquanto todas as seitas se encaminham ao esquecimento e à dissolução, umas após as outras, a religião católica, apostólica, romana permanece sozinha de pé, inabalável, imóvel, invencível. E de onde vem tudo isso, senão da mão onipotente que a sustenta? Mas, se Deus a sustenta sempre e exclusivamente, não é isto uma prova palpável de que ela é divina, e somente divina; somente ela, obra de Deus, esposa de Jesus?
A religião sempre esteve, em todos os tempos, desde a sua origem, sujeita a provas. Incessantemente agitada por algum furacão, segue o seu destino de nunca gozar aqui embaixo de um repouso perfeito. O orgulho, a libertinagem, a avareza, enfim, todas as paixões coligadas contra ela suscitam-lhe continuamente novas guerras, mas também lhe preparam novos louros. Força prodigiosa da sociedade cristã! A heresia, ora audaciosa, ora insinuante, assume todas as formas, veste todas as máscaras, dobra-se e redobra-se em todos os sentidos para arrancar-lhe os dogmas; mas, sempre invariável em sua doutrina, a Igreja vê os séculos rebeldes expirarem, um após o outro, a seus pés. O espírito de independência, ou a volúpia do domínio, suscita em seu próprio seio divisões, frequentemente seguidas de deploráveis cismas; mas, bem depressa, de suas entranhas dilaceradas, sempre fecundas, saem em multidão novos filhos que a consolam daqueles que perdeu. Príncipes invejosos atentam contra os seus direitos e esforçam-se por violar a divina hierarquia; não obstante as suas violências e os seus ardis, o seu governo, tornado cada vez mais sólido pelos embates que recebe, subsiste inalterável e perpetua-se de geração em geração, em meio à instabilidade e à ruína dos governos humanos.
Ora, digamos com um famoso escritor, o Cristianismo é atacado em sua base. Reconheceu-se que a religião e todos os seus dogmas repousam sobre a autoridade, como sobre um rochedo imóvel; e eis a multidão dos sectários, divididos entre si em todo o resto, unindo-se para arrancar esse fundamento de todas as verdades. A reforma é o seu grito de guerra; ao ouvi-los, vêm libertar a terra dos abusos introduzidos pelo tempo ou pelas paixões e curar o espírito humano dos preconceitos que o obscurecem. Armados com esse sedutor pretexto, multiplicam sem fim as destruições; a supremacia do Papa, o episcopado, a ordem presbiteral, os sacramentos, o culto, as sagradas cerimônias, tudo cai sob o martelo demolidor de seu zelo reformador. Mutilando a fé uns mais que os outros, apressam-se, por assim dizer, a libertar-se do tormento de crer e do tormento de obedecer; em pouco tempo chegam à abolição de todos os dogmas religiosos e sociais, não tardando a proclamá-la em seus símbolos efêmeros. Luteranos, socinianos, deístas, ateus etc., prosseguem, sob esses diversos nomes que indicam as fases sucessivas de uma mesma doutrina, com incansável perseverança, seu plano de ataque contra a autoridade. Negam os mistérios do Cristianismo, negam a sua moral, negam o seu autor, negam a Deus, negam a si mesmos; e aqui termina a razão humana.
Tal é o delírio das opiniões dos inimigos da religião; mas quem pintará a sua raiva frenética? quem contará os seus esforços ímpios? quem saberá repetir as negras conjurações? Insensatos! Em vão atacam uma religião contra a qual não é dado ao homem prevalecer: ela ergue a cabeça coroada de luz, levanta a sua fronte majestosa, marcada por dezoito séculos de nobres cicatrizes; enquanto os seus adversários, rolando de abismo em abismo, percorrendo em sua queda todos os graus do erro, sem jamais deter-se em nenhum, esmagados sob o peso vingador da verdade que blasfemam, precipitam-se e afundam-se no tenebroso abismo do indiferentismo, onde o crime, estupidamente tranquilo, adormece no seio da volúpia, aos pés do espantoso ídolo do nada.
E com que furor não foi perseguida a religião na França, em 1793! Então, sobre os fragmentos do altar e do trono, sobre os ossos insepultos dos sacerdotes e dos reis, inaugurou-se o reino do ódio e do terror, cumprimento espantoso daquela profecia que diz: Um povo inteiro se levantará em grande tumulto contra si mesmo, lançando homem contra homem, vizinho contra vizinho; o jovem se insurgirá contra o velho, e a plebe se atirará contra os grandes, porque levantaram a língua e dirigiram suas invenções contra Deus. Para retratar aquela cena espantosa de desordens e crimes, de dissolução e carnificina, aquela orgia de doutrinas, aquele choque tempestuoso de toda espécie de interesses e paixões, aquela mistura de proscrições e festas impuras, aqueles gritos de blasfêmia, aqueles cantos sinistros e obscenos, aquele ruído surdo e contínuo do martelo que demole, do cutelo que mata; aqueles estrondos tremendos e aqueles mugidos de alegria, lúgubre anúncio de uma grande matança, aquelas cidades desertas, aqueles rios e charcos repletos de cadáveres, aqueles templos e aldeias reduzidos a cinzas, e o homicídio, e a volúpia, e o pranto, e o sangue daqueles dias nefastos, seria preciso tomar emprestadas do inferno as suas cores e de Satanás a sua língua, como alguns monstros lhe copiaram os furores. Tal é uma nação que renega a Deus, que abjura a religião! … E então se acreditou ter destruído a religião cristã; mas ela saiu daquela horrenda tempestade mais radiante de beleza e mais fortalecida em suas forças. Portanto, a religião católica é divina, pois nada pode abatê-la, nada pode abalá-la; pois resiste a todo assalto, supera todo obstáculo, vence todo inimigo, escapa a toda trama, sobrevive a tudo…
1° A idolatria destruída, os pagãos convertidos ao conhecimento e ao amor do verdadeiro Deus, uma inefável santidade de costumes em toda espécie de pessoas, são os efeitos admiráveis que sustentam a divindade da religião católica, apostólica, romana. Essa divindade é demonstrada não menos claramente pelas prodigiosas transformações produzidas pela religião em todos os séculos, pelas obras sublimes de toda espécie que ela criou e manteve… Como não provará esplendidamente a origem divina desta religião aquela multidão inumerável de pessoas de toda idade, sexo e condição, de todos os séculos, de todos os lugares, que, depois de haverem dado adeus a todas as superstições da idolatria, a todas as pompas do mundo, a todas as suas promessas, riquezas, atrativos, prazeres e honras, foram esconder-se nas solidões e nos claustros, para consagrar-se inteiramente a Jesus Cristo, sem contar aquelas outras que, aos milhões, deram a vida e o sangue para não renunciar ao amor deste Cristo?
Santo Agostinho, falando dos convertidos à fé, não hesita em dizer que, se alguém tivesse gritado em alta voz aquelas palavras que já então se pronunciavam na Missa: ― Sursum corda ― «Elevemos os nossos corações»; ter-se-ia podido responder com verdade, de todas as cidades, de todas as aldeias, dos campos, dos desertos, dos montes, das florestas, enfim, de todas as regiões do mundo: ― Habemus ad Dominum ― «Temos os nossos corações elevados ao Senhor». Tanto a religião cristã sabe desprender os homens da terra e prendê-los ao serviço de Deus! (De Civ. Dei).
O que, porém, é mais notável e portentoso é que tais admiráveis transformações tenham ocorrido naquilo que havia de mais mau, de mais vicioso, de mais celerado na raça humana… Com duas ou três palavras de Deus, atesta Lactâncio, os mais célebres facínoras transformavam-se em grandes Santos; viam-se os mais sensuais praticar austeridades surpreendentes, os mais delicados desprezar as torturas e a morte. Todos esses prodígios aconteciam sem força, sem violência, sem armas, sem auxílio humano; e, mais ainda, por meio da pobreza, da humildade, dos sofrimentos, do martírio (Lib. 3, c. V). E não se viram talvez em todos os tempos, e não se veem ainda hoje, os milagres da religião no zelo dos missionários que abandonam parentes, amigos e pátria para partir para regiões desconhecidas, para praias inóspitas, a fim de iluminar os selvagens e conduzi-los ao redil de Jesus Cristo? Não resplandecem talvez esses milagres naquelas multidões de virgens que atravessam os mares e se encerram nos hospitais e nas prisões para salvar almas, para aliviar as misérias espirituais, cuidando das corporais? … Pode-se dizer da religião cristã aquilo que o historiador sagrado observou de Cristo: «Ele passou fazendo o bem a todos» (At 10,38). E, considerando os seus felizes efeitos, os seus inestimáveis benefícios, por que não exclamaremos nós, como outrora os magos do faraó à vista dos prodígios de Moisés: «Aqui está o dedo de Deus» (Ex 8,19)? Observai, diz Tertuliano, vede a impudicícia vencida pela castidade; a incredulidade abatida pela fé; a crueldade destruída pela misericórdia; a cólera extinta pela doçura; todos os vícios derrotados por todas as virtudes (Ap).
2° O cristianismo civiliza o mundo seguindo três vias seguras: 1° civiliza-o fazendo da autoridade algo inviolável e sagrado… 2° fazendo da obediência algo santo… 3° fazendo da abnegação e do sacrifício, ou, para dizer tudo, da caridade, algo divino… O que é o catolicismo? É liberdade, sabedoria, humildade, doçura, caridade, heroísmo…
3° À religião somos devedores da ciência (Ver o artigo IGREJA).
4° À religião devemos o reconhecimento da destruição da escravidão, da verdadeira liberdade, da verdadeira igualdade, da verdadeira fraternidade (Ver o artigo IGREJA).
5° Somente a religião é o socorro e o sustento dos infelizes. Apresentemos também aqui um trecho do autor do Ensaio sobre a indiferença: ― Vinde, segui passo a passo a religião do amor, contai, se puderdes, os benefícios que ela derrama com mão pródiga sobre a humanidade, as obras de misericórdia que somente ela sabe inspirar e realizar e que somente ela pode recompensar. Numa peste que, no terceiro século, massacrou parte do Império Romano, os pagãos, abandonando seus amigos e parentes, nada tiveram mais a peito do que refugiar-se em lugares imunes ao contágio; mas os cristãos, ferozmente perseguidos naqueles dias, firmes em seu posto, assumiram o cuidado de todos os doentes, fiéis e infiéis, e vingaram-se de seus próprios inimigos como se vingam os cristãos, isto é, sacrificando-se por eles. Quantos exemplos semelhantes não registra a história da Igreja! Os discípulos de Jesus sempre cumularam de benefícios os seus detratores: a tal ponto que Juliano, o Apóstata, escrevia a Arsácio: Não é para nós uma ignomínia e uma vergonha que os galileus, além de seus pobres, mantenham ainda os nossos? O cristianismo não degenerou em nada com o envelhecimento; seus anais são uma exposição contínua dos serviços por ele prestados em todas as épocas ao gênero humano. Esse mesmo espírito de amor que realizou tantos prodígios nos primeiros tempos produz ainda hoje outros semelhantes em meio à nossa sociedade. Quem não se lembra, com profunda comoção, daqueles religiosos espanhóis que percorriam as ruas de uma cidade assolada pela peste, tocando uma campainha, para que, avisados de sua passagem, os necessitados pudessem pedir seus generosos socorros? Quase todos morreram mártires de sua abnegação.
Mas, deixando de lado os fatos particulares, que dariam matéria para muitos volumes, não nos lembremos de um São Jerônimo Miani, nem dos Belzunce, nem de Carlos e Frederico Borromeu, nem daquele Vicente de Paulo que, em tempo de calamidade, alimentava províncias inteiras, cuja imensa caridade, atravessando os mares, se estendia até as margens de Madagascar e às florestas da Nova França, e que parecia ter tomado sobre si, sozinho, o encargo de aliviar todas as misérias humanas: homem prodigioso que obrigou seu século a crer na virtude; consideremos somente os estabelecimentos duradouros, os benefícios permanentes da religião. Quem ergueu aqueles asilos salutares para a inocência e para a dor, que os povos aprenderão cada dia a apreciar melhor; aqueles tranquilos retiros para os infelizes, aqueles soberbos palácios, abrigo da indigência; quem, digo eu, os ergueu, os dotou, os protegeu? Não foi acaso a religião católica? Senhora por um instante, a filosofia não soube fazer outra coisa senão acumular ruínas; a razão humana não deixou de pé nada daquilo que a fé havia criado em favor da humanidade. E com que profusão o cristianismo não multiplicara essas comoventes instituições tão eminentemente sociais! Seu número quase infinito igualava o de nossas misérias. Aqui, a filha de São Vicente visitava o velho enfermo, enfaixava-lhe as chagas, falando-lhe do céu; ou, tendo-se tornado, por efeito de uma caridade terníssima, mãe sem deixar de ser virgem, aquecia ao peito o menino abandonado. Mais adiante, a irmã enfermeira assistia e consolava o doente, esquecendo-se de si mesma para prodigalizar-lhe, dia e noite, os cuidados mais penosos e repugnantes. Ali, o religioso de São Bernardo, fixando sua morada em meio às neves, abreviava a própria vida para salvar a do viajante perdido nas montanhas. Padres, frades, monges de todas as ordens, rompendo, por virtude sobre-humana, os mais doces vínculos, partiam alegres e jubilosos para banhar com seu sangue regiões distantes e selvagens, sem outro desejo senão arrancar à ignorância, ao crime e à infelicidade homens inteiramente desconhecidos para eles. Depois de ter fecundado com seus suores nossas colinas incultas, nossas estéreis campinas, o laborioso beneditino, recolhido à sua cela, empenhava-se em desbravar o terreno não menos árido de nossa antiga história e de nossas antigas leis. A educação, a cátedra, as missões: nenhuma obra útil era estranha aos filhos de Loyola; seu zelo abrangia tudo e bastava para tudo. O humilde religioso de São Francisco percorria continuamente os campos, para ajudar os pastores em suas santas funções; descia ao fundo das masmorras, para levar ali palavras de paz às vítimas da justiça humana; e, semelhante à esperança de que era ministro, acompanhando até a forca o infeliz que subia ao patíbulo, partilhava suas angústias, reanimava-lhe a coragem e o fortalecia tanto contra os terrores do suplício como contra os do remorso. Suas mãos compassivas não se afastavam mais, por assim dizer, do desventurado que haviam recebido aos pés do inflexível tribunal dos homens, senão depois de tê-lo deposto aos pés do tribunal do Deus clemente.
Eu jamais terminaria, se quisesse mencionar, ainda que brevemente, todos os serviços prestados à humanidade pela religião católica. Quantas inimizades apagadas, quantos esposos, parentes e concidadãos reconciliados, quantas vítimas arrancadas ao vício, quantas injustiças reparadas, quantas iniquidades impedidas, quantas dores consoladas, quantas misérias secretas suavizadas pelo ministério de seus sacerdotes! Recordei alguns bens trazidos pela religião católica ao gênero humano; eles não são menos grandiosos do que inegáveis; como, então, acontece que uma religião tão favorável à humanidade, mãe da civilização e da ciência, amiga da liberdade, da fraternidade e da igualdade, uma religião que traz alívio a todas as misérias, encontre adversários e inimigos entre os homens? É possível que tanto amor não dissipe os preconceitos e o ódio? Ó Deus! O que suscita esse ódio é a própria beleza, a própria perfeição da lei evangélica. A severidade dos deveres que ela impõe assusta as paixões, faz estremecer o homem carnal; combate-se o bem que ela faz por causa do bem que ordena fazer.
Mas, antes de rejeitar com desprezo a religião, o homem deve aprender a conhecê-la. O desprezo é fácil; é um prazer que a ignorância proporciona ao orgulho a baixo custo; mas seria preciso ainda, levando mais longe o olhar, considerar as consequências desse desprezo e pensar no que se responderá ao supremo legislador, quando ele nos pedir contas. Tudo não consiste em sorrir; também Deus rirá, diz a Escritura (Sl 2,4); mas, no dia tremendo de sua justiça, a criatura rebelde, contemplando a ordem que transtornou e admirando-a com furor desesperado, sentirá que ela é tão conforme à sua natureza, que lhe será menor tormento concorrer para ela com seu suplício do que perturbá-la, se isso fosse possível, com o gozo injusto da felicidade que merece perder. De que adianta iludirmo-nos? Que proveito tiramos disso? E o que é, afinal, esse breve torpor que nos proporcionamos por meio de sofismas embriagadores, comparado ao terrível despertar que o sucede e ao qual nada mais se segue? … Cedamos, portanto, a esta religião tão fecunda em bens, tão perfeita, tão divina; amemo-la, respeitemo-la, pratiquemo-la…