Vaidade, segundo a própria expressão do vocábulo, significa coisa vã, fútil, inútil, sem valor algum; coisa que desaparece… A vaidade é coisa vazia, que só pode agradar às pessoas vãs, as quais, por isso, são miserável joguete do erro e da mentira.
«Enganosa é a graça e vã a beleza», dizem os Provérbios (Pr 31,30). A graça exterior é chamada pelo Espírito Santo de mentirosa, falsa, enganadora e vã, porque 1° dura pouco e não confere mérito a quem a possui; 2° porque atrai, seduz e conduz à ruína principalmente as mulheres que se deixam vencer por ela; torna-as orgulhosas, caprichosas, desregradas, enche-as de apetites perigosos e de maus desejos. As mulheres vaidosas raramente são castas; tentam a si mesmas; tentam os insensatos; são tentadas pelos corações perversos.
Que são a beleza, a graça, os adornos, que constituem tão grande parte e origem da vaidade? Respondam por mim os filósofos e os Padres. A vaidade é um engano, diz Teofrasto (ANTON. In Meliss., c. LX); é coisa triste e desgraçada, diz Eurípides (In Helena); é um fogo que queima as pessoas dominadas por ela e as que delas se aproximam, diz Xenofonte (Lib. de Amore). Esopo adverte-nos a não olhar para a forma exterior, mas para a alma (Ita Maxim. serm. XLIV); pois as almas simples, diz Próculo, ignorando onde se encontra a verdadeira beleza, admiram as formas físicas e naufragam (Lib. de Anima). Sócrates vê na vaidade o tirano da juventude e recomenda fugir das pessoas por ela dominadas, como se foge da mordida de animais venenosos (ANTON. In Meliss., c. LX).
A beleza, da qual se extrai tanto motivo de vaidade, é uma flor que desabrocha pela manhã e à tarde cai murcha; é coisa passageira, diz Tiraquelo, que rapidamente nos foge, que cai, que passa como o relâmpago; que corre precipitadamente como uma torrente; que desaparece no mesmo instante em que se mostra (Lib. 2, Connub., c. II); é joguete das doenças e do tempo (GREGOR. NAZ. Orat. XXXI); segundo a sentença de São Jerônimo, tem por efeito fazer esquecer a razão (ANTON. In Meliss., c. XL). Uma só é a cor que nos deve agradar, escreve o citado Nazianzeno, e é aquela que provém do pudor; uma só brancura é estimável, e é aquela que produz a abstinência (1).
«Nunca te vanglories de tua vestimenta», lemos no Eclesiástico (Eclo 11,4); pois, como explica São João Crisóstomo, aqueles que andam orgulhosos envaidecem-se de uma coisa que os vermes produzem e devoram (Homil. ad pop.). As vestimentas são as cicatrizes do pecado. Quando o homem vestia o rico e precioso traje da inocência, essa veste lhe bastava… Orgulhar-se das peles animais com que somos obrigados a nos cobrir é gloriar-se do próprio pecado, da própria vergonha e degradação… «Se caminho na vaidade, dizia Jó, meu pé logo resvala no erro e no engano» (Jó 31,5).
Chamaríamos de louco ou insensato, escreve Sêneca, aquele que comprasse um cavalo olhando apenas para o freio, a sela e os arreios, sem considerar e examinar a estrutura e a robustez do corpo; tal é aquele que não presta atenção senão às roupas e estima o homem apenas pelas vestimentas. E um rei? Pode ser escravo (Lib. 2, Epist. XXXVII). Por isso, é muito sensato aquele dito de Platão a um de seus discípulos, que cuidava excessivamente do adorno do corpo: «E quando, ó miserável, deixarás de construir para ti uma prisão? (2)».
O pavão está vestido de esplêndidas penas, mas tem a cabeça pequeníssima; assim, a pessoa vaidosa mostra ter espírito pequeno e cabeça vazia. «Andaram atrás da vaidade, e tudo neles é vão» (2Rs 17,15). «E até quando, ó filhos dos homens, tereis o coração insensato? Por que amar a vaidade e abraçar a mentira?» (Sl 4,3). Insensatos! Vós vos gloriais de uma sombra; o culto da carne tira a beleza da alma; um corpo que resplandece lança sombra e obscurece a alma. Quanto mais bela é uma alma, tanto mais feio vê o seu corpo e o despreza… Se uma mulher é verdadeiramente bela, observa o Crisóstomo, os excessivos adornos e as vaidades obscurecem-lhe a graça; se é feia e deformada, o requinte das vestimentas torna-a repugnante e torna mais visível a sua deformidade; converte-se em objeto de riso, e o mundo não se ocupa de seu adorno senão para torná-la ainda mais ridícula (Lib. de Virg.).
E depois, que vergonha, exclama São Bernardo, não é para um cristão procurar falsos requintes enquanto vê Jesus coroado de espinhos? (3). Isso demonstra que não se tem nem razão, nem sentimento, nem visão, nem ouvido, nem coração, nem religião, nem compaixão… «É uma loucura, dizia já Clemente de Alexandria, cingir a cabeça de flores enquanto sabemos que Nosso Senhor está coroado de espinhos; isso é um insulto à sua venerável Paixão (4)».
Por tudo quanto já foi dito, vê-se quão cegos são aqueles que amam a vaidade, pois se prendem a um fio de erva, a uma flor do campo, cuja vida é de um dia (Tg 1,10). Que coisa ridícula e insensata tomar motivo de vaidade das vestes e, por isso, julgar-se alguém importante, ou considerar grande aquele que anda ricamente vestido! Com efeito, 1° como já observamos, a veste é a pena e o indumento do pecado. Adão, no feliz estado de inocência, não tinha senão essa inocência por manto — e como era rico e esplêndido! Um rei que estivesse justamente entre grilhões não seria de modo algum honrado, mas antes desprezado, se estivesse preso com correntes de ouro; a menos que fosse louco, não se vangloriaria de semelhantes correntes; pois, embora de ouro, seriam sempre correntes; antes, justamente por serem de ouro, lembrar-lhe-iam mais vivamente e com maior dor a sua antiga soberania e a desgraça de ter caído de tão elevada posição em estado tão vil, a ponto de estar encarcerado, torturado, privado da liberdade, da glória e da luz. Assim, quem veste roupas ricas e elegantes deve corar e entristecer-se, porque essas vestes não são senão o testemunho de sua queda, o véu de sua vergonhosa nudez, da concupiscência, o símbolo do pudor e da beleza perdidos, uma lembrança contínua e um cruel castigo da derrota que lhe foi infligida pelo demônio… Muitas vezes, ainda, sob ricos tecidos de seda, sob braceletes, colares, diamantes e ornamentos preciosíssimos, escondem-se grandes deformidades, ignomínias torpíssimas, enormes iniquidades. Os delicados perfumes podem não raro ser indício de paixões ignominiosas, segundo aquele dito: ― Cheira a pecado quem sempre exala perfumes.
2° A primeira veste que cobriu Adão depois de sua queda era feita de simples folhas de árvore, e simples foram também as vestes que o próprio Deus deu a Adão e Eva, dizendo o Gênesis: «O Senhor Deus fez para Adão e para sua mulher túnicas de pele e vestiu-os com elas» (Gn 3,21); para ensinar ao homem que a veste lhe era dada somente por necessidade, e não como motivo de vaidade, pois era e haveria de ser para sempre o humilhante símbolo da culpa, da penitência e da mortalidade.
3° O modo de vestir dos Patriarcas, dos Profetas, de Jesus Cristo, da Imaculada Virgem Maria, de João Batista, dos Apóstolos e de todos os Santos, em todos os tempos, lugares e condições, foi sempre simples e modesto.
4° Os ornamentos com que, por vaidade, se enfeitam as vestes são coisa efeminada, indício certo de leviandade, fraqueza, pobreza de caráter…; os próprios pagãos o reconheceram. Diógenes chamava de ovelha, de velo de ouro, a um rico tão vazio de espírito quanto adornado de esplêndidas vestes (LAERTIUS, c. VI); e Demonax, a um homem que se pavoneava com seu rico traje, disse: Pobre cego, a ovelha trouxe esta veste antes de ti, e, contudo, não era senão uma ovelha (Ibid.): «Tu chamas boa a uma espada», escrevia Sócrates, «não porque tenha o cinturão de ouro e a bainha cravejada de diamantes, mas se for de bom aço e bem afiada. Num esquadro, considera-se que seja reto, não que seja elegante. Um inseto será sempre pequeno, ainda que esteja no cume de uma montanha; um colosso conservará sempre sua grandeza, ainda que esteja num poço (5)».
Por que adornar e embelezar tanto um corpo que dentro em pouco será pasto dos vermes? um ser que é quase semelhante ao nada, cujos dias passam como a sombra? (Sl 143,4). Por que cultivar tanto uma sombra, um sonho, um mensageiro que foge velozmente? (CHRYSOST. Homil ad pop.). Com razão o Salmista rogava ao Senhor que não o deixasse contemplar a vaidade (Sl 118,37). O esplendor e o luxo nas vestes são lepra que devora o corpo, a alma, os bens, a virtude, a saúde e a salvação.
Nas vestes deve-se buscar abrigo contra o frio e a nudez, e não a cor, a elegância, o fausto; deve-se atender à necessidade, e não à vaidade; à utilidade, e não à forma: «Não andeis atrás das coisas vãs, diz o Espírito Santo, que não vos podem aproveitar nem livrar, precisamente porque são vãs» (1Sm 12,21): «pois, diz São Bernardo, por que embelezas e cuidas tanto daquela carne que dentro de poucos dias será alimento dos vermes no sepulcro? (6)».
A vaidade sempre foi e sempre será o sinal de uma alma baixa, vil e dominada por paixões torpes; e uma alma assim não merece porventura desprezo? «Quanto mais uma mulher se esforça por se arrumar e vestir luxuosamente para exibir-se, tanto mais Deus a despreza», escreve Santo Ambrósio (7); ela é, com efeito, algo de odioso e desprezível tanto aos olhos de Deus quanto aos dos homens sensatos. Àqueles que se fazem escravos da vaidade podem ser dirigidas estas invectivas de Isaías: «Ponde-vos à mó; descobri os ombros; será desnudada a vossa ignomínia e exposto o vosso opróbrio; eu me vingarei, diz o Senhor, e quem poderá resistir-me? (Is 47,2-3). O excessivo cuidado com a vaidade produz e, ao mesmo tempo, revela um grande esquecimento, uma deplorável negligência, uma absoluta nudez da alma. Por isso São Paulo nos adverte a não acariciarmos a carne em seus desejos (Rm 13,14). «O empenho em adornar o corpo indica, segundo São João Crisóstomo, uma deformidade interior; e o amor por esse empenho manifesta a carência e a indigência espiritual; a suntuosidade, o luxo no vestir, prova a nudez da alma. Com efeito, é impossível que cuide de sua alma aquele que tem todo o coração empenhado em procurar a beleza e o ornamento do corpo (8)».
«Filho do homem», disse um dia Deus a Ezequiel, «rompe o muro e observa as torpezas vergonhosas que ali dentro se cometem». E, tendo eu entrado, vi imagens de toda espécie de répteis e animais, a abominação e toda sorte de ídolos, pintados ao redor de todo o muro» (Ez 8,8-10). Tal é o estado de uma alma cuja ocupação é a vaidade… Ela se assemelha a um sepulcro bem adornado, que encerra podridão, insetos, ossos descarnados e cinza… É uma bela estátua de gesso vazia, em cujo interior se aninham répteis repugnantes… É o deus Bel, que Nabucodonosor adora, mas que Daniel lhe mostra não ser, por dentro, senão um bloco de barro.
São Jerônimo observa que, enquanto Madalena foi cortesã, vestia-se com fausto e vaidade; mas, depois de ser lavada por suas lágrimas aos pés de Jesus Cristo, já não se adornou com nenhum traje vão. E quanto mais descuidada aparecia em suas vestes, tanto mais bela era interiormente. Um ornamento vão não vem do Senhor, mas oculta um inimigo de Cristo (9). «Tu adornas o teu corpo», escrevia São Bernardo, «e não te preocupas em adornar com boas obras a tua alma, que deverá ser apresentada a Deus pelos Anjos no céu? Por que vilipendiar a tua alma e preferir-lhe a carne? É enorme abuso que a senhora sirva e a serva mande (10)». São Gregório diz: «Não nos ocuparíamos tanto em embelezar este miserável corpo, se a alma não estivesse vazia de virtude!» (Moral.).
«O traje do corpo», lemos no Eclesiástico, «o riso e o porte do homem dão a conhecer quem ele é» (Eclo 19,27). A vaidade prova o vazio do coração, atesta que a alma perdeu todas as suas riquezas. «Quanto mais desejados são os adornos exteriores, tanto maior dano causam ao interior», diz Santo Agostinho; «quanto menos se procuram os belos costumes, tanto mais o homem se adorna deles (11)». E como poderia a alma não ser esquecida e negligenciada, quando não se pensa senão na vaidade, enquanto essa paixão é inimiga de todas as virtudes? O amor de Deus, a caridade, a humildade, a paciência, a prudência, a obediência etc. já não encontram lugar num coração inteiramente ocupado pela vaidade… Como poderia uma pessoa vaidosa atravessar o rio do tempo sem naufragar, carregada como está do peso dos ornamentos profanos? Quem quer navegar com facilidade não se sobrecarrega de ouro e de vestes…
Ao ver as pessoas todas empoadas, enfeitadas e adornadas, sente-se quase a tentação de dizer que Deus, ao fazer o homem, não soubesse o que estava fazendo, pois essas pessoas querem refazer-se. «Há alguns», diz São Gregório, «que julgam não haver pecado no amor à vaidade e ao luxo no vestir. Mas, se não houvesse nenhum mal, certamente Jesus Cristo não teria tomado o trabalho de informar-nos de que o rico que gemia no fundo do inferno andava todos os dias vestido de púrpura e linho fino. Com efeito, ninguém procura vestes preciosas senão por vanglória (12)». A vaidade é uma espécie de apostasia… É uma dupla idolatria; o homem vaidoso adora a si mesmo e quer ser adorado.
Se um pintor talentoso pintasse um quadro, e um artífice incompetente procurasse refazê-lo com outras cores, o pintor se ofenderia com tamanha insolência. E Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança, não se indignará com o vaidoso que quer mudar a sua obra, e não o castigará severamente? … Quer-se ser mais hábil que Deus. Pobre humanidade! E o que resulta disso? Deus já não reconhece a sua obra, despreza-a, rejeita-a, amaldiçoa-a… A serpente foi a primeira a querer pôr a mão sobre a imagem formada por Deus em Adão e Eva; apagou os traços do pincel divino, que eram os lineamentos da inocência; e vós sabeis no que se tornou aquela imagem…
Encontramos na Escritura um emblema das pessoas dominadas pela vaidade, e podemos julgar o que valem quanto ao pudor, à modéstia e à continência. No Apocalipse, no capítulo 17, lemos que um Anjo transportou São João para um deserto e ali lhe mostrou uma mulher sentada sobre uma besta de cor escarlate, cheia de nomes de blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres. E aquela mulher estava envolta em púrpura e escarlate, coberta de ouro, pedras preciosas e diamantes, e trazia na mão uma taça de ouro, cheia das abominações e das fornicações de sua impureza; trazia gravada na fronte a palavra: Mistério (Ap 17, 3-5). As pessoas vaidosas estão no deserto, porque despojadas de virtude, afastadas de Deus, dos Anjos e dos Santos, abandonadas pela graça… Vão montadas na vaidade, besta de sete cabeças, porque facilmente da vaidade se passa aos sete vícios capitais; de dez chifres, porque a vaidade calca aos pés os dez mandamentos de Deus… Tal alma é um vaso transbordante de impureza e abominações… Traz o nome de Mistério, porque o coração escravo da vaidade é um mistério de impureza que não se deve perscrutar… A vaidade é a fumaça da impureza; e, assim como a fumaça precede e segue o fogo, assim a vaidade precede e acompanha a incontinência. Essas duas paixões, a vaidade e a luxúria, são duas irmãs nascidas juntas e inseparáveis.
A mulher se veste e se enfeita por vaidade; quer igualar a magnificência dos altares, diz o Salmista (Sl 143,12)… E para que fim? Para seduzir, atrair, corromper os corações e fazer-se adorar; para fazer-se olhar e desejar pelos homens. Ora, São Paulo diz: «De quem procuro eu a aprovação? Talvez dos homens, e não de Deus? A quem procuro eu agradar? Talvez às pessoas? Se, contudo, procurasse agradar às pessoas, não seria servo de Jesus Cristo» (Gl 1,10). Portanto, segundo a sentença do Apóstolo, desde o momento em que alguém quer agradar à criatura, desagrada ao Criador… Tudo aquilo que se emprega para alimento da vaidade é, ordinariamente, indício da dissolução dos costumes… Se vos agrada andar perfumados, diz o Crisóstomo, ungi-vos com o celeste perfume das virtudes. É coisa impura o empenho em perfumar o corpo, porque os perfumes do corpo e das vestes fazem suspeitar que a alma esteja infectada e corrompida. Quando o demônio encheu uma alma da imundície da vaidade, leva-a a alisar o próprio corpo com unguentos (Concion. 1, de Lazaro). Diógenes dizia a um homem que passava o tempo perfumando-se: Cuidado para que o odor de tua cabeça não revele o fedor da corrupção de tua vida (Ita LAERT. c. XVI). Oh! a quantas mulheres se poderia dirigir a repreensão que o Crisóstomo já fazia a uma que ia à igreja toda adornada de enfeites e flores: «Vais tu ao templo para dançar ou para dar espetáculo de ti mesma?» (In Moral.).
«Não detenhas os olhos numa mulher vestida com vaidade», diz-nos o Espírito Santo (Eclo 9,8). A mulher maquiada é um ídolo impuro. Diz São Cipriano: «Os trajes luxuosos e os vãos adornos são coisas de cortesãs… As virgens enfeitadas provocam náusea e repugnância; aquelas que usam vestes de púrpura e seda não podem revestir-se de Jesus Cristo; as que resplandecem de ouro, pedras preciosas e joias perderam os ornamentos do coração e da alma… As mulheres, quando querem reformar e transformar aquilo que Deus fez, estendem a mão insolente sobre o próprio Deus; e não sabem, pobres infelizes!, que tudo quanto nasce é obra de Deus, e que toda mudança nele introduzida é obra do demônio. O Senhor diz: Não podeis tornar um cabelo branco ou preto, e vós, para contradizer a sua palavra, julgais fazer melhor do que ele? Não temeis, vós que assim procedeis, que, no dia da ressurreição, o vosso Criador não vos reconheça e vos rejeite, impedindo-vos de participar de suas promessas e de seus prêmios? Não temeis que, com a severidade de um censor, vos diga: Esta obra não é minha, esta imagem não é nossa! Empastastes a pele com unguentos, tingistes os cabelos de uma cor falsa, disfarçastes o rosto com a mentira, corrompestes a aparência com formas estranhas; o vosso rosto me é desconhecido! Não podereis ver a Deus, porque os vossos olhos não são aqueles que Deus fez, mas aqueles que o demônio profanou (13)».
Enquanto uma alma é pura e casta, não dá atenção, antes despreza os adornos exteriores; uma vez manchada, procura enfeitar o corpo. Quando uma alma é adornada de virtudes, o corpo é menos cultivado, e anda vestido de modo mais simples e modesto; quando o corpo está vestido luxuosamente, a alma é negligenciada e coberta de farrapos. Os adornos habituais da alma e do corpo são incompatíveis entre si, como a luz e as trevas. Aqui se pode dizer: «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24). Não se pode adornar simultaneamente a alma e o corpo. Ou se pensa naquela e se negligencia este; ou se cuida deste e se esquece daquela. Adornar a própria carne significa amá-la, e amar a carne significa amar a impureza; amar o corpo é, portanto, odiar a alma e a virtude, seu mais belo ornamento.
Esse era também o sentimento de alguns pagãos. O imperador Augusto dizia: «Um traje esplêndido e afeminado é o estandarte do orgulho, o ninho da luxúria (14)». Entre os Lacedemônios, as mulheres honestas vestiam-se com simplicidade e sem ostentação; o uso de vestes ricas e suntuosas era permitido somente às cortesãs…
As pessoas que gostam de se vestir e exibir-se por vaidade são, ordinariamente, pródigas e dissipam seus bens em despesas excessivas, inúteis e ruinosas. Ai do marido de uma mulher amante das modas! Ai dos pais cujos filhos seguem as vaidades do século! Tais famílias serão reduzidas à miséria em poucos anos. Plauto diz que uma mulher vaidosa e um navio nunca estão suficientemente equipados: quem, portanto, procura ocupações e cuidados, case-se com uma mulher amante do luxo ou equipe um navio (ANTON. In Meliss.). A vaidade é uma venda sobre os olhos; uma cadeia aos pés, visco nas asas; transtorna o cérebro, enfraquece o vigor da alma, até que ela cai e morre. É um ladrão doméstico que rouba a fortuna e o sono; gera a aflição, o desgosto, a desonra, os tormentos da consciência… A mulher vaidosa mata a si mesma e aos outros; e tantas vezes se mata quantas procura sacrificar os outros a si mesma… Ela atenta contra a paz, a tranquilidade e o bem-estar da família; destrói a união, a força, a concórdia, a saúde, a consciência, a virtude, a reputação, a alma, a sociedade e a casa; faz perder a saúde, o céu, Deus e a eternidade; lança a si mesma e arrasta os outros aos braços da morte do corpo e da alma, do tempo e da eternidade.
Tertuliano investe vigorosamente contra o luxo no vestir e o uso desmedido de adornos vãos e supérfluos. Ele ensina: 1° que a pureza não consiste toda na integridade da carne, mas também no vestir simples e modesto…; 2° que o luxo é indício de uma consciência manchada e incentivo às tentações para os espectadores…; 3° que a vaidade desfigura, corrompe e transforma a imagem de Deus, e de certo modo repreende o próprio Deus, como se ele tivesse se enganado em sua obra…; 4° que as cores dos vestidos, o ouro e as pedras preciosas com que são bordados são invenções do demônio…; 5° que tal culto é coisa de pagãos e de escravos de Satanás…; 6° que todos esses vãos adornos são a ostentação da prostituição…; 7° que os cristãos são chamados não à moleza e ao luxo, mas à penitência, às tribulações e às provações. Diz ainda que as mulheres deveriam, em seus vestidos, chorar e expiar a ignomínia e o pecado de Eva, sua mãe (Lib. de Cultu foeminar.). Em outro lugar, o mesmo autor assim lhes dirige a palavra: Vós, ó mulheres vãs e levianas, portas pelas quais entra o demônio, sois as primeiras a desertar da lei divina, sois os carrascos e os assassinos do homem, dais a morte ao Filho de Deus. Com vossos adornos, convidais ao pecado; sois uma espada exterminadora. Como podereis observar a lei de Deus, enquanto desprezais suas ameaças e seus juízos? Ressuscitareis com esta seda, com esta púrpura, com estas caudas, com estas quinquilharias? O tempo é breve e precioso, diz o Apóstolo; por que desperdiçá-lo em vaidades e frivolidades? (De Habitu mul.).
Já São Paulo lamentava, em seus dias, que algumas mulheres, por causa da vaidade, haviam se desviado e retornado ao seguimento de Satanás (1Tm 5,15). «Cuida para que, caminhando carregada de ouro, não tropeces no ladrão», escrevia São Jerônimo (Epistol.). As mulheres amigas da vaidade são escravas do demônio; com efeito, é o demônio, diz São Cipriano, que lhes ensinou a preparar unguentos, maquiagens, enfeites, braceletes e toda espécie de ornamentos vãos (De Discipl. et Habitu Virg.). A mulher vaidosa não é uma mulher, mas uma brasa ardente que acende o fogo da concupiscência no coração dos inexperientes.
A mulher vaidosa anda vestida como meretriz, dizem os Provérbios; tem o coração cheio de artimanhas, é leviana, lisonjeira, tagarela, não consegue permanecer quieta em sua casa. Ora nas ruas, ora nas praças, ora nas vielas, estende suas redes, prende com seus discursos, atrai com suas galanterias; com modos graciosos, arrasta aos grilhões; é uma flecha que atravessa o coração; abandona muitas vítimas às dores; derruba até os mais fortes. Ela ronda pelas vias do inferno, desce às cavernas da morte (Pr 7). A mulher amante da vaidade adorna-se mais do que permitem sua condição e sua fortuna; por vezes veste roupas transparentes, indecentes, que exalam luxúria; não dá atenção ao pudor, calca aos pés a modéstia; em suma, cobre-se, diria o Salmista, com um manto de iniquidade (Sl 72,6). As modas imodestas das mulheres são espinhos que ensanguentam as almas, anzóis que atraem aqueles que os contemplam, acorrentam-nos e os arrastam à mais torpe e degradante escravidão. Tal criatura é preparada de propósito por Satanás para caçar as almas e matá-las. Sua língua, sua leviandade, seu vestir escandaloso, seu porte imodesto, seus olhares maliciosos, seu sorriso sedutor: tudo nela é perigoso, tudo é diabólico e traz a morte. Sua intenção, sua vontade é fazer o maior número possível de vítimas… Fugi dessa serpente insidiosa! … Vendo o santo Bispo Nonno como Pelágia atraía para si todos os olhares da cidade e procurava seduzir com seu luxo desenfreado, irrompeu em copioso pranto; perguntado sobre o motivo, respondeu: Dois pensamentos me arrancam esse pranto dos olhos: um é a perdição dessa mulher e das almas que permanecem seduzidas; o outro é que, levando eu o nome de cristão, não procuro agradar tanto a Deus com minha inocência quanto essa mulher se empenha em ganhar o favor dos homens com seus vergonhosos artifícios. Pelágia, convertida pelas lágrimas e pelas orações desse grande Santo, tornou-se também uma grande santa. Mulheres vaidosas, Pelágias pecadoras e carnais, imitai Pelágia em sua conversão e tornai-vos santas (Ap. Iacob. diacon.)… Lembremo-nos todos de que, no dia de nosso batismo, à pergunta do sagrado ministro: Renuncias a Satanás, às suas vaidades e às suas pompas? — respondemos: Renuncio. Esta é uma promessa sagrada feita por nós pelos padrinhos, que nos impõe a obrigação sagrada e rigorosa de cumpri-la.
Deus nos assegura, pela boca de Davi, que odeia e abomina os adoradores das vaidades, do nada (Sl 30,7); protesta, pela boca de Sofonias, que visitará em sua cólera aqueles que vestem trajes estrangeiros (Sf 1,8); e manda anunciar-lhes, por Ezequiel, que os abandonará nas mãos dos estrangeiros, os quais farão deles o uso que se faz de coisa suja; e desviará deles o olhar (Ez 7,20-22). E já no Deuteronômio havia dito: «Eles me provocaram e me irritaram com suas vaidades; pois bem, para castigá-los, acendi em minha indignação um fogo que os queimará até as entranhas do inferno. Amontoarei sobre eles uma série de males e esvaziarei contra eles a aljava de minhas flechas» (Dt 31,21-23).
Isaías, depois de ter ameaçado com ais aqueles que arrastam a iniquidade atrás de si por meio das longas cadeias da vaidade (Is 5,18), diz: porque as filhas de Sião se ensoberbecem de orgulho e vaidade, porque caminham com o peito estufado e altivo, afetadas nos olhares, batendo o calcanhar e movendo os passos cadenciadamente, o Senhor descobrirá sua fronte soberba e as despojará de seus cabelos. Tirar-lhes-á os ornamentos dos calçados e as lunetas; as joias de pérolas, os colares, as pulseiras e as toucas; as coroas, as grevas, as correntinhas, os brincos, os anéis, os enfeites pendentes da fronte; os vasinhos de perfumes, as mudas de roupas, as mantilhas, os véus cândidos, os alfinetes, os espelhos, os linhos finíssimos, as faixas e as vestes de verão. E, em vez de aromas suaves, terão fedor; em vez de cinto, uma corda; em lugar dos cabelos anelados, a calvície; e, por faixa peitoral, o cilício (Is 3,17-24). O Profeta volta outra vez a anunciar, em nome de Deus, à mulher vã e amante do luxo e dos adornos, que sua ignomínia será desvelada e seu opróbrio tornado público; que dois males cairão de uma só vez sobre ela: a esterilidade e a viuvez; e que não poderá defender-se deles com prestígios ou encantamentos. O mal a atingirá sem que ela perceba de onde vem; a calamidade cairá sobre sua cabeça, e ela não poderá desviá-la (Is 47,1-3, 8-13).
Ó que terrível conta não terão de prestar a Deus aquelas desgraçadas filhas do demônio, que se esforçam, com sua culpável vaidade, por seduzir as almas, devastar a vinha do Senhor e aniquilar os bons efeitos do sangue de Jesus Cristo! …
São Paulo ensina qual deve ser o traje das mulheres cristãs: «Quero que as mulheres se apresentem vestidas convenientemente, adornadas com pudor e modéstia, não com cabelos anelados, nem com vestidos de luxo, cravejados de ouro e diamantes» (1Tm 2,8-9). Tertuliano diz: Mostrai-vos vestidas com os ornamentos dos Apóstolos; tomai da simplicidade a sua candura, da pureza a sua reserva; pintai os olhos com a cor da modéstia; escutai em silêncio a palavra de Deus; usai como manto o jugo de Jesus Cristo. Cobri a cabeça de méritos, e tereis um magnífico penteado. Trabalhai com as próprias mãos a lã e o linho, e ocupai-vos de todo outro trabalho próprio de mulher; mantende os pés em casa, adornai-vos com a seda e a púrpura da probidade, e vos asseguro que sereis mais elegantes e mais preciosas do que se estivésseis cobertas de ouro (De Habitu mul.). Com efeito, observa São Cipriano, «a pudicícia não se ocupa de ornamentos; ela mesma é ornamento. É a honra dos corpos, o ornamento dos costumes, a santidade dos sexos, o vínculo do pudor, a fonte da castidade, a paz do lar, o princípio da concórdia (15)».
«A verdadeira beleza é a da alma», diz São Gregório Nazianzeno (ANTON. In Meliss. c. LX). «A beleza, escreve São João Crisóstomo, não consiste na elegância das formas corporais, mas está inteiramente nos bons e modestos costumes» (Id. ibid.). «O verdadeiro ornamento dos cristãos e das cristãs são, diz Santo Agostinho, os bons e puros costumes» (Epl. 37, ad Possid.); São Clemente de Alexandria exorta os homens a difundirem o odor da probidade, não o dos perfumes; quer que as mulheres tenham o perfume de Cristo, não o dos unguentos (16). As vestes, o ouro e a prata estão sujeitos à deterioração e à destruição, observava já o Crisóstomo; mas quem está revestido de virtude possui uma veste que não pode ser danificada nem pelos vermes nem pela morte. E com toda a razão, pois as almas têm sua origem no céu (Homil. XL 7, ad pop.).
«As filhas da Babilônia, diz São Bernardo, vestem púrpura e seda, mas sua consciência é imunda e sórdida; resplandecem de joias, mas estão sujas nos costumes. Ao contrário, as filhas de Sião vestem-se com simplicidade, mas resplandecem pela integridade dos costumes (17)».
O espelho das mulheres deve ser a vida da Bem-aventurada Virgem Imaculada, na qual brilham, segundo a expressão de Santo Ambrósio, a beleza da castidade e o fulgor de todas as virtudes (Exort. ad Virgin.).
«O espelho das mulheres, diz São Gregório, são os mandamentos de Deus, nos quais as almas santas mantêm sempre os olhos fixos; e, se há nelas alguma mancha, logo a descobrem e dela se corrigem; porque veem claramente aquilo que agrada e desagrada aos olhos do Esposo celeste (18)». Ester, devendo apresentar-se ao rei Assuero, não procurou embelezar-se com adornos femininos (Est 2,15); e Ester agradou ao rei mais que todas as outras, pomposamente vestidas, e por ele foi escolhida como esposa… Mulheres cristãs, quereis agradar ao Rei dos reis e tornar-vos suas esposas aqui embaixo, por sua graça, e no céu, por uma eternidade de glória? Deixai os adornos mundanos, as librés de Satanás, e revesti-vos da virtude e de Jesus Cristo. A mulher casta veste-se modestamente; tem um porte que convida os outros à modéstia e ao pudor; seu exterior é sem afetação, sem estímulo à vaidade; ela se cobre de humildade, escreve São Bernardo, difunde o perfume da piedade; sua graça tem algo de celeste, sua presença impõe respeito, seu olhar enche o coração de santa alegria, leva por toda parte o bom exemplo e a edificação (Serm. in Cant.).
A mulher forte e sábia não faz consistir seus ornamentos na elegância e na formosura, mas no temor de Deus, que permanece pelos séculos dos séculos, e assim assegura para si a graça e a glória eterna do céu… Vãs e culpáveis são a beleza e a graça que as mulheres mundanas almejam; a verdadeira graça e a verdadeira beleza estão na virtude que produz o temor de Deus. O ouro, a seda e os perfumes nada acrescentam às mulheres que nutrem nobres sentimentos; seu ornamento é a probidade e a beleza de uma conduta irrepreensível; seu ornamento é permanecer em casa, rezar, cuidar dos afazeres domésticos e vigiar os criados. Deixando de lado o vil peso do feno, que são os trajes soberbos, revesti o ornamento das virtudes celestes, conclui São João Crisóstomo; este é o ornamento da Igreja, aquele é próprio do teatro; o primeiro é digno dos céus, o segundo convém aos cavalos e aos mulos; um é usado também com os mortos, o outro é próprio da alma na qual habita Cristo (19).