«Oliveira fecunda, bela e verdejante, é o nome que Deus te deu», diz Jeremias, falando do homem justo (Jr 11, 16). Os Santos são comparados à oliveira: 1° Por causa de sua robustez e vigor, pelos quais ela não apodrece nem teme a tempestade ou a velhice, de modo que, entre os antigos, era símbolo da eternidade. 2° Por causa de sua fecundidade, que fazia o Salmista dizer: «Quanto a mim, sou como uma oliveira frutífera na casa de Deus» (Sl 51, 10). 3° Por causa da unção espiritual da graça, da devoção e da caridade, que dá valor às boas obras. 4° Por causa da paz de que gozam os Santos, porque a oliveira é símbolo da paz: assim, a pomba, levando a Noé, que ainda estava na arca, um ramo de oliveira, indicava o fim do dilúvio e a reconciliação da terra e dos homens com Deus. Os Santos são pacíficos com todos. 5° Assim como a oliveira jamais se despe de suas folhas, mas permanece sempre verde, assim também a beleza das virtudes e das boas obras dos Santos jamais murcha, mas se conserva sempre esplêndida, sempre rica, sempre florescente. 6° A oliveira é sinal da misericórdia, é figura da doçura: belo símbolo dos Santos, que, cheios de doçura e mansidão, têm como característica a misericórdia. 7° O fruto da oliveira impede a ferrugem, torna os corpos macios e lustrosos; assim, os Santos tiram de si mesmos e dos outros a ferrugem do pecado, são aptos para as mais árduas empresas e ainda preparam os outros para elas. 8° O suco da oliveira, isto é, o azeite, é empregado nas unções e nas consagrações dos bispos, dos sacerdotes e das igrejas; os Santos são os ungidos e os templos do Senhor. 9° A oliveira coberta de pequenas folhas, mas carregada de excelentes frutos, indica que os Santos fogem da ostentação e das honras, mas são ricos em boas obras, boas em si mesmas e úteis a todos.
Nas Sagradas Escrituras, os Santos são comparados à águia pelas seguintes razões: 1° A águia é a rainha das aves; os Santos são, entre todos os demais homens, verdadeiros reis, porque, se é verdade que Deus empenhou a sua palavra de que faria a vontade daqueles que o temem (Sl 144, 19), segue-se que os Santos, de certo modo, comandando ao próprio Deus, reinam sobre a terra, sobre o inferno, sobre o mundo, sobre si mesmos e até no céu. 2° Na águia ocorre um não sei quê de renovação da vida, segundo a expressão do Salmista: «A tua juventude se renovará como a da águia» (Sl 102, 5). Os Santos renovam-se a cada dia no fervor, no amor, na fidelidade a Deus, na humildade etc.; preparam para si uma juventude eterna no céu… 3° A águia tem algo de celestial; assim, os Santos mostram em si certos sinais de grandeza e de nobreza que inspiram respeito etc…. 4° Os Santos são águias divinas que sobem e descem. Sobem até Deus para orar a ele, adorá-lo, amá-lo, receber os seus dons e gozá-lo; descem para combater o demônio e o vício, socorrer o próximo e torná-lo participante dos favores que foram buscar no céu. 5° A águia tem o olhar vivo, firme e penetrante, e o mantém fixo no sol em pleno meio-dia; assim também os Santos têm o olhar firme e agudo da fé, da sabedoria, da prudência, da retidão e da simplicidade; contemplam em tudo e em todo tempo o próprio Deus; veem-no e seguem-no até os abismos da eternidade. 6° A morada da águia fica no cume dos mais altos picos; os Santos permanecem continuamente ocupados em pensamentos sublimes, em obras celestiais etc….
1° O sol, os astros e as estrelas estão no céu do firmamento; os Santos estão no próprio céu de Deus. 2° Os astros, embora muito maiores que a terra, aparecem, contudo, pequenos por causa de sua distância e de seu enorme afastamento da terra; os Santos, embora altíssimos e grandíssimos em perfeição, mostram-se, contudo, pequenos e humildes por causa de sua profundíssima humildade. 3° As estrelas são insensíveis a qualquer coisa, tanto às injúrias como aos louvores; os relâmpagos e a tempestade nada podem contra elas; estão colocadas acima de toda essa convulsão terrena; assim são os Santos na região que habitam. 4° Os astros e as estrelas resplandecem e iluminam; assim também os Santos resplandecem pelas virtudes e, como Jesus era «a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo» (Jo 1, 9), assim também eles são faróis de luz para os demais homens em meio à ignorância e à iniquidade do século; com esta diferença: Jesus resplandecia e iluminava por si mesmo, sendo a luz incriada, ao passo que os Santos resplandecem e iluminam por Jesus Cristo e em Jesus Cristo, recebendo dele a luz que depois refletem e difundem sobre os outros. De todos os Santos se pode dizer aquilo que o Evangelho diz de São João Batista: «Ele era uma lâmpada ardente e luminosa» (Jo 5, 35). A sua palavra é trovão, a sua vida, um contínuo relâmpago de luz, como dizia São Basílio do Nazianzeno (Orat. de S. Gregor.). 5° A luz é puríssima e sumamente ativa, veloz como o pensamento; assim são os Santos, puríssimos nos costumes e sumamente ativos nas boas obras. 6° A luz é o que há de mais imaterial entre as criaturas de Deus; os Santos são inteiramente espirituais, nada há neles de material e terreno, porque não se ocupam daquilo que é terra e matéria, mas atendem unicamente ao que é espírito, ocupando-se antes de tudo e sobretudo de Deus. 7° A luz penetra nas cloacas sem se manchar; assim os Santos, embora vivam no meio dos pecadores, conservam-se puros de suas imundícies. 8° A luz aquece; pelo fogo do amor divino que os inflama, os Santos aquecem também os corações mais frios. 9° As estrelas ocultam a sua substância e a sua extensão, mostrando apenas a luz e o calor; assim também os Santos mantêm ocultas dos homens as suas virtudes, graças e glória e, quanto mais as ocultam, mais resplandecem e mais aquecem. Não querem ser vistos, para que os homens, vendo as obras sem ver os seus autores, atribuam tudo a Deus e somente a ele deem louvor. 10° Uma chuva benéfica desce para fecundar o solo quando os astros estão cobertos por densas camadas de nuvens; assim, quando a calúnia obscurece os Santos, então eles fazem maior bem aos seus inimigos. Ah, sim, digamos também com o Sábio: «Os vossos Santos, ó Senhor, estão em uma grandíssima luz, e são eles mesmos luz» (Sb 18, 1); e neles, como luz que vem de Deus, podemos ver a luz eterna que é Deus (Sl 35).
Os Santos podem ser comparados ao céu: 1° porque têm no céu o seu coração e a sua alma. 2° Estão no céu em virtude da graça de Deus que neles se encontra e por todas as virtudes que neles resplandecem. 3° Estão no céu porque são o templo, o trono, o tabernáculo e a morada de Deus. Isso fazia Santo Agostinho dizer: «Deus habita no céu, e o céu de Deus são todas as almas justas e santas. Com efeito, embora os Apóstolos estivessem aqui embaixo, na terra, em carne, eram, contudo, céu, porque Deus, residindo neles, ia com eles por todo o mundo, e Jesus habitava em seus corpos pela fé (In Psalm. 122)». 4° Os Santos se assemelham ao céu porque derramam a chuva das graças, trovejam contra os vícios e enviam relâmpagos que rasgam as sombras das iniquidades humanas… «Sob o nome de céu compreendemos os Santos de Deus, observa Santo Agostinho, neste sentido: Deus, habitando neles, troveja com os seus preceitos, relampeja com os seus milagres e rega a terra com a sabedoria da verdade. Os céus proclamam a glória de Deus; ora, os Santos são esses céus que cantam a glória porque, elevados acima da terra e trazendo Deus em si, trovejam com a pregação e resplandecem como relâmpagos pela sua sabedoria (In Psalm. CI, serm. II)». Os Santos são o termo e o fim de todas as coisas, porque, para os Santos e para os eleitos, Deus criou o mundo, assim como criou o firmamento para nele colocar os astros.
5° Escreve o mesmo Padre: «Nós, que temos o corpo da terra e a alma do céu, somos terra e céu, e em um e em outro, isto é, no corpo e na alma, rezamos para que se faça a vontade de Deus, na terra como no céu. Vós todos, ó cristãos, podeis ser céu, contanto que o queirais: purificai o vosso coração, desprendendo-o da terra. Quando as paixões não vos prendem, de modo que possais responder, em verdade, que tendes o coração no alto, sois céu: revestis um corpo de carne, mas já sois céu quanto à alma (Contra Iulian. lib. II)». 6° No céu do firmamento encontram-se o sol, a lua e as estrelas, diz São Bernardo; assim também, na alma do justo, há o sol da inteligência, a lua da fé e as estrelas da virtude. ― «E do mesmo modo, continua o santo Doutor, que as estrelas brilham durante a noite e permanecem escondidas durante o dia, assim a verdadeira virtude, que muitas vezes nas prosperidades pouco ou nada se deixa perceber, nas adversidades resplandece em todo o seu fulgor. A virtude é, pois, um astro, e o homem virtuoso, um céu. A Igreja tem os seus céus, e estes são os homens espirituais, notáveis pela vida e pela reputação, puros na fé, firmes na esperança, grandes na caridade, elevados pela contemplação; eles fecundam a terra com uma chuva salutar de bênçãos e graças, trovejam com as suas advertências e ameaças, brilham e iluminam com os seus prodígios (Serm. XXVII in Cant.)».
7° Os Santos são chamados céu porque os seus costumes celestes começam a bem-aventurança celeste e, portanto, começam o seu céu… Façamos, diz o Crisóstomo, da nossa alma um céu. 1) O céu é sempre claro e esplêndido, jamais triste e melancólico, nem mesmo na sombria estação do inverno; porque, então, não é ele que muda de aspecto, mas as negras nuvens que o velam é que o tornam invisível para nós: assim o homem santo se conserva em todo tempo calmo, sereno e imperturbável. 2) O céu tem o sol; nós também temos o sol de justiça; e vejo que podemos tornar-nos melhores que o céu: de que modo? Possuindo o Senhor do céu. 3) O céu se eleva a grande distância da terra; façamos nós o mesmo, separemo-nos da terra e elevemo-nos para Deus. 4) O céu parece às vezes escurecer-se e irar-se, mas, na realidade, não sofre dano algum; assim, por vezes, parece que sofremos, mas, entretanto, em nosso interior, a alegria e a serenidade vencem todas as penas, se nos encontramos elevados com Paulo e com os Santos que, mais altos que o céu, chegaram até junto do Senhor. Quem virá arrancar-nos do amor de Cristo? exclamava este grande Apóstolo; porventura a tribulação, a angústia, a fome, a nudez, os perigos, as perseguições, a espada? Mas somos superiores a tudo isso pela virtude daquele que nos amou. Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os principados, nem as potestades, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem criatura alguma será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor (Homil. XVI in Epl. ad Hebr.). E Santo Agostinho, sobre aquelas palavras do Salmista: «O céu é a minha morada» ― diz: «Quem são os céus, senão os justos? Deus habita neles, está sentado ali como em seu próprio trono, e de lá julga. Assim como o pecador, a quem foi dito: és terra e à terra voltarás, tornou-se verdadeiramente terra; assim os Santos se tornaram céu (In Psalm. CXXI)».
«Os Santos são fortes, escreve o Papa São Gregório: dominam a carne, resplandecem pelas virtudes, fortalecem o espírito, calcam aos pés as coisas terrenas, aspiram às celestes; podem ser mortos, mas não vencidos; jamais sustentam o falso por temor, nem deixam, por ameaças ou torturas, de sustentar e defender a verdade (Moral. lib. V)». Isto é força, é energia, é heroísmo! … Porventura já se viu o ímpio, o incrédulo, fazer outro tanto, mostrar semelhante coragem? Tudo nele é vileza, é covardia, porque está só, porque Deus e toda verdadeira virtude lhe são inteiramente estranhos.
Quem jamais demonstrou maior energia e heroísmo que José, Moisés, Josué, os Profetas, os Macabeus; Eleazar, Judite, os três jovens na fornalha, Jó, Tobias, Daniel, João Batista? Quem manifestou zelo mais heroico que os Apóstolos, que não se atemorizaram nem com penas, nem com trabalhos, nem com insultos, nem com ameaças, nem com açoites, nem com combates, nem com cadeias, nem com prisões, nem com fogo; nem com espada, nem com cruz, nem com a morte? Esses Apóstolos, sós, sem armas, sem dinheiro, sem relações, sem exércitos, são mais fortes que o mundo inteiro. Com efeito, o universo pagão se levanta contra eles como um só homem, e eles veem esse universo cair-lhes aos pés; o mundo é vencido, e eles correm triunfantes sobre tudo e por toda parte; e nem uma gota de sangue é derramada por eles para colher tantos e tão gloriosos triunfos! Esses doze cordeiros prostram milhões de tigres e leões. Eis a força, o vigoroso valor dos Santos! …
Onde se encontra um heroísmo como o dos mártires? Nem ameaças, nem ferro, nem chamas, nem feras tiveram poder de fazê-los, não digo tremer, mas empalidecer. Uma Inês de treze anos, uma Cecília, uma Felicidade, uma Perpétua, uma Emerenciana, são mais fortes que todos os seus juízes iníquos, que os seus carrascos… Eis a força, a coragem, o heroísmo dos Santos! … Quem ergueu aqueles magníficos templos à glória do Altíssimo, dos quais se orgulham as mais ilustres terras? Foram os Santos… Quem idealizou e construiu aqueles grandes monumentos de caridade e humanidade, destinados a acolher o que o mundo despreza e abomina, a hospedar o indigente, o enfermo, o órfão, o ancião? Foram os Santos… Quem, em tempo de fome e de peste, permaneceu à cabeceira do pestilento e levou pão ao faminto? Os Santos… Quem são aqueles que, pondo em perigo a própria vida, atravessam montanhas, cruzam os mares, penetram em florestas virgens e em regiões bárbaras e desconhecidas, com a única intenção de arrancar à barbárie e ao inferno hordas selvagens, povos antropófagos? Os Santos… Junto de quem poderemos encontrar a pureza, a ciência, a verdadeira prudência, o santo amor, os bons costumes? Junto dos Santos… Em todas essas e em outras semelhantes obras de heroica abnegação e de ilimitada caridade, encontrais acaso algum incrédulo, algum ímpio, algum filósofo racionalista, algum mundano? Jamais! … Tais homens só aparecem para abater, derrubar e destruir as obras da caridade e da misericórdia.
É rico aquele que nada deseja, diz Santo Agostinho; ora, quem é mais rico que os Santos, os únicos entre todos os homens que nada desejam desta terra, que tanto aguça o apetite dos outros (De coelesti Vita)? Eles desejam uma só coisa: Deus, e o possuem; e, quando se possui Deus, acaso ainda falta alguma coisa? Precisa-se de algo mais? Não estão nele todos os tesouros imagináveis? … Oh! como o ouro empalidece e causa repugnância em comparação com Deus! Por isso, a exemplo do divino Mestre, que de todas as riquezas da terra não quis para si senão um presépio e uma cruz, todos os Santos desprezam o ouro, a prata e todos os bens terrenos como lama e imundície. Com todo o ouro do universo, Jesus não teria resgatado sequer um só homem; com a sua cruz, salvou o mundo inteiro. Eis por que os Santos sempre consideraram a cruz como o mais precioso dos tesouros e sempre se mantiveram abraçados a ela. Ah! Digamos também nós com Santa Teresa: Aconteça o que acontecer, o negócio mais importante é conservar a cruz bem apertada contra o peito (In Vita). Os Santos podem ser despojados de tudo, jamais de Deus; e, quando se possui Deus, pode-se facilmente passar sem todo o resto. Ao contrário, sem Deus, ainda que se possuísse o mundo inteiro, nada se teria. Ninguém quererá negar que os bem-aventurados do céu sejam infinitamente ricos e felizes, e, contudo, não possuem outra coisa senão Deus…
E como não serão felizes os Santos, se neles se encontram a paz, a tranquilidade da consciência, a inocência, a serenidade, o candor da alma, a virtude, a graça, o sangue de Jesus Cristo? Eles são o templo de Deus, o seu tabernáculo, seus membros, seus herdeiros, seus coerdeiros; o Espírito Santo habita neles com todos os seus dons e frutos; têm o céu, têm Deus! … Que desejar, que pedir mais? … Quem carece de todas essas verdadeiras riquezas, ainda que possuísse todo o mais, poderia acaso chamar-se rico? … Ah, os únicos verdadeiramente ricos são os Santos! … Os únicos verdadeiramente pobres são os pecadores e, sobretudo, os pecadores habituais, obstinados no mal… Na morte, no juízo de Deus, na eternidade, estas verdades se verão claramente; mas será tarde demais para o ímpio que, no presente, voluntariamente se cega…
«A memória do justo, lemos nos Provérbios, é um perfume de louvores; mas o nome do ímpio cairá em corrupção. Como uma tempestade que em breve se dissipa, assim é o ímpio; como uma pedra fundamental que não se remove, assim é o justo. Ele está a salvo de toda perturbação, mas o ímpio não possuirá a terra» (Pr 10, 7, 25, 30).
«Ó quanto é admirável Deus nos seus Santos!» exclama o Salmista (Sl 67, 36). São João nos relata, em seguida, ter visto sob o altar de Deus as almas daqueles que haviam sofrido a morte por causa da palavra divina e do testemunho que haviam dado. Vestes brancas foram dadas a cada uma delas, e foi-lhes dito que repousassem (Ap 6, 9-11).
Com efeito, os nomes de Noé, Abraão, Jacó, Isaac, Moisés, dos patriarcas, enfim, e dos profetas atravessam os séculos venerados; os nomes dos Apóstolos, dos Mártires, dos Doutores, dos Confessores, das Virgens, de todos os Santos de todas as épocas e de todos os lugares recebem aplausos e são pronunciados com respeito por todas as bocas dos fiéis, fazendo palpitar de amor os corações de milhões de crentes… Olhai os túmulos dos Santos… Observai os templos, os monumentos, os altares erguidos em sua memória… Cada diocese, cada reino, cada paróquia tem o seu titular, o seu Patrono, ao qual são dirigidas orações, súplicas e honras; cuja intercessão se solicita; cujas relíquias são levadas em triunfo; cuja memória é celebrada com solenes pompas e festas… Por mais corrompido que seja o mundo, a sua impudência ainda não chegou ao ponto de escolher para patrono um Caim, um Antíoco, um Nero, um Judas… A memória de um incrédulo é objeto de repugnância, abominação e maldição, e isso é justiça; Deus dá a cada um segundo as suas obras… Que mais? Até os maus são obrigados a respeitar os Santos e a prestar-lhes homenagem. Os Santos têm este segredo, que lhes é inteiramente próprio: obrigar os próprios incrédulos a crer na virtude. O seu nome e a sua memória são venerados de geração em geração, diante de Deus e dos homens, como a Sagrada Escritura narra a respeito de Tobias e de sua família: «Toda a sua descendência e parentela perseverou com tanta fidelidade no reto caminho e nos bons costumes, que foram amados por Deus e pelos homens e por todos os habitantes» (Tb 14, 17).
As vantagens que os Santos auferem aqui na terra de sua santidade são aquelas que a graça, a virtude, as boas obras, os méritos, a paz, a alegria interior, uma boa vida e uma santa morte trazem consigo. Já as vantagens e recompensas que os aguardam na eternidade são grandiosamente indicadas pelo Apóstolo nestas palavras: «Nem os olhos jamais viram, nem os ouvidos jamais ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem aquilo que Deus preparou para os que o amam» (1Cor 2,9). Ver a Deus tal como ele é, face a face; conhecê-lo, amá-lo, possuí-lo para sempre, sem temor de perdê-lo, é coisa tão sublime que, para exprimi-la, não bastam as línguas humanas. Sirva para dar dela uma ideia pálida este trecho de São Cipriano: «Assim como uma gota de água misturada com grande quantidade de generoso vinho nele se perde inteiramente e toma o sabor e a cor do vinho; como o ferro perde no fogo sua primeira aparência e se torna inteiramente semelhante ao fogo; como o ar penetrado pelos raios solares adquire a claridade do sol; como o espelho atingido pelo sol se torna outro sol; assim os Santos, penetrados total e intimamente pelo amor de Deus, revestidos de Deus, são divinizados, transformados na semelhança de Deus (De singul. Clericor.)».
Em uma de suas magníficas visões, São João viu os Santos, uma multidão inumerável e imensa de toda nação, tribo, povo e língua, de pé, vestidos de branco e com palmas nas mãos, diante do trono e do Cordeiro, clamando em alta voz: Salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro. E tendo o Apóstolo perguntado: Quem são estes vestidos de branco e de onde vêm?, foi-lhe respondido: São aqueles que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus e o servem dia e noite em seu templo; e aquele que está sentado no trono os cobrirá como uma tenda. Já não terão fome nem sede; não serão mais molestados pelo sol nem por qualquer outro calor, porque o Cordeiro que está no meio do trono será seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida; e Deus enxugará de seus olhos toda lágrima (Ap 7, 9, 17)… Que glória, que felicidade aguarda os Santos na ressurreição! Ela não será gloriosa para ninguém senão para eles. Somente eles ressuscitarão gloriosos e triunfantes; seus corpos, que tiveram parte em seus trabalhos e em seus méritos, devem também participar da recompensa.
Assim São Gregório descreve o caminho dos Santos: Os Santos olham com desprezo tudo aquilo que o mundo mais preza. Não se ocupando senão de seu interior, têm os olhos fixos em coisa inteiramente diversa do mundo e de seus bens; consideram como estranho a si tudo quanto sofrem nesta vida. Trabalhando continuamente para desprender sua alma do corpo, chegam quase a ignorar aquilo que sofrem corporalmente. Para eles é um nada aquilo que o século considera como o que há de maior, porque, colocados no alto do monte da santidade, os objetos terrenos lhes parecem um grão de areia. Não fazem caso das alegrias da vida presente e, superando a si mesmos por sua elevação espiritual, subjugam em si tudo aquilo que causa perturbação e agitação aos homens carnais. Sabem vencer as ameaças quando se trata de sustentar a verdade e refreiam e rebaixam, com a autoridade do espírito, aquilo que neles procurasse elevar-se por orgulho (Moral. lib. 31, c. XIX).
Não menos nobremente fala Santo Ambrósio: Que maravilha, se tantos auxílios do céu merece e recebe aquele cuja alma está sempre no céu? Sua vida é a da cidade dos céus: ― Nostra conversatio in coelis est. ― E, porque a vida dos justos é a vida dos céus, os Anjos estão continuamente com eles; sendo eles mesmos anjos, vivendo da vida dos Anjos, merecem a sociedade dos Anjos. Existe, pois, entre aqueles que vivem santamente, uma íntima relação, uma sociedade, uma união tão estreita com o céu, que pouco lhes importa estar no céu ou na terra: que importa que sejam anjos, na qualidade de anjos ou na qualidade de homens, se neles há a mesma vida, a mesma santidade dos Anjos? Com efeito, o convívio, as relações e a união que os elementos e os corpos dificultam não os impedem de estar unidos pelos mesmos pensamentos, sentimentos e atos. E assim acontece que os Santos, unidos aos Anjos, deles não se separam de modo algum: os Anjos descem até eles, e eles sobem até os Anjos; é uma vida de familiaridade, de íntima comunhão entre uns e outros… Eis a vida dos Santos (Offic. lib. 2, c. III).
«Os Santos não se alegram nem se gloriam em outra coisa senão nas riquezas da virtude, escreve São Tomás; e a virtude se encontra principalmente em três coisas: 1° nas provas e tribulações; 2° na conversão dos pecadores; 3° na pureza da consciência. Gloriam-se do conhecimento de Deus, do amor de Deus, da imitação de Deus (p. 4, q. a. 8)». O mesmo Doutor diz ainda: Os Santos, seguindo Jesus Cristo, merecem para si e para o mundo inteiro, 1° pela pureza de seus atos; 2° pela intenção da alma; 3° pela observância dos mandamentos; 4° pelo recebimento da glória, segundo aquilo que diz o Eclesiástico: «Alta
glória é seguir o Senhor» (23, 38).
O homem santo governa seu interior e vigia sobre seu exterior; abstém-se de tudo quanto tenha aparência de mal, ama as diversões boas e úteis; jamais se entrega a risadas desmedidas; não grita, não faz alarde. Caminha com modéstia; não é curioso dos negócios alheios; recebe os avisos e as admoestações com semblante sereno e alegre; é pronto em perdoar os erros alheios, mostra-se para com todos humilde, dócil, bom e caridoso; compadece-se de todo o coração das misérias alheias; os louvores não o envaidecem e, quanto ao mais, foge deles tanto quanto pode; a maledicência e a calúnia não o lançam no abatimento nem na tristeza; responde com prontidão, benevolência e doçura a quem o interroga, cede de bom grado nas discussões, não se obstina em sua opinião; escuta os outros com paciência, fala pouco, sempre com gravidade e prudência; empenha-se quanto pode em edificar aqueles que o observam e em conduzir os outros pelo caminho do bem. É parco na comida, sóbrio na bebida, modesto no olhar, simples no vestir, comedido na expressão do rosto, na atitude e nas palavras; aborrece a mentira, as tolices e as tagarelices; é filho dócil da verdade, resplandece de candura, pureza e simplicidade. É pronto na obediência, perfeito na paciência, assíduo na oração, firme na fé, ativo nas boas obras, rigoroso na abstinência, exemplar nos costumes, afável na conversação, liberal nas dádivas; tem confiança com os amigos, bondade para com os inimigos; está resignado à vontade de Deus, morto a si mesmo, crucificado para o mundo; faz-se, como o grande Apóstolo, tudo para todos, a fim de ganhar todos para Cristo; imita aquele que dizia: Embora livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível: fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; procedi como se estivesse sujeito à lei, para ganhar aqueles que estavam sob a lei. Fiz-me fraco com os fracos; fiz-me tudo para todos, para salvar a todos (1Cor 9, 19-22). Arde de zelo pela honra, pelo culto, pela glória de Deus e pela salvação das almas.
Assim São Gregório Magno retrata os Santos: Os Santos desprezam as comodidades e as felicidades do século, porque são superiores, pela grandeza da alma e pela elevação da mente, tanto às prosperidades quanto às adversidades do mundo; pisando os bens e os males da terra, dizem: As trevas e a luz do mundo têm o mesmo valor (isto é, são um nada) (Sl 138, 12). Nada os atinge, espanta, agita, perturba, abate ou prostra; nem ameaças, nem afagos, nem promessas podem corrompê-los. Os Santos sabem muito bem que é impossível ao homem encontrar e saborear aqui embaixo o verdadeiro repouso; por isso se apegam ao céu e, repelindo a multidão dos desejos terrenos, procuram elevar a alma e impeli-la até lá em cima por todos os meios (Moral. lib. V). Mutáveis por natureza, como todos os demais homens, os Santos aplicam-se sem cessar a alcançar a virtude imutável; e, mantendo-se abraçados a ela, trabalham para se tornar imutáveis. O Senhor ajuda seus Santos, vindo até eles; prova-os, abandonando-os; fortalece-os com seus dons; põe-nos à prova com as tribulações (Moral. Lib. 26, c. XXI).
Os Santos não se alegram por sobrepujar os outros, mas por lhes serem úteis. Dão ouvidos aos impulsos divinos e, quanto mais avançam na perfeição, mais desprezam a si mesmos, considerando-se um nada… Eis de que modo se chega à santidade; o que se faz na santidade; como se persevera na santidade; como se vive como santo; como se morre como santo; como se chega a reunir tesouros de méritos e a conquistar uma imensa coroa de glória por toda a eternidade.
Não há coisa tão útil e vantajosa quanto frequentar a companhia de almas virtuosas, moderadas, castas e santas; pois, como diz o Papa São Gregório, estando elas transbordantes de caridade e ardendo de amor divino, quem fala frequentemente com elas e com elas convive familiarmente sente o coração pouco a pouco aquecido e impelido também a amar a Deus. Os Santos são Serafins, e a sociedade dos Serafins forma anjos (Moral. lib. 21, C. XV). «Com os Santos serás santo, diz o Salmista, e com os inocentes te tornarás inocente» (Sl 17, 26).
Quereis um exemplo? A Virgem Maria imaculada, que se tornara Mãe de Deus pela ação do Espírito Santo, foi visitar sua prima Isabel, que trazia em seu seio São João Batista. Ao entrar na casa de Zacarias, a Virgem saudou Isabel; e eis que, ao som daquela saudação, Isabel sentiu o pequenino estremecer de alegria em seu seio, e ela ficou repleta do Espírito Santo (Lc 1, 40-41). Vede quão eficazes são a visita, a saudação e a conversação dos Santos: João, por efeito sobrenatural, estremece de alegria no ventre de Isabel ao ouvir a palavra de Maria. Pelo estremecimento de João, a mãe reconhece que Maria concebera o Verbo; o filho recebe naquele instante o uso da razão. Por outro prodígio da graça, Isabel ficou repleta do Espírito Santo.
O autor da Imitação diz que, todas as vezes que conviveu com os homens, saiu de lá menos homem; nós podemos dizer, em sentido inverso, que, quanto mais se frequenta a sociedade dos Santos, tanto mais se torna o homem sábio, virtuoso, puro e perfeito… Mas, se isso se dá com a companhia dos Santos, que dizer então da companhia do Santo dos Santos, da íntima e frequente conversação com Cristo por meio da santíssima Eucaristia? Ah, sim, é nesse momento que a alma exulta de alegria, renova-se inteiramente em seu interior e se rejubila… Se é raro encontrar na terra um santo com quem viver e conversar, sempre e em toda parte se pode encontrar Jesus Cristo, Maria, os Anjos e os Santos já bem-aventurados no céu; pode-se habitar e viver com eles, consultá-los e pedir-lhes o necessário.
São Paulo diz: «Nós, que estamos sob os olhares de tão grande multidão de testemunhas (os Santos), livremo-nos de todo peso e do pecado que nos envolve, e percorramos, mediante a paciência, a carreira que se abre diante de nós» (Hb 12,1). Eis a exortação de São Paulo: imaginemo-nos sempre sob os olhos da imensa legião dos Santos, leiamos seus feitos, meditemos seus exemplos: são tantos astros esplêndidos e ardentes que iluminam e inflamam nosso coração… Não há leitura mais apta a fazer-nos amar as virtudes do que a leitura da vida dos Santos. Essas vidas são um arsenal onde podemos encontrar toda espécie de armas para vencer qualquer inimigo; são uma farmácia espiritual, provida de todo remédio capaz de curar todas as enfermidades da alma.
Além disso, não há senão um caminho para ir ao céu, e é aquele por onde caminham os Santos… Pretender chegar ao paraíso seguindo outro caminho, que necessariamente conduz ao inferno, é a cegueira mais deplorável e mais funesta. Querer participar da glória dos Santos sem participar de suas virtudes e de sua vida é querer o impossível: é querer que Deus não seja Deus, pois se desejaria que Ele não fosse justo e que recompensasse o mal.