Tesouro n.º 198 · Volume III

SUBMISSÃO À VONTADE DIVINA SOMMISSIONE ALLA VOLONTÀ DIVINA

9 seções · 24 parágrafos · pp. 2237–2247 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. DIVERSAS VONTADES DE DEUS

«A vontade de Deus é boa, agradável, perfeita» (Rm 12, 2), lemos na Epístola aos Romanos. Assim comenta Santo Anselmo: A vontade boa de Deus está naqueles que começam a servir a Deus e nas pessoas unidas em matrimônio. A vontade agradável está naqueles que avançam na perfeição e nas almas castíssimas. A vontade perfeita está nos virgens e naqueles que alcançaram a perfeição. São Paulo diz ainda no mesmo lugar: Transformai-vos por meio de um espírito novo, para que conheçais qual é a boa vontade de Deus, isto é, saibais aquilo que Deus quer que façais de bem; qual é a vontade agradável, isto é, aquilo que melhor pode agradar-lhe; qual é a vontade perfeita, isto é, escolhei aquilo que há de mais sublime na perfeição…

Em Deus há duas vontades: uma é absoluta, a outra, de desejo. A vontade absoluta é aquela pela qual Deus quer determinada coisa; a ela ninguém pode resistir. A vontade de desejo é aquela pela qual Deus nos instrui acerca do que quer que observemos; e instrui-nos por meio de sua lei. A esta última vontade alude aquela petição do Pai-Nosso: ― Fiat voluntas tua ― Seja feita a vossa vontade. Em Deus, esta vontade de desejo é dupla: ora ordena, ora aconselha.

2. NADA ACONTECE FORA DA VONTADE DE DEUS

Tudo, exceto o pecado, acontece no mundo pela vontade de Deus… Nada há de imprevisto, nada de fortuito para a vontade de Deus… Tudo o que acontece aqui embaixo está antecipadamente registrado nela… Não cai um só cabelo, diz Jesus Cristo, da cabeça, nem um pardal vem por terra sem que Deus o queira e permita. Aquilo que o homem chama sorte ou acaso é dirigido pela vontade divina. Por isso lemos que os Apóstolos, quando se tratou de escolher um apóstolo em lugar de Judas, disseram a Deus: Senhor, vós que conheceis os corações de todos, indicai-nos qual dos dois escolhestes; e, dito isso, tiraram um dos nomes à sorte e, tendo saído o de Matias, este foi agregado ao colégio dos doze Apóstolos (At 1, 24-26). O destino, o acaso, é nome vazio, é coisa inexistente, ou melhor, é a vontade de Deus manifestada de modo oculto… As provações, as contrariedades etc… vêm de Deus, que, para os seus fins ocultos, mas santíssimos, assim dispõe.

Deus fornece os instrumentos exteriores com os quais se faz o mal, como, por exemplo, os sentidos, a capacidade, as riquezas e coisas semelhantes; mas não é vontade de Deus que o homem deles se sirva para cometer o pecado… Não Deus, mas o pecador converte em instrumentos de males esses bens… O mal provém da vontade perversa do homem, não está nas coisas que Deus nos dá. Deus nos concede os seus favores para que deles usemos bem; o pecador os converte em mau uso por um ato de sua perversa vontade; e esse mau uso merece ser punido… Submetendo-nos à vontade divina, tudo fica em ordem, e então Deus não somente não nos pune, mas nos recompensa.

3. QUAL É A VONTADE DE DEUS E COMO SE CUMPRE

São Paulo nos ensina qual é a vontade de Deus: «A sua vontade é que sejais perfeitos e, em tudo, plenamente conformes ao seu querer: pois a vontade de Deus é que vos torneis santos» (Cl 4,12; 1Ts 4,3). E escreve aos Hebreus: «Nosso Senhor Jesus Cristo vos torne aptos para todo bem, a fim de que façais a sua vontade» (Hb 13,20-21). É vontade de Deus, escreve São Cipriano, que pratiquemos em nós aquilo que Jesus Cristo fez e ensinou: a humildade de coração e de palavras; a firmeza e a perseverança na fé; a modéstia no trato; a justiça nas ações; a misericórdia nas obras; a castidade nos costumes; não injuriar ninguém; tolerar os insultos; viver em paz com o próximo; amar a Deus com toda a alma, como pai; temê-lo como juiz; preferir Jesus Cristo a todas as coisas, pois ele mesmo nos preferiu a tudo; apegar-nos inseparavelmente à sua caridade; segui-lo, corajosos e confiantes, pelo caminho do Calvário; quando se tratar de defender sua honra e glória, manifestar firmeza em nossos discursos, para que o confessemos sem corar; mostrar constância nas perseguições, a fim de nos mantermos fiéis a ele; e, finalmente, dar provas de paciência nos sofrimentos e na morte, para sermos coroados. Eis a vontade de Deus; eis o modo de cumpri-la; eis como se chega a ser coerdeiro de Jesus Cristo (Tract. de Orat. Dom.).

A Sagrada Escritura, falando da exaltação de Davi ao trono de Israel, diz que Deus procurou um homem segundo o seu coração, isto é, segundo a sua vontade (1Sm 13,14). Este é o sentido que os Santos Padres aplicam à referida frase. Sob o nome de coração de Deus, a Escritura designa a sua vontade; e nós somos segundo a sua vontade quando aplicamos o intelecto a conhecê-lo e o coração a amá-lo, diz São Gregório Papa (Moral.). O homem segundo o coração de Deus, diz o Crisóstomo, faz sempre aquilo que Deus quer; une o seu coração ao coração de Deus, a sua alma à alma de Deus; quer tudo o que Deus quer e nada quer daquilo que Deus não quer (Homil. ad pop.). São Pedro Damião nos adverte de que há para o fiel um ponto ao qual deve tender com todo o ardor da alma, e este consiste em saber se agrada a Deus em suas obras, se Deus está contente com elas. Com efeito, que vantagem lhe advém de agir, se não tem a aprovação de Deus para os seus feitos? (In Epist.).

Por isso, São Basílio dizia: se o cristão dirige todas as suas ações, grandes e pequenas, para a vontade de Deus, está seguro de que suas obras são perfeitas; e, recordando as ordens divinas e observando-as, pode repetir com o Salmista: procuro sempre fazer a vontade de Deus, e Deus está sempre à minha direita para me sustentar (in Psalm.). E o autor da Imitação assim rezava: «Concede-me, Senhor, que eu sempre deseje e ame aquilo que te é mais agradável e que tens em maior estima. Seja o teu querer o meu; tenha eu um só querer e não querer contigo; nem possa querer ou não querer outra coisa senão aquilo que tu queres e não queres» (Imit. Christi, l. 3, c. XV).

4. EXCELÊNCIA DA SUBMISSÃO À VONTADE DE DEUS

A sujeição à vontade de Deus é o maior, mais perfeito e mais agradável sacrifício que se lhe pode oferecer… Nos outros sacrifícios, oferecemos os nossos bens; neste, oferecemos a nós mesmos… Nos outros sacrifícios, como, por exemplo, no silêncio e na paciência, o homem oferece uma parte de si; aqui oferece todo o seu ser, tudo o que possui… E é o ato mais completo de amor de Deus…

A vontade de Deus é a regra, a medida, a fonte, a origem, a base, o fundamento de toda virtude, santidade e bem… É palavra do Verbo divino que todo aquele que faz a vontade de seu Pai que está nos céus é tido por ele como seu irmão, sua irmã e sua mãe (Mt 12,50). E o apóstolo São João nos prega que «quem cumpre a vontade de Deus» viverá eternamente» (1Jo 2,17). Se, portanto, desejais assegurar a vossa felicidade no céu, fazei a vontade de Deus… Mas que digo, no céu? Deus não espera para recompensar-vos somente no céu pela vossa submissão à sua vontade, mas já desde este mundo vos dá ampla recompensa; pois essa sujeição traz à alma a paz, o contentamento, a graça, enfim, um paraíso terrestre… Toda criatura logo nos causa tédio ou repugnância; mas Deus nós o encontramos sempre bom, sempre amável, sempre agradável…

Quem resiste à vontade divina muda como as fases da lua; quem, porém, lhe é submisso é como o sol. Deus às vezes contraria a nossa vontade, mas o faz para o nosso maior bem. Paulo só se torna feliz quando pergunta a Jesus: «Senhor, que quereis que eu faça?» (At 9,6). Naquele momento, transformou-se de perseguidor em Apóstolo, de lobo rapace em benfeitor e luz da humanidade. «Aquele de quem recebemos tudo nunca nos é tirado, diz Santo Agostinho; mesmo quando perdemos aquilo que nos foi dado, resta-nos sempre Aquele que no-lo deu» (Medit.). Quando perdemos aquilo que julgamos nosso, diz Santo Ambrósio, não o perdemos, mas o restituímos a Deus» (Serm. III).

5. A SUBMISSÃO À VONTADE DIVINA TORNA FORTES NAS PROVAÇÕES

No Livro III dos Reis (15,16), conta-se que Aod se servia com grande destreza de ambas as mãos, manejando prontamente uma espada de dois gumes. Tal é o homem sujeito à vontade de Deus; ele se adapta a ela tanto na adversidade como na prosperidade, na angústia e na consolação, na tentação e na humilhação, não menos que na paz e na exaltação, como se vê em Jó, em Davi e em São Paulo. Seremos novos Aod, comenta Cassiano, se nem a abundância nem a penúria forem capazes de nos abalar; se, em meio à abundância, soubermos desprezar os prazeres; se, na penúria, não murmurarmos nem desanimarmos, mas dermos, em um e outro estado, graças a Deus; e grande mérito teremos de ambos, com a nossa absoluta submissão à vontade de Deus, imitando Paulo, que dizia (Fl 4,12-13): Sei ter pouco e ter muito; provado em tudo, conheço a saciedade e a fome, a abundância e a indigência. Tudo posso naquele que me fortalece (Institut.).

Lemos nos Atos dos Apóstolos que Paulo e Barnabé confirmavam as almas dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé e ensinando-lhes que o caminho que conduz ao paraíso passa por entre mil aflições e tribulações (At 14,21). E, para que o exemplo sustentasse a exortação, eis o próprio Paulo a afirmar diante do mundo inteiro que ele e todos os Apóstolos, feitos alvo de toda espécie de perseguição, nem por isso se deixavam abater; eram golpeados, mas não prostrados; angustiados, mas não desanimados; pisoteados, mas não subjugados. Levavam por toda parte a morte de Jesus em seu corpo, para que também nele se manifestasse a vida de Cristo (2Cor 4,8-10). Em outra ocasião, revelando o íntimo pensamento que lhe fora sugerido pelo Espírito Santo, dizia candidamente: «Sei que me esperam tribulações e cadeias, mas não temo nenhuma dessas coisas, nem considero a minha vida mais preciosa do que eu mesmo, contanto que termine a minha corrida e cumpra o ministério da pregação que me foi confiado pelo Senhor Jesus» (At 20,23-24). Eis a força, a coragem, o valor, o heroísmo que provêm da submissão inteira e absoluta à vontade de Deus.

As provações seguem o homem sujeito à vontade divina, mas não o precedem; não lhe são impedimento para caminhar; antes, ajudam-no a dar passos de gigante pelo caminho da salvação; ao passo que, para aquele que não é submisso à vontade de Deus, as provações caminham à sua frente, assustam-no, detêm-no, lançam-no no desespero e o matam. Diz, com efeito, São João Crisóstomo: A tempestade já se desencadeou, a onda ruge e as vagas enfurecidas investem contra mim; mas, submisso à vontade de Deus, não temo o naufrágio. Agite-se embora o mar, não chegará a engolir-me. Não temo a morte; vivo de Jesus Cristo, e morrer é para mim um ganho. Não temo o exílio, porque toda a terra é do Senhor, e eu o encontro em toda parte. Acaso temerei a perda dos bens, eu que sei muito bem que nada trouxe comigo ao vir ao mundo e nada levarei ao deixá-lo? Desprezo as ameaças do século e rio-me de suas promessas e pretensas doçuras. As riquezas não me atraem, a pobreza não me assusta. Se a imperatriz Eudóxia quer banir-me, que me bana: Deus está comigo. Se quer despedaçar-me, que o faça: serei semelhante a Isaías. Se me afogar no mar, lembrar-me-ei de Jonas. Se me lançar às chamas, estarei com os três jovens que tiveram a mesma sorte; se me condenar às feras, lembrar-me-ei de Daniel na cova dos leões; se me apedrejar, terei por companheiro Estêvão, protomártir; se me decepar a cabeça, serei imitador de João Batista. A exemplo de Davi, estou pronto para todo flagelo (Epist. 9, ad Syriac.).

6. A SUBMISSÃO À VONTADE DE DEUS DÁ A PACIÊNCIA E A ALEGRIA

Quanto a submissão à vontade de Deus contribui para dar paciência, bastam dois exemplos para esclarecê-lo. A propósito do mendigo Lázaro, que jazia coberto de úlceras à porta do rico e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa deste, São João Crisóstomo enumera nove cruéis angústias que naquele momento dilaceravam o mendigo: 1° a pobreza; 2° uma grave enfermidade; 3° o abandono; 4° estar estendido à porta do rico; 5° a crueldade do rico; 6° ver-se privado de auxílio; 7° a ressurreição dos mortos, a qual, por ainda não ser tão conhecida e difundida como depois da promulgação do Evangelho, lhe dava uma esperança menos viva; 8° sofrer por longo tempo; 9° morrer de fome. Quantas misérias reunidas na pessoa de Lázaro! E Lázaro não murmura nem se queixa; antes, suporta com paciência todas as suas penas. E por quê? Porque era submisso à vontade de Deus. E, por isso, também Deus vem em seu socorro; como recompensa, coloca-o, cingido de glória, no seio de Abraão, enquanto o rico malvado, não tendo feito a vontade de Deus, é sepultado no inferno (Homil. ad pop.).

Contemplai a admirável paciência de Jó. Ele tinha abundância de todos os bens; Deus o despoja de tudo e o reduz à mais espantosa miséria, assaltando-o com as dores mais atrozes. Ora, que diz Jó nesse estado miserável? Ouvi e maravilhai-vos: «Nu saí do seio materno, e nu retornarei ao seio da terra: Deus me havia dado tudo; Deus mo tirou; aconteceu como lhe aprouve; bendito seja o nome do Senhor» (Jó 1,21).

Mais do que força para sofrer pacientemente, o verdadeiro fiel encontra em sua submissão à vontade divina motivo de alegria e de consolação. Sirva de exemplo São Paulo: «Eu me alegro em meus sofrimentos» (Cl 1,24), escreve aos Colossenses; «estou cheio de consolação, transbordo de alegria em meio a toda aflição e angústia», confessa aos Coríntios (2Cor 7,4). «Sofro, diz a Timóteo, mas, longe de me deixar abater, estou cheio de alegria: pois sei por quem sofro» (2Tm 1,12). «Estou pronto, diz em outra circunstância, não somente a ser acorrentado, mas a dar a vida pelo nome do Senhor Jesus» (At 21,13). E não foi diferente com todos os outros Apóstolos, dos quais a história nos atesta que saíam alegres e jubilosos do tribunal, por terem sido julgados dignos de sofrer ultrajes pelo nome de Jesus (At 5,41). Eis os prodígios que opera a resignação à vontade de Deus. E o que nos anima, nos fortalece e nos consola nas aflições é saber que, nisso, nos unimos a Jesus Cristo paciente e nos tornamos semelhantes a ele; e assim nos preparamos para ressuscitar gloriosos, seguindo o seu exemplo.

7. TUDO ESTÁ SUBMETIDO AO HOMEM QUE VIVE SUBMETIDO A DEUS

Submetei-vos, diz Santo Agostinho, àquele que está acima de vós, e tereis sob o vosso domínio tudo o que está abaixo de vós. ― Com efeito, tendo o homem abandonado, pelo pecado, aquele a quem devia estar sujeito, e tendo caído abaixo de tudo aquilo sobre o qual devia reinar, perdeu o seu império e tornou-se escravo de todas as criaturas. ― Eis a ordem: Deus, o homem, os animais, a natureza material; Deus acima de nós, os animais abaixo de nós. Reconhecei aquele que deve nos governar, e sereis reconhecidos pelos seres que deveis dominar. ― Daniel reconhece a Deus como seu Senhor; e os leões reconhecem e respeitam nele o seu dono. Mas, se não reconheceis a Deus, que está acima de vós, se não vos submeteis a ele, se voltais as costas ao vosso superior, não sereis reconhecidos nem obedecidos pelo vosso inferior. ― Por quem foi domado e quebrantado o orgulho egípcio? Por gafanhotos e mosquitos. Moisés está sujeito a Deus; o Mar Vermelho lhe está submetido, o céu lhe está sujeito, o próprio Deus lhe obedece. Aqueles que se recusam a fazer a vontade de Deus são obrigados a fazer a vontade do que há de mais vil no mundo; ao contrário, fazendo a vontade de Deus, realizam-se as mais estupendas maravilhas, até mesmo com aquilo que há de mais desprezível sobre a terra. Assim, por exemplo, Moisés, por meio de uma simples vara, fere e aterroriza os egípcios com dez grandes pragas; abre uma passagem entre as águas do Mar Eritreu; faz brotar fontes de água de um rochedo árido. Gedeão derrota, com vasos de barro quebrados, um exército inimigo. Os três jovens na fornalha estão submetidos à vontade de Deus, e as chamas os respeitam; suas vestes e seus cabelos permanecem ilesos em meio ao fogo, e eles soltam a língua em hinos de reconhecimento e de ação de graças (Trad. 8, in Ioann.). «Quando o povo não faz a vontade de Deus, não se distingue em nada daqueles que não existem, diz São João Crisóstomo (1)». «Entre todas as coisas, diz o Nazianzeno, somente Deus não pode ser evitado nem subjugado (2)».

8. TODOS ESTÃO SUJEITOS À VONTADE DE DEUS

Se observarmos a vida de Jesus Cristo, veremos magníficos exemplos de sua elevada submissão à vontade de Deus Pai. «Ao entrar pela primeira vez no mundo, ouvi como ele exclama: Senhor, não quiseste nem hóstia nem oblação pelo pecado. Eis que venho para fazer a tua vontade, ó meu Deus» (Hb 10,5-7). No decorrer de sua vida mortal, não poucas vezes põe diante de si os desígnios do Pai a seu respeito e sua plena adesão e submissão a eles. «Meu Pai me ama, porque dou a minha vida para retomá-la novamente. Ninguém pode tirá-la de mim; mas eu a dou por minha própria vontade e tenho o poder de dá-la e de retomá-la; tal é a missão que me foi confiada pelo Pai» (Jo 10,17-18). Vê-se daí que Jesus havia recebido de seu Pai a dolorosa e severa ordem de sofrer e morrer na cruz. Ele se conforma a ela de pleno grado, humilha-se voluntariamente, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,8). «Desci do céu, dizia em outra ocasião, para fazer não a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou; e a vontade do Pai que me enviou é que nada se perca daquilo que ele me deu, mas que eu o ressuscite no último dia» (Jo 6,38-39).

Quando predizia aos Apóstolos os horrores de sua paixão e de sua morte, e estes, doloridos por tal revelação, exclamavam a uma só voz: «Não! Isso jamais aconteça!» ― o divino Salvador respondia: Quereis, então, que eu não beba o cálice que meu Pai me deu? Isto é: sugeriríeis que eu não cumprisse a vontade de Deus? (Mt 16,22; Jo 18,11). E eis, com efeito, este Homem-Deus que, no jardim das Oliveiras, abatido sob o peso da justiça do Pai e de nossas culpas, arqueja e sua sangue. O cálice da amargura é colocado diante dele: irá recusá-lo? Não; meu Deus, vós não o recusais; a mim caberia bebê-lo; fui eu que o tornei amargo; mas, se vós não o beberdes, estarei perdido para sempre. E ouvi como ele o aceita: «Meu Pai, se for possível, passe de mim este cálice! Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres: Não se cumpra a minha vontade, mas a tua, ó Pai!» (Mt 26,39; Lc 22,42). Esta palavra da Cabeça, observa o Papa São Leão, é a salvação de todos os membros. Esta palavra ilumina, instrui e forma os fiéis, inflama os confessores e coroou os mártires. Quem poderia, de fato, vencer os ódios do mundo, resistir aos furores das tentações e não tremer diante dos terrores dos algozes, se Jesus, sofrendo em todos os homens e por todos os homens, não tivesse dito ao seu Pai: Faça-se a vossa vontade, e não a minha? (3).

Os Anjos e os Santos no céu não se ocupam nem se ocuparão por toda a eternidade de outra coisa senão de fazer plenamente a vontade de Deus; e essa ocupação constituirá sua felicidade eterna, porque Deus não quer senão o seu amor, e eles nada mais desejarão senão amar a Deus.

Todos os eleitos sobre a terra estiveram e estão submetidos à vontade de Deus… Vede Noé, Abraão, Moisés, os Profetas, Jó, Tobias etc. O pontífice Eli é ameaçado pelo flagelo da justiça divina, e diz: «O Senhor é o senhor de tudo; faça como bem lhe parecer» (1Sm 3,18). O Rei Profeta não cessava de rezar assim: «Ensinai-me, ó Senhor, a fazer a vossa vontade» (Sl 142,10). Judas Macabeu, enquanto parte para combater pela glória de Deus e pela salvação do povo, exclama: «Aconteça tudo segundo a vontade de Deus» (1Mc 3,60). «Suportarei com resignação a cólera de Deus, porque pequei», diz Miqueias (Mq 7,9). «Quanto a mim, diz o Apóstolo, guardarei muito bem de gloriar-me em outra coisa que não seja a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por amor do qual o mundo está morto para mim, e eu estou morto para o mundo» (Gl 6,14). «Onde quer que eu esteja, a qualquer lugar que vá, escrevia Tertuliano, estou nas mãos de Deus; disponha de mim como lhe aprouver, não me afasto dele; se quiser enviar-me à morte, faça o que lhe agrada, contanto que eu lhe permaneça fiel (4)». Esses sublimes exemplos de submissão à vontade de Deus, dados por Jesus, pelos Anjos, pelos Santos e pelos eleitos, devem animar-nos a fazer em tudo e sempre a vontade de Deus, mesmo em meio às mais ferozes angústias, às dores mais ardentes e aos trabalhos mais pesados. Façamos nossa a oração de Santo Agostinho: «Dai-me, ó Senhor, fazer aquilo que ordenais, e ordenai também aquilo que quiserdes» (Cont.).

Todas as criaturas, enquanto são obras de Deus, cumprem a sua vontade: o sol, a lua, os astros, os elementos, a terra, o mar, o raio, o dia, a noite, as árvores, as feras, os insetos; em suma, toda a criação está sujeita à vontade divina. De modo que também os condenados, e até os próprios demônios, fazem a vontade de Deus, a vontade de sua justiça. Reconhecendo-a e confessando-a, dirão eternamente: «Vós sois justo, ó Senhor, e justos são os vossos juízos» (Sl 118,137).

9. DEUS RECOMPENSA QUEM SE SUBMETE À SUA VONTADE. ― MEIOS PARA SUBMETER-SE A ELA

Para demonstrar quanto Deus recompensa largamente aqueles que se submetem à sua vontade, basta o exemplo do casto José: comparai o que ele teve de sofrer com as imensas honras de que foi cumulado, e vereis que as provações por ele suportadas se tornam um nada. Com efeito: 1° em lugar do ódio de seus irmãos, conquistou a amizade do rei e de todo o Egito. 2° Em lugar do exílio, da escravidão e da prisão, recebeu não somente a mais plena liberdade, mas também uma posição elevadíssima. 3° Em recompensa pelo trabalho de suas mãos, como servo, foi honrado com o anel de ouro. 4° Em troca do manto que lhe fora tirado pela adúltera esposa de Putifar, foi vestido com o manto real. 5° Em lugar das correntes, recebeu um colar de ouro. 6° Porque tomou a peito a causa dos desgraçados, tornou-se príncipe. 7° Porque suportou a humilhação da prisão, sentou-se no carro real. 8° Porque foi desprezado, viu uma nação inteira prostrar-se diante dele. 9° Trocou o nome de servo pelo de rei e salvador da terra… Ora, se Deus recompensa tão munificentemente nesta vida aqueles que se submetem à sua vontade, o que não lhes dará na eternidade?

Para acostumar-se a submeter-se em tudo à vontade divina, é preciso: 1° persuadir-se de que todas as coisas, vindo-nos de Deus, são para o nosso bem…, ou para nos corrigir…, ou para fazer que mereçamos… 2° Aceitar o cálice como se o próprio Deus no-lo apresentasse… 3° É melhor dizer uma só vez em meio às adversidades: ― Senhor, eu vos agradeço; ― Deus seja bendito; ― do que oferecer milhões de ações de graças em meio às prosperidades, diz o Padre Ávila (In Vita). 4° Não submeter-se somente em geral, mas nos acontecimentos particulares. 5° Suportar tudo com paciência… 6° Executar com prontidão e alegria a vontade de Deus manifestada por meio dos superiores. 7° Não nos inquietarmos com aquilo que o Senhor dispõe a nosso respeito e dizer frequentemente com o Rei Profeta: «Senhor, minha sorte está em vossas mãos» (Sl 30,16). 8° Meditar frequentemente nos exemplos de Jesus, dos santos e das criaturas.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.