«Bendito seja Deus, que, por sua grande misericórdia, nos regenerou para uma esperança viva» (1Pd 1,3). São Pedro dá aqui à esperança o nome de viva, porque 1° ela espera a vida eterna; 2° porque a esperança cristã não é enganosa, mas verdadeira e certa; 3° porque não morre enquanto não nos tiver conduzido àquilo que se espera, que é o céu; 4° porque sustenta a vida; 5° porque dá força e vigor; 6° porque nos leva a ações heroicas; 7° porque traz a vida da graça e da glória…
«O Senhor é a minha porção, disse a minha alma; por isso esperarei nele» (Lm 3,24). «O Senhor é bom para aqueles que nele esperam, para a alma que o busca» (Ibid. 25). Jeremias diz que a razão pela qual escolheu a Deus como sua herança e o aguarda é que ele é bom. Por isso: 1° pela esperança, o homem encontra um Deus bom, pronto a fazer-lhe o bem; 2° pela esperança, o homem espera de Deus a sua libertação e salvação; 3° a esperança acostuma desde cedo o menino ao jugo da disciplina e da paciência; 4° traz à alma o repouso e a tranquilidade; 5° inclina o homem à humildade, torna-o doce, benigno e alegre, mesmo em meio aos sofrimentos e aos insultos; 6° dá a resignação; 7° estimula a um sério exame e à mudança de vida; 8° faz rezar, gemer, implorar o socorro e a clemência de Deus… A esperança torna o homem piedoso, porque espera a recompensa de seus trabalhos… O desespero, ao contrário, torna-o ímpio. Ó quão grandes são, Senhor, os bens que preparastes e reservastes para aqueles que esperam em vós! (Sl 30,20).
«Esperai no Senhor, exclama o Salmista, e ele vos cumulará de suas riquezas» (Sl 36,3). «Quanto a mim, sou como a oliveira carregada de frutos na casa do Senhor; (porque) esperei na misericórdia do Senhor eternamente. Eu disse: Vós sois, ó meu Deus, a minha esperança e a minha porção na terra dos vivos» (Sl 51,10; 141,6). O rei Ezequias esperou no Senhor, Deus de Israel; por isso não houve, depois dele, entre os reis de Judá, quem se lhe igualasse, como também não houvera ninguém antes dele; por isso o Senhor estava com ele, e ele procedeu sabiamente em todos os seus empreendimentos (2Rs c.18). Deus é o tutor e a providência daqueles que esperam nele; nada lhes falta…
Senhor, dizia São Bernardo, vós sois a minha esperança em tudo o que devo fazer, em tudo o que devo evitar, em tudo o que devo suportar e empreender… Se o demônio ruge, se o mundo e a carne me fazem guerra, esperarei em vós, segundo está escrito: Depositai nele todos os vossos cuidados, e ele cuidará de vós. Se assim pensamos, por que tardar em voltar as costas a todas as esperanças miseráveis, vãs, inúteis e sedutoras, e em agarrar-nos com toda a alma à esperança verdadeira, sólida e certa? Quando foi que Deus abandonou alguém que esperou nele, se nos ordena esperar? Não, ele jamais deixa decepcionado quem espera nele. Ele o ajudará, diz o Salmista, e o arrancará das mãos de seus inimigos. Por qual mérito? Porque esperou nele (Serm. 9, in Psalm.).
Da esperança o homem recebe coragem e constância para submeter-se a qualquer trabalho, perseverar em todo empreendimento magnânimo e enfrentar qualquer sacrifício. A esperança formou os apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens, os missionários, os santos. Todos eles dizem com São Paulo: «Nós nos refugiamos na posse da esperança, que é para nós uma âncora segura, firme e penetrante até o interior, que o véu nos oculta», isto é, até o céu e até o próprio Deus (Hb 6,18-19).
Assim fala Davi do poder da esperança: «Porque depositou sua confiança no Senhor, permanecerá inabalável na misericórdia do Altíssimo» (Sl 20,8). «Senhor, jamais serei confundido, porque esperei em vós; esperando no Senhor, não conhecerei fraqueza» (24,20 ― 25,1). «Porei a minha confiança no Senhor e não temerei o mal que me possa fazer o homem, que não passa de carne» (55,5). «Vós vos tornastes a minha esperança, ó Senhor, e eu vos experimentei como torre muito forte e fortificada para minha defesa contra os assaltos do inimigo» (60,4). «Em vós esperaram, ó Senhor, nossos pais; confiaram em vós, e vós os libertastes; tendo dito com a vossa própria boca: porque esperou em mim, eu o livrarei» (21,5 ― 90,14). «Vamos, portanto, comportai-vos como homens, vós todos que esperais no Senhor, e que o vosso coração se fortaleça» (30,25). «Espere Israel no Senhor, e ele será seu auxílio e protetor. Os que temem o Senhor esperaram nele; ele é o seu amparo e escudo» (113,17-19). Lembrai-vos de que o coração daquele que está pronto a esperar no Senhor receberá tal firmeza e tal vigor, que verá todos os seus inimigos derrotados antes que possa ser abalado sequer um ponto (111,7-8).
«O Senhor é bom, diz o profeta Naum; ele conhece os que esperam nele e os conforta no dia da tribulação» (Na 1,7). «Os que esperam no Senhor, diz Isaías, adquirirão vigor sempre novo; levantar-se-ão com asas como águias; correrão sem jamais se cansar, caminharão sem nunca desfalecer» (Is 40,31). «Considerai, meus filhos, dizia o Eclesiástico, todas as nações da terra, e sabei que nenhum daqueles que esperaram no Senhor se viu confundido» (Eclo 2,11).
Por isso, com toda a razão, São João Crisóstomo afirma não haver coisa que tanto alimente e revigore a alma quanto a esperança (Homil ad pop.). Ela não somente dá apoio aos justos, mas, coisa admirável de dizer-se!, também comunica aos pecadores tal força e firmeza, que eles se tornam invencíveis (In Psalm. CXVII). E São Lourenço Justiniano deixou escrito: «A esperança é como uma coluna sobre a qual se apoia todo o edifício espiritual; faltando ela, o edifício se desfaz e cai sepultado no abismo do desespero. Ela é a âncora da alma, que a mantém firme e protegida em meio às tempestades furiosas das tentações (De ligno vitae, c, II)» … Sim, a esperança é o que forma os homens laboriosos, os operários diligentes, os comerciantes ativos, os soldados intrépidos… A esperança de conquistar um prêmio, de chegar a um grau mais elevado, de obter uma recompensa mais considerável, impele-os, anima-os, conforta-os e os sustenta.
Se alguma vez Deus dirige a alguém aquelas palavras de Isaías: Não tenhais medo, eu estou convosco; não vos deixeis abater, eu sou o vosso Deus, a vossa força; eu vos socorrerei (Is 41,10), é certamente àqueles que depositam nele a sua esperança; por meio dela eles ficam tão fortalecidos e robustecidos, que se tornam, eu quase diria com o Salmista, irrepreensíveis (Sl 33,23). E isso, 1° porque Deus os sustenta; 2° porque destruiriam a sua esperança se ofendessem a Deus; 3° porque esperam e desejam o paraíso, onde nada de imundo entra.
«Alegremo-nos na esperança», diz São Paulo aos Romanos (Rm 12,12); como se quisesse dizer: entristeçam-se os mundanos e os pecadores que buscam a esperança onde ela não se encontra; mas nós, que temos a esperança da glória celeste, como não haveremos de estar em grande e contínua alegria? «O Deus da esperança vos encha, portanto, de toda alegria e de toda paz na fé, para que abundeis em esperança e na virtude do Espírito Santo» (Ibid. 15,13). A esperança é a alegria, a consolação, a felicidade da alma; é o início da alegria eterna. «Senhor, exclamava o profeta Baruc, sempre esperei de vós a salvação, e veio-me a alegria do vosso Santo» (Br 4,22). «Alegrem-se todos os que esperam em vós, ó Senhor, canta o Salmista; e, arrebatados de júbilo à sombra de vossas asas, encontrem em vós a sua glória» (Sl 5,3). «Esperei no Senhor, exultarei e me alegrarei» (Sl 30,7-8).
«Se a nossa esperança, diz o grande Apóstolo, se estendesse somente a esta vida, seríamos os mais infelizes dos homens» (1Cor 15,19). Mas felizmente para nós a nossa vida é a da cidade dos céus, de onde esperamos o Senhor nosso Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, tornando-o conforme ao seu corpo glorioso, pelo poder com que pode submeter a si todas as coisas (Fl 3,20-21). «Quem espera no Senhor é feliz», lemos nos Provérbios (16,20).
Bens imensos e incompreensíveis estão preparados por Deus para os servos, diz a fé; a mim estão reservados, diz a esperança; para eles corro, acrescenta a caridade (S. BERNARDO, Serm. in Psalm. CX). Sem esperança não há felicidade alguma aqui embaixo, assim como não há paraíso sem caridade. A esperança faz viver no tempo; o amor faz viver na eternidade. A esperança da bem-aventurança eterna é aquela que nos conduz até lá; e, conduzindo-nos para lá, a esperança forma a felicidade do homem sobre a terra… Na esperança está depositada toda a felicidade, tanto das coisas temporais quanto das espirituais… Por que o inferno é tão terrível? Porque não há esperança; e, se esta pudesse entrar nele, o inferno já não seria inferno, mas paraíso.
E não há nada de incrível nem de surpreendente no fato de que aquele que espera em Deus desfrute de suaves alegrias e verdadeira felicidade, porque Deus habita nele. «Cristo, escreve São Paulo, é como um filho em sua casa; e esta casa somos nós, se mantivermos firme até o fim a nossa confiança e a glória da esperança» (Hb 3,6).
«Muitos castigos estão suspensos sobre a cabeça do ímpio, diz o profeta Davi, mas a misericórdia cingirá aquele que espera no Senhor» (Sl 31,10). «Senhor, diz ainda o mesmo Profeta, fazei que eu experimente bem cedo a vossa misericórdia, porque esperei em vós» (Sl 142,8). «Somente a esperança obtém misericórdia junto de vós, ó Senhor, dizia São Bernardo; e vós não derramais o óleo da misericórdia senão no vaso da esperança (Serm. III de Annuntiat.)».
Fruto, pois, desta misericórdia divina, companheira inseparável da esperança, é proporcionar a santidade, a vida e a salvação. «Caríssimos, escreve o Apóstolo São João, presentemente somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não se manifestou. Sabemos que, quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como é. E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se santo, como ele é santo» (1Jo 3, 2-3).
«A esperança da vida imortal é a vida da vida mortal», sentencia Santo Agostinho (In Psalm. II 1). Com efeito, por meio da esperança somos salvos, diz o Apóstolo (Rm 8,24). E o Salmista já cantava: «Senhor, vós salvais aqueles que esperam em vós. Em vós esperei, e não serei confundido eternamente» (Sl 16,7; 70,1).
«Quanto a mim, dizia Santo Agostinho, esperei somente em Deus. Tu, que depositas tua esperança no dinheiro, depositas-na na vaidade; tu, que a depositas nas honras, depositas-na nas vaidades; tu, que a apoias no poder dos amigos, também a apoias em vão sustentáculo. Quando esperas em uma dessas coisas, ou as abandonas ao morrer, ou as perdes ainda em vida, e, em ambos os casos, tua esperança desvanece-se sem dar fruto (In Psalm. XXX)». E São Bernardo assim escrevia ao Papa Eugênio: «Digo-te, ó Santo Padre: somente Deus jamais é buscado em vão, e, quando é buscado com esperança, nunca acontece que não seja encontrado. Não somente não se deve esperar em nada senão nele, mas não se deve buscar coisa alguma além ou fora dele (De Consider.)».
É preciso esperar nele e buscá-lo com aquela perseverança e firmeza com que mostrou esperar nele o bom velho Tobias, quando, aos sarcasmos de seus parentes e amigos, que lhe diziam: Onde está a tua esperança, por causa da qual fizeste tantas esmolas e sepultaste tantos mortos?, respondia: ― «Não faleis assim, porque somos filhos de santos e esperamos aquela vida que Deus dará àqueles que não se cansam de crer nele» (Tb 2, 13, 18). «Não cessemos jamais de afirmar a nossa esperança, escrevia São Paulo aos Hebreus, porque é fiel aquele que nos fez as promessas» (Hb 10,23). «Conservai-me, Senhor, na perseverança, orava o rei Profeta, porque sempre esperei em vós» (Sl 15,1). «E esperarei para sempre» (Sl 70,14). Esperemos em Deus enquanto tivermos fôlego; esperemos em Deus na vida e na morte; digamos com Tobias: «Não deixarei de esperar em Deus, ainda que ele me mate» (13, 5).