Tesouro n.º 177 · Volume III

RIQUEZAS RICCHEZZE

7 seções · 22 parágrafos · pp. 2085–2096 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. DEFINIÇÃO DAS RIQUEZAS

Segundo Plínio, o vocábulo latino pecunia deriva de pecus, ovelha, porque antigamente as moedas traziam a imagem de um animal (Ita Maxim.). E não sem razão os antigos haviam escolhido, para designar o dinheiro que representa toda espécie de riquezas, a figura de uma ovelha ou de um boi, porque o gado serve a todos os usos do homem: para o trabalho, para o alimento, para o vestuário e para o transporte; por isso o animal de carga se chama assim, porque iuvat, ajuda o homem. Daí já se vê como o dinheiro do avarento inutilmente traria a efígie de um animal de serviço, pois não é útil a ninguém. Um autor dá aos avarentos o nome de mulas, porque são estéreis… Como animais de carga, os avarentos carregam o próprio dinheiro e fazem dele um verdadeiro fardo; mas não desfrutam dele, não sabendo nem gastá-lo nem dá-lo.

2. ESTERILIDADE DAS RIQUEZAS

A fortuna é de vidro, é orvalho, é brilhante, é deslumbrante, mas frágil; quebra-se facilmente, despedaça-se e desaparece… As riquezas são uma sombra fugitiva e vã, não um bem sólido e real. O que há de mais vão e instável do que a sombra? As riquezas enganam os olhos e o espírito pela opacidade de sua sombra. Assim como pela manhã e à tarde as sombras são muito maiores e mais extensas do que os corpos que as projetam, assim também as riquezas são muito maiores na aparência do que na realidade; mostram algo de gigantesco, de feliz, embora, na verdade, não contenham nada de grandeza nem de felicidade, como bem o veem os moribundos, os santos na terra e os eleitos no céu; assim o viu Jesus, que, entre todos os bens da terra, não escolheu para si senão uma manjedoura e uma cruz. As riquezas são chamadas pela Escritura de mentira, engano, falsidade, fascínio, ninharias, bagatelas, bolhas de sabão que, quando apertadas na mão, deixam as mãos vazias na maior necessidade (Sl 75, 6). Quem, dormindo, sonha ter encontrado um tesouro sente grande prazer; mas que amarga desilusão não experimenta ao despertar! Assim acontece com os homens que no mundo são chamados ricos, diz o Salmista: «Ah! Eles padecem fome e sede, exclama o mesmo rei Profeta, enquanto os que procuram o Senhor abundam em todos os bens de Deus» (Sl 33, 11).

«Ora, que farei eu, dizia consigo o rico do Evangelho, pois não tenho onde recolher os frutos de minhas propriedades?» (Lc 12, 17). Sobre estas palavras, São Gregório irrompe nesta exclamação: «Ó penúria nascida da abundância! A alma do avarento se contrai na proporção da fertilidade de seus campos! (1)». Ah! Digamos também com Santo Agostinho: «Toda riqueza que não é o meu Deus é pobreza e miséria. Nada enche a alma senão vós, ó Deus, à cuja imagem ela foi formada. Vós mostrais quão grande a criastes, esta alma racional, pois nada do que lhe é inferior lhe basta; nada a satisfaz, em nada encontra repouso e felicidade, e, portanto, nem sequer em si mesma (2)».

«Ó filhos de Adão, raça de avarentos, clama São Bernardo, que há de comum entre vós e as riquezas terrenas, que não são nem verdadeiras nem vossas? Se são vossas, levai-as convosco na morte (3)». Que é o dinheiro, diz o mesmo Santo, senão terra branca ou amarela, que em si mesma não é nem boa nem má; mas o uso que dele se faz é bom, o abuso é mau, a cobiça é pior, e a usura que dele se obtém é péssima (Serm. 4, de Advent.). «Certamente, a natureza não conhece os ricos, diz Santo Ambrósio, pois gera todos os homens na pobreza, põe-nos todos no mundo nus e nus os recebe no sepulcro (4)». Além disso, o Senhor nos diz que saqueará e entregará às chamas nossas riquezas e nossos tesouros (Jr 17, 3). Cheias de sabedoria cristã são, portanto, estas palavras do Nazianzeno: «É melhor confiar no vento ou nas letras que formamos sobre as ondas do que nas riquezas. Elas vão, vêm, passam de uns para outros, são lançadas ao ar como poeira pelo furacão; dispersam-se e desaparecem como fumaça; zombam do homem como um sonho; não são, em uma palavra, senão sombras impalpáveis (5)».

Segundo o testemunho de Sêneca, Platão não considerava verdadeiros bens as riquezas, que geram tanta cobiça e incitam a tamanha ânsia: são bens imaginários que nada têm de certo e sólido, a não ser que muitas vezes servem de tormento àqueles que as possuem (In Prov.). Em outro lugar, o mesmo autor escreve assim: «Vós considerais homem de valor o rico; ele é um cofre. Dizeis que tem os bolsos bem providos de tesouros; seja: mas é ele avarento ou pródigo? Se é avarento, nada possui; se é pródigo, nada possuirá (6)».

3. PERIGO DAS RIQUEZAS

São João Crisóstomo diz que as riquezas são os anzóis com que o demônio nos arrasta para si (Anton. in Meliss. p. 1.a c. XXXI), por causa dos muitos perigos a que nos expõem. E, de fato, já em seu tempo o Apóstolo São Tiago, depois de exaltar o pobre, porque é rico em fé e destinado a herdar o reino que Deus prometeu aos que o amam, observa que os ricos osprimiam com seu poder, citavam-nos diante dos tribunais e blasfemavam o santo nome que fora invocado sobre eles (Tg 2, 6-7). As riquezas enchem de orgulho a alma do rico, que acredita que tudo lhe é lícito; que pode impunemente dominar os outros; que tudo deve obedecer-lhe; que os pobres são obrigados a permanecer dóceis e submissos a ele. «Ah! Feliz aquele, exclama Menandro, que, tendo riquezas, sabe conservar a própria alma! (7)».

As riquezas são: 1° uma tentação e uma prova, assim como a beleza numa mulher é tentação para um coração corrompido. Portanto, quem deseja enriquecer deseja aventurar-se ao risco de naufragar. Como poderá o rico evitar o mal, encontrando-se continuamente em gravíssimo perigo de cair nele? … 2° As riquezas são uma força, um impulso, um meio terrível de pecar; não queremos negar que também são um instrumento para fazer o bem, mas acontece com muita frequência, dada a miséria e a fraqueza humanas, que alguém delas se serve para cometer ou fazer cometer o mal, e rarissimamente o bem. É coisa extraordinária e portentosa tocar o fogo e não se queimar; recolher espinhos e não se ferir; carregar pedras cortantes e não se lacerar nem se arranhar. Ora, as riquezas são fogo, espinhos e pedras, diz Hugo de São Vítor (De Anima). O ouro é para o homem como o fogo é para o ouro; o fogo prova e purifica o ouro; o ouro prova e purifica o homem; com esta diferença: o fogo refina o ouro e o liberta das misturas que lhe diminuem o valor, ao passo que o ouro mancha o homem e o torna a mais vil, a mais desprezível das criaturas, quando este lhe prende o coração. «E que espécie de riquezas são estas, diz Santo Agostinho, que fazem com que temas até o teu servo, suspeitando que ele te mate, te roube e fuja? Se fossem verdadeiras riquezas, dar-te-iam segurança (8)».

A pintura e a escrita representam a fortuna: 1° como cega e surda, e assim ela é, de fato; 2° sob a aparência de uma mulher leviana; 3° em meio às tempestades do mar; 4° exposta aos ventos sobre áridos rochedos, ou no cume de um monte sobre o qual frequentemente cai o raio; 5° fazendo girar uma roda como um animal cego; 6° sentada sobre um corcel ágil e impetuoso, que vence a mão e derruba aquele que o monta. A fortuna, diz Plínio, é invocada no mundo inteiro, por todos os homens, a todas as horas, por todas as bocas; só se pensa nela, só ela é nomeada, só ela é acusada; só ela é condenada; somente ela é louvada, somente ela é chamada a responder por tudo; embora por ela sejamos açoitados, insultados, ludibriados e escarnecidos, ainda assim a seguimos, a acariciamos e a cultivamos. É julgada instável, vagabunda, inconstante, incerta, variável, amiga de gente desonesta; e, no entanto, a ela se consagram todos os cuidados, a ela se entrega tudo o que se tem: corpo, alma, tranquilidade, repouso, felicidade, saúde e vida (Anton. in Meliss.). Não se poderia dizer isso nem melhor nem com maior justiça.

4. DESGRAÇA DAS RIQUEZAS

«Vamos, ó ricos, diz São Tiago, chorai e lamentai-vos nas infelicidades que cairão sobre vós. Vossos tesouros apodreceram, e as traças roeram vossas vestes. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram, e essa ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo; acumulastes um tesouro de ira para os últimos dias. Ouvi como o salário que defraudastes aos ceifeiros que ceifaram vossos campos clama contra vós, e esse clamor penetrou nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Vivestes na terra em meio à moleza e às delícias, e alimentastes vossos corações como em dia de sacrifício. Condenastes e matastes o justo, e ele não vos resistiu» (Tg 5, 1-6). Observai a que conduzem as riquezas, segundo o Apóstolo: 1° apodrecem…; 2° os vermes as devoram…; 3° a ferrugem as consome, e depois essa mesma ferrugem servirá para vos condenar e devorará vossas carnes como fogo…; 4° proporcionam um tesouro de ira para o dia do juízo…; 5° muitas vezes tornam injustos…; 6° alimentam a preguiça e a volúpia, e fazem do rico uma vítima engordada para o inferno…; 7° tornam-no opressor do pobre… De modo que lhes convêm as palavras do Salmo 72: «Senhor, ao conceder riquezas, estendeis armadilhas aos ricos; vós os esmagais em vez de elevá-los. Como caíram tão depressa na desolação? Desfaleceram num abrir e fechar de olhos, pereceram» (18-19).

Escreve Santo Agostinho: «Os bens terrenos não cessam de nos estimular a adquiri-los, de nos corromper quando chegam, de nos atormentar quando se vão; desejados, murcham; obtidos, perdem o valor; perdidos, desaparecem (9)». Ah! com razão Jesus chama às riquezas espinhos (Mt 13, 22); e São João Crisóstomo nos adverte de que, quando ficam encerradas, rugem como leões e põem tudo de pernas para o ar (10). Em outro lugar, o mesmo Doutor faz delas este retrato tão vivo quanto verdadeiro: As riquezas não são um monumento de glória, mas de avareza; são pesadas cadeias e cruéis tiranos para aqueles que delas fazem mau uso; são feras, tigres em jaula, víboras e escorpiões ocultos; são alcoviteiras da corrupção. Seus frutos, numerosos e todos amarguíssimos, são desgostos, agitações, aborrecimentos, lágrimas, aflições, suores, insônias e semelhantes. Elas são fontes de opróbrio; nunca permanecem com aquele que as possui, deixando-lhe apenas a amargura do fel que delas goteja. São perigosas para o seu senhor; são a mãe de todas as loucuras; são um tirano que confisca toda liberdade; formam a estirpe e a família de Satanás: jamais proporcionam verdadeira consolação, a não ser quando são derramadas no seio dos pobres (Anton. in Meliss. p. 1a; c. XXXI).

Não é diferente dos doutores cristãos, neste ponto, a linguagem dos filósofos pagãos: «Que é a riqueza? — diz Quílon — é, a meu ver, o tesouro dos males, a companheira das calamidades, uma causa de iniquidade (11)». São um véu para esconder mil misérias, diz Eusébio (12). Por isso Xenofonte chamou, com frase enérgica, o rico e o ignorante de imundícies prateadas (Anton. in Meliss. p. 1.a, c. XXXI). Pode-se dizer, escreve Sêneca, que os ricos possuem as riquezas, assim como dizemos que alguém tem febre, quando, falando corretamente, deveríamos dizer que a febre o possui, porque a febre domina o enfermo, e não o enfermo a febre. Assim acontece com os ricos: as riquezas os possuem, atormentam-nos, afligem-nos. Esse rico que julgais feliz muitas vezes se lamenta, suspira, geme, sofre, é infeliz; muitos o seguem, mas como as moscas ao sabor do mel; os lobos, ao fedor das carniças; as formigas, ao odor do grão; toda essa turba segue e persegue a presa, não o homem (Epist. CXIX). Plutarco observa que, assim como as longas túnicas dificultam o andar ligeiro, também as riquezas são grande impedimento para a alma se elevar. Um bom cavalo não é julgado como tal por seus belos arreios, mas por sua bondade natural; nem o homem é julgado honesto por possuir riquezas imensas, mas porque e na medida em que se mostra dotado de boas qualidades (In morib.). «Nu vim à luz — cantava Luciano — e nu partirei dela; por que, então, suar em vão, vendo que a morte nada me deixará? (13)».

5. AS RIQUEZAS SÃO FONTE DE PAIXÕES E DE DELITOS

É veríssima a sentença de São Basílio: «As riquezas são as ministras do vício» (In Psalm.); com efeito, nelas estão o foco e a fonte do orgulho, da vaidade, da ambição, da avareza, da gula e da impudicícia. As riquezas conduzem ao luxo; o luxo, à luxúria; a luxúria, à indiferença; a indiferença, à incredulidade; a incredulidade, ao ateísmo; oferecem forte estímulo e frequente ocasião para resvalar na injustiça, na fraude, no roubo etc. O rico que mantém o coração em seus cofres é incapaz de compreender e saborear as coisas celestes. Confirma-o São João Crisóstomo: «As riquezas geram o luxo e toda sorte de iniquidade; fomentam a concupiscência e a libertinagem; são as alcoviteiras de todos os vícios, as protetoras de todos os prazeres nocivos; as inimigas da continência, as adversárias da pudicícia; são ladras de todas as virtudes. E até quando, portanto, servirá o ouro de laço para a alma, de anzol para a morte e de incentivo para o pecado? (14)».

«De nada aproveitarão os tesouros da impiedade», lemos nos Provérbios (10, 2). O Sábio chama às riquezas tesouros dos ímpios no mesmo sentido em que Jesus Cristo as chamou moeda da iniquidade (Lc 16, 9); isto é, porque 1° as riquezas são frequentemente fruto de injustiças; 2° porque são ocasião, estímulo e matéria para muitas iniquidades; 3° porque são falazes, enganadoras, vãs, caducas, não verdadeiras, não sólidas, não reais; 4° porque somente os cegos de espírito e os pecadores podem considerá-las desejáveis; sendo-lhes desconhecidas as riquezas espirituais, celestes e eternas, que ninguém pode roubar, e que são as únicas preciosas, as únicas desejáveis… Por grandes que sejam os tesouros terrenos, pouco aproveitam; frequentemente prejudicam, sempre trazem perturbação ao espírito, inquietude e aridez ao coração… Clemente de Alexandria compara-as à serpente e diz que quem as maneja sem mil cautelas bem depressa sente sua alma enlaçada entre suas espiras e mordida por seu dente venenoso (Strom. lib. III).

As riquezas facilmente levam seus apaixonados possuidores a negar a religião, seus dogmas e sua moral; ou, o que é mais frequente, a negligenciá-la, a não se importar com ela, a não praticá-la. Elas desviam — e quantos! — de pensar em Deus, no juízo e no inferno, para que não haja freio que os impeça de se entregarem, sem temor e sem remorso, às próprias paixões, aos instintos desregrados… «A pobreza — observa São João Crisóstomo — impede de se lançarem ao mal os mesmos que o desejariam e os obriga a permanecer nos limites da virtude. Ao contrário, as riquezas quase impedem de viver na pudicícia e na temperança até mesmo aqueles que desejam manter-se puros e temperantes; pervertem-nos, desencaminham-nos e os sujeitam a inúmeras misérias morais (15)». A mesma coisa nos diz também a resposta dada por um filósofo ao imperador Adriano, que lhe pedira sua opinião acerca da riqueza e da pobreza. A riqueza — disse ele — é um peso de ouro, uma inveja insaciável, um desejo inexplicável, uma concupiscência invencível. A pobreza é um rico dom que se olha com maus olhos; é a mãe da saúde, a liberdade do espírito, o caminho da sabedoria, a felicidade sem inquietação (Anton. in Meliss.). De que servem as riquezas ao insensato — diz Fílon — se ele não pode adquirir a sabedoria? (Lib. de Joseph).

«Meu filho — diz o Sábio —, se és rico, não estás livre do pecado» (Eclo 11, 10). «Feliz o rico — exclama o mesmo em outro lugar — que foi encontrado sem mancha, que não correu atrás do ouro e que não pôs sua esperança no dinheiro e nos tesouros! Onde está esse homem? Mostrai-no a nós, e nós o aplaudiremos; porque fez coisas maravilhosas no tempo de sua vida. Foi posto à prova do ouro e permaneceu intacto; terá glória eterna. Por isso seus bens foram consolidados junto ao Senhor, e toda a assembleia dos santos proclamará suas esmolas» (Ib. 31, 8-11). A Escritura declara que não encontrou outros ricos sem culpa, exceto aqueles que deram esmolas generosas… Raramente os ricos estão livres de pecados de injustiça, de orgulho e semelhantes; mais raramente ainda se encontram entre eles os que estão contentes com o que possuem; raríssimos, enfim, são aqueles que não põem sua esperança no dinheiro e não prendem nele o coração. Por isso o Espírito Santo fala disso como de um prodígio raro, estupendo, perfeito. Quem é este homem, e nós o louvaremos? Porque operou maravilhas. — A primeira maravilha é esta: contra a inclinação comum dos homens, não ama o ouro… A segunda maravilha é que não corre atrás nem vai à procura do dinheiro; quando muito, deixa que o dinheiro venha até ele… A terceira maravilha é que não se tranquiliza, como faz o mundo, em seu ouro, mas somente em Deus… A quarta maravilha é que o rico, posto à prova com o ouro, permaneça e seja encontrado perfeito. Grande prodígio é que um jovem, colocado em meio às seduções do século, não sofra tentações ou não sucumba a elas; mas não é menor milagre nadar nas riquezas sem ficar preso nem corrompido por elas.

Concede o Crisóstomo que as riquezas não são um pecado, mas adverte que é pecado não distribuí-las aos pobres e fazer mau uso delas. As riquezas são, em sua opinião, as secretas dissipadoras das virtudes e jamais proporcionaram bons costumes. A ânsia pelas riquezas é o arsenal e a cidadela de todos os vícios; não permite que o homem se dedique às boas obras; é um tirano que oprime tudo quanto lhe está submetido. Quem acumula tesouros faz aliança com o pecado e põe toda a sua esperança no lodo da terra. As riquezas fornecem os meios para o mal, preparam para seus possuidores os tormentos do inferno; não as deixeis aos filhos, se desejais deixar-lhes a virtude; deplorável é a sorte daqueles que morrem deixando tesouros, porque não souberam obter nenhuma consolação com seu dinheiro, não tendo feito dele bom uso (16). Quão fácil é que isso aconteça! Já Deus fazia frequentes queixas disso na antiga Lei. No Deuteronômio, por exemplo, dizia do povo judeu: «Engordou, rebelou-se; tornou-se gordo, farto, rico, abandonou a Deus, seu criador, afastou-se de Deus, sua salvação» (Dt 32, 15). Pela boca de Jeremias, queixa-se de que os principais de seu povo, depois de engordarem seus cofres e dilatarem seus campos, transgridem sua lei com obras detestáveis, não julgam a causa da viúva, não defendem a do órfão, não fazem justiça aos pobres (Jr 5, 28, 29). Ah! na maioria dos casos, as riquezas são precisamente aquilo que Diógenes chama: «Véus para encobrir as deformidades da maldade» (In Maxim.).

6. AS RIQUEZAS SÃO ORDINARIAMENTE A PORÇÃO DOS INIMIGOS DE DEUS

«Eis — dizia o Salmista — que esses ímpios, esses homens do século, aumentam suas riquezas; mas Vós, ó Senhor, armastes um laço à sua perversidade; fizestes de sua elevação o princípio de sua ruína. Desapareceram como um sonho ao despertar; e, quando despertardes os mortos, desprezareis a sua sombra… Como caíram tão depressa na desolação? Desfaleceram de repente, pereceram por causa de sua malícia» (Sl 72, 12, 18, 20; 82,19).

É certo que, feitas poucas e honrosas exceções, em geral há que lamentar que os ricos levem vida ociosa e inútil e empreguem mal suas riquezas. Como, contudo, neles ainda existem algumas virtudes naturais, Deus as recompensa com a abundância da terra. E nisso consiste toda a sua recompensa; eles não amam senão a terra, e nela recebem toda a sua recompensa: recompensa deveras pobre e vã! Tremei, pois, pela vossa sorte, ó ricos! «Ai de vós — exclama Jesus Cristo —, ai de vós, ó ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós que estais saciados, porque tereis fome!» (Lc 6, 24-25). Vivendo na abundância, os ricos julgam poder prescindir de tudo o mais, até mesmo de Deus. Sou rico — diz aquele que possui terras, casas, propriedades e ouro —; de que preciso? De nada. E não considera que o Senhor já lhe respondeu no Apocalipse: «Oh! quanto és digno de compaixão, tu que te vanglorias de ser rico, enquanto Eu te digo que, na realidade, és miserável, pobre, nu e cego» (Ap 3, 17). Deve-se acreditar mais na palavra de Deus ou na do homem? … Aos ricos sem entranhas para com os pobres, a esses ricos demasiado apegados aos bens da terra e demasiado afastados da virtude e de Deus, está reservada a sorte do rico do Evangelho. Do inferno, para onde também irão como ele, pedirão socorro, mas, como ele, ouvirão responder-lhes: «Lembra-te, filho, de que recebeste os bens que amavas enquanto vivias sobre a terra» (Lc 16, 25).

As riquezas tornam ainda infelizes os seus possuidores, porque de modo algum conquistam o amor dos outros… Todos esses pretensos amigos dos ricos, que se mostram tão dedicados a eles, não passam de parasitas, amantes não do rico, mas de sua fortuna… «Ó! Quantos, exclamava Isócrates, são parentes do dinheiro, e não do homem que o possui!» (In Aegynetico) … Quantos herdeiros não invejam e odeiam os ricos, quantos não esperam impacientemente por eles, e apressam com seus votos a sua morte! E, uma vez descidos ao sepulcro, quem poderá dizer as amargas invectivas, as maldições, os sarcasmos com que se dilacera a sua memória? Com razão Plutarco chama às riquezas: «Penhores de injúrias» (In Morib.).

7. MEIOS PARA SER VERDADEIRAMENTE RICO

Antes de tudo, é preciso não pôr o coração nas riquezas, quando estamos em condição de possuí-las (Sl 61,11). Quem sabe moderar-se na abundância e contentar-se com pouco, esse é verdadeiramente rico, em qualquer estado em que se encontre. Eis por que o Sábio pedia a Deus que não lhe desse nem pobreza nem riqueza, mas somente o necessário para viver; para que não fosse levado pela saciedade a negá-lo e dizer: Quem é o Senhor? ou constrangido pela indigência a roubar e a profanar o nome de Deus (Pr 30, 8-9). O mesmo sentimento exprime São Paulo, quando escreve: «Tendo o que comer e com que nos vestir, contentemo-nos com isso» (1Tm 6, 8). Bem mostrava saber onde se encontram as verdadeiras riquezas, quando afirmava de si mesmo: «Sei viver com pouco e viver com muito; tendo passado por tudo, sei moderar-me em tudo, sei adaptar-me a comer e a padecer fome, a viver na abundância e a sofrer privações» (Fl 4, 12).

«Se desejas possuir tesouros, diz Santo Ambrósio, procura os invisíveis e escondidos, que encontrarás não nas entranhas da terra, mas no céu. Sê pobre de espírito, isto é, humilde, e serás rico; porque a verdadeira vida rica do homem não consiste na abundância dos bens terrenos, mas na virtude e na fé; estas são as riquezas que te tornam verdadeiramente rico. De qualquer modo, serás riquíssimo, se fores rico em Deus (17)» … O verdadeiro rico é aquele que molda a própria vida segundo o ensinamento de São Paulo a Timóteo: «Ordena aos ricos deste mundo que não se ensoberbeçam em seus pensamentos, nem depositem sua confiança em tesouros incertos, mas no Deus vivo, que nos proporciona abundantemente aquilo de que necessitamos; que se enriqueçam de boas obras, dando com facilidade e repartindo os seus bens com aqueles que deles carecem, e que ajuntem um bom tesouro para o futuro, a fim de alcançarem a vida eterna» (1Tm 6, 17-19).

«As riquezas dos sábios são a sua coroa», dizem os Provérbios (14, 24). As riquezas convertem-se em matéria de glória para o sábio, cingem-lhe a fronte e adornam-lhe a cabeça à maneira de um diadema: 1° Os sábios merecem semelhante coroa, que neles resplandece. 2° As riquezas estão bem e felizmente colocadas nas mãos dos sábios, porque alcançam o fim para o qual Deus as criou, isto é, serem distribuídas em esmolas e empregadas em outras boas obras. Com efeito, nesse caso as riquezas são instrumentos do bem; nas mãos dos maus e dos insensatos, porém, servem de instrumento para muito mal… A glória das riquezas não resplandece em mesas magníficas, mas nos auxílios distribuídos aos pobres… Os tesouros dispensados aos miseráveis são nossos e nos salvam; acumulados e guardados, escapam-nos e conduzem-nos à perdição. Diz-se de Pitágoras que governar as riquezas sem uma boa dose de sabedoria e prudência é tão difícil quanto dominar sem freio um cavalo indômito e impetuoso (Anton. in Meliss.). Também o Crisóstomo diz: As riquezas, enquanto permanecem fechadas nos cofres, são leões rugidores; mas, se as trouxerdes à luz e as colocardes no seio dos pobres, transformam-se de feras em cordeiros; deixam de ser para vós causa de naufrágio e fazem-se para vós porto de tranquilidade e paz (Anton. in Meliss., p. 1.a, c. XXXI). Se as riquezas fossem dotadas de inteligência, razão e palavra, fugiriam dos insensatos, dos ímpios, dos avarentos, dos libertinos e dos usurários; voariam para junto das pessoas sensatas, piedosas e desinteressadas, clamando: Nós não queremos habitar com os maus, com os ímpios, com aqueles que nos profanam e prostituem, mas com os santos; não queremos permanecer fechadas nos cofres dos avarentos, mas queremos ser derramadas no seio dos pobres. Fazem-nos violência e injúria quando caímos em mãos indignas e ineptas; e somos condenadas a uma execrável escravidão quando somos obrigadas a servir à avareza, ao orgulho, à gula e à impudicícia. Vinde, ó santos, vinde, ó misericordiosos, vingai-nos, tirai-nos desta cruel e vergonhosa escravidão, para que sejamos santificadas convosco e tendamos ao nosso fim, servindo à misericórdia. Sim, tal é o nosso fim, o nosso desejo, a nossa felicidade; para isso fomos criadas por Deus… 3° Porque o sábio usa das riquezas como senhor e como rei; o insensato, o avarento, porém, serve-se delas como escravo. O sábio possui o ouro; o tolo é possuído por ele. E assim, no sábio, o ouro é uma coroa na cabeça de um príncipe; no insensato, é uma cadeia pesada e vergonhosa… Os sábios, que sabem usar digna e justamente das riquezas, são honrados por elas e tornam-se mais santos, mais sábios e mais misericordiosos; mas os avarentos, que delas se deixam dominar, tornam-se mais tolos e quase loucos, diz o Crisóstomo (Homil. de Avarit.). 5° Finalmente, as riquezas são a coroa do sábio, porque, gastas por ele em boas obras, preparam-lhe no céu aquelas coroas imperecíveis que Jesus Cristo, no dia do juízo, atribuirá e dará somente aos misericordiosos (Mt XXV).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.