Tesouro n.º 185 · Volume III

SAÚDE SALUTE

7 seções · 46 parágrafos · pp. 2136–2149 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DE TRABALHAR PELA PRÓPRIA SALVAÇÃO

«Buscai antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça, diz Jesus Cristo; pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se entretanto perde a alma? Ou que dará o homem em troca dela, uma vez perdida?» (Mt 6,33), (Mt 16,26). Com efeito, narra o Evangelho que, tendo Jesus chegado à casa das duas irmãs Marta e Maria Madalena, em vez de louvar aquela por seu grande afã em recebê-lo bem e de dar-lhe razão na queixa que fazia contra esta, que não a ajudava e permanecia toda absorta em contemplar e ouvir o divino Mestre, disse-lhe: «Marta, Marta, tu te afadigas por muitas coisas; considera que uma só coisa é necessária (a salvação)» (Lc 10,41-42). Sim, uma só ocupação é necessária aqui embaixo: salvar a alma; uma só coisa é verdadeiramente importante: ir para o paraíso.

A todo cristão a Igreja diz, como outrora os Anjos a Lot: «Põe a salvo a tua alma; não olhes para trás nem te detenhas em parte alguma desta região, mas refugia-te na montanha, se não queres perecer com os outros; apressa-te a pôr-te a salvo» (Gn 19,17-22). E todo bom cristão deveria repetir, depois do Salmista: «Uma graça pedi ao Senhor, e continuarei a pedi-la: poder habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida» (Sl 26,4).

A respeito destas palavras de Jesus: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a alma?», São João Crisóstomo diz: Vós não tendes outra alma que possais dar em resgate da vossa alma. Quem perde o seu dinheiro pode recuperá-lo; e igualmente quem perde os seus navios, as suas propriedades, os seus móveis e outras coisas semelhantes ainda pode refazer-se; mas, se perdeis a alma, jamais podereis dar outra coisa que compense essa perda; ainda que fôsseis reis do universo, não poderíeis comprar uma só alma, mesmo que oferecêsseis tudo o que existe no mundo, e o próprio mundo com os seus tesouros. Deixando de lado todo outro negócio, dirigi todos os vossos pensamentos, todos os vossos cuidados e todas as vossas solicitudes para alcançar a salvação da alma. Não vos ocupeis de outra coisa; neste negócio tão importante, ou melhor, o único importante, não vos esqueçais de vós mesmos, como acontece com tantos que amontoam tesouros não para si mesmos, mas para pessoas estranhas, para os vermes (Homil. LVI, in Matth.).

Importa salvar a alma; salva esta, tudo está salvo para a eternidade… Cuidemos de não a perder, porque, perdida ela, tudo está perdido para a eternidade… É preciso salvar a alma, porque não tendes senão uma… É preciso trabalhar para salvá-la, porque é um negócio pessoal, e ninguém pode salvá-la em nosso lugar… É preciso apressar-se a salvá-la, porque não temos para isso senão o tempo presente.

2. EXCELÊNCIA DA SALVAÇÃO

Santo Agostinho afirma que a conversão e a salvação das nações realizadas pelos Apóstolos são um fato que supera em excelência e grandeza a criação do mundo; porque o universo passará, mas a salvação, uma vez obtida, não passará mais (De Civit. Dei). Mas não somente a conversão de um povo ou de uma nação, mas a conversão de uma só alma, da alma do mais miserável dos homens, vale mais que a criação do céu e da terra… E é coisa tão sublime a salvação de uma alma que, segundo São João Crisóstomo, quem se empenha em salvar uma alma realiza obra que deve ser preferida à glória do martírio (Homil. de habenda cura salut. proximi). «Nada pode comparar-se ao valor de uma alma, diz em outro lugar o mesmo Padre, nem sequer o mundo inteiro; por isso, ainda que désseis aos pobres imensas esmolas, teríeis feito pouca coisa em comparação com quem converte uma só alma (Hom. in I ad Corinth.)». São Francisco de Assis dizia da alma: Ela é celeste; conserve-se, pois, e viva no céu; feita para o paraíso, torne-se digna dele (In Vita).

Compreende-se a excelência da salvação, 1º pelo preço da alma; 2º pelo exemplo de Jesus, que veio procurar as almas, instruí-las, padecer e morrer por elas; 3º salvar as almas é obra angélica, ou melhor, divina; 4º pelos exemplos dos Apóstolos e de todos os Santos…, pelos exemplos dos missionários que dizem adeus aos parentes, à fortuna, à pátria, aos amigos, e partem para terras bárbaras e desconhecidas, aventurando-se a mil privações e perigos, a perseguições e mortes cotidianas, para salvar almas; 5º nesta obra consiste a perfeição da caridade e da virtude; 6º a excelência da salvação é ainda comprovada por aqueles milhões de mártires que suportaram toda espécie de tormentos e mortes acerbíssimas para salvar a alma…; por aquelas milhares de pessoas religiosas e virgens que, em todos os tempos e lugares, renunciaram ao mundo, aos prazeres, à juventude, a uma condição esplêndida no século, para se dedicarem à salvação da alma, em meio aos desertos ou entre as paredes de um claustro… 7º Pela recompensa prometida àqueles que trabalham pela própria salvação e pela alheia… «Considerai qual será esta recompensa! diz São Gregório; pois, se é digna de grande prêmio a ação daquele que livra da morte um corpo que um dia deverá morrer, de que mérito não é digna a obra daquele que salva da morte eterna uma alma feita para viver eternamente no céu? (Moral. 1ib. 19, c. VI)».

A excelência da salvação se evidencia, 1º pela origem da alma. Deus criou o céu e a terra com um simples ato de vontade (Gn 1, 1). A criação da luz não lhe custou senão uma palavra (Ib. 3). A formação das estrelas e sua colocação no firmamento parece não ter sido para ele mais que um brinquedo (Ib. 16). Ordena à terra que se separe das águas, que produza toda espécie de animais, e é obedecido. Diz ao mar que respeite os diques que lhe impôs, e assim acontece. Ordena aos animais que sejam servos dos homens, e eles o são… Esta admirável ordem que vemos em toda a natureza, esta estupenda fecundidade da terra, do mar, das árvores, dos animais e dos homens, que começou no dia da criação e continuará até o último dia dos séculos, não custou a Deus mais que uma palavra (Sl 32, 9). Para este vasto universo é necessário um rei; há um rei no céu, é necessário um rei na terra; há um rei na eternidade, é necessário um rei no tempo; e este rei, que já existe desde toda a eternidade no pensamento de Deus, está prestes a aparecer. Mas, como é obra do Onipotente, a Santíssima Trindade reúne-se, por assim dizer, em conselho e delibera… E que decidem o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Ouvi: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1, 26). A Santíssima Trindade põe neste rei um espírito de vida que o faz imagem de Deus (Gn 2, 7). O sol, criatura também tão bela e esplêndida, não foi criado à imagem de Deus… A lua, as estrelas, embora tão cândidas e admiráveis; a terra, embora tão fecunda; o oceano, embora tão vasto, não foram criados à imagem de Deus. Somente a alma traz esta imagem; somente ela foi feita à semelhança de Deus. Nem sequer o corpo humano foi feito à imagem de Deus, porque Deus não tem corpo e é todo espírito… Somente a alma foi assim criada… Portanto, nada há de mais excelente que a salvação desta alma.

2º Podemos fazer uma ideia da excelência e da necessidade de salvar a alma, se observarmos suas admiráveis qualidades… a memória…, o entendimento…, a vontade…, trindade e unidade em nós mesmos. Nem o sol, nem os astros, nem o oceano, nem a terra possuem entendimento, memória ou vontade. Logo, a alma é infinitamente mais preciosa que todas essas criaturas… A excelência da alma manifesta-se ainda em sua espiritualidade, agilidade e imensidade; no domínio que por direito lhe compete e que ela exerce no universo, onde tudo deve estar submetido a ela e pagar-lhe tributo de obediência… Vede ainda a excelência da alma quando ela dá movimento ao corpo… Separada dele, em que se transforma este corpo? É, pois, de suma importância não permitir que ela se perca.

3º Mostra-nos ainda a grandeza de nossa alma e, portanto, a excelência de sua salvação, a consideração de sua veste. A veste do corpo é pobre, humilhante, estrangeira; é tirada dos produtos da terra e das peles dos animais; veste que será um sinal perpétuo da queda, da degradação do homem em Adão… Ao cair, o homem se colocou no nível dos animais; é justa punição do céu que seja obrigado a vestir-se com as peles dos animais… Mas, para vestir a alma, é necessário um Deus; de outro modo, ela estaria nua. «Todos vós, diz o grande Apóstolo, que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Jesus Cristo» (Gl 3, 27); e em outro lugar repete: «Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo» (Rm 13, 14). Eis a veste da alma. Quão bela, quão rica, quão magnífica é tal veste! Como prova a excelência da alma! Que delito seria rasgá-la! Que horrendo crime despojar-se dela para vestir-se do demônio! E, contudo, isso aconteceria se se esquecesse o negócio da salvação.

4º A excelência da alma e, por conseguinte, a necessidade de salvá-la, resulta também da nobreza de sua estirpe e de seu parentesco. Quanto não se orgulham e se alegram aqueles que, nascidos de sangue nobre e puro, veem em seus antepassados uma longa cadeia que se perde na noite dos séculos, e cada elo da qual mostra alguma personagem eminente, seja nas armas, na ciência, na magistratura ou na Igreja… Ora, o que é esse parentesco segundo o mundo, comparado ao de nossa alma? Vedes aquele mendigo agachado à soleira de vossa casa? Oh, como é nobre, como é grande! Seu pai é Deus! Ele pode todos os dias e a todo instante voltar o olhar para o céu e dizer: Pai nosso que estais nos céus! O céu é minha pátria, meu reino; o rei da eternidade é meu pai; sou, portanto, filho de rei, eu mesmo rei, e rei por toda a eternidade! … Nossa alma tem Deus Pai por pai, Deus Filho por irmão, Deus Espírito Santo por esposo! … tem Maria por mãe! — Eis a tua mãe.

Nossa alma, enquanto está nesta terra, tem uma segunda mãe, que é a Igreja católica, apostólica, romana, santa esposa de Jesus Cristo; tornamo-nos seus filhos por meio do batismo. Longos anos de vida, vinte séculos, já conta esta nossa segunda mãe; contudo, ela é sempre, como a pinta São Paulo, gloriosa, sem mancha, sem ruga; é sempre santa e imaculada (Ef 5, 27). Apesar de sua velhice, esta mãe continua jovem, continua fecunda; toda boa, toda terna, ela nos concebe, nos dá à luz, nos amamenta e nos alimenta para Jesus Cristo, e nos dá o céu por herança…

Nossa alma tem por irmãos os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires…; tem por guardião um anjo, traz o nome de um santo… E esta alma se envergonhará de tal parentesco? Tomará ela por pai o demônio, por mãe a morte, por irmãos os réprobos, por patrimônio o inferno? … Ah! não percamos esta alma… Quantas cautelas, quantas proteções, quantas atenções são necessárias para ter acesso junto aos reis e aos grandes da terra! … Vede agora a alma daquele pastor, daquele mendigo, daquele desconhecido: ela é tão ilustre que vai diretamente, quando lhe apraz, ao trono do Rei dos reis, sobe ao palácio celeste e dele toma o que lhe agrada… No palácio celeste, ela não fica na antecâmara.

5º Oh, quanto vale a nossa alma! Tendo caído com Adão, precisa de um Deus para se levantar: daí a encarnação do Verbo. Quanto custa a alma do homem? … Dizei-o vós, ó presépio de Belém, ó jardim das oliveiras, ó bofetadas, ó escarros, ó flagelação, ó coroação de espinhos, ó crucifixão, ó Calvário, ó sangue, ó morte de um Deus! … A nossa alma custa o sangue de um Deus. Estimai o preço deste sangue e conhecereis o preço de vossa alma. — Consummatum est. — Tudo está consumado, disse Jesus na cruz (Jo 19, 30); um Deus morre por minha alma, e minha alma é salva pela morte de um Deus! … Colocai num prato da balança o sangue de um Homem-Deus e, no outro, a vossa alma lavada, resgatada, rubra daquele sangue divino, e pensai que não foi necessário menos que aquele sangue para que a balança pendesse para a misericórdia.

6º Também serve para dar-nos uma ideia da excelência da alma observar de que alimento ela deve nutrir-se. Para alimentar o corpo, basta a erva dos campos… mas pode a alma nutrir-se e viver de produtos terrenos? Não: para alimento, ela precisa da oração, da virtude, da santa comunhão… A alma pede como alimento o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo; e este alimento lhe é tão necessário para a vida e a salvação que Jesus Cristo solenemente disse: «Em verdade vos asseguro que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis em vós a vida» (Jo VI, 54). A alma é, portanto, em certo sentido, infinitamente grande e elevada; é de natureza muito excelente e sublime, se, como assegura o próprio Jesus Cristo, precisa de um Deus por alimento… Que crime, pois, perder esta alma; que delito não salvá-la!

7º O destino da alma, sua futura morada, dão evidentemente a conhecer sua excelência. Para alojar o corpo, basta uma cabana de dois metros quadrados; basta uma cela construída pelo mais rude pedreiro ou operário, e ela ainda supera em grandeza e magnificência o último abrigo que lhe está reservado no cemitério…, mas, para a alma, é necessário o céu…; ela precisa do próprio seio de Deus…

8º Finalmente, o valor da alma deduz-se de sua duração. A que época remonta sua origem? Sua origem se perde em Deus… Quanto tempo viverá ela? Quanto tempo Deus durará… Quando Deus chegar ao fim, também chegará ao fim a minha alma… A eternidade futura, eis a idade certa da alma… Não é, portanto, uma necessidade indispensável pô-la a salvo?

(NB. — Estas e outras considerações semelhantes já expostas no artigo GRANDEZA DO HOMEM convêm perfeitamente tanto a um quanto ao outro tema e servem para meditação e para discurso sobre a preciosidade da alma).

3. DEUS QUER A NOSSA SALVAÇÃO

São claras as provas que a Sagrada Escritura nos dá desta consoladora verdade. Basta ouvir algumas palavras de São Paulo: «A vontade de Deus é que vos santifiqueis» (1Ts 4,3), escrevia ele aos Tessalonicenses; e depois a Tito: «Deus quer que todos os homens cheguem à salvação e ao conhecimento da verdade. Por isso, Jesus Cristo entregou a si mesmo pela redenção de todos…; e, para salvar a todos, morreu», escreve aos Coríntios (1Tm 2,4-6): ― Pro omnibus mortuus est Christus (2Cor 5,15). A propósito daquelas outras palavras do mesmo Apóstolo: «Jesus sofreu a cruz com toda a alegria que se havia proposto» (Hb 12,2), Teodoreto pergunta qual seria essa alegria que Jesus se propôs ao carregar voluntariamente a cruz, e responde que é a salvação das almas (In Epl. ad Hebr.)… É, pois, certo que Deus quer e procura a salvação de todos… Ora, por que nem todos se salvam? Porque não o querem, ou não empregam os meios oportunos…

4. A SALVAÇÃO É OBTIDA POR MEIO DE JESUS CRISTO

«Eu sou a porta, diz o Redentor. Quem entrar por mim será salvo; entrará e sairá, e encontrará pastagens. Porque eu vim para que as minhas ovelhinhas tenham vida; e não uma vida qualquer, mas vida abundante» (Jo 10,9-10). E, outra vez: «A vida eterna (a salvação da alma) consiste, para eles, em que conheçam a vós (ó meu Pai), único Deus verdadeiro, e aquele que enviastes, Jesus Cristo» (Jo 17,3). Por isso, o Apóstolo São Pedro diz categoricamente que não se pode encontrar salvação por meio de nenhum outro senão Jesus; e que não foi dado aos homens outro nome pelo qual possam encontrar a salvação (At 4,12).

5. MUITOS DESCUIDAM DA SUA SALVAÇÃO

A quantos cristãos de nossos dias poderiam ser dirigidas aquelas palavras que São João Crisóstomo dizia a uma parte do povo antioqueno: Vós sois chamados ao reino do Filho de Deus e permaneceis hesitantes, imitando a toupeira e a tartaruga. Imitais a toupeira, ocupando-vos apenas da terra e fuçando continuamente nela; imitais depois a tartaruga, porque não caminhais mais depressa que ela pelo caminho da salvação eterna (Homil. ad pop.). Vem a propósito o que disse Jesus Cristo: «Os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz» (Lc 16,8). Ah! Se se fizesse por Deus, pelo céu, pela alma, aquilo que se faz pela terra, pelo corpo, pela criatura, que rica e esplêndida coroa tantos não conquistariam!… Mas como escaparemos nós ao castigo, pergunta São Paulo, se negligenciarmos tão preciosa salvação? (Hb 2,3).

«A salvação está longe dos pecadores, dizia o Salmista, porque não procuraram os vossos mandamentos, ó Senhor» (Sl 118,155). Sim, o mundo esquece a Deus, esquece a lei divina, esquece os seus deveres, esquece a alma e, por consequência, a salvação… Esquece a única coisa necessária…; e perde-se em coisas de nada… Mas eis que chega, de carreira e de improviso, a morte e o juízo de Deus… Ah! Despertai, ó pecadores; pensai que tendes uma alma a salvar, um inferno a evitar, um paraíso a conquistar; e, para isso, paixões a vencer, culpas a expiar, virtudes a praticar, uma morte a prever…

Ó quantos entre os cristãos serão obrigados, no fim da vida, a clamar com Jônatas: Nós, miseráveis! Por um pouco de mel que apenas provamos, eis-nos condenados à morte eterna! (1Sm 14,43)… Quantos imitam o traidor Judas, que dizia: «Que me dareis, e eu vo-lo entregarei nas mãos?» (Mt 26,15); pois, não se importando absolutamente com a própria salvação e preferindo a ela o ignóbil desafogo de qualquer paixão, tratam com o demônio, com o mundo, com a carne, e vendem-lhes a alma e o céu… Respondem como outrora os judeus a Pilatos, que lhes perguntava qual dos dois, Cristo ou Barrabás, queriam que fosse salvo (Jo 18,40); preferem a impureza, a avareza, a gula, a vingança, a blasfêmia etc. à salvação da alma…

6. O QUE É PRECISO FAZER PARA SALVAR-SE

1° «O reino dos céus sofre violência, diz Jesus Cristo, e somente os que usam de violência o arrebatam» (Mt 11,12). Estreita é a porta pela qual se entra no céu; esforçai-vos por alcançá-la (Lc 13,24), diz ainda o mesmo Salvador. E estas palavras têm sua explicação nestas outras: «Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me» (Lc 9,23).

2° É sentença do divino Mestre que quem quiser salvar a própria alma a perderá (Mt 16,25). Ora, perder a própria alma quer dizer não lhe poupar o açoite da mortificação, submetê-la à prova da humildade, da obediência, da pobreza voluntária e de semelhantes virtudes, pelas quais a alma permanece como que macerada, extinta e renovada. «Se nos celeiros, diz São Gregório, mantendes fechado o vosso trigo, vós o perdeis; se o semeais, vós o renovais. Quem não sabe que o grão semeado desaparece da vista e apodrece no solo? Mas é justamente de sua putrefação que recebe nova vida (Moral.)». Desapareça também a alma, por assim dizer, sob o peso das virtudes, e principalmente da humildade.

3° É preciso avançar sempre. «Correi, diz São Paulo, de modo a alcançar o prêmio. Os que lutam na arena abstêm-se de tudo; fazem isso para receber uma coroa corruptível; que deveríamos fazer nós, aos quais está reservada uma incorruptível? Eu, portanto, corro de modo que não vou ao acaso; combato de tal maneira que não desfiro golpes no ar; mas mortifico o meu corpo e o reduzo à servidão» (1Cor 9,24-27).

4° Não olhar para trás, porque quem quer que ponha a mão no arado e depois olhe para trás mostra não ser feito para o reino dos céus (Lc 9,62).

5° É preciso trabalhar pela própria salvação com temor e tremor, segundo a advertência do Apóstolo (Fl 2,12).

6° Esquecer a terra, pensar no céu. «Prossigo a minha corrida, dizia São Paulo, para alcançar aquilo a que o Senhor Jesus me destinou. Não, não me vanglorio de já ter chegado; mas, esquecendo o que ficou para trás e avançando para o que está diante de mim, corro para o termo da recompensa, à qual Deus me chama por Jesus Cristo» (Fl 3,12-14).

7° Aproveitar o tempo favorável, que é o tempo da vida presente (2Cor 6,2), diz São Paulo: «Eis o tempo de que importa aproveitar-se; eis agora os dias da salvação».

8° Viver para Jesus Cristo. «Jesus, escreve o Apóstolo das Gentes, morreu por todos; para que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2Cor 5, 15).

9° Combater pela fé. «Combate, dizia o Apóstolo a Timóteo, o bom combate da fé, e chegarás à posse da vida eterna, para a qual foste chamado» (I, 6, 12).

10° Suportar as provações com paciência. «É por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino dos céus», sentencia São Paulo (At 14, 21).

11° Empregar os meios já sugeridos por um Anjo a Santo Arsênio, que são: foge, observa o silêncio, ama o retiro: eis os princípios da salvação (Vit. Patr.)

12° Ser prudente. Lemos nos Provérbios que a alma imprudente perde a sua salvação (Pr 19, 2). A prudência vela pela salvação da alma; considera as recompensas e os castigos; impele o homem a fugir da culpa, a viver santamente. Isto é o que o Sábio chama de ciência dos Santos (Sb 10, 10); e o Anjo, em São Lucas, chama de sabedoria dos justos (Lc 1, 17).

13° Ter compaixão da própria alma e guardá-la com solicitude (Eclo 30, 24), (Dt 4, 15). Aquele que tem a peito a salvação da sua alma preocupa-se com ela, jamais a perde de vista, observa-a atentamente, vela por ela. Quem não se empenha pela própria salvação odeia a sua alma e procede cruelmente para com ela,

14° Pensar no juízo. «Deus, escreve Orígenes, confiou e recomendou à vossa alma a sua imagem e semelhança; tendes o dever de restituir-lhe este precioso depósito tão intacto quanto Ele vo-lo entregou (In Cantic.)».

15° Observar a lei de Deus. «Se queres chegar à vida, observa os mandamentos», disse o Redentor (Mt 19, 17). Porque «quem guarda os preceitos de Deus salva a própria alma», diz o Sábio (Pr 19, 16). A lei de Deus é o caminho prescrito ao homem, pelo qual deve tender diretamente à virtude, à salvação, ao próprio Deus, caminhando sem cessar para esse fim… «Nem todos os que clamam: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus, diz Jesus; mas somente aquele será digno de nele entrar que cumpre a vontade de meu Pai celeste» (Mt 7, 21). Ora, quem outro faz a vontade do Pai celeste senão aquele que observa a sua lei?

16° Finalmente, devemos querer salvar-nos e querê-lo resoluta e eficazmente. São Tomás de Aquino, interrogado por uma irmã sua sobre como poderia salvar-se, respondeu-lhe: «Querendo-o, isto é, se queres eficazmente salvar-te; porque esta vontade eficaz, que é o objetivo da salvação, te forçará a abraçar e praticar todos os meios necessários e mais adequados para alcançá-la (p. 4, q. art. 9)».

Um amigo de São Carlos Borromeu pediu-lhe que lhe indicasse os melhores meios para agradar a Deus e assegurar a própria salvação. E o Santo traçou-lhe as seguintes regras: 1° É preciso começar cada dia, isto é, esforçar-se diariamente para servir a Deus com tanto ardor como se aquele dia fosse sempre o primeiro em que se começasse a servi-lo; 2° caminhar atualmente na presença de Deus; 3° ter somente a Deus como fim em todas e em cada uma de nossas ações (In Vita).

7. O QUE FIZERAM OS SANTOS PELA SUA SALVAÇÃO

Abraão, Isaac, Jacó, que caminho tomastes para chegar ao céu? Cheios de fé, consideramos a terra como exílio, e nossas moradas foram sob tendas móveis, confessando-nos estrangeiros e peregrinos neste mundo (Hb 11, 13). Apóstolos, Mártires, que fizestes para salvar-vos? Fomos apedrejados, serrados, torturados, mortos à espada; andamos de um lado para outro cobertos de farrapos, envoltos em peles de ovelhas e de cabras, necessitados, aflitos, angustiados (Hb 11,37). Santos anacoretas, eremitas, religiosos, como obtivestes a salvação de vossa alma? Abandonando o mundo, suas riquezas, comodidades, honras e prazeres; andando errantes e perseguidos pelos desertos e montanhas, nas grutas e cavernas da terra (Ib. 38). Vigiamos, jejuamos, rezamos… Mostra-nos, ó Paulo, o segredo de que te serviste para ser arrebatado até o terceiro céu, enquanto ainda estavas na terra, e para assegurar-te a coroa da vida: Não poupei fadiga, para que Jesus fosse glorificado em mim, tanto na vida como na morte; a tal ponto que suspirava pela dissolução do meu corpo, para estar eternamente com Jesus Cristo, que era a minha vida, e para quem eu considerava lucro morrer. Eu não vivia senão no céu e para o céu (Fl 1, 20, 21, 23 ― 3, 20). Eu considerava como nada todos os sofrimentos desta vida, comparados com a eterna que nos está reservada (Rm 8, 18). Eu mortificava o meu corpo e o sujeitava à lei da razão e de Deus (1Cor 9, 27). Não me cansava de modo algum no combate do bem e, embora em mim o homem exterior sucumbisse, o interior, contudo, se fortalecia e rejuvenescia dia após dia. Porque eu considerava os poucos e passageiros sofrimentos do tempo presente como portadores de um peso imenso de glória eterna. Eu não atentava para o que se vê na terra, mas contemplava o que não se vê. Estava abatido, mas não quebrantado; retardado, mas não detido; perseguido, mas não abandonado; derrubado, mas não vencido. Estive nas prisões, nos trabalhos, nos perigos; padeci frio, fome, sede e nudez; fui flagelado, apedrejado, exposto mil vezes à morte e, entretanto, jamais deixei de ocupar-me com toda a solicitude e diligência do cuidado de todas as Igrejas (2Cor IV e XI).

Conta-nos, ó São Sebastião, que fizeste para chegar à salvação? Meu perseguidor pôs-me como alvo de suas flechas; mas os dardos do céu se cravaram mais profundamente em meu coração do que seus dardos em minhas carnes (In Vita). E vós, ó São Vicente e São Lourenço, que caminho seguistes para chegar à cidade de Deus? Fomos provados pelo fogo, e não se encontrou em nós mancha de iniquidade (Sl XVI, 31). Ó Inês, quanto te custou o céu? Venci os corruptores atrativos da carne e, armada de coragem invencível, mantive-me insuperável contra todas as ameaças e tormentos do tirano; e eis-me chegada àquele Jesus que amei, que busquei e por quem suspirei; eis-me unida no céu àquele a quem amei de todo o coração na terra (In Vita).

Leiamos com frequência a vida dos Santos, e veremos o que fizeram por sua salvação… Sigamos esses guias fiéis e seguros, formemo-nos segundo esses belos modelos, armemo-nos com sua proteção e seu auxílio na guerra contra os nossos inimigos visíveis e invisíveis, nas tentações, nas enfermidades, na tristeza, para que, vivendo sob o céu, estejamos sempre, de espírito e de coração, no céu. Este é o modo de assegurar a nossa salvação. Imaginemos ouvir o que São Francisco de Assis pregava aos seus frades: Meus irmãos, grandes coisas prometemos a Deus, mas Deus nos prometeu coisas ainda maiores: sejamos fiéis às nossas promessas e esperemos nas promessas de Deus. O prazer é breve, a pena é eterna; os sofrimentos desta vida são suportáveis, a glória é infinita; cada um receberá segundo as suas obras (S. BONAV. In Vita).

Começa, minha alma, a ser agora aquilo que um dia deves tornar-te: estás destinada a ser companheira dos Anjos; vive angelicamente: o teu Anjo da Guarda, os Santos e toda a imensa multidão dos eleitos, outros tantos teus amigos, esperam por ti; estuda o passo, apressa-te, avança, corre, voa. A Bem-aventurada Virgem Maria, tua mãe, estende-te os braços; Jesus Cristo espera por ti para coroar-te. Deus Pai espera por ti, para dar-te, como a sua filha, a herança eterna; Deus Filho espera por ti para abraçar-te como irmã dileta; Deus Espírito Santo solicita-te, como sua esposa, para vestir-te e adornar-te com uma beleza inefável, um esplendor indizível, uma glória infinita, para desposar-te consigo e declarar-te rainha para sempre… Que esperas tu, minha alma, desta terra que não é a terra dos Santos? Que podes tu esperar das criaturas, do mundo e de seus vis prazeres? Ah, voa desta terra de miséria, de perigos e de escândalos para a terra dos viventes. Toda a corte celeste te espera e já clama: «Quem é esta que avança semelhante à aurora nascente, bela como a lua, resplandecente como o sol? Quem é esta que sobe do deserto, abraçada ao seu amado?» (Ct 6, 9 ― 8, 5).

Quando, ó minha alma, depois dos trabalhos desta vida, apareceres na eternidade, os Anjos dirão a Jesus Cristo: Quem é esta vestida de branco e de onde veio? E Jesus lhes dirá: Esta alma veio do meio da grande tribulação e lavou e alvejou a sua veste no sangue do Cordeiro. Por isso, eu a colocarei diante do trono de Deus, e ela o servirá dia e noite no seu templo. Doravante, ela não sofrerá mais fome nem sede, e Deus enxugará de seus olhos cada lágrima de pranto (Ap 7, 13-17). Escuta, minha alma, o que diz o Esposo celeste: «Levanta-te e apressa-te, minha dileta, minha pomba, vem, ó minha bela! Vem, minha esposa, e serás coroada» (Ct 2, 10 ― 4, 8). E então se cumprirá, ó minha alma, aquilo que o Senhor diz pela boca de Isaías: «Mudarei a cinza da tua cabeça em coroa, as tuas lágrimas em alegria, as vestes de luto em trajes de festa» (Is 61, 3).

Então, ó minha alma, voarás, altiva e segura, aos divinos e eternos amplexos do Esposo celeste, e dirás, cheia de indizível entusiasmo: «Encontrei aquele que é o amor do meu coração; estreito-o contra mim, sem temor de jamais perdê-lo. O meu amado está comigo, e eu estou com ele» (Ct 3, 4 ― 2, 16). «Eu me alegrarei no Senhor e exultarei de júbilo; o meu Deus me adornou com as vestes da salvação, com os ornamentos da justiça, como um esposo cingido com o diadema e como uma esposa resplandecente de diamantes» (Is 61, 10).

Detenhamo-nos frequentemente nestas grandes maravilhas; mantenhamo-nos unidos aos Anjos e aos Santos. Estejam com eles o nosso coração, a nossa alma, a nossa inteligência, a nossa vontade, os nossos olhos, a nossa boca, toda empresa, todo voto, toda obra nossa; para que, depois do breve e miserável curso desta pobre vida, sejamos recebidos na sociedade de todos os eleitos e ali gozemos da visão e da posse eterna de Deus. Assim seja.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.