O Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus como o Pai e o Filho, dos quais procede, segundo o ensinamento da Igreja católica no Credo: ― Qui ex Patre Filioque procedit. ― Santo Agostinho chama-o «o amor e o vínculo do Pai e do Filho» (Lib. de gratia Novi Test.). Por isso, por excelência e de modo especial, dá-se-lhe o nome de Deus de amor…
Na Sagrada Escritura, a nuvem é o símbolo da majestade divina; a aparição da divindade sob esta forma é própria do Espírito Santo: assim, na Transfiguração, em que apareceu a Santíssima Trindade, o Pai manifestou-se na voz, o Filho deixou-se ver num vestimento de glória, e o Espírito Santo mostrou-se numa nuvem resplandecente. Ele foi a nuvem que envolveu e cobriu com sua sombra a Bem-aventurada Virgem, e em virtude daquela sombra divina ela concebeu o Verbo de Deus. Para nós, esta nuvem celeste significa o mistério que encobre as operações do Espírito Santo; ela nos protege contra os ardores devoradores da concupiscência; eleva nosso espírito ao céu; guia-nos à terra prometida.
A razão pela qual o Espírito Santo é chamado nuvem e apareceu sob a forma de nuvem está em que a chuva e o orvalho, que vêm das nuvens, são bela e expressiva figura da graça do Espírito Santo, a qual precisamente sob este símbolo nos é frequentemente apresentada na Sagrada Escritura… Eu derramarei, diz Deus pela boca de Isaías, a chuva sobre os campos ressequidos, farei correr regatos de água sobre os campos áridos, farei descer o Espírito Santo sobre a tua descendência e a minha bênção sobre os teus descendentes (Is 44,3). O rei Profeta mostra-nos a necessidade desta água sagrada e excita-nos a desejá-la quando diz: «A vós estendi as minhas mãos, ó Senhor; minha alma tem sede de vós, como terra sem água» (Sl 142,6). Com efeito, assim como uma terra não irrigada se torna estéril e já não produz flores nem frutos, assim também a alma sem a graça do Espírito Santo não resiste às tentações; é estéril em virtude; não possui nem o vestimento da justiça, nem a beleza da sabedoria, nem os frutos das boas obras. E assim como a água lava, apaga a sede e refresca, assim a graça do Espírito Santo purifica a alma, apaga o fogo da concupiscência, acalma a sede da cobiça e modera os ardores nocivos à alma. Por isso Jesus Cristo a chama água viva e diz que quem beber desta água jamais terá sede (Jo 4, 13), a não ser que a rejeite pelo pecado mortal… A graça do Espírito Santo é orvalho que refresca a alma, fecunda o coração e ilumina a mente. Doce orvalho matutino que traz a vida. É chuva benéfica, segundo estas palavras do Salmista: «Vós reservais, ó Deus, uma chuva milagrosa para fortalecer o vosso povo» (Sl 67,10),
O Espírito Santo quis aparecer sob a forma de uma pomba, para demonstrar sua mansidão, bondade, inocência, fecundidade, caridade e seu zelo pelas almas… A pomba é símbolo dos sete dons do Espírito Santo: permanece junto às águas e delas se serve como de um espelho para ver as aves de rapina e fugir; eis o dom da sabedoria… Escolhe sempre os melhores grãos; eis o dom da ciência… Alimenta seus filhotes; eis o conselho… Não usa o bico para dilacerar; eis a inteligência… Não tem fel nem bílis; eis a piedade… Constrói solidamente seu ninho; eis a fortaleza… Seu canto é um gemido; eis o dom do temor…
A pomba é o sinal da reconciliação e da reparação operadas pelo Espírito Santo no mundo, por meio de Jesus Cristo. A pomba leva a Noé um ramo verde de oliveira, sinal de que cessaram o dilúvio e a ira de Deus, de que a terra está livre das águas e de que a paz foi restituída aos homens. A pomba alude à união e à sociedade dos fiéis na Igreja; união que o Espírito Santo mantém por meio do batismo de Jesus Cristo e da caridade.
O fogo é símbolo eficacíssimo dos efeitos do Espírito Santo. O fogo purifica…, expulsa as trevas…, ilumina…, aquece…, incorpora-se aos objetos e os transforma em si mesmo…, eleva-se…, é poderoso…, etc. Assim opera o Espírito Santo; purifica os corações…, dissipa as trevas do pecado e das paixões…, ilumina as almas com seus raios divinos…, aquece e inflama os corações, eleva os pensamentos e os desejos ao céu…, realiza prodígios extraordinários… transforma a alma, penetra-a e a assimila a si… Também por suas propriedades o fogo é símbolo dos sete dons do Espírito Santo. 1° Devora e consome aquilo que se opõe à sua ação: tal é o efeito do temor… 2° Dissolve o gelo e funde os metais mais duros: eis o efeito da piedade… 3° Purifica o ouro, coze e consolida os vasos: eis o dom da fortaleza… 4° Possui em si a luz e o calor, penetra e lança-se para o alto: eis designados os dons da sabedoria, do entendimento, do conselho e da ciência.
Os Apóstolos receberam o Espírito Santo sob a forma de línguas de fogo, isto é, receberam o fervor, a caridade, a força, a luz e o zelo pela salvação das almas… O Espírito Santo apareceu no dia de Pentecostes sob a aparência de línguas de fogo, 1° para mostrar que tomava posse das línguas dos Apóstolos de tal modo que suas palavras inflamadas haveriam de acender os corações gelados e quebrantar os ânimos endurecidos. 2° Para curar este nosso membro, mais atormentado que os outros pelo fogo do inferno, pois, como afirma São Tiago, a língua é um fogo que, aceso e alimentado em nós pelo espírito infernal, inflama toda a nossa vida (Tg 3, 6). 3° O Espírito Santo enviava os Apóstolos a pregar ao mundo, e com essas línguas de fogo recebiam o dom das línguas. 4° Assim como pela língua o homem julga o sabor das coisas, assim também por meio dessas línguas os Apóstolos recebiam a graça de julgar todas as coisas. 5° A língua é instrumento utilíssimo para quem sabe utilizá-la; ora, se o Espírito Santo, aparecendo sob a figura de línguas de fogo, tomava posse das línguas dos Apóstolos, devemos crer que o fazia para torná-las úteis a todo o mundo.
1° O Espírito Santo, que é o amor e o vínculo do Pai e do Filho, torna-se, na ordem espiritual, o vínculo pelo qual todos os fiéis formam um só corpo. O corpo do homem, composto de muitos membros, recebe a vida de uma só alma, e essa alma dá ao corpo a faculdade de ver com os olhos, ouvir com os ouvidos e assim por diante. Do mesmo modo, o Espírito Santo possui e vivifica os membros do corpo de Jesus Cristo, que é a Igreja.
2° O Espírito Santo ilumina e instrui. «Quando vier o Espírito da verdade, disse o divino Mestre aos Apóstolos, ele vos ensinará toda a verdade (Jo 15,13). E, com efeito, poucos dias depois dessa promessa, «os Apóstolos ficaram todos cheios do Espírito Santo; e começaram a falar diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes sugeria que falassem» (At 2,4). Diz o Papa São Gregório: «Admirável doutor é o Espírito Santo! Instrui num instante aquele que quer; ilumina o espírito assim que o toca; o simples mostrar-se dele vale por toda a ciência. Com efeito, no mesmo instante em que ilumina, transforma os afetos humanos; o homem deixa de ser o que era e torna-se o que não era (1)».
São João Crisóstomo diz: «No dia de Pentecostes, a terra se transformou para nós em céu. Que estrelas podem comparar-se aos Apóstolos? As estrelas estão no céu; os Apóstolos, acima do céu. As estrelas brilham com um fogo desprovido de sentimentos; os Apóstolos resplandecem com um fogo inteligente. As estrelas cintilam durante a noite e se obscurecem durante o dia; os Apóstolos iluminam com seus raios, isto é, com suas virtudes, tanto de dia como de noite. Ao nascer do sol, as estrelas desaparecem; diante do sol da justiça, os Apóstolos não deixam de resplandecer com a luz que continuamente recebem dele. No dia da ressurreição, as estrelas cairão como folhas murchas; os Apóstolos subirão pelo ar, levados sobre as nuvens… Dai-me um navio com piloto, marinheiros hábeis, velas, cordas, mastros, âncoras e tudo quanto é necessário para equipá-lo; se o vento cessa, não há acaso demora e imobilidade na embarcação? Assim acontece à alma que não é conduzida pelo Espírito Santo. Por mais fecundo, instruído, inteligente e profundo que alguém seja, nada alcança se não for amparado pelo auxílio do Espírito Santo, que dá a todas as coisas a virtude de operar (2)».
O Espírito Santo nos ilumina nas dúvidas, envolvendo-nos com a luz da sabedoria (S. BERN. Serm. 2, de Pentec.). Com efeito, como observa São Gregório, o Espírito Santo instrui a razão, remove a obtusidade da mente e aguça o intelecto; ― detém a precipitação do juízo; põe a ciência no lugar da ignorância (In Exod.). «Expulsando as trevas, diz Santo Ambrósio, e iluminando-nos com suas luzes, o Espírito Santo mistura à nossa inteligência a inteligência de Jesus Cristo (3). Ao homem investido pelo Espírito Santo acontece aquilo que Samuel disse a Saul: «Assim que o Espírito do Senhor te investir, profetizarás e serás transformado em outro homem» (1Sm 10,6); cumpre-se nele a palavra do Senhor: «Derramarei o meu Espírito… e vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos e vossos jovens terão visões» (Jl 2,28).
Tal é a eficácia do Espírito Santo sobre a mente humana, que eleva de repente à mais alta ciência os ignorantes e os iletrados. Temos o exemplo, observa o Papa São Gregório, em Davi, em Amós, em Pedro, em Paulo, em Mateus; eu bem gostaria de acompanhar aquilo que o Espírito Santo opera neles, mas me faltam forças. Com efeito, ele investe um rapaz que toca a harpa e faz dele um salmista. Investe um simples pastorinho e faz dele um profeta. Investe um pescador e faz dele um sublime pregador. Investe um perseguidor e faz dele o doutor das nações. Investe um publicano e faz dele um evangelista. (Homil. 30, in Evang.).
3° O Espírito Santo infunde tamanho ânimo e força que torna o homem invencível. Ele dá, diz São Bernardo, o vigor da vida; de modo que, mediante sua graça, se torna possível e fácil aquilo que era impossível às forças da natureza (4). Pedro, sem o Espírito Santo, é vencido pela voz de uma criada; com o Espírito Santo, é vencedor dos príncipes, dos reis e dos impérios… O Espírito do Senhor opera espiritualmente na alma aqueles prodígios de força que a Sagrada Escritura nos mostra terem sido por ele operados materialmente em Davi e Sansão. Quem recebe o Espírito Santo pode cantar de seus inimigos espirituais aquilo que Moisés narrava acerca dos egípcios depois da passagem do Mar Vermelho: «Vosso Espírito, ó Senhor, soprou, e o mar engoliu as hostes inimigas: precipitaram-se como chumbo no fundo das águas impetuosas» (Ex 15,10). Pensando nisso, São Paulo dizia: «Dobro os joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual deriva toda paternidade no céu e na terra, pedindo-lhe que vos conceda, segundo todos os tesouros de sua glória, serdes poderosamente fortalecidos, por meio de seu Espírito, no homem interior» (Ef 3,14-16).
O homem, em consequência do pecado, está sujeito a nove principais enfermidades, contra as quais o Espírito Santo fornece forças vigorosas. A primeira são as doenças, as tribulações, os achaques corporais; contra esse doloroso gênero de provações, o Espírito Santo nos fortalece, fazendo que as aceitemos das mãos da Providência e levando-nos até a louvar a Deus por elas… A segunda é a ignorância que envolve nossa inteligência; e o Espírito Santo, sendo Deus de luz, dissipa-a, como o sol expulsa as trevas… A terceira é a fraqueza da vontade; ora, o Espírito Santo dá a essa vontade uma firmeza estável no bem… A quarta é a pobreza de nossa memória; o Espírito Santo adorna essa faculdade não somente com o conhecimento do passado e do presente, mas também do futuro… A quinta é a fraqueza do espírito, que mal consegue resistir à concupiscência da carne; e o Espírito Santo nos fortalece de tal modo que saímos vencedores… A sexta é a debilidade da natureza irascível, e o Espírito Santo nos dá tamanha mansidão que nos tornamos cordeiros… A sétima é a dificuldade que encontramos para empreender obras penosas e heroicas; o Espírito Santo nos faz vitoriosos e triunfantes… A oitava é a pena que sente quem quer perseverar na obediência e no fervor; o Espírito Santo não somente tira essa pena, mas a transforma em suave consolação… A nona são os obstáculos que nos impedem de rezar e meditar como convém; ora, somente o Espírito Santo reza por nós com gemidos inenarráveis (Rm 8,26). O Espírito Santo vem em nosso auxílio para que superemos todos os obstáculos, todas as misérias.
Os Atos dos Apóstolos narram que, no dia de Pentecostes, ouviu-se subitamente vir do céu um ruído semelhante ao de um vento impetuoso (At 2,2). Esse ruído anunciava a eficácia, a força, a energia do Espírito Santo sobre os Apóstolos, para torná-los fortes, heroicos, invencíveis, a fim de que pudessem combater o universo pagão, subjugá-lo, tornar-se seus senhores e submetê-lo a Jesus Cristo; como de fato fizeram. Os Apóstolos, diz Bossuet em suas Meditações, precisavam receber uma virtude, uma força do alto. Essa virtude vem; o Espírito Santo desce; e eis que ficam fortes. Pedro já não teme nada; Pedro é pedra, isto é, rocha contra a qual todas as ondas se despedaçam. E de que modo? Pela nova virtude que lhe veio do alto. Caminha, ó Pedro, e diz francamente ao divino Mestre: Eu te seguirei até a morte: agora podes fazê-lo; chegou o tempo indicado pelo Senhor quando disse: No presente não podes seguir-me, mas mais tarde poderás (Jo 13,36). Chegou a hora: parte, ó Pedro, vai, conduzindo o grupo apostólico, atacar o mundo, subjugar o universo; nada mais tendes a temer, tudo podeis.
4° O Espírito Santo reza por nós. «O Espírito ajuda a nossa fraqueza, escreve São Paulo aos Romanos, porque não sabemos o que devemos pedir em nossa oração; mas o Espírito Santo pede por nós com gemidos inefáveis» (Rm 8,26). Santo Agostinho e São Gregório dizem que o Espírito Santo pede neste sentido: ele nos incita a pedir e a gemer… Faz como um professor que ensina… Pede com gemidos inefáveis, isto é, faz-nos desejar as coisas celestes e divinas, embriaga-nos com as consolações de sua graça. Disso aprendemos que a eficácia da oração não consiste nas palavras, mas nos gemidos, no afeto, no desejo, na meditação, nas jaculatórias, nos suspiros. Aprendemos daí que, se rezamos mal, é porque não temos conosco o Espírito Santo; não rezamos nem com ele nem por meio dele; impedimo-lo de operar em nós, obrigamo-lo a sair de nós.
5° «O Espírito Santo nunca está sem virtude, diz Santo Ambrósio, e não há virtude fora do Espírito Santo (5). O Espírito Santo exorta, incita, inspira, consola. São Bernardo escreve que o Espírito Santo, quando investe uma alma, torna-a conhecedora da verdade e fervorosa de espírito: faz que aspire a Deus, habita nela, enche-a, glorifica-a. Vindo a nós, predestina-nos; tocando-nos com seu sopro, chama-nos; habitando em nós, justifica-nos; apoderando-se de nós, cumula-nos de bens; glorificando-nos, recompensa-nos (6). Embora o Espírito Santo já se encontre na alma fiel por sua essência, poder e presença, ele, contudo, doa-se novamente a ela quando é justificada, para estar nela de modo novo, como em seu templo, santificando-a com a caridade e tornando-a participante de seu amor, sendo ele o primeiro amor, o amor incriado.
«O Espírito do Senhor, diz Isaías, repousará sobre ele, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade; espírito de temor do Senhor» (Is 11,2-3). Eis os sete dons do Espírito Santo. O dom da sabedoria faz-nos contemplar as coisas divinas e eternas… O dom da inteligência faz-nos penetrar nas coisas difíceis e obscuras, principalmente nas que se encontram na Sagrada Escritura… O dom do conselho ordena nossa conduta e nossas ações… O dom da fortaleza faz-nos superar todos os obstáculos que se opõem à nossa salvação, até mesmo a própria morte… O dom da ciência torna-nos instruídos acerca daquilo que conduz à salvação e do modo de usar bem os meios que nos são dados para isso… O dom da piedade dispõe-nos a respeitar e amar a Deus e ao próximo… O dom do temor de Deus encerra em si todos os outros dons; esse temor mantém-nos afastados do pecado e faz-nos praticar a virtude. Além dos sete dons acima mencionados, São Paulo enumera doze frutos produzidos pelo Espírito Santo, que são: a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fé, a modéstia, a continência, a castidade (Gl 5,22-23).
Eis, segundo o Papa São Gregório, quais efeitos produzem na alma os dons do Espírito Santo: «O Espírito Santo nos adverte, nos comove, nos instrui. Adverte a memória, comove a vontade, instrui a razão. Para nos defender da insensatez, dá-nos a sabedoria; para nos defender da estupidez, concede-nos a inteligência; para nos defender da leviandade e da presunção, dá-nos o conselho; para nos defender do temor, da ignorância, do endurecimento e do orgulho, dá-nos a fortaleza, a ciência, a piedade e o temor de Deus (7)». Por meio dos dons do Espírito Santo, diz o Venerável Beda, os Santos encontram a porta para a vida celeste. São humildes pelo temor, misericordiosos pela dedicação à piedade, discretos pela ciência, livres pela força da alma, prudentes pelo conselho, previdentes pela inteligência, sensatos pela sabedoria (De Spirito Sanct.).
São Basílio, em sua Homilia sobre a fé, diz: Assim como o sol nada perde de sua substância ao iluminar o mundo, assim também o Espírito Santo nada perde de sua plenitude infinita ao comunicar suas graças. Ele ilumina todos os homens para fazê-los conhecer a Deus; inspira os profetas, torna sábios os legisladores, consagra os sacerdotes, dá força aos reis, aperfeiçoa os justos, adorna os humildes, cura os enfermos, ressuscita os mortos, quebra as cadeias dos pecadores; por meio da regeneração, adota os estrangeiros como filhos. Por ele, os fracos se tornam fortes, os pobres alcançam imensas riquezas, os mais ignorantes se tornam os mais doutos, os únicos e verdadeiros doutos… Lê-se na Escritura que o Espírito do Senhor encheu o globo da terra; ora, por isso podemos entender o círculo das faculdades da alma; com efeito, o intelecto é por ele preenchido de ciência e prudência; a imaginação, de sabedoria e tranquilidade; a vontade, de virtude e coragem; o corpo, de saúde, robustez e energia…
São João Crisóstomo diz: «O Espírito Santo expulsa do coração do homem a malícia e nele introduz a humanidade; destrói a escravidão e a substitui pela liberdade… Ele fez dos Apóstolos outros tantos lavradores espirituais, pescadores de homens, colunas, médicos, guias, doutores, portos de salvação, pilotos, pastores, atletas, guerreiros e vencedores coroados. O Espírito Santo é a restauração de nossa imagem, a perfeição da alma espiritual, o sol dos olhos da mente, o vínculo de nossa união com Jesus Cristo; é a alegria de nossas almas, a exultação do coração; é um fogo ardente, uma fonte de água viva. Consola os que choram, alegra os tristes, comunica a sabedoria, insinua a prudência. Por ele são iluminados os profetas, ungidos os reis, ordenados os sacerdotes, manifestados os doutores. Por ele a Igreja é santificada, os altares são erigidos, o óleo é consagrado, as águas são purificadas, os demônios são expulsos e as doenças são curadas (8)».
A Escritura observa, a respeito de Santo Estêvão, que, estando ele cheio do Espírito Santo e mantendo os olhos voltados para o céu, viu a glória de Deus (At 7, 55). Com efeito, quem é inspirado pelo Espírito Santo, diz São Pedro Damião, despreza as coisas terrenas e dedica-se unicamente às celestes e eternas (9)». As almas inspiradas e iluminadas pelo Espírito Santo elevam-se, diz São Basílio, à espiritualidade: tornam-se o templo, a morada das graças e do próprio Espírito Santo em pessoa; fazem também descer sobre os outros a sua graça. Pelo Espírito Santo, tornamo-nos deuses. O Espírito Santo, diz Santo Ambrósio, não somente dissipa a tristeza, os desgostos e os maus pensamentos, mas também nos dá a lembrança de Deus, de modo que podemos dizer com Davi: Eu me lembrei do Senhor e senti-me inundado de alegria (In Symb.).
O Espírito Santo qualificou-se a si mesmo como espírito de inteligência, santo, único, múltiplo, sutil, eloquente, pronto, incorruptível, certo, doce, amante do bem, penetrante, infalível, benéfico, amigo dos homens, imutável, indefectível, calmo, seguro, dotado de toda virtude, previdente, que compreende todo espírito, inteligível, vivo, puro (Sb 7, 22-23). «Vosso espírito bom e solícito, ó Senhor, conduzir-me-á à terra do verdadeiro e do justo», exclama o Salmista (Sl 142, 10). «Ó quão bom e suave é em todas as coisas o vosso espírito, ó Senhor», exclama o Sábio (Sb 12, 4).
O Eclesiástico diz que o homem, à sombra da Sabedoria, será protegido do calor e repousará na glória (Eclo 14, 27). Jesus Cristo é a sabedoria incriada a que alude aqui o Eclesiástico; portanto, como explica São Gregório, a sombra de Jesus Cristo é a proteção do Espírito Santo: com efeito, o Espírito Santo cobre com sua sombra a alma que enche; modera o ardor de toda espécie de tentações; e, quando toca a alma com o sopro de sua doçura, afasta dela tudo o que era árido; faz reverdecer o que estava murcho; por esse sopro divino, a força renasce e o homem corre com novo vigor para a vida eterna (In Exod.). O Espírito de Jesus Cristo, diz São Bernardo, é o Espírito bom, santo, reto e doce; é o espírito poderoso que aplaina as dificuldades, purifica os corações, fortalece os fracos, torna fácil o que é penoso, inspira a alegria em meio aos insultos (In Exod.). Ah! Digamos, pois, com Santo Agostinho: «Ó Espírito divino, inspira-me sempre ações santas, para que nelas pense; impele-me a realizá-las; persuade-me a amá-las; confirma-me, para que te conserve em mim; guarda-me, para que jamais te perca (10)».
«Vós fostes lavados, escreve São Paulo, fostes santificados, fostes justificados no espírito de nosso Deus» (1Cor 6, 11). «Não recebestes o espírito de servidão, mas o espírito de adoção dos filhos, espírito que nos faz clamar: Abba, Pai. Pois o próprio Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus» (Rm 8, 15-16). Em virtude dessa adoção como filhos de Deus, não recebemos somente a graça, a caridade e os outros dons do Espírito Santo, mas recebemos a ele mesmo, que é o primeiro dom e o dom incriado. O Espírito Santo une-se voluntariamente aos seus dons, à sua graça e à sua caridade; dá-nos a si mesmo, pessoal e substancialmente, segundo as palavras do Apóstolo aos Romanos: «A caridade de Deus foi derramada em nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5), e aquelas outras aos Gálatas: «Porque sois seus filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai» (Gl 4, 6). É efeito da suma bondade de Deus, o que redunda em nossa suprema honra e em nossa altíssima elevação, que, ao recebermos a graça e a caridade, recebamos ao mesmo tempo a pessoa do Espírito Santo, que se une voluntariamente à sua caridade e à sua graça, e que, por meio delas, habita pessoalmente em nós, nos vivifica, nos adota, nos diviniza e nos dispõe para todo bem…
Mas não basta: o Espírito Santo, descendo pessoalmente à alma justa, traz consigo o Pai e o Filho, porque é inseparável deles. Por isso, toda a Santíssima Trindade vem pessoal e substancialmente à alma que é justificada e adotada: nela habita e permanece como em seu templo, enquanto a alma persevera na justiça, segundo aquela sentença de São João: «Deus é caridade, e quem permanece na caridade permanece em Deus, e Deus nele» (1Jo 4, 16); e aquela outra de São Paulo: «Quem está unido a Deus forma um só espírito com ele» (1Cor 6, 17). Foi precisamente isso que Jesus Cristo pediu e obteve de seu Pai naquela oração que lhe dirigiu na noite anterior à sua paixão: «Pai Santo, conserva em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um só, como nós; para que, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, eles sejam uma só coisa em nós» (Jo 17, 11-21); o que significa: para que participem do Espírito Santo, se unam a ele e, por meio dele, às outras pessoas divinas… Consequentemente, todos são um, numa mesma realidade individual, isto é, no Espírito Santo, assim como as três pessoas divinas são um numa mesma natureza divina. Assim explicam o texto citado São Cirilo, Santo Atanásio etc.
«Assim como as imagens dos objetos não podem ser recebidas nem vistas num espelho embaçado, assim também o homem não pode receber, diz São Basílio, a luz do Espírito Santo sem expulsar de si o pecado e o apego à carne (11)». Eis por que o Apóstolo das gentes escrevia aos Efésios: «Não entristeçais o Espírito Santo, de que recebestes o selo no dia da redenção» (Ef 4, 30)… Uma oração fervorosa atrai o Espírito Santo… Uma caridade ardente faz com que ele desça até a alma e eleva a alma até ele, unindo-os entre si, pois o Espírito Santo, sendo todo caridade, estabelece sua morada no coração cheio de caridade… Uma profunda humildade é o caminho que conduz o Espírito Santo até nós… A pureza o retém.
A imposição das mãos para a Crisma deriva dos Apóstolos… Pedro e João, enviados aos habitantes da Samaria, impuseram-lhes as mãos, e estes receberam o Espírito Santo (At 8, 17). Tendo Paulo imposto as mãos àqueles que haviam sido batizados, o Espírito Santo desceu sobre eles (Ibid. 19, 6). A matéria do sacramento da Crisma é o santo crisma. Assim como o óleo nutre e fortalece o corpo, assim também a Confirmação nutre e fortifica a alma… Além disso, o óleo dá e conserva a beleza dos corpos sólidos, como o ferro, a madeira e a pedra, preservando-os da ferrugem, dos vermes e da podridão; assim também a Crisma comunica à alma solidez e brilho, dá-lhe uma força que a preserva da acídia, da ferrugem espiritual e da corrupção. Os atletas ungiam-se com óleo antes de entrar em combate com seus adversários; nós necessitamos da unção divina do sacramento da Crisma para combater, vencer, prostrar os demônios e todos os inimigos de nossa salvação… Ao óleo mistura-se o bálsamo, para nos ensinar a espalhar por toda parte o bom odor de Jesus Cristo, o grato perfume das virtudes e dos bons exemplos.
A forma do sacramento da Confirmação consiste naquelas palavras que o Bispo pronuncia enquanto faz a unção na fronte: «Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». — A Igreja adotou e conservou esta fórmula, que lhe foi transmitida por uma tradição antiquíssima e contínua; ademais, ela é claramente indicada por aquelas palavras de São Paulo aos Coríntios: «É Deus quem nos confirma em Cristo, quem nos ungiu e nos marcou; e nos deu o Espírito como penhor em nossos corações» (2Cor 1, 21-22). O Bispo nos assinala com a cruz na fronte, para que não nos envergonhemos de ser cristãos e para nos tornar vitoriosos sobre todo obstáculo… O Bispo faz a unção para fazer descer sobre nós as graças do Espírito Santo e nos fortalecer… Em nome da Trindade, ele realiza estes ritos místicos…
A graça da Confirmação é muito diferente da do Batismo. O efeito da graça batismal é gerar um filho para Deus; a da Crisma faz desse filho um valente soldado de Jesus Cristo. «No Batismo, diz São Pedro Damião, o Espírito Santo nos é dado para o perdão; na Crisma, para o combate. No Batismo somos purificados das iniquidades; na Crisma somos fortalecidos nas virtudes (12). Considerai a mudança operada nos Apóstolos no dia de Pentecostes, e tereis uma ideia dos admiráveis efeitos da Confirmação.
Este Sacramento é necessário àqueles que podem recebê-lo. Descuidá-lo seria culpa grave. Ele requer o estado de graça e imprime um caráter indelével…
O Bispo impõe as mãos sobre a cabeça do crismando: 1º para indicar que somos protegidos pelo poder do Espírito Santo, que se torna para nós um escudo impenetrável a todas as flechas inimigas… 2º Essa imposição significa que somos vítimas consagradas e oferecidas ao Senhor; pois, na antiga lei, impunham-se as mãos sobre as vítimas destinadas ao sacrifício… 3º Indica que Deus nos governa, nos possui e nos conduz de modo inteiramente especial; que sua mão nos rege e sustenta, como filhos que participam mais perfeitamente do espírito de adoção dos filhos de Deus… 4º Representa a remissão dos pecados veniais e também dos mortais involuntariamente esquecidos, a qual se recebe por meio deste Sacramento, porque esse toque das mãos é símbolo da reconciliação e da união com Deus. «Ungem-se os corpos, já observava Tertuliano, para que a alma seja consagrada; assinala-se a carne com a cruz, para que a alma seja fortalecida; faz-se sombra sobre a carne com a imposição das mãos, para que a alma seja iluminada (13)».
Depois dos ritos mencionados, o Bispo dá uma leve bofetada na face do crismado, para recordar-lhe que se tornou soldado, não para bater, mas para sofrer; não para cometer injúrias, mas para tolerá-las — nisso consistindo o seu combate e a sua vitória.